Organização
Meu coração batia forte, exasperado, extremamente assustado com a forma com que Hermione descontava uma raiva crescente numa árvore em frente ao Ministério. Os feitiços saíam com força e vontade e eu me perguntava a todo instante porque mamãe realmente não preferiu ser Auror. A árvore a frente estava murcha e perdia cada vez mais folhas em decorrência da raiva de Hermione.
'Maldito! Filho da mãe! Como se atreve!' Reclamava Hermione soltando feitiços nos intervalos de cada palavra. Eu estava calada, piscando os olhos, apenas sentindo pena da coitada da árvore que nada tinha a ver com a situação.
'E agora? O que vou fazer, Rose?' Ela me perguntou e eu desviei os olhos pra ela.
'Você não deveria me pedir conselhos, mãe.'
'Por que não?' Ela virou o rosto confusa.
'Bom, supostamente é você que deveria saber o que fazer em todas as situações. E, além disso, eu não sou a pessoa mais aconselhável para dar conselhos.'
Hermione respirou fundo e voltou a andar de um lado para o outro, nervosa.
'Mas se quer saber, acho que poderia não descontar na árvore. Não é legal maltratar a natureza.'
'Isso está errado! Completamente errado!' Ela irritou-se ainda mais, ignorando o que eu disse. 'Quer saber? Você tem razão!' Concluiu sem demora.
Ela guardou a varinha e decidiu entrar no Ministério. Acompanhei Hermione, curiosa. Pegamos o elevador e pude perceber a mão de Hermione tremer sem parar. Saímos do elevador, e reconheci sendo o andar responsável pelo Departamento de Hermione. Não demorei muito a perceber que mamãe estava indo atrás de Malfoy.
Hermione abriu a porta do escritório de Malfoy como se ainda fosse a sala dela. Malfoy estava sentado na cadeira, de cabeça baixa, mas logo se levantou quando nós entramos. Mamãe foi até ele e deu um tapa forte no rosto. Pisquei os olhos.
'Isso é pra você aprender a não fazer aquilo de novo.' Malfoy ia responder, mas Hermione deu outro tapa. 'E isso é pra você aprender a respeitar sua Família! Você é casado, Senhor! Respeite sua mulher!'
'Granger...'
Outro tapa. 'E isso é pela árvore!' Terminou respirando fundo. Pisquei os olhos atônita. Malfoy tinha o cenho franzido sem entender o que havia acabado de se suceder. Hermione apontou o dedo para ele. 'Não se atreva, Malfoy! Não se atreva a fazer o que fez!'
Malfoy continou calado, confuso.
'Vamos, Rose!' Hermione me chamou me puxando pra fora da sala. Dei uma olhada para ele e o vi abrir a boca para fazer escapar a dor. Deixei escapar um riso sem querer.
'Você acabou de dar quatro tapas no seu chefe, mãe.'
'Que ele se dane!' Disse ainda irritada. 'Não dou uma foda que Malfoy seja o meu chefe! Se ele fizer besteiras como essas de novo, eu lhe entorto as tripas!' Não pude evitar de rir do desespero de Hermione.
'Não tem graça, Rose!' Parei de rir quando ela me repreendeu. 'Tudo mundo agora vai ficar sabendo! Ron vai...'
'Como eles vão ficar sabendo?' Perguntei interessada. 'Quem é o louco de dizer o que aconteceu?'
'As coisas aqui no Ministério correm rápido demais. Além disso, você não viu que Malfoy me beijou na frente daquele dois? Devem ter corrido para contar a todos o que aconteceu. Todos conhecem a nós! Ah, não quero nem ver o que vai acontecer...'
'Você não pode ir atrás deles e fazê-los perder a memória?'
'Não seja ridícula, Rose. Não posso fazer tais coisas por um assunto tão banal assim.' Ela negou com força. 'Além disso, já devem ter espalhado pra alguém.'
'Mas que povo mais fofoqueiro...' Reclamei.
'Sim, o mundo bruxo adora uma fofoca.' Ela disse no mesmo tom de voz. 'Acho melhor falar com Ron...'
'Você tem certeza?' Perguntei sem muita certeza daquilo. Conhecia papai. Ele ia ficar mais insano que um juggernaut.
'Mas é claro. Melhor conversar com ele antes que as coisas cheguem no ouvido dele de forma distorcida.'
Mamãe respirou fundo e soltou um 'É, vou fazer isso.' Eu parei de andar, deixando-a ir sozinha. Eu que não queria escutar a briga que ela e Ron teriam. Embora uma singela diversão tomava conta do meu rosto.
Acabei voltando para a sala de Malfoy. Achava que ele precisava de uma conversa com alguém pra explicar o que tinha acontecido.
Bati na porta três vezes. E após um tempo, adentrei na sala pela silenciosa simpatia que existia entre nós. Encontrei-o sentado sobre a mesa, de costas para a porta, com as mãos sobre o rosto; os pés se apoiavam sobre a cadeira, mas não ne mexiam. Malfoy estava estático.
