Capítulo 26 – Flauta Quebrada

Alberich estava desolado. Seu coração estava partido em milhões de pedaços. Ajoelhado na neve diante do corpo de sua irmã, o ruivo não sabia o que fazer. Thethis ajoelhou ao lado dele e o abraçou para confortá-lo.

— Não fique assim, meu amor. Esse não era o desejo dela. – Tentou confortá-lo, porém, sem êxito.

— E agora, Alberich? O que pretende fazer? – Perguntou o lilás.

Sem dizer uma só palavra, a Estrela Delta levantou, e levantando o braço, produziu uma grande quantidade de Ametista, que passou a cobrir o corpo de Katherine. Ela foi enterrada em um enorme e belo cristal de Ametista, onde ficou no centro de vários outros cristais naquele cemitério na floresta sagrada de Asgard.

— É lindo... apesar de triste. – Pensou Sorento observando tudo. — Eu sei que não é um bom momento para dizer isso, mas acho que não faz sentido ficarmos aqui do lado de fora, é melhor entrarmos no palácio.

Todos concordaram e rumaram de volta para o palácio. Alberich, porém, não se mexeu de onde estava, mesmo com Thethis chamando por ele para que os acompanhasse. Isaak pousou a mão sobre o ombro da moça e balançou a cabeça negativamente, dando a entender que o melhor seria deixar o gênio em paz. Na manhã seguinte, Shion decidiu que todos deveriam voltar ao Santuário. Isaak e Sorento também voltaram. Três dias haviam se passado desde a morte de Katherine. Alberich ainda estava no mesmo lugar. Ele não se mexia e não falava. Parecia que ele não estava mais ali. O Guerreiro Deus passou os últimos três dias de pé frente ao túmulo de Ametista que ele mesmo construiu para sua irmã, e se não fosse pela sua Robe dos Deuses, ele certamente já teria congelado na tempestade. Por vezes lágrimas escorriam de seu alvo rosto, e as mesmas se convertiam em cristais de gelo antes mesmo de chegarem ao chão, devido a baixíssima temperatura. Thethis estava cada vez mais preocupada com ele, mas não tinha coragem de chegar perto, pois o rapaz emanava um Cosmo hostil, impedindo a aproximação de qualquer um.

— Alberich… até quando vai ficar assim, meu amor? Por quanto tempo vai ficar sofrendo por algo que não foi culpa sua? – Pensava preocupada ao observa-lo.

Algumas horas depois, Alberich estava no mesmo estado. Exausta, Thethis já havia desistido de acompanha-lo quando levantou da rocha onde estava sentada e fez menção em ir embora, até que sentiu alguém perto de si. O ruivo abraçou sua amada com desespero e chorou compulsivamente. Ela tentava consolá-lo acariciando os cabelos cor de fogo enquanto conduzia o rapaz até o palácio onde cuidou dele. Com muito esforço conseguiu fazer com que ele tomasse uma xícara de chá, mas foi incapaz de convencê-lo a comer alguma coisa. Depois de se esquentar, Alberich foi para o seu quarto, onde adormeceu, sem saber como seria o seu amanhã.


Seika voltou para sua humilde casa no Santuário. Ela estava desolada e não se conformava com o desaparecimento do seu amado Juiz. Ele havia se convertido em uma literal chuva de penas negras, e a jovem levou uma delas consigo, a fim de ter alguma lembrança dele a qual se apegar.

— O que aconteceu com você... Minos-sama... será que no fim das contas você era apenas um sonho? Você se foi do mesmo jeito que apareceu na minha vida, e me deixou apaixonada. E agora? O que eu vou fazer com todo esse amor que eu sinto aqui dentro? – Disse inconsolável para si mesma, jogada na cama, sem coragem sequer para levantar.

Ao mesmo tempo, na Sala do Mestre, Sorento foi pego pelo colarinho e lançado contra uma das paredes, deixando Saori, Julian e Isaak chocados com a cena.

— Ei! Pega leve! Ficou maluco por acaso, cabeça de alface?! Como pôde atacar o Sorento desse jeito? – Isaak reclamou, sem entender a atitude de Shion.

— Uma cabeça de chicória falando de uma cabeça de alface é no mínimo irônico... – Comentou Sorento, limpando o sangue que escorria do canto de sua boca com as costas da mão ao se levantar.

— Por que fez isso, Shion? – Indagou Saori, exigindo uma resposta ao comportamento agressivo de seu braço direito.

— Vocês não percebem? O maluco aqui é você, Sorento. Como se atreveu a enfiar um dos Juízes de Hades no Santuário? Está querendo nos destruir por dentro? Já entendi... ainda nos considera como inimigos. Demorou, mas finalmente o General de Poseidon mostrou suas garras. – Acusou o Mestre.

— Você bebeu gasolina pura esta manhã? De onde tirou isso? Se chamei Minos de Griffon até aqui, foi por ele ser o único capaz de trazer a alma do Julian de volta do Mundo dos Mortos. Deveria me agradecer ao invés de me acusar. – Rebateu o músico, nada contente por estar sendo acusado injustamente.

— Pera lá, Sorento. – Interviu Isaak. — Porque está dando explicações? Como bem disse o tão respeitável Grande Mestre, nós somos Generais Marinas de Poseidon e inimigos de Atena, portanto, nós não devemos satisfação, muito menos obediência a eles. Vamos embora daqui.

— Espere um pouco, Isaak. – Disse Julian. — Nós podemos resolver isso de alguma outra maneira.

— Já chega. Shion, você está enganado. É como o Sorento disse. Minos de Griffon trouxe a alma do Julian de volta. – Falou Saori, tentando dar um basta na discussão.

— E por que ele teve que pedir ajuda a um lacaio de Hades? A um de nossos piores inimigos! Esse maldito matou o meu amigo Albafica pouco mais de cem anos atrás. – Rebateu o esverdeado.

