O SENHOR DOS DRAGÕES

By Dama 9

Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, pertencem a Masami Kuramada e a Toei Animation. Personagens como Aishi, Eraen, as valkirias, Amélia, Aaron, Cadmo e Alana são criações únicas e exclusivas minhas para essa saga.

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Importante!

Dama 9 e amigos incentivam a criatividade e liberdade de expressão, mas não gostamos de COPY CATS. Então, participe dessa causa. Ao ver alguma história ou qualquer outra coisa feita por fã, ser plagiada ou utilizada de forma indevida sem os devidos créditos, Denuncie!

Boa Leitura!

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CAPITULO 26: Transformações.

.I.

O ar estava pesado e frio, sentia o corpo dormente e não tinha forças para se mover. Inerte, esperou pelo momento que seu fim chegaria.

Não tinha mais noção de tempo, apenas ouvia sua fraca respiração ressonar em seus ouvidos.

Quem diria que um dia estaria numa situação daquelas? Que patético! Isso porque sempre procurara trabalhar em segurança e proteger todos aqueles que estivessem consigo.

Pouco a pouco deixou de lutar contra o inevitável, sentia seu corpo cada vez mais fraco e a respiração antes pesada, estava se suavizando como se estivesse prestes a cessar. Fechou os olhos e esperou.

Apenas esperou, enquanto uma fraca luz acendia-se na escuridão. Será que iria morrer assim? Com o típico clichê da luz no fim do túnel?

Se fosse, jamais iria saber, porque no momento seguinte tudo se apagou.

A luz...

Seus olhos...

Sua vida...

-o-o-o-o-o-

Estupefato, viu o aquariano passar por si como um tornado, estancou no meio do corredor, observando-o desaparecer na entrada do hall, quase atropelando Siegfried e Hilda que haviam acabado de chegar.

-O que aconteceu? –Dohko perguntou vendo Aishi e Kamus se aproximarem.

-Acho que vamos precisar de um marceneiro; Kamus comentou casualmente.

-Porque? –Alana perguntou preocupada.

-Mestre Aaron quebrou a porta da adega; ele explicou displicente, lançando um olhar estudado a noiva. –Com ferrolho e tudo;

-Mas...;

-Eu dou um jeito naquilo depois; Aishi falou voltando-se para ele. –Alem do mais, eu já estava cansada de ouvir que era culpa minha o relacionamento dos dois não ter dado certo; ela reclamou.

-Jamais pensaríamos isso, mon petit; o aquariano falou abraçando-a fortemente.

-Mas eu não me sentiria bem enquanto isso ficasse pendente; Aishi murmurou.

-E para onde ele foi agora? –Alana perguntou apontando para a porta.

-Não sei, mas é melhor deixá-lo sozinho um pouco. Aaron também precisa de um tempo só dele; a amazona comentou.

-...; todos assentiram.

Alem do mais, nesse momento, por mais que desejassem fazer alguma coisa, não podiam se aproximar. Aaron precisava daquele tempo para esfriar a cabeça e pesar o próximo passo que daria.

.II.

Embevecido, observava a jovem deidade deslizar pelo salão como se flutuasse. Suspirou aliviado ao notar as faces rosadas e o sorriso cristalino, por um momento temeu que ela fosse ter uma daquelas estranhas recaídas e ficasse com febre novamente.

-Uhn! Parece que o cupido andou atirando suas setas por aqui! –a voz de Thor soou a seu lado, chamando-lhe a atenção.

-Como? – Alberich indagou, voltando-se para o cavaleiro, que tinha duas taças de vinho nas mãos, as quais, uma ele lhe estendeu.

-Olhe a sua volta; ele indicou. –Há muito tempo não vemos tantos casais reunidos aqui e se divertindo de verdade;

-...; Alberich assentiu pensativo. –Não me lembro de já ter visto algo assim antes;

-Asgard perdeu muito com a regência de Durval e toda essa tranqüilidade ainda esta equilibrada sob um fio de seda; Thor comentou.

-Mas eles ainda temem confiar em Hilda como regente, independente de tudo que aconteceu; Alberich lembrou.

-Nosso povo não passa de um bando de ratos medrosos. Acostumaram-se tanto em tratar com naturalidade a crueldade de Durval, que estranham um governante que não usa a repressão para reinar. Mas não vamos estragar essa noite falando de coisas desagradáveis;

-...; ele concordou.

-Então, vai tirar aquela bela jovem para dançar ou vai deixar que qualquer um lhe passe a perna? –Thor alfinetou, vendo o cavaleiro imediatamente franzir o cenho.

-O que quer dizer com isso? –Alberich perguntou pausadamente.

-Bem, você sabe. Aldrey pode ter uma aparência comum e pouco chamativa, mas aqueles olhos... Grandes e brilhantes, são capazes de fazer um homem esquecer o próprio nome; ele falou casualmente, com um sorriso que estava longe de ser inocente.

-É melhor você não continuar, Thor; Alberich avisou em tom frio.

-Eu só...;

-Eu sei o que você pretende; ele o cortou.

-Então? –Thor indagou arqueando a sobrancelha.

-Com licença; Aldrey falou se aproximando.

-Senhorita! – Thor a cumprimentou sorrindo e fazendo uma breve mesura.

-Algum problema? –ela perguntou vendo Alberich mais serio do que estava acostumada.

-Vamos dançar; ele falou puxando-a consigo, antes que Thor pudesse dizer qualquer coisa.

-Ele não é nem um pouco sutil; Nora falou balançando a cabeça levemente para os lados, enquanto se aproximava.

-O pior é que ele nem percebeu o quanto está apaixonado por ela; o cavaleiro comentou.

-Já era de se esperar que isso acontecesse; a valkiria falou sorrindo, enquanto via o casal tomar um lugar na pista, junto aos demais. –Eles ficam tão fofos juntos;

-Fofo? –ele repetiu torcendo o nariz.

-Puff! –a jovem resmungou, rolando os olhos.

Homens! Como é que ainda esperava um pouco de sensibilidade por parte deles? –ela perguntou-se aborrecida.

-Me concederia a honra? –Thor perguntou chamando-lhe a atenção.

-O que? –Nora falou surpresa quando o viu estender-lhe a mão.

-De dançar; ele falou pausadamente. Os orbes azuis quase prateados brilharam intensamente, deixando-a atordoada.

-Ahn! Sim... Eu acho; ela balbuciou, deixando-se guiar por ele até a pista.

