Capítulo 25: A Mãe de Todos os Problemas

Na manhã seguinte, Ricardo foi para a escola cedo, pensando em como iria pedir desculpas a Elisa e se ela iria aceitar. Porém, os outros alunos foram chegando, deu o toque de entrada para a primeira aula e Elisa não apareceu. Nem nas duas aulas seguintes.

"Liliana, sabes o que aconteceu à Elisa? Porque é que ela não veio até agora?" perguntou Ricardo, no intervalo da terceira aula.

"Não sei, Ricardo." respondeu Liliana, encolhendo os ombros. "Ela não me disse nada."

"Obviamente que não deve ter vindo porque não te queria ver, Ricardo." disse Bruno. "Deve ter ficado mesmo chateada contigo."

"Obrigado pela ajuda, Bruno." disse Ricardo, aborrecido.

"Ei, eu só estou a dizer a verdade."

"Liliana, podes ligar à Elisa, para saber como é que ela está? Eu liguei-lhe ontem e não me atendeu. De certeza que se lhe ligar agora, também não vai atender." disse Ricardo. "Eu quero pedir-lhe desculpa."

"Está bem Ricardo, eu ligo-lhe."

Liliana ligou rapidamente para Elisa e depois de conversar um pouco com ela, indicou aos outros que ela ficara doente e não iria à escola naquele dia.

"Não acham muita coincidência isso acontecer logo no dia a seguir a ela e o Ricardo terem discutido?" perguntou Bruno. "A mim parece-me uma desculpa esfarrapada."

"A Elisa parecia mesmo doente quando falou comigo." disse Liliana. "E ela não mente. Se fosse por causa do Ricardo, ela dizia-me."

"Eu espero que ela melhore." disse Ricardo.

Ricardo tentou ligar a Elisa, mas ela não atendeu o telefonema. Depois decidiu enviar-lhe uma mensagem de melhoras. As desculpas, queria fazê-las pessoalmente. Edgar e Jéssica, que só nesse dia tinham ficado a saber exactamente como Elisa e Ricardo se tinham zangado, estavam contentes com a situação. Tudo o que acontecesse de mal aos outros animava-os a eles e Edgar estava já com esperanças que Elisa e Ricardo se afastassem definitivamente.

Para Além da Adolescência

No dia seguinte, Sábado, da parte da manhã, estava Delfina no seu apartamento, já a preparar-se para sair, quando o seu telemóvel começou a tocar. Atendeu a chamada e ficou rapidamente aborrecida.

"O quê? O lar foi outra vez fechado por falta de condições?" perguntou Delfina, aborrecida. "E vou ter de ir buscar a minha mãe porque os velhotes foram todos despejados do lar? Ora bolas. Pronto, está bem, vou já para aí."

Delfina saiu do seu apartamento e pouco depois estava no carro, a ir em direcção ao lar onde a sua mãe estava. Já não era a primeira vez que o lar era fechado por falta de condições, mas alguns meses depois voltava a reabrir clandestinamente e a maioria dos velhotes que tinham sido retirados de lá, voltavam para lá novamente, pois os familiares não estavam para os aturar em casa ou por vezes não tinham como os colocar num lugar mais caro.

Alguns minutos depois, Delfina parou o carro perto de uma casa velha e não muito grande. Havia algumas ambulâncias e carros da polícia à porta. Algumas pessoas estavam a levar os idosos dali. Delfina reconheceu alguns dos familiares com quem já se cruzara anteriormente.

"Pronto, lá tenho eu de ir buscar a minha mãe." pensou Delfina. "O raio da velha é rija como um pêro e está para durar. Mas eu não a vou aturar por muito tempo. Hei-de mandá-la para casa de algum dos meus irmãos."

Delfina saiu do seu carro e caminhou em direcção à casa. Acenou a uma velhota que já tinha visto algumas vezes quando fora ao lar, mas de quem não recordava o nome. Passou por dois paramédicos que estavam a colocar um velhote numa maca e depois avistou alguns velhotes e dois polícias ao pé da porta da casa.

Uma das velhotas falava bastante alto. Tinha o cabelo cinzento, uma expressão que mostrava que gostava de chamar a atenção sobre si e uns olhos perspicazes. Delfina abanou a cabeça. Como sempre, a sua mãe estava a tentar ser o centro das atenções.

"Ah, lá vem a desnaturada da minha filha! Até que enfim. Pensei que ia ficar aqui fora ao frio e morria congelada." queixou-se a mãe de Delfina.

