CAPÍTULO VINTE E CINCO

Atitudes

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Na manhã de sábado, Harry acordou assustado com o despertador tocando. Sem raciocinar direito, tateou o criado mudo até encontrar o celular e passou os dedos pelos botões do celular até reconhecer o que o reprogramava o aparelho a despertar novamente dali a dez minutos, sem sequer se dar ao trabalho de abrir os olhos. Parecia que não tinha dormido nada! Bem, na verdade ele tivera menos horas de sono que o usual, já que demorara bastante para pegar no sono na noite anterior. Tinha ficado repassando os acontecimentos em sua mente e vez por outra se pegara sorrindo para o teto escuro do quarto.

Afinal, tinha descoberto que Draco não era homofóbico! Aliás, a reação dele diante daquela cena empolgada na cozinha fora a melhor possível. Ele aceitara, fora bastante compreensivo e parecera até mesmo curioso quanto ao carinho que Sirius demonstrava para com Remus o tempo todo. Isso era um ponto a seu favor, então?

Mas qual era sua intenção, afinal? Será que ele tinha esperanças de conquistar Draco Malfoy? É claro que não. Draco era heterossexual, certo? "Bem, mas quem garante isso?" apontou uma vozinha conhecida em meio a seus pensamentos conflituosos. "O histórico de namoradas dele? Ora, Harry, você também teve suas namoradas e agora está apaixonado por um garoto! Sendo assim, por que seria impossível acontecer o mesmo com Draco?".

É, por que isso seria impossível? "Ele nunca se apaixonaria por alguém, é muito narcisista!" acusou outra voz conhecida. "Não se dê esperanças, Harry. Você vai se machucar!". Mas... será que Harry estava apaixonado realmente? Draco Malfoy era um garoto interessante, bonito, charmoso... Enfim, era muito atraente, sim, e Harry estava numa fase vulnerável de sua vida. Tinha "perdido" a companhia constante dos melhores amigos e ainda presenciava algo novo com a relação de Sirius e Remus. Talvez ele só estivesse se deixando levar pela curiosidade, e não era uma boa idéia tentar descobrir isso. Ele poderia arruinar até mesmo o que já tinha alcançado em termos de progresso com sua amizade se tentasse uma aproximação diferente com o loiro. Draco poderia se retrair e se afastar dele se soubesse que Harry nutria algum tipo de outro sentimento por ele. Amizade era tão mais segura! Harry deveria se contentar com isso. Oh, sim, deveria, pois ter se tornado amigo de Draco Malfoy já era um passo maior do que ele sequer pensou que fosse possível alcançar um dia.

Estava sendo difícil colocar os pensamentos em ordem no momento, mas mesmo assim, Harry ainda pôde sorrir ao lembrar-se da maneira vaidosa com que Draco se avaliara no espelho; do interesse que ele demonstrara nas fotografias; a elegância do loiro até para comer o lanche com as mãos; seu tato ao sustentar uma conversa agradável com Sirius mesmo quando o assunto era tão delicado...

Fora delicioso apreciar pelo canto do olho o enlevo de Draco ao assistir Remus e Sirius tocarem. E, pelo visto, o loiro sofria do mesmo mal que ele; não conseguia tocar sem partitura e travava quando havia platéia. Mas Harry não podia culpá-lo pelo deslumbramento com que Draco ouvira e assistira Amsterdam. Ele próprio nunca tinha ouvido aquela música, mas passara a entender a paixão de Draco pela banda depois de ouvi-la.

Aquele garoto que passeava de BMW arrogantemente em frente a Hogwarts fazendo o chão tremer com as batidas potentes do som parecia cada vez mais distante do Draco que ele conhecia agora. Onde estava aquele garoto que fazia questão de importuná-lo na primeira oportunidade? Aquele garoto que sempre o tirava do sério e conseguira fazer com que Harry saísse no braço com ele depois de uma simples partida de vôlei por insultar covardemente a Sra. Weasley...

Harry sorriu novamente, lembrando-se do incidente. Pois é, Draco tinha mudado muito desde então. Entre ele e Ron, o loiro estava se mostrando muito mais maduro do que o ruivo! Ele ainda continuava com sua pose prepotente e encarava os outros de cima, mas pelo menos agora Harry sabia que existia um garoto incrível por trás daquela máscara de indiferença e que conquistara o privilégio de conhecer esse lado de Draco. Tanto Harry quanto Natalie tinham esse privilégio.

Esse pensamento fez com que o sorriso de Harry vacilasse. E se houvesse uma outra pessoa? Quem era essa pessoa que Draco protegia tão bem de suas especulações? Nem mesmo Natalie tocara nesse ponto! E se havia uma pessoa que com certeza sabia disso, essa pessoa seria Natalie. Mas não seria melhor continuar na ignorância? Como Harry suportaria ouvir Draco abrindo seu coração para ele quando falasse de outra pessoa? Como Harry reagiria quando visse Draco com outra pessoa? Não podia fingir que havia esperanças de competir com quem quer que fosse, certo? E sendo uma pessoa inconstante como já demonstrara ser, era até mesmo intrigante o fato de o loiro nunca ter comentado de nenhum de seus "casos". Estaria apaixonado de verdade por alguém? Bem, isso era alguma coisa difícil de imaginar, mas Draco já o surpreendera tantas vezes que Harry já não achava tão impossível.

E se algum dia isso viesse a acontecer, se Draco viesse a falar ou até mesmo apresentá-lo para essa pessoa, Harry teria que apoiá-lo. Afinal, isso é o que se espera dos amigos, correto?

Nesse momento o despertador tornou a tocar e Harry levantou-se, resignado, preparando-se para ir para o treino. Mal conversou com Sirius - nem Snuffles - no café da manhã, já que estes também pareciam bem preguiçosos e sonolentos. Apesar disso, ele logo despertou e conseguiu chegar cedo no treino. Aproveitou a oportunidade, enquanto se aquecia em volta da quadra para testar a si mesmo. As arquibancadas por enquanto eram ocupadas por um grupo de rapazes do terceiro ano de Administração, entre eles Oliver Wood. Era estranho para Harry tentar olhar Lino Jordan ou Seamus Finnigan com outros olhos porque eles sempre foram muito amigos, desde o colégio, e não passavam disso, por isso ele nem tentou. Já Oliver era um cara bonito, popular, viva cercado de garotas, então se fosse para ele ter alguma reação a outros garotos, seria natural que fosse com o capitão do time, certo? Erm... bem... Harry já tinha admitido que ele era bonito... atlético... simpático também... e... bom, não tinha mais o que dizer. Não era nem de longe a mesma coisa. Ah, e ele nunca se atreveria a ficar com outro cara só pra saber se era isso mesmo que ele queria.

Porém, em meio a essas reflexões, o coração de Harry de repente disparou quando viu Draco chegando, com seu andar casual, a mochila sobre os ombros e a testa levemente franzida...

- Está atrasado novamente, Sr. Malfoy - ralhou Madame Hooch logo que Draco se aproximou.

- Eu sei - respondeu Draco, secamente, sem deixar de rumar para o vestiário.

Harry sorriu. Parte por divertimento quanto ao típico mau-humor matinal e parte pela simples felicidade que vê-lo e ouvi-lo lhe causava.

- Sr. Malfoy, eu ainda não terminei de falar - Madame Hooch insistiu severamente, fazendo com que Draco parasse e se virasse para ela, contrariado. - O senhor chegou atrasado em todos os treinos! Nunca faz o aquecimento corretamente, pois nós temos que dar andamento com o treino! Eu não vou tolerar atraso no dia do jogo. O senhor vai ter que fazer o impossível para chegar no horário combinado no sábado. Meia hora antes, entendeu? Nem um minuto a menos!

- Ok, já posso me trocar para não atrapalhar ainda mais o treino? - questionou Draco, sarcasticamente.

- Ande logo - a treinadora dispensou e continuou resmungando enquanto ele se afastava. - Garoto impertinente. Pensa que o mundo gira em torno dele. Agora temos que esperar a boa vontade dele para dar início ao treino, como sempre, humpt!

Harry nunca teve nada contra Madame Hooch. Até aquele dia. O moreno fechou a cara para a treinadora e passou a bola para Seamus antes de rumar para o vestiário também.

- Bom dia - cumprimentou jovialmente, logo que foi agraciado pela visão do loiro despindo a camisa.

- Só se for pra você - reclamou Draco, apesar de usar um tom de voz menos ácido do que antes. - Que culpa tenho se Hooch está de TPM, me diz?

- Ih, relaxa - Harry sorriu. - Ela só está nervosa com a proximidade do jogo. Será que sobram comentários mau-humorados para mim também se eu fizer companhia?

- Não duvide muito disso - respondeu Draco, oferecendo-lhe um sorriso enviesado caprichado, já desabotoando as calças para vestir os shorts do uniforme.

Harry empurrou os óculos no rosto, engoliu em seco e desviou os olhos, caminhando até a própria mochila em um dos bancos para dar maior privacidade ao amigo.

- Antes que eu me esqueça, tenho que devolver sua camiseta - disse retirando demoradamente a peça da mochila e estendendo-a ao outro.

- Ah, sim, obrigado - Draco aceitou-a, antes de finalmente terminar de calçar os tênis novamente. - Eu esqueci a sua, cara.

- Não tem problema, depois você devolve. Vamos?

- Sim, vamos enfrentar a treinadora com TPM já que não tem outro jeito mesmo - resmungou Draco, voltando a parecer mal-humorado. - Pelo menos sábado que vem será o último que ela vai conseguir me arrancar da cama de madrugada.

Harry rolou os olhos, divertido, enquanto eles deixavam o vestiário.

- Sim, e nós não teremos mais que aturar o seu mal-humor matinal nas "madrugadas" de sábado - gracejou, apesar de não lhe agradar nem um pouco a perspectiva de que em breve não haveria mais treinos com Draco...

- Ah, é? - indignou-se o loiro. - Só por causa desse comentário, eu farei o possível para ser particularmente insuportável hoje, só pra que você nunca se esqueça de quando tinha o privilégio de treinar com Draco Malfoy.

Harry apenas sorriu, já que Madame Hooch não esperou nem mais um segundo para dar ordens. Dessa vez, não teve como fazer brincadeiras ou competições, é claro, já que ela parecia mais enérgica que o de costume, fazendo-os dar o melhor no treino e nunca se dando por satisfeita. É obvio que Draco não conseguiu ser "particularmente insuportável", mas não perdeu nenhuma oportunidade de fazer caretas de desgosto para as costas da treinadora.

A manhã, que tinha começado fresca por causa da chuva da noite passada, logo foi esquentando com o sol forte, até que o treino finalmente acabou e os dois garotos se largaram exaustos no chão da quadra. Seamus e Lino ficaram ainda algum tempo conversando com Madame Hooch a respeito dos uniformes enquanto eles se alongavam, o que de certa forma acabou tirando um pouco da privacidade de ambos, além do fato de que havia dois grupinhos de alunos animados nas arquibancadas. Harry e Draco fizeram somente alguns exercícios rápidos de relaxamento e furaram a fila para o chuveiro.

Eles falaram de coisas sem importância o tempo todo, já que Seamus e Lino logo se juntaram a eles no vestiário, aguardando para usarem os chuveiros. Harry evitou qualquer contato visual com o loiro enquanto existia a possibilidade de ele estar seminu. Combinaram de se encontrar no parque, sob o flambioã para o passeio de bicicleta às três da tarde, quando o sol já estivesse menos forte e Draco havia insistido em escolher o caminho daquela vez.

Despediram-se no estacionamento e Harry voltou para casa, resignado a passar as três horas seguintes se consumindo em expectativa pelo momento de vê-lo novamente.

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Remus estava sentado no sofá maior da sala lendo uma revista científica, tendo a cabeça se Sirius em seu colo. Sirius estava assistindo televisão num volume razoavelmente alto, mas Remus não se importava com isso. Desde menino, ele sempre conseguia se desligar de tudo ao seu redor e mergulhar na leitura. Bem, de quase tudo, na verdade, pois seus dedos vez ou outra acariciavam os cabelos sedosos do namorado.

Entretanto já fazia algum tempo que Sirius estava inquieto, se mexendo, estalando a língua e Remus tinha certeza que não era por causa de o que quer que ele estivesse assistindo.

- Qual o problema, Padfoot? – perguntou, sem tirar os olhos da revista.

- Nada – resmungou Sirius, também sem tirar os olhos da televisão.

Foi Remus quem cedeu, fechando a revista e desligando o aparelho pelo controle remoto.

- Eu vou ter que adivinhar então? – e sem esperar por uma resposta, Remus continuou: - Bem... três tentativas? Ok, primeira: você está entediado.

Sirius bufou, virando-se e acomodando melhor a cabeça no colo do namorado de modo que pudesse encará-lo de frente, emburrado.

- Acertei na primeira? – Remus fez-se de surpreso. – Viu só? Eu ainda sou bom nisso!

- Engraçadinho – desdenhou o outro. – E o que você pretende fazer a respeito disso?

- Hum – Remus fingiu ficar pensativo. – Três tentativas?

Sirius acenou afirmativamente, um sorriso torto brotando em seus lábios. Remus sorriu também antes de abaixar a cabeça e unir seus lábios em um beijo suave e barulhento.

- Então? – perguntou assim que se afastou o suficiente para focalizar seus olhos, divertido.

- Cara, eu tenho que admitir, você ainda é bom nesse negócio de adivinhar – respondeu roucamente

- É, eu sei – Remus foi puxado pela nuca por Sirius para outro beijo, porém eles ouviram o barulho de passos e se afastaram para ver Harry surgindo do corredor com roupas confortáveis que usava para se exercitar.

- Alô, garotos – ele sorriu, avançando mais para apoiar-se no encosto da poltrona com Snuffles em seu encalço, abanando o rabo. – Estou saindo, ok?

Sirius sentou-se no sofá, arqueando uma sobrancelha.

- Aonde você vai? – perguntou, seco.

- Andar de bicicleta.

- Com quem?

- Com Draco.

- Aonde vocês vão?

- Não sei.

- Como assim, não sabe?

Harry deu de ombros.

- Ainda não decidimos aonde vamos. Agora, será que eu posso ir? Já acabou o interrogatório?

Sirius abriu a boca, já certo de que Remus o interromperia a qualquer momento com um "Sim!", mas isso não aconteceu. No entanto, Sirius descobriu que não tinha mais o que dizer, por isso voltou a fechar a boca. Bufou.

- Tudo bem, só não demore a voltar.

- Ok – Harry virou-se em direção à cozinha, porém foi impedido pela voz de Remus.

- Ah, Harry, nós vamos sair por volta das sete horas, vamos numa confraternização do corpo docente de Hogwarts...

- Ora, pra que falar tão difícil? – desdenhou Sirius, carrancudo com a menção da festa. – É uma festinha idiota para obrigar os professores a serem mais sociáveis, ora... que ridículo...

- Bem, é isso então – continuou Remus, sem se alterar. – Nós vamos a uma festinha idiota dos professores idiotas de Hogwarts e seus convidados idiotas, por isso não vamos jantar – ele ignorou completamente o rosnado que Sirius soltou. – Quer que eu deixe algo preparado para você jantar, Harry?

- Humm – Harry coçou a cabeça. – Não, não precisa. Eu me viro, como alguma coisa na rua. Então não precisam esperar por mim, ok?

- Tudo bem – Remus assentiu, oferecendo-lhe um sorriso gentil. – Divirta-se.

- Obrigado – acenou em despedida e virou-se novamente, quase tropeçando em Snuffles.

O cão latiu ansioso, olhando para suas mãos e procurando pela coleira.

- Oh, Nuf, sinto muito, mas você não vai dessa vez – Harry afagou as orelhas do cão, que ganiu e sentou, desanimado. – Eu vou de bicicleta hoje, não dá pra te levar, ok?

Snuffles assistiu o garoto sair, parecendo desamparado, com as orelhas murchas.

- Oh, venha aqui, meu bebezão – chamou Sirius, batendo nas próprias pernas, ao que o cachorro atendeu prontamente, apoiando as patas dianteiras em seu colo. – Não liga para esse garoto bobo, não. Ele é feio. Você é bonitão e charmoso.

Snuffles fez-se de coitadinho, ganindo, apesar de que seu rabo denunciava a farsa. Tudo para ganhar mais atenção.

- Moony, nós realmente... – Sirius começou, como quem não quer nada, porém Remus cortou-o.

- Já está decidido, Padfoot. Eu vou. Se você não quiser ir, não precisa. Mas não perca seu tempo tentando me impedir.

- Droga – choramingou Sirius. – É claro que eu não vou deixar você todo sexy de social dando sopa para aquele morcego velho do Seboso.

