Capítulo 25

*Um problema chamado "mal-entendido" - Parte 2*

Antes...

Vegeta marchou a passos rápidos pelos corredores compridos do complexo científico de Beliza e parou apenas ao alcançar a porta do laboratório de Bulma. Desconfiado e cauteloso, olhou para os lados e, ao perceber que estava mesmo sozinho, sorriu de canto. Digitou o código de acesso no pequeno painel que havia ao lado direito da porta e esperou, um tanto quanto ansioso, até ela se abrir, revelando-lhe não apenas o laboratório, mas, principalmente, a cientista.

Já era tarde da noite e a mulher ainda estava trancada naquele maldito lugar, provavelmente distraída com algum projeto maluco, e Vegeta não via a hora de entrar no laboratório e arrastá-la até o quarto. Ou de tê-la ali mesmo.

Os planos do saiyajin, contudo, foram frustrados por um estranho e rápido bip que o pequeno painel emitiu, negando o seu acesso ao laboratório.

O quê? — Murmurou ele, baixinho, e, mais uma vez, digitou o código de acesso.

O mesmo bip de antes – um som agudo e dissonante – alcançou os ouvidos do saiyajin, e Vegeta, irritado, já estava se preparando para quebrar a porta e mandar tudo para o inferno quando, de repente, ouviu um pigarro às suas costas.

Não vai conseguir falar com a Bulminha. Ela está trancada aí há horas. Deseja ficar sozinha.

Vegeta virou-se e encontrou os olhos cansados do doutor Briefs, o pai de Bulma.

O velho cientista trajava um jaleco velho e surrado, todo manchado de graxa, e tinha em mãos uma xícara fumegante, muito provavelmente cheia até à borda com uma bebida amarga e horrível que tanto ele quanto Bulma consumiam em quantidades que não podiam ser consideradas normais. Muito menos saudáveis.

Se precisa dela para reparar alguma coisa, vai ter que esperar até amanhã. Ou melhor, até depois de amanhã — Continuou o terráqueo, alheio às verdadeiras intenções de Vegeta. — Se for urgente, posso dar uma olhada para você.

Não será necessário. O assunto é só com ela — Respondeu Vegeta, sua voz áspera. — E por que ela se trancou no laboratório? Por acaso surtou de vez?

O doutor sorriu enquanto bebericava o líquido quente.

A minha filha é uma mulher muito orgulhosa, Vegeta. E pessoas muito orgulhosas não sabem lidar direito com... ...com a possibilidade de fracassar.

Fracassar? — A testa do saiyajin se franziu tanto que suas sobrancelhas quase quase se tocaram. — No que ela fracassou?

Freeza espera que ela aumente a capacidade dos motores das espaçonaves de modelo V-100 em pelo menos 50%. Eu a ajudei com a parte teórica e com a maioria dos cálculos... revisamos tudo inúmeras vezes, mas, apesar de tudo, não obtivemos sucesso. Não foi possível estabilizar o fluxo de energia e, por causa disso, o motor apresentou falhas severas antes mesmo de ter sua capacidade aumentada em 38%. Bulma passou a semana inteira tentando descobrir o que estava errado, mas não obteve êxito. — Ele bebeu mais um pouco daquela bebida amarga que Vegeta tanto detestava e, após várias pequenas goladas, tornou a encarar o saiyajin. — Isso, para ela, é um baita fracasso.

Entendo — Com o canto do olho, fitou a porta metálica e tentou imaginar Bulma do outro lado, fazendo sabe-se-lá-o-que para conseguir lidar com aquela falta de resultados positivos.

Do jeito que a mulher era escandalosa, logo pensou, provavelmente estava chorando pelos cantos.

Bufou com desdém ao imaginar a cena ridícula.

Vou procurá-la amanhã — Disse ele, por fim, cruzando os braços e afastando-se do velho cientista.

Poucos minutos depois, estava de volta ao seu quarto, deitado de barriga para cima na cama, os olhos escuros cravados no teto. Tentou, mas não conseguiu pegar no sono, pois muitos pensamentos povoavam a sua cabeça, a maioria deles centrados na terráquea e na infortuna situação em que ela se encontrava.

Era uma infelicidade admitir, contudo, Vegeta reconhecia que fracasso era algo com o qual estava mais do que familiarizado. Afinal, ter sua raça massacrada e passar a vida sendo obrigado a servir o maldito lagarto responsável por dito massacre estava longe de ser considerado uma vitória.

