Rei dos Mares
- O que você quer Lizzie? – Ele sussurrou para Elizabeth, aproximando ainda mais a boca dos lábios trêmulos da moça. Ela não recuou um só momento diante da aproximação que ele forçava, passou no teste. Ela não respondeu a pergunta que lhe foi feita com palavras, mas sim com a alteração de sua respiração. Ele podia ver em seus olhos as muitas coisas que não ousava dizer e concluiu que eram todas desnecessárias, ele já as sabia.
- Eu estava lá, como eu disse que iria estar – Jack prosseguiu e viu os olhos dela descerem cuidadosamente para os lábios dele.
- Eu não pude ir Jack, simplesmente não poderia ter feito o que você queria – Ela tentou se explicar, mas ele passou vagarosamente o polegar em sua boca, arrancando-lhe um suspiro sôfrego e fazendo com que sua ânsia ardesse com a vontade crescente de beijá-lo.
-Nós dois queríamos, amor. Você sempre fez qualquer coisa que quisesse, não precisava ter sido diferente. Mas como não lhe convinha à ocasião, você optou pelo príncipe encantado, não é?
- Jamais teria dado certo entre nós Jack...
- Cada um se ilude da forma que lhe agrada, você escolheu a sua.
- E o que te garante que você não tenha se iludido?
- Se eu estivesse me iludindo você estaria certa e como conseqüência disso poderíamos saber que naquela época já podia prever o que iria acontecer com exatidão nos nossos futuros. Como a premonição nunca lhe foi um dom, querida, prefiro acreditar que você está apenas tentando se livrar da vontade que sente até hoje de pagar para ver o que seria sua vida do meu lado, apegando-se a suposição que lhe deixa em uma posição mais confortável com relação ao grande erro que cometeu quando escolheu se casar com seu amado William e não testar a liberdade que eu estava oferecendo a você.
- Eu amo o Will, Jack. Nunca duvide disso.
- Não estou duvidando, amor... Na verdade, como você entende melhor desses assuntos do que eu, faça-me o favor de explicar uma coisa: se o ama tanto, por que ainda está aqui?
Ela olhou para seus lábios mais uma vez e antes de sentir raiva por vê-los sorrir-lhe tão maliciosamente, ela os desejou.
- Algumas coisas... precisavam ser... explicadas.
- Para mim? Meus pais me fizeram com uma boa memória, que nunca lhes falte rum, e eu me lembro de tudo muito bem. Mas você contou para o noivo sobre sua situação quando casaram ou deixou que ele descobrisse sozinho?
- Isso é importante para você?
- Só preciso saber se posso confiar minha retaguarda a seu marido, estamos indo a um local perigoso e ressentimentos podem ser fatais, principalmente para mim... Preciso saber se posso confiar na minha tripulação. – ele riu da expressão de incredulidade que ela estampara no rosto.
- Mas, para não variar, ele não pode confiar em você não é?
- Nem em você, o que nos torna iguais. Mais uma vez.
- É impossível conversar com você – ela bufou, irritada com a forma como ele estava novamente conduzindo esta conversa.
- Apenas assuma que está tentando se enganar até hoje, e então pode me explicar o que quiser.
- Mas não estou me enganando! Quer você acredite ou não eu o amo, o que eu sinto por você é apenas...
- Vou estar esperando de novo Elizabeth, aqui nesta cabine. Nós dois saberemos quando for a hora e então você e eu terminaremos este assunto como acharmos apropriado. E você, guarde as explicações e as desculpas para seu marido. E desta vez você virá amor, sabe por que?
Ela deixou que ele prosseguisse por não saber o que dizer naquele momento.
- Curiosidade. Um dia vai ter a chance de fazer algo errado e ainda assim ser recompensada com a satisfação de realizar seus desejos sem se prejudicar depois... – Ele alargou seu sorriso libertino a vendo perder a orientação, aproximou mais os lábios dos seus -...Não vai resistir... – disse-lhe ainda mais baixo – E aí vai querer saber qual a sensação.
Ela recordava destas palavras tão bem quanto ele e a cada uma que era proferida, mais de seu fôlego era roubado.
- E como três anos não foram suficientes para esquecer uma única noite ao meu lado – continuou – Vai abrir mão de muitas das suas ideologias para tentar livrar-se da minha lembrança, mas se fosse simples você já o teria feito, não é? Sua única alternativa será exatamente lembrar-se de como poderia ser, e então vai ter sua chance de me responder se valeu a pena ter me deixado partir aquele dia.
