Capítulo Bônus
Em Algum Lugar do Passado
Sofia e Peter aparataram na sala de estar da residência da auror. Estavam abraçados e assim permaneceram por um longo tempo, num silêncio cúmplice, a cabeça da bruxa apoiada no ombro do homem que fez parte de tantos momentos importantes de sua vida. Seus olhos estavam fechados e, temia que se os abrisse, Peter desapareceria novamente, embora pudesse sentir a força de seus braços envolta de seu corpo e sua mão deslizando suavemente por seus cabelos. As roupas encharcadas pela água da chuva pingavam formando pequenas poças de água no chão em volta deles, mas eles pareciam não se importar.
A penumbra da sala era quebrada apenas pelas chamas fracas da lareira, que ardiam até quase se extinguirem, projetando a sombra deles contra a parede. A chuva colidia feroz contra as vidraças, enquanto o vento assobiava ainda mais alto do que tempestade ao lado de fora.
Um baque seco atravessou o local quebrando o silêncio e os dois foram trazidos de volta a realidade. Sofia estremeceu de susto e sacou a varinha rapidamente da capa encharcada. Peter a abraçou mais forte, instintivamente. Levou o dedo indicador aos lábios dela, e com a varinha em punho, varreu silenciosamente o local com os olhos, não conseguindo avistar nada de suspeito. Pé ante pé, caminhou em direção ao corredor, sem fazer o menor ruído. Então, para sua surpresa, um vulto veloz cortou o espaço próximo ao chão na sua direção e o auror sentiu um puxão na barra de suas calças.
- Espectro, acalme-se! – disse pegando o amasso no colo, acariciando a pelagem malhada atrás de suas orelhas. Sofia se aproximou, parando na porta em silêncio e sorriu, observando o carinho que um tinha pelo outro. Parecia que tudo estava voltando ao normal, exceto por... Charlie. Do nada, a lembrança do amigo voltou a sua mente e uma angustia repentina se apossou da auror.
- Peter... Eu preciso fazer uma coisa... - disse a bruxa timidamente, a alegria desaparecendo completamente de seu rosto – Preciso ir até A Toca – parou em frente a Peter, observando o brilho de seus olhos sumir - Desculpe, preciso ver se Charlie está bem.
- Sofie, eu entendo sua preocupação, mas você não está em condições de ir a lugar algum nesse estado. É melhor você tomar um banho e se aquecer, antes que fique doente. Ainda não entendi o que foi que deu em você para sair debaixo daquele temporal... – Peter afastou os cabelos molhados do rosto dela, tirando-os da frente de seus olhos – Descanse essa noite e amanhã você fala com ele. Você precisa de um tempo para... – Sofia levou os dedos aos lábios de Peter interrompendo-o, e então o beijou. Por alguns minutos, o tempo pareceu desaparecer a volta deles, levando consigo os problemas que teriam que enfrentar dali para frente. Mas, por alguns breves momentos, o mundo era apenas deles.
Peter preparou um banho quente para Sofia. Encheu a banheira com sais e uma poção relaxante que lançava bolhas azuladas na superfície da água. Um céu estrelado dera lugar ao teto e o único resquício do temporal que caia ao lado de fora era o som da chuva roçando o telhado.
A auror estava imersa na água, coberta de espuma até os ombros. Seu olhar distante, denunciava que estava perdida em seus próprios pensamentos. Peter estava sentando no chão, ao lado da banheira. As costas apoiadas na parede, o cotovelo apoiado próximo a cabeça de Sofia. Sob a mão direita, apoiada no chão, repousava a varinha do auror, preparado para agir em caso de perigo. Vez ou outra olhava para ela, mas não tinha coragem de fazer as duas perguntas que estavam a lhe atormentar desde que conversara com Kingsley.
Fora Sofia quem quebrara o silêncio primeiro.
- Peter... – a bruxa olhava para ele pela primeira vez desde que entrara na banheira - Como você conseguiu... – as palavras morreram em sua boca, antes que terminasse a frase.
- Escapar dos comensais? – Peter completou a pergunta de Sofia e esta acenou afirmativamente com a cabeça. De alguma forma, sabia que esta era a pergunta que ela quisera lhe fazer desde o começo.
- Se você quiser falar a respeito, é claro – Sofia complementou ao ver uma pontada de dor estampada no rosto dele.
- Não, tudo bem. Você tem o direito de saber, embora as lacunas na minha memória ainda traiam minhas lembranças.
A expressão no rosto do auror mudou novamente, agora parecia de pesar. Ele suspirou fundo antes de começar o relato.
- Passei dias seguindo as pistas deixadas pelos comensais nos arredores de Cambridge, até que finalmente, estava perto de alcançá-los. Estavam poucas horas a minha frente, rumo ao norte... - O auror contou tudo que conseguia lembrar e cada vez que se voltava para Sofia, podia sentir o sofrimento estampado nos olhos dela.
- ... Então, uma luz prateada me fez despertar. Ela era tão brilhante, tão bela... Demorei alguns instantes para perceber do que se tratava, até que o unicórnio começou a falar e a sua voz, Sofie, se propagou pelo quarto. Foi você que me trouxe de volta – ele fez uma pausa e respirou fundo antes de prosseguir - A única coisa que consegui pensar foi que você estava correndo perigo e que precisava encontrá-la. O patrono denunciava seu paradeiro, então não pensei duas vezes antes de ir ao seu encontro em Hogwarts. O restante você já sabe... Encontrei seu medalhão em meio aos escombros da Sala de Transfiguração, achei que tivesse te perdido e depois confirmei isso, de certa forma – agora eram os olhos de Peter que estavam distantes. Ele olhava para o nada, como se a dor das lembranças fosse insuportável demais para encarar Sofia naquele instante.
- Sinto muito, Peter. Se eu pudesse voltar no tempo...
- Você não tem do que se desculpar, Sofia. Fez o que era melhor para você. Agora consigo entender... – o auror engoliu em seco – Depois de tudo que você passou é compreensível... – Peter se interrompeu antes que denunciasse o quanto sabia a respeito do seqüestro de Sofia e por mais que quisesse perguntar a respeito, se conteve.
O silêncio se abateu no cômodo outra vez. O instinto de auror dizia a Sofia que Peter tinha conhecimento de tudo que se passara após a suposta morte dele, mas não sabia se estava pronta para falar a respeito.
- Você está tremendo de frio – disse ela com a voz terna e suave, vendo-o ainda com as roupas molhadas - Vou deixá-lo tomar banho - Pegou uma toalha, se enrolando rapidamente, e saiu da banheira, parando na porta do banheiro – Estarei no quarto se precisar.
Dito isso, a bruxa maneou a varinha trocando a água da banheira. Murmurou um feitiço fazendo com que a água se iluminasse, pegou toalhas limpas para Peter e deixou o banheiro.
Sofia estava pronta para dormir. Trajava uma delicada camisola de cetim branco, que ganhara de Peter tempos atrás. Seu perfume exalava por todo aposento perfumando o ambiente. A bruxa se olhava no espelho enquanto secava os longos cabelos com o ar aquecido proveniente da varinha. Em poucos segundos, eles já estavam completamente secos e arrumados. Foi então que um barulho na janela a pegou de surpresa. Errol bicava o vidro numa melodia repetitiva e irritante. Encharcado pela água da chuva, a coruja entrou afoita no quarto, quando a janela foi aberta. Sobrevoou a cabeça de Sofia agitando as asas para que secassem e soltou um pergaminho sobre a cama, antes de sair voando desajeitado pelo mesmo lugar de onde viera.
Curiosa, Sofia foi até a cama. Pegou a carta, rompendo seu lacre de cera e correu os olhos pela caligrafia bem conhecida, receosa pelo que poderia encontrar.
"Querida Sofi,
Sempre acreditei que todos nós somos capazes de traçar nossos destinos ou pelo menos capazes de lutar contra ele e mudar o rumo de nossas histórias. Ontem, no entanto, compreendi que nada acontece por acaso. Não podemos fugir do que nos foi destinado, embora precisemos acreditar que tudo é possível, para que possamos seguir adiante.
Não foi por acaso que voltei da Romênia quando Peter se foi e nem será por acaso que voltarei a Romênia, agora. Eu pertenço aquele lugar e aos meus dragões, assim como você e Peter pertencem um ao outro.
Acredite, estar ao seu lado foi uma das melhores coisas que aconteceu na minha vida e, por mais estranho que pareça, é isso que torna mais fácil dizer adeus. Meu lugar não é aqui, você sabe. E seu lugar é ao lado do homem que você sempre amou e que sempre vai te amar. Só Peter pode devolver o brilho aos olhos daquela garota que conheci em Hogwarts, a minha melhor amiga. Ter uma segunda chance não é para qualquer um e sei que você fará o que seu coração manda. Não sinta culpa por se permitir viver a vida que você sempre quis e saiba, que por mais que não esteja perto, estará sempre comigo.
