Revanche

Quanto tempo ficara ali estuporada era difícil precisar. Seu corpo doía imensamente, apesar de sentir que estava deitada sobre algo macio e sedoso. A luz que vinha da janela parcialmente encoberta pela grossa cortina a fez abrir os olhos devagar. Aos poucos acostumou-se a claridade e a sensação dolorida de seus membros, e sentou-se na cama. Bella fôra esperta, não havia nenhum sinal aparente do feitiço que ela lhe lançara.

Obrigou-se a levantar e andou pelo quarto. Ao olhar a mesa que fazia parte da mobília, notou que havia uma bandeja de prata contendo vários gêneros alimentícios. Nada a apeteceu, caminhou devagar até a janela, afastando as cortinas, e percebeu que ficara muito tempo inconsciente. O crepúsculo de mais um dia se anunciava com os raios alaranjados difusos por entre as nuvens. Seus olhos turvaram, pensava em Severus e Pedro, e as lágrimas desceram em pares sobre seu rosto. O dia tornou-se noite rapidamente.

Longe dali, numa espelunca trouxa, o rosto pálido de homem era visto sob o capuz negro. A linha dura do maxilar estava mais realçada e o olhar escuro pairava sem brilho num ponto distante. A mão direita fechou-se em torno do copo a sua frente trazendo-o até seus lábios. Num gole ele sorveu todo líquido e voltou o copo à mesa com um baque seco.

Ele fitou a garrafa por uns instantes e a arrastou até o copo, despejando o restante do líquido âmbar dentro dele. Os últimos tons alaranjados do sol perdiam-se entre as nuvens escuras lá fora. O céu se tornava negro anunciando a tempestade que estava por vir. O homem crispou os lábios e levou o copo uma última vez aos lábios. Desta vez o retorno do copo a mesa foi acompanhado pelo barulho das moedas e pelo ranger da cadeira no assoalho. A capa farfalhou quando o desconhecido cruzou a porta do estabelecimento, mas ninguém lhe deu atenção.

Os pingos grossos começaram a cair e o homem apressou seu passo, precisava chegar logo em Hogwarts. Desde que a escola fechara ele havia se escondido lá, era o único lugar em que se sentia seguro e onde podia trabalhar longe dos olhos curiosos do Lorde. Dobrou duas esquinas atrás de um lugar seguro para aparatar, mas a chuva desabou em pingos grossos sobre sua cabeça. Os cabelos negros ficaram encharcados em segundos, enquanto os pingos d'água escorriam livremente pelas pontas da capa.

Conforme avançava, as ruas se tornavam mais desertas e ele podia ouvir apenas seus pés batendo de encontro ao chão empoçado. Durante algum tempo esse foi o único som que o acompanhou, entretanto, depois distinguiu uma outra marcação de passos a suas costas. Habilmente ele percorreu mais algumas ruas entrando num beco entre duas casas e aguardou.

Os passos se tornaram cada vez mais próximos e firmes. Oculto pela penumbra do beco, ele viu quando o vulto se ergueu diante de si. Num gesto rápido tapou-lhe a boca e o imobilizou na parede ao seu lado. Um capa escura cobria-lhe o rosto deixando apenas mechas de cabelos castanhos saírem pelas laterais, seu coração disparou. Como sempre fazia, controlou-se, e com as pontas dos dedos fez o capuz deslizar para trás da cabeça de seu oponente. O rosto familiar apareceu na sua frente e seus olhos pretos brilharam.

Ele escorregou o dedo sobre os lábios rosados, enquanto deslizava as mãos por sobre as vestes dela trazendo-a para junto de seu corpo. Ela sorriu antes que ele tomasse seus lábios com os dele numa possessão cega. A chuva aumentara encharcando-lhes as vestes e os cabelos. A água escorria em filetes pela parede de pedra enquanto ele a prensava contra ela, erguendo sua veste até os quadris. Os lábios rosados roçaram de leve a superfície da orelha dele e depois a língua úmida explorou-a selvagemente, arrancando-lhe um sussurro de satisfação.

Ela crispou os lábios ao senti-lo pronto em contato com seu corpo e agarrou-lhe pelos cabelos, levando os lábios dele até os seus. Ele interrompeu o movimento fitando-a intensamente e antes de prosseguir murmurou: - Você não devia ter vindo. Fechou os olhos tentando esquecer o perigo que corriam e se entregou ao calor daqueles lábios macios, perdendo o resto da sanidade que o alcóol lhe deixara. As mãos deslizavam suaves pelos cabelos castanhos molhados e seus lábios passeavam sobre o rosto e pescoço dela, desesperados. Não importava a ele como ela tinha vindo, como o achara. Importava apenas que ela estava ali, tão linda quanto na primeira vez que ele a vira.

O desejo de tê-la latejava em cada parte de seu corpo, e uma vez mais ele voltou para olhar os olhos dela. Queria ver o brilho de castanhos quando o desejava, eram intensos e doces. Quando se amavam, era sem limites e castanhos se derramavam inundando pretos. No entanto, aqueles castanhos estavam triunfantes, luxuriosos. Ele se afastou, os cabelos negros colados ao rosto pela água da chuva. A mão se fechou em torno da varinha dentro da veste e a voz dele saiu rasgada:

- O que pensa que está fazendo, Bella? – Os olhos de Snape caíram sobre ela fusilantes.

