Chapter XXIV

Mel. Seus olhos eram mel e me gritavam socorro. Nunca havia me sentido tão inútil quanto agora. O que podia eu fazer contra as paredes de fogo que o cercavam? Nada. Mas isso não significava que eu me importaria de sacrificar minha vida simplesmente tentando tirá-lo dali. Eu não me importava. O fogo poderia queimar meus ossos, mas eu não me importaria. Porque nesse momento aquele pequeno par de olhos mel era tudo o que realmente possuía algum significado sobre toda a face da Terra. Ele era meu.

Acordei assustada. Minha respiração ofegante. Karl ainda estava ao meu lado na cama e me aconchegou em seus braços imediatamente.

- Pesadelos? – Ele me perguntou ao pé do ouvido. Meus olhos caíram sobre Matteo, nos encarava tão curioso, preocupado.

- O mesmo de sempre. – Afundei meu rosto na curva de seu pescoço, tentando esquecer cada minuto terrível daquele pesadelo constante.

- Queria poder entende-lo para você. Talvez assim você parasse de sonhar com ele. – Ele brincava com meu cabelo. Eu já estava mais calma agora, mas queria poder fazer coisas com ele que não me eram permitidas. Mas não me eram porque? Se Matteo não quisesse ver, ele que não olhasse.

Levantei meu rosto, decidida e o beijei de minha maneira errada. Ele segurou meu rosto e me puxou mais para ele, minhas mãos subiram e cravaram as unhas em seu ombro e pescoço. Seu perfume me intoxicava. Derrepente eu já não controlava meu corpo, passei minha perna sobre seu tronco e me sentei em seu colo. Karl adorou aquilo, suas mãos passearam por toda a extensão da minha perna, subindo pela minha barriga, meu seio. Eu soltei um gemido baixo quando ele abandonou meus lábios e se ocupou com meu pescoço. Um baque surdo da madeira o retirou de seu transe.

- Quer ir vê-lo? – Karl me perguntou parando de me beijar. Matteo havia saído do quarto. Aro não gostaria disso, mas do que isso me importa?

- Eu quero você. – Minha voz soou tão convicta quanto minha mente, ele me deu seu sorriso torto antes de voltar a beijar meus lábios.

Abri meus olhos e a claridade do quarto me assustou. Eu dormi tempo demais novamente. Meu corpo estava enrolado no lençol de seda vinho e nada mais. Me lembro de sentir o beijo de Karl no topo da minha cabeça antes de sair para cumprir suas tarefas na guarda. Me sentei na cama, tomando o cuidado de esconder cada parte imprópria do meu corpo. Matteo estava sentado no chão, jogando em seu PSP, não me olhava.

- Desculpa, não sei o que deu em mim. – Pedi desajeitada. Meu rosto corado.

- Se está falando do pequeno showzinho que me deu essa madrugada. Não há nada do que se desculpar. Eu que estou invadindo sua privacidade. – Sua voz estava magoada, sequer levantou seus olhos para mim enquanto dizia as palavras.

Não consegui encontrar em minha mente o que responder para ele, simplesmente me levantei enrolada no lençol e entrei no banheiro, tratando logo de tomar um banho rápido. Me vesti com as roupas que trouxe na minha mochila, que ainda estava jogada no canto do banheiro. Engraçado, minha calça Jeans não queria fechar de maneira alguma, terror tomou meu rosto, Dan estava certo. Eu estava engordando. Tirei a calça em uma velocidade desnecessária a jogando em cima do cesto de roupa suja. Vesti um vestido de lã branca e meia calças pretas e um par de mocassins. Definitivamente a partir de hoje eu estava de dieta.

Quando sai do banho almoçei, agora quando eu acordava tarde Matteo já trazia o almoço de uma vez, o que era bom eu sempre acordava com tanta fome. Tentei me controlar na hora de comer, mas não consegui, devorei o prato em cinco minutos.