Até breve, minha amiga,
Com amor,
Charlie Weasley"
A auror se deixou cair sentada sobre as cobertas. Não sabia o que pensar depois do que acabara de ler. Sentia um misto de alívio e culpa, pelo que fizera a Charlie. Tinha consciência, que apesar das palavras encorajadoras do amigo, ela o havia magoado muito. Queria poder voltar atrás e fazer tudo diferente. Nunca havia se permitido amá-lo completamente, pois a lembrança de Peter sempre fora viva em sua memória e em seu coração. No fim, acabara magoando aos dois. Peter, por não ter acreditado o suficiente e ter se entregado ao desespero. Charlie, por não poder retribuir o sentimento que este nutria por ela na mesma intensidade. E agora, que as coisas estavam voltando aos seus devidos lugares, não sabia como reagir.
- O que aconteceu, Sofie? – Peter entrara no quarto sem que Sofia percebesse.
A bruxa moveu os lábios para falar, mas as palavras não saíram. Então, se levantou e abraçou Peter demoradamente.
- Tudo bem, não precisa falar se não quiser – disse o rapaz afagando seus cabelos.
- Charlie está voltando para a Romênia, Peter. Não queria que as coisas tivessem acontecido assim – Sofia foi até a janela e pegou Espectro que descansava sobre o parapeito interno. Seu olhar se perdeu na chuva lá fora por alguns instantes e então ela sentou no lugar onde o amasso estivera antes, apoiando um dos pés no chão.
- Talvez seja melhor assim. De qualquer forma, não há nada que você possa fazer agora. Se bem conheço Charlie Weasley, a essas horas ela já está dentro de um trem a caminho de casa – comentou Peter, sem saber o que dizer para acalmá-la, estendendo a mão para ela – Vamos, você precisa descansar. Os dois precisam de um descanso. Durma um pouco e amanhã veremos como resolver essa situação da melhor forma.
- Os dois? – a bruxa perguntou sem entender.
- Você e o bebê – Peter respondeu constrangido.
- Quem te contou?
- Isso não vem ao caso, Sofie. Vamos, você precisa descansar.
- Bem, não importa quem falou, a questão é que não estou grávida – Sofia deixou escapar um lamento.
- Ah... Eu sinto muito, Sofie. Não sabia que...
- Não se preocupe, está tudo bem – Sofia não queria falar a respeito. Pelo menos, não ainda. – Vamos dormir – disse ela desconversando. Pegou a mão de Peter e o puxou até a cama. Espectro deitara sobre as cobertas e se acomodara para dormir aos pés deles. O rapaz abraçara a jovem bruxa, que deitara a cabeça em seu peito, enquanto ele afagava seus cabelos. E, apesar do cansaço, nenhum deles conseguia dormir. Ficaram assim por um tempo, quietos, abraçados um ao outro.
- Peter, gostaria que você fosse comigo há um lugar, amanhã – Espectro se remexeu ao escutar a voz de Sofia e depois voltou a dormir.
- Claro que eu vou, mas que lugar é esse? Ministério, A Toca... – perguntou ele, curioso.
- Amanhã você saberá.
- Nossa, quanto mistério Srta. Gryffindor.
- Não tem mistério, é apenas uma coisa que preciso fazer e gostaria muito que você estivesse junto.
- Está certo, controlarei minha curiosidade até daqui algumas horas. Agora, melhor dormirmos, logo irá amanhecer.
- Boa noite, Peter!
- Durma bem, Sofie!
Pouco tempo depois, os dois acabaram se rendendo a exaustão e ainda abraçados, adormeceram.
A chuva cessara, finalmente, e raios de sol atravessavam a janela, iluminando o aposento com a claridade da manhã. Peter observava Sofia dormir. Aos seus olhos, parecia um anjo adormecido, descansando após uma batalha contra as forças das trevas. Sua mão repousava ao lado de seus cabelos esparramados pelo travesseiro. Seu peito arfava suave elevando o fino tecido de sua camisola. O auror se perguntava como pudera passar tanto tempo longe de sua amada e como tivera coragem de pedir que ela partisse de sua vida, quando ela era a sua própria vida.
As marcas do que ela passara ainda estavam estampadas no seus olhos quando se abriam e nas cicatrizes, agora finas e superficiais, que ainda rasgavam sua pele delicada. Peter começava a compreender que as dores mais destrutivas da guerra não eram físicas, mas as retalhadas em suas almas.
Seus dedos deslizaram de leve pelo rosto de Sofia, descendo por seu pescoço, ombro e braço até chegar a palma de sua mão esquerda, estendida sobre o tecido alvo. Havia uma linha fina, quase imperceptível, mas que para o auror representava um dos momentos mais importantes de sua vida e a maior prova de amor que alguém poderia receber. A cicatriz era um resquício do dia que Sofia decidirá abrir mão de sua própria vida para que ele sobrevivesse, do dia que o amor fora capaz de transcender a barreira entre a vida e a morte e assim, quebrar a mais cruel das maldições. Desde aquele dia, a Maldição de Slytherin não tinha mais qualquer efeito sobre eles e não podia mais lhes causaria mal. Desde aquele dia, eles haviam se tornado um só. Desde aquele dia, suas almas voltaram a ser apenas uma.
Por mais que o tempo fosse capaz de apagar certas marcas, sempre haverão aquelas que não serão esquecidas, sejam elas boas ou ruins. Peter esperava que um dia, as boas recordações em suas vidas fossem mais numerosas dos que as dos dias sombrios e que Sofia pudesse superar os momentos difíceis que passara nos últimos tempos. Esperava que ela pudesse perdoá-lo por não ter estado ao seu lado num dos momentos em que mais precisara, por não a ter protegido das garras asquerosas dos comensais e de Voldemort. Talvez, e lá no fundo ele sabia disso, fosse ele próprio quem precisava se perdoar.
Com uma mão pousada sobre o peito de Sofia e a outra unida a dela, Peter acabou adormecendo novamente algum tempo depois, e só despertou outra vez, quando as primeiras horas da manhã já haviam passado.
Sofia e Peter cortavam os céus de Londres, sobrevoando a cidade em suas vassouras. O vento arranhava seus rostos, sutil e gélido. O feitiço desilusório os mantinha ocultos de olhares mais atentos, enquanto rumavam para oeste, sem que o auror soubesse o destino de sua jornada.
- Estamos chegando... – disse a auror reduzindo a velocidade de sua Firebolt, iniciando a descida. Peter acompanhou os movimentos da auror e começou as manobras de pouso.
Os bruxos aterrissaram em algum ponto nos arredores de Londres. Uma imponente propriedade se erguia a frente deles, cercada por muros altos que ocultavam seu interior e atiçavam a sua curiosidade. Era uma residência tradicional, a notar pelos detalhes externos e, apesar do péssimo estado de conservação, podia-se ver a riqueza nos detalhes e a sofisticação na aparência clássica.
Um alto portão enferrujado pelo tempo marcava a entrada da propriedade. No centro, um antigo brasão escondia-se sob a trama das trepadeiras, além do que restara de antigos puxadores. Os muros e cercas estavam em algum lugar, ocultos sob a vegetação selvagem que crescia para todos os lados. Pelas poucas frestas visíveis entre folhas, galhos e flores, era possível visualizar uma amostra superficial do que havia ao lado de dentro. A ladeira que levava até a casa era formada por um tapete de folhas secas, que se estendia por todo o terreno e só era possível distingui-la, devido ao mato que crescera nas laterais. Se antigamente havia um gramado, agora só restava um matagal alto, folhas e galhos secos. Árvores estavam dispostas por todo o terreno, principalmente próximo a entrada, obstruindo a visão da residência mais ao fundo.
Peter observava admirado cada detalhe acessível aos seus olhos. O lugar era incrível, embora maltratado pelos anos de abandono. No fundo, o auror sabia onde estava, mas talvez tivesse receio em admitir o óbvio.
- Sofie, onde estamos? – o rapaz perguntou, finalmente despertando a atenção da bruxa, que observava o lugar numa espécie de transe.
- Logo você verá... – disse ela se aproximando dos portões, fitando-os por algum tempo.
- Raio de sol, raio de luar, gotas de chuva a bailar... – Sofia sussurrou a canção, e com um leve empurrão, as pesadas barras de ferro cederam, liberando a passagem.
De repente, Sofia era uma garotinha outra vez. Ela corria contente pelo gramado, os cabelos esvoaçando ao vento. Adhara tocava sua canção favorita no violão. Tinha apenas quatro anos e uma vida inteira pela frente.