— Será que dá para se acalmar? – Gritou o General de Sirene, segurando o Mestre pelos ombros. — O fim justifica os meios. Acha que eu gosto de dever favores a Hades? Mas pense! Quem seria capaz de trazer o Julian de volta e livrar sua alma do julgamento? Por acaso você tem tal habilidade? Alguém no Exército de Atena tem? – Questionou o lilás, colocando o esverdeado contra a parede.

— Não... – Respondeu reticente.

— Pois é! Adivinhe só, eu também não tenho, por isso tive que correr atrás de quem tivesse esse poder, e não me arrependo, já que é pela salvação do mundo inteiro. Quando se está em uma guerra, temos que pensar sempre dois, três, ou até cinco passos à frente do inimigo se for preciso, se quisermos ter sucesso e alguma chance de vitória.

Shion baixou o olhar e Sorento o soltou. O jovem andou calmamente em direção ao seu trono e sentou-se.

— Tudo bem. Entendi. Mas pelo menos posso saber por que precisa tanto do Julian humano?

— E não é óbvio? Julian Solo e a reencarnação de Poseidon-sama nesta era. Como vamos livrar o espírito do Deus das garras do infeliz do Kanon se ele não tiver para onde voltar? – Respondeu Isaak rispidamente.

— Me perdoe, Sorento. Eu acabo de ser muito negligente e peço desculpas por isso.

— Mas é claro. Estou ciente do Santuário e de suas indagações sobre justiça. Nem sequer perceberam a índole de um dos seus. – Alfinetou o Kraken.

— O que quer dizer? Se quer nos acusar de algo, porque não fala mais claro, garoto?

— Tem certeza, Mestre? Então por que não começamos por Saga de Gêmeos?

— Saga de Gêmeos? Do que você está falando? O que o Saga teria a ver com isso?

— Vejo que os séculos levaram a sua memória embora, Áries. Quem foi que o matou e usurpou o seu lugar durante treze anos mesmo? Ah, sim! Foi um dos Santos de Ouro! E vejam só, você, como o Grande Mestre, ainda cogitou colocar aquele homem para suceder o seu posto. Uma grande prova de que você é um péssimo julgador de caráter e não enxerga nem ao menos a índole dos membros da patente mais poderosa e perigosa do Exército de Atena.

— E vejo que você é perito em apontar os erros alheios, não é Isaak de Kraken?

— Hum...?

— Eu ouvi de Hyouga de Cisne. Antes da sua morte, você revelou a ele o que Kanon pretendia fazer, então a pergunta é: porque você não advertiu a seus companheiros antes se você sabia que Kanon era o mentor de toda a batalha? Precisou Sorento descobrir tudo por si mesmo e desmascarar o traidor. Mas que belo companheiro você é. – Rebateu o Mestre.

— Isso é o de menos. De qualquer forma o Sorento podia ter matado o safado assim que descobriu suas tramoias, mas ele preferiu dar uma de covarde e deixar o cara à solta, e vejam no que deu. Tudo culpa da idiotice dele.

Assim que terminou de dizer essas palavras, o Guardião do Ártico só teve tempo de sentir uma corrente de ar passar por si, e seu corpo ser fortemente arremessado contra uma das pilastras do Templo. Sorento o empurrou pelos ombros, afim de encarar o Kraken. Ele apontou o punho direito carregado de Cosmo para o rosto de Isaak e falou em tom sério e ameaçador.

— Da próxima vez que me chamar de covarde, recomendo que tenha o endereço de um ótimo dentista em mãos, porque eu juro que não vai sobrar sequer um dente dentro dessa sua boca.

Um suor frio escorreu pelo rosto de Isaak, e sangue esvaía de seu nariz e boca, enquanto ele via o outro General se afastar. Ao mesmo tempo, a pilastra atrás deste se converteu a entulhos quando Isaak caiu sentado no chão.

— Mas o que há com esses caras? Desse jeito irão colocar o meu Templo abaixo. – Lamentou Saori, dando um longo suspiro. Julian fechou os olhos e pôs as mãos sobre o ombro de sua adorada noiva dando um igual suspiro.


Sorento descia as escadarias em direção à Casa de Áries. Estava amolado, e chutava as pedrinhas que encontrava pelo caminho. O vento soprava, e as madeixas lilases por vezes atingiam o rosto e ofuscavam a visão do rapaz. Ele botou as mãos em direção ao pescoço, e jogou os cabelos para trás enfurecido.

— Mas que inferno! Eu já estou cheio dessa merda! – Praguejou. — Eu vou resolver isso de uma vez por todas! – Gritou para si mesmo ao chegar no primeiro Templo.

Se jogou na cama. O músico estava tão danado que não tirou nem os sapatos. Tentou dormir um pouco, mas não conseguiu. A inquietação do jovem foi sentida por sua companheira Sirene, que apareceu diante dele com o semblante preocupado.

— Sorento-sama… toda essa agitação não vai fazer bem ao senhor. Por favor, não faça nada impensado.

— Sirene? – Ele respondeu, abrindo os olhos e encarando a bela fada. — Sei que está preocupada comigo, mas esse é um problema que eu já devia ter resolvido a muito tempo.

— Mestre... Não me diga que o senhor vai...

— Sirene, minha fiel amiga, eu preciso consertar um erro do passado. Kanon representava uma ameaça em potencial, e eu fui negligente deixando um tipo como esse vivo. Eu já estou farto de ouvir a mesma acusação de todos. Já que a responsabilidade é minha, então cabe a mim resolver.

— Então isso significa que o senhor vai...

— É isso mesmo, Sirene. Chegou a hora de acertar as contas com o Kanon.

— Mas, Mestre... o senhor pretende ir sozinho?

— Sozinho? Só se você me abandonar. Por acaso vai fugir da luta?