"Pare lá com isso, mãe. Sempre a queixar-se. É uma chata do pior."

Delfina encarou a mãe, de nome Etelvina Barroso. Considerando que ambas tinham uma personalidade forte, nunca se tinham dado completamente bem, apesar de Delfina ter sido, dos cinco filhos de Etelvina, a que mais tempo vivera com a mãe.

"Você é então filha desta senhora?" perguntou um dos polícias. "Foi feita uma inspecção ao lar e..."

"Sim, já sei que não tem condições, por isso vou levar daqui a minha mãe. Mas eu não sabia que o lar não tinha condições. Pareceu-me perfeito para a minha mãe."

"Qual quê! Então estávamos ali todos quase uns em cima dos outros, sem condições nenhumas!" exclamou Etelvina.

"Está bem mãe, mas eu achei que era mesmo perfeito para si. Senhores policias, vou andando então." disse Delfina.

"Espere lá. Então se sabia que a sua mãe..."

"Olhe, eu não tenho culpa de deixarem este lar sem condições aberto, pois não? As autoridades é que deviam ter fiscalizado tudo a tempo. Por isso, não me venham chatear seja com moralismos ou com ameaças a dizer que eu não podia ter aqui a minha mãe."

Delfina lançou um olhar aborrecido aos dois policias e depois fez sinal a Etelvina para a seguir. Etelvina pegou numa pequena mala sua e foi atrás da filha até ao carro. Já não era a primeira vez que Delfina ia buscar a mãe ao lar por ele ter sido fechado por falta de condições e já dava a volta aos polícias, para que não a metessem nalgum processo por ter colocado a mãe naquele lugar sem condições.

Delfina e Etelvina chegaram ao carro e sentaram-se. Pouco depois, Delfina arrancava, afastando-se do lar. Etelvina lançou um olhar à filha.

"Finalmente que estou fora daquele lar horrível. Tu e os teus irmãos são uns desnaturados. Dediquei-me eu toda a vida a vocês para vocês me colocarem naquele lar miserável." disse Etelvina, aborrecida. "Não têm respeito nenhum pela vossa mãe."

"Ora, cale-se! Quem se dedicou aos filhos foi o meu pai, que Deus o tenha. Ele é que era o responsável e trabalhava imenso e se preocupava com os filhos. Você passava os dias a coscuvilhar com as vizinhas, a queixar-se e de vez em quando ainda bebia e dizia palavrões e coisas sem jeito." disse Delfina. "Portanto, o que tem agora ou melhor, o que não tem, é porque não fez nada para isso. Muito já tive eu aturar."

"Ora, não venhas com conversas, pá! Viveste mais tempo comigo porque eras uma encalhada, Delfina. Os teus irmãos ficaram logo independentes, mas tu não, ficaste lá a viver em casa, por isso agora não te queixes. Eu não tenho culpa de ninguém te querer."

"Mau, mau, daqui a bocado estou a parar o carro e deixo-a aí numa rua qualquer, ouviu?"

"Eras capaz de fazer isso à tua própria mãe?"

"Não me teste, senão vai ver que depois se arrepende."

Etelvina passou de repente a uma expressão de desolação.

"Ai, que desgosto, ter uma filha tão mazinha. Eu, que sou tão doente, a ter de passar por isto na minha idade. Ai, que desgosto..."

"Pare lá com isso." disse Delfina, aborrecida, já conhecendo as manhas da mãe. "Você não é nada doente."

"Queres um pente?" perguntou Etelvina. "Para quê, filha?"

"Ai, você não se faça de surda. Eu sei que você ouve muito bem."

"Pois claro que sou a tua mãe. Ó Delfina, não estás a fazer sentido nenhum."

Delfina bufou. Ainda estava com a sua mãe há apenas alguns minutos e já estava farta dela. Se Delfina era como era, tinha aprendido em grande parte com a mãe e Etelvina era a rainha das manhas. Conseguia fazer de tudo para obter o que queria, nem que fosse às custas dos filhos.

"Eu tenho mesmo de me livrar dela. Vou ter de juntar os meus irmãos e mandá-la para casa de algum deles ou para outro lar qualquer." pensou Delfina. "Era só o que me faltava, ficar a aturar o raio da velha. Já começou a reclamar e a fazer-se de surda. Entretanto, começa a arrastar-se pelos cantos a dizer que está muito doente para eu lhe fazer as vontades. Mas comigo não! Desta vez, ela não me vai tornar a vida insuportável e se não me livrar dela a bem, vai viver para baixo da ponte junto com o meu ex-marido... bem, ok, se calhar não lhe conseguia fazer isso, mas tenho de arranjar solução para não a aturar."