As folhas secas estalavam sob seus pés, os pássaros cantavam a sua volta. Peter a seguia em silêncio. O momento era dela e de mais ninguém. Só agora podia ter uma noção real da beleza do lugar. Ele tinha a impressão de que se fechasse os olhos, poderia ver realmente como tudo fora um dia. A magia do lugar estava a sua volta, como se emanasse da própria terra, do próprio ar. Sofia parecia hipnotizada por estar ali e a cada passo que dava em direção a casa, seus pensamentos se distanciavam mais do alcance de Peter. A casa de dois andares era grande e bonita. Uma mistura harmoniosa da tradição inglesa com um toque sutil da cultura moderna. A fachada georgeana era valorizada de forma surpreendente pela introdução de elementos arquitetônicos do século XX e, apesar dos tapumes nas janelas, não perdia nada do seu requinte.
- Pó de estrelas – a voz escapou como um doce sussurro dos lábios da bruxa e agora eram as portas da casa que se abriam. Peter tinha a impressão que Sofia havia esquecido de sua presença, até que sentiu o toque suave da mão dela na sua. Ela o conduzia para o interior da casa, sem dizer qualquer palavra.
O ar pesado invadiu seus pulmões, denunciando os longos anos em que a casa permanecera fechada. A porta se fechou atrás deles com um baque seco e a escuridão se apossou do lugar.
- LUMUS! – disse Peter e a luz de sua varinha iluminou o local. Estavam num amplo e claro hall de entrada. Havia chapeleiros nas laterais, um armário alto de madeira nobre e entalhes sofisticados logo adiante e, na parede oposta, um aparador com pés trabalhos e um espelho sobre ele. O hall se abria para uma sala ampla, porém confortável. Peter reconheceu o lugar de imediato. Era surpreendente estar ali de verdade e não mais em uma lembrança.
Sofia maneou a varinha, abrindo todas as janelas do térreo com um único movimento. A claridade da tarde invadiu a sala, despertando o homem da moldura acima da lareira. Pego de surpresa pela luz repentina, ele apontou a espada, que parecia atravessar o quadro na direção deles. Aos poucos, Godric foi se acostumando com a claridade e seus olhos se fixaram na auror. Ele deixou escapar um sorriso constrangido, deu uma piscadinha para ela e voltou a assumir sua postura costumeira, apoiando novamente a espada em frente ao corpo.
Tudo estava exatamente com Sofia conseguia lembrar. As poltronas dispostas próximas a lareira, os móveis, as pesadas portas de carvalho abertas para a sala de jantar, o escritório mais ao fundo, a parede em ruínas. Seu livro ainda repousava aberto sobre o tapete, no lugar onde o havia deixado da última vez que estivera ali. Ela se abaixou para pegá-lo. As letras da capa brilhavam formando o título "Como Azarar Fadas Mordentes Antes que elas Mordam Você". Um buraco de bordas chamuscadas atravessava a metade direita e quase consumira o canto inferior. Com certeza, algum dos feitiços daquela noite lamentável o havia atingido. Esquecendo-se momentaneamente da presença de Peter, a jovem bruxa começou a folhear as páginas amareladas e manchadas pelo tempo, cheias de recordações de seu passado.
Um estrondo ao lado de fora da casa fez Sofia estremecer de susto e o livro escorregou de suas mãos para o chão. Ela olhou assustada para a mãe e antes que percebesse o que estava acontecendo, cincos pessoas usando capa e máscara entraram na sala, precedidas por um homem alto de aparência ofídica. Estavam armados com varinhas e as apontavam na direção dos três. Também de varinha em punho, Adhara foi ao encontro da filha e a protegeu rapidamente com o corpo, escondendo-a atrás de si. Daniel saltou do sofá e se postou ao lado da esposa, pronto para lutar, ou morrer defendendo sua família.
Voldemort vinha a frente, liderando o grupo de comensais. Sua aparência ofídica fez Sofia se encolher de medo atrás da mãe. Ela já ouvira seus pais falarem a respeito do bruxo, mas nunca imaginara que um dia ele estaria em sua casa, cercado por seus comensais da morte.
Uma figura de estatura mediana surgiu de trás do grupo e parou ao lado de Voldemort. Jogou o capuz para traz, soltando os cabelos negros sobre os ombros e então, retirou a máscara, revelando sua identidade. A cor abandonara o rosto de Adhara. Era cruel demais para acreditar que aquilo realmente estivesse acontecendo.
- Que modos rudes são esses, Adhara? Tantos anos sem me ver e quando finalmente nos reencontramos você faz essa cara de desgosto, irmã? - disse a bruxa em tom sarcástico, frizando séria a última palavra.
- Bellatrix! – exclamou Adhara, ainda em estado de choque. Daniel segurou o braço da esposa, temendo que ela tomasse alguma atitude impensada. Apesar do auto-controle comum aos aurores, seria difícil manter a calma numa hora como esta. Não era apenas a vida deles que estava em jogo, mas de sua filhinha, também.
- Porque o espanto, achou que iria perder uma oportunidade como essa? Não se engane, querida irmã – Bellatrix proferia as palavras com desdém – Oportunidades assim são únicas e imperdíveis. Não é todo dia que temos o prazer de podar os ramos podres e contaminados da família.
- Cale a boca, Bella! Quanta asneira... Existem coisas tão mais importantes do que as mesquinharias que você dá valor... – Adhara tentava ganhar tempo. Precisava tirar Sofia dali antes que fosse tarde demais.
Daniel mantinha os olhos fixos nos comensais e em cada mínimo movimento que estes faziam. Seu instinto dizia que eles não estavam ali a procura de algo, mas para acabar com tudo que mais lhe importava – a sua família.
Apesar do medo, Sofia espiava os bruxos negros pelo reflexo de um espelho, sem conseguir entender o que se passava. O que aquelas pessoas assustadoras queriam ali na sua casa? Porque aquela mulher estranha e malvada havia chamado sua mãe de irmã?
- A mesma Adhara tolinha de sempre... – Bellatrix deliciava-se com a situação – Cheia de palavras bonitas, ideais nobres e nem um pouco de bom senso. Você renegou o nome de sua família, traiu nosso sangue... – ela brandia a varinha de forma ameaçadora na direção da irmã - Poderia ter uma vida de acordo com a nossa posição privilegiada, mas preferiu trocar tudo... Pelo que? Ideais fracassados e sangues-ruins? Você achou que nunca chegaria a sua vez, sua traidora de sangue medíocre?
- Você fala demais, Bella... Nebulorun! – um denso nevoeiro tomou conta da sala, bloqueando a visão dos comensais. Aproveitando o momento, Adhara abraçou Sofia e desaparatou com ela. No mesmo instante, diversos feixes de luz atravessaram a neblina, disparando feitiços em todas as direções. A parede atrás de Daniel explodiu, lançando destroços sobre ele.
- Andem logo, seus incompetentes! Elas não têm como sair da casa, encontrem-nas! – ordenou Voldemort, enquanto a neblina se dissipava. Esperou os comensais obedecerem suas ordens, exceto por Rodolphus e Lucius que permaneceram como seus féis capachos, e foi caminhando calmamente, até onde Daniel estava caído.
- Você não achou realmente que eu iria permitir que vocês escapassem, achou? – cutucou o bruxo com a varinha pra ver se ele ainda respirava - Tomei todas as providências necessárias para que um desapontamento como esse não acontecesse. Se vocês tentarem alguma estupidez, como desaparatar ou fugir por algum lugar, irão constatar que bloqueei todas as saídas da casa. Vocês estão presos em seu próprio túmulo.
Ainda atordoado pela explosão, o auror empurrou os destroços e se colocou em posição de combate outra vez. Segurava a varinha firme em sua mão, pronto para atacar. Estava em desvantagem numérica, mas não iria desistir por causa disso. Adhara e Sofia precisavam dele.
- Não vou permitir que você as machuque! – o auror sabia que qualquer investida contra Voldemort poderia ser o fim, mas ele precisava tentar. Não tinha outra saída.
- Você acha mesmo que pode alguma coisa contra Lord Voldemort? – o bruxo sibilava as palavras como uma serpente – Não seja tolo, jovem Gryffindor. Poderia acabar com você facilmente agora mesmo, mas qual seria a graça? Será tão mais divertido acabar com a sua garotinha e sua esposa primeiro...
- Miserável! – Daniel disparou um feitiço não verbal tão rápido que Voldemort não conseguiu se esquivar a tempo, tendo parte do braço rasgada.
