SAVE ME
Capítulo 26. Ensinamentos
Noite, fim de semana, apartamento de Miyavi. Meses antes.
Estavam conversando tranquilamente. Assuntos banais, seguindo aquela rotina de quando estavam juntos. Miyavi sentado no sofá e Kai na cozinha. Sentia o aroma do chá que vinha do outro cômodo. Takamasa nunca fora muito habituado a chás. Preferia café, energéticos ou álcool. Preferia bebidas que lhe mantivessem atento ao que acontecia aoseu redor, ajudando-o com a vigilância vital em seu tipo de emprego. Porém, quando estava com o seu namorado, as coisas mudavam completamente.
Era com ele que relaxava de verdade. Esquecia as ruas, deixava de lado o trabalho eos problemas. Tornava-se mais brando, o temperamento se acalmava. Deixava de lado o rude investigador para tornar-se uma pessoa comum, mas claro que seu comportamento eo cotidiano atribulado recheavam as conversas vez ou outra, deixando o namorado incrédulo. Não por suas proezas e loucuras ao perseguir bandidos, mas por seu jeito.
– Mas você trata todo mundo desse jeito?
– Como assim "desse jeito"?
– Rude, malcriado, pretensioso, cínico...
– Ei! Também não precisa esculhambar! – disse, em tom de piada com um leve sorriso nos lábios.
– Estou falando sério, Myv.
– Eu não trato todo mundo assim. Só as do meu trabalho.
– E você diz como se fosse pouco.
– Não dá pra ser educado nas ruas, amor. Não dá pra pedir ou ser gentil com o tipo de gente que lido.
– Entendo, mas e os seus colegas de trabalho?
– Eles sabem como eu sou. Estranhariam se fosse diferente.
– Eles não devem é gostar de serem tratados assim.
– Estão acostumados.
– Devem falar horrores de você pelas costas.
– Não me importo. Nunca me importei.
– E com o que você se importa então?
– Eu me importo com você. – disse, abraçando-o por trás, encostando o queixo suavemente na curva de seu pescoço, sentindo o cheiro suave dos cabelos escuros.
Quando estava ao lado de Kai não precisava ser rude ou implacável. Ele era o outro lado de sua vida. Um lado bom, humano, suave. Era como se deixasse tudo para trás por causa de sua presença. Como se mudasse justamente porque ele estava por perto.
Yutaka era encantador. Estar ao seu lado significava perceber o quanto sua vida cheia de adrenalina podia ser na verdade tão vazia. Não que fosse desprovido de humanidade, mas simplesmente não tinha tempo pra isso. Seu trabalho exigia demais de si, tinha pouco tempo até mesmo para "sentir". Às vezes era tudo tão frio e violento que julgava ter perdido tal capacidade. E era um alívio constatar que ainda estava ali, esperando por algo ou alguém que valesse a pena. Kai fora essa pessoa, a única pela qual o seu afeto nãoera demonstrado de maneira torta. Estava satisfeito por isso, mas não o seu moreno. Pelo jeito ele não achava o suficiente.
– Precisa aprender a viver em sociedade, Myv.
– Eu vivo ocupado tentando proteger essa sociedade. Não me faz diferença.
– Certo, mas eventualmente você terá de falar com essas pessoas. Só pra constar, sabe? Nem que seja só pra perguntar as horas ou pedir um café. Esse tipo de coisa chata e banal que fazemos todos os dias. Por que não faz um esforço?
– Por que preciso disso? – perguntou, abraçando-o mais.
– Ah, só pra se integrar no convívio social... talvez porque um dia você possa depender dessas pessoas para algo que precise. Tem de aprender a pedir.
– Não sei se posso fazer isso.
– Eu posso te ensinar.
– Sou um péssimo aluno, Yukkun.
– Ah, mas posso ser muito didático. São lições práticas, que usará todos os dias. E garanto que vai gostar do meu método de ensino. – disse, virando-se no abraço e retribuindo o gesto de carinho. – Se você se comportar, prometo recompensa.
– Hum... que tipo de recompensa?
