Capítulo 25 – Potter x Evans (Round 2)
James poderia ter escolhido qualquer lugar para manter uma discussão. Não a biblioteca.
Lugar fechado. Proibido de fazer qualquer escândalo.
Uma emboscada aparentemente perfeita.
O percurso até ali fora feito em silêncio. James tomou a frente, com as mãos fechadas em punhos e passos decididos. Não olhara nenhum segundo para Lily que o acompanhara no ritmo que achara conveniente, decidida em não dar a mínima, especialmente sobre o que poderia acontecer.
Enquanto James parecia muito tranquilo com toda a situação, Lily estava se odiando. Detestava ser levada pelos seus impulsivos. Amargamente, reconheceu que o garoto à sua frente tinha um poder certeiro de pressionar todos os seus botões. De todas as pessoas que batera pelos corredores de Hogwarts, ele era o único que a fazia perder a cabeça com facilidade.
Tivera a chance de desviar o caminho, o que seria maravilhoso, já que a expressão dele seria impagável ao notar que fora deixado no vácuo. Mas o acompanhou, a sensação de que era uma burrada a atormentando. Uma sensação que a pegou de jeito assim que se viu diante das portas de um dos seus lugares preferidos de Hogwarts. Sentiu o coração apertar. A respiração falhar e se perder em meio a uma hesitação que desvanecera assim que James se entremeou entre as mesas.
A disponibilidade de mesas na biblioteca em época de férias era a coisa mais linda de se ver. Aquele lugar sempre vivia apinhado de alunos, especialmente nos meses de exames. Só na época de festividades que era possível escolher as melhores mesas, no caso, a dos fundos.
Dalí era possível ter uma visão expandida de todo ambiente. No caso de James, sentar nos fundos lhe dava uma visão ampla para espionar Lily que sempre se sentava colada ao balcão da Madame Pince. No caso de Lily, sentar nos fundos era uma opção quando estudava sozinha.
Como de costume, Lily quis arrancar o sorrisinho insolente dos lábios dele. Retribuiu o gesto, com claro azedume. Era óbvio que aquela conversinha esclarecedora garantiria um conflito digno do Clube de Duelos. Era inevitável a vontade de até mesmo arrancar os olhos dele.
Por outro lado, James foi gentil em puxar uma das cadeiras para que ela sentasse. Gentileza automaticamente recusada. Não deveria se espantar, mas ficou um pouco desconcertado. Rapidamente, fez uma nota mental de que teria que aguentar o forte desprezo unilateral que existia entre eles se quisesse ser ouvido.
Frente a frente, aquele pequeno espaçamento da mesa era um avanço imenso. Era o mais perto que ficaram no decorrer de quase 7 anos. Os dois se olharam, cheios de expectativa. Nenhum dos dois sabia como começar uma conversa, já que passaram a vida em Hogwarts trocando palavras ariscas. Afinal, nunca se sentaram como dois adolescentes maduros para vomitarem o que sentiam um pelo outro.
James tinha o maior crédito, pois sempre tentara falar com ela. Lily era quem estava com uma tremenda dificuldade em até mesmo pronunciar o efetivo Potter.
Tudo porque Sirius simplesmente cortou seus pensamentos. Teve até a sensação de que ele estaria entre as prateleiras, espiando-os, o que a fez esticar o pescoço e olhar para os lados, meio alarmada. Mesmo que sua mente dissesse que não havia ninguém ali, imaginar seu ex-companheiro de férias fez seus músculos se contraírem de tensão.
- E então? - disse Lily impulsionada pelo seu súbito terror. Sua voz soou impaciente. - Como quer reiniciar isso, que nem posso chamar deisso, da melhor maneira possível?
James soltou um risinho modesto. Resolveu ganhar um pouco de tempo limpando os óculos e alisando os cabelos sempre bagunçados. Riu fracamente ao ver Lily revirar os olhos.