Uhn! Parece que pelo menos uma alma se salvaria do reino de Hell; ela pensou contendo o sorriso.

-o-o-o-o-o-o-

Olhou extasiada para todo o salão, enquanto era guiada por Siegfried. Era impressionante o que eles haviam feito em tão pouco tempo. Há muitos anos não era feito uma festa nos salões de Asgard, alias, tanto tempo que nem ao menos se lembrava de quando fora a última;

-Incrível; Hilda murmurou.

-Que bom que gostou; Flér falou aproximando sorrindo.

-Mas como vocês fizeram tudo isso? –Hilda indagou surpresa, apontando para a decoração, o lustre de velas e as estatuas.

-Todos deram uma mãozinha; Leda explicou.

-Nem sei como lhes agradecer por tudo;

-Se divertindo e aproveitando a noite, já é um começo; Alana falou sorrindo.

-Obrigada; Hilda respondeu, antes que Siegfried arrumasse uma desculpa qualquer e a levasse para a pista de dança, monopolizando sua atenção pelo resto da noite.

-É bom que ver que apesar da tensão dos últimos dias, todos estão se divertindo agora; Alana comentou para as duas jovens.

-Gostaria que isso durasse pra sempre; Flér falou suspirando pesadamente. –E que não se falasse mais em guerras;

-Infelizmente só nos resta viver um dia de casa vez, Flér... Amanhã será outro dia e teremos de conviver com ele quando chegar; Leda falou seriamente.

-Você mudou muito nos últimos dias; Alana falou fitando-a com um fino sorriso.

-Como? –ela indagou confusa.

-É mesmo, alguns dias atrás você estaria querendo estrangular o Bado, ou atormentando Anieri; Flér brincou. –Mas pra falar a verdade, acho que todos mudaram um pouco nesses últimos dias, inclusive minha irmã; ela comentou.

-A necessidade de mudança é um dos primeiros fatores desencadeados com a guerra; Alana explicou. –É uma necessidade primitiva, que se torna mais forte do que nós mesmos quando nos encontramos em apuros;

-Tem razão; Leda murmurou pensativa.

Muitas coisas haviam mudado, inclusive sua relação com Bado, não sabia ao certo como isso aconteceu, mas num momento não estava ali e no outro, sim.

-Com licença, meninas; o geminiano falou se aproximando.

-Algum problema, Bado? –Alana perguntou ao ver o cavaleiro parar ao lado de Leda.

-Não, vim apenas convidar Leda pra dançar; ele falou voltando-se para a jovem, que corou furiosamente.

-Eu... Bem...; ela balbuciou.

-Então? –Bado indagou.

-...; Leda assentiu, seguindo com ele para a pista.

-É, parece que Eros andou atirando suas setas por aqui; Flér falou sorrindo, despedindo-se de Alana, assim que viu outro cavaleiro se aproximando.

.III.

Levantou-se com dificuldade do chão e para manter-se em pé, necessitou da ajuda de Ares. Embora o veneno de Christine não houvesse lhe atingido diretamente o pouco que respirara já deixara seus sentidos nublados.

-Você está bem? –ele perguntou ainda mantendo os orbes no céu, onde o dragão negro havia desaparecido.

-Estou, mas e ele? –ela indagou preocupada.

-Eu pensei que Eraen fosse o único dragão negro da Terra Média; Ares falou pensativo. –Quem é esse garoto afinal? –ele se perguntou.

-O Senhor dos Dragões; Amélia falou ficando seria. Lembrava-se do sonho que tivera com a mãe pouco tempo depois de chegar a Asgard e também, a visão que tivera de Ehnoryen com Ayres. Não havia duvidas, não depois daquilo.

Emmus era o Senhor dos Dragões...

Antes que pudessem dizer mais alguma coisa, um vento forte chocou-se contra eles, quase jogando-os no chão. Entre as nuvens, viram o dragão bater as asas e pousar na neve fria.

Gotas vermelhas escorriam por suas garras, manchando o gelo branco, num segundo sentiam a imensidão de seu poder emanado por cada fibra, no segundo seguinte seu cosmo apagou-se quebrando por fim a transformação.

Os orbes vermelhos fecharam-se pouco antes de seu corpo chocar-se contra a neve e a inconsciência dominá-lo novamente.

-Volte ao castelo; Ares falou para a jovem, antes de correr até o dragão.

Ela assentiu resignada, optando por obedecer, já que era evidente que não estava em condições de ajudar ninguém no momento, não enquanto o veneno de Christine ainda estivesse em sua corrente sanguínea.

-o-o-o-o-o-

Com dificuldade colocou-o sobre a cama, o cavaleiro ainda estava inconsciente, mas sentia seu cosmo pulsar fracamente. Ele havia gastado energia demais com a transformação e com os poucos minutos que mantivera-se na forma de dragão.

-Como ele esta? –Amélia perguntou preocupada, sentando-se em uma poltrona próximo a lareira.

-Vivo; Ares respondeu, enquanto tirava o pesado sobretudo do rapaz.

Outra curiosidade sobre aquilo tudo, eram as roupas. Lembrava-se vagamente de Eraen reclamar, que quando as transformações ocorriam, normalmente apenas três vezes a cada mês, seu cosmo se descontrolava de tal maneira, que com a mudança de forma física, suas roupas normalmente acabavam em farrapos.

Mas com ele era diferente, suas roupas só estavam danificadas, nos locais onde ele enroscara no gelo na queda e onde as garras de Christine haviam atingido no abdômen, nada mais.

-Tem algo que eu possa fazer? –Amélia perguntou sentindo-se melhor depois de entrar no castelo, onde os últimos resquícios de veneno de Christine não podiam lhe alcançar.

-No fim do corredor, tem um salão onde eu deixo o estoque de suprimentos para o inverno. Lá você pode encontrar mais alguns cobertores, você pode trazê-los para cá. À noite já esta caindo e promete ser ainda mais fria do que a anterior. Se ele não acordar, vai precisar de algo para mantê-lo aquecido, enquanto o cosmo dele não se recupera;

-Mas...; ela falou hesitando, não sabia se podia confiar em Ares, mesmo ele tendo lhes ajudado, era perigoso simplesmente confiar e deixar Emmus ali, vulnerável a qualquer ataque.

-Pode ir, eu cuido dele; ele falou calmamente, embora isso não houvesse a tranqüilizado nem um pouco.