— Eu? Está brincando? Acha que eu deixaria o meu Mestre na mão?

— Ótimo. Eu não esperava menos de você.

— E quando partiremos, Mestre?

— Só se for agora.

— Mas assim, de repente? Não vai avisar a ninguém?

— Não. Isso é algo que eu preciso resolver sozinho.

— Tem certeza? Não é melhor pedir ajuda?

— Está insinuando que eu sou fraco? Pensa que eu não tenho poder o bastante para matar e enterrar aquele desgraçado? – Falou intimidador.

— Não. – Respondeu a fada assustada. — Eu apenas pensei que seria perigoso para o senhor ir sozinho. Kanon é argiloso e trapaceiro e pode aprontar alguma falseta.

— Estou ciente disso. Mas não se preocupe. Kanon está triplamente enganado se acha que vai me pegar de surpresa. E não precisa me olhar com essa cara. Eu estava brincando. – Disse gentil, acariciando a cabeça de sua fiel amiga.

O General andou calmamente até a entrada da Casa de Áries. Sorento estava calmo, apesar da situação, e usando teletransporte, ele cruzou as dimensões, indo parar diretamente no Templo de Poseidon. June, que dormia tranquilamente na casa da Shaina, acordou no mesmo instante em que sentiu um enorme distanciamento no Cosmo de Sorento em questão de milésimos de segundo.

— Teletransporte? Sorento... você realmente... eu não posso acreditar que você tenha ido sem mim. – Lamentou a loira.

O afastamento do Cosmo de Sorento também foi sentido por Isaak, que deitado nas escadarias do Templo principal, degustava uma suculenta costela ao molho barbecue, e mordia a carne, segurando a mesma pelo osso.

— Caramba, o Sorento não tem jeito mesmo. Pelo visto ele deve ter ficado muito puto pelo que eu disse antes, especialmente considerando que meus ombros estão doendo até agora. Mas de qualquer forma, o problema é todo dele mesmo, então ele que resolva sozinho. Boa sorte, cabeça roxa. – Falou consigo mesmo.


Ao olhar em volta, Sorento percebeu que estava mesmo nos domínios do Imperador dos Mares. Conhecia muito bem o Reino Marinho, e não tinha dúvidas de que estava no lugar certo. Ele então começou a caminhar pelo chão de mármore, subindo um ou outro degrau que aparecia esporadicamente pelo caminho. Andou durante vários minutos, mas não chegou a lugar algum, o que deixou o General bastante apreensivo.

— Mas o que significa isso? É algum tipo de piada? Parece que andei em círculos durante horas. – Concluiu.

O músico resolveu se concentrar na situação. Fechou os olhos atrás de algo que pudesse guiá-lo. Ele então abriu os olhos rosados novamente, e depois de alguns instantes percebeu pequenas fendas dimensionais ao olhar para o "céu" do local.

— Kanon desgraçado! Ele converteu todo o Reino Marinho em um labirinto. Mas não pense que isso irá me deter. Suas ilusões ridículas não vão me impedir de chegar até você, quebrar a sua cara e recuperar o espírito de Poseidon-sama. – Disse determinado.

Sorento continuou caminhando pelos arredores, a fim de chegar até o Pilar Principal. Todo o caminho estava em um espaço dimensional estranho, e o céu, e todo o resto do espaço estava entrelaçado.

— Maldito Kanon. Criando ilusões para me deter aqui… O que vou fazer? Como vou sair dessa maldita ilusão e chegar até o Templo do Imperador? Ficar andando por aqui em círculos não vai adiantar de nada. Preciso encontrar uma forma de quebrar esta ilusão. – Pensou.

Sem alternativa, Sorento continuou caminhando sem rumo, pois o Cosmo de Kanon bloqueava o caminho com suas ilusões. Mas enquanto andava, o rapaz via uma pena negra caindo em sua frente. A cada passo que dava, ele via mais e mais penas, e isso intrigava Sorento fortemente.

— Mas que diabos! O que está acontecendo aqui? Por que vejo essas penas por toda a parte?

Logo ele pegou uma delas, e uma espécie de Cosmo emanou da mesma enquanto ela estava em sua mão e ele ouviu uma voz:

— Sorento, o que você está esperando para se livrar dessa armadilha ridícula? Você mais do que ninguém deveria ser capaz de saber lidar com esse tipo de situação. – Disse firme.

— Quem é você? E como eu faço para resolver isso? – Ele respondeu surpreso.

— Minha identidade não importa. Apenas posso dizer que você já me conhece. Em outras palavras, estou dizendo que você tem plena capacidade para sair dessa e chegar logo ao seu objetivo. Você só precisa pensar no que tem que fazer para conseguir isso. – Explicou.

— Pensar? Neste momento eu não consigo pensar em absolutamente nada.

— Não diga isso. Logo você, que sempre fui tão controlado, vai deixar suas emoções cegarem a sua razão? Use a genialidade que você tem, e tenho certeza de que chegará a uma solução para o seu problema. Apenas lembre-se: As penas. Use as penas opostas a estas e você encontrará a saída. – Disse a voz masculina, e assim que concluiu a frase, o Cosmo que envolvia a pena na mão do músico se dispersou.

— Mas que ótimo... como tenho sorte. Pensei que fosse obter a solução para o meu problema e o que eu ganho é uma maravilhosa charada para desvendar. Era tudo o que eu precisava. – Praguejou.

O General se jogou no chão de joelhos, dando um soco no mesmo. Se sentia uma porcaria por não conseguir resolver algo tão simples. Kanon estava mesmo conseguindo desestabilizar Sorento, e isso era algo que ele não poderia admitir de forma alguma. Como a voz desconhecida disse a ele momentos antes, ele não poderia deixar que sua razão fosse ofuscada por nada. Agora mais do que nunca ele precisava de toda a inteligência que possuía para sair dessa. Passou mais algum tempo olhando para a pena em sua mão. Se aquela voz disse era para ele usar uma pena oposta àquela, isso significaria...