- Agradando você. – rebateu com um sorriso malicioso – Não queria a trouxa? Eu a trouxe.

- Você perdeu completamente a sanidade. – rosnou - A que ponto você é capaz de descer!

- Não seja tão cruel. – Ela se aproximou sorrindo – Eu vi seu interesse por mim...

- Não, eu não a quero. – as palavras sibilaram – Eu quero a mulher na qual você se transfigurou. São os lábios dela que eu quero nos meus, é a pele dela que eu desejo sobre a minha! – Snape se aproximou de Bella segurando-a pelo pulso e torcendo-o – Você nunca será igual a ela, nunca! - seu tom era frio e cruel – Não sei como você conseguiu se transformar nela, mas eu vou lhe dar um aviso, Bella. Apenas uma única vez... – Snape sacou a varinha apontando para o rosto dela sem largá-la, e rosnou: - Se você ousar tocar num fio de cabelo dela, eu a mato. Entendeu?

Bella o fitou demoradamente e depois soltou uma gargalhada estridente. Snape a olhou furioso e torcendo o braço dela mais um pouco perguntou:

- O que fez a ela? – Os olhos pretos cintilaram – Aonde ela está, Bella? Diga!

- Não sei do que você está falando, Severus. – rebateu cínica – Isso foi apenas um truque bobo.

- Se assim fosse, por que ainda não voltou ao normal, Bella? – disse irônico – Não sou um Mestre de Poções por acaso, minha cara. Você precisou mais do que um truque para ficar assim, precisou de uma poção!

- Me largue, Severus. – ela ordenou em vão.

- Não até você falar. – sussurrou.

- Eu não sei de nada! – respondeu tentando inútilmente se livrar das mãos dele. A varinha estava comprimindo de leve a pele do seu rosto e ela falou arquejante: - O Mestre mandou-me testá-lo. Não sei como ele conseguiu o ingrediente básico para a poção funcionar, mas certamente a maior parte foi fornecida por você mesmo. – Os olhos dela encontraram os dele desafiadores. – Se quer respostas para suas perguntas sugiro que as faça para a pessoa certa. Com a credibilidade que você tem talvez o Mestre não se oponha em responder. – Bella o fitou demoradamente e concluiu: - Quanto a sua esposa, eu não sei onde ela está. Agora pode me soltar?

Snape estreitou seus solhos sobre ela e num gesto a soltou. Bellatrix se afastou dele ajeitando a capa sobre os ombros. O ódio inundou a alma de Severus e disposto a se vingar de Bella, apontou-lhe a varinha. No instante seguinte ele pronunciava o feitiço, enquanto um jorro verde saía da ponta de sua varinha atingindo-a no peito.

- Crucius!

Bella dobrou os joelhos caindo no chão molhado, os olhos reviraram e seu corpo estremeceu. Snape crispou os lábios numa linha fina de sorriso, deu um passo a frente e antes que ela tentasse qualquer coisa, mas uma vez ele ordenou:

- Crucius!

A mulher se contorceu no chão enquanto vários espasmos seguidos sacudiam seu corpo e seus olhos se tornavam opacos. Snape se aproximou e abaixando ao seu lado, sussurrou:

- Na próxima vez, você não terá tanta sorte e eu não serei tão indulgente.

Ela rolou sobre seu próprio corpo enquanto via Snape deixar o beco escuro.

A capa pesada foi atirada a um canto do quarto, enquanto ele acendia a lareira.

Por anos Hogwarts fôra sua casa e agora se tornara seu esconderijo. Snape bufou deixando-se cair na poltrona em frente as chamas. Escorregou as mãos pelos cabelos pretos e seus olhos se tornaram escuros como a noite. Jogou a cabeça para trás apoiando-a no espaldar da poltrona e soltou um longo suspiro.

Havia escolhido a escola por causa do laboratório, afinal Lord Voldemort queria que ele continuasse fornecendo-lhe poções para seu estoque particular. Poções como aquela que ele acabara de ver sendo usada contra si próprio, e outras que muitos teriam medo de usar. Snape tinha consciência de que era uma peça ainda muito útil no tabuleiro, e de que muitos dos sucessos obtidos pelo Mestre vinha de sua habilidade única de manipular certas poções. Entretanto, não era só ele que sabia tirar vantagens dessa amizade, Snape já obtivera muitas informações valiosas para Ordem nesse pouco tempo.

Certamente tinha sido difícil fazê-los acreditarem em sua inocência, principalmente o pirralho do Potter, mas Snape acabou conseguindo com uma certa ajuda. Ele esperou o momento certo para agir e só quando conseguiu informações suficientes sobre as Horcruxes, procurou-os. Uma a uma ele apresentou as provas de sua inocência, inclusive as que o diretor lhe fornecera. Depois disso, nenhum dos membros da Ordem ousou mais contestar a quem ele realmente servia.