- Qual é seu problema? - perguntou James se inclinando um pouco. - Não gosta de garotos que usam óculos? Ou meu cabelo é tão maravilhoso que você morre de inveja?
- Potter, - Lily cruzou os braços sobre a mesa. - não tenho tempo para você. Então, fale logo o que tem a me dizer. Pode ser férias, mas meu tempo ainda é limitado. Especialmente para brincar de boa vizinhança com um insuportavelzinho como você.
- Por que tão azeda, Evans? - James meneou a cabeça negativamente, ainda com o largo sorriso nos lábios. - Não consigo engolir que essa birra toda seja por causa da cueca encardida do Ra...
O olhar de censura dela o fez parar a sentença no meio. Engoliu em seco, percebendo que quase concluíra uma idiotice que faria Lily marchar rumo à saída.
- Tão maduro! - debochou Lily.
James coçou abaixo do queixo, como se algo o incomodasse na garganta.
- Evans, estou ciente de que fui um tremendo babaca. Que a julguei sendo que não tinha direito algum de fazer isso. Sei que a magoei, mesmo você não querendo admitir que foi magoada pelo Potter.
James se interrompeu para organizar os pensamentos e para mergulhar de novo na problemática que criou aquela oportunidade de deixar tudo às claras com Lily. Todos os sentimentos que o engoliram quando soubera o que tinha acontecido entre Sirius e ela retornaram com força total. Sentiu a comichão típica, uma irritação na pele que o obrigou a coçar os braços.
- Não deveria ter dito aquelas coisas, eu sei - continuou, as mãos nervosas deslizando pelos braços. - Evans, preciso me redimir de alguma forma. Tenho um sério problema em lidar com coisas má resolvidas, tais como pessoas que gosto muito com raiva de mim. Meu novo ano não pode começar desse jeito, me recuso.
Ele disse tudo aquilo sem a típica entonação de brincadeira na voz. Algo que surtiu efeito por ter fisgado a atenção de Lily. Ela continuava na defensiva, os braços cruzados na mesa, os olhos fixos na pulseira escondida na manga do suéter vermelho com uma rena enorme estampada. Não precisava de contato visual para confirmar que ela o ouvia.
A postura ereta de Lily sempre lhe dissera muito e, naquele instante, era um sinal de que poderia continuar a dizer o que tivesse que dizer que seria ouvido. Não podia perder aquilo.
- Ok que não temos uma relação nem de amizade, mas, se estou aqui, insistindo, é porque gosto de você.
Lily se mexeu, desconfortável. A voz de James rebatia em seus tímpanos, insistente, como uma abelha que não sossegaria até picá-la.
Respirando fundo, forçou-se a dizer:
- Você parece um disco furado, Potter. Sei que você quer remediar uma situação que você mesmo criou, mas até agora não escutei um plano.
- Evans, pelo amor que você tem aos hipogrifos, pare de ser azeda por alguns minutos, sim? - pediu James, muito sério. - Agindo assim, de um jeito insuportável, só me faz querer revidar que nem um babaca. Não é o maduro Potter que você quer? Então, seja gentil.
Não havia sarcasmo no tom de voz dele. Era mágoa e Lily não queria reconhecer isso. James Potter era arrogante demais para estar magoado, pensou, poupando um riso.
Ao erguer a cabeça, seu estômago se contraiu como se tivesse acabado de levar um soco.
James a encarava, suplicante.
- Não há nada que você possa fazer. Sou radical. - Lily pronunciou com certa dificuldade. Encará-lo estava empacando sua respiração.
- Preciso saber se posso investir na minha redenção, sem correr risco de ser enxotado o tempo todo - alegou James, raspando a unha do dedo indicador contra a madeira da mesa. - E sem essas frescuras de Potter que me deixam de cabelos brancos. Não estou implorando para sermos amigos, até porque há muito a ser superado. Só quero que tenhamos uma boa convivência. Já passou da hora.