Respirou fundo e pediu aos céus que nada acontecesse na sua ausência, pois se hesitasse mais um pouco, Ares saberia que havia algo errado e iria lhe questionar sobre isso e obviamente, não poderia dizer "Olha! Você é o irmão do Grande Mestre do santuário e tenho todos os motivos do mundo para não confiar em você". Bem, isso não seria nada diplomático; ela concluiu.

-Eu volto logo; ela falou pegando um dos lampiões que Ares acendera pelo cômodo e seguiu até a sala indicada.

.IV.

Comédia de erros! Talvez esse fosse um bom nome para dar a sua autobiografia se um dia decidisse escrever uma. Quem sabe pudesse aproveita a idéia num futuro próximo; ele pensou enquanto olhava vagamente para o restinho de uísque que dançava no fundo do copo.

Se embebedar estava longe de ser uma saída inteligente e racional, mas nesse momento o que menos queria era ser qualquer um dos dois.

Detestava-se por ter perdido a calma e ainda mais, aquele sentimento de frustração.

Durante os últimos vinte anos, havia desejado viver um amor intenso, como o de Kamus e Aishi. Um amor que superasse tudo e qualquer obstáculo.

Fora isso que lhe motivara a agüentar o treinamento de seis anos na Sibéria e voltar ao santuário para encontrá-la, mas as coisas não haviam saído como desejara.

Reencontrara Alanis apenas para ouvir um "Adeus" carregado de ódio e ressentimento.

Todas as expectativas haviam ruído dando lugar a um vazio intenso e profundo.

A acusação de traição o fez enterrar qualquer pensamento que insistisse em lutar contra o orgulho.

E no fim, porque? Talvez fosse exagero achar que tudo era culpa da louca da mãe de Alanis, porque se tivesse insistido, poderia ter conseguido algo no fim.

Mas jamais saberia. É, era irônico. Uma vez Cadmo dissera "As melhores mulheres já estão comprometidas". Na época não deu atenção a isso, tão pouco para os motivos que levaram o Escorpião a comentar, mas compreendia agora.

Quando tomou conhecimento por Freya de toda a história que envolvia Harmonia, torceu dia a dia, para que ela e Kamus se reencontrassem, inconscientemente desejou que as guerras acabassem logo para isso acontecer.

Sentia orgulho do pupilo ter se tornado um homem de caráter e princípios fortes e que Aishi apesar de tudo, fora paciente, esperando o momento certo, mesmo com todos os riscos que corria disso nunca acontecer.

Agora sabia que as mulheres fortes e determinadas como ela, já estavam comprometidas, provavelmente com algum amigo seu; ele concluiu com um sorriso amargo.

Irônico! Muito irônico!

-Posso me sentar? –alguém indagou a sua frente.

Ergueu os orbes e viu Cadmo ali, franziu o cenho e antes que pudesse responder, ele já havia puxado a cadeira e se sentado.

-Espero que não se importe; ele falou displicente.

-Não; Aaron limitou-se a responder e observar o amigo pedir ao taberneiro que lhe trouxesse uma dose de uísque e outra para si.

Nenhuma palavra foi dita, mas sentia como se houvessem voltado no tempo, na época que ainda eram cavaleiros e costumavam sentar-se em frente a seus templos para beberem e ficavam assim, sem a preocupação de dizer algo errado ou de ter de dizer algo, para não deixar o silêncio reinar.

Como amigos!

Apenas dois amigos...

-o-o-o-o-o-

Estreitou os braços em torno da jovem, ouvindo o baixo suspiro que escapou dos lábios rublos. Embora os acordes de Mime e dos outros que ocuparam-se em tocar aquela noite, reverberassem pelo salão, sentia-se num mundo a parte dos demais.

Quem pode dizer para onde vai a estrada?

Para onde o dia flui?

Só o tempo...

-Alberich; Aldrey sussurrou, apoiando a cabeça sob o ombro do cavaleiro e enlaçando-lhe o pescoço com os braços delicados e esguios.

-Uhn?

E quem pode dizer se o seu amor cresce,

Conforme seu coração escolhe?

Só o tempo...

Sentia o corpo delicado movendo-se no mesmo ritmo que o seu, os corações batiam na mesma cadencia, enquanto a respiração quente da jovem chocava-se contra seu pescoço.

Os braços fortes do cavaleiro estreitaram-se ainda mais em torno dela, enquanto a chama das velas no salão pareciam perder parte da intensidade, dando ao ambiente um brilho enigmático e misterioso.

Quem pode dizer por que seu coração suspira

Conforme seu amor voa?

Só o tempo...

-Me sinto diferente quando estamos juntos; a jovem sussurrou, sentindo a face aquecer-se.

-O que você sente? –ele indagou num sussurro enrouquecido.

-Não sei ao certo; Aldrey murmurou. –Mas fico inquieta quando você não esta por perto, eu... Tenho medo que aconteça alguma coisa com você, agora que a guerra esta se aproximando; ela completou com os orbes marejados.

-Não vai acontecer nada; o cavaleiro falou veemente.

E quem pode dizer por que seu coração chora,

Quando seu amor morre?

Só o tempo...

-Mas...;

-Xiiiiiiii; Alberich sussurrou, tocando-lhe os lábios com a ponta dos dedos. –Não pense nisso agora; ele completou vendo o brilho rebelde nos orbes castanhos.

Um fino sorriso formou-se em seus lábios, enquanto acariciava-lhe a face suavemente, Aldrey não admitia meias respostas, tão pouco ser contrariada. Desde o começo fora assim, mas tinha de admitir que ela não era a única a se sentir diferente.

No inicio, pensou que fosse apenas curiosidade por querer saber quem era aquela misteriosa jovem que quase se afogara no lago de gelo, depois, qual a relação dela com a dama de melenas douradas que aparecia constantemente em seus sonhos e cujos orbes violeta pareciam tão tristes e sofridos que era de partir o coração.

Embora não houvesse encontrado nenhuma resposta para suas indagações, não conseguia desviar o olhar da delicada deidade em seus braços. Era impossível negar sua inquietação quando precisava sair e afastar-se dela, ou irritação, quando estavam juntos e alguma criatura inconveniente os atrapalhava.

Quem pode dizer quando os caminhos se cruzam,

Que o amor deve estar em seu coração?

-Prometo! Vai ficar tudo bem; ele completou roçando-lhe os lábios suavemente, sentindo-a entreabri-los, receptiva ao calor dos seus.