— Mas é claro! Só poder ser isso! Como eu pude ser tão estúpido para não perceber antes? – Exclamou alto ao chegar a uma conclusão.

O pingente em forma de asa no pescoço de Sorento começou a emanar um brilho dourado, e poucos segundos bastaram para que a Escama de Sirene envolvesse completamente o corpo do General. Na Sala do Trono de Poseidon, Kanon meditava, e com os olhos fechados, ele apenas pensou...

— Hades...

Instantes depois, todo o salão do Trono do Imperador foi tomado por uma chuva de penas brancas. Era uma visão esplendorosa e completamente linda de se ver. Ao perceber o distúrbio dimensional, Kanon rapidamente abriu os olhos e interrompeu sua meditação, fazendo com que a ilusão que assolava o Reino Marinho sumisse completamente.

— Mas o que aconteceu aqui? Penas brancas? De onde essas coisas saíram? – Perguntou para si mesmo.

— Você quer uma resposta, Kanon? Pois saiba que terei um enorme prazer em explicar para você.

— Quem está aí? Apareça logo, desgraçado! – Falou atordoado olhando ao seu redor, porém não havia ninguém naquele local, exceto o próprio Kanon e uma grande quantidade de penas brancas.

Repentinamente, todas as penas que cobriam o chão do salão começaram a se mexer e a se juntar, fato que deixou o General do Atlântico Norte extremamente impressionado e confuso. Elas formaram uma espécie de rodamoinho, de onde Sorento surgiu instantes depois trajando sua escama com as asas abertas.

— Finalmente chegou a hora, Kanon. Vamos brincar. – Disse sério, encarando o azulado com extrema hostilidade.

— Então é você? Como foi capaz de escapar do meu labirinto de Ilusões? Alguém tão débil como você não deveria conseguir isso.

— "Débil..." você disse? Pois então me corrija se eu estiver enganado, mas com essa atitude você não está se contradizendo?

— O que quer dizer com isso?

— E não é óbvio? Se eu sou tão débil como acabou de dizer, e mesmo assim fui capaz de quebrar sua ilusão, então creio que essa deva ser uma técnica débil, assim como você.

— Desgraçado... Como se atreve a me insultar, seu maldito?

— Você não está em posição de indagar nada! Aqui o único maldito é você, usurpador dos infernos!

— É mesmo? E o que você acha que pode fazer sozinho?

— O que eu posso fazer? É muito simples, meu caro... vou fazer o que devia ter feito a muito tempo: vou acabar com você. – Falou sério e ameaçador.

— É mesmo? Não me faça rir! – Respondeu às gargalhadas. — Mas que bela visão alada. É bem verdade que sempre achei as asas de sua escama algo bastante imponente. Agora entendo. Você usou as penas das asas para perfurar as fendas através das dimensões e anular a minha técnica. Admito que você merece os parabéns por isso. Mas não significa que possa me derrotar.

— E por que não comprova isso?

— Acha que pode me derrotar com essa flautinha? Caso não tenha percebido, eu estou usando o poder de Poseidon agora. E em posse do poder de um Deus, ninguém poderá me deter.

— Filho da mãe! Eu não posso mais permitir que você usurpe os poderes de Poseidon-sama dessa maneira. Solte esse Tridente agora mesmo!

— Sorento... a sua tolice não podia ser maior.

— Entendo. É claro que você jamais faria isso. E nesse caso...

Sorento sacou sua Flauta, e rapidamente começou a tocar...


No Santuário, o dia já estava quase amanhecendo. June pulou da cama e se vestiu depressa. Pediu ajuda à Marin, e partiu com a mesma. Na Casa de Áries, Mu e Shaina dormiam tranquilos e abraçados. Estavam felizes por terem começado uma relação, e apenas pensavam em seu futuro juntos. Correndo pelo Santuário, June chegou até as Doze Casas e subiu as escadarias correndo. Invadiu a Primeira Casa, e correu até o quarto, enquanto isso, Marin subiu até o topo, onde falaria com o Mestre Shion pessoalmente. A loira chutou a porta, e surpreendeu o casal, que dormia nu, mas nem isso impediu a Bronzeada de agir.

— ACORDEM! – Gritou nervosa. — Não temos tempo para isso. O Sorento desapareceu!

Os arianos esfregaram os olhos. Ao notar a presença de uma terceira pessoa, Mu deu um forte grito, e se cobriu com o lençol o máximo que podia.

— June... – Disse Shaina desgostosa. — Será que pode nos dar licença?

A loira aguardou na entrada da casa, e ao chegar no topo, bem de frente para as escadarias do Templo Principal, Marin deu de cara com Isaak, que dormia jogado nas escadas como um cão com uma das mãos atrás da cabeça e a outra dentro das calças, literalmente coçando as partes íntimas. O jovem babava enquanto dormia profundamente. A Prateada olhou para a cena enojada, e se perguntava como os homens conseguiam ser tão idiotas.

— ACORDE AGORA, SEU GRANDE IMBECIL! – A Águia gritou revoltada, dando um chute no meio das pernas do General, que voou contra uma das pilastras que cercavam o local.

— MAS QUE PORRA FOI ESSA? JÁ NÃO SE PODE NEM MAIS DORMIR NESSE CARALHO EM PAZ! QUE MERDA DE HOSPITALIDADE É ESSA? – Ele gritou mais alto ainda, tentando aguentar a dor em seu membro, que foi praticamente esmagado com o chute da ruiva.

— Culpa sua, seu retardado! Como pode ficar jogado dormindo aí de boa enquanto o Sorento foi atrás do Kanon sozinho? Será que você só pensa em comer e dormir?