Aquela proposta seria tentadora para qualquer pessoa. Menos para Lily. Foi impossível para ela evitar pensamentos perversos que a fizeram perguntar:
- Isso quer dizer que Sirius e você estão de bem, certo? - a mão de Lily empurrou uma mecha vermelha para fora dos ombros. - Uma pergunta pertinente já que você deixou claro que pouco liga se eu dormi com seu melhor amigo. Em tese, seu problema é só comigo. Como se eu tivesse seduzido Sirius Black.
Ela o encarava, buscando sinais de hesitação. James estava impassível, mas segurando algo dentro dele que fazia seu peito estufar aos poucos.
- Como se eu sempre quisesse Sirius na minha cama - emendou Lily, frisando cada palavra com muito gosto. - Como se ele também tivesse planejado tirar minha roupa e tudo mais...
- Ok, Evans, já entendi - cortou James, colocando a mão no centro da testa, impaciente. Aquelas palavras o fez criar cenas entre Sirius e ela nem um pouco bacanas.
- Seja verdadeiro sobre isso e poderemos negociar essa pausa de frescuras - concluiu Lily, os olhos brilhando de vitória por tê-lo tirado do eixo.
James esfregou a testa nervosamente. Arrumou a postura, meio agitado. Sabia como se sentia, mas não sabia o quanto poderia compartilhar sem deixá-la maluca.
- Sirius e eu temos nosso jeito de lidar com certas coisas. Especialmente mulheres. Antes que pergunte, não há uma regra. Ou uma lista maligna de 10 garotas que eu posso ficar e ele não. Se fosse assim, ainda mais considerando que é do Sirius Black que estamos falando, teria que colocar metade de Hogwarts sob meus cuidados. E claro que isso a incluiria.
Os olhos de Lily se contraíram. Não quis dizer nada. Daria tempo para ele desabafar o que fosse.
- E mesmo que você estivesse na lista de garotas que Sirius não poderia ficar, assinado James Potter, quem garantiria que uma coisa dessas não poderia acontecer?
Lily entendeu onde James queria chegar. O inevitável. Ficar com Sirius foi algo inevitável. Por mais que tivesse uma grande dose de álcool envolvida.
- Nunca disse ao Sirius que ele jamais poderia ficar com você. Ele também nunca me disse que Marlene era um tabu. Somos melhores amigos, confiamos um no outro... Acima de tudo, somos leais. Não temos essas frescuras das garotas que ficam fora de si só porque uma ficou com o cara X que amiga Y gostava.
A explicação de James envolvia Lily ainda mais. Só porque nunca o vira falar daquele jeito... Tão sério e sensato.
- Há uma linha tênue entre o inevitável e a mancada. Sirius e você representam o inevitável, só que tentei me convencer de que tinha sido mancada. Afinal, ele sempre soube dos meus sentimentos por você. Senti-me traído, não sou de ferro, e ser apunhalado pelas costas não me faz a mais simpática das pessoas.
- Quem o escuta, até parece que você foi muito magoado nesta vida.
As feições de James expressaram seu desentendimento sobre a afirmação de Lily. Preferiu não ir por aquele caminho. Seria briga na certa.
- Por conhecê-lo tão bem, - James retomou o fio da meada. - algo dentro de mim mostrou que ele jamais ficaria com você por mancada. Para tentar me irritar.
- Como você tem tanta certeza disso? - indagou Lily, com a testa enrugada.
- Ele cuidou de você durante e depois da treta. Não diria que foi por mim, mas é coisa que Sirius faz. Ele protege - respondeu James com firmeza. - Ele a protegeu. Nesse meio tempo em que fiquei emburrado, muitas coisas aconteceram. O inevitável entre vocês poderia se tornar algo maior e entrei numa fase de aceitação.
- Assim tão fácil?
- Todo mundo tem o coração partido drasticamente uma vez na vida, então, imaginei que seria minha vez.