Jack se afastou aos poucos, vendo a expressão do rosto dela pedir-lhe por uma outra conclusão. Mas sem dizer nada, ele lhe deu as costas e, sem se virar para vê-la uma única vez, saiu pela porta da cabine em direção ao mundo que até agora pouco havia esquecido que existia.
-
Jessy se apoiava na amurada uma vez mais, mas agora ao invés de focar sua vista no cenário à frente, olhava para um delicado enfeite de cabelos talhado em jade branco e com dentes de metal polido.
Hoje pela manhã, Gibbs se lembrou do presente que havia comprado para a garota em Tortuga quando ainda toda aquela história parecia informe e distante. Ele a alcançara antes de entrar na cabine para acordar Jack, dizendo-lhe que queria entregar algo que estava guardando, antes que finalmente chegassem ao tesouro inestimável de Castello. Achava que tanta preciosidade ofuscaria a sua reles prenda, mas dificilmente - ela pensava enquanto deslizava o dedo pelas pequenas pedras preciosas incrustadas no entalhe de flor – haveria algum tesouro naquele lugar que pudesse ser mais valioso do que aquele. E não era pelo valor real da peça – embora parecesse um adorno caro o suficiente para estar entre as jóias de uma princesa –, era algo mais relacionado à intenção e ao gesto do presenteador do que qualquer outra coisa. Um presente inestimável, sem dúvida alguma. Quando estivesse rica talvez comprasse um vestido que correspondesse a tamanho esplendor, mesmo que nunca fosse usá-lo.
A outra parte de seus pensamentos – e estes nem tão amistosos ou prósperos quanto os primeiros – pertenciam a Jack e a uma curiosa suposta interação que por pouco perdera de conferir na íntegra.
Mais cedo, enquanto Gibbs a arrastava para seus aposentos para entregar-lhe o pente, ela o viu sair da cabine com um estranho sorriso de satisfação no rosto horas mais cedo do que seu costume. Embora a noite dos dois tenha sido de fato boa, ela suspeitou imediatamente que não era por causa da noite que ele estava com aqueles ares de felicidade. A absoluta certeza veio quando, ao atravessar a porta e conferir uma última vez o lado oposto do navio, viu Elizabeth irromper pelo convés coincidentemente logo após Jack.
Teria William notado alguma coisa? Ela duvidava muito porque os olhares do rapaz durante toda a viagem evidenciavam costume a certas nuances de comportamento que os anos o forçaram a ter, e isso apenas fez com que ela ficasse ainda mais inquieta com a cena que quase flagrara. Passaram-se a manhã, a tarde e a noite e ela simplesmente não conseguira sossegar com aquele assunto engasgando-lhe a garganta.
Jessy e seu mau humor não eram os únicos acordados mesmo que já fosse madrugada. A expectativa e o calor não permitiram à maioria da tripulação um sono tranqüilo e como conseqüência deste fato, a atividade no convés não cessara mesmo sendo hora tão avançada e os marinheiros aproveitaram para se distraírem com jogos de azar. A lua corcunda e sua corte de estrelas forneciam a luz necessária e alguns lampiões estrategicamente posicionados auxiliavam-nas na tarefa de iluminar o Pérola Negra.
Elizabeth, por sua vez, voltou a se sentir enjoada eassim como Frederic que insistia em não dar as caras, trancafiou-se o dia inteiro em seu quarto. Embora Jesselyn não a culpasse por isso – assumia que seu corpo também estava reagindo muito mal com toda aquela extrema temperatura que a Serpente lhes proporcionava –, começara a pensar se todo aquele drama era realmente necessário de sua parte. William já estava suficientemente preocupado e agora uma parte da tripulação comentava sobre seu estado lastimável. Todo o indício de simpatia que chegara a ter pela mulher parecia ter desaparecido por completo como água evaporando no fogo.
"A pobre princesinha está doente, óh quanta tristeza! Talvez se ela passasse mais tempo enfiada na cabine a sós com o capitão as coisas estariam melhores para todos agora!"