- Excelente! Isso vai ser mais divertido do que pensei... INCENDIO! – agora era a vez de Voldemort revidar, mas Daniel conseguiu se defender com um feitiço escudo antes de ser atingido, fazendo com que labaredas de fogo espirrassem na direção de seus adversários. Lucius e Rodolphus observavam divertidamente o duelo, não vendo a hora do auror ir ao chão.
- CONFRINGO! – o auror disparou o feitiço na direção de Voldemort, mas não chegou a ver se a explosão havia atingido seu oponente. Uma dor insuportável tomou conta de seu corpo, seus joelhos cederam e ele foi ao chão. A Maldição Cruciatus fora usada covardemente pelos comensais e Daniel não tivera como revidar. Sentia como se cada músculo de seu corpo estivesse rasgando e seus ossos partindo em centenas de pedaços. Ao fundo, podia escutar as risadas dos comensais, misturadas a do próprio Voldemort.
Sofia observava com a mãe tudo que acontecia no andar de baixo, escondida ao lado de um velho armário no mezanino. Adhara tentara desaparatar com a filha para fora da propriedade, mas uma barreira invisível impedira que elas saíssem da casa e as duas foram arremessadas novamente para o interior da moradia. Quando Daniel tombou, a auror teve que conter o grito de Sofia com a mão para abafar o som. E então, levou-a sorrateiramente até o quarto da garota.
- Sofia, me escute com atenção e faça tudo que eu mandar – disse Adhara abraçando a filha – Não importa o que aconteça, você precisa ficar escondida, entendeu? Eles não podem te achar...
- Mãe, estou com medo – a garotinha choramingou, afundando o rosto nos cabelos de Adhara.
- Eu sei meu amor, mas não precisa se preocupar. Tudo acabará bem – Adhara secou as lágrimas que escorriam pelo rostinho de Sofia e abraçou-a mais uma vez – Prometa Sunshine, que aconteça o que acontecer, você vai se esconder deles.
- Eu prometo, mãe. Mas, eu não quero que me deixe...
- Lembra daqueles feitiços que treinamos? – Adhara sorriu para a filha, que assentiu com a cabeça – Se por acaso você precisar deles, concentre-se e lembre-se que sempre estaremos com você. Sempre, entendeu? Nunca iremos te deixar sozinha, mesmo que você não possa nos ver.
- Eu te amo, mãe! – Sofia jogou os braços em torno do pescoço de Adhara e a abraçou forte.
- Eu e seu pai também te amamos muito. Agora precisamos nos apressar... Vamos despistar aqueles comensais, ok? – disse Adhara, afagando os cabelos da filha, ao escutar vozes próximas de onde estavam. Ela abriu uma fresta na porta e espiou com cuidado pela abertura. Os comensais estavam no topo da escada e se dividiam pelos corredores.
- Vamos, pegue a sua varinha... – Sofia correu até uma cômoda e tirou a varinha do interior de uma caixa aveludada. Fazia poucos dias que tinha sua própria varinha – Ébano, 30 cm, garra de fênix – mas, apesar do pouco uso, parecia que estavam juntas há muito tempo. O Sr. Olivaras ficara admirado com a varinha destinada a Sofia. "O Ébano é considerado a madeira mais poderosa e confere a seu usuário poderes ilimitados, bem como capacidade de proteção sem precedentes. Um objeto tão poderoso está destinado a grandes feitos, assim como o seu dono" dissera ele na ocasião.
- Vai dar tudo certo, confie em mim – Adhara espiou novamente pela abertura na porta e deu um último beijo em Sofia – Te amo, Sunshine! – A auror foi a primeira a deixar a sala, seguida pela garota. Numa das mãos segurava a varinha e na outra a mão da filha. As duas se esgueiraram pelo corredor escuro, em silêncio, até a sala de música no outro extremo. Era uma sala grande e espaçosa, toda de vidro. Uma das portas dava para um jardim de inverno e as outras se abriam para a área mais elevada do pátio. Havia um piano de cauda na parte da frente, ao lado do jardim interno, e um violoncelo descansava num suporte logo a frente. Da metade para o fundo, haviam estantes abarrotadas de livros e poltronas confortáveis dispostas de forma harmônica. Um ambiente moderno e ao mesmo tempo sofisticado, com um toque de muito bom gosto.
Adhara guiou a filha até o jardim de inverno e sinalizou para que ela se escondesse ali. Sofia obedeceu as ordens da mãe, sentando num canto, atrás de uma folhagem. Segurava a varinha firme entre os dedos, enquanto via sua mãe deixar a sala. Os cabelos longos de Adhara esvoaçavam enquanto ela corria até a porta, dirigindo-se a batalha. Seus olhos brilhavam pelas lágrimas, quando olhou para Sofia uma última vez e se despediu com um aceno. Essa seria a última vez que a pequena bruxa veria sua mãe com vida, embora ela ainda não tivesse conhecimento da cruel realidade.
Sofia fechou os olhos e rezou baixinho, para que Deus os mantivesse a salvo. Por algum tempo, ela ainda escutou os sons da batalha, mas depois tudo cessou. Ela não sabia o que tinha acontecido. Se esgueirou até a frente do jardim e espiou o andar de baixo pelos vidros, mas não conseguiu avistar muita coisa. Um dos comensais caminhava pelo pátio da frente, o cara-de-cobra também estava lá, mas nem sinal de seus pais. Então, um lamento de dor chegou aos seus ouvidos e ela reconheceu a voz da mãe. No mesmo instante, o comensal olhou para cima e avistou a garota em seu refúgio.
Agora Sofia não tinha opção a não ser sair dali. Esquecendo a promessa que fizera, deixou o esconderijo e saiu correndo pela sala de música. Precisava achar sua mãe e ver se ela estava bem.
Pelos vidros da sala, podia ver o reflexo das luzes cortando a escuridão. A luta ainda não havia terminado. Talvez ainda pudesse fazer alguma coisa. Em silêncio, percorreu o corredor e quando já quase na escada principal, escutou vozes se aproximando.
- Ela é apenas uma garotinha Rodolphus, não poderá fazer nada contra nós – Sofia reconheceu a voz esganiçada de Bellatrix. Sem tempo para se esconder novamente, a bruxinha entrou no primeiro cômodo aberto e ficou esperando pelos comensais.
- Apareça., Sofia. Não tenha medo, não queremos te fazer mal – dessa vez, era uma voz masculina que ecoava pelos corredores e o instinto da garota dizia para não acreditar neles. O som dos passos estava cada vez mais próximo, assim como as luzes provenientes das varinhas. Logo a encontrariam. Eles abriam todas as portas pelo caminho e vasculhavam os quartos a procura dela. Não sabia dizer quantos eram, mas não iria se entregar.
Agora o som dos passos era tão próximo, que Sofia tinha a impressão que eles poderiam ouvir as batidas aceleradas de seu coração. Estavam parados na porta da sala de estar. Ela, escondida atrás do sofá. Depois de alguns breves instantes de silêncio sepulcral, os comensais entraram no aposento. Caminhavam com leveza, mas não o suficiente para evitar um leve ruído ao toque de seus pés com o chão. A garota prendeu a respiração, eles estavam ao seu lado. Sem pensar, ela se ergueu rapidamente, postando-se em posição de combate. Não sabia ao certo o que estava fazendo, mas apesar da pouca idade, conhecia alguns feitiços de proteção que aprenderam com os pais, além de algumas técnicas de duelos, que adorava praticar com Sirius, James e Lupin.
Os comensais riam dela. Bellatrix parecia não acreditar que uma bruxa tão pequena pudesse desafiá-la para o combate e mantinha a varinha empunhada na direção da sobrinha. Rodolphus e Lucius não sabiam se riam da menina, por sua ingenuidade ou se de Bellatrix, por se prestar a papel tão ridículo.
- Vamos, não seja tola, baixe essa varinha. Você não duraria um segundo na minha mão – Bellatrix se divertia com a situação. Ao seu ver, a sobrinha não tinha noção do perigo que estava correndo. Pelo menos era corajosa como os Black, apesar de tola como sua irmã. Talvez, ainda houvesse tempo para convertê-la e assim, torná-la uma bruxa digna de sua nobreza e pureza de sangue, mas não estava muito certa disso. Afinal, ela era filha de uma traidora de sangue e de um amante de sangues-ruins. Não seria digna de seus ensinamentos.
Sofia olhava para ela sem desviar a varinha um milímetro sequer. Estava com medo, muito medo, mas sabia que se os comensais percebessem sua fraqueza, seria um alvo ainda mais fácil para eles. Aprendera com seu pai a dominar os sentimentos e não deixar transparecer para os outros. Ele dizia que isso poderia fazer uma enorme diferença quando ela fosse maior. Ela não entendia muito bem dessas coisas, mas tentava seguir os ensinamentos dos pais.