Quando Delfina estacionou o carro, praticamente à porta do seu apartamento, estava quase a ter um ataque de nervos. Etelvina não se tinha calado durante todo o caminho, reclamando de tudo o que lhe vinha à cabeça, desde os outros velhos que tinham estado no lar, até às empregadas e criticando os filhos, principalmente Delfina.

"Esse teu cabelo está uma lástima. Parece que não é lavado há séculos. Tens de te cuidar, senão nenhum homem te pega." resmungou Etelvina.

"Ó mãe, já chega! O meu cabelo está óptimo. Eu trato muito bem de mim, fique a saber. Até fui promovida e tudo, sabe? Agora sou a chefe do pessoal lá da escola."

"Ah sim? Ah, já sei. Deve ter sido depois de teres aparecido na televisão. Nós tínhamos lá no lar uma televisão pequenita e que dava pouco som, mas eu vi-te na televisão e tive de brigar com a Gerbera, uma gorda que estava sempre ao pé da televisão, para eu ver e ouvir a notícia." disse Etelvina. "Com que então, com provas contra o director, que era um pedófilo."

"Pois foi. Fui uma heroína. Aliás, sou uma heroína."

"Ah, foi sorte. Até disseram que ele quase te matou. Mais um bocadinho e tinhas ido desta para melhor. Eu que sou rija, ficava cá, vivinha da silva. E mesmo assim, depois disto tudo, não me foste visitar."

"Mandei-lhe um cartão no Natal e já teve muita sorte. Vamos lá a sair do carro que já chegámos."

As duas saíram do carro e Etelvina aproveitou para resmungar que Delfina ainda continuava a viver no mesmo lugar e que devia arranjar um emprego de jeito. Depois resmungou quando entraram no elevador, dizendo que o elevador deveria ter música ambiente, porque era mais agradável.

"Ora, é alguma rainha ou quê, para querer música no elevador? Já tem muita sorte do elevador estar a funcionar e não termos de subir as escadas a pé." disse Delfina.

Quando o elevador parou, as duas saíram do elevador e depois entraram no apartamento de Delfina. Etelvina reclamou novamente, dizendo que Delfina devia renovar o apartamento, porque estava com a decoração muito pouco actualizada.

"Ai agora você é decoradora, é? Percebe muito de decoração?" perguntou Delfina, aborrecida.

"Não, mas tenho olhos e dá para ver que o apartamento já teve melhores dias. Olha para aquele vaso ali, tão feio. Eu atirava-o logo contra a parede."

"Pois, mas se lhe tocar, vai mas é apanhar os cacos, ouviu? E não se preocupe que não vai ficar aqui em casa muito tempo."

"Vais pôr-me na rua, filha desnaturada?" perguntou Etelvina. "Ai, andei eu a carregar-te na barriga durante nove meses para agora me fazeres isto..."

"Deixe lá os dramas. Obviamente que não vai para a rua, mas algum dos seus outros filhos a há-de aturar. Vá, já sabe onde é que é o quarto de hóspedes, por isso pode ir lá pôr as coisas."

Etelvina encolheu os ombros e arrastou consigo a sua pequena mala com as suas coisas. Passou por uma mesa onde Delfina tinha uma nota de dez euros e pegou-lhe, pondo-a no bolso.

"Eu vi isso!" exclamou Delfina. "Devolva já a nota!"

"Quê? Não te estou a ouvir bem? Queres contar-me uma anedota? Mais tarde, filha."

Etelvina desapareceu rapidamente para o seu quarto e Delfina bufou. De seguida, pegou no telefone e ligou aos seus irmãos. Todos, sem excepção, se mostraram muito pouco importados com o facto de Etelvina ter sido retirada do lar e nenhum deles estava disponível para ir ao apartamento de Delfina nesse fim-de-semana, pelo que Delfina marcou uma reunião para o fim-de-semana seguinte. Quando desligou o telefone, não estava satisfeita.

"Agora vou ter de a aturar uma semana inteira. Já começou por criticar, fingir doenças e roubar-me dinheiro. Se me chateia muito, nem sei o que lhe faço! O raio da velha, é uma badalhoca do pior!" pensou Delfina.