Como não estava contando com ânimos favoráveis a uma conversa com quem quer que fosse agora – e isso incluía a si mesma – preferiu ficar ali e ceder sua atenção à noite e ao mar. O pequeno dragão-libélula parecia mais próximo agora como se tivessem finalmente alcançado sua velocidade ou ele mesmo a tivesse diminuído para os acompanhar e, para ela, esses eram sinais de que estavam cada vez mais próximos da Ilha, fato que era ótimoem todos os sentidos. Estava precisando mesmo por os pés em terra firme e dar uma volta onde não pudesse ser encontrada só para variar um pouco, já que nem mesmo na sua atual reclusão ela conseguia ficar fora das vistas de alguém.
O incomodo todo porque no convés, ali atrás do timão, Jack pegou-se olhando para ela.
Escolhera ficar ao leme ele mesmo já que não conseguia dormir e tinha certeza de que a qualquer momento iriam chegar a seu destino. Como o capitão do navio, encarava como um direito e dever o triunfante gesto de conduzir o Pérola até Gaia. Foi quando estava ali, pensando que em breve, finalmente, poderia respirar aliviado sem o peso de ter Elizabeth dentro do peito e Jessy dentro da cabeça, que reparou a última atravessar o pavimento inferior até a proa e se acomodar no escuro.
"Quem sabe – ele pensou enquanto alisava as tranças de seu cavanhaque e a olhava debruçar-se na amura – bons ventos nos soprem depois que tudo for resolvido?".
Ele se afeiçoara à garota e não podia dizer que não gostava de sua companhia. Talvez pudesse não gostar tanto ou da forma como ela esperava, mas era tudo que ele podia, conseguia e queria dispor a uma única mulher e em sua opinião, já deveria ganhar alguns méritos por isso. Fazia frio no mar aberto e às vezes ficava muito tempo sem chegar perto de um porto, o que fazia a presença de uma amante vinte-e-quatro-horas-disponível ser sempre muito bem vinda a bordo. Uma mulher em cada porto e uma outra para esquentar-se entre eles, isso lhe soava muito bem.
Não que já tivesse considerado a hipótese de despachá-la quando voltassem da ilha – na verdade estava mais empenhado em pensar na chegada e não na volta -, mas estava mais consciente de sua vontade de mantê-la por perto e contava com a certeza da racionalidade a seu favor desta vez. Sem mais promessas, sem mais cobranças, sem a dúvida que a bússola lhe instigara, sem estupidez romântica, sem mais nada a não ser a obediência de sua própria vontade sem qualquer peso na consciência e, o que era melhor parte, uma vez que tivesse sua completa liberdade garantida por Gaia, poderia contar com a aceitação de seus termos por parte da pequena integralmente, incluindo a idéia da "uma mulher em cada porto". Tudo bem fácil e a seu jeito, tão livre quanto poderia sonhar dentro de um relacionamento estável com alguém.
E para melhorar seu humor, seu futuro imediato também era bastante agradável.
Elizabeth continuava tão abalada por ele quanto antes, e depois da conversa que tiveram naquela manhã, ele tinha certeza que em breve – talvez ainda naquela viagem – conseguiria dela a compensação que achava justa por tanto tempo de martírio que ela lhe causara. William por sua vez continuava o vaso que sempre fora e não deveria oferecer-lhe risco algum, e tudo isso sem nem mesmo contar com a promessa dos tesouros do jardim encantado que tinha naquela Ilha. Não evitou que o sorriso alarga-se em seu rosto. As coisas caminhavam muito bem, muito bem mesmo...
- Capitão?
- Mestre Gibbs. – Jack o vira subir a escada e achegar-se, virara para ele assim que ele chamou sua atenção.
- Posso ter uma palavrinha com o senhor?
- Pois fale.
- É um assunto pessoal.
Jack franziu as sobrancelhas tentando adivinhar do que poderia se tratar o assunto de Gibbs, mas fez sinal com a mão para que prosseguisse.
- Jack eu tenho percebido uma alteração incomum nos ânimos deste navio hoje.
- Ah é? – Jack o olhou fazendo uma expressão curiosa, não sabia bem do que ele estava falando e por um momento pensou que talvez mais pessoas pudessem ter percebido alguma coisa.
- Não sei se percebeu, mas a Jessy está um tanto... difícil. Não é seu natural e ela tem estado mais irritadiça que o habitual nos últimos dias. E ainda hoje... nossa!
- Hm. – Jack nem imaginava aonde aquilo iria chegar, mas não pode deixar de lembrar-se de que ela ameaçara de pendurar Pintel pelos tornozelos na adriça só por tê-la chamado de boneca. Se não fosse Ragetti avisá-lo, ele poderia estar lá até agora.
