Capítulo Vinte e Cinco

A estranha cena de um Malfoy e uma Weasley correndo juntos pelos corredores de Hogwarts acabou passando despercebida pelos alunos que circulavam em polvorosa. Dedos enroscados que pareciam unidos por uma cola invisível capaz de mantê-los grudados no meio de toda aquela multidão. Mesmo que seus passos apressados lhes sacudisse, mesmo que os sapatos de Gina denunciassem sua posição e mesmo que seus sobrenomes contrariassem todas as probabilidades daquele conluio.

Tinham de concreto apenas um ao outro. E mesmo dessa forma, incertezas e temores pairavam por seus corações com intensidade, ecoando nos ouvidos palavras de insegurança. Se ao menos houvesse tempo para conversar...

Muito embora enquanto corria, um Draco meio emburrado admitia para si mesmo que até algo irrelevante e simples como aquele toque nos dedos quentes de Gina fosse capaz de lhe deixar puramente feliz. Tivera tantos sonhos e pensamentos que envolviam aquele reencontro e nenhum deles fora capaz de chegar perto ao formigamento que sentia no coração aquele momento.

Draco não foi um garoto de muitas namoradas, muito pelo contrário. Até teve algum envolvimento com Pansy e uma ou outra sonserina, mas nada que realmente lhe marcasse ou pudesse ao menos ser considerado sério. Pelo pouco interesse que elas lhe geravam até preferia não estreitar os laços, pois podia prever a dor de cabeça que aquilo ia lhe gerar no futuro. Acertou em cheio com a Parkinson, pois nos últimos tempos a menina nem lhe olhava mais na cara.

Entretanto, tinha de admitir que certas coisas lhe faziam falta (e muita), talvez tanta a ponto de tornar um simples entrelaçar de dedos em algo totalmente incrível. Não sabia dizer se aquele gesto lhe fascinava mais pela coragem de Gina em não temer ser vista ao lado dele ou se pela maciez da pele dela, que era a única que sentira em meses. O fato é que queria muito mais que um simples toque com a Weasley e essa ideia já vinha crescendo em sua cabeça há algum tempo.

Talvez fosse a lembrança dela toda arrumada na festa de casamento do irmão, ou o jeito que aqueles enormes olhos castanhos que ela tinha lhe encaravam em todas as vezes que conseguiam se encontrar, quem sabe até aquele jeito engraçado que tinha de mexer os lábios quando pensava ou o cheiro bom que emanava de seu corpo, mas Draco estava simplesmente travando uma batalha mental sobre como se posicionar diante daquela menina maluca.

Primeiro por que o estupido olhar de admiração não saia de seu rosto mesmo diante de uma ideia estapafúrdia de encontrar a Lovegood no meio de tanto bagunça. Segundo por que, de certa forma, não conseguia lutar contra isso. A distância de Gina não colaborou em nada para que seus confusos sentimentos de amizade e repudio morressem, muito pelo contrário, parece que tudo só havia aumentado.

E agora ela estava ali, numa explosão de aromas, cores e sons que ele sentira tanta falta. Correndo toda torta com aqueles sapatos barulhentos e empoeirados após a destruição que enfrentaram. Os cabelos rubros eriçados, sacudindo conforme ela corria e tentava não tropeçar nos pedregulhos ou esbarrar em alguém. E mesmo vendo-a daquele jeito, Draco não conseguia fazer seu coração não deseja-la.

Ginevra Weasley, a pessoa mais teimosa e cabeça-dura com quem já tivera o prazer de trombar durante sua existência. Irritantemente cheia de vida, teimosia e esperanças. Com os olhos chocolate mais brilhantes de todo o mundo e tantas sardas que não havia algarismos o suficiente para contar registrar. Justamente por ela que Draco achou de se apaixonar.

"Apaixonar", repetiu mentalmente a palavra como se exercitasse a ideia de sentir algo do tipo por alguém como Gina. Muito embora temesse pela não reciprocidade dela, sabia que haveriam obstáculos pela frente caso quisesse realmente se envolver com aquela menina. Uma família enorme, um Potter idiota, grifinórios irritantes e Voldemort.

Ah, é, Voldemort.

Draco sabia que na melhor das hipóteses o lorde das trevas ficaria bem chateado com sua preferências para romance. E com certeza seu pescoço iria a prêmio, assim como o de Lucius, e o Malfoy não gostava muito dessa alternativa, embora tivesse plena certeza de que era exatamente isso que o aguardaria caso resolvesse sair mais vezes em público segurando a mão quentinha de Gina entre seus dedos compridos.