No seu quarto, Etelvina guardou os dez euros dentro da fronha da almofada e depois sentou-se na cama, sorrindo.

"Já cá cantam dez euros. Tenho de ver se vou amealhando algum. No lar ficavam-me com a reforma toda e agora a Delfina ou qualquer um dos outros paspalhões dos meus filhos irá fazer o mesmo, por isso vou fazer o meu pé-de-meia. E tenho de arranjar maneira de conseguir mais algum dinheirinho." pensou Etelvina. "E não volto para aquele lar ou para lar nenhum. Ninguém desconfia que eu é que consegui sair do lar às escondidas e liguei para a polícia, a denunciar o lar ilegal. E eles apareceram e agora estou de lá para fora. Sou mesmo inteligente! Hum... agora tenho pensar em que negócio é que eu posso montar para arranjar algum dinheiro. Tenho de pensar bem..."

Para Além da Adolescência

Na segunda-feira, Ricardo não conseguiu falar com Elisa antes da primeira aula da manhã, pelo que decidiu aguardar pela hora do almoço, para poderem conversar em paz, já que os intervalos seriam pequenos para isso. Elisa mostrou-se distante durante as aulas da manhã e não se aproximou de Ricardo, nem mesmo nos intervalos.

Quando terminou a última aula antes do almoço, o grupinho juntou-se para ir almoçar, porém Elisa decidiu que não queria ir almoçar com eles.

"Eu almoço qualquer coisa rápida no bar." disse ela.

"Mas porquê? Tiraste a senha de almoço e tudo." disse Liliana.

"Pois, mas agora não me apetece comer no refeitório. Desculpem." disse Elisa, lançando um olhar breve a Ricardo.

Ricardo ficou aborrecido com aquela reacção e todos os outros se aperceberam que Elisa não queria estar perto de Ricardo ao almoço. Ricardo aproximou-se de Elisa.

"Temos de falar, Elisa." disse ele.

"Não temos nada a falar." disse Elisa, começando a afastar-se.

Ricardo agarrou-lhe o braço, para a parar.

"Larga-me!" exclamou ela.

"Temos de falar e vamos mesmo falar, quer queiras quer não." disse Ricardo, determinado.

"E nós vamos almoçar. Vamos pessoal." disse Regina, fazendo sinal aos outros.

Regina, Amanda, Liliana, Ivo, Leandro e Bruno saíram da sala de aula, fechando a porta atrás de si. Ricardo largou o braço de Elisa, que o encarou, furiosa.

"Qual é a tua ideia?" perguntou ela.

"A minha ideia é conversarmos, mas tu estás a dificultar as coisas."

"Porque não quero conversar contigo!"

"Nem pareces a Elisa ponderada de sempre." disse Ricardo.

"Eu sou como qualquer pessoa. Também me chateio. E neste momento, continuo chateada contigo. Não quero falar e pronto!"

Elisa encaminhou-se para a porta da sala, mas Ricardo agarrou-a novamente. Ela encarou-o novamente e no momento seguinte, ele beijou-a. Elisa debateu-se, tentando livrar-se de Ricardo, mas acabou por desistir e beijou-o de volta. Quando quebraram o beijo, Elisa voltou a estar mal-humorada.

"Para que é que foi isso?"

"Isto foi para te pedir desculpa, Elisa." disse Ricardo. "Tenho de te pedir muitas desculpas pelo que eu disse no outro dia. Tu tinhas toda a razão. Eu não te estava a dar o teu verdadeiro valor e estava a querer estar sempre junto da minha mãe, sem pensar no que tu poderias sentir e que querias estar comigo."

"Ah, vá lá, ao menos já admites isso." disse Elisa, um pouco menos zangada.

"Estive a falar com a minha mãe e reflecti muito no fim-de-semana. Tentei ligar-te várias vezes, mas não me atendeste o telefone." disse Ricardo. "Elisa, eu prometo que vou mudar e passar mais tempo contigo, para podermos fazer o que quisermos."

"E vais conseguir cumprir?"

"Vou. Juro que sim." respondeu Ricardo. "Eu... eu desde muito pequeno que sou apegado à minha mãe. Os meus pais divorciaram-se, o meu pai foi para o estrangeiro e nunca mais deu notícias. Não tenho mais familiares nenhuns. E sabes, quando eu era pequeno, a minha mãe teve um ataque de coração. Caiu ao chão. E eu não sabia o que fazer. Era pequeno e nem sabia usar bem um telefone. Corri à rua para pedir ajuda e a minha vizinha Alzira chamou a ambulância. A minha mãe foi levada para o hospital e esteve muito mal. E eu só pensava que a ia perder e ia ficar completamente sozinho."

