Capítulo 23: Quebrando as regras
"O que pode sair errado?" - o homem pensava, enquanto seus subordinados escrutinavam o interior do bosque. Ele não estava satisfeito em realizar essa tarefa. Preferiria estar em uma das frentes de batalha que seguravam, a leste da Grã-Bretanha, os ataques dos neo-comensais. – "O braço dele cresceu muito se há alguém aqui."
Draco escolhera os melhores rastreadores do seu grupo para cumprir as ordens do Ministro. Até o momento, o único vestígio encontrado foram os resquícios de magia onde ele e Hayden viram os três desaparatar.
"Isso é trabalho para o Potter. Se ele não consegue cuidar do quintal de casa..."
A penumbra anunciava o próximo nascer do sol. O cheiro de terra úmida penetrava fundo em seus pulmões. Seus pés afundavam no mar de folhas secas e o vento forçara todos a usar as grossas capas de inverno.
- Senhor, aqui! – sinalizou o garoto que Niellina trouxera de Avalon há poucas semanas e que farejava feitiços como um sabujo. Ele apontava para um monte de folhas curiosamente mais alto que os outros.
- Obra do vento. – Joshua Eileen desdenhou. Antes, ele era o melhor rastreador.
- Não! Veja as folhas quebradas em volta. – o garoto mostrou. – Só se o vento tiver mãos.
- Descubra. – a voz do comandante encerrou a discussão. – Com a varinha, Difed. – acrescentou, quando o jovem arregaçou as mangas.
Os murmúrios em volta dos dois foram diminuindo à medida que uma redoma aparecia entre as folhas.
- Que grosseiro. – o loiro comentou. – Embora eu não esperasse nada melhor vindo dela.
- É a Sra. Potter. – Joshua também reconheceu os traços.
- Leve a sua descoberta para Lupin, Difed. O resto de vocês, continue procurando. – "Ele precisa começar a ser responsável por suas ações."
Aparatou em frente ao sobrado. O telhado faiscou com os primeiros raios da manhã.
- Onde ele está? – entrou tempestivamente na sala assim que um dos elfos abriu a porta.
- Mestre Potter não quer ser incomodado.
- Não temos tudo que queremos, não é mesmo? – a paciência não era uma das virtudes de Draco. – Se você não for chamá-lo, eu mesmo irei. Conheço o caminho. – o elfo arregalou os olhos, subindo os degraus de dois em dois. "É revoltante ele ainda estar dormindo." – ele atirou-se em uma das poltronas, unindo as pontas dos dedos.
- Você não podia esperar? – a voz pastosa do homem denunciava que ele estivera realmente dormindo, o que aumentou o descontentamento do loiro.
- Você não deveria estar cuidando da Elfa, ao invés de... – não terminou a frase, pois Elenna surgiu atrás de Harry. Na verdade, apoiava-se nele, mas não deixou de sorrir ao ver os olhos arregalados do loiro.
- Bom dia, Draco. – "Ela não deveria estar na cama?"
- Pelo visto você não está tão doente quanto parecia, não é mesmo?
Os dois sentaram-se em frente a ele.
- E então? – Harry franziu a testa. – Nos acordou só para olhar?
- Onde está a sua namoradinha, Potter? – olhou para Elenna.
- Não existe tal pessoa. – o moreno respondeu imediatamente.
- Você já descobriu o que aconteceu naquela tarde, Potter?
- Não.
- Porque não procurou saber, não é mesmo?
- Se você não quer dizer a razão de estar aqui, eu posso ler a sua mente. – Harry exibiu um meio sorriso.
- Vodu. – Draco encarou Elenna, que o observava com atenção. - Uma boneca espetada por agulhas, com a sua aparência, madame.
- Deselegante e covarde. – a meio-elfo retrucou.
- Certamente. – o loiro assistiu o rosto de Harry tornar-se sombrio. – Existe uma guerra lá fora e você está enterrado aqui, me fazendo perder um tempo precioso. Fui proibido de lhe dizer qualquer coisa por causa dela – indicou a mulher. – mas vim informar-lhe que não vou mais servir de babá. Você fez a merda. Você limpa. – dizendo isso, levantou-se. – Reunião no Ministério daqui uma hora.
Harry ficou sem reação. Apertou a mão de Elenna na sua, sem ousar olhá-la. Sentia a atenção sobre si. O corpo dela enrijecera ao ouvir a notícia, entretanto, ele sabia que ela não diria nada.
- Eu sinto muito. – disse por fim, a voz baixa.
- Não, Harry. – ela tocou seu rosto. – Não é culpa sua. – a voz era suave. – Não é. – Elenna repetiu, pousando a mão na nuca do bruxo, encostando testa com testa.
- Acha que pode me perdoar por isso? – ela sorriu-lhe, desenhando com a ponta do dedo o contorno do lábio inferior. Os olhos verdes estavam perturbados por trás dos óculos. – Pode me perdoar por ter desejado tanto você que a arrastei para o sofrimento?... Eu agüentaria qualquer tortura, qualquer dor no mundo, mas não suporto vê-la sofrer... – a voz dele tremia. – Quero estender meu corpo sobre você e as crianças para protegê-los.
- Eu viria, não importa o que acontecesse. – ela garantiu, beijando-o ternamente. As mãos dele alojaram-se, suadas, em sua cintura.