Voltou a se pôr de pé algum tempo depois e, novamente, seguiu até o laboratório de Bulma. Percebeu que o doutor Briefs não estava mais ali por perto e, tal como fizera antes, digitou no painel o código para ter acesso ao laboratório. Ao ter sua entrada negada pela terceira vez, impacientou-se e abriu a porta com as próprias mãos, destruindo a grossa camada de metal que o impedia de alcançar a cientista.

Vegeta! O que você pensa que está fazendo?

Foi recebido com a voz furiosa de Bulma, e respondeu a mulher com uma encarada que era tão feroz quanto.

Eu que faço essa pergunta, sua terráquea tola — Resmungou enquanto caminhava até ela, os braços cruzados na frente do peitoral musculoso e uma expressão de poucos amigos no rosto moreno.

Não acredito que você quebrou a porta do laboratório! Ela estava trancada por um motivo — Bulma colocou as mãos no quadril enquanto repreendia o saiyajin, e Vegeta, nesse momento, notou muito bem a aparência dela.

E ela estava péssima.

Os olhos estavam vermelhos e fundos por causa do cansaço e da falta de dormir, rodeados por olheiras escuras que contrastavam com a palidez do rosto. As costas dela estavam impossivelmente curvadas – provavelmente mais um sinal de cansado extremo –, as mãos ligeiramente trêmulas e o cabelo todo sujo preso num rabo-de-cavalo desgrenhado. O jaleco que cobria o corpo pequeno e curvilíneo estava imundo de graxa, fuligem, tinta de caneta e também um pouco de sangue, e o príncipe saiyajin estreitou os olhos ao ver uma atadura manchada de vermelho envolvendo a mão esquerda da mulher.

Bulma com certeza percebeu que Vegeta encarava o machucado, pois logo escondeu as mãos nos bolsos largos do jaleco. Desviou o olhar antes de falar.

É só um corte. Nada sério. Agora, o que está fazendo aqui? Saiba que, se quer que eu conserte a câmara de gravidade, está perdendo o seu tempo. Tenho coisas mais urgentes para fazer, como, por exemplo, descobrir o que está errado com os meus cálculos.

Ela quase rugiu ao terminar de falar, e a súbita e inesperada violência presente naquelas palavras fez Vegeta a fitar com mais cautela.

Não estou aqui por causa da câmara de gravidade.

Ela arregalou os olhos, surpresa com a resposta.

Não? Então, o que quer?

Vegeta sustentou o olhar no rosto dela e, por vários segundos, não disse nada. Quando falou, sua voz estava mais profunda e bem mais irritada do que de costume.

Acho que estou aqui para impedir que a sua estupidez te mate de vez. Você está exausta. Vá dormir, Bulma.

Não estou exausta — Respondeu ela, teimosa. — E, mesmo que estivesse, não posso me dar ao luxo de dormir ainda.

Então, fez um movimento vagaroso com a mão, mostrando ao saiyajin uma bancada com quatro computadores ligados, um disposto ao lado do outro, várias xícaras vazias – e algumas contendo um restinho já frio daquela mesma bebida repulsiva que o doutor Briefs bebericava há pouco – uma pilha de papéis e, um pouco mais ao longe, um quadro branco todo riscado com equações matemáticas.

Como pode ver, tenho muito trabalho a fazer. Eu tenho um prazo a cumprir, sabia? Tenho menos de duas semanas para entregar não apenas um, mas uma dúzia de motores funcionais a Freeza. Você ouviu? Ele não quer apenas o protótipo. Ele já quer tudo pronto para instalar nas naves. Estou envolvida há dias nesse projeto e, até agora, não consegui sair da estaca zero. Tudo o que faço dá errado. Ai, Kamisama! — Bulma exclamou de repente, levando as mãos à cabeça. — O que estou pensando? Nunca vou conseguir cumprir esse prazo infernal! Freeza vai me matar!

Vegeta resfolegou, fazendo um som de desprezo, e lançou à cientista um olhar desdenhoso.

Não é à toa que sempre digo que você pertence a uma raça inferior. Um saiyajin jamais se comportaria de maneira tão patética e fracassada.

Disse e esperou em silêncio pela resposta dela. Já era capaz de imaginar o grito furioso que escaparia pelos lábios da cientista, a resposta impetuosa e ousada, as palavras cheias de aborrecimento, os incontáveis xingamentos e ofensas e os olhos faiscantes que procurariam os dele como loucos. O que obteve, entretanto, foi uma resposta diferente, pois Bulma apenas exalou um sopro de ar, massageou as têmporas e virou-se de costas para Vegeta.