Eu já estava muito tempo em Volterra para aprender minha nova rotina. Duas semanas eu já havia passado aqui e ainda mantinha dentro de mim aquela vontade de sair com a mesma intensidade de quando cheguei, talvez agora estivesse ainda mais forte. Saimos pelo corredor, eu ia encontrar minha mãe. Coisa que agora eu e Dan precisávamos fazer separados. Aro não nos permitia visitá-la juntos. Eu ficava com a tarde e Dan com a noite.

- Tem certeza que está bem? – Minha mãe me perguntou depois de quase a tarde inteira já ter passado.

- Estou sim... É só a sede. – Dei de ombros, mas eu estava cansada. Mesmo isso sendo impossível eu estava morta de cansada. Ela me estudou com seus olhos experientes por algum tempo antes de eu começar a lhe contar algumas coisas da casa de Seattle.

Mantinha minha boca fechada a respeito das descobertas que Karl fez sobre Caius. Nem eu havia assimilado tal condição ainda, imagine ela. Caius não estava mais em Volterra, Karl ficou sabendo, tinha ido para a Russia, ao menos é o que disse a todos. Não pude deixar de ficar com uma pulga atrás da orelha. Aro não o deixaria viajar em um momento tão critico.

Voltar foi difícil. Perceber que agora Matteo mantinha uma distancia segura de mim era uma fato inaceitável. Vê-lo andando a minha frente, me guiando, como se eu não passasse de um dever, uma tarefa, doeu mais do que devia. Lágrimas preencheram meus olhos. Precisei me concentrar para não acabar chorando ali. O que era estranho, eu não chorava por coisa mínima.

Matteo não abriu a boca o resto da noite, só ficou lá, voltando a brincar com seu PSP. Me senti mais sozinha que nunca. Eu devia mesmo ser presa em uma torre bem alta, ou enterrada em uma fossa bem funda. Não havia maneiras de ter fácil convívio comigo. Eu sempre acabava magoando alguém. Me lembro de ter dito que era Karl que sempre me magoava. Como estava errada, era eu na verdade, sempre fazendo pequenas coisas se tornarem monstruosas simplesmente para ter o prazer de acabar com minha própria felicidade. Não sou acostumada a viver feliz, vai contra minha própria natureza, toda vez que acho que estou chegando lá, que estou bem na medida do possível, meu subconsciente encontra um meio de derrubar meu castelo de cartas.

Eu sou um acidente. E eu sou grave.

Ele saiu do quarto sem mais explicações, aproveitei o momento para poder derramar as lagrimas que gritavam para escorrer por meu rosto. Quando ele voltou tentei disfarçá-las, muito mal creio eu. Mas isso não importou para ele. Não importou me ver quebrada do jeito que eu estava. Me ver cansada. Não importava.

Seria hipocrisia dizer que todo meu estado físico, mental e emocional, correspondia somente ao fato que Matteo estava cansado de mim. Não era só isso. Era tudo e mais um pouco. Era o peso dessas ultimas duas semanas caindo sobre minhas costas como uma avalanche de pedras. Minha mãe. Meu pai. Aro. Karl. Matteo. Volterra. Eu.

Me esforcei e engoli meu choro. Ele havia trago meu jantar. Era sua obrigação, não favor. Me arrastei pela cama até a bandeja que ele havia trago. Era um prato italiano, Fusilli à Matriciana... Eu simplesmente adorava esse prato, e a dor em meu peito era tão grande que eu não havia percebido a fome em meu estomago. Dei a primeira garfada com gana e levei a boca. Estava delicioso a primeira vista, dei a segunda garfada, espera... Tinha algo estanho ali. Algo azedo, amargo... Isso não era muito normal. Meu estomago rejeitou a comida automaticamente, levei a mão aos lábios e corri para o banheiro.

Meu corpo expulsou o pouco que eu havia conseguido comer. Cai sentada ao lado do sanitário assim que tudo havia acabado. Droga de Ravióli. Dei a descarga e me levantei para escovar meus dentes. Eu nunca havia vomitado antes. Nem sabia que era capaz, ânsia de vomito não se compara ao fato consumado. Eu andava tão estranha ultimamente. Tão anormal. Como tanta coisa podiam mudar em duas semanas?