Quis dizer algo. Mas nada saiu. Na verdade, nada preferiu sair. Porque qualquer coisa que eu dissesse, não ajudaria em nada a situação. Então, deixei-me apenas sentar ao lado dele, muda.
Não era difícil ver a tremenda perturbação pela qual Sr. Malfoy estava passando. O Yarmulkah ainda se repousava em seu braço esquerdo, e talvez, usá-lo naquela hora seria realmente a melhor hora que Malfoy poderia usar.
Ele negava o rosto em desaprovação, como se não acreditasse ainda no que tinha feito. Na verdade, ele só queria esquecer o que tinha feito.
'Está doendo?' Perguntei interessada e ele soltou um riso fantasma.
'Não sei o que me deu...' Foi o que conseguiu dizer depois de um certo silêncio. Entortei a boca para o lado esquerdo.
'Você gosta da minha mãe?' Perguntei a ele de forma honesta. Ele levantou os olhos azuis para mim e me estudou com um pouco de atenção. 'Sei que você vai negar veementemente. Porque isso é algo impensável e inviável para alguém como você. E, sei que posso estar muito errada, mas desde as férias de Julho, eu venho pensando na relação que você tem com Mamãe, Papai e tio Harry. E só o que me vem na cabeça é a imaginação de que talvez o senhor tenha alguns sentimentos em relação a Hermione.' Terminei sem tirar os olhos de cima dos dele. Sentia meu coração bater forte, um pouco exasperado.
Ele ficou mudo. Não levei aquilo como um sim. Apenas esperei. Não era como se ele fosse me responder de prontidão aquela pergunta. Não é como se ele fosse obrigado a me responder. E ele sabia disso. Ele só estava se perguntando se deveria me responder. E por isso, esperei.
Ele respirou fundo, parecendo cansado.
'Lembra da conversa de ontem? De quando você me disse de como queria que sua vida fosse, mas quando chegara a hora, nada do que você queria que tivesse acontecido de fato aconteceu?'
'De quando eu queria ser Grifinória, mas a vida me fez ser Sonserina?' Indaguei querendo saber se era daquilo que se tratava. Ele confirmou com um aceno.
'De quando você queria enfrentar, Trasgos, Dragões e Comensais? De participar de aventuras sem saber se sairia vivo ou morto dali?' Insinuou. 'Mas nada disse aconteceu. E agora só o que resta é a lembrança cinza de uma vida que você sonhou em viver. Só o que resta é uma nostalgia inexistente de uma memória vazia, sem significado, porque nunca aconteceu.'
'É o que acontece com você?' Perguntei engolindo em seco. Ele piscou os olhos e os desviou para o chão, tímidos, envergonhados de dizerem aquilo.
'Sim.' Disse entredentes.
'Você queria participar de aventuras?'
'Não. Eu só queria... ter amigos.' Disse sem medo. E eu senti meu coração bater ainda mais forte. 'Sempre quis ser amigo de seus pais. Do Trio de Ouro.' Soltou um espasmo de riso. 'Via eles rindo e se divertindo por Hogwarts por todos aqueles anos enquanto eu ficava sozinho. Tinha inveja da amizade deles porque era algo que sempre quis ter. Mas nunca tive. E só o que tive foi o conhecimento do que é importante no Mundo Bruxo. Só o que tive foi o medo de que um dia Voldemort iria voltar e eu deveria estar ali do lado dele porque meu pai o apoiava. E, então, Voldemort foi embora; e ai casei, formei uma família. Mas o vazio da vida que eu sempre quis viver, nunca me deixou. E isso me frustra, me irrita...'
Deve machucar de forma medonha.
Deve ser aquela dor excrucitante de quando se vê no fim da vida e perceber que tudo que fez foi pelos outros e não por si e assim deixou de fazer as coisas que mais lhe agradavam apenas porque ficou com medo da repreensão alheia.
'E ai eu vejo Scorps...' Tê-lo ouvido falar o nome do filho me fez levantar o rosto. 'Indo pelo caminho que não fui. Vejo ele tendo amigos como você e Gabrielle, que o fizeram ser uma pessoa infinitamente melhor do que eu jamais poderia ser. E enquanto parte de mim se alegra por isso, a outra parte detesta. Tem raiva, ódio, inveja.'
'Só porque ele tem amigos?' Indaguei sem jeito.
'Porque ele tem com quem contar.' Ele respondeu sem delongas.
'Sabe, sr Malfoy, seria bem mais fácil de ser amigo dos meus pais se não os xingassem a todo o momento'. Respondi com certa brincadeira. Ele riu de leve.
'Eu sei. Mas é tarde.'
'Por que seria muito tarde?' Perguntei franzindo as sobrancelhas. Ele respirou fundo, procurando a resposta mais convincente para aquela pergunta. No fim, disse:
'Porque é. Nós nunca nos demos bem. Somos muito diferentes. Eles são Grifinórios e eu Sonserino. Passamos todos esses anos nos tratando com indiferenças e xingamentos. É muito tarde para deixar isso de lado.'
