Oi, oi Povo!
E chegamos ao fim de mais uma história, o coraçãozinho está apertado, mas não tem o que fazer. Foi muito gratificante adaptar essa história, me apaixonar cada vez mais pelos personagens e ficar irritada também em alguns momentos.

Gostaria de agradecer a todos que leram e comentaram, aos que favoritaram a fic e aos que apenas leram.
Um muito obrigada a todos.

Bjs, uma boa leitura e até a próxima!

Morgana Flamel


O fato de estar usando um vestido de tafetá cor de bronze, uma elegante criação parisiense recém lançada, não ajudava a duquesa de Avon a se sentir menos insegura. Também não adiantava saber que nunca estivera tão bonita, pois o frio no estômago só crescia à medida que se aproximavam de seu destino.

Só a mão do marido, envolvendo a sua, e o reconfortante peso do bebê em seus braços a impediam de não ceder ao medo e continuar sentada, com uma expressão de falsa serenidade, no banco de veludo da carruagem. Então, Hermione o encarou, pela primeira vez, embora soubesse que Snape não afastara os olhos dela desde o início da curta jornada entre as duas casas em Londres.

— Não sei se conseguirei ir até o fim, Severus! Sou tão covarde. Fugi e deixei que Harry o enfrentasse em meu lugar. Ele jamais compreenderá. Como poderia e por que o faria?

— Porque a ama, querida. Também porque a culpa não foi sua. Eu preferia que me tivesse deixado encontrá-lo antes e a sós.

— Para assumir toda a culpa? Afirmar que me seduziu quando foi exatamente o contrário? Meu pai não é tão tolo quanto você imagina e, acima de tudo, me conhece muito bem. Bastaria um único olhar para nós dois e ele saberia a verdade.

Ela sentiu o coração saltar em seu peito quando a carruagem parou. Apertando mais forte a mão do marido, viu Lupin abrir a porta, com um sorriso que irradiava felicidade. Lá dentro, Hermione sabia que o pai e o irmão a esperavam.

Ao primeiro olhar, ela viu que o pai não a aguardara no vestíbulo, vindo ao seu encontro e parando no topo da escada que descia até a rua. Sentiu o braço do marido rodear seu ombro e soube que, não importa qual fosse o resultado daquela visita, ele sempre continuaria a dar-lhe amor.

Finalmente, Hermione subiu os degraus a fim de apresentar Jas ao avô. Esperava que Snape estivesse certo sobre a impossibilidade de se resistir aos encantos de um neto.

— Hermione — disse o pai, com toda a formalidade, e a beijou no rosto. — Você está com uma aparência ótima.

— Papai... — Até ela mesma percebia que sua voz revelava medo e insegurança. — Este é seu neto, James.

O general olhou para a criança adormecida e envolta num xale bordado por um longo tempo.

— E muito parecido com o pai.

— Sem dúvida. — Ela estava ainda mais amedrontada após o comentário lacônico do pai. — E Severus o adora. Reluta em admitir, mas todos percebem que é um pai coruja.

— Afinal, era de se esperar pois James é seu herdeiro. Vamos entrar. Harry está ansioso por ver vocês dois. Tem algo para lhes mostrar.

Hermione voltou-se para o marido que já não sorria mais. Ambos haviam visto a expressão combativa do general Potter que não dissera mais nada. Ele simplesmente entrara em casa, passando por Lupin que continuava a sorrir, segurando a porta.

— Severus — murmurou ela, num fio de voz. — Não posso continuar.

— Harry está nos esperando e é por ele que continuaremos a nos comportar como se seu pai se sentisse alegre com a nossa visita. Vamos cumprimentar seu irmão e depois eu terei uma conversa particular com o general Potter.

— Por favor, Severus. Vamos embora.

— Francamente, Hermione! Você nunca foi covarde e não vai começar a ser agora. Mostre que é tão corajosa quanto seu irmão e vá ao encontro dele. Mas acho que deve me entregar o bebê antes...

Ela entregou-lhe o filho, tensa demais para pensar no motivo daquele pedido, e cruzou o vestíbulo, com o queixo erguido. Ouvindo os passos do marido bem às suas costas, entrou no quarto do irmão cuja porta estava sendo aberta pelo sorridente Lupin.

Harry a esperava, apoiado desajeitadamente sobre um par de muletas, mas não havia nada além de uma intensa alegria em seu sorriso.

— Ainda não estou muito acostumado a andar com estes trambolhos e, como não pretendo usá-los por muito tempo, olhem bem para não perder nada e lembrar depois!

Com o coração nas mãos, Hermione viu o irmão dar alguns passos, num equilíbrio bastante precário, em sua direção. Logo estava abraçando-o e, como ele não podia soltar as muletas, beijou-a repetidamente no rosto.