Pois se na melhor das hipóteses Voldemort lhe mataria, na pior ele torturaria e assassinaria Gina a sangue frio e Draco não podia permitir algo desse tipo. Inclusive começava a repensar a resposta que dera à ruiva sobre não prendê-la em nenhuma sala do castelo e deixa-la enclausurada na estufa. Por sorte ainda não haviam dado de cara com nenhum comensal e nem sabia o que diabos faria caso isso acontecesse.

Evidentemente que não atacaria Gina, mas será que era capaz de matar um comensal, mesmo que sua vida dependesse disso? Ou falharia, da mesma forma que falhara com Dumbledore? Essa duvida estava lhe deixando mais maluco que sua recente descoberta de sentimentos pela Weasley-Sete.

"Weasley essa que, aliás, já está calada há um bom tempo", Draco pensou vendo-se completamente incapaz de imaginar o que poderia se passar pela cabeça daquela menina maluca. E por mais positivo que pudesse ser a respeito da reciprocidade dela, jamais poderia sequer cogitar que ocorriam os mesmos questionamentos na mente de Gina.

As bochechas sardentas esquentavam toda vez que a ruiva dava-se conta de quão firme era o aperto dos dedos de Draco em volta dos dela. E por Merlin, como parecia dedicado em não se deixar separar por um minuto que fosse. Como se estivesse apreciando aquele momento tanto quanto ela, por mais conturbado que fosse o cenário.

Sentir coisas desse tipo só por estar com Draco mexia de verdade com os sentidos de Gina. Não bastasse toda a saudade que não podia matar da forma que queria, ainda tinha uma guerra acontecendo entre eles. O mundo todo desbando e tudo que ela precisava saber era se aquela porcaria de sentimento era recíproca, por que, de verdade, era muito estranho que não houvesse ainda UMA reclamação sequer de parte do garoto por aquele toque que já durava mais de cinco minutos.

Era esquisito e doloroso perceber que sentia-se perfeitamente atraída em manter sua mão junto com a de Draco, e, se pudesse, uniria muito mais coisas. Pensava ter perdido completamente a razão durante a guerra e estar agora preenchendo os buracos em seu inconsciente com ilusões agradáveis a respeito de alguém que não queria nada além de um conluio com ela. Uma perfeita idiota, porém mesmo esse tipo de pensamento não era forte o suficiente para desgrudar seus dedos da mão fria do Malfoy.

Não queria acreditar e nem ao menos aceitar que gostava dele. Tinha de ser atração física, carência, necessidade de contato, confusão sentimental, qualquer porcaria, mas era ridículo que estivesse realmente nutrindo sentimentos por um Malfoy.

RIDICULO.

Ah, mas aqueles olhos cinzentos...

- Eu sabia!

Foi uma voz fina e aveludada que lhe sugou de seus pensamentos e fez apertar os dedos na mão de Draco. Gina parou de correr quase que imediatamente e, de dentro de uma das salas do castelo Luna veio, toda descabelada e apontando acusadoramente para os dois, como se atestasse sua própria sanidade mental por desconfiar de algo como uma união entre um Malfoy e uma Weasley.

A ruiva levou a mão livre ao peito, na altura do coração e suspirou aliviada caminhando em sua direção. Já Draco não sabia se se alegrava pelo fim de sua busca pela garota ou se se entristecia por não dispor mais de um tempo a sós com Gina.

- Eu sei que você sabia.

A tão natural resposta de Gina fez os olhos cinza de Draco voltarem-se acusadoramente para ela, desvencilhando seus dedos com um movimento arisco que fez com que a ruiva baixasse sua atenção para a mão, agora solitária. Por um segundo o Malfoy arrependeu-se do gesto impensado, mas pronunciou em voz alta seu descontentamento com uma possível traição da ruiva.

- Como diabos ela sabia?

Gina ergueu as palmas das mãos para cima em sinal de desconhecimento, fazendo até um pequeno bico antes de começar a falar. Luna teve de se conter para não rir das caras de espanto e desconfiança entre os dois e acalmou-se ao reforçar que, afinal de contas, não poderiam ser diferentes, pois por mais unidos que pudessem estar, ainda eram quem tinham de ser.

- Eu não sei, Luna é muito inteligente, deve ter percebido.

- Luna é muito inteligente? Sério?

A pergunta irônica de Draco fez com que Luna lhe erguesse os olhos claros e inclinasse o rosto suavemente para a direita, demonstrando sua surpresa por aquele ataque gratuito. A loira piscou demoradamente e sacudiu uma das mãos no ar, chamando a atenção dele de forma sutil, mas que soou extremamente engraçada para Gina.