Por favor, me deixe sozinha — Murmurou ela. — Tenho muito o que fazer, Vegeta. Já me basta ter que lidar com o fato de que Freeza com certeza vai matar a mim e a minha família quando descobrir que não vou conseguir entregar o que me pediu a tempo... eu não preciso ter de lidar também com os seus insultos e a sua fantasia de superioridade racial. Então, apenas... apenas me deixe. Por favor.

A fala dela – derrotada, triste e tão incomum para uma mulher obstinada e de temperamento forte feito Bulma – enfureceu tanto Vegeta que o saiyajin sentiu um pequeno espasmos varrer o seu corpo. A primeira vontade dele foi de gritar com ela, provocá-la mais, sacudi-la por dentro até fazê-la deixar de lado aquele comportamento ridículo; o que ele realmente fez, no entanto, foi também dar-lhe as costas e seguir até a porta destruída.

Você pode pertencer a uma raça mais fraca — Disse Vegeta, olhando para ela por cima do ombro. — Mas nunca pensei que fosse do tipo que desiste tão fácil assim.

Dez dias depois, Dodoria apareceu em Beliza para buscar os motores que Freeza ordenara, e Vegeta se preparou para o pior. Não via Bulma desde aquela frustrante noite no laboratório e tinha a infeliz e angustiante sensação de que ela realmente não conseguira concluir o trabalho que Freeza lhe incumbira. Todavia, quando Bulma recebeu o alienígena grotesco com um sorriso vitorioso e o levou até o galpão onde não apenas doze, mas quinze motores estavam guardados, o saiyajin sentiu o nó que se formara em sua garganta se desfazer.

Sentia-se tão aliviado que nem percebeu quando fechou os olhos e suspirou fundo.

~Dragon Ball~

Agora...

Bulma acordou sentindo a luz do sol em seu rosto.

Lambeu os lábios, gemeu baixinho, remexeu-se sobre a cama e, por fim, abriu os olhos. Deixou-os passear pelo lugar no qual se encontrava – um quarto pequeno, porém aconchegante, e que lhe era totalmente estranho – e, por mais que tentasse, não compreendeu o que via. Sua última lembrança era de estar na prisão na companhia do pai de Vegeta, portanto não fazia a menor ideia de onde estava agora e nem o que tinha acontecido.

Com bastante esforço, apoiou-se sobre os cotovelos e ergueu o tronco. Depois, mexeu-se mais ainda sobre o colchão macio e, empurrando um lençol amarelo para longe, sentou-se.

— Que bom que acordou. Já estávamos preocupados, menina Bulma.

Ouviu uma voz que era grave e um pouco rouquenha, mas amistosa, e ergueu o rosto, piscando sem parar ao deparar-se com um rosto familiar.

— Senhor Vegeta? — Perguntou, e sua voz soou tão fraca e baixa que Bulma tinha certeza de que ele não fora capaz de escutá-la.

— Você dormiu bastante — Ele falou, e aquelas palavras pouco contribuíram para aclarar a mente da terráquea. — Como está se sentindo? Está bem?

Bulma não conseguiu respondê-lo. Num silêncio aturdido, observou o velho saiyajin se aproximar e se sentar na beirada da cama, e a cientista nem percebeu quando chegou o tronco para frente, ergueu os braços e emoldurou o rosto dele com as mãos. Notou que não havia mais um só resquício de sujeira no rosto enrugado; a barba estava cortada de maneira impecável, tão diferente daquele emaranhado de pelos grisalhos do qual ela se lembrava; o cabelo tinha sido lavado recentemente, visto que ainda estava úmido e tinha um cheiro agradável; e ele não mais trajava aquele manto imundo e fétido, mas sim uma bela túnica azul-marinho.

Pensou, por um segundo, que a cor lhe assentava muito bem.

— Bulma?

Ele a chamou, e ela viu a preocupação que se destacava nos olhos negros.

— Senhor Vegeta... eu estou sonhando? — Perguntou, por fim, pois a única explicação na qual conseguia pensar era que aquilo não passava de um sonho.

Quando ele apenas fez que não com a cabeça, Bulma franziu um pouco a testa e abaixou os braços. Ligeiramente pálida, forçou-se a perguntar:

— Estamos... estamos mortos, então?