Ricardo sentou-se em cima de uma das mesas e continuou.

"Tive imenso medo. O que é que me ia acontecer se a minha mãe morresse? Não queria perder a única pessoa que me restava. Felizmente, a minha mãe recuperou. E eu fui crescendo, mas jurei a mim mesmo que não deixaria que nada lhe acontecesse. Iria estar muito atento, para não perder a minha mãe. E até hoje, isso continua assim." disse Ricardo. "Continuo a ter medo, Elisa. Porque não tenho mesmo mais ninguém."

Elisa aproximou-se do namorado e abraçou-o.

"Isso não é verdade. Tens-me a mim." sussurrou ela. "Desculpa. Não sabia como te sentias realmente. Quer dizer... sabia, mas nunca vi as coisas da maneira como me contaste agora. Eu tenho pai, mãe, irmãos e não pensei que só te resta a tua mãe como familiar. Talvez tenhas razão e eu tenha sido egoísta."

"Então, desculpas-me?" perguntou Ricardo, olhando para a namorada.

"Sim, Ricardo. E tu desculpa-me a mim. Vou tentar ser mais tolerante."

Os dois sorriram e beijaram-se.

"Podemos sair onde tu quiseres na minha próxima folga no part-time." disse Ricardo.

"A sério? Então acho que já tenho algumas ideias." disse Elisa, já animada.

"E diz-me lá, estiveste mesmo doente ou faltaste à escola na sexta-feira para não me veres?"

"Estive mesmo doente, Ricardo. Mas também não te queria ver, é verdade. Mas agora, está tudo bem."

Elisa e Ricardo acabaram por se juntar aos outros para o almoço e todos ficaram contentes por o casal ter feito as pazes. Depois do almoço, os oito amigos, mais Hugo e Afonso foram até à sala de aula onde a turma de Ricardo ia ter a aula seguinte. Não estava lá mais ninguém. Sentaram-se e ficaram a conversar.

"Ainda bem que agora está tudo bem." disse Liliana, sorrindo. "Afinal, o amor vence sempre e mesmo que hajam problemas, se as pessoas se empenharem, conseguem resolvê-los."

"Exactamente." disse Ivo, sorrindo à namorada.

"Hum, falando de amores." começou Amanda. "Não há por aqui nenhum casal a formar-se brevemente?"

Amanda lançou um olhar significativo a Afonso e a Leandro, que perceberam a indicação. Os outros olharam todos para eles, já todos sabendo do interesse de Afonso por Leandro, pois Afonso não era muito discreto.

"Amanda, eu estou a perceber o que estás a insinuar. Eu e o Afonso já falámos disso... bom, mais ou menos." disse Leandro.

"Eu disse ao Leandro que gostava dele." disse Afonso. "Ele ainda não sente o mesmo por mim. Mas eu não vou desistir."

"É assim mesmo, Afonso." disse Liliana.

"Era só o que faltava." disse Bruno, abanando a cabeça. "Quer dizer, já tínhamos o esquesitoide do Leandro e agora temos também o Afonso. Para piorar, agora estão a ver se ficam juntos? Bom, pelo menos assim só se estraga uma casa."

"Bruno, está mas é calado!" exclamou Leandro.

"Uma ova! Eu digo o que quiser!" gritou Bruno. "Devias era desaparecer de vez. Tu e o Afonso e todos os gays do mundo! Anormais!"

"Pára com isso, Bruno." pediu Ricardo.

"Pede desculpa ao Leandro, Bruno. Estás a ser muito mal-educado." disse Regina.

"Não peço desculpa nenhuma! E tu está calada também. Eu não me esqueci do que me fizeram, por isso não esperem que vos trate bem." disse Bruno, furioso.

"Está aqui a escapar-me alguma coisa." disse Amanda. "O que é que te fizeram, Bruno? Tens alguma desculpa para o teu comportamento estúpido?"

"O Leandro e a Regina juntaram-se para me humilhar, foi o que foi! A Regina levou-me até um hotel, amarrou-me à cama e o Leandro beijou-me! Foi o momento mais asqueroso e embaraçoso da minha vida!" exclamou Bruno.