Remus rolou os olhos e voltou a pegar a revista, mas Sirius abandonou Snuffles e segurou suas mãos.

- Hey, hey, acho que você está fugindo do assunto.

- Sirius, eu não quero discutir por causa dessa festa...

- Não, não é desse assunto que eu estou falando.

Remus franziu a testa em confusão e já ia perguntar quando foi calado pelos lábios de Sirius nos seus, respondendo a sua dúvida.

Derrotado, Snuffles deixou a sala.

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Draco estava de pé encostado no tronco do flamboiã, olhando em direção ao parque, para as pessoas de várias faixas etárias que se divertiam ao longe, próximo ao lago, ou nos bancos nas sombras das árvores. A bicicleta estava encostada no tronco da árvore também e Draco tinha as mãos nos bolsos. Tinha chegado mais cedo que o combinado, mas não queria se sentar para não sujar a roupa, já que eles logo sairiam.

Estava repassando mentalmente tudo pelo que tinha passado durante o último mês. Fazia só quatro semanas que tudo tinha começado por um bate papo na internet e desde então sua vida tinha virado de ponta cabeça. Não que ele estivesse reclamando, mas era... assustador, de alguma maneira. Ficou tão concentrado em seus pensamentos, que não notou Harry se aproximando silenciosamente às suas costas, desmontando da bicicleta e chegando bem próximo à ele como se pisasse em ovos.

- BUU! – o grito em seu ouvido combinado com os dedos de Harry cutucando suas costelas de uma só vez foi o suficiente para que ele desse um pulo e olhasse para trás assustado, xingando e praguejando.

- Merda, Harry! – praguejou, e esse foi o melhor dos palavrões que soltou. – Você quer levar um pé do ouvido, é?

- Uhhh que medo! – Harry contorceu-se de tanto que ria, então encaixou os óculos melhor no rosto, tentando controlar o riso. – Oh, me desculpe, Draco, mas eu não resisti! Você parecia tão concentrado!

- Isso vai ter volta, ouviu bem? – Draco apontou o indicador para o outro ameaçadoramente, ainda com as batidas do coração aceleradas, mas não se sentia realmente zangado com Harry, apenas não cederia. – Marque minhas palavras, Harry.

- Ok, ok, eu prometo me comportar... se você se comportar também.

- Agora não adianta, o estrago já está feito – Draco continuou com sua ceninha, apesar de já não conseguir mais conter o divertimento, agora que já se recuperava do susto. – E você não escapa. Vamos?

- Sim, vamos – ambos montaram nas bicicletas e Harry seguiu-o saindo para a rua. - Pra onde mesmo?

- Você vai descobrir logo, logo.

Harry bufou, mas seguiu-o sem questionar. Eles tomaram o rumo contrário à casa do moreno e seguiram por várias quadras em linha reta, um ao lado do outro em silêncio. Passaram por muitas garotas saindo de lojas, em frente às suas casas, caminhando nas calçadas, e toda vez que acontecia de alguma ser chamativa, Draco ficava cuidando com o canto do olho para ver se Harry olharia, mal sabendo que o outro fazia exatamente o mesmo. Por fim, eles acabaram tão preocupados com a reação do outro que não prestaram realmente atenção a nenhuma delas. Quando faltavam duas quadras, Harry desacelerou.

- Ah, não... não Draco... você não está me levando pra sua casa, está?

Draco parou e virou-se para ele, carrancudo.

- Ora, e se for? Qual o problema nisso?

- Draco, seus pais não gostariam de saber disso, você sabe...

- Meus pais não precisam ficar sabendo disso, Harry. Eles estão viajando e a mansão também é minha. Eu sempre levei meus amigos para casa, não vejo problema nenhum nisso. Além disso, eu já visitei a sua, certo? Nada mais justo do que você retribuir a visita.

Draco despejou tudo isso com seu jeito desdenhosamente defensivo e voltou a pedalar. Logo Harry estava a seu lado novamente. Eles logo alcançaram as grades do portão e Draco usou o interfone para se identificar. Desmontaram das bicicletas, entraram e seguiram um caminho estreito de cimento que atravessava a grama do portão até a entrada da mansão, porém se ramificava rumo à garagem. Draco tomou esse caminho e Harry seguiu-o.

Eles deixaram as bicicletas na garagem e rumaram para dentro da casa. Harry pareceu um tanto apreensivo, mas não disse nada até entrarem, sendo recebidos por Winky. E... bem, quando entraram...

- Wow! – exclamou o moreno, de queixo caído e Draco deu um sorriso satisfeito.

A sala de visitas era imensa, com um amplo espaço no meio, móveis caros e poltronas de todos os tipos, além de ornamentos dos mais variados e certamente muito caros.

- Fecha essa boca, Harry. Essa é só a sala de visita, vamos – e Draco conduziu Harry pela maioria dos aposentos do primeiro andar.

Justamente como ele tinha imaginado, Harry ficou particularmente encantando com os retratos de família na sala de estar. Não havia porta retratos espalhados pela casa, nem os três – Lucius, Narcissa e Draco - juntos arreganhando os dentes num falso sorriso para as fotografias. Havia três quadros de um pintor famoso, dispostos um em cada parede. Em cada um deles, um Malfoy posava solitário e altivo, com traços que beiravam à perfeição de verdadeiras fotografias.

- Cara, que incrível! – murmurou Harry, aproximando-se mais do quadro correspondente a Draco e analisando-o com uma das mãos cobrindo a boca. – É perfeito!

- Eu sei que sou perfeito, Harry – Draco balançou-se nos próprios pés. – Agora, você se importaria em parar de babar no meu retrato? Ainda tem algumas coisas que eu quero te mostrar.

Harry demorou mais que o necessário para desgrudar os olhos da pintura, mas acabou seguindo-o para o corredor novamente. Eles passaram direto pelas escadas, pois Draco ainda não queria apresentá-lo o segundo andar. Ainda.

Havia um entroncamento de corredores que rumavam para as direções Norte-Sul e Leste-Oeste. Draco virou sentido leste e eles atravessaram mais alguns cômodos até o fim do corredor, que era estranhamente menor do que o do sentido contrário. Ao final dele havia uma porta dupla de correr feita inteiramente de vidro, inclusive os puxadores. Do lado de fora, era possível ver uma imensidão azul piscina.

Draco escancarou-a e indicou para que Harry passasse.

- Wow! - exclamou Harry assim que obteve uma visão completa da piscina.

- Você só sabe dizer isso, Harry? - perguntou, divertido.

- Bem, na verdade não - Harry começou a recitar um monte de palavrões para expressar seu embasbacamento. - ... essa piscina é imensa! Tem aquecimento?

- Sim. Mas ultimamente tem feito calor demais, então nós não temos ligado. Além disso, só eu que uso essa piscina, e ultimamente não tenho trazido ninguém, então ela tem estado meio abandonada.

- Ora, porque não me avisou? - ralhou Harry, ainda analisando os arredores.

- Ora, porque se eu avisasse não seria surpresa, certo? - retrucou Draco, sarcasticamente.

- Wow - Harry caminhou até a borda da piscina e Draco aproveitou a vista, despudoradamente, enquanto maquinava sua vingança. - Qual a profundidade dela.

- Na ponta de lá ela bate na minha cintura e na de cá deve ter uns dois metros e meio. Você sabe nadar, não é mesmo?

- Sim. Eu não tenho técnica nenhuma, nunca fiz aula de natação, mas sei me virar bem - ele virou-se para Draco, apontando-lhe o indicador. - Por isso, nem pense em fazer competições, ok?

Draco riu.

- Ok, ok. Seria injusto. Eu fiz cinco anos de natação.

- Viu só?

Draco juntou-se a ele, na beirada da piscina. Já vinha planejando sua vingança desde o caminho até a mansão. Tinha observado bem as roupas de Harry para não fazer bobagem. O moreno estava usando uma camiseta branca e calças verde-escuras que tinha bolsos costurados na parte da frente só como enfeite, bolsos reais na parte de trás e um bolso saliente na perna direita, ao lado do joelho. Não havia nada nos bolsos de trás, pois... bem, pois seria notável já que essa calça não era tão larga. Portanto, o celular devia estar no bolso lateral. Mas e se houvesse mais alguma coisa? Carteira, documentos? Não, não parecia ter mais nada... Bem, ele teria que arriscar.

- E aqueles aparelhos ali, o que são? - Harry apontou para a parede de pedra da lateral direita, que era rente à piscina.

- São dá cascata artificial - Harry piscou graciosamente admirado. - Eu vou ligar pra você ver. Ah, um momento.

Draco levou a mão ao bolso traseiro da própria calça e retirou o celular, franzindo a testa para ele.

- Que estranho. Eu achei ter ouvido um bip, mas não tenho mensagem. Será que não foi o seu?

Harry também franziu a testa e abaixou-se, retirando o aparelho do bolso lateral.

- Eu não ouvi nada, deixe-me ver... - o moreno endireitou-se, olhando para o aparelho. - Não. Você deve ter se enganado.

- Posso ver? - Draco deu um passo para mais perto, apontando para o celular do outro, que entregou-o de bom grado.

Porém, assim que o fez, Draco segurou firmemente ambos os celulares com uma mão e abraçou os ombros de Harry com a outra. Com um empurrão forte do braço e do próprio corpo, Draco fez com que Harry perdesse o equilíbrio.

- Hey, hey, hey - Harry ainda tentou se agarrar no loiro, mas era tarde demais.

Draco afastou-se seguramente e assistiu o outro cair na piscina completamente vestido, espirrando água para todo lado e respingando na própria roupa. Então caiu na risada, observando Harry emergir com lentidão e sem os óculos, agitando a cabeça para retirar a água dos olhos.

- Maldito-desgraçado-filho-da-mãe! - gritou num só fôlego. - Seu... seu... minha roupa! Por que fez isso?

Draco estufou o peito, tentando parecer arrogante, apesar de sorrir.

- Bem, eu disse que teria troco, não disse? Lá no parque?

- Filho da mãe! - Harry deu um soco na água e Draco afastou-se para não respingar em sua roupa. - Foi só um susto, caramba! Droga, perdi meus óculos.

- Não se preocupe, eu empresto roupas minhas. E tem sua camisa aqui ainda.

- E meus tênis? Estão encharcados! - Harry ainda parecia zangado.

- Eu te empresto também! Você calça um número a menos que eu, mas eu tenho uns tênis mais apertados... Ora, não se preocupe, eu dou um jeito - ele se afastou e deixou Harry praguejando enquanto procurava os óculos. - Vou pegar um calção pra você. Winky deve ter deixado em algum lugar por aqui.

Ele colocou os dois aparelhos celulares numa mesinha e encontrou dois calções pendurados no encosto de uma das cadeiras de sol. Analisou-os.

- Droga. Odeio esse aqui - ele analisou um vermelho que era mais um shorts do que qualquer outra coisa, então sorriu imaginando Harry nele. - Vou ligar a cascata pra você ver - ele falou alto, sem se virar, alcançando uma chave elétrica camuflada em meio a era da parede próxima à porta pela qual eles tinham entrado e ligou-a, fazendo com que um motor quase silencioso entrasse em funcionamento e o barulho suave da água caindo preencheu o ar. - Prontinho.

Draco ia virar-se, porém foi surpreendido por alguns respingos em seu braço antes que eles fossem firmemente presos por dois outros braços.

- Hey! - Draco puxou o ar com força para os pulmões com o choque do corpo gelado que colou em suas costas enquanto Harry o abraçava, mantendo seus braços presos ao lado do próprio corpo, sem dar-lhe chance para se afastar.

- Pensou que eu ia aceitar numa boa, não é mesmo? - Harry falou, próximo ao seu ouvido e começou o puxá-lo para trás.

- Harry! Harry, não se atreva - Draco começou a se debater, tentando se soltar, mas seus esforços não estavam sendo o suficiente. - Harry, não faça isso!

- Ah, se faço! - Harry deu uma gargalhada maligna.

- Você está perdido se fizer isso, Harry! Harry! Aahhh!

Draco mal teve tempo de puxar o ar para os pulmões quando sentiu o chão fugindo de seus pés, literalmente, quando caiu para trás na água, com Harry logo abaixo. Assim que eles afundaram, Harry soltou-o de os dois emergiram quase ao mesmo tempo. Draco despejou palavrões enquanto tentava afundar Harry e era afundado também. Eles ficaram nessa guerra até Draco desistir, exausto por ter que lutar debaixo d'água com as roupas e o tênis. Içou o corpo para cima e sentou na borda da piscina, retirando os tênis encharcados.

- Viu só como é divertido molhar os outros?

- Cala essa boca - Draco atirou um pé depois o outro no moreno, sem conseguir atingi-lo por causa do peso destes. - Só por isso você vai ficar com o pior shorts.

- Quão pior é esse short? - Harry debruçou-se na borda e ganhou um sorriso travesso do loiro.

- Você vai ver só - Draco levantou-se, as roupas grudadas no corpo rangendo enquanto ele caminhava até a mesa e trazia as peças de roupa. - Tome. Veja se serve.

Draco atirou o vermelho e apossou-se da bermuda preta, já desabotoando a camisa.

- O que. É. Isso? - Harry encarou o short de queixo caído. - Caramba, Draco, isso coube em você algum dia? Porque certamente não cabe mais. E nem em mim.

Draco tirou a camisa com certa dificuldade, já que o tecido tinha grudado completamente em sua pele e jogou-a no chão.

- Bem, eu disse a Winky para separar dois calções velhos, mas ela exagerou, realmente. Esse aí eu usava quando tinha treze anos e era quase uma bermuda naquela época.

- Sim, então nós dois concordamos que você devia achar um calção não tão velho pra mim, certo?

- Errado - Draco deu-lhe um sorriso enviesado e caminhou para a o meio da piscina, onde ela começava a ficar mais rasa. - Ninguém mandou me jogar na água - ele deu de ombros e pulou na água, deixando a bermuda na beirada.

O nível da água alcançava seu abdome naquela parte da piscina. Ele olhou para a cara desgostosa de Harry, que ainda analisava os shorts.

- Venha para cá, Harry. É mais fácil pra se vestir se tiver apoio para os pés.

Resmungando, Harry foi até ele. Draco removeu toda a roupa do corpo e vestiu a bermuda antes que Harry o alcançasse. Colocou as peças encharcadas na borda e apoiou os cotovelos nela, virando-se de frente para assistir Harry se trocar.

- Você não vai tirar os óculos, Harry?

- Tá brincando? Eu não enxergo nada sem eles - Harry retirou os óculos somente para despir-se da camiseta e voltou a encaixá-los no rosto. - Eu já estou acostumado a nadar com eles.

O moreno retirou as calças e, quando percebeu que era observado atentamente, virou-se de costas para o loiro e vestiu os shorts logo em seguida, sem se livrar da cueca azul escuro.

- Oh, isso é ridículo - ele olhou para baixo. - Não cobre nem meu traseiro direito.

- Que exagero, Harry. Ele bate no meio das suas coxas - Draco estava achando tudo três vezes mais engraçado, depois da visão que teve do moreno de costas.

- Quando eu estou fora da água pode até ser, mas veja. O calção flutua! Que... que coisa mais... wow! - Harry tinha levantado os olhos pela primeira vez para a cortina de água que jorrava rente à parede. - Puxa...

- Venha - Draco mergulhou, tomando impulso na parede da piscina e atravessou-a até a queda d'água.

Harry seguiu-o e eles ficaram aproveitando a sensação da água caindo diretamente sobre suas cabeças, sobre suas costas como se os massageasse. O moreno logo esqueceu de seu acanhamento quanto aos shorts e eles se aqueceram atravessando a piscina de um lado para o outro. Draco deu algumas dicas de técnicas e modalidades de natação e até ajudou Harry a dar braçadas de um extremo ao outro da piscina. Então eles passaram para as cambalhotas. Harry sabia dar cambalhotas corretamente para frente, mas tinha medo de fazer o inverso, então Draco ajudou-o a perder o medo.

Harry era bom em mortais, mas nada que se comparasse às habilidades treinadas de Draco. Porém um certo moreno só de shorts se preparando para saltar sempre tirava grande parte da sua concentração antes dos saltos. O loiro tinha vontade de se mostrar, de provar o quão era bom no esporte, mas não queria que Harry se sentisse incapaz.

Depois de muito tempo brincando disso, Draco sugeriu vôlei e eles estenderam uma rede própria - que já tinha até dois pequenos pilares para ser afixada - e começaram o jogo, revezando o lado a cada set para que nenhum deles ficasse em desvantagem quanto à inclinação da piscina. O jogo estava indo bem e o sol já estava bem baixo no horizonte, mas eles nem repararam no tempo passando. Em certo momento, os dois se aproximaram da rede e tocaram na bola quase ao mesmo tempo, fazendo com que ela pingasse na quina da piscina do lado de Draco e pulasse para fora do alcance dos dois.