Ele sorriu antes de respondê-la.

— Não estamos mortos, menina. Nós fomos resgatados.

— Resgatados? — A voz – emocionada, descrente, feliz, trêmula – custou-lhe a deixar a garganta. — Nós fomos salvos? E... e que lugar é esse?

— Estamos num planeta chamado Tech-Tech. Chegamos há alguns dias e fomos muito bem acolhidos pelos habitantes.

— Alguns dias? — Indagou ela, um pouco aflita. — Nós estamos aqui há alguns dias? Por acaso eu dormi por... por dias? Por quê?

Alguma coisa mudou nas feições do rei, e Bulma sentiu sua respiração ficar mais laboriosa ao notar o quão nítida a tristeza nos olhos dele se tornara.

— Muita coisa aconteceu desde que deixamos a prisão.

Ele, então, relatou a Bulma um breve resumo do que tinha acontecido: Nappa guiando Vegeta e Raditz até o prisão; a descoberta de que Kakarotto e Tarble estavam vivos; a chegada de Freeza a KX-27; a morte de Nappa e o sacrifício de Vegeta para que Freeza fosse derrotado; Piccolo, as esferas do dragão e os desejos que foram realizados por Porunga; e a informação de que mais saiyajins estavam vivos. Bulma ouviu tudo com redobrada atenção, estupefata com todas aquelas notícias. Entretanto, tinha a estranha impressão de que o rei não lhe contara tudo.

Ele parecia sincero em seu relato, mas também parecia esconder alguma coisa dela.

— Vegeta, na companhia de Raditz, Kakarotto e Piccolo, deixou o planeta ontem mesmo e seguiu em direção à nave de Freeza. Eles pretendem descobrir o paradeiro dos outros saiyajins e resgatá-los. Espero que retornem logo.

— Eu também espero — Murmurou ela com sinceridade. — Por Kamisama! Não acredito que perdi tudo isso. Tanta coisa aconteceu...

— Você ficou muito tempo no tanque de regeneração, Bulma. Depois que Porunga interferiu no seu tratamento e acelerou a sua recuperação, você dormiu por quase um dia inteiro. Ele pode ter curado o seu corpo, mas você estava emocionalmente esgotada.

Ela assentiu devagar, concordando com as palavras do rei.

Emocionalmente esgotada. Não poderia encontrar melhores palavras para descrever como se sentia depois de passar por uma experiência tão penosa.

Suspirou fundo e, em seguida, encarou os olhos dele e falou:

— Eu já vi muitos soldados de Freeza utilizarem do tanque de regeneração... e todos eles estavam terrivelmente feridos para precisarem do equipamento. O que eu não entendo é... por que eu precisei dele? Eu sei que tinha algumas feridas, mas nada tão severo a ponto de necessitar do tanque para me recuperar. Por acaso eu estava tão mal assim?

O saiyajin a sua frente abriu e fechou a boca repetidas vezes, mas nenhum som escapou pelos lábios ressequidos. O rei a respondeu apenas depois de vários segundos de silêncio, e ela não pôde deixar de notar as emoções entremeadas às palavras dele.

Tristeza, pesar e um pouco de culpa.

— Você estava... você estava muito doente, menina Bulma.

— Eu estava... doente?

Ele anuiu e a fitou bem nos olhos, preocupado.

— Você não se lembra?

— Eu... eu... — Ela hesitou antes de responder, procurando pelas pequenas memórias que preencheriam as diversas lacunas em sua mente.

Fechou os olhos e respirou devagar, inalando o ar puro e exalando-o vagarosamente. E então, de repente, se lembrou de tudo. A primeira memória que lhe voltou foi o mal-estar que começara a sentir na prisão, a fraqueza nos braços e nas pernas, a febre alta e as dores que se concentravam principalmente em sua região abdominal. Lembrou-se também do terror que sentira quando estava dentro do tanque de regeneração e do rosto assustado de Vegeta, distorcido por trás da parede de vidro que os separava. Depois, foi assaltada pela vaga recordação de estar sendo carregada nos braços de alguém, vozes indistinguíveis pairando sobre a sua cabeça e lhe dizendo sem parar "ela pertence a uma raça mais fraca" ou "não é uma saiyajin" ou "terráqueos são criaturas frágeis". A memória mais dolorida de todas, contudo, foi o rosto sorridente de Trunks, e um vazio gélido quase parou o seu coração assim que ela percebeu que não seria mais capaz de ver o filho.