— Está enganada. Eu penso em trepar também. – Respondeu cínico e direto.

— O quê? Como pode dizer tamanha asneira? – Indagou incrédula.

— Por que não para de tagarelar? Mas que inferno! Desde que cheguei neste Santuário eu só apanho. Quando é que vocês todos irão me deixar em paz?

— Quando o mundo inteiro não correr o risco de ser inundado por um maluco você poderá coçar o saco à vontade, mas agora não! Por que você tem que ser tão imbecil?

Isaak levantou de onde estava, e se aproximou perigosamente da ruiva, de modo que seus olhos verdes encararam os dela de forma penetrante. Pegou-a pelos ombros e a prensou contra uma das pilastras da entrada do Templo.

— Você é um pé no saco no sentido literal da palavra. Escute aqui, Santa de Atena, não sou membro dessa ordem, tão pouco um de seus coleguinhas para você me tratar dessa maneira. Só devo obediência a Poseidon-sama, sendo assim, caia fora e me deixe em paz de uma vez por todas. Deveria estar relatando o desaparecimento da galinha depenada ao pé de alface que tem como Mestre ao invés de estar aqui me infernizando. Nunca mais se atreva a pôr as mãos em mim. – Disse sério, voltando a se jogar na escada, fechando os olhos.

— Mas é claro. O que eu podia esperar? Pela forma como se referiu a alguém que deveria ser seu companheiro de armas, está claro que você não entende nada sobre amizade e nem se importa com o planeta que deveria ajudar a proteger. Você é desprezível como todo e qualquer homem. – Respondeu seca, indo em direção à entrada do Templo.

— Hunf... grande merda. – Resmungou, sem se mover um centímetro de onde estava.

Ignorando Isaak, Marin entrou no Templo apressada, e estranhou ver o Mestre nervoso, enquanto o mesmo andava de um lado para o outro. Ela também observou o trono de Atena vazio.

— Mestre Shion? Perdão por entrar assim sem anunciar, mas preciso relatar algo urgente. Só que antes de mais nada, aconteceu alguma coisa?

— Pelo visto, aconteceu mais alguma coisa.

— "Mais"?

— Exatamente. Atena e Julian desapareceram esta manhã.

— Eh? Então eles também?

— Ai, caramba...! Quer dizer que mais alguém sumiu?

— Sim, Mestre. Sorento desapareceu noite passada. June percebeu o distanciamento do Cosmo dele e rapidamente me avisou.

Neste momento, June, Shaina e Mu entraram no salão para se juntarem a conversa.

— É isso mesmo, Mestre. eu senti o Cosmo do Sorento se distanciar daqui em um instante e fiquei muito preocupada.

— Teletransporte... Ele saiu daqui por conta própria.

— O gênio inventou de se enfiar na jaula do leão sozinho. Burro. Nunca pensei que ele iria dar tanta importância para as minhas provocações. – Disse Isaak, também entrando no salão, já trajando sua Escama.

— Isaak de Kraken! É tudo culpa sua! Se você não tivesse falado merda no ouvido do Sorento, ele não teria ido até lá de cabeça quente. – June gritou furiosa, se controlando ao máximo para não partir para cima do General.

— Ah, ah... está visto que todas as mulheres deste lugar são impacientes e violentas. Você, Shion, como Mestre, deveria educar melhor essas tiranas que tem como subordinadas.

— Já chega disso! Eu não quero saber de barracos na minha sala. Temos um problema maior aqui. Se Saori, Julian e Sorento sumiram, é óbvio que foram até o Reino Marinho. Não podemos deixar os três sozinhos lá.

— Fala sério! – Reclamou Isaak. — Por acaso vocês estão preocupados com dois marmanjos e uma Deusa? Para acabar com a raça daquele filho da puta, um só dá e sobra!

— Prepotente! – Shion exclamou sério, encarando o outro esverdeado com revolta.

— O que disse? Eu não tenho porque ficar aqui engolindo os seus insultos.

— Sei que agora você é um General de Poseidon e não deve nada a nós nem a este Santuário, mas não se esqueça de que você foi treinado por um dos Santos de Ouro sobre a supervisão deste lugar. Camus de Aquário sempre me colocava a par de tudo a seu respeito. Você é talentoso, mas a prepotência o deixa cego em determinadas situações. Você não era assim. Onde está todo aquele senso de justiça e aquela sua paixão por esmagar o mal e proteger este mundo?

— Não perca seu tempo, Mestre. Esse cara é caso perdido. – Completou Marin.

— Isso é o de menos já que vocês quatro estão aqui ordeno que partam imediatamente para o Templo de Poseidon para dar apoio a eles usarem meu teletransporte para levar todos até lá.

— Não vai adiantar.

— O que? – Todos perguntaram juntos e surpresos com a última frase de Isaak.

— São surdos ou querem que eu desenhe? Estou dizendo que não vai adiantar.

— Pois bem. Isso você já disse. Mas pelo menos pode nos dizer o porquê disso?

— O bastardo está dominando o Cosmo divino de Poseidon-sama em seu tridente. Usando este poder ele está selando todo o Reino Marinho, impedindo a entrada de qualquer invasor.

— Que interessante, Einstein. Mas então como você explica o fato de estarmos sentindo o Cosmo do Sorento dentro do Reino Marinho? – June perguntou.

— Nós, Generais, possuímos nossas Escamas conectadas com o poder da divindade. Por isso temos uma facilidade maior para passar por aquela barreira. – Explicou.

— Em outras palavras, significa que somente os guerreiros de Poseidon são capazes de transitar livremente pelo reino Marinho selado pelo Cosmo dele? – Concluiu Mu.

— É mais ou menos isso! – Exclamou estalando os dedos.

— Mas e agora, o que vamos fazer? Como vamos invadir aquele lugar nessas condições? Não podemos deixar eles sozinhos lá. É muito perigoso. Algo gravíssimo pode acontecer se alguma coisa der errado. – Disse Shion.