Lily observou as mãos dele se abrirem sobre a mesa. Um sinal singelo que confirmou a suposta desistência dele. A desistência de brigar contra um furacão. Viu alguns machucados nas palmas, possivelmente dos treinos de Quadribol. Aquela breve pausa a ajudou a digerir o falatório que começou a bombear seu sangue muito rápido, ao ponto de fazê-la sentir um súbito calor.
- Não negarei, Sirius me magoou. Senti mesmo que nossa amizade tinha acabado.
- E o que o fez pensar que não tinha acabado?
- Como disse, somos leais um ao outro. Acertaremos essa treta com o passar do tempo. Pode soar meio sacana para você, mas Marlene não tem tanto peso nisso - explicou James, ainda no mesmo tom de voz. - Sei que Sirius reconhece o que aconteceu, ele me pediu desculpas e me deu força de estar aqui neste presente momento. Em que mundo algumas pessoas fazem isso, hein?
- Dizer isso sobre a Lene é cruel - repreendeu Lily, seriamente.
- É a verdade - insistiu James. - Sirius saberá o que quer com ela agora que tem uma chance. Ele é muito disso... Só sabe o que quer quando resolve mergulhar de cabeça. Enquanto isso não acontece, ele fica nas beiradas, sondando. Sirius nunca confirma nada até ter certeza.
O ar parecia rarefeito conforme desabafava para Lily.
- Enfim, sempre soube o que sinto por você. Sirius, Remus, Peter, a escola inteira, inclusive seu amigo Snape. Foi difícil ver que meus sentimentos não foram respeitados pelo meu melhor amigo, o cara que conto tudo e que passa as férias na minha casa.
James a fitou. Viu-se mergulhado em olhos verdes vívidos e intensos, meio escurecidos denunciando a mágoa que Lily tentava inutilmente esconder. De alguma forma, suas palavras estavam mexendo com ela. Só não sabia se isso era bom ou ruim.
- Duramente, tive que pensar que jamais a tive. Nunca tivemos nada. Nunca disse ao Sirius, nem a ninguém, que você era - os dedos dele desenharam aspas no ar - "minha". Ou que ninguém poderia investir. Remus e você possuem uma boa relação. Poderia ter sido ele, veja bem. Por agora, só quero que a gente se revolva de uma vez, Evans. De verdade! Cansei dessa batalha. Está ridículo!
Lily ponderou o que ele acabara de dizer e juntou ainda mais os braços contra o corpo, na defensiva. Como se pudesse criar uma redoma de gelo em que James Potter jamais penetraria.
O problema é que ele conseguira trincar algumas partes só com aquele discurso. Isso a deixou preocupada por não saber como revidar.
Pela primeira vez.
- Por que deveria confiar em você? - indagou ela com uma sobrancelha alteada. - Você é a pessoa mais bipolar que conheço. Nem minha irmã é besta desse jeito.
James não sabia se podia rir. Não o fez. Parou, pensativo, escolhendo novas palavras certas para convencê-la de que suas intenções eram realmente verdadeiras. Ele estava disposto a acabar com aquela treta infernal. Tão disposto que não hesitaria em mostrar a própria cueca para Hogwarts inteira.
- Não estou pedindo sua mão em casamento - respondeu James com simplicidade. - Sirius e eu somos um caso resolvido. Assim como Marlene e eu. Falta nós dois.
- E se eu disser que não quero nunca mais ouvir a sua voz?
- Será a coisa mais infantil vinda de uma garota que sempre mostrou mais sangue frio para lidar com as coisas ao invés de optar por desculpinhas esdrúxulas.
Lily foi desarmada de vez com a afirmação dele. Não soube o que responder para vencer aquele argumento – que achou totalmente sem fundamento. Ficou constrangida. Suas bochechas quentes denunciaram isso.
- Evans, temos um problema muito sério aqui. - James alisou a testa e a fitou. - Acho que somos grandinhos para nos tratarmos pelo primeiro nome. Seria um bom começo.