- LEVICORPUS! – gritou Bellatrix, disparando o feitiço na garota.
- PROTEGO! – rebateu Sofia, bloqueando o feitiço da comensal.
- Isso vai ser muito mais divertido do que eu pensava... - riu Bellatrix - CONFUN...
- IMPEDIMENTA! – Sofia foi mais rápida que a comensal, paralisando-a por alguns instantes.
- EXPELLIARMUS! – agora era a vez de Lucius. O feitiço acertou Sofia, arremessando-a contra a parede, a varinha escapando de sua mão.
- Nunca subestime seu próprio sangue, Bella – disse Lucius para provocá-la – A pirralha é filha de aurores, achou que não saberia nada? – o comensal encurralava a garota contra a parede. Ela segurava o braço ferido na colisão e um risco de sangue escorria de sua testa. A varinha havia rolado para baixo do sofá, longe de seu alcance.
- Você deveria aprender a não se meter com meus assuntos, Lucius. Pode acabar sobrando para alguém mais do que a pequena Gryffindor... – Malfoy conseguira irritar Bellatrix.
- Veja Gryffindor, ele acha que não consigo dar conta de uma garotinha estúpida como você. Acho que precisamos mostrar para ele quem é que manda aqui – a comensal apontou a varinha sem piedade para Sofia.
- DIFFINDO!
O feitiço acertou a pequena Sofia em cheio, rasgando sua roupa em vários lugares. Logo, o sangue escorria pelos diversos cortes em seu corpo. Mesmo assim, a garota fazia o possível para não chorar na frente deles.
- Vamos Bellatrix, acabe logo com isso. Como você mesma disse, ela é apenas uma garotinha – disse Lucius, achando tudo aquilo desnecessário. Torturar uma criança não era bem o que ele tinha em mente como diversão.
- Por que você não cuida da sua vida, Malfoy?
- Talvez porque você não sabe cuidar de um pequeno assunto para Milord, querida cunhada?
- Isso Malfoy, continue achando que é melhor do que eu...
- Será que dá para vocês dois calarem a boca? – Rodolphus se intrometera na discussão.
Sofia se aproveitou da distração dos comensais para recuperar sua varinha e fugir, enquanto eles continuavam a discutir entre si. Esperava que demorassem a perceber que ela havia escapado. A garota correu escada abaixo, esquecendo que poderia haver mais comensais na sala, mas ao chegar no último degrau, a única pessoa que avistou foi sua mãe, caída alguns metros adiante.
Assustada, foi ao encontro da mãe e abraçou seu corpo imóvel, chorando desesperada sobre ele.
- Mãe, acorde mãe – dizia entre soluços, balançando o corpo de Adhara - Não me deixe aqui sozinha...
- Que ceninha patética, Gryffindor – debochou Bellatrix, parada na escada. Sofia ergueu os olhos na direção da comensal, enquanto ela descia calmamente os degraus. Foi então que avistou seu pai, caído sem vida ao lado do sofá.
Completamente desnorteada, a pequena bruxa tentou fugir. Saiu correndo pela casa, tentando escapar dos feitiços dos comensais, que agora cortavam o ar sobre sua cabeça. Não havia como se esconder, nem como escapar. Ela estava cercada. As gargalhadas dos comensais ecoavam alto ao seu redor.
- Pequena Sofia, você acha que vai conseguir escapar de Lord Voldemort? - disse uma voz fria, seguida por mais risadas. Então, Bellatrix se aproximou da garota, com um sorriso doentio nos lábios.
- Não tente resistir minha "querida" sobrinha ou podemos transformar a sua passagem para a outra vida ainda mais dolorosa - A mulher sorriu maquiavelicamente e apontou a varinha para ela sem piedade.
- CRUCIO! - Mais risadas ecoaram pelo aposento, enquanto a pequena Sofia se contorcia de dor sobre o chão. A bruxa perdera a noção do tempo e de tudo que acontecia a sua volta. Quando achou que seu corpo não agüentaria mais, a dor cessou. O homem de aparência ofídica se aproximou dela com a varinha mirada em seu coração e falou com a maior naturalidade:
- Avada Kedrava! - Então, tudo se tornou escuridão.
Sem saber quanto tempo havia passado e o que tinha acontecido, a garotinha abriu os olhos lentamente, ainda atordoada pelo efeito devastador da Maldição Cruciatus, e viu de relance algumas pessoas duelando com os comensais, antes destes fugirem. As pessoas falavam a sua volta, mas era doloroso demais para assimilar.
- James, o que vamos fazer agora? Adhara e Daniel estão mortos – Lily segurava Sofia nos braços, enquanto James, Sirius e Lupin olhavam perdidos para o corpo dos amigos, seus olhos tomados pelas lágrimas.
- Não sei Lily, não sei. Primeiro, vamos tirar Sofia daqui, depois veremos.. Sirius, Remus, levantem-se! Não podemos mais ajudá-los...
As imagens e pensamentos giravam sem parar na cabeça de Sofia e então, tudo se apagou outra vez.
Quando Sofia abriu os olhos novamente, não estava mais em sua casa, mas na plataforma 9 e 3/4, o Expresso Hogwarts parado a sua frente. Ao seu lado, estavam James e Lily, transfigurados em pessoas comuns. Seria arriscado demais aparecerem com ela no meio de tantos bruxos conhecidos. Se alguém os reconhecesse, estaria tudo perdido. Sirius também viera se despedir, mas agora estava bastante ocupado correndo atrás do próprio rabo. A garota achava engraçado quando ele fazia isso, mas dessa vez, não fora suficiente para alegrá-la.
- Mirna, minha querida, escreva-nos sempre que quiser ou precisar. Nossos pensamentos estarão com você – Lily abraçou Sofia, se despedindo da garota. O trem já estava prestes a partir. James acabara de levar o malão da garota até a cabine, mas não conseguia se acostumar com a idéia dela partir para Hogwarts, depois de tudo que acontecera e do tempo que passara com eles.
- Sofie, acorde... Vamos... – uma voz distante a chamava, mas ela não sabia de onde vinha. Queria se despedir de Sirius e dos Potter e a alguém parecia não querer que ela o fizesse. Resistiu para não ceder, mas seus olhos se abriram e ela estava novamente em sua casa, deitada no sofá. Peter a encarava preocupado e esboçou um sorriso discreto ao vê-la despertar.
- Que foi que aconteceu? – perguntou confusa – Como vim parar aqui?
- Você estava folhando aquele livro... Ficou distante por um tempo e depois desmaiou. Achei que não fosse conseguir trazê-la de volta – Peter deixou escapar um suspiro de alívio – Você ficou um bom tempo desacordada... Nunca mais me dê um susto desses, ouviu?
- Eu prometo – disse Sofia solenemente e o abraçou apertado – Desculpe, voltar aqui trouxe muitas lembranças.
- Eu sei, Sofie. Estranho seria se isso não acontecesse – Peter beijou seus cabelos.
- Peter... Eu... – ela fez uma breve pausa antes de prosseguir – Acho que acabei de lembrar exatamente como foi que tudo aconteceu aquela noite... Bellatrix ainda vai pagar pelo que fez!
O auror olhou para ela um pouco surpreso e a puxou contra o seu peito, afagando seus cabelos. O estado de choque pela situação traumatizante havia apagado as lembranças mais dolorosas de Sofia e agora que estava ali outra vez, parecia que elas tinham voltado com toda a força para atormentá-la.
- Ela sabia que eu não a veria mais... – Sofia murmurou para si mesma.
- Eu sinto muito. Imagino como todas essas recordações vindo a tona deve ser difícil para você, mas estou aqui para o que precisar. Talvez seja melhor irmos embora e voltar outro dia. Acho que você já teve emoções demais para um dia só.
- Obrigada Peter, mas ainda preciso fazer uma coisa – respondeu ela, postando-se em pé.
- Você quem sabe, Sofie. A propósito, você deixou cair isso – Peter entregou o livro a auror. Sofia fitou a capa por algum tempo e o auror teve a impressão que ela se perderia em pensamentos outra vez.
- Estava lendo este livro quando tudo começou... ela começou a folhear as páginas novamente e então um pergaminho amarelado como as folhas escorregou de seu interior para o chão.
- Minha carta de Hogwarts! – exclamou ela surpresa, juntando-a do chão – Não conseguia lembrar onde havia guardado... - ela abriu a correspondência e passou os olhos rapidamente pelo texto da primeira folha.
"Prezada Srta. Gryffindor,
Temos o prazer de informar que V. Sa. tem uma vaga na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Estamos anexando uma lista de livros e equipamentos necessários.
O ano letivo começa em 1º de setembro. Aguardamos sua coruja até 31 de Julho, no mais tardar.
