Capítulo 25 – traduzido por Cristianepf
De onde Sawyer estava sentado na cadeira de balanço da varanda, ele podia assistir a chuva caindo torrencialmente enquanto ele ainda permanecia relativamente seco. De vez em quando a brisa lhe enviava rajadas geladas na direção dele, mas a despeito do frio do ar, ele achava refrescante. Especialmente depois de viver naquela ilha dos infernos esquecida por Deus por mais de um mês. Ele não tinha percebido que alívio o outono podia ser quando finalmente alcançasse toda sua força.
O ar refrescante também lhe dava a chance de por os pensamentos no lugar. Ele ainda estava tentando digerir o que tinha acabado de acontecer lá em cima... o que ele disse, o que ela respondeu, e o que tudo aquilo significava. Normalmente ele não fazia isso. Quando ele brigava com uma mulher antes, ele não olhava para trás. Ele não era do tipo que se auto-analisa. Ele dizia o que sentia no calor do momento, e então ele seguia adiante, esquecendo daquilo. Mas isso não parecia mais possível. Não quando qualquer palavra errada ou mal interpretada tinha o poder de alterar tudo... de destruir a frágil teia de interdependência que eles estiveram tecendo juntos por quase um mês.
E o que exatamente ele tinha dito? Tudo estava escuro exceto as últimas palavras, "É com você." Repeti-las, mesmo pra si próprio , fez o estômago seu estômago se contorcer. Tinha somente cerca de dez minutos que ele havia decido até ali, mas ele já podia perceber o erro daquelas palavras. Ela já sabia de antemão que ela não respondia bem à ameaças. Ok, talvez não fosse exatamente uma ameaça, mas com certeza era um ultimato, e isso era quase a mesma coisa, ao menos na opinião de Kate era. Ele não estava arrependido ainda, mas sabia que havia definitivamente a possibilidade de mais tarde ele vir a ficar.
E se ela realmente decidisse ir embora? Ele poderia voltar atrás... Dizer à ela que não importava, que ele tinha mudado de idéia? Ela aceitaria isso? Provavelmente não, ele pensou. E ele deveria voltar atrás? Ele havia sido exagerado; o que ele dissera era verdade. Ele estava cansado de sentir como se não a conhecesse. Mas o que seria pior... Ter somente uma parte dela, ou perdê-la por completo? Se ela fosse embora agora, ele estava aterrorizado só em pensar no que isso poderia significar para ele.
Ele suspirou nervosamente e preocupado, mais uma vez ele ia voltar lá pra dentro. Como estivesse de cabeça feita, no entanto, ele foi distraído por um movimento à sua esquerda. Automaticamente ele sabia que era ela, e se recusou a virar a cabeça em sua direção. Ao invés disso, ele manteve os olhos direcionados na linha do horizonte, olhando a escuridão gradual que se estendia à sua frente. Ele podia vê-la, olhando com um canto de olho, aproximando-se devagar e hesitante. Ele tentou não se permitir sentir muito aliviado ainda. Isto não significava necessariamente nada.
Ela sentou sem dizer uma palavra ou olhar para ele, do mesmo jeito que havia feito na semana passada quando ele estava lendo a carta. As posições eram inversas agora, contudo ele achou irônico eles estarem sentados no mesmo lugar. Ela falou em voz alta o que ele estava pensando.
"Então, o que é isso, o Balanço da Varanda de Confrontos Emocionais?" Ela sorriu de leve, mesmo assim seus olhos ainda estavam tristes.
Ele deu uma olhada para ela, sem querer demonstrar nenhum sinal mitigador, mas sem ter muito sucesso. Os cantos de seus lábios moveram-se de leve, só o suficiente para suas covinhas aparecerem.
"Está começando a parecer que é".
A brincadeira pareceu amenizar o clima entre eles, tirando um pouco o peso e opressiva tensão.
Kate deu um suspiro profundo.
"Eu costumava adorar dias chuvosos quando eu era criança. Eu tinha essa capa de chuva amarela ridícula... Eu achava que era a coisa mais legal que podia existir. Agora eu percebo que eu devia parecer uma idiota. Mas na época eu não ligava. Só ficava feliz em poder sair pra brincar, mesmo com o tempo ruim". Ela sorriu sozinha, ao se lembrar.
A princípio, ele pensou que era assim que ela ia iniciar a sua narrativa... Indo direto ao assunto, sem aviso nenhum. Mas ela não disse mais nada. Ele devia saber que não seria assim tão fácil. Esse tipo de fragmentos da infância casuais, desconjuntos eram tudo o que ela oferecia sobre o seu passado. Ele estaria habituado à maneira que ela poderia repentinamente mergulhar na lembrança de um acontecimento, e então recuar rapidamente, recusando-se a voltar não importando o quanto ele pressionasse. Ela lembrava alguém que não sabe nadar, mas mesmo assim fosse irresistível se atirar na água como por uma força além de seu controle.