Jamais esteve em busca de redenção, mas muitas coisas haviam mudado sem que notasse, ou melhor, que tivesse forças para impedir. Duvidava muito que Aldrey um dia pudesse se interassar pelo homem que fora até poucos anos atrás, mas agora, sentia como se aquele Alberich e o seu "eu" de agora, fossem pessoas completamente diferentes, mesmo que em alguns aspectos se assemelhassem um pouco.

E quem pode dizer quando o dia termina,

Se a noite guarda todo o seu coração?

Quem sabe?

Os dedos delicados e finos entrelaçaram-se nos fios rosados e o puxaram para si, impaciente e ansiosa, o calor emanado dos lábios rosados era intenso e acolhedor. Pouco a pouco a musica que os rodeava deixou de ter importância, junto com o olhar de todos que não pareciam nem um pouco surpresos por vê-los juntos, daquela forma.

Quem sabe?

Só o tempo...

.V.

Todo o caminho que percorrera até ali era úmido e frio. Não tanto quanto lá fora é claro; ela pensou vendo uma fina nuvem branca sair de seu nariz e a respiração tornar-se mais pesada.

Ares dissera para seguir por ali, onde encontraria as cobertas que precisavam. O castelo fora todo destruído como Alana lhe contara uma vez, mas ainda restava um andar quase intacto, onde Ares guardava os suprimentos para o inverno.

Suspirou pesadamente, não deveria ter deixado Emmus sozinho, não depois de tudo que ouvira sobre o irmão mais jovem do Grande Mestre.

Continuou a andar, a luz ali era bem parca, por isso o lampião em suas mãos clareava apenas alguns passos à frente. Ainda sentia-se tremula, depois de sentir todo aquele poder manifestando-se em Ehnoryen.

Emmus tinha um poder sobre-humano, agora acreditava em seus sonhos e no que eles lhe diziam. Só sentira uma energia assim tão poderosa em Mú, quando ele despertara sua armadura e até onde sabia, o que sentira não era nem a metade. Mas com Emmus, ainda estava surpresa por aquela manifestação.

Emmus era o Senhor dos Dragões, não tinha mais duvidas quanto a isso. Parou de andar no meio de um desnível de solo, viu-se diante de um grande salão quando ergueu os orbes e a luz passou a iluminar parcamente o cômodo.

Ergueu ainda mais o lampião para enxergar melhor e entrou. A luz iluminou algo que cintilou quando se aproximou. Continuou a andar e surpreendeu-se ao ver a ponta de uma moldura dourada. Afastou-se um pouco da parede e com o lampião o mais alto que pode erguer, prendeu a respiração quando ele mostrou o que havia na parede.

Levou a mão livre aos lábios abafando um grito, a sua frente via a imagem de um homem surpreendentemente belo, com longos cabelos negros, mas podia ver entre eles alguns fios esmeralda.

Seus orbes eram tão vermelhos quanto rubis recém lapidados. O quadro era tão grande que a luz não o alcançava completamente, mas o que viu foi o suficiente para notar a semelhança dele com o jovem que dormia a alguns cômodos dali.

Se aquele Emmus que vira se transformar mais cedo era o atual Senhor dos Dragões, esse que via refletido no quadro agora nada mais era do que o primeiro, o primeiro senhor; ela pensou assombrada com a incrível semelhança entre os dois.

Deu mais alguns passos e parou ao avistar uma outra moldura, ergueu o lampião novamente e sentiu a mão tremer ao ver a nova imagem, ambas estavam um pouco desgastadas pelo tempo, mas era como uma inversão ao retrato de Dorian Gray, que enquanto o jovem permanecia eternamente belo o quadro mudava por si, ali, a moldura poderia estar gasta, mas as imagens estavam intactas.

Naquele via a imagem de uma jovem de longos cabelos lilases e olhos verdes, mas também não sabia dizer se eram vermelhos ou apenas efeito da luz,mas o que lhe chamou a atenção foi a expressão tranqüila e determinada em sua face, lhe lembrava tanto o-...;

-Mú; o nome do cavaleiro escapou de seus lábios por acidente.

Voltou-se para os lados espantada, como se não houvesse reconhecido sua própria voz, mas não, fora ela mesma a falar e realmente, não poderia negar a semelhança assombrosa entre eles. Entretanto, tudo aquilo era muito estranho, principalmente porque a pessoa retratada ali era a versão feminina do ariano, mas não podia negar também a semelhança dela com o homem do outro quadro e por conseqüência, com o cavaleiro que estava com Ares.

Será que o aquele Emmus era irmão de Eraen, talvez isso justificasse a semelhança, embora não se lembrasse de ter ouvido Alana contar que Emmus I tivera dois filhos e sim, apenas uma filha. Talvez devido àquelas velhas e patéticas tradições nórdicas de que ao nascerem filhos gêmeos os pais tem de escolher uma criança e se livrar da outra para não dar azar.

Emmus I não parecia ser o tipo de homem que se deixaria levar por algo assim e ser privado de um dos filhos, mas e se as coisas houvessem ocorrido de forma diferente? No primeiro sonho que tivera com Emmus, sua mãe falara que ele precisou deixar a Terra Média, talvez ela estivesse se referindo a isso, ou não.

Mesmo porque, levou um bom tempo para compreender que sua mãe não era tão jovem quanto imaginava e ao se referir a Emmus, poderia muito bem estar falando de algo que acontecera muitos séculos antes.

Balançou a cabeça freneticamente para os lados, isso era tão confuso. Deu mais alguns passos e encontrou uma nova moldura, mas ao erguer a luz, viu a tela em branco. Totalmente em branco.

Recuou alguns passos e rodou a luz pela sala, não havia mais quadros, apenas aqueles três. Voltou para o primeiro, que retratava o Senhor dos Dragões montando um garanhão negro, mas os pêlos reluziam tanto sob a luz do sol, que pareciam prateados.

As vestes mesclavam-se entre preto e verde-escuro, apenas um ou outro detalhe em prateado. Mas o que mais lhe chamou a atenção foi o olhar, era impressionante, quando havia se afastado, notou que mesmo que andasse para o lado, era como se o olhar dele lhe acompanhasse, e frente a frente, sentia como se a qualquer momento ele fosse saltar da tela.

Apenas aquele olhar era capaz de transmitir um poder devastador, estremeceu ao imaginar como seria encontrar um homem tão implacável como ele. Emmus I definitivamente fazia jus ao titulo que tinha.