— O que está fazendo, Harry ? Vai se matar se continuar com essa loucura! Sabe que não pode...

— Tudo acabou, meu bem! Já não há mais nada em meu corpo! — Hermione recuou a cabeça a fim de encarar o irmão.

— Mas como é possível? Depois de todo esse tempo? Meu Deus! Como, Harry?

— Foi o médico de Snape.

— Mas ele não via possibilidade algum de remover o estilhaço. Não entendo.

— Não estou me referindo a Smethwyck e sim ao outro, o Dr. Augusto Pye. O cirurgião francês que Snape me enviou. Ele não lhe disse nada porque eu lhe pedi que mantivesse segredo, Mione. No caso de... Então, o médico veio para Londres e considerou a operação possível, com um certo perigo, mas a maioria das chances seria de sucesso. Diante dessa confiança profissional, papai e eu discutimos o assunto e achamos que valia a pena arriscar. E funcionou! — Vendo o rosto mortalmente pálido da irmã, Harry apressou-se em acalmá-la. — Juro que está tudo bem agora. Sinto-me vivo de novo, meu bem.

— É maravilhoso, Harry — murmurou ela, sorrindo. — Estou muito feliz por você. Se eu o soltar...

— Eu não cairei... se é o que está querendo me perguntar. Ainda não me movo com muito desembaraço, mas consigo me manter em pé por cerca de cinco minutos.

— Oh, Harry! — exclamou ela, já a alguns passos do irmão, que se soltara de seu apoio e permanecia em pé à sua frente, ainda que ligeiramente oscilante.

Só então a importância de toda a explicação de Harry foi compreendida por Hermione.

— Acho que já fez o bastante, filho — declarou o general, empurrando uma cadeira para junto do rapaz, que abaixou-se gradualmente até encontrar a segurança do assento.

Harry viu a irmã voltar-se para o marido. Percebendo que os joelhos dela ainda tremiam a julgar pelo movimento do vestido.

— Não posso acreditar que tenha enviado um cirurgião para nossa casa, a fim de cortar meu irmão mesmo sabendo... você sabia, Severus! Sabia! — Ela repetia veementemente a mesma afirmação. — Sabia o que podia acontecer! Como pôde? E sem me dizer nada?

— Hermione! — exclamou Harry, sem acreditar naquela reação da irmã diante do que ele considerava um milagre.

— Smethwyck enviou-me todas as informações sobre seu diagnóstico e exame de Harry. Eu as levei ao Dr. Augusto Pye... os desenhos, diagramas e infinitos detalhes técnicos que só os médicos entendem. O cirurgião descreveu-me qual seria o procedimento e acreditei nele. Disse-me também que o perigo seria o mesmo das operações feitas para remover os outros fragmentos da granada...

— Como ousou arriscar a vida de meu irmão, dessa forma? Como pôde?

— Você usou as palavras certas, minha querida esposa. Era a vida de seu irmão, portanto a decisão de arriscá-la ou não pertencia apenas a ele. Você não tinha o direito de resolver, concorda? Olhe para ele, Hermione! Não gostaria de vê-lo como estava antes!

— Por Deus! É claro que não gostaria. Você entende isso, Harry? Sempre desejei ardentemente que voltasse a andar, mas quando penso no perigo... — Ela voltou-se para o marido — não foi justo comigo, Severus.

— Mas foi a atitude mais certa. Se o resultado mostrou-se positivo, então justificam-se os métodos usados para alcançar esse objetivo... mesmo se ligeiramente desonestos. Sinta-se feliz por Harry. Pode vingar-se de mim, mais tarde.

O sorriso de Snape fez com que a jovem admitisse seu erro em comportar-se como uma donzela histérica.

— Sinto muito — disse ela, virando-se para o pai e para o irmão. — Foi uma reação ridícula de minha parte, eu admito! Mas fiquei tão apavorada e vocês me conhecem bem. Sabem que reajo a qualquer crise, real ou imaginária, com uma explosão temperamental. Nem chego a me dar conta dos absurdos que digo em momentos como esse! Perdoe-me, meu bem.

— Você não feriu meus sentimentos e eu vivi com o seu temperamento irracional por toda a minha vida — disse ele, rindo de sua avaliação exagerada sobre a personalidade da irmã. — Só acho que deve desculpas a Snape. Se ele ainda não havia visto esse tipo de reação sua, deve estar bastante assustado! Provavelmente, não sabe que é teimosa demais para admitir o medo e por isso... ataca!

— Não é bem assim — interferiu Snape, com toda a calma. — Já presenciei essa manobra antes. Quando Hermione pensou que eu tivesse me ferido no duelo com Weasley, foi até minha casa e disse uma série de absurdos que realmente não sentia. Não conseguia se calar, mesmo reconhecendo que estava errada, porque passara por um choque violento e quase morrera de medo. Acho que vocês nunca souberam desse episódio, pois ela não o mencionaria a ninguém, tal o seu arrependimentos após o fato consumado. Também não me lembrava disso... até vê-la agora, reagindo de forma idêntica.