Os outros ficaram todos a olhar para Bruno. Alguns abriram a boca de espanto. Regina e Leandro entreolharam-se de seguida. Amanda encarou-os.

"Vocês fizeram mesmo isso ao Bruno? Ai, agora estou aborrecida." disse Amanda. "Não por terem feito isso ao Bruno, mas porque não me convidaram para assistir. Ao menos tiraram uma foto? Apetecia-me rir um bocadinho."

"Amanda, não digas isso." repreendeu Hugo. "Esta é uma situação séria."

"Mas porque é que a Regina e o Leandro te iam fazer isso?" perguntou Elisa.

"Bruno, tu é que começaste e agora vou contar a verdade." disse Leandro.

Bruno ficou subitamente pálido. Estava tão zangado que contara o que acontecera, mas agora Leandro ia contar a verdade sobre o que ele tinha feito.

"Lembram-se de me terem batido e eu ter andado meses com o braço ao peito e as costelas enfaixadas? Pois bem, o Bruno até passou por ser um herói, por me ter ajudado. Tudo mentiras. Descobri que foi ele que organizou tudo. Ele arranjou outros dois rapazes para me baterem e ele participou na acção." disse Leandro. "O Bruno foi o responsável pelo que aconteceu. E quando descobri, arranjei maneira de me vingar. Da maneira que o Bruno descreveu. Agora já sabem."

Todos voltaram a olhar para Bruno, desta vez com olhares zangados. Amanda tinha perdido a vontade de brincar com a situação. Bruno engoliu em seco.

"Pessoal, isso já foi há muito tempo..." tentou defender-se Bruno.

"Como é que tu pudeste fazer uma coisa dessas, Bruno? Arranjares um plano para bateres no Leandro?" perguntou Ricardo. "Porquê?"

"Por causa da discussão que tínhamos tido no balneário, naquela altura." respondeu Leandro. "Como vingança, pedi a ajuda da Regina e levámos o Bruno até ao hotel."

"Onde foi amarrado à cama e beijado." concluiu Amanda, surpreendida. "Foi um bom plano. E digo-te uma coisa, Bruno. Se tu me tivesses feito a mim o que fizeste ao Leandro, podes ter a certeza que a minha vingança teria sido muito, mas mesmo muito pior."

"És um estúpido, Bruno." disse Ivo. "Como é que foste fazer aquilo?"

"E achas-te com moral para julgares os outros e chamares às pessoas anormais?" perguntou Afonso, zangado. "Devias olhar primeiro para ti."

"Afinal não eram só o Edgar e a Jéssica que eram maus e arranjavam planos." disse Liliana.

"Eu sou uma vítima! Está bem que bati no Leandro, é verdade, mas o que ele me fez é muito pior!" exclamou Bruno. "Não consigo deixar de pensar que fui beijado por outro rapaz. Que nojo! Desde aquele dia que tem sido um inferno, comigo sempre a lembrar-me disto. O meu ego e a minha masculinidade estão destruídas, tudo por culpa do Leandro e da Regina!"

"És um imbecil. Deixa de te fazeres de vítima." disse Elisa, aborrecida. "Estás a achar que por teres sido beijado e amarrado a uma cama é pior do que o que fizeste ao Leandro?"

"Claro que é pior! É horroroso!"

"Ó Bruno, és mesmo exagerado. Não é como se te tivéssemos amarrado e violado. Ou tirado fotografias ou filmado a cena. Não fizemos nada disso." disse Regina.

"Quero lá saber! Estou arruinado... e a culpa é toda vossa!" exclamou Bruno.

Leandro cerrou os punhos, furioso. Estava farto de Bruno, da sua estupidez e queria acabar com aquilo de uma vez.

"Bruno, se estás assim por causa da porcaria do beijo, podes estar descansado. Eu nunca te beijei." disse Leandro.

"Então, agora estou confusa, mas o Leandro beijou o Bruno ou não? Um diz que sim e o outro diz que não." disse Hugo, confuso.

"Não sejas mentiroso, Leandro. Beijaste-me sim senhor!" exclamou Bruno.

"Não. Eu queria castigar-te e achei que a melhor maneira seria atacar o teu ego. És tão preconceituoso que o pior que podia acontecer era isso virar-se contra ti. E então, surgiu-me toda a ideia do plano de vingança. Tu ficaste a pensar que eu te tinha beijado e ficaste muito afectado. Era essa a minha intenção." disse Leandro. "Mas ao contrário de ti, eu não ia fazer alguma irreversível. Se te tivesse beijado mesmo, seria algo que eu não poderia apagar da tua memória. Mas eu não te beijei."