- Prefiro chamá-lo de Potter até que você me dê um bom motivo para chamá-lo pelo nome de nascimento.
- Então admita que a magoei. - James empurrou os óculos de volta no rosto. - Podemos começar daí.
As costas de Lily se escoraram com certa violência na cadeira. Olhou-o, indignada, balançando a cabeça negativamente. Riu, para si mesma, não acreditando que tinha caído na armadilha daquela conversa.
- Você me disse coisas das quais não esperava.
- Desculpe se a primeira coisa que corroeu minha nobre pessoa foi um pequeno grande complexo sobre a sua ficada com Sirius.
Um brilho malicioso nos olhos de Lily o deixou inseguro.
- É bizarro como aprendi a respeitar mais o Sirius. Isso em poucos dias - afirmou Lily, tão devagar, intencionada a fazer James não perder uma só palavra. - Mesmo ao seu redor, ele nunca me julgou. Mesmo depois de tudo isso, o mínimo que ele fez foi tentar me animar. Enquanto você pensava besteiras, apenas nos tornamos amigos. Posso não conhecê-lo como você o conhece, mas sei quem Sirius Black é. Ao menos, algumas camadas. E eu gostei dessas camadas.
James não queria que aquela afirmação doesse, mas doeu.
- Você me julgou de uma maneira nojenta. Diante das minhas amigas. Você apenas confirmou que é imaturo demais para entender certas coisas. Algo que reforçou com sua própria afirmação de que é mimado e que não aceita negativas. Sim, acredito que tenha ficado magoado por causa do Sirius, mas isso não lhe dava o direito de pisar em mim. Até porque nunca tivemos nada, certo?
Aquilo doeu de novo em James. Ao ponto dele tirar os óculos e esfregar os olhos com força.
- Eu não queria ter sido estúpido, idiota e imaturo. Não queria detoná-la na frente da Emmeline e da Lene. Eu só estava morto de ciúme - o tom de voz de James aumentou o suficiente para atrair Madame Pince que começou a sondá-los. - Fui totalmente influenciado por sei lá qual sentimento que carrego por você. Ainda estou bravo. Chateado. Frustrado porque Sirius passou mais tempo com você do que eu, a pessoa que sempre insistiu para que isso acontecesse.
- De um jeito mais estúpido e imaturo.
- Eu sei! - ele exclamou com energia. - E terei que superar a ideia de que Sirius e você ficaram. Fiquei possesso da vida, mas agora estou aceitando mais. Até porque fiquei com a Marlene e não dá para sair jugalndo todo mundo sendo que também fiz coisa errada.
A voz de James mostrava o quanto ele já estava sobressaltado com a pressão daquela conversa. Sem esforço algum, Lily o fazia falar, o que achou bom. Para ele, estava sendo péssimo. Odiava insegurança. De todas as maneiras.
- Uau! Um momento de honestidade com James Potter. - Lily riu desdenhosa.
- Considerarei isso como um elogio.
Lily suspirou, cansada. Inclinou a cabeça para o lado, tentando chamar a atenção dele. Os olhares se encontraram e perduraram firmes, estudando um ao outro.
Ela nunca o comtemplara daquela maneira, sem sentir o típico asco que a fazia vê-lo como um trasgo. Ele sempre a contemplara, mas não daquela curta distância que dava até para contar as poucas sardas nas bochechas dela.
- Potter, eu realmente não consigo te entender. Uma hora você aparece cheio das desculpas e depois me taca pedras. Qual é a sua?
- Evans, eu sou cabeça-dura. Qual parte disso você não percebeu ainda?
- Não consigo engolir a do ciúme - corrigiu ela, depressa. - Não seria inveja?
- Não sou invejoso. - rebateu James com azedume. - Isso me ofendeu. Por favor, se retrate.
- Só trabalho com verdades.
Eles ficaram em silêncio.
- Evans, - chamou James, atraindo-a. - me perdoe!