— Só há um jeito. – Isaak comunicou. — Eu posso levá-los até lá.

— Você pode? Mas como?

— É o seguinte: eu só posso levar duas pessoas comigo. Mais do que isso é impossível.

— Não pode ser! Por que só duas pessoas? – June falou inconformada.

— Tem um detalhe que não expliquei a vocês. Não é qualquer membro do Exército de Poseidon-sama que pode atravessar aquela barreira. Somente nós, que possuímos nível de Generais e as Escamas dos mesmos, podemos fazer isso. E mesmo assim, dentre os Sete Generais Marinas há uma limitação.

— Que tipo de limitação? – Perguntou o Mestre.

— Somente os Generais que possuem asas em suas escamas podem atravessar a barreira, usando a pressão do bater das asas das mesmas.

— Espere um pouco. Me corrijam se eu estiver errado, mas até onde eu sei, o que há nas costas da sua escama não é um par de asas, são as barbatanas do Kraken. As barbatanas deste animal Marinho costumam ser enormes, e se assemelham a asas quando viradas para baixo. – Mu explicou.

— Ora, acertou de novo, Carneirinho. As barbatanas não apenas têm uma anatomia semelhante a asas, como também funcionam da mesma forma, por isso eu posso entrar na sala do trono do Imperador sem problemas.

— Que ótimo..., mas por que só pode levar duas pessoas? – Marin perguntou.

— Afff parece até que é loira... quantas asas eu tenho, gênio? Está me achando com cara de burro de carga, guindaste ou o que? – O rapaz retrucou, fazendo caretas para ela.

— Pois sendo assim, precisamos escolher quem irá, já que não tem como irem todos. – Disse Shion.

— Mestre, eu quero ir! Entenda que eu não posso deixar o Sorento sozinho nisso. – June se manifestou.

— Negado.

— O que?! Mestre, não pode estar falando sério.

— Ouça, se Sorento quisesse te expor a tamanho perigo, ele não teria ido sozinho. Se eu a mandar para lá, ele jamais irá me perdoar por isso. Você fica. Mu e Marin irão com Isaak. Está decidido.

— Tudo bem... não vai adiantar argumentar mesmo. Então já que é assim... Mu, você precisa entregar essa caixa ao Sorento aconteça o que acontecer. Prometa que vai me fazer esse favor. – A loira pediu, dando a Mu uma caixa retangular de cor Prata.

— Certo. Considere feito.

— Obrigada.

Mu amarrou a caixa dada por June em suas costas por debaixo da capa, e tanto ele quanto Marin esperavam as instruções do General.

— Agora a cabeça de fogo e o cabelo de menina devem ficar atrás de mim e segurar firme nas barbatanas da minha escama. Segurem firme mesmo e não soltem por nada deste mundo.

Mu e Marin se entreolharam.

— Cabeça de fogo?

— Cabelo de menina?

— Você pode não ter notado, mas nós temos nomes, sabia? – Marin reclamou indignada.

— Tá, tá! Quem se importa com pequenos detalhes passam logo o que eu disse.

Imediatamente os dois fizeram o que Isaak havia dito. Os três estavam constrangidos e nada contentes com a situação, mas não era o momento para sentir vergonha.

— Agora, velhote, faça a sua parte.

— Que? Velhote?

— Ah, caramba! Use o seu Fodástico teletransporte em nós, rápido! Você é muito lerdo.

— Se você não chamasse por nossos nomes ao invés de nos insultar, seria mais fácil. – Marin reclamou, berrando no ouvido dele.

— Mas que saco! Ignorem o meu linguajar e pronto! Apenas faça o que tem que ser feito logo!

Shion então usou seu teletransporte, deixando os três na entrada para a passagem até o Templo SubMarino no Oceano Ártico. Marin se arrepiou ao sentir na pele o vento gélido de Asgard, e olharam assustados para a imensidão do oceano. A ruiva não conseguiu se controlar, e deu um forte espirro atrás de Isaak, e o General apenas viu o jato de muco passando diante de seus olhos.

— Mas que merda é essa? Que nojo! Por acaso quer me dar um banho de catarro?! Os Santos de Atena são muito frouxos mesmo. Se não aguentam nem um friozinho como este, imagine se tivessem que lidar com o zero absoluto. Pobres coitados.

— Ora, cale essa boca! Antes de sermos guerreiros também somos seres humanos. é natural sentirmos esse tipo de coisa.

— Chega de tagarelar no meu ouvido, mulher! Vocês estão prontos para mergulhar?

— Você disse... "Mergulhar"? – Mu falou assustado.

— Hahahaha! Não creio que até mesmo um Santo de Ouro seja tão medroso. Agora me lembro que vocês nunca foram até os domínios de Poseidon-sama. Mas que vergonha. míseros Santos de Bronze colocando Prata e Ouro no chinelo.

— Seu...

E sem dar tempo para Mu retrucar, Isaak mergulhou com tudo nas águas do Ártico, deixando ambos desesperados.

— Aguentem firme e não desmaiei! – O esverdeado se comunicava com eles através do Cosmo. — No início teremos a sensação de que iremos morrer afogados ou congelados, mas isso só acontece por alguns instantes. Não percam a calma e não se esqueçam de segurar firme em mim. A corrente é muito forte e se nos separarmos, vocês podem morrer.

— Mas que palavras animadoras. – Marin resmungou.

Isaak acendeu seu Cosmo e abriu as barbatanas de sua Escama, assustando os dois.

— Agora prestem atenção porque vamos nos aproximar da barreira. É neste momento em que todo o cuidado será pouco!

— Certo! Entendemos! – Disseram juntos.

O General voou a toda a velocidade em direção à barreira, deixando Um e Marin ainda mais desesperados.