– Não posso estragar a surpresa. – Kai lhe disse, com o sorriso mais inocente do mundo. Uma inocência verdadeira, mas que poderia ser facilmente forjada quando se tratava de certas situações... mais sensuais, quentes, luxuriosas. E Miyavi se perguntava pra onde ia aquele anjo quando os beijos e carícias ficavam mais ousados.
– Não sei se estou gostando dessa conversa. – disse, sentindo o corpo do namorado perigosamente próximo do seu.
– Aaaah, mas aposto que iria adorar o meu método revolucionário de ensino. – as últimas palavras foram sussurradas de forma sensual, e Miyavi não pode resistir ao charminho de Yutaka. Um sussurro daquele teor ao pé do ouvido? Uma proposta daquelas? Não podia recusar.
O chá que ficasse pra depois.
Teve pouco tempo para pensar em outra coisa. Kai o estava puxando para o quarto, logo o empurrou para a cama e inclinou-se sobre seu corpo. Suas mãos lhe tocavam por baixo da roupa enquanto debruçava-se sobre o ele, sorrindo de uma forma que deixava toda a inocência para trás.
– Yukkun...
– Shhh... – disse, dando um tapinha em sua coxa. – Mas que intimidade é essa? Me chame de "sensei". Você é o meu aluno e agora eu vou te ensinar a primeira e mais importante das lições.
– Qual?
– Aprender a dizer "onegai". "Por favor".
Miyavi viu surgir um brilho diferente nos olhos de Yutaka, assim como um sorriso que conhecia bem. Não pode impedir que um sorriso igualmente lascivo viesse aos seus lábios.
Kai não ia ser bonzinho. As iniciativas eram todas dele. Não seria o seu anjinho naquela hora.
Horas de tortura e luxúria intensa estavam por vir.
ooOOoo
Miyavi não conseguia conter o sorriso ao se lembrar daquela noite. Ele realmente lhe ensinara a pedir por favor. O método revolucionário de Kai era cruel e impossível de resistir. Seu incrível poder de persuasão incluía incitar e evitar pelo máximo de tempo todas as carícias mais ousadas, deixando o tatuado completamente louco. O "por favor" soou em seus lábios diversas vezes enquanto o moreno lhe torturava com uma expressão cínica em seu rosto.
Mas até mesmo o cinismo de Kai era doce. A perversidade dele era feita de humor para o seu próprio bem. Yutaka era movido pelo carinho, pelo amor. Sabia disso a cada vez que sentia aqueles toques. Difícil crer, mas até mesmo sua luxúria tinha outro teor. Até isso ele conseguia fazer diferente. Tudo tinha uma motivação a mais, que lhe parecia absurda por tão banal.
Absurdo, mas nada que pudesse achar estranho. Apenas uma questão de ponto de vista, de tentar entender seu raciocínio. Kai era o seu oposto. Era difícil entender quem pensava diferente, mas ele era encantador. Não havia sacrifício em desvendá–lo e sim prazer. Gostava de ouvir suas conversas, sermões... até isso pois, afinal, sabia que erapara seu bem.
Yutaka não o temia, então dizia o que pensava sem receios. Era bom ouvi-lo: ele costumava alertá–lo sobre seu comportamento, educação, polidez. Depois do método revolucionário, melhor ainda.
Mesmo que a perda de Kai lhe tirasse também a humanidade, ainda se lembrava de suas lições. Lembrava-se bem do valor de um "por favor". Yutaka quase lhe fez subir pelas paredes nessa noite.
– Não existe apenas a força, Myv. Existem outros métodos, mais limpos e bem mais eficientes. Persuasão.
Era interessante ver como ele tratava as pessoas ao seu redor. A forma como ele as conquistava com apenas poucas palavras, o jeito como ele lhes dava atenção e conseguia a confiança dos outros. E mesmo com tudo isso ainda lhe parecia muito solitário.
Esse era o seu Kai. O elo que o ligava com a vida que considerava normal. Um elo rompido, porém deixara marcas, não somente de saudades, mas também de ensinamentos.
E por mais que tivesse perdido a humanidade, exercer aquelas lições também era um gesto de tributo. Hora de provar que ouvira com atenção e levara suas palavras e atitudes a sério.
ooOOoo
Manhã.