Ao se dar conta de que perdera o bebê, teve a sensação do mundo desabar ao seu redor.

— Será que... que eu poderia ficar sozinha? — Ela permaneceu de olhos fechados e, ao sentir a primeira lágrima se formando, pressionou os lábios fortemente um contra o outro e virou o rosto para o lado.

— Bulma, eu não ach-

— Por favor — Suplicou, toda trêmula, ainda incapaz de encarar o saiyajin. — apenas me deixe. Eu... eu preciso mesmo de um tempo a sós.

Ele não a ofereceu nenhuma resposta imediata, mas a cientista percebeu quando ele exalou um sopro de ar repleto de resignação e deixou a cama. Ouviu os passos que se afastavam aos poucos e o rangido da porta de abrindo.

— Se precisar de alguma coisa, — Disse o rei. — basta chamar. Você não precisa passar por isso sozinha.

Quando a porta se fechou, Bulma soltou um guincho de dor, abraçou a barriga e, deitando na cama, chorou até a exaustão.

~Dragon Ball~

Bulma só deixou o quarto muito tempo depois. Não sabia exatamente que horas eram, entretanto, a julgar pela escuridão e pela quietude que dominavam aquela casa, imaginou ser ou tarde da noite ou de madrugada.

Com passos curtos e silenciosos, andou um pouco pela estranha habitação e se permitiu um pequeno sorriso ao achar o banheiro. Tirou a roupa assim que trancou a porta e tomou um bom banho quente. Na volta, passou pela cozinha e pensou em comer alguma coisa, todavia, logo mudou de ideia e tornou a rumar para o quarto. Dormiu assim que encostou a cabeça no travesseiro e sonhou com Broly.

O imenso saiyajin estava de pé, parado bem na frente da cientista como se fosse uma figura sobrenatural, e lhe lançava um olhar que era, ao mesmo tempo, decepcionado e peçonhento.

— Você era a responsável por sustentar a vida do pequenino, terráquea — Rosnava o guerreiro legendário, e Bulma, amedrontada pelo poder que emanava do corpo dele, deu um passo vacilante para trás. — Mas você fracassou. Por culpa da sua fraqueza, o pequeno príncipe se foi.

Ela acordou num sobressalto, toda suada, trêmula e com o rosto ensopado de lágrimas. Sua cabeça latejava e seus olhos estavam inchados e vermelhos, e, com o coração palpitante, levantou-se da cama e andou de um lado a outro no quarto. Em certo momento, teve a impressão de que as paredes começaram a se fechar ao seu redor e, experimentando um ligeiro pânico, correu até a janela e a abriu, colocando a cabeça para fora e respirando o ar fresco daquele início de manhã. Sentiu a brisa gentil acariciar o seu rosto úmido e o frescor passageiro a fez suspirar fundo. Perdeu a noção de quanto tempo ficou ali, debruçada na janela e perdida em devaneios sinistros, e somente quando ouviu alguém bater à porta e entrar no quarto que sentiu-se retornar à realidade.

— Olá! — Exclamou uma pequena e muito estranha criatura, e Bulma, a princípio, não encontrou palavras para respondê-la. — Vim ver se estava bem e se precisa de alguma coisa. Ah, e também trouxe algumas roupas. Como nossas espécies são um pouco diferentes, não tinha nada do seu tamanho, por isso, minha mãe costurou essas roupas. Espero que sirvam.

A criatura colocou uma muda de roupas sobre a cama e abriu um sorriso gentil.

— Esta é a sua casa, certo? — Indagou a cientista, aproximando-se da pequena alienígena de feições delicadas.

— Sim. Sou Gure. É um prazer finalmente poder conversar com você, senhorita Bulma. Estávamos todos torcendo pela sua recuperação.

— O prazer é todo meu — Respondeu, sincera, e deu uma olhada nas roupas que Gure trouxera: uma blusa branca e calças compridas cinzentas. — Muito obrigada pela hospitalidade e por me trazer essas roupas. Não vejo a hora de me livrar desse vestido velho.

— Fico contente por ajudar no que puder — A pequena alienígena sorriu ainda mais. — Troque-se e junte-se a nós para o desjejum. Tem alguém que gostaria muito de te conhecer.