Ele sem duvidas, era o Senhor dos Dragões...

Ao longe alguma coisa caiu no chão, assustada, correu de volta para o corredor e buscando se concentrar nas indicações de Ares, foi até o cômodo que ele lhe indicara. O quanto antes voltasse ao quarto e se certificasse de que Emmus estava bem e consciente, mais calma ficaria; ela pensou.

-o-o-o-o-o-o-

Com a ponta do tição avivou as chamas da lareira, já estava começando a cair a temperatura. Os orbes rosados, quase vermelhos perderam o foco por alguns segundos e sua mente vagou perdida no tempo.

Não sentia falta da Grécia, durante anos repetira isso a si mesmo, que agora já estava totalmente convencido. Sentia falta de Eraen e mesmo que na época seu orgulho besta não houvesse lhe deixado admitir, iria até o inferno pra trazê-la de volta.

Sentia falta daquela época que sua vida era mais simples e que suas escolhas não afetavam ninguém alem de si mesmo. Já cometera muitos erros, porém não estava buscando redenção, se não já teria voltado à Grécia mesmo assim, disposto a enfrentar o julgamento do irmão, que há essa hora já deveria saber de tudo que andara fazendo em sua ausência.

Suspirou, afastando-se das chamas, a menina estava demorando, deveria ter ido em seu lugar, mas algo lhe fez ficar. Um estranho sentimento de proteção, aquela necessidade de cuidar que só experimentara quando estava com Eraen.

Não que duvidasse da capacidade da jovem valkiria em proteger o rapaz que estava inconsciente, mas era que estranhamente sentiu que deveria permanecer ali.

Aproximou-se da cama, aquele era o único cômodo sobrevivente no castelo que vinha ocupando durante aqueles anos, então achou que ele seria melhor instalado ali.

A face lisa e bem talhada franziu-se com preocupação quando ele viu o jovem ainda pálido. Nunca vira um dragão se transformar antes, alias, sabia que muitos dragões, principalmente aqueles poderosos como Eraen, poderiam manter formas humanas e mudarem sempre que necessário, mas jamais presenciara algo como a horas atrás nem com Eraen.

Ele deveria estar exausto por tanto esforço. Tocou-lhe a testa com a costa das mãos e constatou aliviado que ele não tinha febre, mas não acordava também. Em que espécie de mundo sua mente vagava, agora que jazia perdido em sonhos? –ele indagou-se.

Suspirou pesadamente, aquilo era muito estranho, ele lhe parecia muito familiar, embora não soubesse porque.

-Amélia! –ouviu o sussurro tremulo e viu-o se remexer inquieto.

-Calma garoto, ela já vem; Ares falou empurrando-o de volta a cama pelos ombros quando ele ameaçou se levantar.

Mesmo inconsciente ele continha o próprio cosmo, limitando a energia que fluía. Tinha de admitir, aquele garoto era impressionante, talvez fosse por isso, ou uma feliz coincidência que ele tivesse o mesmo nome do pai de Eraen; Ares pensou, enquanto afastava-se e voltava a se sentar na cadeira próxima a lareira.

Em cinco anos, Ehnoryen nunca recebera um misero ataque, agora menos de cinco horas atrás vira a maior batalha épica de toda sua vida, quando dois dragões se digladiaram entre os montes escarpados, com uma brutalidade que era capaz de causar-lhe arrepios só de pensar.

Aquela mulher jamais teria chance de vencer Emmus, a tal de Christine era uma amadora perto do dragão negro de olhos vermelhos, cujo poder jamais poderia comparar a algum conhecido, porque simplesmente não lembrava de ninguém, nem mesmo Eraen, que tivesse todo aquele poder.

Aproximou-se de uma cortina e afastou-a um pouco, revelando a porta de vidro que levava ao jardim secreto.

Eraen! O que será que ela iria pensar sobre isso, se estivesse aqui agora? –ele se perguntou vendo através do vidro, o solitário esquife de gelo ser pouco a pouco coberto pela neve que caia lá fora.

.V.

Folheou pagina por pagina, impaciente. Maldição, depois de tantos séculos, aquelas informações não poderiam ter simplesmente evaporado dali. Não, devia estar em algum lugar, pelo menos esperava que sim; Saga pensou afastando-se da escrivaninha e seguindo até as prateleiras abarrotadas de livros, da biblioteca do santuário.

-Nossa, que bagunça é essa? –Shion perguntou entrando com Ilyria e Litus na biblioteca.

-Mestre; o geminiano falou surpreso.

-Algum problema, Saga? –Litus perguntou confusa, ao vê-lo voltar à escrivaninha e fechar os livros que estavam ali por cima.

-Não, estava apenas procurando um livro; ele falou com um sorriso forçado.

-Quem sabe se você nos disser, podemos ajudar; Shion sugeriu, olhando-o intrigado.

-Ahn! Não se incomodem, já acabei por hoje; Saga respondeu, empilhando os livros no braço e indo devolvê-los a seus respectivos lugares nas prateleiras.

-Tem certeza, porque não é problema para nós ajudá-lo; Ilyria insistiu.

-Não, esta tudo bem; ele respondeu.

Não podia simplesmente berrar aos quatro ventos o que estava acontecendo, alias, tão pouco tinha idéia de como aquele vampiro filho da mãe conseguira lhe fazer prometer que não contaria nada ninguém.

Ainda estava se recuperando do choque de encontrar Aidan em seu templo, quando ele apareceu com aquela historia de precisar de um livro de registros sobre os dez anos seguintes a última Guerra Santa.

Sabia que o santuário possuía muitos diários, mas a maioria se perdera com o tempo, como poderia saber qual livro ele queria, no meio de tantos pergaminhos e relatórios antigos? –ele se perguntou aborrecido.

Entretanto, algo que Aidan lhe dissera, lhe chamou a atenção. Ele disse que queria apenas os livros que fizessem menção a Afrodite, Posseidon e algo chamado "Coração do Oceano".

Não sabia ao certo como, mas tinha certeza de que já ouvira algo sobre isso antes. Entretanto deixou isso de lado quando o mesmo havia mencionado que era Jéssica quem queria tais relatórios.

Fazia vinte anos que não via a amazona, alias, somente a pouco tempo atrás soubera que ela ainda estava viva. Isso acontecera numa conversa casual que tivera com Giovanni e ele mencionara que a jovem estava vivendo na Itália e deixara Arshet apenas para ocasionais visitas, mas isso acontecera a quase seis meses atrás.