"Fui eu." disse Regina.

Bruno parecia confuso, sem perceber.

"Combinámos tudo com antecedência. Tu estavas vendado, Bruno. Foi a Regina que te beijou e eu falei logo de seguida, dando a impressão de que tinha sido eu que te estava a beijar e eu próprio o disse, para te convencer. Resultou, mas podes estar descansado, porque não te beijei. O teu ego permanece intacto." disse Leandro. "E digo-te isto, para te calares de uma vez. Não quero ter mais nada a ver contigo."

Dito isto, Leandro saiu porta fora e Regina seguiu-o. Bruno assimilou o que Leandro lhe tinha dito e começou a sorrir imenso.

"Não fui beijado por nenhum rapaz. Não fui! Sim! Afinal continuo o garanhão de sempre, sem nenhuma mácula no meu currículo." disse Bruno, contente.

Os outros olhavam-no, aborrecidos. Ao aperceber-se dos olhares, Bruno ficou sério.

"Pessoal, têm de esquecer isto e..."

"Uma ova. Olha, pelo menos durante um tempo, quero-te longe. Ter um amigo que faz o que tu fizeste, é péssimo. Até eu já fui mazinha, é verdade, mas ao menos dizia as coisas na cara das pessoas, em vez de lhes mandar bater." disse Amanda.

"Fiquei mesmo desapontada contigo, Bruno." disse Elisa. "És um mesquinho, mimado e acho que não podemos confiar em ti."

Um a um, os outros começaram a sair da sala. Todos saíram, menos Ricardo e Bruno.

"Bruno, já viste o que os teus actos fizeram? Afastaste todos os outros." disse Ricardo.

"Mas tu ficaste."

"Porque te conheço há muito tempo, mas fiquei desiludido contigo. Eu pensei que te conhecia bem, mas enganei-me. Sim, eu sei que és preconceituoso, por vezes és precipitado e que gostas de arranjar confusão, mas bateres numa pessoa assim, três contra um? Deixaste o Leandro lesionado, não admitiste o que fizeste na altura e ainda te aproveitaste do que aconteceu para parecer que eras bonzinho e do teu bom coração tinhas chamado a ambulância." disse Ricardo. "Enganaste toda a gente. Até a mim."

"Ricardo, não foi nada pessoal, mas não podia admitir que tinha batido no Leandro, senão ia meter-me em maus lençóis."

"Tu fizeste o que quiseste, Bruno, sem pensares nas consequências. Não vou deixar de ser teu amigo pelo que fizeste, mas não vai ser fácil conquistares de volta a confiança dos outros. E parece-me impossível que te voltes a dar bem com o Leandro."

"Nem quero. Por mim, ele que fique longe."

Alguns minutos depois, começou a primeira aula da tarde. E passou um dia e depois outro. Agora os outros tinham mudado de atitude quanto a Bruno. Leandro, Afonso e Regina não lhe falavam. Elisa apenas convivia com Bruno porque era namorada de Ricardo e os outros praticamente ignoravam-no, apesar de lhe falarem se ele falasse com eles.

"Também não quero saber se eles me falam ou não." pensava Bruno. "O que me interessa é que não fui beijado por aquele estúpido do Leandro. Tirou-me um peso dos ombros. Já tinha pesadelos com aquilo e tudo. Até é bom que ele agora se mantenha à distância. Ele e o outro gay também. Que se mantenham longe de vez."

Para Além da Adolescência

No Sábado à tarde, Delfina esperava a chegada dos irmãos ao seu apartamento. Etelvina estava sentada num dos sofás da sala, a fazer malha, parecendo pouco preocupada, mas no fundo estava um pouco nervosa sobre o que os filhos iriam decidir.

Delfina estava impaciente. Etelvina tinha-lhe moído a paciência durante toda a semana, queixando-se de que Delfina não lhe dava comida suficiente, que lhe doíam as costas, que Delfina devia ter mais canais na televisão, que o seu quarto tinha pouca luz e fingindo que não ouvia quando Delfina a mandava fazer alguma coisa.

"Quero ver se me livro da velhota de uma vez. Ela agora ainda está mais chata que dantes. A ver se algum dos meus irmãos a leva para casa deles ou então juntamos o dinheiro e vai para outro lar qualquer." pensou Delfina.