O duque revelara a verdade, amenizada com a ternura de uma mentira e Hermione fitou o marido, com lágrimas deslizando pelo rosto pálido. Ele a absolvera de um pecado pelo qual julgara que teria de se penitenciar pelo resto da vida. Ao encontrar os olhos negros, revelando um amor infinito, soube que fora deliberada e finalmente liberada de sua culpa.

— Eu te amo, Severus — murmurou ela, esquecendo-se que haviam outras pessoas na sala.

— Eu também te amo. Você é...

— Eu sei. — Ela colocou os dedos sobre os lábios do marido para impedi-lo de continuar declarando seu amor diante de outros. — Agora, Jas e eu vamos ter uma conversa particular com meu pai. Iremos para a sala dele e você pode sentar-se e fazer companhia a Harry enquanto não terminamos de decidir alguns assuntos de extrema importância. Sinto comunicar-lhes que nenhum dos dois foi convidado!

Rindo, Snape dirigiu-se para a costumeira poltrona em frente à de Harry. Enquanto ele se acomodava, Hermione segurou o pai pelo braço.

— Gostaria que conversássemos a sós, papai. Tenho muito a lhe dizer e essa explicação já passou do tempo que deveria ser feita.

Após alguns segundos de hesitação, durante os quais examinou atentamente o rosto da filha, o general concordou e os dois saíram, da saleta.

Harry notou a preocupação do amigo e começou a falar, com o intuito de distrair-lhe a atenção do que estaria acontecendo na sala do outro lado do saguão.

— Não tive oportunidade de lhe agradecer, Severus. Não porque eu seja uma pessoa ingrata, como deve imaginar. Na verdade, não sei como exprimir a gratidão pelo amigo que me devolveu a vida. Você já o havia feito antes, ao me oferecer uma atividade realmente importante para que meus dias não fossem tão vazios e inúteis a ponto de me despertar a vontade de desistir de tudo. Mas a sua segunda dádiva...

— Por Deus, Harry! Eu lhe devo tanto que, certamente não pretendo ouvi-lo falar de gratidão.

— Você me deve muito? Não sei sobre o que está falando, Severus.

—Bem... que tal começarmos com um certo endereço na Itália?

— Francamente! Com as fontes de informação que você tem, acabaria descobrindo sem minha ajuda.

— Mas talvez não fosse em tempo. Não em tempo para que eu chegasse para presenciar o nascimento de meu filho.

— Um verdadeiro milagre, creio eu — disse o rapaz, esperando que o amigo começasse a elogiar as maravilhas da paternidade.

— Foi pavoroso! Agora sei o que você queria dizer quando mencionou a sensação de agonia ao presenciarmos o sofrimento de alguém a quem amamos muito. Nunca me senti tão indefeso e impotente.

— Imagino que a maioria dos maridos sente-se dessa forma. Entretanto, aposto que Mione considera Jas o mais importante de tudo e nem sequer pensa no sofrimento do parto.

Vendo que essa lembrança não se apagara ainda da mente de Snape, Harry mudou de assunto.

— Ainda não me disse nada sobre o que achou do sucesso de minha operação. Sei que ainda não parece ser muito grande, mas Smethwyck não tem a menor dúvida de que estarei andando em pouco tempo. Ele julga que recuperarei quase todos os movimentos nas pernas.

— Pois eu achei que você estava mancando... ligeiramente. Quando pretende tomar uma atitude a respeito de sua antiga...

— Assim que me parecer estar apenas mancando ligeiramente — interrompeu Harry, rindo.

— Eu lhe enviarei Albus. Ele é realmente entendido no assunto e chega a fazer milagres. Além disso, sei que ficará empolgado por ser encarregado de sua recuperação. Precisa de algo útil para ocupar o tempo.

— Duvido que Dumbledore deixe seu serviço.

— Tenho a impressão de que Albus está precisando de um novo desafio. Tornei-me civilizado e doméstico demais para o gosto dele. Embora me censurasse pelos riscos que eu corria, sente falta de aventuras em vielas escuras, atrás de misteriosos espiões.

— É difícil acreditar que você realmente abandonou esse tipo de vida. Tem certeza de que Albus será o único a sentir falta da excitação da espionagem?