Não que ainda sentisse algo por ela, mas... Tinha de confessar que ficou um pouco decepcionado ao saber que ela e Aidan estavam juntos, bem, pelo menos foi isso que o vampiro deu a entender, quando disse que viera buscar os livros a pedido dela, enquanto ela estava ocupada com outras coisas, as quais preferiu não saber o que era.

Aidan também não parecia confortável com a situação, teria se divertido com isso, se o vampiro não houvesse mostrado todo o desagrado que sentia quando mencionou que Kanon estava vivendo em Dublin e que o irmão talvez ficasse surpreso ao saber que o vampiro ainda estava vivo.

Nesse momento ele pareceu ficar irritado e igualmente impaciente. Tanto que gentilmente lhe "ordenou" que encontrasse "os malditos" livros, que ele voltaria depois para buscar.

Bufou exasperado, quem aquele idiota pensava que era para ficar aceitando ordens, ainda mais dele? – Bem, de qualquer forma, estava curioso para saber o que Afrodite, Posseidon e essa história de Coração do Oceano tinham a ver.

-Estávamos pensando em jantar na Toca do Baco; Litus comentou, chamando-lhe a atenção.

-Ótimo! Mas porque não vamos a Balada das Musas para variar um pouco; Saga falou enquanto terminava de guardar o último livro.

-Realmente, podemos fazer isso hoje, se vocês quiserem? –Shion falou voltando-se para a esposa.

-Você ainda vai fazer mais alguma coisa, aqui Saga? -Ilyria perguntou.

-Não, já terminei mesmo; ele falou suspirando com discreto alivio, quando guardou o ultimo livro.

-Então podemos ir? –Litus falou animada.

-Claro, só preciso parar em Gêmeos para me trocar e já vamos; ele falou enlaçando a namorada pela cintura e puxando-a consigo para fora da biblioteca.

-Encontramos vocês lá embaixo; Ilyria falou assim que eles saíram.

-Certo; a jovem respondeu do corredor.

-O que será que ele estava procurando? –a ariana indagou voltando-se para o marido.

-Não sei; Shion murmurou puxando a lombada de um dos livros que Saga havia guardado. –História do Santuário - A Última Guerra Santa por Christian Dampier; ele falou abrindo o livro.

-Christian Dampier? –Ilyria perguntou.

-Sim, Christian foi o último Grande Mestre do Santuário, antes de mim; Shion explicou. –Ninguém sabe como ele morreu, apenas que esse livro apareceu do nada quando começamos a reconstruir o santuário;

-A que casa ele pertencia? –ela perguntou curiosa.

-Gêmeos; ele respondeu pensativo.

Porque Saga estava procurando os registros da última guerra santa, ou melhor, o que ele estava procurando que não encontrara naquele livro? –Shion se perguntou intrigado.

-o-o-o-o-o-o-

Enrolou-se entre as cobertas, sentindo o frio gelar-lhe o corpo e a alma. Nunca se sentira tão sozinha quanto agora; ela pensou passando as costas da mão pelos olhos, tentando aplacar as lágrimas que voltaram a cair.

Encostadas aos pés da cama, as malas de Cadmo já estavam arrumadas. O cavaleiro partiria no inicio da manhã e estaria sozinha novamente. O melhor que tinha a fazer era voltar para a França; ela pensou.

-Vai fugir novamente? – uma voz ecoou em sua mente.

Não estava fugindo, apenas indo embora; ela pensou como se tentasse se convencer disso.

-Patética!

Franziu o cenho, não tinha motivo para permanecer em Asgard, Leda já era bem grandinha pra tomar as próprias decisões e nada do que falasse iria dissuadi-la do contrario. Alem do mais, não tinha mais motivos para ficar.

-E ele, vai se acovardar novamente e perdê-lo de vez? –aquela voz insistente vociferou furiosa em sua mente.

-Como se houvesse alguma chance para nós agora; Alanis murmurou.

-Somente os covardes desistem sem lutar;

Naquela época não tinha maturidade suficiente para lutar pelo que sentia, alem de autoconfiança para tanto, por isso muitas vezes se deixou levar pelos maus exemplos que via em vez de usá-los como uma forma de não errar também.

Deveria ter confiado um pouco mais também; ela pensou. Mas não podia atribuir tudo como culpa das sandices de sua mãe, porque teve uma grande parte no fracasso dessa relação.

-E o que pretende fazer com relação a isso? –a voz indagou.

-Como assim? –Alanis perguntou confusa.

-Vai deixar que ele simplesmente saia de sua vida, sem lutar. Naquela época você era imatura demais, agora... Você é orgulhosa demais. Nenhuma relação se constrói sem alguém ter de ceder ou abdicar de algo, em favor do outro. Mas no fim, é uma troca equivalente. Sem isso, sentimento algum sobrevive;

Assentiu distraidamente, mesmo que fosse difícil admitir sua "consciência" tinha razão. Entretanto agora, não podia fazer nada. Teria de esperar Aaron chegar e com a cabeça mais fria, tentar conversar com o cavaleiro.

Isso, se conseguisse faze-lo lhe ouvir; ela pensou recostando a cabeça sobre os travesseiros e pouco a pouco, deixou-se levar pela exaustão e dormiu.

-o-o-o-o-o-o-o-

Ergueu a taça de champanhe e bateu-a levemente sobre a outra. O cristal tilintou com suavidade e um fino sorriso formou-se em seus lábios.

-A saúde de todos e a paz futura; ele falou.

-Saúde; o cavaleiro de melenas alaranjadas respondeu, dando um suspiro cansado. –Se ao menos pudéssemos garantir que será sempre assim; Mime completou.

-Não sabemos o que será do amanhã; Siegfried comentou, enquanto levava a taça aos lábios. –Só nos resta viver um dia depois do outro;

-Pelo menos alguns conseguem isso; Mime comentou, indicando com a taça Alberich e Aldrey que deixavam o salão apressadamente.

-Esses dois; o cavaleiro falou balançando a cabeça levemente para os lados. –Se alguém um dia me dissesse, que eu viveria para ver Alberich de quatro por uma mulher, eu chamaria de louco;

-E eu, de vidente; o amigo respondeu sorrindo. –Muitas coisas mudaram desde que éramos crianças. Inclusive a forma que cada um de nós tinha sobre como encarar a vida;

-E as guerras ajudaram a mudar isso; Siegfried comentou.