"Você desceu até aqui para falar sobre o tempo, Sardenta?" Ele perguntou, um pouco impaciente.
Ela olhou para ele, magoada, mas não completamente surpresa pela pergunta dele. Ela não respondeu.
Com uma voz suave, ele tentou novamente. "Você ainda não se decidiu?"
"Eu estou aqui, não estou?"
Ele consentiu com a cabeça levemente, agora se permitindo desfrutar de uma ponta de alívio. Talvez ele não tivesse destruído nada que não pudesse ser consertado, afinal de contas.
Eles permaneceram sentados sem falar nada por um tempo, até que o silêncio fosse muito denso para sustentar. Parecia que os unia e separava ao mesmo tempo.
"Eu não sei como fazer isso, Sawyer," Kate disse finalmente, quase como se estivesse pedindo ajuda.
Ele não sabia o que dizer. Por que isso tinha que ser tão difícil?
"Eu nunca disse a alguém antes... não a alguém. Ninguém sabe da história toda. Eu me propus a contar pro Jack uns dias depois da queda, mas ele disse que aquilo não importava... que todos nós havíamos morrido, e podíamos recomeçar. Acho que isso não vale mais. Ela olhou para longe no vale, pensativa".
"O quê?" Sawyer perguntou, claramente chocado.
Ela se virou para ele surpresa, sem nem se dar conta até agora das implicações do que ela acabara de dizer.
"Você se propôs a contar pro Jack?"
"Eu não pensei, " ela disse na defensiva. "Foi só ... um impulso, eu acho. Acho que uma parte de mim já sabia que ele não me deixaria contar. Se ele tivesse deixado, eu duvido que eu pudesse continuar com aquilo."
"Bem, não foi simplesmente nobre da parte dele?" Sawyer disse com desprezo.
Ela revirou os olhos. "Eu mal o conhecia na época, Sawyer. Provavelmente por isso que parecia fácil... especialmente com todo o caos da queda, e pessoas tentando sobreviver... por favor, ela era muito fácil pra se conversar. Eu não posso dizer o mesmo sobre você."
Ele olhou para ela, mas ela o ignorou.
"Eu acho que o problema no nosso caso é que eu esperei muito. Eu devia ter dito tudo logo no início, assim que você me deixou ficar aqui".
Mas Sawyer ainda estava fixado no comentário anterior dela. Saber que Jack tinha sido capaz de persuadi-la a contar seu passado inteiro fazia com que ele julgasse a si próprio, mesmo que ela aparentemente não o tivesse feito intencionalmente. Bem, Jack não tinha dormido com ela, pensou, tinha? Ele não tinha tanto em jogo, Sawyer disse a si mesmo defensivamente.
Sacudindo a cabeça, ele resmungou, "Conhece o cara por dois malditos dias, e ela está mais do que a disposta a dividir a história de sua vida com ele. Mas o cara com quem ela está dormindo, escondendo ela do FBI e comprando roupas e comida e cachorros e absorventes... Diabos, eu acho que ele não está exatamente à altura. "
"Um cachorro," ela corrigiu, sem poder resistir tirar sarro com ele um pouco.
Ela não achou engraçado.
De repente, outra rajada de vento soprou diretamente contra o lado da casa, deixando pulverizar uma fina névoa em seu rastro. Kate desviou a cabeça tentando se proteger e tremeu de frio.
Ainda bravo, Sawyer tirou sua camisa e arremessou na direção dela sem uma palavra. Com um breve sorriso, ela pôs os braços dentro dela e se cobriu, gostando de como ainda retinha o calor do corpo dele.
Ela observou o perfil dele. Ele agora estava só com uma camisa fina – a que tinha um rasgo na manga que obstinadamente se recusava a retirar. Ele olhava fixo pra frente, obviamente ainda pensando no que ela havia dito sobre Jack. Ele era tão inseguro, era ridículo... Mas por alguma razão inspirava um sentimento de ternura nela.
"Você está certo, sabe," ela disse suavemente.
"Sobre o quê?" ele perguntou com desdém.
"Sobre o que você disse antes... a maneira como eu usei alguns homens, no passado. Fiz eles se apaixonarem por mim, e peguei o que quis e saí fora. Eu fiz isso antes. Mais do que uma vez."
" Deu pra perceber" ele disse em um tom mau-humorado.
Ela concordou com um gesto de cabeça, ficando mais séria.
"Tem uma grande diferença, ... entre antes e agora, Sawyer. A diferença é ..."