- Não posso ir. – disse, pesaroso, algum tempo depois. - Não vou deixá-la sozinha.
- Acho que não aceitarão um 'não' como resposta. – Elenna abraçou-o. - Ficaremos bem. Temos a Chave de Portal e o Pó de Flu.
- Talvez fosse melhor irem comigo.
- Gil não pode ser deslocado. Ele ainda está fraco. O Ministério não é lugar para crianças; e você não vai demorar tanto, vai?
- Não sei. Aparentemente não. – o bruxo respondeu, adivinhando que ela não acreditava. Elenna conhecia os procedimentos do Ministério e da Federação. Provavelmente a reunião duraria horas.
Suspirou, tirando os óculos e andando pela sala. Sabia que era seu dever ir, ainda mais com o possível envolvimento de Cindy. E, sim, ele era um comandante importante, uma vez que tinha um terço do efetivo de vanguarda sob suas ordens.
- Vou tomar um banho. – anunciou, subindo para o quarto.
Ligou o chuveiro, deixando a água cair livre, molhando seus cabelos, descendo pelos braços, pingando dos dedos. A água quente batia em seu rosto, nas costas, no peito enquanto ele se virava devagar, querendo senti-la alcançando todo o corpo.
Desejava que ela levasse embora o enorme peso que ele voltou a sentir assim que Malfoy revelara como atacaram Elenna. Por que não podia ser um homem comum, que ia do trabalho para casa, levava os filhos ao zoológico e discutia com a mulher a melhor cor para a parede da sala? Um homem simples, com necessidades e responsabilidades simples.
Então, ouviu, trazida através dos anos, a voz da mãe de Elenna: "Grandes poderes trazem grandes responsabilidades''.
Desligou o chuveiro e enxugou-se, amarrando a toalha na cintura para sair junto com uma nuvem de vapor. Encontrou Elenna olhando fixamente pela janela. Harry abriu a gaveta no criado-mudo sem nenhum barulho e tirou de lá a caixinha de presente laranja, lacrada por um feitiço que ele desfez. Caminhou até a Elfa e abraçou-a.
- Você está quente! – ela exclamou. – E não secou os cabelos direito. – completou, passando a mão por eles.
O bruxo sorriu, olhando para o povoado.
- Estava pensando em mim?
- Não. – ela encostou-se nele e voltou a olhar a paisagem. – Em filhos e gravidez.
- Quer dizer que você está... – ele mal ousou acreditar, passando a mão pela barriga dela. Elenna riu.
- Homens... Como poderia saber?... Estava só pensando na responsabilidade que é ter um filho. Quase perdemos Gil... E eu não estava aqui com Elanor...
- Você não podia adivinhar, Elenna. Nós não sabíamos o que poderia acontecer. E vocês duas têm muito tempo ainda.
- Eles são pequenos e já sofrem... Será sempre assim? – ela comentou, melancólica. Harry acariciou os cabelos cacheados. Ficou um tempo calado, até lembrar-se.
- Esqueci de uma coisa. Algo imprescindível. – pegou a mão direita da meio-elfo e beijou-a. Quando Elenna olhou, lá estava, no indicador, a aliança de mithril, a prata verdadeira dos elfos, que ela abandonara na distante madrugada em que pensou ter terminado sua vida. Seus olhos se encheram de lágrimas. Harry levantou sua mão direita para exibir a aliança gêmea. – Nada aconteceu. – sussurrou no ouvido dela, apertando-a para se assegurar de que ela estava e continuaria ali.
Ficaram abraçados, silenciosos, conscientes de que deveriam se mexer, agir, sem coragem de dar dois passos para longe. Foi Elenna que se afastou primeiro, para poder dizer-lhe com os olhos que eles sempre estariam juntos. Ela sempre estaria ali para ele.
- É melhor se vestir. – virou-se para o armário, procurando uma das vestes pretas com o distintivo da Federação. O bruxo sorriu ao vê-la preparar as coisas como se nunca tivesse estado longe. – Você vai tomar café aqui? – ela perguntou, entregando-lhe roupas e sapatos.
- Adoro quando você banca a dona de casa. – ele provocou.
- Notei que você está meio largado, Potter. – ela devolveu no mesmo tom irônico. – Homens definitivamente não vivem sem uma mulher do lado!
- Agora, a sua parte feminista podia dar uma folga, não?
- Isso significa que você me poupará de preparar o café da manhã?
- Obrigado... Ainda está cedo. Como alguma coisa lá mesmo, ou nem isso... Volto para o almoço, ok?... Trago alguma coisa?
- Não. – ela adiantou-se para ajudá-lo com o broche da Ordem da Fênix. – Eu vou cozinhar. – anunciou, com um sorriso maroto.
- Então é melhor eu trazer uns sanduíches!
- Não se atreva a comer na lanchonete de Simon Butter! – ela bateu no ombro dele.
- Sim, Sra. Potter. – Harry disse, acabando de se vestir e enlaçando-a pela cintura. Elenna percebeu a ênfase orgulhosa nas palavras. – O que mais a senhora me recomenda?
- Volte logo ou eu ficarei realmente furiosa!
- Não permanecerei um minuto além do necessário naquela sala! – prometeu antes de beijá-la.
