Capítulo Vinte e cinco

Dias depois, uma carta chegou para Annie. Ela sorriu quando viu que era de Gale. Ela abriu e começou a ler.

"Queria mandar uma carta porque às vezes tenho vontade de escrever em vez de falar. E escrever ajuda...acho que agora você também sabe disso.

"Tenho muito orgulho de ter você como amiga. Sinto orgulho de você e do progresso que fez desde o dia que te conheci. Sei que ainda vai demorar um tempo, mas você está no caminho certo, e seu filho vai perceber isso no futuro.

"A outra razão porque quis escrever é porque falar parece não estar adiantando muito. Simplesmente dizer que me importo com você não é mais o suficiente. Preocupo com tudo o que você faz, Annie. Preocupo com a sua melhora, com o jeito que cuida dos outros e como é tratada.

"Sinceramente, Annie, não acho que você é uma pessoa legal comigo. Você permite que eu te beije, durma com você em meus braços, que eu fale tudo sobre mim, mas você não se abre pra mim. Quero te conhecer por inteiro, e sei que não consegue fazer isso agora, mas mesmo assim eu quero. É o que espero, é o que desejo.

"E se você está pensando que só quero você, está enganada, também quero ter o Finn por perto. Quero estar presente pra ele. Eu não quero tomar o lugar do Finnick. Falo sério quando digo isto, eu quero ser o pai que seu filho precisa. Dale é um bom homem, mas infelizmente ele não vai ficar por muito tempo, e o que vai acontecer com você? As pessoas fingem se importar. São boas apenas na aparência, mas eu estive aí e vi que sentem pena de você, Annie.

"Eu não sinto pena de você. Eu amo você. Pronto...falei. Te amo com tudo o que sou. Amo o jeito que ri, seu sorriso. Amo o jeito carinhoso que você olha pro Finn, mesmo quando ele apronta. Amo aquele olhar distante que você tem quando lembra do Finnick. Amo como o seu cabelo brilhava na água naquele dia quando a gente nadou no mar.

"Mas, acima de tudo, Annie...amo a sua decisão de seguir em frente, mesmo quando quis desistir. Você é forte. E sua força me dá força.

"Por favor liga pra mim quando ler isso, mesmo se estiver trabalhando. Preciso ouvir sua voz."

Annie teve que sentar. Limpou as lágrimas do rosto. Então, ela começou a pensar nas implicações da carta. Gale queria passar o resto da vida com ela e Finn. Ele estava disposto a aceita-la com toda a sua insegurança e instabilidade.

Mesmo assim ela ainda tentava resistir. Finnick ainda estava lá, presente em todos aspectos da sua vida. E ainda parecia errado dar seu coração pra Gale. Finnick ainda era o seu marido. Ela tinha esse compromisso com ele.

Annie ouviu a porta abrir e virou. Levantou, esperando que fosse ele, mas estava ouvindo coisas. A porta não abriu. Ninguém entrou. Ela estava sozinha. Finn foi passar a tarde na casa do seu amigo Eddie.

Ela voltou a sentar e soluçou. "Cadê você?"

Seu desespero logo se transformou em raiva. Ela amassou a carta e jogou. Não sendo o suficiente, ela pegou algo mais pesado, uma concha que Finn tinha achado na praia. Ela arremessou contra o vidro e riu ouvindo o barulho do vidro estilhaçar pela sala.

Ela pegou mais coisas e jogava pela sala. Janelas foram quebradas. Vasos. Estante de livros foram ao chão. Annie gritava sua raiva pra fora do corpo.

Dale segurou a mão dela antes que jogasse um porta-retrato. Ele a agarrou, segurando firme pelos braços. "Calma, Annie. Shhh, acalme-se garota. Está tudo bem. Tudo está bem."

"Não, não tem nada bem, Dale. Ele se foi."

"Ele se foi..."

"Mas ele vai voltar."

"Não, ele não vai."

"Eu o sinto. Sinto ele em todo lugar."

"Também sinto Mags em todos os lugares, mas eles não estão mais aqui."

Ela baixou os braços. "Por favor me solta, Dale."

"Não vai mais quebrar nada, vai?"

"Não."

Ele a soltou mas não a deixou ir. "O que aconteceu?"

Annie olhou tudo ao redor por alguns segundos antes de responder. "Recebi uma carta do Gale."

"Uma carta do Gale? Ele disse que não queria mais falar com você?"

Ela balançou a cabeça. "Ele disse que me ama."

"Então por quê está tão chateada? Essa é uma ótima notícia."

Ela balançou a cabeça novamente. "Finnick." Ela falou.

"Conheci Finnick pela a vida toda, Annie. Conheço você também, e sei melhor do que ninguém como é perder uma esposa. Então eu sei que Finnick ia querer te ver feliz de novo."