Miyavi estava chegando à delegacia, atravessando os corredores e indo para a mesa que passara a ocupar desde o afastamento do caso e trabalhava em sua nova função de cuidar da burocracia. Os volumes de trabalho estavam ali, mas não quem esperava encontrar.
Olhou em volta, procurando por seu parceiro de burocracia. Não o encontrou em meio às pessoas. Era estranho, pois ele sempre chegava antes do horário. Já estava quase perguntando para algum colega sobre onde ele poderia estar, até vê-lo dentro da sala do oficial superior. Não pode ver direito devido às persianas que protegiam o lugar dos olhos curiosos. Porém de qualquer modo aquilo lhe soou estranho.
Será que estão falando de mim?
Um raciocínio que fazia sentido, afinal a idéia de empurrarem um parceiro logo depois de o jogarem para o trabalho burocrático era no mínimo suspeito. Provavelmente o bochechudo recebia ordens para vigiá–lo... quem sabe não estava lá dentro justo para contar o que havia acontecido últimos dias?
Por acaso havia algo a ser dito? Não mais que o seu péssimo humor ou seu jeito peculiar de tratar as pessoas, especialmente o próprio novato.
– Myv! Você precisa ser mais educado! Vivemos em sociedade, sabia?
Kai lhe reprovaria diante dessa constatação. Sua voz e esse conselho nunca deixaram seus pensamentos, da mesma forma como várias outras coisas que ele lhe dizia: jamais saía de sua mente. Apenas estavam em segundo plano. Havia muito mais no que pensar, e educação era a última coisa para qual dedicaria seus esforços.
Seus planos eram honrar a memória de seu namorado: descobrir os assassinos e cuidar para que pagassem por seus crimes. Eles tinham que pagar. Ser cortês ou educado como Kai estava fora de cogitação. Precisava da aspereza e da brutalidade do qual ele tanto o recriminava. Precisava tornar-se o velho Miyavi: inflexível. Insensível.
Yukkun não ia gostar disso, mas esse era o tipo de desejo que seria obrigado a contrariar. Não poderia deixar que a justiça comum seguisse seu curso. Não se perdoaria se isso acontecesse: essa pretensa justiça era lenta demais. Leve demais.
O sangue derramado do homem que amava só poderia ser pago pelo sangue de seus assassinos.
Seus pensamentos foram interrompidos pelo súbito movimento daquele a quem estava observando: o novato curvou-se numa breve reverência diante do chefe antes de virar-se e deixar a sala. O rosto de Naoyuki não parecia zangado ou constrangido. Ele estava sério, apenas isso. Não havia nada mais pelo qual pudesse chegar a uma conclusão. Sequer uma pista.
Curiosamente o novato ignorou sua presença. Foi como se Miyavi não estivesse ali: puxou sua cadeira e sentou-se, abrindo uma das pastas e começando a trabalhar.
O tatuado ergueu a sobrancelha diante daquilo, embora fosse uma reação coerente. Talvez estivesse aborrecido... talvez não, com certeza. O tratamento que dispensava ao novato era motivo suficiente.
Até pensou em recuar, esquecer a idéia estranha de pedir desculpas ao novato e passou alguns segundos nesse impasse até se decidir. Seria um covarde se traísse qualquer uma das coisas que Kai lhe ensinara.
– E aí, novato? Levou a primeira bronca do chefe?
– Desde quando o que eu faço ou deixo de fazer te interessa?
– Você é o meu parceiro.
– Não somos parceiros, Ishihara. Foi você mesmo quem disse.
– Não é uma questão de escolha, Murai. Nos colocaram juntos e algum propósito há de ter. Estou tentando me acostumar com essa ideia.
– Não se esforce, é perda de tempo. Em breve vai acabar, e enquanto isso não acontece só precisamos falar o indispensável. Pra menos que isso, poupe suas forças.
O olhar era indiferente, mas concentrado no trabalho tedioso. Miyavi soube que naquele momento não conseguiria nada. Ponderou se valia a pena insistir, se não era melhor deixar tudo como estava, mas não conseguiu se convencer disso.
Teria de fazer outra tentativa mais tarde.