- É minha! - Harry levantou a mão, já se aproximando da borda para recuperá-la, porém Draco protestou.

- Como assim, sua? Saiu pra fora!

- Mas foi você quem tocou nela por último - Harry deu de ombro, já se preparando para inçar o corpo para fora da piscina, porém Draco passou por baixo da rede e segurou seu pulso.

- Claro que não! Foi você quem tocou por último, e jogou para fora!

- Há-há, faz-me rir... hey!

Harry deu impulso nos pés, levantando o corpo, porém antes que pudesse passar os joelhos para a borda, foi agarrado na cintura por Draco e puxado de volta.

- Sai dessa, Harry, a bola é minha, você tocou por último.

Harry tentou se soltar, mas Draco prensou-o contra a borda da piscina e imobilizou seus braços.

- Me solta, Draco. Olha, vamos fazer o seguinte então. Você me solta e nós dois competimos justamente para ver quem chega na bola primeiro. Quem pegar primeiro é o dono da vantagem, ok?

- Ok - Draco hesitou antes de finalmente soltá-lo e Harry virou-se para encará-lo, ainda muito próximos um do outro.

Então, de repente, o moreno deu um sorriso safado e passou uma rasteira em Draco, aproveitando-se para tomar impulso pra cima e passar um joelho para a borda. No entanto, quando foi passar o outro, Draco segurou seu tornozelo, fazendo com que ele caísse de volta na água.

- Seu trapaceiro, pensa que ganha de mim? - Draco passou na frente, apoiando-se na borda e já ia tomar impulso, quando Harry prendeu seu pescoço numa chave de braço e puxou-o para trás. - Hey, hey, hey.

- Não, não. Precisa mais do que isso pra se livrar de mim.

- Ah, é? - Draco escorregou a cabeça por baixo do aperto frouxo do outro e virou-se, tentando passar-lhe uma rasteira, porém Harry se segurou firmemente nele ao escorregar, trazendo-o junto para baixo d'água.

Ambos emergiram puxando ar com força e se atracando novamente, um tentando afundar o outro ou trançando suas pernas para fazer o outro cair, até que Harry empurrou Draco contra a parede da piscina, prensando suas costas nela com todo o seu corpo colado no dele. O mundo parou de girar, o chão fugiu de debaixo de seus pés, o estômago de Draco deu uma pequena fisgada e o tempo parou de correr.

Harry segurava os ombros de Draco e tinha os próprios braços sendo firmemente segurados de volta. Ambos se encararam de muito perto, os narizes quase se tocando, os óculos de Harry meio tortos no rosto, cabelos escorridos e encharcados, tórax subindo e descendo descompassadamente, corações palpitantes. Os apertos das mãos diminuíram e as palpitações só se intensificavam conforme eles se encaravam olho-no-olho por milésimos de segundos que pareceram eternos. Não havia mais nada além de Harry. Ou pelo menos nada que importasse mais do que o contato de seus corpos, a respiração que tocava sua face, o martelar quase doloroso de seu coração. Se Harry não o estivesse prensando contra a borda da piscina, o loiro certamente já teria escorregado.

Draco podia focar uma íris verde de cada vez, perdendo-se na intensidade daquele olhar, naquela boca entreaberta, buscando por quantidades maiores de ar, os lábios escurecidos por causa da água gelada. Harry o estava torturando, só podia ser! O loiro já não se continha mais. Estava prestes a cerrar completamente os olhos e vencer a distância quando eles ouviram um barulho metálico e Harry deu um pulo para trás, arregalando os olhos.

Draco fechou os olhos e escorregou, conforme suas pernas amoleceram, incapazes de sustentar seu próprio peso.

- Sr. Malfoy, vou deixar o bolo sobre a mesa - disse a voz de Winky e Draco virou-se para ver a mulher baixinha depositando uma bandeja na mesinha ao lado dos celulares.

- Obrigado, Winky - Draco agradeceu, virando-se, sem encarar Harry e respirando fundo antes de içar-se para cima, sentindo o corpo todo muito pesado. - Venha, Harry. Eu estou morto de fome.

Ele ouviu a agitação da água, conforme Harry o seguia para fora da piscina. Podia tê-lo beijado! Ou melhor, Harry podia ter feito isso, nem que fosse por impulso, afinal o moreno não tinha se afastado dele. Se não achasse aquilo absurdo, poderia jurar que Harry estava tendo o mesmo pensamento que ele, só não sabia se ele hesitara por dúvida, choque ou medo. Mas afinal, será que Draco não estava querendo enxergar coisas onde não existia nada? Eles estavam lutando, afinal. Oh, e como fora bom ter um pretexto para tocar a pele convidativa de Harry, molhada, escorregadia...

- O que o senhor vai querer para o jantar? - Winky perguntou, polidamente, com seu sotaque estranho.

- Hum, o que você vai querer, Harry? - Draco pegou um pedaço do bolo de chocolate pingando cobertura e sentou-se esticado numa cadeira.

- Para o jantar? Imagina, eu já vou embora! - Harry também se serviu de bolo e sentou ao lado do loiro, apoiando os cotovelos nos joelhos para que os farelos caíssem no chão.

- Não mesmo. Você ainda tem que tomar um banho demorado, assistir filme comigo e depois jantar. Só então eu posso pensar se deixo você ir embora.

Harry pareceu considerar aquelas palavras por alguns segundos, ou talvez estivesse somente apreciando o bolo.

- Eu não gosto de miojo - disse, por fim antes de dar mais uma dentada no bolo.

Draco arqueou uma sobrancelha.

- E o que isso significa?

- Que aceito qualquer outra coisa - Harry deu de ombros, lambendo a calda que escorreu por seus dedos.

Draco rolou os olhos.

- Ok, você gosta de torta de frango? - Harry acenou afirmativamente. - Winky, capriche, ok? Daquele jeitinho que você sabe fazer.

- Sim, senhor - Winky fez uma reverência exagerada, escondendo o rubor satisfeito de sua face. - Com licença, senhores.

Ela afastou-se.

- Cara, isso aqui tá muito bom! - exclamou Harry, servindo-se de mais um pedaço completamente encharcado de cobertura.

- Sim, eu sabia que você iria gostar - Harry encarou-o em dúvida, por isso Draco completou: - Você já tinha me dito no chat, lembra?

- Ahm, lembro, lembro... nossa, já faz tanto tempo... - Harry ficou pensativo por um tempo, mas voltou a atenção para o bolo novamente. - Então, que filme vai ser?

- Não sei, você é quem escolhe.

- Você não alugou ainda? - Draco negou com um "hum-hum". - Ah, então eu tenho ótimas idéias. Quero rir muito hoje!

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Hogwarts era uma faculdade de costumes muito tradicionais e prezava sua fama, assim como zelava pela imagem de respeito e caráter íntegro que seus funcionários passavam. As festas dos professores geralmente se davam na casa da Profª. Minerva McGonagall, que era um sobrado num bairro nobre da cidade. Os convidados limitavam-se aos professores e demais funcionários da faculdade e suas famílias ou acompanhantes, todos muito bem vestidos. A maioria do corpo docente era composta por pessoas sérias, geralmente mais idosas e estudadas, com vida estável, suas famílias muito bem estruturadas e um gosto por baladas antigas.

Os cavalheiros geralmente ficavam à mesa e nunca paravam de comer. A conversa começava séria e profissional, mas conforme as garrafas de vinho iam se esvaziando, terminava em risos e rostos corados. Nunca passava muito disso. As damas ficavam na sala, fofocando e batendo os pés no ritmo calmo das músicas antigas. Os poucos jovens - geralmente filhos ou netos - ficavam no segundo andar, onde a música era mais animada, assim como as conversas. Lá só era servido refrigerante, apesar de que uma ou outra garrafa de vinho sempre sumia da cozinha de algum modo. Os casais ficavam na varanda do segundo andar, ou nos cantinhos escuros do quintal.

Remus e Sirius estavam vestidos a caráter - de calça, camisa e sapato social -, encostados na grade que cercava a piscina, observando a calmaria da água e conversando, escondidos da vista dos outros, mesmo que estivessem se comportando muito discretamente até o momento. Sirius estava se esforçando para parecer sociável, apesar de nenhum de seus sorrisos terem alcançado os olhos até o momento. Eles já tinham jantado à mesa, entre a notável Profª. Sibila Trelawney e o ex-professor Gilderoy Lockhart. Remus tinha prestado educada atenção às maluquices da professora - ou pelo menos fingira muito bem, já que não parava de se preocupar com a taça de vinho de Sirius escorregando acidentalmente de seus dedos e caindo nas vestes de Lockhart. Ou coisa muito pior, pelo que dizia a cara de poucos amigos que Sirius fazia para o ex-professor sorridente.

Porém, felizmente, eles tinham terminado o jantar sem problemas e Remus deu um jeito de escapar da mesa o mais rápido possível. Sirius tinha se comportado muito bem e agora estava calado fitando as estrelas enquanto Remus observava a luz azul bruxuleante que dançava na piscina. Remus se perguntava por que McGonagall tinha uma piscina se nunca usava nem deixava que ou outros usassem. Só o gasto que ela devia ter para mantê-la limpa...

- A lua está tão bonita, Moony - sussurrou Sirius.

A quietude do lado de fora da casa fazia com que eles desejassem apenas sussurrar.

- Ela me dá arrepios, Padfoot, você sabe.

- Moony, eu nunca entendi essa sua aversão pela lua cheia. As pessoas tendem a achá-la romântica, sabia? Foi algum trauma de infância?

Remus sorriu levemente e espiou o céu noturno. A noite estava clara e quase sem estrelas, já que a lua roubava toda a escuridão ao seu redor. Bela e terrível. Um arrepio percorreu sua espinha e ele voltou a olhar para a piscina.

- Pode ser. Não me lembro - disse, encolhendo os ombros. Sim, era um medo infantil e sem razão, mas quem não tinha suas excentricidades, afinal?

- Vamos para casa, Moony? Estou preocupado com Harry.

Remus suspirou. Estava demorando.

- Padfoot, nós dois sabemos que Harry não é o problema aqui.

Sirius bufou.

- E nós dois sabemos que eu não gosto de sair de casa, Moony - desdenhou ele. - Eu odeio ter que me vestir assim, esses sapatos machucam, sabia? Em casa eu não preciso me preocupar em usar nem mesmo chinelos! E essas camisas de manga comprida com todo esse calor? E ainda ter que ouvir sobre os prêmios que Lockhart ganhou com seus sorrisos encantadores? Ou será que o papo com Trelawney estava interessante? Você não me parecia estar gostando. Convenhamos, Moony, essa "festa" está um tédio! E não venha me dizer que não, eu sei muito bem que você está doido para ir embora também. Eu bem que te avisei.

Oh, sim, Sirius tinha toda razão. Essas festas eram realmente muito monótonas e ele já não se agüentava de vontade de ir para casa - ou melhor, para casa de Sirius, onde ele não estaria sozinho - e tirar os sapatos, se esticando no sofá. Lá ele poderia receber os beijos de Sirius sem precisar se preocupar com a possibilidade de alguém assisti-los. Mas em vez de concordar com o namorado, Remus aproveitou para colocar em palavras uma dúvida que tinha já havia algum tempo.

- Por que, Sirius? Por que você foge tanto das pessoas?

- Eu já disse que não gosto que fiquem te olhando.

- Bobagem - Remus falou, seriamente e Sirius ergueu o rosto para as estrelas sem mais nenhuma palavra. - Isso é só uma desculpa esfarrapada. Você sabe que eu não chamo tanta atenção nem reparo quando as pessoas me olham. Você era tão extrovertido, lembra dos nossos tempos de garotos? Quando nós tínhamos a idade de Harry, ou até menos. Você gostava de bagunça, de atenção, de fazer os outros rirem, de se gabar de seus feitos... bem, isso você ainda faz, mas... - Remus suspirou novamente, ao se pegar sorrindo daquelas lembranças. - Lembra de quando você e Pontas começaram a cantar We are de Champions na quadra de vôlei logo depois do jogo? Com as arquibancadas cheias e barulhentas?

Remus assistiu as feições de Sirius endurecerem, então votou a olhar para a piscina.

- Você ainda não superou isso, não é mesmo? - perguntou com brandura, dando um passo para o lado, de modo que seus ombros se tocassem. - Desde que saiu da prisão, você melhorou muito, mas ainda está longe de ser o velho Sirius Black. James se foi, Padfoot. Mas você está vivo.

- Eu achei que tinha morrido também, sabe, Moony? - a voz rouca de Sirius saiu mais melancólica do que nunca. - Todos aqueles anos na prisão, naquele inferno, me agarrando às minhas lembranças do passado. Eu deixei de viver por doze anos, Moony. Acho que desaprendi a viver. Além disso, era James quem me fazia ser daquele jeito.

- Não, Padfoot - Remus colocou sua mão sobre a do namorado, que segurava firmemente a grade. - Aquele era você. James despertava esse seu lado, mas ele sempre esteve em você. Você está amadurecendo, mas está fazendo isso pelos motivos errados. Você tem que viver por si mesmo, não somente pelo Harry. Eu nunca achei que sentiria falta do seu (imenso) amor próprio, mas isso sempre fez parte de você. Deixe que eu te ajude a voltar a ser o velho Sirius por completo, sim? Nada do que aconteceu é sua culpa.

Sirius deu um suspiro disfarçado que pareceu terminar em um soluço sufocado.

- Às vezes eu penso que foi minha culpa. Eu... eu devia ter desconfiado de Peter! E ao invés disso, desconfiei de você, Moony...

Sirius fungou e Remus voltou-se para encará-lo nos olhos. Olhos cinzentos, nublados e úmidos.

- E eu desconfiei de você, lembra? - Remus limpou uma lágrima do rosto do namorado e ofereceu-lhe um sorriso terno. - Ninguém tem culpa do que aconteceu senão Riddle, que está morto, e Peter, que está preso. Eu e você estamos vivos! Viva comigo, Padfoot.

Sirius soltou uma risada meio latida e um brilho de malícia passou por seus olhos.

- Quem te ouve pode pensar que você está me pedindo em casamento, Moony.

Eles sorriram um para o outro e aproximaram seus rostos lentamente, porém pularam um para cada lado ao som de palmas.

- Que comovente - Severus Snape saiu das sombras do muro alto do sobrado e caminhou até eles, olhando-os de cima. - Foi tudo muito mágico e romântico, mas poupem-me do final feliz.

- Snape! - Sirius rosnou, fechando os punhos.

- Black, pare de rosnar e arreganhar os dentes. Você não me assusta. Ainda mais porque estava se esfregando há pouco com Lupin como um cachorro no cio. Não quero roubar sua cadela.

- Filho da...

- Sirius, por favor, não dê ouvidos a ele - pediu Remus, colocando uma mão no ombro do outro, parte para acalmá-lo e parte para segurá-lo.

- Isso mesmo, Black. Agora role e mostre a patinha.

- Ranhoso, eu só não quebro seu nariz enorme porque não quero arruinar uma festa por tão pouco.

Snape crispou os lábios com nojo encarando-os de cima a baixo. - Vocês pensam que são muito espertos e discretos, não é mesmo? Eu não precisava presenciar essa ceninha pra saber o que se passa naquele... naquilo que vocês chamam de casa.

- Sabe de uma coisa, Seboso, isso está me parecendo dor de cotovelo - Sirius chispava faísca pelos olhos e adquirira seu costumeiro ar perigosamente arrogante. - Eu encontrei alguém para mim, eu amo e sou amado. E você? Você fica aí, nas sombras, xeretando a vida dos outros. Nunca vai achar ágüem. Você é insuportável, já deu pra perceber?

- Eu prefiro passar o resto de meus dias sozinho do que arrumar esse tipo de companhia, Black. Aliás, mande seu afilhado se afastar de Draco, eu não quero que ele se contamine com a má fama que vocês vão ter depois de hoje à noite.

- Não, Seboso, eu não vou fazer nada disso - Sirius deu um passo na direção do outro, porém Remus avançou também, aumentando o aperto em seu ombro. - Harry é bem grandinho pra escolher as próprias companhias. Além disso - as palavras de Sirius agora pingavam sarcasmo. - É engraçado como você, observador do jeito que diz que é, não percebeu que o seu afilhado está dando em cima do meu.

- Sirius - Remus chiou em aviso por entre os dentes cerrados.

Os olhos de Snape se arregalaram por um instante, mas ele logo recuperou sua frieza.

- Ora, não seja ridículo, Black! Draco não seria capaz de descer tão baixo!