Pouco depois, chegou o primeiro irmão de Delfina. Adalberto Barroso era o mais velho dos irmãos, com cinquenta e um anos, um grande bigode castanho e bastante gordo. Estava casado há vários anos e tinha três filhos. Exercia a profissão de construtor civil e era uma pessoa bastante ambiciosa.

"Delfina, devias mas é mudar de casa." disse Adalberto, sentando-se numa cadeira em volta da mesa redonda da sala. Ignorou por completo Etelvina, que fez o mesmo. "Este apartamento não é nada de jeito."

"Pois eu gosto do meu apartamento e estou muito bem aqui." respondeu Delfina.

"Tu é que sabes, mas estou agora a construir uns apartamentos muito bons e até te posso fazer um bom preço."

"O quê? Eu, a viver nalgum apartamento construído por ti e pela tua empresa? Nem morta. Conheço uma mulher que foi viver num apartamento edificado pela tua empresa e o tecto quase lhe caiu em cima."

"Ah, isso foi a maluca da Georgina Bagulho. Ela é que andava sempre a bater com a vassoura no tecto e por isso é que aquilo caiu." defendeu-se Adalberto.

"Boa desculpa. Usas é materiais ranhosos, para fazeres mais lucros e não pensas que qualquer dia vem aquilo tudo abaixo. Ganancioso." disse Etelvina.

Adalberto lançou-lhe um olhar venenoso. Logo de seguida, chegou outra pessoa. Era Roberta, a mais velha a seguir a Adalberto. Com quarenta e nove anos, Roberta era viúva, tinha o cabelo pintado de ruivo e uma língua mordaz. Dizia mal de tudo e todos, era dona de um cabeleireiro e agora estava disposta a arranjar um novo marido a todo o custo.

"O trânsito estava péssimo. Quase bati num carro que ia à minha frente e ia atropelando um velhote. Vá lá que ele saiu da frente no último segundo, senão tinha amachucado o carro todo, vejam lá." resmungou Roberta, sentando-se numa cadeira ao lado de Adalberto. "Então ó velha, nunca mais morre?"

"Velha era a tua avó e casou-se!" exclamou Etelvina, zangada. "Tu também já não vais para nova. Olha para essa cara, cheia de rugas."

"O quê? Rugas? Eu tenho a pele sem qualquer ruga e mais macia que um rabo de um bebé, fique sabendo!" exclamou Roberta.

"Coitadinha, deve estar a ficar mal dos olhos, que nem vê como é. Ou não tem espelhos em casa." murmurou Etelvina, continuando a fazer malha.

Roberta cerrou os punhos. Delfina lançou-lhe um olhar reprovador. Aquele cabelo ruivo ficava-lhe horrivelmente e Roberta parecia não se aperceber.

"Está mais feia do que a última vez que a vi." pensou Delfina. "Também, é tão estúpida e badalhoca..."

Delfina e Roberta nunca se tinham dado muito bem e Roberta era a mais implicante de todos os irmãos. Pouco depois, chegou o terceiro irmão. Januário era dois anos mais velho que Delfina. Era muito magrinho e alto, com cabelo castanho e vestia-se bastante mal, com roupas muito remendadas. Era segurança num museu e Januário era muito agarrado ao dinheiro, não querendo gastar dinheiro com nada.

"Estou cansado. Tive de vir a pé, que os táxis e a gasolina estão caros. E os autocarros, também. Que roubalheira!" exclamou Januário. "Eu nem queria vir. Gastei imenso as solas dos sapatos para vir até aqui."

"Ó Januário, credo, que forreta." disse Delfina.

"Forreta não! Poupadinho." corrigiu Januário.

"És forreta sim senhor. Por isso é que nem namoras, para não gastares dinheiro com presentes para a namorada." disse Adalberto.

"As mulheres só querem gastar dinheiro e mais dinheiro. Nem pensar. Longe, longe! O meu rico dinheirinho..."

"Nem vale a pena argumentar com ele. Foi sempre assim. Lembram-se de que em pequeno ele escondia as moedas todas nas meias? Nunca ninguém o tentou roubar, porque era um pivete desgraçado!" exclamou Roberta.

Delfina, Adalberto e Roberta riram-se, enquanto Januário parecia melindrado. Etelvina abanou a cabeça, pensando que cada um dos seus filhos era pior que o outro. E ainda faltava a filha mais nova.

Continua…