- E você já sabe que eu a considero como uma filha e por isso – e por tantas outras coisas que vi acontecer neste navio sem dizer nada – eu estive pensando em vir falar com você Jack, por que eu quero o bem dela e o seu também.
Jack estranhou bastante aquele início.As últimas coisas que imaginara ouvir de seu imediato eram conselhos amorosos e considerou a idéia de interromper sua ousadia com algum ralhar apenas para restabelecer a ordem normal das coisas. Mas Gibbs estava sério e isso o fez entender que aquela não era uma conversa entre o capitão e o contra-mestre e sim uma conversa entre – por todo tesouro dos sete mares – um pai e um genro. Se antes a conversa estava estranha, agora estava estranha e meia e isso, pela primeira vez, o fez sentir-se acuado em seu próprio navio. Não levava jeito para estas coisas e nem queria levar, era por isso que nunca fazia questão de conhecer os pais de suas amigas.
- Meu bom e caro Gibbs, não há absolutamente nada com o que se preocupar. Eu estava, acredite-me, agora mesmo pensando em qual futuro iria oferecer para ela e cheguei a uma conclusão fantástica que de certo agradará a você também. Eu estive pensando que, quando estivermos de posse do inestimável tesouro de Castello, talvez pudéssemos aumentar a frota, talvez modificar a percentagem de cada um sobre as pilhagens, ou até mesmo...
- Jack, eu não estou falando dela como pirata, estou falando dela como mulher.
- Ah, isso. – Ele suspirou, olhando para frente novamente tocou o leme desanimado. Não conseguiu fugir do assunto
- Ela gosta de você Jack... E tem mais coisas ainda além desta. Coisas que por enquanto nenhum dos dois conhece ou compreende, sou um homem vivido, sei delas.
- Os mistérios do coração de uma mulher...
- Não é bem um mistério. Tenho te falado fazem anos que trazer uma mulher a bordo dá azar, quem dirá duas! E desta vez, sem sombra de dúvidas, vai ter azar de sobra para você se não começar a ajeitar as coisas rápido.
- Ajeitar exatamente o quê?
- Uma vez você me perguntou se eu achava que você estava ficando velho. Eu te respondi que não, que você estava apenas desanimado e você se contentou com isso. Mas minha opinião mudou agora, e vou te explicar por que...
- Você quer dizer que eu estou velho? – Jack franziu o cenho diante da afirmação do homem.
- Não, eu quero dizer que você mudou desde que me perguntou isso.
- Mudei?
- Sabe Jack, ouvi dizerem uma vez que existe uma época e um propósito para tudo no mundo. Ouvi que existe um momento para nascer e um momento para morrer, um momento para rir e um momento para chorar, um momento para ganhar e um momento para perder, um momento para destruir e um momento para edificar. As pessoas mudam de acordo com o momento em que se encontram. Entende o que eu estou querendo te falar?
O homem olhou esperançoso para Jack que tentou procurar a resposta que não tinha, mas acabou por negar com a cabeça para seu primeiro imediato que suspirou.
- Eu imaginei que não. Mas para o bem de vocês, há também um momento para perguntar e um momento para achar respostas...
- CAPITÃO!!!
- Jack!!!
A conversa dos dois foi interrompida pelos apelos urgentes de Jessy e do marinheiro que estava no cesto da gávea. A garota veio correndo até eles e subia a escada pulando degraus aos saltos e apontando alguma coisa atrás de si, assim como o jovem no cesto. Os dois chamaram a atenção do resto da tripulação e, em e sincronia, todos viraram-se para ver o que os agitou tanto. O que encontraram embicado na direção do Pérola, fez o barco inteiro silenciar abruptamente.
Surgira, bem no meio do mar e sem ser notado até então, um imenso navio negro com as velas, imaculadamente brancas, eriçadas. Deslizava pelas águas fantasmagoricamente sem volver uma única onda sob seu casco e era curioso – e bem estranho – que se encontrasse navegando contra o vento. O capitão tratou de corrigir o leme para evitar um choque, pois o outro barco não parecia ter sequer notado a presença deles ali tão logo em frente.
- Jack... Fale uma coisa, esse barco deveria estar aqui? – Jessy ofegava ainda, fez com que o capitão desviasse a atenção para ela enquanto Gibbs abria sua luneta para conferir o navio que se aproximava.