- Isso requer um tempo imenso.
- Eu sei - ele sussurrou. -, mas posso provar que estou engajado nesse perdão, não posso?
Ao passar muito tempo na companhia de Sirius, Lily ficou por dentro de algumas qualidades e defeitos de James. Não conseguira digerir boa parte das revelações por serem surreais demais. James era arrogante, sua mente voltou a frisar, não era bom, nem nada. Porém, se quisesse reconciliar a paz, especialmente interior, teria que levar cada item revelado em conta.
- Você tem ajudado Sirius... - ela falou, do nada.
- A mãe dele o enxotou de casa. Ele tem se abrigado no meu quarto desde então.
- Achei que vivia em uma mansão.
- Por Merlin, Evans! - James riu, desacreditado com aquela afirmação. - Potter não significa Black. Sou sangue-puro, mas isso não me faz o filho único cheio de galeões. Tenho uma vida humilde.
Lily não conseguiu conter um sorriso que se apressou a esconder ao pressionar os lábios com força.
- Seguinte: - os dedos dela tamborilaram na mesa. - não quero mais falar sobre isso. Já pedi e reforçarei. Ignore tudo o que aconteceu da mesma maneira que faço. Não dá para voltar atrás. Aconteceu! Quanto mais reprimirmos os nossos sentimentos e dispersá-los de maneira raivosa, mais continuaremos a nos alfinetar.
James voltou a se inclinar sobre a mesa, olhando-a interessadíssimo.
- Cansei de ficar na sua mira esperando o seu tiro.
- Tiro?
Lily sempre se esquecia do fator "trouxa" quando usava menções do seu universo.
- Enfim, - ela não se preocupou em explicar - sei que de alguma maneira o magoei, não sei em que intensidade, mas sei que você me odiou... Ou odeia.
James riu fracamente.
- Eu me declaro todos os dias e você ainda acha que eu a odeio - ele a olhou ligeiramente ofendido. - Eu não a odeio, Lily Evans. Admito: bem que tentei. Foi fácil pensar no quanto você era repugnante por ter tido um casinho com Sirius, mas fiquei imaginando que você deveria pensar da mesma forma com relação ao que aconteceu entre Lene e eu. Com a ajuda da sua amiga, comecei a amenizar o que sentia. O problema era quando nos víamos. A ira voltava, em níveis fortes, e só tinha vontade de te machucar.
- Você foi bem-sucedido - afirmou Lily contraindo os ombros. - Você conseguiu me magoar.
James ficou quieto, assimilando a afirmação de Lily. Ela confirmar com tanta convicção de que ele a havia magoado bateu forte. Sentiu-se ainda mais culpado. Por tudo. Achou até que sufocaria.
- Sinto muito! - exclamou James, arrependido. - De verdade, eu não queria magoá-la.
- Estamos quites, Potter! - Lily sorriu de canto. - Conseguimos nos magoar sem nem ao menos precisar de convívio diário. Bizarro, eu sei...
Uma nova chance surgiu para que James dissesse o que Lily não estava pronta para ouvir.
- Isso quer dizer uma coisa, Evans: nós nos importamos um com o outro. - James a observou atentamente. - Você pode não me adorar, mas ficou preocupada com meu comportamento.
Não houve constrangimento da parte de Lily. Mas isso não queria dizer que não tivesse ficado atordoada com o fato de se importar com o que James achava dela. Uma coisa era pensar sobre isso. Outra era ter a ideia falada justamente por quem não era tão fã.
- Não sei como isso pode ser considerado uma ideia positiva, Potter. Podemos apenas nos importar com o que o outro pensa. No sentido de caráter.
- Não invente desculpas, Evans, não agora. - James pediu, impaciente. - Alguma coisa dentro de você deve ter mudado com relação a mim ou jamais você aceitaria estar aqui. Isso é praticamente um sim a todas as minhas tentativas de sair com você.