- Ah é? - Sirius levou a mão ao peito teatralmente e Remus fechou os olhos, temendo o que viria a seguir. - Ora, então por que você não pergunta pra ele quais os interesses dele a respeito de Harry? Ou então, porque você não repara na maneira com que Malfoy fica secando o Harry, heim? Você é tão observador! Fica cuidando tanto da vida dos outros! Descobriu sobre eu e Remus antes de todo mundo, como não pode ver algo tão óbvio sobre o seu próprio afilhado?

As narinas de Snape se dilataram perigosamente.

- Você está blefando, Black.

- Isso é o que nós vamos ver, Ranhoso.

Snape dificilmente perdia a compostura, mas era notável que ele estava prestes a fazê-lo, a julgar pela maneira em que ele sustentava o olhar de desafio de Sirius.

- Sirius - Remus falou, suavemente. - Sirius, você poderia pegar mais vinho para nós?

Sirius quebrou o contato visual para fitá-lo com confusão mesclada com a raiva que ele tentava controlar.

- Por favor - completou Remus, pacificamente.

Sirius lançou outro olhar de aviso para Snape e se afastou a passos largos e pesados.

- Bom garoto - provocou Snape em voz alta para que o outro escutasse, porém Sirius não se deu ao trabalho de virar-se e fez um gesto muito rude com a mão. - Que ridículo. E quanta audácia trazer seu namorado, Lupin.

- Por que você está fazendo isso, Severus?

- Eu nunca, nunca te dei permissão para usar meu primeiro nome, seu sujo.

Remus umedeceu os lábios e piscou para tentar se acalmar também.

- Por que você está fazendo isso, Snape?

- Isso o quê? Eu estou sendo realista, Lupin. Você acha que vai durar mais quanto tempo em Hogwarts, heim? O que seus adorados alunos vão dizer quando souberem do seu caso sórdido com outro cara? O que os pais desses alunos vão dizer? Certamente você está fora da faculdade em dois tempos! Será você ou os alunos.

- Ninguém precisa ficar sabendo.

- Ah, mas você acha que eu vou perder a oportunidade de ver você ser expulso, Lupin? - Snape arreganhou os dentes desagradavelmente.

- Oh, céus - Remus esfregou os olhos, cansadamente. - Então é essa velha história! Eu já disse que lecionaria Matemática sem problema nenhum, se Dumbledore estivesse disposto a fazer essa troca, mas ele não está! E mesmo que você consiga me fazer ser expulso de Hogwarts, quem garante que o diretor não coloque outro professor para lecionar Estatística?

- Eu vou correr esse risco - Snape estreitou os olhos.

- Quer saber, Snape? Sirius tem toda a razão. Você tem mesmo inveja de nós. James e Sirius sempre foram populares, conquistaram todas as honras no vôlei, viviam rodeados de amigos e de garotas. E eu agora descobri que ainda não é tarde pra arrumar a minha vida, pra ter alguém pra mim. Sirius sempre esteve do meu lado, sempre que pôde. Nós temos uma amizade que você nunca chegou a ter e agora estamos apaixonados...

- Ora, Lupin, me poupe desse discurso sem sentido! Você realmente acredita nessas bobagens de paixão, de amor? Isso que vocês se referem, pra mim não passa de sem-vergonhice! Isso parece certo pra você? Você, que sempre foi tão racional! Dois homens trocando juras de amor? - Snape esperou por uma resposta que não veio, já que Remus desistiu de tentar argumentar. - Isso é loucura, Lupin. Vocês estão fazendo planos de terem uma família? Já comprou o vestido de noiva? Aliás, eu me pergunto, qual de vocês é a mulherzinha da relação?

Remus fechou os olhos, com um gosto amargo na boca, experimentando uma vontade rara de querer mostrar para alguém quem era mulherzinha ali, mas ele só se rebaixaria se perdesse a compostura.

- Ah, antes eu achava que não fosse o Black, mas a julgar pela maneira que você faz com que ele te obedeça, deve ser muito fácil colocar ele por baix...

Porém Snape não teve como continuar, pois recebeu um soco certeiro no queixo. Remus olhou para o lado e viu Sirius, arfando, encarando Snape com um olhar feroz.

- Repete isso, desgraçado.

Snape passou a mão pelo queixo e examinou-a para ver se tinha sangue, mas estava limpa.

- Não, Black, eu estou mudando minha opinião novamente. Acho que Lupin é a mulherzinha mesmo. Ou talvez vocês revezem.

Remus ouviu o barulho do vidro se quebrando quando Sirius deixou a taça de vinho cair, espalhando seu conteúdo pelo chão e respingando nas calças e sapatos de ambos. No instante seguinte, Sirius tinha derrubado Snape no chão. Remus só conseguia ver os vultos na escuridão e ouvir os sons da luta, boquiaberto, estático. A única coisa que conseguia pensar era que se Sirius não tivesse agido, talvez ele mesmo estivesse aos socos com Snape naquele momento. E provavelmente estaria apanhando mais do que batendo, ao contrário de Sirius, que parecia estar levando a melhor.

Sirius tinha sentado no estômago de Snape, erguendo metade de seu tronco somente puxando pela gola da capa - que ele usava a despeito do calor.

- Por que você está tão interessado assim em saber detalhes sobre nosso relacionamento, heim, seu...

- Senhores!

Sirius paralisou a mão no ar a meio caminho de se chocar com o rosto raivoso de Snape e os três olharam para o lado, de onde viera aquela voz conhecida e poderosa.

- Prof. Dumbledore! - exclamou Remus, finalmente despertando.

O diretor aproximou-se calmamente, suas botas fazendo um "toc toc" no piso. Ele podia ser descrito no mínimo como excêntrico, com sua barba grisalha muito longa, além dos cabelos soltos às costas, o nariz comprido e torto, parecendo ter sido quebrado em dois lugares diferentes, olhando por cima dos oclinhos de meia-lua. Dumbledore usava um terno roxo com uma camisa azul escura e... gravata do Mickey Mouse. Destoava tanto quanto possível da imagem tradicional que a faculdade prezava tanto.

- Boa noite, Remus! - exclamou ele, com mais brandura na voz, apesar de ainda inspirar respeito. Ele voltou-se para os dois homens estáticos no chão. - Sirius, Severus - ele inclinou a cabeça para cada um deles, em cumprimento e continuou calmamente. - Agora, por favor, já basta. Recomponham-se, sim?

Sirius soltou Snape inesperadamente, fazendo com que esse batesse a cabeça no chão. Eles levantaram-se, desamassando as vestes, sem abandonar suas expressões furiosas. Snape cuspiu o que devia ser sangue e Sirius tinha um pequeno corte ao lado do olho esquerdo.

- Diretor - Snape deu um breve aceno de cabeça. - Eu não o tinha visto.

- Eu imagino que não, pois acabei de chegar - Dumbledore balançou-se nos próprios pés, então ergueu uma das mãos. - Alguém aceita tortinha de limão?

Todos recusaram educadamente e Dumbledore deu uma dentada no doce.

- Humm, isso é o paraíso! Vocês é que estão perdendo. Eu estava cumprimentando McGonagall quando vi o Sr. Black entornando duas taças cheias de vinho de uma só vez - o canto da boca do diretor tremeu conforme ele segurava um sorriso ao observar Sirius fugindo dos olhos do namorado, e ele comeu o último pedaço do doce. - Imaginei logo que havia algo grave prestes a acontecer, mas... bem, então eu vi as tortinhas e tive que me servir de algumas antes de vir até aqui. Que pena, parece que cheguei tarde - disse, jovialmente, limpando os farelos da boca e tamborilando no próprio estômago.

Porém não era preciso nenhum sermão para que os três homens se sentissem envergonhados. Ou pelo menos dois deles, já que Sirius não tinha cara de quem se arrependeria tão fácil por ter partido para a ignorância.

Remus abaixou a cabeça, sentindo como se fosse novamente um garoto sendo levado ao escritório do diretor por ter atirado bolinhas de papel cheias de baba no quadro-negro com um tubo de caneta.

- O que está acontecendo aqui? - McGonagall se juntou a eles, acendendo a luz do quintal. Logo atrás, mais um grupo de pessoas apareceu, curioso, olhando para os vestígios de sangue e avermelhados que começavam a obter uma coloração arroxeada nas faces de Sirius e Snape.

- Diretor, eu posso explicar - começou Snape, porém Dumbledore estendeu uma mão para impedi-lo de prosseguir.

- Eu não creio que seja necessário, Severus. Posso perfeitamente deduzir o que se passou por aqui.

Sirius e Remus se encararam, apreensivos e Snape estufou o peito dignamente. Começou um burburinho das pessoas que assistiam e McGonagall pediu silêncio. Dumbledore continuou:

- Não é segredo para ninguém que Sirius e você, Severus, têm suas desavenças já de muito tempo. Eu me lembro de incidentes parecidos no passado, quando vocês estudaram em Hogwarts. Qualquer pequena provocação já é suficiente para causar alteração nos ânimos de ambos...

- Ele me agrediu, Diretor - Snape soltou, enraivecido.

Sirius ia protestar, porém Remus beliscou seu braço em aviso.

- Sim, sim, mas infelizmente Sirius deve ter exagerado na bebida e... bem, não posso realmente culpá-lo com um vinho maravilhoso como esse, parabéns Minerva - ele acenou polidamente para McGonagall, que retribuiu, agradecida. - Portanto qualquer detalhe insignificante poderia ter causado esse desentendimento.

- Mas... - Snape tentou protestar, porém o diretor elevou um pouco mais a voz para não ser interrompido.

- É realmente lamentável, já que somos todos adultos e devemos procurar resolver tudo de maneira civilizada, mas acredito que nós possamos passar uma borracha nesse assunto desagradável - ele voltou-se inesperadamente para Sirius. - Sirius! É muito bom revê-lo depois de tanto tempo, não tem mais nos visitado! Como estão as coisas com Harry?

Remus respirou aliviado.

- Ótimas! - exclamou Sirius, visivelmente deliciado com a visão de Snape ainda mais furioso.

- Sim, eu imagino. Harry é um bom garoto. Eu imaginei que vocês se dariam muito bem, afinal o garoto é muito parecido com James! Acredito até mesmo que herdou o talento de James não só para o esporte como também para se meter em encrencas...

Tanto McGonagall quanto os outros curiosos que cochichavam e olhavam de um para outro, já estavam achando a cena desinteressante demais e preparavam-se para entrar novamente quando Snape manifestou-se, contendo sua fúria em cada sílaba.

- Não se trata de uma pequena provocação, diretor. É um assunto muito mais sério do que um simples desentendimento dessa vez e eu realmente não acho que nós devamos passar uma borracha nisso.

O estômago de Remus voltou a afundar alguns centímetros.

- Oh, realmente? - Dumbledore voltou-se para ele, interessado. - Severus, eu adoraria ouvir o que você tem a dizer, mas creio que Minerva pode nos emprestar seu escritório para uma conversa particular, sim Minerva?

- Claro, diretor - McGonagall assentiu prontamente.

- Então vamos, Severus. Já basta de espetáculos por hoje. A festa deve continuar! Por favor - Dumbledore acenou para que Snape fosse na frente.

Snape lançou um olhar triunfante e ameaçador para os dois namorados, cuspindo mais uma vez e fechando a capa diante do peito antes de adiantar-se. As outras pessoas também se afastaram, parecendo decepcionadas por terem sido privadas do espetáculo.

- Aproveitem a festa, rapazes! - Dumbledore deu um pequeno aceno com a mão. - Só não comam todas as tortinhas!

O diretor piscou um olho para os dois homens e afastou-se cantarolando. Sirius e Remus se encaram, intrigados.

- Você também teve a impressão de que aquela piscadela se referia a algo além das tortinhas de limão? - questionou Remus.

Sirius gargalhou, jogando a cabeça para trás, então passou um braço pelos ombros do namorado.

- Sim, Moony. Conhecendo esse velho maluco do jeito que conheço, eu garanto que não há o que se preocupar. Vamos embora?

Sentindo-se mais aliviado, Remus assentiu.

- Há-há-há o Seboso vai se ferra-ar! - cantarolou Sirius e Remus sorriu.

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Harry tinha tomado um senhor banho na banheira de Draco. Winky já tinha deixado preparado tudo para ele e quando Harry começou a protestar, Draco anunciou que ia usar o banheiro do quarto de seus pais, onde a banheira era maior e melhor. Só por isso Harry aceitou. Só por isso. E aproveitou muito bem a oportunidade, ora! Somente com a temperatura agradável da água foi que ele se deu conta do quanto estava cansado. E só de pensar que ainda teria que pedalar para casa já dava ainda mais preguiça.

Lembrou-se do momento em que quase tinha beijado Draco na piscina. Era óbvio que o loiro tinha ficado sem-graça com o que quase acontecera, mas tinha agido normalmente. Isso não podia mais acontecer. Era perigoso demais. Mas também estava sendo muito difícil se conter quando eles se tocavam a todo o instante, quando Draco lhe dispensava sorrisos maravilhosos, fazia piadinhas, jogava o cabelo para trás inconscientemente...

Acordou assustado alguns minutos depois com duas batidas à porta.

- Sim? - murmurou, meio sonolento, mas teve a impressão de que sua voz não atravessou a grossa porta de madeira. Aliás, todas as portas da casa eram exageradamente grossas, talvez para evitar que algo fosse ouvido do lado de fora.

A maçaneta girou e uma frestinha foi aberta. Harry via tudo embaçado por estar sem os óculos.

- Posso entrar, Harry? - perguntou Draco.

- Pode - Harry uniu as mãos em formato de concha e jogou água no rosto para acordar.

- Vou deixar suas roupas ao lado da pia, ok? - Draco evitou olhar para ele, apesar de que Harry estava completamente imerso na água com alguma espuma dificultando a visão. - Já está terminando? Faz meia hora que você está aí, sabia?

- Tudo isso? - Harry gemeu, deixando a cabeça pender para trás. - Erm, eu acho que cochilei - confessou, sem jeito.

- Tudo bem - Draco ofereceu-lhe um sorriso, voltando a virar o rosto logo em seguida. - Se quiser xampu, está aí no chão. Estou esperando.

- Ok - Harry finalmente tomou seu banho, lavando os cabelos e o corpo.

Draco tinha deixado a camisa azul celeste que Harry tinha-lhe emprestado na noite anterior, uma bermuda cinza chumbo, um par de meias e um par de tênis brancos que serviram perfeitamente em seus pés. Tudo exalava o perfume delicioso de Draco. Assim que deixou o banheiro, foi agraciado pela visão do loiro inteiramente de preto, com detalhes prateados na bermuda e tênis prateado. Estava... deslumbrante! Com o cabelo úmido e a pele mais pálida do que nunca, contrastando com as roupas escuras, girando a chave da BMW nos dedos. Mauricinho. Não que isso fosse ruim...

Eles foram para a locadora e Draco logo se arrependeu de ter deixado que Harry escolhesse o filme quando o moreno teimou que queria levar a animação "Os Incríveis". Mas sua opinião pareceu mudar logo nos primeiros minutos do filme, contagiado pela diversão de Harry, que rolava e dava soquinhos na cama de tanto que ria. Eles assistiram o filme no home theater de Draco, esticados na cama com quantas almofadas desejassem. Era incrível a quantidade de almofadas daquele quarto! Foi uma experiência interessante assistir filme com Draco. Eles deviam experimentar aquilo mais vezes...

Depois do filme, eles jantaram na cozinha mesmo, já que Harry tinha se recusado a ir para a intimidante sala de jantar. A torta estava maravilhosa! Winky tinha feito algumas porções de acompanhamento e salada, além de suco de abacaxi bem gelado. Harry comeu tanto, que se lamentou ao ver Draco carregando uma caixinha de bombons de licor de cereja para o quarto. Mas como poderia recusar?

- Quer ouvir música, Harry? - perguntou Draco, abrindo a porta do quarto e esperando educadamente que ele entrasse primeiro.

- Coldplay? - Harry sorriu, entrando e se sentando na beirada da cama.

- Se você quiser - Draco deu de ombros, fechando a pesada porta e abrindo a caixinha de bombons tentadoramente no nariz de Harry. - Você quer? - perguntou ele, com um sorriso enviesado.

- Eu quero - Harry aceitou o bombom.

Draco também se serviu, deixando a caixa na cama, perigosamente ao alcance de Harry, e sentou-se também - perigosamente próximo a Harry.

- O que você quer? - Draco fez-se de desentendido.

Oh, tantas coisas! Mas um beijo seria suficiente por agora.

- Quero ouvir Coldplay, quero que você toque violão e quero mais bombons.

Draco sorriu e esticou a mão curvando o corpo para frente até alcançar o computador e ligá-lo, atirou um bombom no colo de Harry e pegou um para si, levantando-se, abrindo o guarda-roupa e começando a tirar algumas caixas e espalhá-las pelo chão.