Ela fez uma pausa, e seu lábio inferior tremeu um pouco, mesmo que ela tentasse impedir. Ela sorriu um pouco, chateada com ela mesma, tentando segurar as lágrimas.
"A diferença é, " ela repetiu, "Eu não me apaixonei por eles também."
Ele virou a cabeça para encontrar seus olhos, mas então desviou rapidamente. Parecia muito perigoso no momento.
"Como eu poderia saber de o que você está me dizendo é verdade ou não?"
"Por que você é a única pessoa sempre que pôde dizer isso!" ela disse rispidamente. "Você sabe quando estou mentindo. Você sempre sabe quando estou mentindo. Você vai ficar sentando ai e dizer que pensa que estou tirando com a sua cara... que estou atuando, " ela disse, a voz dela falseando na última palavra. "Então eu devia ir agora mesmo. Por que não há razão para continuar com isso por mais tempo, se é assim que você se sente. Você realmente pensa que estou mentindo pra você?" Ela fez uma pausa. "Olhe para mim, Sawyer."
Ele continuou olhando para longe dele, parecendo torturado.
"Olhe pra mim!" Ela suplicou.
Finalmente, ele encontrou seus olhos de novo. A dor e a necessidade que estavam evidente neles, tão perto da superfície, quase dominando-o. Ela olhava como se fosse se partir em pedaços a qualquer momento.
"Você acha que estou mentindo?" Ela perguntou mais uma vez, num sussurro desesperado.
Ele examinou a face dela, mas ele já sabia a resposta.
"Não."
Ele pôde ver o alívio que ela sentou e a súbita mudança na expressão dela. A urgência gradualmente desaparecia só pra ser substituído por algo ainda mais temeroso, ou ainda medo. Olhando para baixo na direção do acento do balanço, ela começou a puxar o botão da camisa, girando-o firmemente de modo inconsciente entre os dedos. Ela estava se preparando.
Depois do que pareceu uma eternidade, ela pareceu ter tomado uma decisão. Não havia porque esperar mais.
"É uma história meio longa," ela disse com voz trêmula, ficando mais pálida assim que as palavras saíam de sua boca.
Pela primeira vez, ele se deu por conta de quanta angústia isso ia causar à ela... Era o abrir de uma porta que ela empenhava muito tempo tentando manter fechada e bem trancada. Até agora, ele só tinha se preocupado com o fato dele não saber. Ele não tinha considerado o que significaria pra ela ter que passar por essa provação.
"Hey," Ele disse, para chamar sua atenção.
Ela fez um esforço para voltar os olhos para os ele.
Por impulso, ele segurou o rosto dela entre ambas as mãos e a beijou, gentilmente, sem insistência. Interrompendo o beijo, ele recostou a cabeça dela em seu peito por alguns segundos, seus dedos repousavam gentilmente sobre a nuca dela.
Quando ele se afastou um pouco, ela olhou para ele indagativamente.
"Deixa pra lá," ele disse, quase ríspido.
"O quê?" Ela perguntou, confusa.
"Não quero que você faça isso. Eu não preciso ouvir. É até melhor mesmo não saber."
Mas ao invés de parecer agradecida, ela parecia alarmada. Ela sacudiu a cabeça negativamente de vagar.
"Você não pode fazer isso... não faça isso, Sawyer."
"Não fazer o quê?" Ele pensou que era isso que ela queria.
"Não..." ela tentou pensar nas palavras certas. "Não volte atrás." Ela estava tentando soar firme, mas não fazendo um bom trabalho. "Se você me der essa opção, eu vou aceitar. Então não dê. Eu preciso..." Ela respirou fundo. "Eu preciso fazer isso. Por favor. Está na hora."
Ele tentou calcular se era o que ela queria realmente ou não, mas aparentemente sim. Além do mais ele sabia que ela estava certa, e isto estava pendente a muito tempo, ele gostaria de nunca ter traduzido à tona.
"Está bem," ele concordou, sentindo uma apreensão crônica.
"Eu quero que você saiba. Tudo," Ela continuou. "Mas..." ela olhou em volta. "Podemos ao menos ir lá pra dentro, pra perto do fogo? Está frio aqui fora."
Ele levantou-se de vagar, estendendo a mão à ela. Ele segurou, fazendo algo que deveria ser um sorriso. Com os braços em volta dela, ele a levou para dentro.
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Primeiro, para adiar o inevitável, eles reuniram cobertores e travesseiros dos quartos lá de cima, dispondo-os no chão em frente à lareira na vã tentativa de criar um ambiente confortável. Sawyer queria ir direto para o whisky, mas Kate sugeriu que começassem pelo café e passassem para algo mais pesado depois, quando eles realmente precisassem. Nenhum deles tinha apetite, então não havia por que pensar sobre o jantar. Eles alimentaram o cãozinho e colocaram mais lenha no fogo, até que chegou o momento em que eles não tinham mais nada para fazer.