Atenciosamente,
Albus Percival Dumbledore
Diretor"
Na segunda folha, encontrou a lista de materiais de seu primeiro ano de escola. Lembrava muito bem da animação que sentira quando fora ao Beco Diagonal para adquiri-los e começou a rir sozinha. Peter a observou em silêncio. Ela parecia feliz e não quis interromper o momento.
Sofia atravessou a sala voando a procura da mãe e não demorou a encontrá-la no escritório.
- Sofia, quantas vezes preciso dizer para deixar a vassoura lá fora? Ainda vai acabar quebrando alguma coisa...
- Mas mãe, eu sou tão cuidadosa... – justificou ela com a expressão mais inocente possível – Além do mais, como serei uma jogadora de quadribol como o pai e James se não praticar o desvio de obstáculos? – o argumento de Sofia desarmou Adhara. Ela sabia que a filha era tão ou mais impulsiva que o pai e a presença de Sirius e James não colaborava em nada para que ela fosse diferente – Não tenho culpa se o pomo escapou aqui pra dentro – dissimulou revirando seus grandes olhos verdes, e pousou no tapete, estendendo o pomo de ouro para a mãe, ao mesmo tempo que arrumava seus cabelos bagunçados pelo vento.
- Ok, ok, mocinha... Tenho um assunto bem mais importante para tratar com você – Adhara tirou um pequeno envelope da gaveta e o entregou para Sofia. Os olhos da garota se iluminaram ao reconhecer o brasão de Hogwarts.
De repente, o escritório desapareceu e ela estava no Beco Diagonal. Acabara de sair da Floreios e Borrões e trazia nas mãos seu novo exemplar de Como Azarar Fadas Mordentes Antes que Elas Mordam Você. Adhara caminhava ao seu lado tentando acompanhar os passos da filha, que saltitava para um lado e para o outro alegremente. Estava fascinada pelo que o Sr. Olivaras havia dito sobre sua varinha e ainda esperava ansiosa pela compra de seu bichinho de estimação.
- Mãe, olha aquela corujinha... É tão linda! – a garota correu para o interior da loja de animais e fitou completamente fascinada a pequena Coruja das Torres que avistara através da vitrine.
- Parece que você já fez sua escolha, não é? – Adhara sorriu. Os olhos de Sofia brilhavam.
- Vou chamá-la de Melanie...
- Melanie? - perguntou Peter sem entender, ao escutar Sofia pronunciar o nome em voz alta.
- Ué, você já esqueceu da Mel? – respondeu Sofia, voltando ao presente, se divertindo com a desatenção de Peter.
- Ah sim, tinha esquecido... – o auror fez uma careta divertida – Na verdade, você nunca me disse que o nome dela era Melanie.
- Que tal um tour pela casa? – Sofia saltou do sofá, puxando Peter pela mão – Só preciso pegar alguns papéis no escritório antes.
- Acho uma boa idéia – Peter ficou feliz por Sofia parecer mais leve agora. Tinha impressão que as lembranças ruins começavam a se dissipar, pelo menos momentaneamente, da memória dela.
Ainda no térreo da casa, Sofia conduziu Peter até um cômodo espaçoso, cheio de prateleiras abarrotadas de livros e armários de madeira nobre que forravam as paredes de cima a baixo. Uma janela grande ao lado direito iluminava o ambiente de forma interessante. A mesa em frente a ela estava abarrotada de papéis amarelados, que se espalhavam sobre a superfície. Havia também um bisbilhoscópio antigo e três porta-retratos. No primeiro deles, Daniel e Adhara seguravam um bebê de cabelos radiantes como raios de sol; no segundo, o casal estava sentado embaixo de uma árvore, junto com um grupo de adolescentes, que Peter reconheceu como sendo James, Sirius e Lupin, e no terceiro, Sofia atravessava a fotografia em sua vassoura tentando agarrar o pomo. Devia ter uns cinco ou seis anos de idade apenas, mas já demonstrava a habilidade que teria para o esporte.
Sofia sentou atrás da mesa e começou a revirar as gavetas atrás de alguma coisa, ignorando as imagens nas fotografias. Analisou alguns papéis, separando os que interessavam e depois guardou os que sobraram. Peter apenas acompanhava seus movimentos, sem fazer perguntas. Sabia o que ela estava procurando, ou pelo menos acreditava que sim. Capturar comensais havia se tornado uma obsessão, mais do que qualquer outra coisa e ela não descansaria enquanto não obtivesse informações suficientes para que isso fosse possível. O trabalho dos aurores não consistia apenas em achá-los e capturá-los, mas também em coletar evidências de suas ações.
- Acho que isso deve ser suficiente. Não tinha certeza se os encontraria... - disse ela para si mesma, esquecendo-se momentaneamente da presença de Peter.
- Processos dos comensais, investigações da Ordem... – agora Sofia mostrava os documentos para Peter, sem se deter em algum específico. Haviam anos de história gravados naquelas páginas, anos e mais anos de informações acumuladas a respeito de Voldemort e seus comensais. Algumas das páginas estavam rabiscadas com anotações a parte, outras apresentavam o nome de um ou mais comensais no topo. Era o trabalho de uma vida inteira de dedicação, e embora as vidas de Daniel e Adhara tivessem sido tão breves, eles haviam vivido cada minuto intensamente.
- Venha comigo, quero te mostrar uma coisa...
Sofia largou os papéis empilhando-os de forma organizada sobre a mesa e deixou o escritório, subindo as escadas agilmente para o segundo piso. Peter ia logo atrás dela, observando cada detalhe da casa. Do andar superior, podia ter uma visão completa do primeiro piso. A sala ampla de móveis antigos e estofados claros, os corredores que levavam para os outros cômodos, os lustres elegantes de cristal pendendo do teto, a parede destruída pela explosão. Estavam no mezanino e dele surgiam dois corredores, cada um direcionado a um extremo da casa.
- Por aqui... – Sofia o puxou pela mão pelo corredor da direita, escuro pela falta de iluminação. O auror ergueu a varinha e acendeu ela, clareando o caminho. Logo, uma porta entreaberta despertou sua atenção. Instigado pela curiosidade, voltou-se para ela e adentrou o aposento.
Era um quarto espaçoso e muito bem decorado. Cortinas lilases pendiam das janelas até o chão, bloqueando a luz de forma sutil. Na parede adjacente, havia uma cama com dossel da mesma cor dos tecidos sobre a janela. Pela abertura das cortinas, podia se avistar almofadas de vários tons, jogadas sobre a colcha delicada e ursinhos de pelúcia arrumados a frente delas. No lado oposto, havia mais uma porta, aberta para um amplo closet, e duas poltronas de estampa delicada, sob a pintura a óleo de jovens bailarinas, que dançavam e saltavam de um extremo ao outro da moldura. Ao lado da entrada, uma penteadeira sofisticada e ao mesmo tempo delicada, era emoldurada por um espelho alto, de armação esculpida em tons claros, e logo adiante havia uma cômoda alta, de gavetas trabalhadas da mesma forma que o espelho. O quarto era aconchegante e a lareira no canto dava um toque ainda mais acolhedor.
- Então, descobriu meu esconderijo secreto? – Sofia parou na porta, sorrindo para Peter. Ele estendeu a mão para ela e a puxou para perto, abraçando-a pela cintura. Seus olhos corriam pelo quarto inteiro, observando cada detalhe. Queria absorver o máximo possível dessa experiência. Não se sentia tão próximo de Sofia desde o dia que penetrara em suas memórias e descobrira quem ela realmente era.
- Aquela é a sua varinha de faíscas? – o auror apontava para uma varinha delicadamente esculpida, de madeira clara que repousava sobre a cômoda.
- Aham! – assentiu – E aquela foi a primeira vassoura em que voei – apontou para uma vassourinha pendurada logo acima da cômoda.
- Uma Nimbus Starlight? – disse ele interessado, tirando a vassoura do suporte – Excelente para corridas... E para levar os primeiros tombos, também – ele riu.
- Eu costumava me equilibrar sobre ela com eficiência – comentou ela dando o troco.
- Imagino o trabalho que você não deu aos seus pais... – ele passou o outro braço em torno do corpo dela e a ergueu do chão, girando-a no ar. Seus lábios se aproximaram e roçaram um no outro inicialmente, até se transformar num beijo intenso e apaixonado.
Sofia recolheu algumas lembranças de sua infância, como a varinha de faíscas, a Nimbus Starlight, álbuns de fotos, a tela de bailarinas e algumas jóias que ganhara de seus pais. Eram recordações valiosas de uma vida maravilhosa que as vezes parecia não ter passado de um sonho longínquo e que agora precisava deixar para traz, para finalmente se permitir recomeçar ao lado de Peter, sem qualquer sombra para atormentá-la.