- O que você está fazendo? - Harry aproximou-se para espiar.

O guarda-roupa era mais fundo do que parecia e estava repleto de camisas penduradas, caixas de sapato e pilhas de roupas separadas por modelos nas prateleiras: calças em uma pilha, bermudas em outra, camisetas, regatas, etc, etc...

Em vez de responder, Draco retirou um fundo falso de uma das últimas prateleiras e retirou uma pasta grossa e um estojo de violão.

- Estou pegando isso aqui - ele depositou ambos na cama e arrumou as caixas de qualquer jeito na prateleira.

- Por que você o esconde? - Harry abriu o estojo e retirou o instrumento, colocando-o em posição, como se soubesse tocar alguma coisa.

- Porque eu disse para meu pai que tinha dado um fim nele.

- Mas ele vem vistoriar seu quarto? - Harry passou os dedos pelas cordas, uma de cada vez, fazendo-as vibrarem e constatou que uma delas estava desafinada. Bem, pelo menos afinar ele sabia.

- Se vem, então ele nunca encontrou nada incriminador - Draco finalmente fechou a porta do guarda-roupa, encostando-se nela. - E eu prefiro não arriscar.

Harry empurrou os óculos, que tinham escorregado para a ponta de seu nariz.

- Draco, está calor, você não poderia abrir essa porta aí?

Harry apontou para a porta que também servia como janela. Harry se lembrava de ter visto as grandes sacadas do lado de fora da mansão quando analisava a mansão na noite anterior.

- Você não prefere que eu ligue...

- Não, não - cortou Harry, impaciente. - Apenas abra a janela. Estamos no segundo andar e isso deve render um ventinho bom.

Draco bufou e começou a fuçar suas coisas.

- Eu nunca abro essa janela, Harry. Nem lembro onde ficam as chaves!

Satisfeito com a afinação do violão, Harry depositou-o cuidadosamente na cama e começou a fuçar na pasta, examinando as partituras. Algumas músicas conhecidas, simples e... muito Coldplay.

- Você toca todas elas?

- Não, eu baixei da internet tudo de uma vez, mas a maioria delas eu ainda nem tentei tocar... Achei!

Harry levantou os olhos para ver Draco triunfante abrir a janela e uma brisa refrescante soprou para dentro do quarto deliciosamente.

- Ahhh isso é que é vida... - Harry se jogou deitado na cama, alisando o próprio estômago. - Cara, eu comi demais - Harry inconscientemente tateou a cama e pegou mais um bombom, então reparou que Draco tinha seus olhos cravados nele atentamente. - Que foi?

- Você é uma figura, Harry - Draco sorriu e meneou a cabeça, dando a volta na cama e sentando-se em frente ao computador. - Você pode encontrar a partitura de Yellow pra mim?

- Claro - Harry procurou na pasta pela música e deixou-a sobre a cama enquanto Draco preparava o cd. - Mas você vai tocar junto com a música?

- Vou. E só porque ela é a mais fácil que eu achei.

- Ora, isso é injusto! - indignou-se Harry. - Eu toquei e cantei sozinho pra você!

- A vida é injusta, Harry - Draco sorriu, deixando o computador e retirando os tênis antes de subir na cama. Sentou com as pernas cruzadas, apoiando o violão na coxa direita e puxando a partitura para mais perto dele na cama e analisando-a.

- Deixa que eu seguro pra você - Harry também retirou os sapatos e sentou-se da mesma maneira, de frente para Draco, seus joelhos quase se tocando, e segurou a folha de papel impressa em frente ao loiro.

- Obrigado, mas eu não preciso dela - Draco pareceu um pouco sem graça. - Era só pra me lembrar dos acordes. Hum, você alcança o mouse? Coloca o play pra mim, por favor?

Harry não pôde deixar de sorrir diante da polidez de Draco. Esticou-se até alcançar o mouse e colocou a música para tocar, sem mudar de posição, encarando Draco de frente.

Os primeiros acordes da música começaram e Harry reconheceu a música imediatamente. Já tinha ouvido ela antes, mas pensou que fosse de algum outro grupo, do tipo R.E.M. No entanto, não seria bobo de confessar isso para Draco, que estava concentrado, acompanhando fracamente com o violão e resmungando a letra.

Look at the stars

(Olhe para as estrelas)

Look how they shine for you

(Olhe como todas elas brilham para você)

And everything you do

(E para tudo o que você faz)

Yeah, they were all yellow

(Elas eram somente amarelas...)

Harry deslizou um pouco mais para frente, até que seus joelhos se tocassem e apoiou o cotovelo na perna esquerda, apoiando o queixo na mão. Observou atentamente o movimento rápido dos dedos sobre as cordas.

So then I took my turn

(Então eu aproveitei minha oportunidade)

Oh what a thing to've done

(Que coisa para se fazer né)

And it was all Yellow

(E era tudo tão amarelo...)

- Mais alto - Harry murmurou e Draco levantou os olhos, questionador. - Cante mais alto. E toque com mais vontade!

Draco simplesmente sorriu, sem deixar de tocar, abaixando os olhos para o instrumento toda vez que precisava mudar os acordes.

Your skin

(Sua pele)

Oh yeah, your skin and bones

(oh sim sua pele e ossos)

Turn into something beautiful

(Transformaram-se em algo tão lindo)

You know

(Você sabe)

You know I love you so

(Você sabe que te amo tanto)

You know I love you so

(Você sabe que te amo tanto!)

Harry percebeu que ele aumentou um pouco mais o tom de voz e o canto saiu mais firme. Draco tinha uma voz excelente para cantar! E era tímido! Quem diria... Draco Malfoy... Harry sorriu e esticou-se para alcançar o mouse, diminuindo o volume da música e voltou à sua posição.

I swam across

(Eu atravessei o oceano)

I jumped across for you

(Fiz coisas difíceis por você)

Oh what a thing to do

(Mas que coisa para fazer)

Cuz you were all yellow

(Pois você não teve coragem)

Harry observou cada detalhe das mãos macias de Draco e imaginou como ele não se machucava com as cordas do violão. Ele tinha as unhas bem cortadas e tocava com as costas das unhas e o polegar. Talvez por isso o som saísse tão fraco. Harry fez uma anotação mental para pedir uma palheta a Remus.

I drew a line

(Eu desenhei uma linha)

I drew a line for you

(Fiz isso por você)

Oh what a thing to do

(Mas que coisa para se fazer!)

And it was all yellow

(e ela era toda amarela)

Harry levantou os olhos para o rosto concentrado de Draco e assistiu-o fechar os olhos, entregando-se à música totalmente, rendendo-se de corpo e alma.

Your skin

(Sua pele)

Oh yeah your skin and bones

(oh sim, sua pele e ossos)

Turn into something beautiful

(Transformaram-se em algo tão lindo)

You know

(E você sabe)

For you I'd bleed myself dry

(E você sabe que por você eu sangraria)

For you I'd bleed myself dry

(Por você eu me sangraria...)

As mãos de Draco moviam-se por vontade própria, trocando de posição no violão com precisão e as palavras pareciam ter saído de sua alma, tamanha a emoção que o loiro deixava transparecer. A testa dele estava franzida e ele agora mordia levemente o lábio inferior, tocando com mais vontade. Algumas mechas de cabelo quase incolor tinham caído para frente, tocando sua sobrancelha suavemente e balançando-se conforme o movimento das mãos continuava. De repente os olhos de Draco se abriram lentamente, mas ele não olhou para baixo. Seu olhar fixou-se diretamente nos de Harry, que quase estremeceu.

It's true, look how they shine for you

(É verdade, olha como brilham para você)

Look how they shine for you

(Olhe como brilham para você)

Look how they shine for...

(Olhe como brilham)

Look how they shine for you

(Olhe como brilham para você)

Look how they shine for you

(Olhe como brilham para você)

Look how they shine...

(Olhe como brilham)

Quem será que brilhava mais? As estrelas ou os olhos de Draco?

Impossível dizer. Ainda mais quando Draco não desviava seu olhar do dele, sua voz agora mais firme do que nunca, sobrepondo-se ao do cd. Ou talvez Harry não pudesse ouvir mais nada além do som do violão e a voz melodiosa que parecia dedicar aqueles versos para quem senão o moreno? Sim, ele queria acreditar nisso.

Então Draco diminuiu a intensidade do som e terminou murmurando as palavras finais da música com a voz propositalmente mais rouca, ainda sem tirar os olhos dos de Harry.

Look at the stars,

(Olhe para as estrelas)

Look how they shine for you

(olhe como brilham para você)

And all the things that you do

(e todas as coisas que você faz)

Harry sorriu e Draco fez o mesmo, nenhum dos dois querendo desviar o olhar. Porém o cd não parou de tocar, mudando para outra música mais agitada.

- Você disse que não sabia tocar sem partitura - acusou Harry e Draco tirou o violão do colo, depositando-o ao lado, na cama e dando de ombros.

- E eu não sei mesmo. Só sei essa. E ainda precisei dar uma olhada nos acordes pra me lembrar.

- Mas foi incrível! - Harry fez um gesto abrangente, pra tentar expressão o quão entusiasmado estava. - Você... você tocou e cantou de verdade, sabe? Deu pra sentir! Como se você estivesse vivenciando aquilo que cantou - Draco desviou os olhos, passando os dedos pelos cabelos e suspirando. - Foi excelente, Draco, sinceramente. Você tem muito talento! Precisa deixar de ser preguiçoso e estudar!

- Tudo bem, tudo bem... eu prometo que vou pensar a respeito das aulas com Lupin - Draco rendeu-se. - Talvez, se eu tiver a obrigação de comparecer às aulas eu me dedique melhor mesmo.

- Sim! - Harry se empolgou. - E você vai adorar ter aulas de música com o Moony. Foi ele quem me ensinou o básico, sabe, a leitura das notas, as teorias sobre pautas, compassos, a divisão do tempo... Sirius não tem muita paciência para isso...

Enquanto o cd continuava a tocar, eles conversaram sobre música, sobre timbre de vozes, afinação e o assunto foi dando voltas e mais voltas, até de alguma maneira entrar em assuntos mais pessoais. De repente, Harry se pegou sendo interrogado sobre sua vida amorosa sem nem sequer se lembrar do rumo que a conversa tinha tomado até entrar naquele terreno perigoso.

- Então? - Draco insistiu e Harry resolveu fazer-se de desentendido pra ganhar algum tempo.

- Hum?

- Quando você deu seu primeiro beijo?

Uh, pergunta bem difícil essa. Seu primeiro beijo não fora a melhor das experiências. Harry tinha preferido esquecer esse capítulo de sua vida, mas agora era obrigado a relembrá-lo. Com ninguém menos que Draco Malfoy. Eles ainda estavam ouvindo Coldplay, apesar de o cd ter sido trocado. Agora estavam sentados na cama, um de costas para o outro, cabeça com cabeça, apoiando e sendo apoiado de volta. Pelo menos eles não precisavam se encarar, o que já era uma boa ajuda. A vista da noite do lado de fora do quarto era bem mais fácil de encarar do que o rosto questionador de Draco naquele momento em particular.

- Bem... - Harry respirou fundo. - Foi aos quinze anos com...

- O quê? - Draco interrompeu-o, incrédulo. - Você ta brincando comigo! Seu primeiro beijo foi aos quinze anos?

- Foi, e daí? - Harry emburrou.

- Que tipo de garoto dá seu primeiro beijo aos quinze anos?

- Ora, vai me dizer que quando você nasceu a enfermeira achou você gostoso e tascou um beijo na sua boca, ô precoce! - ironizou Harry, arrependendo-se amargamente por ter respondido e agradecendo suas posições, pois assim Draco não veria o quanto ele tinha enrubescido.

- É claro que não. Mas eu não beijei pela primeira vez aos quinze anos.

- Com quantos anos então?

- Onze, mas...

- Onze? - admirou-se Harry.

- Sim, mas não tente mudar de assunto! Quem foi a louca?

- Cho Chang.

- Ah, a namoradinha de Diggory... - Draco zombou, desdenhoso.

- Cala essa boca! - irritou-se.

- Ok, ok, não está mais aqui quem falou! Eu fiquei sabendo sobre o namoro de vocês, mas não imaginei que ela tivesse sido a primeira! Mas pelo visto vocês não deram muito certo, não foi? Logo que vocês terminaram ela já começou a sair com Corner.

- Pois é... Nós não nos demos muito bem...

Harry resolveu ocultar o fato de que ele só a tinha beijado uma vez. E que fora algo assustador, para não dizer traumatizante. A menina o tinha beijado chorando por causa do ex-namorado, que tinha morrido no ano anterior por um acidente nas festividades do colégio.

- E então, teve mais alguém antes da Weasley? - Draco impiedosamente continuou com seu interrogatório.

- Não.

- Não? – Draco pareceu intrigado.

- Não – reafirmou Harry.

- Nem Vance?

- Não! – Harry fez uma careta. – Aquela menina aprontou algumas pra me fazer namorar com ela, mas eu já gostava da Ginny naquela época.

- Mas você poderia ter dado uns beijos – Harry limitou-se a fungar em resposta e Draco continuou: - Ora, e por que não? Você gostava tanto assim da Weasley? Você... você ainda gosta dela?

Harry suspirou. Ah, se ele soubesse...

- Não. Por algum tempo eu achei que ainda gostava dela, mas percebi que não é bem assim. Ginny é uma garota incrível, forte, decidida. Ela merece alguém que a priorize. Eu não fiz isso. Estraguei minha chance. Agora só espero que Colin faça ela feliz.

- Ou então Creevey não vai saber o que o atingiu quando um bando de ruivos o deixarem inconsciente – zombou Draco. – Eu não entendo por que você terminou com ela, Harry. Quero dizer, ela sempre teve uma paixonite idiota por você, é a caçula dos Weasley e você é o filho adotivo deles, era quase como se vocês estivessem destinados um para o outro, tudo tão ridiculamente perfeito.

- Bom... – Harry respirou profundamente mais uma vez. – Eu comecei a namorar ela quando estava prestes a fazer dezessete anos. Infelizmente coincidiu com o período em que Sirius fez a última tentativa de conseguir a minha guarda na justiça. Foi um período muito difícil da minha vida, aquela seria a última tentativa dele, eu estava ansioso, nervoso, angustiado, não tinha cabeça para mais nada, nem sei como consegui fazer os exames do colégio. Não achei justo ficar empatando a vida de Ginny – Harry parou por um momento, pensativo. – E talvez eu tenha achado nosso relacionamento perfeito demais, como você mesmo sugeriu. Ginny ainda tentou reatar comigo logo que Sirius perdeu a audiência, mas eu não quis. Inventei milhões de desculpas. No fim, acho que não passaram disso: desculpas.

Harry nunca tinha pensado por esse lado, porém agora parecia fazer tanto sentido! Ele não queria um relacionamento perfeito, que todos apontassem na rua e dissessem: aqueles ali têm futuro, foram feitos um para o outro. Ele queria algo que pudesse desafiá-lo, que fosse mais intenso e mesmo inesperado.

- Ah, entendo – considerou Draco. – Se você não queria algo perfeito, devia ter agarrado a chance quando aquela garota se jogou em seus braços na quadra. Mel, não é mesmo?

- Por que você insiste em me lembrar daquele incidente, Draco – Harry deu um soco na cama. – Ela não se jogou em meus braços, ela me atacou! Desconsidere, por favor?

- Ok, desconsiderando a Mel, então, você só beijou Patil, depois da Weasley?

- Sim – concordou Harry, mas então franziu as sobrancelhas. – Hey, como você sabe sobre Parvati? - Harry sentiu Draco inquietar-se às suas costas. – Aliás, como você sabe tanto sobre minha vida amorosa? Eu nem mesmo me lembrava de Emmeline Vance!

- Ora, Harry, as pessoas comentam! Ainda mais sobre você. Por menos culpa que você tenha nisso, você é popular, Harry. Desde o colégio e agora na faculdade.

Harry desconsiderou a provocação.

- Você também é, Draco. Só o fato de você ser o herdeiro da empresa dos Malfoy já faz com que você seja. E nem por isso eu sei de toda a sua vida amorosa.

- Talvez porque eu seja discreto – Draco deu de ombros.

- Talvez porque nem mesmo você saiba – rebateu Harry. – Quantas garotas você já beijou?

Draco ficou em silêncio por algum tempo, então bufou, impaciente.

- Ora, quem se importa? Eu não fico contando, não preciso disso.

- Você não lembra de metade delas – acusou Harry. – Consegue se lembrar pelo menos de quem foi a primeira? Ou você era novo demais?

- Pansy.

Isso fez com que Harry se calasse, com um aperto no coração. Aparentemente essa garota parecia ter tido realmente bastante importância da vida do loiro.