- Encontramos um navio no meio do mar, amor. Estas coincidências acontecem com mais freqüência do que imagina. Senhor Gibbs o quê vê adiante?
Mas ele não achava que fosse uma coincidência tão normal assim, não queria nenhum alarde que pudesse se tornar um incidente problemático. Em algum lugar de sua mente havia a recordação de uma história perturbadora que talvez pudesse encaixar-se na explicação do porque um navio daquele tamanho surgiria no meio do nada, e a julgar o olhar de seu imediato, não era o único que estava com algum receio. Eles estavam nas águas do mar das Bahamas e aquele lugar do Caribe guardava para si histórias no mínimo perturbadoras.
- Não há ninguém no convés e não parece ter qualquer movimentação da proa à popa. Nenhuma luz acesa e nenhum sinal de vida – disse com a voz mais séria que o normal – Podem ser piratas procurando vítimas, embora eu nunca tenha visto tal navio no Caribe antes, ou podem ser comerciantes perdidos bem longe das rotas...
Jack sacou a própria luneta e procurou ler o nome do navio na lateral do casco, suplicando internamente que estivesse enganado e que aquele navio fosse apenas de algum capitão com um navegador bêbado. A pouca luz com a qual contava era mais do que o suficiente para conseguir vislumbrar as letras pintadas em dourado e um desânimo frio escorreu-lhe pela espinha quando distinguiu duas das quatro palavras de maior agouro dentre todas as lendas do mar. Coincidências, como diria Fredy, não existiam mesmo no final das contas. Ao menos não naquela parte do mundo
Maris Rex era um nome que perdia apenas para o Flying Dutchman quando o assunto era assustar marinheiros de primeira viagem, e ainda assim, perdia apenas porque uma geração inteira passou sem que nem mesmo algum boato comprovando sua existência surgisse. O tempo então tratara de transformar suas histórias em lendas que, até mesmo entre os mais supersticiosos, acabaram tornando-se mito. Muito dos contos foram sendo esquecidos ou então foram transformados em outros que não mantinham qualquer similaridade com os originais, mas alguns piratas – principalmente aqueles cujos pais os fizeram com uma perfeita memória – ainda conseguiam se lembrar de ter o cuidado de não ficar no caminho do Rei dos Mares.
E Jack era um daqueles que se lembrava muito bem desta precaução. Ele a conhecia por que seu pai a conhecia, e isso era um motivo para que ele não se deixasse esquecer nunca, pois ele sempre lhe avisava para não ser displicente com este tipo de assunto.
- Qual a chance desse navio ser uma fraude, Senhor Gibbs?
- Acho eu que a mesma que ele tem de ser verdadeiro Capitão.
- Faz sentido. Conseguimos... Hm... Desviar do Caminho?
Tentava manter-se o mais tranqüilo quanto lhe era possível em vista das atuais circunstâncias, enquanto Gibbs tentava imitar esta sua calma sem o mesmo sucesso.
- Considerando que estamos tão velozes quanto é possível a favor do vento e que mesmo assim ele está mais rápido do que nós e ainda contra o vento?
- Desculpe interromper o que eu acho que seja a previsão de um destino trágico, mas alguém pode me dizer que droga de barco é esse? - Jessy enfiou-se na conversa novamente.
- O identificamos como o Maris Rex – Gibbs disse-lhe tão paciente quanto lhe era possível.
Pela primeira vez Jessy pareceu ter estranhado a menção de um nome ligado a uma lenda. Ela vivia dizendo que seu pai era um mestre contador de histórias e que herdara dele o mesmo talento. Até aquele momento fizera jus a esta convicção por que sempre tinha algum conto engatilhado para momentos de tédio e nunca parecera ignorar algum nome importante como aquele. Pelo silêncio alongado – durante o qual Gibbs ainda estava surpreso – ela estava procurando alguma lembrança.
- Não, este aí não pode ser o Maris. – concluiu finalmente com tanta certeza que Jack sentiu-se atraído pela conversa apenas para descobrir o que ela julgava saber mais do que eles.
- Mas é o que está escrito lá, anjo – Gibbs falou com paciência.
- Deve ser falso ou alguma homenagem bizarra ao navio verdadeiro – ela mantinha a convicção firme, mas falava-lhe também com a mesma entonação paciente.
- E por que acha isso? – Jack ainda estava curioso em saber por que ela estava tão decidida.