Snape teve que admitir que Dumbledore estava certo na noite em que planejou sua morte, e que lhe dera essa tarefa. Ele não só conseguira manter Draco fora daquele meio, como ainda passou a desfrutar da total credibilidade do Lorde das Trevas. Conquistara uma posição confortável e almejada por muitos, inclusive a imbecil da Bella. Se Snape achasse preciso convocar algum Comensal para uma tarefa, poderia fazê-lo sozinho, tinha carta branca. No entanto, estava longe de ser livre da influência do Lorde. Voldemort podia ter seus defeitos, mas nunca fôra um tolo.

Ele sabia que era observado, vivia cada vez mais no limite, sobre uma fina linha que a qualquer momento podia se romper. Sua única felicidade até então era saber que ao menos mantivera Roxane e Pedro a salvos, mas depois daquela entrevista com Bella no beco, algo começou a inquietá-lo. Não acreditava que Voldemort a tivesse mandado, mas podia sentir que existia o dedo do Mestre em algum lugar naquela história.

Desviou seu olhar para entrada do toillet e um sorriso crispou seus lábios. Foi ali que ele percebera os castanhos pela primeira vez, e fechando os olhos ouviu-a falar: - Preciso tomar um banho... Posso? Era coisa mais idiota que ele já ouvira alguém dizer numa situação como aquela, mas vindo dela não lhe pareceu estranho. E ele, por isso mesmo, não soubera o que responder.

Depois de conhecê-la desejara nunca ter conhecido Lord Voldemort. Trocaria tudo pelo conforto de ter os castanhos por perto. Naquele momento ele fôra aprisionado e sua alma, que já não lhe pertencia, mudara completamente de mãos. Guardava essas lembranças no fundo de sua mente e era com elas que se deitava todas as noites na cama. Em seus sonhos ela vinha até ele; o sorriso brincando nos lábios rosados; o vestido branco sobre a pele macia; o calor dos beijos, que conseguia retirar-lhe a pouca sanidade que ele sempre tentava manter.

O vinho e o whisky podiam lhe entorpecer os sentidos, mas ela tinha o dom de consumir suas entranhas e alma como um veneno. Nada a tiraria de sua mente, ela estava gravada como fogo em cada parte de seu corpo, em cada segundo de sua existência. Nunca imaginou que pudesse amar alguém assim, mas era capaz de lembrar das minúsculas flores no cabelo dela no dia do casamento, ou de vê-los soltos ao vento quando lhe pedira desculpas na casa dos Weasleys. O cheiro doce de pitanga que a pele dela exalava era como ópio, inebriante.

Snape abriu os olhos fitando as chamas crepitantes novamente e escondeu cada lembrança no fundo de sua mente como fazia todas as manhãs. Acordava com a solidão e o medo de perdê-los deitados ao seu lado. Uma sombra que pairava sobre seu futuro, uma dor que ardia dentro do seu peito e que era o resultado de suas escolhas erradas. O peso nos ombros de tê-los arrastados para isso, apesar de todas as coisas boas que teve com ela. Devia ter sido mais forte e resistido, mantido-a longe... Mas como? Não devia ter se apaixonado.

Snape tinha certeza de que ela corria perigo, e simplesmente nem seu prestígio, nem sua valiosa posição ao lado do Mestre, a salvaria. Seus olhos turvaram enquanto a mão direita fechava-se em torno da Marca Negra, e um murmúrio saia de seus lábios: - Maldição!

Só um ano de amor

É melhor que uma vida inteira de solidão.

Um momento sentimental

Em seus braços

É como uma estrela cadente

Atravessando o meu coração.

É sempre um dia chuvoso sem você,

Sou um prisioneiro do amor, dentro de você

Estou caindo aos pedaços ao seu redor - yeah

Meu coração grita para o seu:

"Estou sozinho, mas você pode me salvar!"

Minha mão se estica para encontrar a sua,

Estou com frio

Mas você acende o fogo dentro de mim.

Meus lábios procuram os seus,

Estou com fome do seu toque

Há tanta coisa que ficou sem ser dita

É tudo o que eu posso fazer, me entregar;

no momento, só me entregar.

E nunca ninguém me disse

Que o amor pode machucar tanto,

Ah, sim, machuca!

E a dor fica tão perto do prazer!

E tudo o que eu posso fazer é me entregar

Ao seu amor

Me entregar ao seu amor

Só um ano de amor,

É melhor que uma vida inteira de solidão,

Um momento sentimental

Em seus braços

É como uma estrela cadente

Atravessando o meu coração.

É sempre um dia chuvoso sem você,

Sou um prisioneiro do amor, dentro de você

Estou caindo aos pedaços ao seu redor - yeah

E tudo o que eu posso fazer é me entregar

( One Year of love – Queen )

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N/A: Este caps é dedicado a minha filhotinha Nanda, que queria uma revanche sobre a Bella. Espero que tenham gostado. Muitos bjus estalados em todas vcs e um muito obrigado cheio de carinho.