- Por causa do negócios em comuns entre meu pai e o dela, o Sr. Parkinson sempre trazia ela em casa – continuou Draco, diante do silêncio do moreno. - Meu pai dizia que eu devia procurar agradá-la, porque Pansy sempre foi muito mimada pelo pai. Nós fizemos amizade, fizemos muitas coisas juntos. Conversávamos sobre coisas idiotas, brincávamos... eu me sentia à vontade com ela e ela comigo. Eu comecei a perceber um certo interesse nela por mim, ela vivia dizendo que me achava bonito e não gostava que eu conversasse com outras garotas. Bem, eu também tinha minhas curiosidades e me aproveitei disso para experimentar – Draco soltou um risinho pelo nariz. – Foi um completo desastre. Nenhum de nós dois sabia muito o que fazer, era deprimente. Então eu comecei a ser mais observador. Tentava aprender quando via os casais se beijando, e na segunda tentativa eu já estava bem melhor!

Harry acompanhou-o no riso, porém no seu caso era um tanto melancólico. Draco estava sendo sincero, mas chegava a ser triste a maneira como ele era frio e zombeteiro ao falar de uma pessoa com quem dividiu as primeiras experiências.

- E vocês ficaram nessa "amizade" por todo esse tempo? – Harry tentou soar casual.

- Bem, eu fui me cansando – desdenhou Draco. – Pansy começou a achar que éramos namorados e que podia se meter na minha vida, quando na verdade nós nunca passamos de amigos. Eu não sentia mais do que isso por ela.

- Mas você já chegou a sentir alguma coisa diferente disso? – Harry deixou as palavras escaparem de sua boca e teve que concluir. – Quero dizer, você já gostou de alguém de verdade?

O coração de Harry acelerou no peito conforme ele ansiava e temia por aquela resposta, ao mesmo tempo. No céu noturno, as estrelas brilhavam, amarelas... Draco pareceu hesitante em responder, o que só fazia sua apreensão dobrar de tamanho. Porém duas batidas na porta fizeram com que tudo fosse por água a baixo.

- O que será que Winky quer dessa vez – Draco levantou-se, fazendo com que Harry desabasse para trás, sem apoio.

Harry permaneceu deitado e suspirou. Droga, tinha perdido a oportunidade mais uma vez. E, a julgar, pelo alívio que Draco pareceu demonstrar com as batidas na porta, Harry não conseguiria retomar o assunto tão facilmente depois dessa noite.

- Mãe? – Harry ouviu a voz de Draco e pulou de pé, derrubando a pasta de partituras no chão e esparramando folhas de papel pelo chão. Sem tempo para arrumar a bagunça, Harry correu até o banheiro e se fechou do lado de dentro com o coração quase pulando do peito.

Narcissa Malfoy estava em casa! Mas se ela tinha voltado, então provavelmente...

Oh, céus! Harry sentiu o sangue gelar enquanto levava a mão ao bolso da bermuda e retirava o celular. Nove e meia da noite! Caramba! Sirius o mataria! Seria seguro ligar para ele agora? Não, era melhor não arriscar.

Harry colou o ouvido na porta, mas era impossível escutar alguma coisa. Curioso demais para sua própria segurança, ele abriu lentamente uma frestinha da porta e pôde ouvir a voz de Narcissa.

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Assim que abriu a porta, a expressão de Draco mudou para choque.

- Mãe?- esganiçou-se ele cuidando para diminuir a fresta aberta, de modo que seu corpo tampasse totalmente a visão do interior do quarto.

Narcissa Malfoy estava parada sorridente em frente à porta.

- Boa noite filho! Não vai me convidar para entr... - Narcissa se interrompeu ao ouvir uma movimentação desesperada dentro do quarto do filho, passos apressados e uma porta batendo.

Suas sobrancelhas se arquearam e ela mirou, desconfiada, a expressão assustada do filho, que ainda mantinha a porta entreaberta. Draco forçou um sorriso, nervoso.

- Mãe! Que surpresa! O pai também está aí? - perguntou, tentando não parecer tão perturbado quanto estava com essa possibilidade.

- Sim, meu filho, como você está? - Narcissa adiantou-se e deu um beijo na testa de Draco.

- Bem... mas, mãe, vocês não iam voltar só no fim da semana? - Draco agarrou a maçaneta da porta quase dolorosamente.

- Pois é, eu também achei que sim. Mas seu pai disse que aconteceram alguns imprevistos por aqui e que precisava voltar antes do esperado. Houve algum problema na empresa? Seu pai pareceu preocupado. Vai deixar de comparecer a uma reunião importante segunda-feira...

As narinas de Draco se dilataram e ele soltou, por entre os dentes:

- Não. Está tudo correndo perfeitamente, até onde eu sei.

- Que estranho... - ela ficou pensativa por um momento, trocando a perna de apoio. - Tem alguém aí, Draco?

- Não! - Narcissa estreitou os olhos e ele continuou, tentando parecer inalterado. - Na verdade tem. E eu acho melhor a senhora não entrar, sabe como é?

- Ah, entendo - Narcissa tentou espiar por cima do ombro do filho discretamente, mas Draco era mais alto do que ela. - É a Pansy?

Draco pensou um pouco.

- Não.

- Oh, querido, eu realmente não aprovo o que você faz com a pobre da Pansy...

- Mãe, Pansy está namorando - Draco rolou os olhos, e continuou, diante da expressão confusa da mãe. - Ela está namorando sério um garoto de Ciências Contábeis.

- Então quem está aí?

- Um-a amiga - Draco quase deixou escapar. - A senhora não conhece.

- Draco, você não está trazendo pessoas desconhecidas para casa, não é mesmo? Você sabe que seu pai...

- Não, mãe - Draco interrompeu, rolando os olhos. - É uma amiga, já disse. A senhora... a senhora não vai contar para o pai, vai?

- Bom... - ela suspirou quando Draco inclinou a cabeça um tantinho para o lado de uma maneira pidonha. - Oh, está bem. Mas eu gostaria de conhecê-la, posso?

- Ahm, não é uma boa hora, mãe - Draco estreitou ainda mais a fresta da porta. - O quarto está uma bagunça... ela é tímida...

- Oh, está bem... mas... ela é bonita, Draco? Você gosta dela?

Draco engoliu em seco.

- Sim, mãe, ela é linda, eu estou apaixonado, ela é a garota dos meus sonhos, agora, por favor, não estrague tudo mãe...

Draco estava tão assombrado quanto Narcissa pelas palavras que tinham saído de sua boca. Sua intenção era parecer sarcástico, mas não foi bem isso que aconteceu. Ele tinha soado sincero demais, até para si mesmo.

- Oh, sim... eu entendo... está bem... mas você vai me apresentar a ela numa outra ocasião...

- Claro, mãe. Boa noite.

Narcissa sorriu e deu outro beijo na testa do filho.

- Eu vou manter seu pai longe do seu quarto por hoje, filho. Boa noite.

Draco assistiu-a se afastar e fechou a porta com a chave, encostando a testa nela e respirando aliviado.

- Caramba, essa foi por pouco! - Harry saiu do banheiro, e Draco virou-se para encará-lo, ainda encostado na porta. - Me desculpe, cara, eu derrubei sua pasta, veja só.

Harry sentou-se no chão e começou a juntar as folhas. Draco juntou-se a ele para ajudá-lo, ainda em silêncio.

- Eu preciso ir embora, Draco. Sirius vai me escalpelar quando eu chegar em casa e vai pendurar minha pele no varal... - eles terminaram de juntar as folhas e colocaram na pasta. - Bom, pelo menos eu sou linda! - Harry gracejou, ainda sentado no chão, de frente para ele.

Draco deu um pequeno sorriso que não alcançou seus olhos.

- O que foi, Draco? - Harry pousou uma mão em seu joelho e Draco passou a mão pelos cabelos, suspirando.

- Meu pai não pretendia passar todo esse tempo fora - começou, mascarando sua tristeza com desprezo. - Ele queria que todo mundo acreditasse nisso. Lucius esperava que alguém ligasse para ele da empresa pedindo que ele voltasse urgentemente porque nada funciona sem ele, e como isso não aconteceu, ele fingiu que tinha surgido um problema e que sua volta era necessária. Eu estou cuidando de tudo, Harry. Não há problema nenhum, a única coisa que eu não posso fazer por ele é assinar. No resto eu me viro muito bem, mas ele não aceita isso - Draco deu um soco no chão e levantou-se, andando de um lado para o outro.

- Tem certeza que ele não ficou sabendo sobre mim? Sobre eu ter entrado para a empresa? - Harry pareceu apreensivo.

- Não. Ninguém sabe sobre você ainda, Harry. Só Gudgeon e Natalie. Nenhum deles diria nada a meu pai. Gudgeon nem sequer faz idéia da proporção da briga que eu estou comprando com meu pai.

Harry também se levantou e foi até ele, colocando uma mão em seu ombro, para que ele parasse.

- Algum dia ele vai ter que reconhecer, Draco. Talvez só ele não reconheça, dentro daquela empresa. Eu reparei no respeito que as pessoas têm por você, não só a Natalie. O que importa é que você está dando o melhor de si.

Draco sorriu, agradecido. Ia transformar seu agradecimento em palavras, mas o que saiu de sua boca foi algo totalmente diferente:

- Fique aqui, Harry.

- Como? - o moreno franziu a testa em confusão.

- Passe a noite aqui em casa - Draco resolveu se expressar melhor. - Amanhã cedo você vai embora.

- Não posso! Eu... - Harry bagunçou os próprios cabelos. - Sirius vai... eu preciso ir, Draco!

- Harry, pense comigo. Meus pais estão de volta. É noite, o segurança já deve estar fazendo a ronda, a vigilância nos dois portões está redobrada, você ainda tem que pegar sua bicicleta na garagem... não tem como sair do meu quarto hoje.

- Mas... mas... onde eu vou dormir? - Harry arregalou os olhos.

Draco apontou para a própria cama, onde cabia pelo menos três pessoas folgadamente.

- Você acha que não cabe nós dois aí?

Harry engoliu audivelmente e puxou o celular do bolso da bermuda começando a discar.

- Sirius vai me matar, cara... Droga, tá ocupado.

- Ora, Black devia era te agradecer pela oportunidade de ficar sozinho com Lupin - Draco argumentou, divertido com a expressão embasbacada de Harry. - Bem, pelo que eu vi ontem, me parece que eles estão precisando de um tempo sozinhos mesmo, não acha? Você nunca sai de casa para deixá-lo mais... à vontade?

- Hmm... na verdade não... erm... não.

Draco gargalhou.

- Oh, Harry, você é cruel! Devia dar mais oportunidade para eles curtirem algum tempinho sozinhos...

Harry voltou a atenção para o celular, discando novamente. Draco podia jurar que ele tinha enrubescido levemente.

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Remus se sentou no sofá, desabotoando os pulsos e dois botões da camisa enquanto Sirius terminava sua busca por cada cômodo da casa, resmungando e chamando por Harry. Snuffles estava adormecido no tapete da sala. Remus segurou o medicamento que tinha pego no armário da cozinha e um pano úmido e encostou-se no sofá até que Sirius apareceu do corredor, bufando com um olho roxo e sangue seco ao lado dele.

- Calma, Sirius.

Sirius xingou em resposta, pegando o telefone sem fio e já discando o número na memória, andando de um lado para o outro.

- Ah, esse moleque var apanhar de cinta quando chegar em casa! Ah, se esse celular estiver desligado, ou se acabar a bateria... ocupado, droga...

- Espere algum tempo, se acalme. - disse Remus, calmamente. - Venha, sente-se, eu tenho que limpar esse seu ferimento.

Sirius continuou xingando, andando de um lado para outro, sem dar ouvidos ao que o outro dizia. Então o telefone tocou e Sirius atendeu.

- Que horas são, Harry? - Sirius rosnou.

- Humm... já passa das nove, Padfoot.

- E por que eu não te achei escondido em nenhum guarda-roupa?

- Padfoot, eu estou na casa do Draco, vou passar a noite aqui...

- O QUÊ?

Snuffles deu um pulo, assustado com o berro, e Remus fechou um olho com o eco que se formou em sua cabeça.

- Harry, você está brincando comigo, não está? Você está na casa de Lucius Malfoy? Vai dormir com o filho dele?

- Não! Não, Sirius - Harry acudiu, do outro lado da linha, desesperado por se explicar. - Lucius não estava aqui quando eu cheguei e... eu só vou passar a noite aqui, pelo amor de Deus, pra quê esse escândalo?

- Harry, volte já pra casa! Eles te prenderam aí? É isso, você não pode sair? Malfoy fez alguma coisa com você?

- Sirius, eu quero falar com Moony.

- O caramba que você vai falar com Moony! Explica essa história direito, moleque!

- É o que eu estou tentando fazer! - esganiçou-se Harry.

- Harry, ouça...

Remus suspirou e levantou-se, tomando o aparelho das mãos do namorado.

- Olá, Harry!

Sirius desabou na poltrona, enterrando o rosto nas mãos. Snuffles bocejou ruidosamente e voltou a se enroscar em si mesmo, cochilando.

- Oh, Moony - Harry suspirou aliviado. - Moony, por favor, dá um jeito nele… Eu só vou passar a noite aqui, aconteceram alguns imprevistos… Lucius chegou antes do previsto e eu não posso sair agora. Você pode explicar isso para ele?

- Tudo bem, Harry, eu explico. Ele só está nervoso porque não te achou quando chegou, sabe como é, preocupação de mãe...

- Eu sei, foi mancada minha. Acabei esquecendo da hora... ele já está mais calmo? Posso falar com ele?

- Sim, um momentinho - Remus estendeu o telefone para o namorado. - Ele quer falar com você, você está em condições de falar?

Sirius respirou fundo, colocando o cabelo para trás da orelha e aceitando o telefone.

- Oi - falou, carrancudo.

- Padfoot, me desculpe. Eu acabei esquecendo da hora, devia ter te avisado, me desculpe - Sirius apenas resmungou em resposta. - Está tudo bem, viu? Ninguém está me torturando nem me obrigando a ficar e... bom, depois eu explico tudo direitinho, ok?

- Ah, mas você vai explicar tudo mesmo! - enfatizou Sirius.

- Sim, amanhã de manhã eu estarei de volta. Agora... a casa é só sua hoje, mas juízo, heim mocinho!

Sirius soltou uma risada pelo nariz.

- Boa noite, Padfoot.

- Boa noite, Harry... ah, juízo, heim?

Harry riu e Sirius desligou o aparelho, suspirando. Remus bateu no acento ao lado dele no sofá maior e Sirius foi até lá, deixando-se ser cuidado por Remus.

- Nosso menino está crescendo, Moony - Sirius dramatizou, arrancando uma risada do namorado.

- Harry já deixou de ser menino há algum tempo, Padfoot - Remus virou a cabeça de Sirius delicadamente para poder limpar o sangue seco.

- Que nada, aquele lá só tem tamanho. É uma criança que cresceu demais.

- Eu poderia dizer o mesmo de você - Remus pegou o medicamento e passou no ferimento, fazendo Sirius chiar.

- Uhh isso arde, Moony!

- Da próxima vez não apanhe. Só bata.

Ambos riram e Sirius capturou os lábios de Remus num beijo mais urgente, puxando-o de encontro a si, deslizando as mãos pelas costas um do outro. Remus ainda segurava o medicamento firmemente fechado em uma das mãos. Então eles encostaram suas testas, ambos de olhos fechados, ainda se abraçando.

- Eu não podia deixar aquele morcego te insultando daquele jeito sem fazer nada, Moony.

- Bem, eu não vou te culpar dessa vez - Remus passou os dedos pelos cabelos do outro com a mão livre. - Só lamento você não ter quebrado o nariz imenso dele.

Sirius sorriu e traçou um caminho de beijos até a orelha do namorado, sussurrando roucamente:

- Moony?

- Hum? - Remus resmungou em meio aos arrepios que aquilo lhe causava.

- Nós estamos sozinhos... - Sirius mordeu o nódulo de sua orelha e Remus arregalou os olhos.

- Oh, está tarde, eu preciso ir embora - Remus tentou se afastar, porém Sirius estreitou-o em seus braços e encarou-o nos olhos, fazendo biquinho.

- Fica aqui comigo, Moony? Fica?

Remus alarmou-se quando sentiu a respiração alterada. Não, não podia ter uma crise agora. Fechou os olhos e respirou fundo, evitando olhar para a carinha pidonha do outro.

- Por favor - Sirius sussurrou, beijando-lhe os lábios suavemente.

- Sirius, eu...

Sirius levantou seu queixo e encarou-o profundamente, segurando ambos os lados de seu rosto para que ele não desviasse o olhar.