-Acho que o que pesou mais para ele foi saber a verdade; Mime falou pensativo. –Saber que foi a avó que entregou a localização de Fazolt e Alexandra para Durval e o segredo do Tigre Branco; ele murmurou. –Houve uma época que eu pensei que ele não deixaria mais mulher alguma se aproximar o suficiente para confiar, até que Amélia apareceu;

-Tenho de admitir que ela foi uma das causadoras das mudanças na minha forma de pensar; Siegfried falou. –E creio que vocês também compartilham dessa opinião;

-Sim, completamente; Mime falou veemente. –Mas fico feliz que ele e Aldrey estejam se dando bem, mesmo com esse frágil momento de paz que estamos vivendo;

-....; o amigo assentiu, antes de levar a taça aos lábios, provando o liquido âmbar. –E você?

-O que tem eu? –ele perguntou voltando-se para o cavaleiro.

-Porque anda evitando Anieri? –Siegfried perguntou, enquanto recostava-se no balaústre de uma das sacadas do salão de festas.

-Não estou a evitando; Mime respondeu, desviando o olhar desconfortável com o assunto abordado.

-Desde o conselho, você tem mantido uma certa distancia dela. Os outros podem não ter percebido, ou até mesmo ela. Mas basta olhar com um pouco mais de atenção para perceber que você anda evitando ficar muito tempo sozinho com ela, ou como você sempre da um jeito de se afastar, quando ela se aproximava para conversar; Siegfried comentou.

-Eu não... Bem, talvez um pouco; ele admitiu, baixando os olhos para a própria taça.

-Quer me contar o que esta acontecendo? –Siegfried perguntou casualmente.

-Eu só quero dar um pouco de espaço a ela para tomar as próprias decisões, sem se sentir pressionada; Mime respondeu.

-Uhn?

-Durante muito tempo ela teve de se esconder para poder continuar vivendo e agora, mesmo que dessa maneira bizarra, ela tem a chance de experimentar um pouco de liberdade. Viver sem se preocupar em ser caçada como antes; ele falou suspirando pesadamente. –Não quero de alguma forma, prendê-la a mim e depois, se não der certo. Ficar como Alanis, amargando o resto da vida e vivendo de ressentimento e ódio; ele completou.

-Algo me diz que não é apenas isso; Siegfried comentou. –Porque se fosse, eu diria que o mais certo é você ir conversar com Anieri sobre o que esta sentindo, só assim poderá resolver o problema; ele falou, mas imediatamente notou o cavaleiro ficar ainda mais tenso.

-Acho que não vai dar certo; ele falou pensativo.

-Porque diz isso? –ele perguntou intrigado.

-Não sei o que ela realmente sente; Mime falou encostando-se no balaústre, enquanto os orbes rosados vagavam pela escuridão da noite. –Tudo bem que há uma química entre nós desde o começo, mas nenhum relacionamento sobrevive apenas de atração e desejo; ele completou.

-Você acha que é apenas isso? –Siegfried indagou.

-Da minha parte não, mas não posso dizer o mesmo sobre ela; ele completou por fim.

.VI.

Abriu os olhos lentamente, sentiu a vista ainda turva e o corpo gelado. A larga lareira estava acessa e o cheiro de pinho queimando chegou até si provocando uma nova torrente de lembranças.

Fora naquela mesmo cômodo que vivera boa parte de sua vida. Eram tantas as noites que passara ali, enrolado em uma coberta de lã, sentando próximo ao fogo ouvindo-a contar histórias mirabolantes sobre o avô.

Aquele era um dos momentos que não sentia a diferença entre dragões e mortais comuns. Não havia espaço para esse tipo de preocupação.

Suas pupilas dilataram e seus sentidos ficaram imediatamente alertas para o som daquela voz.

-Onde esta Amélia? –Emmus perguntou mal notando a rouquidão da própria voz.

-Esta descansando no outro quarto, aqui em frente; Ares respondeu. –Ela passou bastante tempo aqui, mas estava exausta e precisava descansar um pouco para se recuperar.

-Por quanto tempo eu apaguei? –o jovem perguntou confuso.

Agora lembrava com clareza da primeira e última vez que aquilo acontecera. A quase dezesseis anos atrás, quando ele e Ariel estavam em Londres. Haviam deixando La Rochelle naquela mesmo dia, pretendiam voltar logo já que a saúde de Axel estava um pouco comprometida pelo clima frio daquela época do ano na ilha.

Mas as coisas se complicaram, então, aconteceu! Primeiro a dor de sentir o corpo delicado da jovem de melenas negras perder a vida. Depois o ódio daquele que a feriu de maneira tão cruel.

Ai aquela voz surgindo em sua mente como um sussurro carinhoso e acolhedor. Ainda lembrava da forma como seus sentidos ficaram mais aguçados. O som do próprio coração batendo desenfreado.

A dor que sentiu com o primeiro espasmo que precedia a transformação, foi ínfima perto do que sentia, quando a carregou o corpo inerte da sereia para longe da multidão.

As lágrimas que rasgavam-lhe a face não pareciam suas, não as sentia caírem. Era como se simplesmente estivessem lá junto com uma dor ainda mais antiga que agora, mas não tinha tanta certeza de que pertencia a si todo aquele pandemônio de emoções.

Independente da dor a transformação aconteceu e diante daquele momento, até os segundos passaram lentos, esteve consciente o tempo todo. Era estranho que se lembrasse disso apenas agora. Essa parte de sua vida, nos últimos quinze anos era um borrão grande e branco.

Lembrava-se apenas do momento que batera as portas do reino de Hades e depois o encontro com Pandora. Os olhos cintilantes da menina possuíam uma força que jamais vista antes, até mesmo entre cavaleiros. Suas palavras eram um sussurro vago e longínquo.

Depois, estava entrando com Ariel na igreja de Saint Margaritte em Londres. Só se lembrava de Axel vindo ao seu encontro, não lembrava de ter ouvido-o dizer algo quando chegara, tão pouco estava se importando com o choque estampado em cada uma das pessoas que estava ali quando atravessou a nave da igreja.

Durante anos revivera em sua mente aquela cena e nada lhe trouxe a explicação que buscava, as informações que haviam desaparecido.

-Como esta se sentindo? –Ares perguntou.