Duas semanas? Quatorze dias? Não podia ser. Encarei meu reflexo no espelho enquanto minha mente aguçada terminava os cálculos rapidamente. Eu estava atrasada. Isso não podia ser sério. Atrasada? Eu estava atrasada. Isso nunca havia acontecido desde meu primeiro período menstrual. Nunca. Nem uma vez.

É claro que eu e Karl tomávamos nossos cuidados, nos preveníamos, mas... O ultimo dia em Seattle. Nós não tomamos os cuidados necessários, não usamos nenhum tipo de método contraceptivo. Isso não podia ser sério. Eu estava grávida?

Repassei os últimos dias mentalmente. Fome, sono, cansaço, variações de humor, sensibilidade aguçada, choro, aumento de peso, desejos insanos, pequenas depressões seguidas de picos de felicidade. O ar escapou completamente de meus pulmões. Como isso podia estar acontecendo? Agora. Em meio a tudo isso.

Cai sentada no chão de frente para o espelho. O que eu fui fazer? Trazer uma criança ao mundo em uma situação tão critica quanto a que nos encontrávamos? Eu só podia ser louca. Sacudi a cabeça como isso fosse capaz de limpá-la. Nunca me imaginei mãe. Mas também nunca havia me imaginado com uma família. Ultimamente minha imaginação tem se mostrado tão fraca. Mãe. Eu iria ser mãe? Eu? Electra? A menina pretensiosa e curiosa que tirava a paciência de qualquer um? Nunca me imaginei com tal responsabilidade em mãos. Uma criança, minha. Isso não podia estar certo, precisava ser uma ilusão da minha mente. O que eu faria com uma criança aqui? Em Volterra? Era incogitável. Incogitável da mesma forma que eu ser mãe era até vinte oito segundos atrás.

- Electra, está tudo bem? – Matteo finalmente falou alguma coisa do outro lado da porta.

- Está. – Respondi secamente.

Mãe. Eu iria ser mãe. Uma criança crescia dentro de mim. Dependia de mim. Não me perdoaria se falhasse com ela. Minha criança. Imediatamente minha mente conectou a frase a imagem do bebe de olhos de mel que habitavam meus sonhos tão intensamente. Tudo fez sentido. Eu estava sonhando com a criança dentro de mim antes mesmo de descobrir sua existência. Levei minhas mãos ao meu ventre, uma lágrima escorreu por meu rosto docemente. Eu já podia sentir o amor dentro de mim. Eu já a amava com todas as minhas forças. Era como se meu coração tivesse se duplicado e a nova parte adjacente pertencesse a ela e a já existente era de Karl, como sempre fora, sem competições, eu os amava igualmente.

Eu carregava uma criança de Karl dentro de mim. Uma criança com seus olhos mel e seu sorriso torto. A criança mais linda do mundo tenho certeza. Como um filho dele poderia ser o diferente? Uma criança minha e dele. Fruto dessa mistura insólita que somos. Isso era muito mais do que um dia eu podia desejar. O que nasceria de nós dois? Irritante como eu e lindo como ele imagino.

O que nasceria de nós dois? Meu Deus. Aro. Ele simplesmente não pode descobrir isso. Eu não posso permitir que Aro ponha as mãos em meu bebê. Ele não teria o mesmo destino que eu, que Dan teve. Não mesmo. Eu daria minha vida para impedir tal destino. Parecia que fora uma resposta. Um sinal de que ele também estava junto nessa comigo. Eu senti sob minhas mãos um movimento leve dentro de meu ventre. Um chute. Meu bebê.

Meus lábios formaram um sorriso e agora eu era capaz de ver. Capaz de ver ele em meus braços, aninhado, seguro e de minha boca a palavra mais difícil e significativa do mundo escaparia em forma de um sussurro. Filho. Meu filho.