- Aquelas coisas que Snape falou ainda estão te incomodando? É isso?

- Não. Eu não importo com o que ele disse.

- Então você tem medo de mim, Moony? - Remus acenou negativamente. - Então confie em mim, ok?

Remus lentamente acenou em concordância e Sirius sorriu, acariciando sua face. Beijou seus lábios ternamente e fez com que Remus se recostasse no encosto do sofá, inclinando-se sobre ele. Então passou a distribuir beijos suaves em seu queixo, garganta pescoço enquanto com as mãos, explorava lentamente toda a extensão de seus braços, ombros, até encontrar os botões da camisa de Remus. Este suspirou mais profundamente, suas narinas sendo invadidas pelo suave perfume de alfazema do namorado, deixando-o entorpecido com o aroma. Remus fechou os olhos e se entregando as sensações intensas que aqueles beijos suaves lhe causavam. O pequeno frasco de medicamento escorregou por entre seus dedos, caindo surdamente no sofá.

Sirius abriu lentamente todos os botões de sua camisa enquanto beijava cada pedacinho de pele descoberto, sem pressa nenhuma de terminar. Assim que acabou, Sirius voltou a beijar seus lábios, puxando-o suavemente para que desencostasse as costas do sofá, de modo que ele pudesse remover toda a camisa. Ele jogou a peça de roupa no chão e explorou seu peito com as mãos, tocando-o de leve, passando a beijar o pescoço novamente. A respiração contra a pele sensível de Remus, além do rastro de fogo que aqueles dedos deixavam em seu próprio peito e costas, faziam com que ele apertasse seus dedos nas costas do outro, por cima da camisa.

Esse detalhe pareceu deixar Sirius incomodado, já que ele tratou de começar a remover a própria camisa, sendo ajudado por Remus. Sirius sorriu e acariciou a face do namorado, enquanto este se concentrava em sua tarefa e também jogava a camisa no chão, sem muito cuidado.

- Eu te amo, Moony – Sirius sussurrou junto a seus lábios enquanto o abraçava, fazendo com que suas peles se tocassem diretamente, quentes e sensíveis.

- Também te amo, Padfoot – Remus sussurrou de volta, de olhos fechados, por isso não assistiu ao sorriso emocionado que Sirius deu antes de tomar sua boca em mais um beijo que deixou-os quase trêmulos.

- Venha – Sirius levantou-se, segurando-o pelas mãos e puxando-o também.

Remus se deixou carregar rumo ao corredor, sentindo-se nervoso. Porém era só ansiedade, já que tinha mandado suas preocupações idiotas para o espaço diante do carinho que Sirius demonstrava para com ele. Sirius apagou a luz ao passar. Debaixo de uma das camisetas jogadas ao chão, Snuffles ressonava no tapete da sala escura.

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Draco acordou no meio da noite com alguma coisa o incomodando. De imediato, reparou que era o vento que entrava pela janela, que tinha sido deixada aberta a pedido de Harry. Draco esfregou os olhos e sentou-se na cama, tentando acordar por completo. O quarto estava parcamente iluminado pela claridade do poste na rua, já que as estrelas e a lua tinham sido completamente encobertas por nuvens espessas. Um clarão cruzou o céu e um trovão o seguiu, Draco baixou os olhos para o garoto deitado a seu lado, na outra beirada da cama, quase caído para o chão de tão afastado que estava. Harry ainda conservava a mesma posição de quando se deitara, de frente para a janela e de costas para ele. Parecia tremer um pouco por causa do vento gelado, já que não tinha nem sequer puxado os lençóis pra se cobrir e usava somente um dos shorts de dormir de Draco.

O loiro espiou o visor do celular. Três e meia da madrugada. Ambos tinham ido dormir cedo, exaustos pelas atividades do dia, na piscina, e Harry tinha pedido para deixar a janela aberta, pois estava muito quente. Eles tinham se deitado em extremos opostos da cama e trocado algumas palavras antes de finalmente se renderem ao sono.

Draco obrigou-se a levantar e cambaleou até a janela, fechando-a com cuidado para não fazer barulho. Outro clarão cruzou o céu do lado de fora, seguido pelo barulho estrondoso que abafou o clique do cadeado. Draco fechou também as persianas inferiores e espiou para fora pelas superiores, assistindo os pingos de chuva começarem a cair, revelados pela luz do poste.

O loiro voltou a dar a volta na cama e deitou-se, encarando o lugar que deveria estar as costas de Harry. Quando seus olhos se acostumaram com a parca luminosidade, Draco pode finalmente enxergá-lo. Ele não havia sequer se mexido e tinha parado de tremer, porém o ambiente ainda estava um pouco gelado e Draco resolveu cobri-lo com o lençol. Aproximou-se e estendeu o lençol suavemente sobre o garoto, observando o tecido acariciar com suavidade a pele do moreno antes de se assentar. Harry não se moveu ainda. Seu tórax se expandia e esvaziava num ritmo lento, constante e silencioso. A chuva tornou-se mais barulhenta do lado de fora.

Incapaz de se conter, Draco deslizou para mais perto, entrando debaixo do lençol também e se aproximando, até que seu corpo se encaixasse às costas de Harry. Ora, por que ele devia continuar se contendo, afinal? Estava claro que ele não conseguiria sobreviver a essa amizade quando queria muito mais do que isso. Estava mais do que na hora de fazer alguma coisa. Bem, não naquele momento, obviamente. Mas no dia seguinte ele faria. Estava cansado de se torturar deliberadamente. Se não se arriscasse, nunca saberia se Harry o queria ou não.

Draco envolveu-o com um dos braços e apoiou a cabeça lentamente no travesseiro, com o nariz enterrando-se nos cabelos negros e macios. O coração de Draco estava desenfreado e ele agradeceu à chuva por abafar as batidas audíveis.

Draco inspirou o aroma que se desprendia dos fios sedosos e reconheceu o cheiro de seu xampu. Em seguida, inclinou a cabeça de modo que seu nariz quase tocou a pele desnuda do ombro do outro garoto. Reconheceu o aroma do sabonete que Harry tinha usado. Era incrível como os perfumes mais suaves pareciam grudar naquela pele. Seus dedos buscaram pela mão de Harry até encontrá-la e ele colocou sua mão sobre a dele, acariciando-o. Sem que percebesse, Draco já tinha encostado seus lábios na pele do ombro do moreno, pousando um beijo quase tão suave quanto o toque do lençol sobre a pele de ambos.

Voltou a encostar a cabeça no travesseiro e reduziu qualquer espaço mínimo que o separasse do outro, apertando-o contra si. Se estivesse acordado, Harry com certeza sentiria seus batimentos cardíacos contra as costas. Harry suspirou em meio a seu sono e Draco fez o mesmo, com um sorriso intrometido nos lábios.

Adormeceu, embalado pela respiração calma de Harry e pelo barulho gostoso da chuva.

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As narinas de Remus foram invadidas pelo cheiro forte de café, mas ele ainda não queria registrar isso, porque se o fizesse, acordaria. Ele não queria acordar. Remexeu-se, virando de barriga para baixo, enterrando o rosto no vão entre o travesseiro e o colchão. Então o aroma do café foi substituído pelo aroma de lavanda, aquele perfume que estava impregnado nos lençóis e em toda a roupa de cama.

A fragrância trazia-lhe alguma lembrança. Alguma coisa que deixava seu coração mais leve e fazia-o querer sorrir, o que era mesmo? Ora, mas ele não queria se lembrar agora. Porque lembrar-se significaria despertar e ele não queria despertar agora.

Aliás, aquele colchão não era o seu. Era mais firme do que o que ele estava acostumado. Mas quem se importava? E os lençóis eram mais sedosos e quase gelados em contato direto com sua pele. Porém estava perfeito dessa maneira. Contanto que ele pudesse continuar dormindo...

Suspirou e voltou a mergulhar num sono tranqüilo, sem sequer perceber que era atentamente observado.

Sirius estava sentado na beirada da cama, usando somente seus shorts gastos de dormir, os cabelos bagunçados pedindo para serem escovados. Levou a caneca de café lentamente à boca, bebericando e voltando a abaixá-la, tudo isso sem deixar de fitar o homem adormecido em sua cama, com o rosto enfiado nos travesseiros, os cabelos castanhos espalhados no colchão e os lençóis embolados deixando um dos pés descoberto, assim como os ombros. Sirius temia até mesmo colocar todo o seu peso no colchão para não acordá-lo.

Remus tinha o sono muito leve, conforme Sirius tinha aprendido durante o tempo em que eles dividiam o dormitório no colégio, e costumava ser o primeiro a acordar. Isso fez com que um sorriso tornasse seu semblante bonito ainda mais agradável e suas feições não tinham nenhum traço de arrogância no momento. Remus estava preguiçoso essa manhã, que interessante!

Convencendo-se de que o acordaria se continuasse a admirá-lo, Sirius deixou o quarto e foi assistir desenhos animados na sala, com Snuffles. O volume bem baixinho.

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Harry acordou com uma sensação estranha. Havia um peso em seu braço, suas costas estavam aquecidas e... por que será que sua orelha esfriava e esquentava alternadamente? Demorou algum tempo para que ele percebesse que estava sendo abraçado. Harry arregalou os olhos, totalmente desperto. Sua visão desfocada pela ausência dos óculos registrou o quarto meio escurecido por causa das persianas quase totalmente fechadas. Já era dia, mas... aquele não era seu quarto.

O coração de Harry martelou em seu peito fortemente quando ele se lembrou de onde estava, porque e o mais importante... com quem. Quem o estava abraçando só podia ser... não, não poderia...

Mas era! Draco, quem mais? Harry se deu conta de que aquela sensação estranha em sua orelha era a respiração do loiro. Ele tinha receio de mover sequer um músculo para não acordá-lo, o que incluía o subir e descer de sua caixa torácica, então ele devia, em primeiro lugar, normalizar sua respiração. Porém isso era quase impossível quando a mão de Draco tocava levemente seu estômago e as pernas do loiro estavam emboladas entre as suas próprias.

Aquela situação era perfeitamente normal, Harry tentava convencer a si mesmo. Pelo menos devia ser para Draco. Harry não estava acostumado a acordar abraçando ou sendo abraçado por alguém, mas pelo que ele podia julgar pelo comportamento do loiro, isso podia ser totalmente normal para ele. Afinal, ele estava na casa dele, na cama dele e... por que diabos mesmo Harry tinha aceitado dormir lá? Oh, sim, por causa de Lucius. Ele não tivera muita escolha a respeito desse fato. Mas por que mesmo tinha concordado em dormir apenas de shorts? Oh, para isso não tinha justificativa. Ele por acaso não estava tentando impressionar um certo loiro, não é mesmo?

Mas isso não vinha ao caso naquele momento. Harry devia estar sendo confundido com alguma menina, que ótimo... provavelmente Draco teria um susto quando acordasse com ele em seus braços.

Os pensamentos do moreno continuaram nessa linha por algum tempo e ele nem sequer tentou se desvencilhar do abraço. Muito pelo contrário, ele sequer se mexia para não ser privado daquele calor reconfortante. A manhã estava fresca e úmida, portanto aquele contato era bem-vindo. Devia ter chovido durante a noite, o que justificava a janela fechada. Que horas seriam? Harry devia acordar Draco para sair o quanto antes daquela casa. Quanto mais tarde ficasse, mais difícil seria. Mas... oh, estava tão bom daquele jeito... Harry suspirou.

Draco soprou o ar com mais força, fazendo alguns fios de seu cabelo esvoaçarem, e apertou-o em seus braços, conforme encolhia uma das pernas, enterrando-a ainda mais entre as do moreno. Harry retesou-se e segurou a respiração enquanto aguardava que Draco voltasse a ficar imóvel. Porém isso não aconteceu.

O loiro abaixou mais a cabeça no travesseiro e sua respiração tocou o pescoço de Harry, fazendo com que este se arrepiasse completamente. Draco grunhiu alguma coisa e levantou a cabeça do travesseiro, repentinamente. Harry fechou os olhos instintivamente e quase pode sentir o olhar de Draco sobre si por alguns segundos eternos. Percebeu que não sustentaria a farsa por muito tempo, já que suas pálpebras estavam tremendo, então encenou um despertar sereno, espreguiçando-se.

Draco desenroscou as pernas das dele e apoiou-se num dos cotovelos afastando-se só o suficiente para que Harry pudesse se virar. E foi o que Harry fez, estreitando os olhos, para não dar muito na cara que já estava acordado havia alguns minutos. Draco também tinha os olhos estreitados e o cabelo um pouco amassado.

- Bom dia – disse o loiro, com a voz rouca, coçando a cabeça. Então bocejou.

- Bom dia – respondeu Harry, em meio a um bocejo também, contagiado.

Draco sorriu e esfregou os olhos com a mão livre. Então desabou a seu lado, de barriga para cima, resmungando. Harry nunca imaginou que o loiro fosse capaz de dizer um "Bom dia" logo que acordasse. E o mau-humor matinal? A segunda coisa que Harry raciocinou foi que Draco não parecia nem um pouco embaraçado com o fato de ter acordado abraçando-o. Bem, talvez fosse o sono.

- Ai, ai – Draco suspirou, acariciando o próprio estômago. – Dormiu bem, Harry?

- Um-hum – resmungou, cogitando a possibilidade de Draco ter um irmão gêmeo que costumava ser educado ao acordar e que, de alguma forma, tinha trocado de lugar com o verdadeiro Draco durante a noite.

- Está com fome?

- Erm... – de repente Harry se deu conta de que estava faminto. – Sim.

- Eu não costumo tomar café da manhã, mas vou pedir alguma coisa para Winky. Que horas são? – e sem esperar por resposta, Draco rolou para o lado e engatinhou até a outra borda da cama, pegando o celular. – Ah, está cedo ainda, vamos dormir mais um pouco?

Harry pegou os óculos e o celular, que tinha deixado no chão, e analisou a hora. Seus olhos se arregalaram

- Caramba! – o moreno sentou-se no cama de imediato. – São quase dez horas da manhã! Como foi que eu dormi tudo isso? Owm...

Harry gemeu e voltou a desabar na cama, fechando os olhos, inconformado.

- Ihh, não esquenta, Harry – Draco tranqüilizou-o. – Black vai estar de muito bom humor hoje, escreva o que eu digo.

- Eu não apostaria tanto nisso.

- Além disso, meu pai sai cedo de casa aos domingos. Ele joga golfe com uns velhos chatos e cheios da grana. Minha mãe deve ter saído também. Eu vou descer pra pegar alguma coisa pra você.

Harry, ainda de olhos fechados, ouviu os passos de Draco até o banheiro e ouviu o barulho da água correndo conforme ele fazia sua higiene. Mordeu o lábio inferior. Harry não estava acostumado a acordar tarde. Muito menos quando ia dormir razoavelmente cedo, como fizera na noite anterior. E algo lhe dizia que isso não acontecera somente por causa do cansaço na piscina. Harry sorriu ao se lembrar da sensação de acordar sendo abraçado daquela maneira e só pensou em repetir aquilo algum dia... mas não podia ser com qualquer um...

De repente, Harry deu um pulo na cama e arregalou os olhos ao sentir alguma coisa gelada e úmida passando pela sola de seus pés.

- Acorda Harry! – Draco lhe sorriu arqueando as sobrancelha marotamente antes de passar as mãos molhadas por seus pés novamente.

- Ahh, páre! – Harry encolheu os pés, mas isso só fez com que a expressão de Draco ficasse ainda mais determinada.

- Por que? – Draco ajoelhou sobre a cama e Harry tentou tirar os pés do alcance dele, porém foi tarde demais.

Draco prendeu uma de suas canelas e começou a fazer cócegas em seu pé. Completamente incapacitado, Harry explodiu em riso, contorcendo-se, puxando, girando o pé para tentar fugir, tentando afastá-lo com o outro pé e ficando cada vez mais sem fôlego. Quando Harry já sentia os cantos dos olhos úmidos e se tornou ainda mais difícil respirar, Draco finalmente soltou-o encarando-o como um felino enquanto ele se recuperava, arfando.

- Eu disse que encontraria seu ponto fraco, não é mesmo? – Draco deu-lhe um sorriso torto. – Tive um palpite e acabei acertando.

- Você... você é cruel... Draco... – o moreno sussurrou, conforme respirava.

- Aprendi com você. Eu vou descer, está bem? Trago alguma coisa pra você. Vou trancar a porta pra não correr o risco de alguém entrar sem bater, ok?

- Ok.

Harry assistiu-o deixar o quarto e obrigou-se a lavar o rosto. Que maneira mais incomum de se começar o dia! Não que ele estivesse reclamando...