'Não é não. Nada é muito tarde.' Falei me saindo da mesa. 'O senhor se prende muito ao que foi e ao que será. E isso é normal, porque foi a forma como foi criado. Está vendo as sombras na parede. O problema é que o senhor, na verdade, já saiu da caverna, mas em vez de aproveitar o que descobriu no mundo lá fora, voltou a caverna e se prendeu novamente ás algemas para ver a sombra na parede. Mesmo sabendo que é mentira. Diz que jamais poderia ser amigo dos meus pais, apenas por ser Sonserino e eles Grifinórios. Você acha que o Mundo todo, mesmo fora de Hogwarts, se divide em casas. Minha mãe uma vez me disse que as pessoas nunca são tão superficiais a ponto de serem catalogadas por um Chapéu. E ela tem razão. Nós somos muito mais que achamos que somos. Porque nós somos humanos, temos pensamentos, desejos, instintos, necessidades, devaneios, medos. E ao longo da vida, eles vão sendo mudados, renovados e transformados. E é isso que o senhor tem dificuldade de aceitar. Por isso não abre mão do Yarmulkah. Mas se não abrir mão disso, vai ficar sempre á margem de si mesmo, Sr Malfoy. Por isso mamãe pediu para você não usar mais isso, porque só assim, o senhor irá compreender algumas coisas da vida. O senhor só conseguirá ser amigo deles, se de uma vez por todas, correr para fora da Caverna e se banhar com o sol que ilumina as paisagens lá fora.'
Terminei olhando-o de frente. Ele franziu a testa, parecendo confuso, mas eu sabia que ele compreendera o que eu quis dizer. Ele só estava com medo o suficiente para fazer o que eu acabara de lhe apontar.
'Não é assim tão fácil.' Ele disse, por fim, abaixando a cabeça.
'Mas é claro que não é!' Afirmei com certa violência. 'Por tudo que você fez a eles, por tudo o que disse deles, eles não vão aceitar as coisas assim tão facilmente. Mas só porque não é fácil não significa que não deva tentar. Muitas vezes, as coisas certas são as mais difíceis de serem feitas. Mas elas não devem ser deixadas de lado só porque é difícil.'
Eu o vi abaixar os olhos azuis e ficar encarando o chão da sala. Ele negou com a cabeça mais uma vez, querendo desfazer o sentido que eu disse. 'Não. Você não sabe o que diz.' Mordi meus dentes, com certa raiva. É, eu não gosto quando as pessoas dizem 'você não sabe o que diz'. Era como se estivessem diminuindo minhas observações e meus conhecimentos e eu não gostava daquilo.
Dei as costas pra ele, querendo sair da sala. Mas antes de realmente sair, estanquei.
'Você sabe porque Scorpius e eu viramos amigos?' Indaguei a ele ainda de costas. 'Mesmo que no começo, ele me xingasse e falasse mal dos meus pais, claramente por influência sua, nós nos tornamos amigos. Sabe por quê?' Ele ficou em silêncio. 'Porque ele me pediu desculpas pela forma que me tratava.' Disse de forma sincera. 'Pedir desculpas é algo muito difícil, Sr Malfoy, mas ás vezes, é só o que basta para arrumarmos a nossa vida.'
Saí da sala, deixando-o só. Queria muito ajudá-lo. Tenho uma pena tremenda dele. E sei que sentir pena não é um dos sentimentos mais belos, mas me incomoda Draco Malfoy não sair de onde está. Está sempre com medo. Com medo de tudo. E eu sinto pena dele porque já fui como ele. Eu sei como ele se sente. Mas também sei que aquilo é algo extremamente insuportável.
Eu queria realmente que ele conseguisse o que queria.
E de alguma forma, acabei descobrindo que não me importava muito se ele gostava ou não de Hermione. Embora fosse algo extremamente estranho que ele estivesse porque ai eu e o Scorp teria uma relação muito conflituosa sobre parentesco.
Eu queria que ele conseguisse ser amigo da minha família para enfim, sair daquela caverna escura.
Ele precisava urgentemente arrumar o coração.
E arrumar o coração é como dar jeito no guarda-roupa.
A gente demora para tomar iniciativa. É difícil se desfazer do que já fez parte de tantos momentos, sejam bons ou ruins, sejam festas, sonhos, pesadelos, lembranças. Mas chega a hora que você vê que é necessário. Você consegue tirar aquelas coisas que já não são do seu tamanho, aquelas roupas pequenas demais ou grandes demais que já não condizem com seu corpo, suas expectativas, ou apenas porque não servem mais por você não frequentar os mesmos lugares.
Arrumar o guarda-roupa nos faz selecionar o que julgamos de melhor. O que não nos serve mais nós doamos, repassamos aos outros. E então essas pessoas farão melhor proveito do que você utilizou. Mas doar, não significa dar o que não presta, mas sim o que não combina mais com você.
Significa deixar tudo limpo. Significa organizar o guarda-roupa, o coração.
E para isso é necessário desprender-se do velho e ir em busca do que é novo, do que é capaz de fazer você ver que tudo pode estar organizado outra vez.
E uma desculpa, era o suficiente para a organização.