-Bem; Emmus respondeu.

Sentia-se bem, por mais bizarro que fosse. Sentia-se cheio de energia para gastar, gastar sem se preocupar ou temer perder o controle e atingir seu limite.

-O frio esta passando; ele completou.

-Você nos deu um grande susto. Ficou desacordado por vinte e quatro horas; Ares falou entregando-lhe uma caneca com chá, quando ele esforçou-se para sentar-se na cama.

-Como? –ele indagou surpreso, mas Ares assentiu.

-Depois que a transformação cessou, você desmaiou; o cavaleiro comentou sem demonstrar qualquer traço de preocupação ao comentar sobre o que acontecera.

-Entendo; Emmus murmurou, sem que notasse aspirou profundamente a nuvem prateada de alecrim que subia pela borda de cerâmica. Apesar de gostar mais de café, não podia negar que o cheiro era bom e o sabor agradável.

-Ehnoryen já não é mais segura... Você não pode permanecer mais aqui; ele falou depois de um tempo.

-Já me disseram isso, mas não pretendo partir; Ares respondeu com um fraco sorriso.

-O que o prende aqui? –o cavaleiro indagou surpreso consigo mesmo pela velocidade com que fez a pergunta.

-Tudo que me resta esta aqui; ele respondeu aproximando-se de uma cortina e afastou-a um pouco.

Acompanhou o cavaleiro com o olhar e surpreendeu-se ao ver o quanto ele havia envelhecido naqueles poucos segundos. Ares parecia cansado, cansado de viver, mas não de ter esperança. Algo o motivava a estar ali, mas o que?

-Parece patético passar tanto tempo esperando; o cavaleiro falou com a voz distante, como se estivesse conversando consigo mesmo. –Nem que eu quisesse, poderia matar a esperança;

Piscou confuso, enquanto sentia o chá aquecer-lhe a garganta.

-Depois de tanto tempo eu ainda não sou capaz de entender porque os cavaleiros de Athena são chamados de Santos; ele murmurou, enquanto os dedos finos deslizavam pelo tecido pesado da cortina. –Não somos santos, apenas pessoas comuns que tiveram seus destinos traçados por terceiros;

-Nós fazemos nosso próprio caminho; Emmus falou fitando-o sob a borda da caneca com um olhar indecifrável.

-Hoje sim, na minha época as pessoas costumavam se conformar rápido. Era mais fácil seguir as regras do que contestá-las e abrir um leque de possibilidades; Ares falou suspirando pesadamente. –Nem todos gostam de quebras de paradigmas, o novo pode assustar mais do que seduzir;

Entreabriu os lábios para contestar, mas ele continuou a falar como se estivesse sozinho, simplesmente divagando por seus pensamentos, lembranças de coisas que aconteceram e não poderiam ser mudadas.

-Não posso sair daqui, prometi a mim mesmo que não iria permitir que mais ninguém se colocasse entre nós. Já tivemos o suficiente de intrigas e armações por uma vida; ele falou voltando-se para o jovem de melenas negras. –Mas agora descanse, não temos como saber o quanto essa calmaria vai durar;

-Onde vai? –o cavaleiro indagou intrigado com tudo o que ouvira.

-Vou a biblioteca ver se acho o livro que Amélia esta querendo; Ares respondeu.

-...; assentiu, agradecendo pelo chá com um murmúrio.

Viu Ares desaparecer no corredor segundos depois. Terminou de beber o chá e deixou a caneca sob um criado mudo ao lado da cama antes de tentar se levantar.

Fechou os olhos sentindo-se atordoado. Segurou no espaldar da cama até recuperar o equilíbrio.

Havia gasto muita energia, mas como da última vez que precisara expandir seu cosmo, ela estava voltando naturalmente. Respirou fundo antes de arriscar um passo, suas roupas estavam intactas e penduradas próximas a lareira.

Mas notou com surpresa que elas não foram destruídas com a transformação, um detalhe bastante estranho se fosse levar em consideração que muitos dragões durante a transformação não conseguiam impedir que as roupas rasgassem.

Não se lembrava de como fizera isso, na hora parecera tão natural; ele pensou confuso. Mais alguns passos e conseguiu aproximar-se da lareira, suspirou ao sentir o calor chegar a sua pele.

Abriu e fechou as mãos, sentindo as articulações estalarem por causa da rigidez causada pelo frio. Agora já sabia contra quem estava lutando. Deveria ter imaginado que aquele bastardo do Kari não teria capacidade de bolar um motim daqueles, sozinho.

Fallon! Fallon! Nem depois de tanto tempo, ele iria baixar a crista e admitir que a Terra não precisava de um psicopata cosmo ele de governante. Alias, mortais e imortais vinham aprendendo a coexistir ao longo dos séculos, prova disso era que muitos mortais ainda eram ignorantes a existência de cavaleiros, deuses entre outras entidades místicas que povoavam a terra.

Tudo pelo equilíbrio, mas Fallon estava cego e queria apenas o poder que um status poderia lhe dar.

Jamais permitiria que esse louco dominasse a Terra e comprometesse o equilíbrio que tantos guardiões vinham sacrificando seu tempo e suas vidas para manter. Seu avô não fora capaz de acabar com ele de vez por estar debilitado demais, mas agora as coisas seriam diferentes.

Pelo menos parte do problema estava resolvido. Christine não lhe causaria mais aborrecimentos; ele pensou quando um brilho prateado tingiu os orbes vermelhos.

Pouco antes de seu fim, aquela criatura traidora não poupara fôlego para falar dos planos de Kari e o porque ele estava tão interessado nos cavaleiros de ouro que estavam no palácio Vallhalla.

Kari agora tinha a habilidade de absorver a energia vital de alguém e como aquele verme do Rymunades, adquirir sua forma. Provavelmente Kari estava atrás de Freya não por seu poder, mas pela influência que ela exercia sob as valkirias e se ele conseguisse tomar a forma de um cavaleiro de ouro, poderia entrar no Vallhalla e procurar por ela sem que ninguém notasse sua presença.

Assim que saísse dali, iria atrás dele, alem do mais, tinham algumas contas a acertar, antes do granfinalle.

Ele iria pagar caro pelo que fez a Alexandra e diferente de Christine, não teria tanta piedade dele; Emmus pensou, estalando os dedos de unhas levemente rosadas, mas que numa fração de segundos, tornar-se garras negras, longas e afinadas de um dragão.

Continua...