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Draco passou na cozinha e pediu que Winky preparasse algo para Harry e aproveitou para perguntar se sua mãe tinha questionado alguma coisa. Ele já tinha deixado bem claro para ela e para o porteiro que ninguém deveria saber sobre Harry, e Winky assegurou-o que não disse uma palavra a Narcissa. Sua mãe estava em casa, em seu quarto, ao que parecia. Então bastava que ele fosse cuidadoso.

Draco foi até a garagem e pegou a bicicleta de Harry, pedindo que o porteiro levasse até o portão dos fundos e que deixasse o cadeado aberto. Em seguida voltou para a cozinha, pegando o café da manhã de Harry e as roupas que o moreno tinha chegado ontem, devidamente lavadas e secas, assim como os tênis. Então levou tudo para Harry, que se vestiu e comeu torradas com geléia e suco de acerola. Draco ficou com vontade só de assisti-lo comer e ficou grato por Winky ter exagerado nas quantidades, assim pôde dividir a refeição com ele.

Assim que eles ficaram prontos, Draco saiu na frente, dando uma espiada pelos corredores e chamou Harry. Eles caminharam em silêncio e com redobrada atenção. Draco ia à frente em cada curva até que eles desceram por uma escada de serviço e atravessaram um corredor no sentido oposto ao da porta de entrada. Quando iam sair para o jardim, Draco estacou, fazendo com que Harry trombasse nele. Narcissa tinha descido e estava examinando algumas plantas no jardim. Eles esperaram pacientemente até que ela saísse de perto e atravessaram o jardim correndo rumo ao portão dos fundos.

Aquele portão era o de serviço, menor, com grades brancas. Ele ficava no lado oposto ao portão principal, saindo para a rua de trás da mansão. Os muros cobertos de era faziam curvas, formando um pequeno corredor, de modo que o portão ficasse nas sombras, meio escondido da vista de quem quer que passasse pela rua. A bicicleta de Harry estava encostada na parede e o cadeado só estava passado no portão, todos os alarmes desligados.

Os dois passaram rapidamente para o lado de fora e só puderam descansar da corrida quando Draco fechou o portão, encostando-se no muro ao lado de Harry, ambos respirando aliviados. Então Harry explodiu em risos, divertido – agora que o perigo já tinha passado. Draco tapou a boca dele com uma das mãos, receando que alguém pudesse ouvi-los, porém Narcissa estava longe e ele já não agüentava mais de vontade de rir também.

Aquilo podia ser idiota, rir sem nenhum motivo aparente, mas era impossível resistir quando Harry ria com tanta vontade. Parado ali, do lado de fora de sua casa, rindo junto com Harry, Draco recordou-se do propósito que tinha feito para si mesmo na noite de sexta-feira, de que ele tomaria providências, de que não esperaria mais pela oportunidade certa. Porém deu-se conta de que várias oportunidades tinham se passado e que ele não tinha aberto seu coração para Harry. Talvez ele não tivesse coragem suficiente para isso.

Draco nem se deu conta de que encarava Harry até que este surpreendeu seu olhar, ainda risonho, enxugando as lágrimas de riso dos olhos.

- Que foi, Draco? – perguntou o moreno, curioso.

Draco abriu a boca para responder, mas de repente achou-se sem resposta. Não conseguia dizer que não era nada de mais, assim como não conseguia colocar em palavras o que sentia. Soltou o ar dos pulmões, que estivera prendendo inconscientemente. Seu coração batia quase dolorosamente, suas mãos começaram a suar de nervosismo, até piscar parecia lento demais. Incapaz de se conter, Draco colocou-se em frente a Harry e segurou seu rosto com ambas as mãos. Ignorando a expressão surpresa do outro, fechou os olhos conforme inclinava a cabeça para frente e ligeiramente para a direita até que seus lábios capturaram precisamente o lábio interior dele, auxiliado pelo fato de que Harry tinha entreaberto a boca em espanto.

O tempo parou enquanto ele experimentava milhares de sensações em um absurdamente curto espaço de tempo. Alguma coisa quente jorrou em suas veias, seres esvoaçantes se agitaram em seu estômago, ele estava prestes a perder o controle sobre as próprias pernas e sequer se lembrava de como respirar.

Querendo aproveitar ao máximo a falta de reação do moreno – talvez por conta do choque – Draco soltou o lábio inferior e partiu para o superior, respirando nesse intervalo. Quase sem poder se suster de pé, Draco deixou que seu corpo se apoiasse no dele por completo, causando mais uma onda de contentamento em seu corpo. Deslizou as mãos para os cabelos do outro, querendo aproveitar cada sensação, a maciez daqueles lábios a textura levemente áspera da pele daquele rosto masculino e belo, o toque suave dos fios de cabelos deslizando por sob seus dedos.

Draco respirou brevemente uma vez mais e lambeu aqueles lábios, ávido por sentir mais, por provar mais, por sentir seu gosto e voltou a beijá-los. Sentiu-se trêmulo quando percebeu a reação hesitante de Harry, que pressionava seus lábios de volta nos dele. Oh, aquilo era o que faltava para Draco perder o controle completamente. Tomou aquela boca inteiramente na sua com vontade, com sede, como se sua vida dependesse disso.

Imediatamente, Harry correspondeu ao beijo, entreabrindo os lábios para recebe-lo. O toque de suas línguas fez com que ele experimentasse um pulso elétrico percorrendo todo o seu corpo. Sentiu, extasiado, Harry levando as mãos até suas costas com toques tão suaves que chegavam a ser torturosos, deixando sua pele formigando conforme ele a tocava por cima do tecido da camiseta. Draco inclinou a cabeça mais para o lado de modo que pudesse ir mais fundo, exigir mais daquela dança. Seu corpo todo urgia pelo do outro, com saudade, viciado no contato, protestando por eles terem sido separados logo pela manhã... Draco extinguiu qualquer espaço entre eles.

Aquilo era... perfeito. Estranhamente perfeito. Diferente de qualquer sensação que ele já tinha experimentado, não só por ser um garot quem ele estava beijando, mas por ser ele. Por ser Harry. Era algo que ele ansiara por tanto tempo! Antes mesmo que se desse conta de que estava apaixonado. Oh, sim, aquilo era estar apaixonado. No momento, ele achava esse sentimento quase palpável. E o paraíso era ter Harry assim, por completo, real, mil vezes melhor do que ele já tinha sonhado ou fantasiado com aquele momento.

Draco afastou-se precisando de ar e encarou os olhos encantadoramente verdes enquanto encostava seus narizes, arfante, assim como Harry. Sorriu e voltou a beijá-lo, dessa vez com mais calma, tentando se lembrar de que respirar era essencial... para que o beijo durasse mais.

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Harry foi pego completamente desprevenido por aquela atitude de Draco. Sua mente demorou algum tempo até registrar o que acontecia, retardada pela proporção das sensações que se espalhavam por todo o seu corpo. Porém assim que recobrou suas funções motoras, Harry correspondeu àquele beijo meio desesperado.

Foi... foi tão intenso! Tão real que chegava a ser difícil de acreditar e quase assustador. Harry tinha lutado tanto contra suas vontades e agora podia finalmente vivenciar aquele momento com todas as cores, os sabores, as sensações, as emoções... podia abraçá-lo, acariciá-lo, saciar sua sede...

Mas que água era essa que só aumentava sua sede? Que cura era essa que só aumentava sua dependência? Era quase dolorosa a maneira com que Draco o espremia contra o muro, mas não era suficiente ainda.

Quando Draco finalmente deixou que ele respirasse, Harry começou a compreender a proporção do que sentia. Era maior do que ele próprio, maior do que ele imaginara. Aquele sorriso que o fazia perder o fôlego deixou-o desnorteado até que sua boca foi tomada novamente e ele se achou. Compreendeu, finalmente.

Enquanto entregava-se a um beijo mais calmo, delicado, doce... Tudo tão perfeito! Porém... havia algum tempo atrás, ele teria dado tudo por um beijo e agora sabia que não era suficiente. Ele queria o inalcançável, o impossível. Queria Draco. Inteiro. Não só poder beijá-lo, poder tocá-lo, admirá-lo... Queria tocar sua alma, ter o que Sirius tinha com Remus, o que Ron tinha com Mione... Ele estava querendo mais do que poderia exigir.

O peito de Harry doeu ao lembrar-se das palavras de Draco na noite anterior, a respeito de Pansy. "Nós fizemos amizade, fizemos muitas coisas juntos. Conversávamos sobre coisas idiotas, brincávamos... eu me sentia à vontade com ela e ela comigo. Eu comecei a perceber um certo interesse nela por mim, ela vivia dizendo que me achava bonito e não gostava que eu conversasse com outras garotas. Bem, eu também tinha minhas curiosidades e me aproveitei disso para experimentar"

Harry não suportaria o que Pansy suportou por tanto tempo, ficar à disposição, assistir Draco se relacionar com outras pessoas sem poder fazer nada, ser considerado apenas um amigo, ter e não ter ao mesmo tempo... E o pior: assistir Draco perder o interesse por ele e deixá-lo.

Quando Draco abandonou sua boca para beijar seu pescoço, o moreno não suportou mais a dor em seu coração nem o nó que começava a se formar em sua garganta.

Afastou-o com determinação e recebeu um olhar questionador. Aquele olhar agora lhe queimava, fazia milhões de dúvidas surgirem em sua mente, vozes ecoando frases soltas, Ron, Sirius, a voz fria de Draco enquanto falava que Pansy nunca passou de uma amiga... Tudo isso cegou o moreno para as emoções tão evidentes naqueles olhos acinzentados. O medo era uma delas.

- Harry?

O moreno engoliu em seco, fechando os olhos.

- Eu vou embora – acabou dizendo, já se desencostando da parede, porém Draco cercou-o com um braço de cada lado do seu corpo.

- Harry, por favor...

- Me deixe ir, Draco – Harry falou com a voz mais firme e passou por debaixo de um dos braços do loiro, que segurou seu braço numa última tentativa.

- Harry, eu não...

- Me solta! – Harry sacudiu seu braço para que fosse liberto, então algo se rompeu dentro dele e a única coisa que seguraria as lágrimas seria a raiva. Ignorando a expressão assustada que o loiro fazia, despejou: – Se você está pensando que tudo vai ser como antes, está muito enganado, entendeu? Eu não vou ser seu brinquedinho, Draco. Não vou deixar que você faça comigo o mesmo que fez com Pansy.

O rosto de Draco se contraiu dolorosamente e Harry começou a desejar que ele reagisse, que gritasse de volta, que protestasse, que dissesse que não era nada daquilo... ou até mesmo que o batesse. Seria uma ótima alternativa se Draco lhe desse um soco agora, melhor ainda se o deixasse inconsciente. Qualquer coisa seria melhor do que esse silêncio e esse olhar decepcionado.

Harry desviou o olhar e apanhou a bicicleta, montando nela e saindo em disparada, sem olhar para trás. Seus olhos ardiam e ele tentou resistir a piscar para não derramar as lágrimas, mas não conseguiu com o vento batendo em seu rosto conforme ele pedalava mais rápido. O céus estava cinzento e nublado, e ele se sentia da mesma maneira.

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N.A. Está bom assim? Será que eu compensei a demora com esse capítulo gigantesco? Eu nunca fiz um capítulo desse tamanho, ainda estou assustada O.O Quero agradecer ao meu amigo Marcos Tardeli, que sugeriu a música Yellow-Coldplay e a Gê Malfoy, por ter me ajudado com a tradução.

Aos fãs de Snape (sei que não são pucos), saibam que eu gosto muito do personagem! Mas realidade sem homofobia não é realidade, e eu não consigo enxergar pessoas melhores para serem homofóbicas do que Snape e Lucius. E aquela coisa do Sirius achar que Snape estava dando em cima do Remus, acho que deu pra perceber que era paranóia dele mesmo, né?

Respostas por e-mail para: Mathew Potter Malfoy, Lumack, Ann-Christin Snape, LeNaHhH, Kirina Malfoy, July Slytherin, Deepysa, Millene Haeer, Srta. Jeh, Brunu, Eowin Symbelmine, Yellowred, gefraun, Tallentiertgould, DW03, Amanda Poirot, Mikage-sama, Lyta PDM, Cherryx, Rei Owan, Hanna Spotter, Luana, Hermione Seixas, Alice, o.O Fabi - chan O.o, Ana Paula, usagui no ashi, kitScott, »»Drika®««, Sy.P, Ferfa, Nina Black Lupin, Arwen Mione, Lady nina, Paula Lirio, Marck Evans, Dalijah Dymien, Nessa Reinehr, Paty Black, Yuki Jaganshi, má IEU, Mel Arwen, juh t., Maaya M., Marcos Tardeli, Mr.Marple, -Bem-Te-Vi-, Cami Rocha, Torfithiel, Dana Norram, Caliope Amphora, Clara dos Anjos, Mewis Slytherin, zu marshal, Bianca W·, Mari, kikaa, Ivinne, Thatah, Bruno Malfoy, Nikkih, Nath, Sofiah Black, Babi, Mione Lupin, AganishLottly, Marjarie, Debora Dumbledore, Cin.

E pra quem não deixou review: Anne (Humm Harry secando Draco, Draco secando Harry e ninguém se manifestava, né? Bom, bem, veja só no que deu quando Draco se manifestou rsrsrs XXD Minha culpa que vc esteja ficando obcecada por Coldplay, eu admito, minha culpa... Mas não me arrependo uhauhaua Você queria a opinião do Harry a respeito do capítulo passado, bem, eu fiz, espero que tenha gostado XD Eu acho que você adivinhou quem estava no quarto de Draco rsrs Bjokas!) Umi (vc está proibida de ler a fic? Por que? Oh, que triste! Espero que vc consiga continuar acompanhando! Obrigada pelos elogios, viu? E boa sorte!) Fernando Miai (oba! Que bom que gostou! Espero que continue gostando! Não teve Natalie nesse capítulo, mas vai ter no próximo ;p bjs!) Yumi-tcha (ahh brigada! Assim eu fico sem graça rsrsrs Bjos!) Lís (então, ficou criando expectativas com esse capítulo, heim? Realmente, parece que aconteceu alguma coisa rsrs espero que tenha gostado! Bjoo) bella-riddle (pois é, estamos quase acabado a fic! Só mais alguns capítulos! Oh, vc ficou acomapnhando a fic durante sua viagem então! Que bom! Vc imprimiu Green Eyes? O.o wow! Quantas folhas deu, só por curiosidade? rsrs E eu tenho um lugar reservado na sua biblioteca! Que legal! Beijos!) Dani (acredite, eu entendo seu desespero, mas não podia atualizar enquanto não tivesse esse capítulo pronto! Bem, espero que tenha valido a pena, pelo menos!) Marcia (céus! Convulsões! Calma, calma, sua dose de medicamento demorou pra sair do laboratório, mas já está prontinha! É só injetar direto na veia uhauhauhaua. Mas vá com calma, pq a dose está grande dessa vez ;p) Gasparzinho (eu sou muito conhecida entre meus leitores pelas torturas que faço com eles uhauhuahua! Não, falando sério agora, eu demorei sim, mas tive meus motivos! E olha só o tamanho desse capítulo O.O Acho que compensou, certo? Beijos!)

Quanto à próxima atualização, eu já aviso que não posso garantir para o próximo sábado. Já prometi um capítulo da minha outra fic e preciso dar prioridade a ele, portanto, não adianta vocês ficarem mandando reviews pedindo para que eu poste pedaços do capítulo, eu só vou postar quando o capítulo estiver pronto. Acho que já deu pra entender que eu não vou abandonar essa fic, certo? Eu sei que é crueldade com vocês fazê-los esperar, mas tentem entender o meu lado também! Esse pedido não é para todos, pois muitos de vocês já me deram mostras de sua compreensão e eu agradeço de coração!

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No próximo capítulo...

- Harry – Sirius chamou, fazendo com que Harry desviasse os olhos da televisão, então bateu em sua própria coxa, convidando-o. – Deite aqui.

Harry franziu a testa. Snuffles pensou que o convite era pra ele e aproximou-se abanando o rabo.

- Não, você não, Nuf – Sirius empurrou-o até que ele se sentasse. - Não precisam brigar por causa do meu colo, ok? Mas agora é a vez do Harry. Anda, Harry, você viu que tem fila, né? Aproveita!

Harry sorriu e deitou-se no sofá, apoiando a cabeça no colo do padrinho e fechando os olhos conforme este começou a deslizar os dedos por seus cabelos. Harry estendeu a mão para acariciar o pêlo de Snuffles, enquanto isso.

- Está melhor? – perguntou Sirius, algum tempo depois.

- Um-hum – Harry concordou, sinceramente.

- É, eu sabia. Sempre funciona comigo. Mas acho que Moony é melhor nisso do que eu...