Em frente ao fogo, com um travesseiro agarrando um travesseiro contra o corpo, Kate finalmente começou a falar. A iluminação da sala era pouca, e a luz do fogo realçava suas feições, iluminando o azul-esverdeado inconstante de seus olhos, contornando suas bochechas e os cachos de seus cabelos que caíam em volta de seu rosto.
A princípio, durante as primeiras etapas da história, ela pôde manter uma certa calma... quase como um desinteresse. Era como se ela estivesse falando de outra pessoa, alguém com quem ela era vagamente familiarizada. Esses eram os anos felizes de sua vida, sua infância. Eles eram tão normais que quase chegavam a ser entediantes, e eles não davam indicação do que estava por vir.
Gradualmente, as coisas iam ficando mais intensas. Ele podia pressentir a mudança vindo antes mesmo dela. Quando ela atingiu o ponto crítico da narrativa, a calma a abandonou. Ela começou a ser interrompida por ataques de tremor tão intensos que quase pareciam espasmos. Ela engasgava em certas palavras, sendo fisicamente incapaz de pronunciá-las. Sawyer foi forçado a completar algumas palavras para ela, contanto eram quase tão difíceis para ele dizer quanto o eram para ela.
O horror dele aumentava enquanto ela continuava a falar. Se não fosse pela promessa que ele tinha feito a ela anteriormente, ele não teria deixado ela continuar. Mas ele não sabia se a conseguiria fazer parar. Uma vez que as comportas tinham sido abertas, ela parecia estar deixando todas as palavras saírem, sem poder parar, nem mesmo para respirar.
Ele a ouviu falar sobre sua infância, seus pais, seus amigos. Do dia que as coisas começaram a sair erradas. A confiança que havia sido traída. Do terror que ela suportava. Da solidão que a dominava. Da culpa e da dor, do sofrimento, e do medo que nunca a haviam abandonado, nem ao menos por um segundo. De seu desejo desesperador de fugir, e sua incapacidade de fazê-lo. Do que ela finalmente foi forçada a fazer. Do espiral de horror e catástrofes que resultaram disso, fazendo-a virar, irreversivelmente, em uma fugitiva. Da morte de seu melhor amigo. Da traição da própria mãe. Das pessoas que ela usou, e das vidas que ela destruiu. De sua subseqüente transformação em um fantasma, sempre olhando por cima do ombro, nunca estando em paz, pronta para fugir a qualquer sinal. Ela continuava, mais e mais, numa enxurrada de palavras enquanto o fogo queimava lentamente na lareira e ficava completamente escuro do lado de fora. Nenhum deles notou, ou se importou.
O tormento crescia na mesma proporção à dela, então quando ela chegou à uma conclusão, ele estava tão emocionalmente perturbado quanto ela. Nunca na vida ele tinha conhecido alguém, ou nem mesmo imaginado alguém, de quem a história pudesse ser angustiante e perturbadora quando a dele próprio. A raiva que ele sentia em favor dela praticamente o cegava. O simples pensar de tudo que ele sofrera... de tudo que ela teve que suportar, e como se não fosse o bastante, sozinha... Ele não conseguia parar de pensar. Era incomensurável, além da compreensão.
Quando ela finalmente terminou de falar, um tremor incontrolável caiu sobre ela, sendo lamentável de se ver. Até seus dentes tremiam. Ela olhava para ele ansiosamente, esperando por algo, mesmo que ela não soubesse bem o que.
"Kate, " ele murmurou incerto, com uma voz rouca.
A principio, ele achou que ela estava começando a rir. Apesar da inconveniência, era isso que parecia. Mas em alguns segundos, ele percebeu a verdade. Ela estava soluçando. Ele nunca havia visto ela assim antes, e isso o alarmava. Antes que ele tivesse tempo para se restabelecer, ela tremendo rastejou até o colo dele. Intuitivamente, ele a abraçou o mais apertado que pôde. Apesar de atordoado, ele ainda assim era capaz de dar o reconforto apropriado, embalando-a gentilmente para frente e pra trás, sussurrando frases que a acalmassem, afagando seus cabelos, cobrindo seus ombros e pescoço de beijos. Mesmo que ele nunca tivesse feito isso antes, tudo parecia vir naturalmente, para o imenso alívio dele.
Assim, o pranto dela ia diminuindo. Não muito tempo depois, o tremor também cedeu. Para seu espanto, ele percebeu que ela estava dormindo.
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Eles permaneceram onde estavam pelo resto da noite, no chão, em frente ao fogo. Desta vez, quando o pesadelo dela retornou, ele não hesitou sobre o que fazer. Ele já a tinha em seus braços antes mesmo dela acordar.