— As vezes penso nas aventuras, com uma certa sensação de haver perdido algo importante. Então, reconheço que trata-se apenas de um hábito do qual é custoso se livrar. Descobri que a vida ao lado de Hermione pode me fornecer toda a aventura excitante e necessária para me ocupar satisfatoriamente. Você logo descobrirá como a convivência com a mulher amada pode lhe trazer uma felicidade jamais imaginada. Tomam-se as atitudes mais inesperadas apenas para ver um sorriso em seu rosto. — Snape calou-se, por um momento, comovido. — Não importa como nosso casamento começou ou quantos erros eu tenha cometido, pois alcançamos nosso objetivo. Passarei o resto de meus dias fazendo tudo para que ela continue tão feliz como agora.

— Eu nunca duvidei que você a amasse ou não teria lhe fornecido aquele endereço.

— Agora, só resta convencer seu pai.

— Mione é a única que pode fazer isso. Nosso pai a ama muito e sentiu-se profundamente magoado porque a filha não confiou nele. Foi um erro que eu também cometi, quando a ajudei sem lhe comunicar nada. Tentei explicar-lhe o estado de espírito de minha irmã, naquele momento difícil, mas é como falar com uma estátua. Seu rosto se torna impassível e sai da sala, sem me ouvir.

— Pensei que Jas faria o milagre, instantaneamente. Enganei-me e, se Hermione também não tiver sucesso...

Snape foi interrompido pelo som da porta se abrindo para a entrada da esposa e do pai.

— Severus...

Ele viu que ela chorara, mas não conseguia ler nada na expressão dela.

— Papai tem algo para lhe dizer.

— Será um enorme prazer ouvi-lo, general. Entretanto, tenho de lhe dizer algo antes que comece a falar.

— Severus! Você... — exclamou Hermione, desistindo de continuar ao ver a expressão do marido.

— Preciso falar com seu pai, querida. Entenda a minha posição, sim?

Voltando-se para o homem que permanecia ao lado da filha em uma postura quase marcial, Snape temeu não encontrar as palavras certas. Se é que existia uma maneira adequada para suavizar o efeito de suas ações sobre esse pai magoado.

— Sei que não sou o marido que escolheria para sua filha, sir James. Por muitos motivos que compreendo perfeitamente bem, pode crer. Também não houve nada de honroso na maneira como a tornei minha esposa. Depois de lhe revelar a minha verdade e ouvir tudo o que quer me dizer sobre minhas ações do passado, só me resta lhe fazer uma promessa. Sou o marido de Hermione, o pai de Jas, e passarei minha vida para dar felicidade aos dois.

— Chega, Severus — implorou a jovem, sabendo que seria em vão.

— Tenho sérias limitações para ser um bom pai, o meu foi o pior dos exemplos e minha deficiência física me impedirá de ensinar muitas atividades importante a Jas. Conto com a sua ajuda, e talvez mais tarde a de Harry, para tomarem meu lugar. Talvez eu não mereça esse auxílio, mas sentiria muito se negasse um avô ao meu filho. Não importa quais sejam seus sentimentos a meu respeito, peço-lhe que não rejeite seu neto.

Após alguns minutos de tensão geral, sir James encarou o genro.

— Eu não aprovo o modo que meu neto foi concebido e o disse, com todo o vigor à minha filha. Compreendo que Hermione tenha feito tudo para conquistá-lo, mas não entendo por que julga que eu o desaprovo. Sempre o considerei um homem excepcional, ainda que com um pouco de sangue azul demais para meu gosto.

O tom do general mudara e todos soltaram um suspiro de alívio.

— Perdi dois filhos na guerra. Estava a ponto de perder o terceiro quando você lhe devolveu a vida. Eu me sentirei feliz se, com o tempo, você se considerar um deles...

Apesar da merecida reputação de ser um homem frio, Snape abraçou o sogro com lágrimas nos olhos. Foi um abraço longo e sincero que, ao se encerrar, revelava as promessas feitas e não colocadas em palavras, mas evidentes para todos os ocupantes da pequena sala de Harry.

— Temos que celebrar — falou o general, com a voz rouca de emoção. — Tomaremos champanhe e depois irei ver meu neto, pois quero conhecer melhor o futuro duque de Avon. Não acha que soa bem, Hermione?

— Sem dúvida, mas espero que ele demore muito para assumir esse título.

— Então, ao que brindaremos? — perguntou Harry, aceitando a taça que a irmã lhe trouxera.

— Que tal à sua recuperação? — perguntou ela, com um sorriso de felicidade.

— E também à minha nova família? — sugeriu Snape, empolgado com o sucesso da reconciliação com o general.

— E o meu neto, o futuro duque de Avon. Desculpem a minha insistência — o general começou a rir — mas acho que esse título soa tão bem aos meus ouvidos!

Na verdade, nada soava tão bem quanto o riso que ecoava na saleta de Harry e se espalhava pelo resto da casa pela porta aberta, chegando até o vestíbulo. Era um som que Lupin não ouvia há muito tempo naquela casa.