Esse alguém que gostaria muito de conhecê-la era Tarble, o irmão mais novo de Vegeta. E ele se parecia bastante com Vegeta, pois tinha o mesmo cabelo preto e arrepiado, os mesmos olhos – que eram determinados e sagazes –, o mesmo queixo pequeno e o nariz pontudo e a mesma pele morena. As semelhanças, contudo, acabavam por aí. Tarble tinha um corpo mais magro e feições que eram mais suaves e gentis, enquanto Vegeta era bem mais rude e agressivo. O jovem saiyajin também era mais calmo – e isso ficava bem nítido ao observar suas ações e ouvir sua voz –, além de aparentar ser bem mais prudente e sensato, ao passo que o seu irmão era movido pelo impulso, agindo, muitas vezes, na exaltação do momento. Ele era também um rapazinho bastante sábio, apesar de não passar de um adolescente, muito observador e cauteloso, e não passou despercebido a Bulma que ele parecia sempre pensar bastante antes de falar alguma coisa a ela.

Também não passou despercebido à cientista os olhares que pena que o jovem saiyajin, vez ou outra, lhe lançava.

~Dragon Ball~

Seis dias depois de Vegeta ter deixado Tech-Tech, Bulma escutou brevemente uma conversa entre o rei Vegeta e Tarble. Pai e filho discutiam sobre o possível paradeiro de Vegeta e se ele tinha realmente conseguido localizar algum saiyajin. O rei resmungou alguma coisa sobre querer muito ter notícias do filho e do andamento da missão quando Tarble, de repente, abriu um sorriso iluminado, pegou as mãos do pai entre as suas e exclamou algo como "a senhorita Bulma não é a cientista mais inteligente do universo? Talvez ela possa construir algum tipo de aparelho que nos permita conversar com o meu irmão e Kakarotto! Isso também a distrairia um pouco dos problemas que ela vem enfrentando. Com certeza ocuparia a mente dela e a faria pensar menos no... no que aconteceu."

O rei adorou a ideia e disse que conversaria com Bulma sobre o assunto, e ele conversou mesmo com ela. Bulma fez uma lista das peças que precisaria para construir um comunicador potente o bastante para entrar em contato com Vegeta, e Gure lhe prometeu que se encarregaria de conseguir todo o material requisitado pela cientista.

Naquela mesma noite, Bulma dormiu pensando no príncipe saiyajin, seu coração batendo um pouquinho mais forte sempre que cogitava a possibilidade de poder não só localizá-lo e saber se estava bem, mas também conversar com ele. Entretanto, apesar da ligeira felicidade que a acompanhou até a cama, a cientista foi assombrada por um pesadelo horrendo.

Em seu sonho pavoroso, Vegeta retornava a Tech-Tech com a nave abarrotada de saiyajins e, após comemorar o sucesso daquela arriscada empreitada, virava-se para Bulma e a encarava com asco.

— Para que preciso de uma terráquea inútil ao meu lado agora que estou rodeado de saiyajins? — Perguntava ele, e Bulma, tentando disfarçar o quanto aquilo a ferira, retrucou de imediato:

— Não sou inútil! Sou a pessoa mais inteligente do universo!

— E do que adianta toda a sua inteligência, humana estúpida, quando você não é forte o bastante nem para me dar um filho!?

Quando acordou no dia seguinte, Bulma sentia-se pior do que nunca. E, quando Gure surgiu com todos os itens que pedira, lembrou-se do pesadelo que tivera, do olhar torpe de Vegeta e das palavras cruéis direcionadas a ela, e sentiu um pânico avassalador dominar o seu corpo e sua mente.

Inventou uma desculpa qualquer e mentiu dizendo que não era capaz de construir o comunicador.

~Dragon Ball~

Exatamente cinco dias depois de ter mentido sobre o comunicador, Bulma foi surpreendida por um súbito estrondo. Assustada, correu para fora da casa de Gure e, toldando os olhos com as mãos, ergueu o rosto para o céu violeta.

E viu não apenas uma, mas duas naves atravessarem a atmosfera e pousarem num terreno descampado que ficava a algumas dezenas de metros do povoado techtecano.

— Vamos até lá, menina — Ouviu a voz do rei Vegeta e olhou para o lado ao sentir a mão dele em seu cotovelo. — Não está ansiosa para vê-los?

— Claro — Mentiu e tentou sorrir, e o rei estava tão eufórico que nem percebeu que aquele sorriso forçado parecia mais uma careta.

A verdade é que ela estava com medo de encarar Vegeta. Assim como estava com medo de ter aquele pesadelo tornado realidade.