— Ficou maluco?! Por acaso pretende quebrar essa barreira usando nossos próprios corpos? Está querendo nos fazer em pedaços? – Mu gritou.

—Relaxa e goza, Carneirinho. Acha que eu seria tão burro assim? Vocês são surdos? Eu nunca disse que iria quebrar a barreira. Eu disse que iria atravessar! Agora segurem com toda a força porque nós vamos entrar.

O Guardião do Ártico atingiu a barreira, e o impacto e pressão causados foram imensos. A ventania parecia que iria arrancar os cabelos e rasgar o rosto dos três. A pressão aumentava à medida que eles avançavam. Quando finalmente conseguiram entrar, eles foram atingidos por uma forte corrente de ar em duas direções opostas, preparando o grupo. Mu foi arremessado para muito longe, mas Marin, por milagre, ainda estava te segurando em Isaak, e acabou sendo lançada para longe junto com ele. Enquanto caiam para trás, o General percebeu que bateriam em um enorme rochedo, e abraçando o corpo da Águia com força, ele a virou ao contrário, e acabou recebendo todo o impacto da pancada sobre seu corpo ao se chocar de costas contra a rocha. Com o impacto, a ruiva rolou pelo chão por vários metros, desmaiando em seguida. Por outro lado, o Guardião de Áries teve mais sorte ao aterrissar, usando seu teletransporte para ir direto para o chão, ao ver que ia dar de cara com um dos enormes Pilares que compunham o local.

— Minha Nossa! Essa foi por pouco! Se eu não tivesse pensado rápido, meu corpo teria sido reduzido a pó, caso me chocasse contra este Pilar. Provavelmente este deve ser um dos sete Pilares que sustentam os oceanos. Aquela forte pressão me separou dos outros. O que eu faço agora? Não conheço este lugar e o pior é que não consigo sentir nenhum Cosmo. Será que Marin e Isaak estão bem?

Vários minutos depois, Marin voltou do desmaio que sofreu na queda. Ao conseguir sentar, ela levou um susto ao ver Isaak caído e a cratera formada com o choque do corpo dele contra o rochedo. Ela rapidamente foi até ele e tirou o Elmo do rapaz com cuidado ao ver que havia sangue escorrendo por sua testa. Afastou a franja dele, e pegando um pouco de água doce de uma poça ao lado da rocha, ela rasgou um pedaço do tecido branco amarrado a sua cintura e começou a limpar a ferida.

— Caramba... a coisa foi séria. esse ferimento está horrível.

Depois de limpar a ferida, ela usou mais uma outra parte do tecido para enfaixar a testa do General. Quando terminou, a Prateada se sentou ao lado dele e fechou os olhos. Alguns minutos depois, ela começou a ouvir alguns gemidos de reclamação vindo da parte dele.

— Arn... hum... ai ai... Caraca, mas que dor! Essa foi forte! – Reclamava dolorido levanto as mãos à cabeça.

— Cuidado. Não toque na sua cabeça. Pode abrir o ferimento.

Isaak logo olhou para seu reflexo na poça de água e viu sua testa enfaixada.

— Vejo que o lenço da sua cintura não era só um objeto de adorno. – Disse surpreso, vendo que o resto do pano em volta da cintura da moça estava rasgado.

— É melhor não se esforçar muito. Foi uma pancada feia, e para falar a verdade, estou até surpresa que você esteja vivo.

— Está enganada. Eu não morreria por causa de algo assim. Por outro lado, tenho minhas dúvidas quanto a você.

— O que disse?! Por acaso se acha melhor do que eu só porque é uma droga de um homem?! Pois saiba que eu posso aguentar um impacto como este até dez vezes mais forte, ouviu, seu convencido?

— Por que você se chateia com tudo? Sempre leva para o lado pessoal. Pra que tanta grosseria? Quando eu disse que tinha dúvidas foi por que você está usando uma armadura de Prata, e a mesma deixa grande parte do seu corpo desprotegido. Eu, por outro lado, estou usando uma escama que equivale as armaduras de Ouro, e a mesma cobre praticamente 100% do meu corpo. Então, por via das dúvidas, eu preferi receber os danos da queda em seu lugar, por isso não fique vendo maldade onde não existe antes de entender o verdadeiro sentido das minhas palavras.

— Desculpe por ter te julgado mal. – Falou envergonhada, abraçando os joelhos e apoiando o queixo nos mesmos.

— Você fala tão mal dos homens e de uma forma tão amarga. Ou a nossa espécie é a mais nojenta e desprezível do mundo, ou algum homem deve ter feito uma coisa muito terrível para você.

— É que não foi apenas um homem... foram dois.

— Dois? Bem, nesse caso é melhor irmos atrás daquele Santo de Ouro. Ele acabou se separando de nós e vai ser um problema para ele andar por aqui sem saber para onde ir.

— Sabe... a minha mãe morreu quando eu tinha seis anos de uma doença no coração. Desde então, meu próprio pai passou a abusar de mim e obrigar a ter relações íntimas com ele quando eu era apenas uma criança.

Isaak a encarou chocado e indignado. Ele realmente via uma profunda tristeza nos olhos dela.

— Eu não posso acreditar! Mas esse desgraçado é mesmo um monstro. Como podem existir pessoas assim?

— Foram quatro anos vivendo este inferno, até que cresci um pouco. Quando fiz dez anos, fugi da minha casa no Japão e consegui embarcar clandestinamente em um caminhão de carga que partia para a Grécia, onde vagando pelas ruas de Atenas, o Mestre Shion me encontrou e me levou para o Santuário, onde eu fui treinada e me tornei uma santa.

— Olha... eu sinto muito. Realmente não sei o que dizer. Sua história é bastante triste. Mas você falou que dois homens te fizeram mal. Quem foi o outro?