"Sem ele não sou feliz." Ela estava chorando de novo. "Nunca fui."

Ele limpou as lágrimas do rosto dela. "Agora me escute, garota. Você é melhor do que isso. Eu vi como você fica quando Gale está por perto. É o melhor de você que não vejo há muito tempo."

Ela afastou um pouco. "Ficar perto dele faz as coisas ficarem melhores."

"Então porque acabar com a casa quando o homem que você admite te fazer melhor acaba de dizer que te ama?"

Ela falou com um olhar perdido. "Preciso do Finnick. Quero estar onde ele está."

Dale colocou as mãos no rosto dela, "Não. Não fale assim."

"Finn já está crescido, não vai ser um fardo pra ninguém. Gale pode tomar conta dele. Ele disse que faria."

"Não consigo ouvir você falar desse jeito. Prometa que não vai tomar nenhuma decisão drástica."

"Não vou. Prometo."

Ele respirou aliviado. "Eu te ajudo a limpar essa bagunça, Annie." Dale a soltou e começou a ajudar com a limpeza.

"Deixa que eu faço isso, Dale. Você pode ir pra casa."

"Você vai estar aqui mais tarde?"

"Não tenho outro lugar pra ir."

"Eu venho aqui mais tarde pra ver como está." Ele olhou em volta. "E vou chamar alguém pra trocar o vidro das janelas."

"Não precisa fazer isso."

"Mas eu vou." Ele beijou a testa dela. "Talvez ajude se você ligar pro rapaz." Ele sorriu e foi embora.

Ela não sabia por onde começar. Ela viu a carta no meio da bagunça. Abriu o papel e olhou pra ela. Dobrou novamente, guardou no bolso e começou a limpar.

Gale ficou preocupado quando não recebeu nenhuma ligação de Annie o dia todo. Será que ela recebeu a carta? Será que ela não queria mais falar com ele? Será que ele não devia ter dito todas aquelas coisas?

Ele pegou o telefone várias vezes no dia, mas sempre colocava de volta. Ele não queria forçar a barra. Não podia.

Dias passaram e nada. Toda noite ele ligava, mas ninguém atendia. Gale estava começando a ficar ainda mais preocupado. Ele rastreou o telefone de Dale e ligou pra ele numa manhã quando estava no trabalho. No quarto toque, Dale atendeu.

"Alô, Dale. Aqui é Gale Hawthorne. Lembra de mim?"

"Sim, eu lembro."

"Tá tudo bem com a Annie? Ela não ligou mais e faz alguns dias que não atende às minhas ligações."

"Tomei café da manhã com ela e Finn há uma hora, ela estava bem."

"Ela disse alguma coisa sobre não atender o telefone?"

"Ela mencionou que não quer falar com ninguém por enquanto. Ainda está dando um tempo pra pensar em algumas coisas. Ela contou sobre a carta."

"Então não foi fácil pra ela ler o que escrevi?"

"Não, não foi. Ela reagiu mal, quebrou algumas janelas."

"Oh, meu Deus." Gale suspirou levando a mão no rosto. "Mas ela está bem? Bem de verdade?"

"Ela está bem, mas cuido dela quando tem suas crises. É difícil quando ela não está bem. Fica falando que quer ir pra onde Finnick está."

"Fala pra ela ligar pra mim, por favor?"

"Vou falar. Não sei se ela vai ouvir."

"Obrigado."

Gale passou o resto do dia tenso. Checava com Cole entre as reuniões se tinha recebido algum recado de Annie. Não tinha nada.

"Posso fazer alguma coisa pra ajudar, Senhor?"

Ele balançou a cabeça. "Só fique ligado no telefone, e me procure se Annie ligar."

Ela não ligou naquele dia.

Ele foi pra casa assim que pode, praticamente correndo pro seu apartamento. Pegou o telefone e discou o número dela. Alguém atendeu a ligação.

Era Finn. A voz dele estava tremida quando respondeu, "Alô?"

"Finn, aconteceu alguma coisa?"

"Acabei de voltar da pescaria e achei um bilhete muito estranho da minha mãe."

"O que diz nele?"

"Diz, 'O mar parece convidativo. As ondas batem na areia e voltam. Se eu for até as ondas será que flutuarei lá pra sempre? Me ajuda, Gale. Eu só quero que a dor vá embora.'"

"Onde ela está?"

"Eu não sei. Ela não estava na praia. Eu procurei, chamei o nome dela várias vezes. Ela não respondeu." O menino estava histérico.

"Finn me escuta, vou pra aí agora. Vá até a casa do Dale. Ligue pros pacificadores e diga a eles o que disse a mim. Vou chegar aí o mais rápido possível."

"Okay."

"Vai ficar tudo bem."

"E se ela estiver morta, Gale?"

"Ela não está. Vá até a casa do Dale e chame os pacificadores. Vou chegar aí em algumas horas."