- O verdadeiro Maris Rex foi naufragado pela marinha há uns cinqüenta anos, como você mesmo me falou Josh.
- Falei? – Gibbs estranhou a afirmação
- Falou? – Jack olhou de um para o outro.
- Sim, disse que Edoardo Castello foi morto pela marinha e seu navio mandado para o fundo do mar. Só não é verdade porque, segundo a versão atualizada pelo Will, ele foi traído e abandonado em Gaia com toda sua tripulação enquanto os filhos rebelados fugiam com seu navio. Quem foi morto e naufragado na verdade, foi seu filho Bernardo anos mais tarde.
- E o que uma coisa tem a ver com a outra?
- Maris Rex, o Rei dos Mares, era o nome do navio de Castello.
- Que informação tranqüilizadora – Jack olhou mais uma vez o imenso navio que se arrastava pela água. Se tudo aquilo fosse uma imensa coincidência era de fato a maior que já houvera na história. Não fazia sentido que um barco naufragado aparecesse meio século mais tarde, completamente vazio e ainda nas águas que fizeram de seu capitão um dos piratas mais conhecidos do Ocidente, mas também não fazia sentido uma flauta brilhar como uma estrela e atravessar o mar por cinco dias, voando mais rápido do que um tiro, e fazia menos sentido ainda a existência de um macaco transformado em morto vivo ou um bando de homens-marinhos tripulando um navio submarino. Então esta falta de sentido era deveras assustadora.
Estavam mais próximos agora, o suficiente para não precisarem das lunetas para ver o convés vazio que logo iriam emparelhar. Lá embaixo os marinheiros esperavam pelas ordens, olhando assustados o gigante e ele até pensaria no que dizer a eles se não tivesse acabado de reparar em algo que o deixara bem irritado.
- Nada bom, nada bom...
- Que...? – Jessy olhou na mesma direção, mas demorou um pouco até entender por que Jack estava tão irritado – Cadê minha flauta?
- Quais as ordens capitão? – Gibbs apressou-se em perguntar independente da confusão que se iniciava, pois a eminência de um emparelhamento fizera com que a tripulação voltasse sua atenção para os três no primeiro pavimento.
- Senhor Nolan assuma o leme e mantenha o Pérola o mais longe possível deste navio, mas tome o cuidado de não desviar muito do nosso caminho – Jack gritou as ordens para um marinheiro que correu para subir aonde estavam os três. Voltou-se apressado aos outros dois e lançou-lhes um olhar inquiridor.
- Agora vocês me contem rápido sobre o que já ouviram falar deste navio e eu decido em quem prefiro acreditar e o que prefiro fazer para sairmos daqui.
- Eu ouvi falarem que ele estava naufragado e não assombrando o mar – Jessy falou irritada – mas ninguém me ouve!
- Eu ouvi dizerem que era um navio condenado a vagar eternamente até que seu nefasto capitão encontrasse a única coisa que poderia fazê-lo descansar em paz. – Gibbs disse pomposamente fazendo-se de entendido - Nunca ninguém soube as raízes da história ou a origem de seu capitão, por isso ninguém pode afirmar com certeza o que ele procura.
- E por que as raízes da sua história não podem ser Gênova, um tesouro valioso e uma traição familiar, amor? – Jack perguntou à Jessy tentando entender o ponto de vista da garota também.
- Porque eu cresci em um porto que recebia tudo quanto é tipo de gente de todos os lugares do oceano, sou filha de um bardo que era um Castello, que me contava todas as histórias que conhecia do mundo – e não eram poucas - e que já esteve aqui ele mesmo e ainda assim jamais ouvi falar que o navio do meu mais conhecido ancestral era fantasma. Se sei-lá-quem estiver navegando o barco do Edoardo, as pessoas saberiam disso, não é? Não percebem que deve haver uma falha em algum lugar nesta conversa? Se tudo isso for apenas coincidência, só não é maior do que seria um encontro privativo e ocasional entre dois ex-amantes na cabine.
Jack olhou para ela aturdido que retribuiu com um olhar firme. Mas não era hora para aquilo.
- Entre um "deve haver um erro" e uma lenda assustadora, é mais seguro acreditar na lenda assustadora, amor. O Seguro morreu de velho – Ele voltou-se novamente para Gibbs que olhava o barco que agora passava ao lado com uma má impressão – Alguma chance de coincidentemente termos a bordo algo que um capitão-fantasma - "Seja ele quem for e se for um fantasma mesmo" ele adicionou rapidamente - possa querer ou acha que conseguimos seguir nosso rumo sem maiores problemas?