- Eu estou ouvindo, Draco.

Foi com um olhar de impaciência que Draco respondeu à Luna. A fim de evitar uma discussão ou uma provável chateação por parte da amiga, Gina decidiu cortar logo aquele assunto e partir par o que interessava realmente. Até por que, ficava sempre muito zangada ao sentir que menosprezavam a Lovegood apenas por seu jeito avoado. Entretanto, antes que pudesse dizer qualquer coisa, o Malfoy tomou às rédeas e disse com uma cautela que a Weasley desconhecia.

- Olhe, não sei se damos conta de enfrentar o que está lá fora. Quer dizer, tem noção de quantos comensais...?

Estava elaborando bem o que dizer, mas ao notar o rumo que aquela conversa tomaria, Gina não conseguiu evitar rolar os olhos e bater o pé no chão como sinal de sua indignação do que estaria por vir. O Malfoy, então, parou de falar para que ela começasse a tagarelar sobre sua covardia. "Como sempre", pontuou mentalmente.

- Tenho plena noção. Por que? O que quer fazer? Fugir?

A pergunta o deixou no mínimo desconcertado. Em momentos como aquele, em que Gina ficava toda nervosinha, Draco perguntava-se que diabos vira naquela garota tão... tão... tão integra. E a fiel admiração que sempre vinha em resposta fazia-o calar alguma ironia. Passou os dedos entre os cabelos loiros antes de responder um pouco acuado, como se estivesse de frente para um furacão.

- Não.

Enquanto constrangia-se um pouquinho, Draco só conseguia pensar que se desse um passo errado, jamais teria novamente contato com os dedos quentinhos da Weasley. E concluiu que tudo teria sido em vão, as cartas, os encontros e até a cabeça de Zabini a premio. E seu rosto iluminou-se como o de um psicopata ao ver sua próxima vítima. Encarou Luna de uma forma que deixou a loira desconcertada.

- Ei Lovegood. Poderia ir até as masmorras e tirar um sonserino de lá para mim?

O queixo de Gina caiu. Teria caído até o chão, se fosse possível, e aquele ar de surpresa deixou o ego de Draco inflado. Gostava de saber que conseguia ser um pouco imprevisível, mas aquela boca horrorizada que a ruiva mantinha estava tão engraçada que teve de se conter para não cair na risada.

- Um sonserino que vai nos ajudar?

A frase era tão inacreditável que Gina mal conseguiu dizer sem soar sarcástica. O que diabos Draco andava bebendo na Mansão Malfoy? Tudo bem que ele estava ajudando-a há um bom tempo, mas não significava que todos os sonserinos fossem buscar por redenção. Quer dizer, eles eram tão terríveis...

- Sim! Ele é muito bom, está no clube ridículo do professor Slughorn.

Um clarão invadiu a mente de Gina. Blaise Zabini já havia lhes ajudado anteriormente e ela duvidava seriamente que ele estivesse interessado em seguir desta forma. Até por que agora não havia favor em aberto nem era algo simples como recuperar colares e brincos. Aquilo exigiria um envolvimento às claras que o sonserino provavelmente não aprovaria.

- Zabini.

Luna foi quem teve coragem de pronunciar o nome em voz alta. O Malfoy assentiu repetidamente enquanto a encarava com um sorriso aprovador de quem finalmente está testemunhando algum tipo de inteligência de um dos amigos desprezíveis de Gina.

- Exatamente.

- Você quer que eu vá buscar Blaise Zabini como reforço?

A pergunta em confirmação de suas intenções tirou de Draco todo o ar brilhante de alguém que finalmente se impressiona com alguma coisa. Bufou irritado com a Lovegood e a segurou pelos ombros, empurrando suavemente na direção das escadas, como se lhe apressasse.

- Ande logo, Lovegood! Não temos tempo para isso! Estaremos esperando aqui!

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N/A: OI MENINAS, FELIZ PASCOA!

Espero que tenham ganhado muito chocolate pra dividir comigo.

Como não estou em casa, vim mesmo só postar pra não falhar com vocês, mas não vou conseguir responde-las individualmente =( Espero que me perdoem. Muito obrigada a todas por estarem sempre aqui, comentando e me deixando encantada com as reviews mais legais do mundo. Desculpem mais uma vez por não conseguir responde-las apropriadamente hoje =( Beijos e conto com vocês aqui na próxima semana!

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