Lily sentiu o coração bater um pouco mais forte. Realmente, não sabia as razões de estar ali, de ter aceitado a provocação dele, sendo que teve chance de sair pela tangente. Tinha jurado odiá-lo pelo resto da sua vida. E estava ali, diante dele, sentindo muitas coisas ao mesmo tempo.
A Lily Evans que repugnava James, a sua parte racional, jamais a teria levado ali.
- É, eu sei - confirmou Lily com um aceno de cabeça. - Você venceu.
- Venci? - perguntou ele apontando para si mesmo.
- Estamos em um encontro. Estranho, mas acho que é um encontro.
Ele sorriu de canto de maneira que seus olhos brilharam.
- Ótimo! - exclamou James deixando a tristeza se desvanecer de sua mente. - Sobre o fato de nos tratarmos como gente grande, o que acha?
- Você realmente vai insistir nisso, certo? - perguntou Lily, rindo.
- Não desistirei!
James parou de sorrir, de repente. A mudança súbita fez Lily se sentir ameaçada.
- Talvez, só desista da parte que gosta de você, pois acredito que seu coração seja do Sirius.
De onde tinha vindo aquela afirmação?, pensou Lily, prendendo a respiração. Foi tão incômoda! Suas bochechas ruborizaram, fortemente, o que a fez apoiar os cotovelos na mesa, de maneira que pudesse cobri-las com as mãos. Não era o sinal que queria dar ao detestado Potter, já que não sabia como se sentia desde que saíra da cama.
- Meu coração não é de ninguém - avisou Lily, tentando ser veemente. - Aprendi muito sobre homens em curto espaço de tempo.
- Ouvi dizer que você e Amos podem voltar a ficar juntos.
- Amos é meu amigo, nada mais.
- Vocês namoraram? - perguntou James, impassível.
- Alguns meses! - confirmou Lily, pensativa. - Somos melhor como amigos que como um casal.
Lily observou James balançar a cabeça e bagunçar os cabelos negros. Sorriu ao ver que o gesto, pela primeira vez, não foi com um Q de exibicionismo.
- O que foi? - perguntou ele, desentendido.
- Preciso te perguntar uma coisa.
- O quê?
- Você realmente gosta de mim?
James congelou. Sentiu seus músculos enrijecerem. Lily era realmente uma caixa de surpresas. E não tinha um pingo de vergonha na cara. Perguntou-se o motivo do espanto, pois sabia que a ruiva sempre foi direta com suas dúvidas e opiniões.
- Eu sempre gostei de você. - James pronunciou cada palavra pausadamente. - E ainda gosto, mas respeitaria qualquer decisão sua. Está na hora, né?
Ela soltou um riso abafado.
- Não estou brincando - emendou ele, entrando em desespero pela atitude dela.
- E o que foi seu namorico com a Lene? Uma tentativa de tentar provocar ciúmes em mim?
- Não seja presunçosa! - retrucou James, chocado. - Gosto da Lene e o que tivemos foi muito especial.
- Gosta dela da mesma forma que eu? Ou gosta dela assim como gosta de mim? - pressionou Lily, convicta.
- Evans, onde você quer chegar? - perguntou James, abobalhado.
- Quero saber até que ponto você é sincero, Potter. Até então, a única pessoa que saiu namorando pelos cantos de Hogwarts com a minha melhor amiga foi você. E, o mais engraçado, é que você ainda tem a cara de pau de dizer que ainda gosta de mim.
- E você queria que eu disesse o quê? Que gostava e não te quero mais? Te deixar de bandeja para o Sirius?
Lily piscou várias vezes para ter certeza sobre o que ouvira.
- Agora sim essa conversa está mais do que esclarecida.
Ela se levantou abruptamente. James fez o mesmo, perseguindo-a, empacando a saída dela da biblioteca com o braço esticado na porta.
- Eu não tenho medo do Sirius e, acredite, ele não gosta de você tanto quanto eu - se defendeu James, começando a ficar irritado.