- Isso depende do que acha que ele quer Jack, talvez nos deixe passar já que não parece ter alguém lá mesmo.
- Confio no seu sábio julgamento Gibbs, o que você acha que ele quer?
- Se fosse para chutar algo eu diria que ele quer...
Mas o que Gibbs achava Jack e Jessy jamais vieram a saber.
Naquele exato instante o som ensurdecedor do disparo de um canhão poderoso foi seguido pelo barulho de algo se rachando e então o Pérola remexeu com o impacto sofrido. Uma voz sepulcral se fez ouvir em algum ponto logo atrás do pequeno grupo reunido em frente ao timão, acordando-os do aturdimento causado pela surpresa.
Apenas uma palavra ressoou na noite enquanto todos tentavam entender o que acontecia:
- Vendetta.
Olá meninas!!!
Bom, desculpem a demora, mas desta vez eu tenho um bom motivo. Ou ao menos um aceitável... Existe um espírito maligno que habita meu computador e, de tempos em tempos, ele se manifesta fisicamente e eu preciso chamar um padre para formatá-lo. Foi o que aconteceu. Uma linda tarde de inverno ele simplesmente parou de funcionar...e eu perdi tudo inclusive o capítulo. Se não fosse a Santa Mari que guardava uma cópia deste capítulo, é possivel que jamais viessem a lê-lo desta forma rs. Então, lembrarei de ti em minhas preces...obrigada novamente por salvar este capítulo, e obrigada por revisá-lo tbm!!! Nikka-Lhyl: Ahahaha...pois é, e eu ainda quero ser uma árvore rs. A Elizabeth tem tchananam...acontece dos caras gostarem de mulher assim, vai entender. Eo que eu estou tramando já está parcialmente on-line. Depois de ter formatado vou precisar de um tempinho para voltar a atualizar o site, mas ele já está on. O endereço vc confere no meu profile. E adorei sua chamada hahaehauehaeuhae.
No mais é isso. Espero que gostem desse capítulo que está tão forçado quando elefante passado em buraco de agulha.
Jackeline: ahahah coitado do Will, ele é um cara legal... parece um "melhor amigo" rs. Esse tipo de cara sempre perde a mulher, vai entender... E o Jack não presta mesmo rs, não me culpe!
Mari: O que seria desta fic sem vc? i.i
Ety: APARECEU A MARAGARIDA OLÊ OLÊ OLÁ!!!! Sua sumida...que saudades!!! Que houve com vc? Terminei de reler sua fic tbm...está na hora da senhora postar de novo não está? Saudades da Julie... Eu morri de pena de matar o Tio, um dia escrevo uma fic ainda que se passe no passado desta daqui e "ressucito" ele, o Lui e o Angelo só para matar minha vontade de escrever sobre estes rapazes rs. Não suma de novo ok?
Lady: Muito bem vinda à Fúria! Fico feliz que esteja a seu agrado tbm. Servimos bem para servir sempre, é o que eu sempre digo... E que bom que valeu a pena, foram 25 páginas trabalhosas de escrever e sem dúvidas ainda mais penosas de ler rs. E bom...passei "só um pouquinho" da segunda...não morra! i.i
Taty: Eu? Por água na fervura? Ainda não viu nada! ahahaha. Bom demais conversar com vc pelo msn... ajuda demais e digo que terei o maior prazer em ler sempre suas histórias... Seu novo projeto está perfeito, embora vc duvide tanto assim do primeiro capítulo. Só te achei muito cruel rs.
Katie: E sabe que eu aprendi com a Taty a terminar capítulos nestes momentos, mas vc faz a mesma coisa com sua história e me deixou hiper-curiosa com o finalzinho da sua, então não reclame rs. Então faz o favor de postar logo seu próximo capítulo!
Kad: Que afinal vcs tem contra o Will? Ele é um cara bacana vai... Este não teve tanta conversa, mas teve alguns momentos decisivos para os próximos capítulos. Prometo deixar mais conversas para você ok? E posta logo na Rede Caribenha, o ultimo capítulo foi mto engraçado rs...
Então meninas, é isso!
Bjos e até o próximo capítulo!! (que eu espero que seja em breve!!!)