Os dois seguiram de mãos dadas até o extremo do corredor, onde uma porta alta de madeira entalhada e vidros esfumados se abria para uma sala ampla e iluminada. No lugar das paredes externas, haviam vidraças enormes que permitiam ver todo o jardim externo da casa. No lado direito, um piano de cauda se destacava no ambiente. Ficava próximo de um jardim de inverno, que agora era composto de um mato fechado, ao invés das folhagens e flores que deveriam compô-lo antigamente. No outro extremo, haviam poltronas confortáveis dispostas de forma harmoniosa, além de estantes baixas repletas de livros. O ambiente mesclava o clássico e o moderno de forma interessante, conferindo sofisticação ao lugar.
Sofia caminhou até a elevação onde se encontrava o piano. Sentou no banco e mirou o instrumento por algum tempo, antes de erguer a tampa e começar a tocar as teclas. O som começou a fluir pela sala de música, enchendo o ar de notas melodiosas outra vez após tantos anos de silêncio.
- Beethoven? – perguntou Peter sentando numa banqueta para observá-la.
- Sonata ao Luar - Sofia assentiu com a cabeça, sem interromper o dedilhado sobre o teclado.
- Antes de se tornar auror, minha mãe foi concertista da Sinfônica de Londres por um tempo. Quando os Black descobriram o que ela estava fazendo, obrigaram-na a parar – Ela estava envergonhando a família por se misturar aos trouxas. Ela tinha apenas 16 anos quando saiu de casa. Não ia deixar de fazer o que amava por causa das imposições de sua família, muito menos se curvar a vontade deles. Meus pais se casaram logo após se formarem em Hogwarts – ela sorria enquanto falava e continuava a deslizar os dedos sobre as teclas do piano, agora trocando a melodia – Infelizmente, Voldemort começava a ganhar seguidores e ela decidiu abandonar a música para se tornar auror – Sofia sentiu uma pontada no peito, como se uma lâmina afiada atravessasse seu corpo e interrompeu a música brevemente. Atento, Peter não deixou o detalhe escapar e mudou o foco da conversa.
- Claire De Lune – sorriu confiante, reconhecendo a música. Levantou e começou a analisar o celo apoiado próximo a entrada do jardim de inverno.
- Você toca? – o auror pegou o arco estendendo-o para Sofia. Ela ergueu os olhos das teclas e fitou-o por um instante.
- Aprendi alguma coisa com minha mãe, mas não sei se ainda lembro direito... – ela empurrou a banqueta do piano se postando em pé e foi até o auror – Será que ainda consigo?
Segurou a mão de Peter sobre o arco por alguns segundos, antes de pegá-lo e começar a tocar. Sentou na banqueta onde o auror estivera sentado anteriormente para observá-la e, fechando os olhos, puxou o violoncelo para próximo de seu corpo. O som começou a fluir suavemente pelas cordas, que apesar de desafinadas, ainda produziam notas melodiosas. Sofia fez uma pausa para afiná-las e depois recomeçou.
Ela dedilhava as cordas com suavidade, como se as notas estivessem avivando em sua memória. Aos poucos, o ritmo foi acelerando e logo, ela estava tocando a música com perfeição.
- Canon de Pachelbel – disse ela, apoiando o arco no instrumento – Quer dar uma volta no jardim?
- Tem alguma dúvida? – Peter deu uma piscada e estendeu a mão para ela. Sofia entrelaçou os dedos nos dele, levando-o para as escadas de pedra ao lado de fora das portas de vidro. Desceram os degraus, contornados por outro jardim interno, no qual havia uma pequena queda de água ainda em funcionamento. Chegaram ao pátio externo da casa. Os anos tinham sido pouco generosos com o gramado e o jardim a sua volta. Parecia mais um mato selvagem do que qualquer outra coisa. Apesar disso, a beleza que o lugar fora no passado estava escondida em algum lugar sob o matagal.
- Esse lugar é fascinante – Peter deixou escapar com um pouco mais de entusiasmo do que gostaria.
- Acho que tinha me esquecido o quanto... – Sofia inspirou fundo sorvendo o ar com vontade.
Eles começaram a caminhar de mãos dadas pelo antigo gramado, agora coberto pela capoeira alta. Os pés de Sofia pareciam conhecer muito bem o caminho e a guiavam para algum lugar desconhecido de Peter.
"Moon river, wider than a mile
I'm crossin' you in style some day"
Sofia teve a impressão de escutar uma antiga melodia. As notas cortavam o ar suavemente até seus ouvidos.
- Sofie, você está ouvindo? De onde vem essa música? – perguntou Peter, parando no meio do gramado.
- Você também escutou? – disse ela, percebendo que a música não era apenas imaginação sua.
- Venha comigo! – a bruxa segurou a mão de Peter ainda mais forte e o puxou pelo gramado, afastando-se da casa. Um sorriso saudoso formando-se em seu rosto.
- Onde estamos indo? – perguntou Peter sem entender.
- Logo você verá...
"Old dream maker, you heartbreaker
Wherever you're goin', I'm goin' your way"
A pequena garotinha corria pelo gramado, olhando distraída a sua volta. A noite caíra rápido e agora, haviam luzes espalhadas por todo jardim, presas de uma árvore a outra. As estrelas emolduravam a lua cheia e embelezavam ainda mais aquela noite de verão. A música de fundo se misturava as vozes e risadas das pessoas. Pessoas estas, em sua maioria, desconhecidas da garotinha.
"Two drifters, off to see the world
There's such a lot of world to see"
Sofia continuava conduzindo Peter pelo antigo jardim da propriedade, em meio ao mato que crescia alto no lugar da grama. Folhas e galhos forravam as trilhas recortadas entre as árvores, dificultando a visualização do caminho.
"We're after the same rainbow's end, waitin' 'round the bend
My huckleberry friend, Moon River, and me"
Os primeiros pingos de chuva começaram a cair sobre eles. Logo, uma tempestade de verão desabava sobre o lugar.
- Vamos, Peter. Só mais um pouco, já estamos quase chegando...
Sofia disparou entre as árvores, puxando Peter pela mão atrás dela. Ela desviava rapidamente dos obstáculos, saltava os troncos no caminho, sabendo exatamente aonde estava indo. As folhas secas se partiam sobre seus pés, que a conduziam instintivamente pelo caminho certo, acompanhando a melodia cada vez mais próxima. Apesar dos anos que passara longe, ainda conhecia o lugar como a palma de sua mão.
"Two drifters, off to see the world
There's such a lot of world to see"
Distraída com a agitação da festa, ela deixava que seus pés a guiassem até o lago. Em seu centro, um coreto flutuava sob as águas negras da noite, onde um quarteto de violinos, um violoncelo, um contrabaixo e um saxofone tocavam. A pequena garota sentou na grama e ficou observando os pais dançarem na beira do lago ao som de MoonRiver, encantada com a melodia que atravessava o ar e chegava suave aos seus ouvidos.
- Ei, você sabe como chegar lá? – disse um garotinho de cabelos ruivos e olhos azuis brilhantes, apontando para o coreto.
Ela virou a cabeça para trás e sorriu para o pequeno desconhecido.
- Sei – disse levantando do chão, limpando o vestido com as mãos. As bochechas do garotinho coraram – Você veio sozinho? – perguntou ela, curiosa.
- Vim com os meus pais e meu irmãozinho, mas ele dormiu e agora não tenho com quem brincar – disse desapontado, indicando um casal alguns metros adiante. Um garotinho de dois ou três anos de idade, também de cabelos ruivos, dormia com a cabeça apoiada no ombro da mãe, abraçado num pufoso. .
- Aquele é meu irmão Charlie e eu sou William, mas minha mãe me chama de Bill. Você veio com os seus pai, também? – o garoto olhou para ela curioso.
- Eu moro aqui...
- Wow! – Bill ficou maravilhado – Sua casa é bem grande.
- Você pode vir aqui brincar comigo se quiser. O Sirius pode te levar pra casa de moto depois. Ele sempre me leva passear de moto... É tão legal...
- Acho que escutei o meu nome - Sirius apareceu, pegando-a no colo e girou-a no ar - Tome cuidado com essa mocinha, rapaz. Ela pode enfeitiçar você antes que consiga piscar.
- Esqueci minha varinha lá em cima – respondeu ela sem entender a brincadeira.
- Não vai me apresentar seu novo amiguinho, Sofia? – disse colocando-a novamente no chão.
- O nome dele é William e ele tem um irmãozinho igual a ele – falou entusiasmada – Sirius, você leva a gente andar de moto?
- Qualquer dia desses, Sofizinha. Agora, preciso falar com o seu pai – ele beijou a testa dela, bagunçou o cabelo de Bill e saiu andando sorridente pelo jardim.