- E de onde veio toda essa certeza, hum? Sirius é uma boa pessoa e daria um ótimo namorado.
Lá estavam eles, prestes a discutirem pela milésima vez.
- Evans, eu não quero brigar. Só quero que você entenda meu ponto de vista.
- E que ponto de vista é esse? - indagou ela com brutalidade.
- Eu gosto de você. Desde sempre. Isso não tem nada a ver com Sirius. É sobre o que eu sinto por você. - James pegou uma mão dela e a segurou com força. - Você surta do nada, com toda essa insegurança idiota, sendo que já me tem. O que mais você quer?
Lily tentou puxar sua mão de volta, mas ele era forte sem precisar fazer um pingo de esforço. Queria recuar daquele toque súbito, cortar a eletricidade que vinha do corpo dele, se transferindo pela sua pele, atingindo-a na espinha. Tentou não olhá-lo também, mas era impossível.
- Eu sei o que está acontecendo aqui. - James a puxou para si, com gentileza. - Você acha que não é boa suficiente. Acha que Sirius e você tem o mesmo lugar na cota do mundo bruxo. Sim, eu sei que ele tem esse maldito complexo e estou vendo esse maldito complexo em você. E, Merlin! Odeio esse complexo, puta merda.
James riu, amargurado. Obrigou-se a respirar fundo, para se acalmar, o dedo polegar deslizando pelas costas da mão de Lily.
Do nada, ele se afastou, perguntando:
- Me dê um motivo muito bom para simplesmente desistir de você.
Lily se escorou na porta, baqueada. Ainda conseguia sentir os efeitos do toque singelo de James, ardendo como uma queimadura. Olhou-o de soslaio, desconfiada. Não dele, mas de si mesma. Do que pensava, sentia e queria dizer.
O real motivo de desprezá-lo tanto com o passar dos anos.
- Potter, - Lily reuniu todo o resto de coragem enquanto massageava a mão que ele segurara. - eu sempre tive medo de me apaixonar por você. Esse é um motivo mais do que suficiente para desistir, pois, até quando puder, evitarei que isso aconteça.
Os braços dela caíram ao lado do corpo. Sinal de redenção.
- Satisfeito?
Foi a vez de James piscar várias vezes. Chamou-a, mas a verdade nua e crua a fez passar por debaixo do seu braço. Viu-a se afastar o mais rápido possível da biblioteca, como se fugisse. Pensou em segui-la, mas parecia que estava colado no soalho.
Lily Evans o havia golpeado. Em cheio.
N/A: Eu sei, eu sei, eu sei que sumi sem dar nenhum sinal de vida, mas, ano passado, foi bem apertado para me dedicar a essa fic. Porém, como sou uma pessoa que não gosta de nada inacabado, JAMAIS deixaria IS sem um fim. Posso até dizer que a fic terá mais dois capítulos e the end.
Sei que comentei sobre uma continuação, algo que os próximos capítulos deixam meio que a entender. Tenho muita vontade, pois se é algo que ainda falta na minha vida é explorar a formatura + Primeira Guerra. O que me preocupa é a demora em atualizar. Sinto-me mal quando deixo vocês na mão, verdade seja dita. Ideias pipocaram, claro, seria mais um longo período para explorar James e Lily. Sempre imaginei IS como uma fic curta e, vejam bem, ainda tá rolando por causa da falta de tempo. Quem sabe leve essa ideia de continuar a sério. O problema mesmo é uma atualização frequente. Quem sabe?
No mais, agradeço pela paciência de muitos e pelos chamados perguntando onde estava, se estava viva e se daria mais um capítulo de presente de Natal. Cheguei tarde, mas é presente de Feliz 2015 procês. Janeiro ficarei empenhada em finalizar IS, prometo!
Espero que gostem do capítulo. Para quem sente falta de Blevans, o próximo capítulo tem angústia haahhaahah
Beijos e feliz 2015 - de novo. (L)