A Águia fechou a expressão, pois não sabia se continuaria aquela conversa. Na verdade, ela nem sabia porque tinha começado e contado coisas tão íntimas de sua vida para um cara que desde sempre provou para ela que era um idiota.

— Me perdoe. Não precisa dizer nada. Eu não sou ninguém para perguntar sobre a sua vida. eu realmente sinto muito por ter feito essa pergunta tão inconveniente.

— Eu me apaixonei. Como toda e qualquer mulher burra, eu pensava que ele era um homem perfeito, de caráter admirável. Mas percebi que ser um bom Santo de Ouro não significava que ele seria um marido exemplar. Nós começamos a namorar sério, e com o tempo a máscara dele foi caindo. Ele só pensava em beber e se divertir, e queria transar comigo toda a noite. Ele me tratava como se eu fosse um objeto qualquer, e a cada dia que passava eu me sentia mais infeliz... um lixo como ser humano e como mulher. – Relatou, e foi impossível conter as lágrimas.

Isso é revoltante! Homens que fazem esse tipo de coisa não são homens! Eles valem menos do que uma titica de pombo.

Subitamente, Isaak envolveu seu braço esquerdo pelo corpo de Marin e a puxou para o seu lado, dando um terno beijo no rosto da jovem, que arregalou os olhos chocada e completamente corada de vergonha.

— Não fique triste pelo que aqueles dois merdas te fizeram. Seque essas lágrimas, porque elas não combinam com você. – Disse ao se levantar e puxar a moça pela mão para que ela ficasse de pé também, dando as costas e começando a andar. — Ah, e muito obrigado por cuidar dos meus ferimentos.

Marin corou e sorriu. No fundo, se sentiu aliviada por ter despejado tudo o que afligia seu coração, e não podia imaginar que o simples fato de desabafar com alguém poderia fazer tão bem a ela. E o fato de ter sido com um desconhecido grosso e irritante (mas que ela julgou beijar muito bem, por sinal) talvez tenha ajudado ainda mais.


De volta ao Templo de Poseidon, Sorento tentava tocar sua Flauta. As tentativas do músico estavam sendo frustradas pelas investidas de cão que sentado no trono de Deus e com seu tridente em mãos lançava uma série de feixes de luz azuis e cortantes para impedir que Sorento começasse a tocar. O General do Atlântico Sul usava sua velocidade da luz e suas asas para escapar, mas com toda sua atenção focada em se defender ele não tinha como se concentrar para tocar sua Flauta.

— Maldição! Preciso achar uma maneira de parar esses ataques. Se eu for atingido pelo Cosmo do Imperador, pode ser o meu fim.

— Não adianta, seu idiota. Você não vai conseguir desviar para sempre, e quando finalmente o poder desse tridente o alcançar, você vai deixar de ser um problema para mim de uma vez por todas.

— Acha que vai ser tão fácil assim acabar comigo? Tem muita coisa em jogo aqui, e eu não posso simplesmente deixar que você destrua o planeta inteiro. Se quer mesmo deixar tudo debaixo d'água terá que passar por mim primeiro.

— Como você quiser.

Kanon prosseguiu com os ataques eu usou uma rajada de Cosmo para fazer um buraco no chão, espalhando várias pedras pelo lugar. Sorento desviava pelo ar, voando por toda a extensão da sala. Às vezes pisava nas paredes para se deslocar durante o voo, e pousava rapidamente no chão para voltar ao ar. Essa sucessão de ataque e defesa continuou por vários minutos, até que durante uma de suas aterrissagens, o médico pisou em uma das pedras, e acabou caindo, dando a brecha necessária para que o usurpador o atingisse em cheio. Sorento foi atacado pelo raio do tridente e foi lançado contra uma das paredes. Seu braço direito foi atingido pouco abaixo do ombro onde uma pequena parte dele não é coberta pela escama. O ataque não apenas feriu o braço do Guardião do Atlântico Sul como também atingiu a sua Flauta. Os olhos rosados de Sorento tremiam em uma expressão atônita e um suor gélido escorria de seu rosto, enquanto ele via seu fiel instrumento cair em vários pedaços dourados diante de si.

— Hahahahahaha! – Kanon gargalhou compulsivamente. Idiota! Eu sabia que cedo ou tarde você iria cair!

— Maldito trapaceiro! Você se acha forte? Não seja ridículo! Você só ganha de alguém jogando sujo. Armou uma armadilha para mim esse tempo todo usando um poder que nem sequer é seu.

— Foi bom ter tocado neste ponto, porque agora mesmo eu vou acabar com você usando o meu próprio poder.

— É mesmo? Caramba... quanta honra.

— Prepare-se para o seu fim! Agora que a sua Flauta está quebrada e seu braço está ferido, você já era. Desapareça e vague eternamente pelas profundezas intermináveis do Oceano Atlântico Norte!

— Quê?

— Triângulo de Ouro!

— MALDITOOOOOO! – Sorento gritou ao ser tragado para os confins do Atlântico Norte.

Kanon gargalhava vitorioso voltando ao sentar no trono do Deus dos Mares, e assim que começou a tomar um vinho para comemorar sua vitória, incontáveis penas negras começaram a chover na sala, para o espanto do maior enganador de Deuses.

— Penas? Mas o que significa isso, afinal?

つづくcontinua...

Pois é, pessoal... as coisas ficaram tensas de verdade. O que vai acontecer com o Sorento e o que eram aquelas misteriosas penas negras? Ah, vai, isso está bem fácil de entender. Creio que vocês já devam deduzir do que se trata xD Provavelmente o próximo Capítulo será o último, e desde já eu agradeço por todo o carinho que esta história recebeu ao longo de seus capítulos. Isaak é mesmo a comédia em pessoa, e eu confesso que a melhor parte foi fazer os diálogos com ele. Então, sem me estender muito, grandes beijos e até o próximo Capítulo.