- Ainda quer ir até lá? – perguntou Sofia apontando para o lago.
Bill balançou a cabeça afirmativamente.
- Feche os olhos...
"We're after the same rainbow's end, waitin' 'round the bend
My huckleberry friend, Moon River, and me"
Sofia finalmente parou de correr. Peter parou ao seu lado, contemplando surpreso o lago a sua frente. As gotas de chuva tocavam a superfície da água cristalina, formando círculos que aumentavam conforme as notas da melodia. As margens pareciam esculpidas magicamente e no centro, vários metros adiante, um coreto magnificamente trabalhado flutuava sobre as águas. Uma neblina fina pairava em volta dele, conferindo um ar surreal a paisagem.
- Esse é um dos meus lugares preferidos – disse Sofia, sem desviar os olhos do coreto e então começou a cantarolar baixinho.
- Moon River – Peter sussurrou para si mesmo.
- Sim. Essa música é tão... – Sofia se deixou levar pelas boas lembranças que a música lhe trazia – Trás tantas recordações... Estava tocando essa música no dia que conheci os Weasley.
- Quê!? – Peter olhou surpreso para Sofia – Você já os conhecia?
- É engraçado, não tinha me dado conta disso até hoje. Quando escutei a música, lembrei de uma festa que meus pais fizeram aqui. Devia ter uns quatro, talvez cinco anos... Bill apareceu e perguntou se eu sabia como chegar ao coreto. Nunca tinha visto ele e achei engraçado o jeito como ele e Charlie eram parecidos. Os mesmos cabelos ruivos... – ela se interrompeu por alguns instantes – Depois não os vi mais. Acho que foi por isso que não me reconheceram quando fomos para Hogwarts.
- A propósito, gostaria de ir comigo até lá? – perguntou apontando para o coreto.
- Claro, mas... Podemos aparatar lá? – Peter parecia confuso com tudo que estava acontecendo.
- Não. Apenas feche os olhos e confie em mim.
- Ok, Srta. Gryffindor. Estarei em suas mãos – Peter riu.
- Então, o que está esperando? – Sofia passou a ponta dos dedos sobre os olhos de Peter, fechando-os – Segure a minha mão e não abra os olhos.
De olhos fechados, mas tentado espiar, Peter se deixou guiar por Sofia. A superfície sob seus pés mudara drasticamente. Não sentia mais a capoeira roçando suas pernas, nem o solo afundando a cada passo. Agora era firme, como uma rocha, embora fosse plana e lisa, sem ser escorregadia.
- Pronto, pode olhar agora – a voz de Sofia ecoou suavemente eu seus ouvidos, ao mesmo tempo que a música parecia envolver todo ambiente a sua volta.
Estavam no centro do lago, na parte interna do coreto. A neblina que antes estivera ali antes, se dissipara e ele podia avistar toda a propriedade. Havia uma ponte visível apenas do coreto, que o ligava a margem, e a casa ao fundo era emoldurada pelas árvores dispersas por todo o terreno, formando na margem um composê de cores avermelhadas, que variavam do ferrugem ao pinhão. Do outro lado, apenas árvores compunham a paisagem ao longe, formando uma cerca natural em volta do lago.
- Sempre vinha aqui quando criança. Meus pais adoravam esse lugar. Costumavam sentar com os amigos sob a sombra das árvores, nos finais de semana, e eu vinha aqui dançar. Foi embaixo daquela árvore que fiz o meu primeiro Patrono – ela apontava para uma árvore de copa dourada na margem do lago. Só então Peter reconheceu o lugar. Ele o vira numa lembrança de Sofia. Daniel, Adhara, Sirius, Lupin, James e Lily também estavam nela.
- Esse lugar é indescritível – disse ele maravilhado – Já o tinha visto antes em suas memórias, mas não pensei que fosse tão bonito.
- Preciso trazê-lo aqui no inverno. Quando a temperatura começa a cair, a superfície do lago congela... – Sofia fechou os olhos - Adorava patinar no gelo...
A chuva desapareceu, o ar ficou gelado e seco repentinamente. Flocos de neve começaram a cair, tingindo de branco o topo das árvores e o gramado na beira do lago. A água estava congelada e Sofia deslizava com leveza sobre ela. A Dança da Fada Amora tocava no coreto e se dispersava pelo ar a sua volta. Ela foi tomada de imensa alegria. Adorava patinar e sua paixão pelo gelo só não era maior do que voar. Desde que ganhara sua primeira vassoura ficara fascinada pelos céus. Sentia-se livre quando estava voando, capaz de ser ela mesma, assim como sobre os patins.
- Sofie, você está bem? – Peter olhava preocupado para Sofia. Ela parecia em estado transe.
- Hã... O que você disse? – a auror pareceu voltar a realidade. Peter beijou a testa de Sofia e a abraçou. E assim ficaram por um longo tempo, enquanto a música tocava a volta deles e a chuva caia pesada sobre o lago.
Aos poucos a tempestade de verão começou a ficar mais branda e o sol voltava a aparecer entre as nuvens agora mais claras. O cheiro de terra molhada brotava do chão, misturado ao perfume de todo aquele verde que os cercava.
- Droga, quase me esqueci! – Peter pareceu lembrar de algo de repente.
- Esqueceu do que?
- Marquei uma reunião com o Kingsley para daqui a pouco.
- Reunião!? Sobre o que?
- Minha transferência... – Peter fez uma careta envergonhada ao ver o pânico se apossando de Sofia – Acalme-se Sofie, não é o que você está pensando.
- E quer me dizer do que se trata então? – a auror começava a perder o controle.
- Só vou pedir a ele que desconsidere meu pedido e me reintegre ao Quartel dos Aurores de Londres. Digamos que a minha morte ocasionou alguns transtornos burocráticos.
- Sei... – Sofia o encarou com desconfiança, apoiando os cotovelos no parapeito do cercado e vislumbrou a floresta após o lago – Quanto tempo temos?
- Alguns minutos – Peter se aproximou dela e envolveu os braços em sua cintura, apoiando o queixo no ombro dela.
- Tive uma idéia... Que tal um pouco de emoção antes do entardecer? – disse Sofia girando no eixo do próprio corpo, ficando cara a cara com ele.
- Mais do que já tivemos por hoje? – ele roçou os lábios de leve nos dela.
- Bem mais! – Sofia agarrou a mão de Peter e o arrastou para longe do lago. Estavam numa parte mais afastada do jardim, em algum lugar dentro do bosque de árvores temperadas. A construção a frente deles não apresentava paredes, apenas vidros intercalados vez ou outra por colunas altas de madeira. O auror olhava o interior da construção admirado. A Ferrari 250 GTO vermelha e conversível dos Gryffindor era tão perfeita. Não acreditava que Sofia a tivesse escondido durante tanto tempo de seu conhecimento. Ele era apaixonado por automóveis, ainda mais os modelos esporte, como Ferraris e Porsches.
- Uma Ferrari! – Peter exclamou empolgado – Nem vou perguntar quantos andares abaixo do solo fica o cofre da sua família em Gringotts. Os trilhos chegam até lá? – ele se divertia com a situação.
- E você nem sabe... É guardado por dragões, também – Sofia fez graça da brincadeira dele – Quando encontrar o mapa, talvez leve você até lá... Não quero arriscar me perder – os dois caíram no riso.
- Quer dirigir? – os olhos de Peter brilhavam observando o carro e Sofia não deixou o detalhe passar despercebido.
- Quem em sã consciência recusaria pilotar uma máquina como estas? – respondeu ele excitado.
- Com certeza, não alguém como você – ela riu – A chave está na ignição.
- Ei, aonde você pensa que vai Srta. Gryffindor? – Peter agarrou Sofia pela cintura antes que ela escapasse.
- Pegar minhas coisas Sir Edwards, ou nem com uma Ferrari chegaremos a tempo no ministério – disse ela voltando-se pare ele outra vez – Tenho permissão?
- Toda milady – Peter fez uma reverência exagerada.
- Encontre-me no portão em um minuto... – Sofia desapareceu tão rápido da visão de Peter que parecia ter evaporado no ar.
Os dois deixaram a propriedade ao entardecer. Sofia havia mudado aquela tarde e agora se sentia de alguma forma mais livre, mais leve para construir uma nova vida, ao lado do homem que amava. Peter também não era mais o mesmo. Não sabia ao certo como, mas sabia que nunca estivera tão próximo de Sofia como naquelas horas que passara na antiga casa dela. Não haviam mais máscaras, nem segredos escondidos. Finalmente, ela havia derrubado a última barreira entre eles. Agora estava completa outra vez. Não havia mais nada capaz de separá-los.
