Dobradinha para o ano novo, aeeeeeee! s2
Boa leitura!
— Obrigada mais uma vez por ter me deixado ficar aqui com as crianças, senhor Malfoy. – Helga agradeceu pela milésima sétima vez naquele dia.
Depois de levarem Nymph em segurança de volta à casa – isso depois de Parks quase ter sofrido um traumatismo craniano com o tamanho do tapa que levou ao sugerir aparatarem. –, Adam correu com a esposa para o hospital, enquanto Ludmila foi assistir o final do jogo. A gestante passou por um longo e aparentemente muito doloroso trabalho de parto de oito horas, dando a luz a duas garotinhas. Colt teria soltado um certeiro "Não disse?" se estivesse com humor para tanto, mas só passou desejando os parabéns para a família que tinha ampliado. Nymph precisaria passar por observação durante todo o dia seguinte junto com as meninas, que estavam sob cuidados médicos por terem nascido prematuras. Felizmente, as duas passavam bem, para alegria do pai que estava babando, a ponto de criar poças, sobre as filhas, tão pequenas e rosadas que pareciam uma dupla de pufosos.
Colt ficou com as crianças de madrugada, tempo suficiente para Helga adiantar a coluna de quarta-feira e despachar para O Profeta Diário antes de dar o horário comercial e Ludmila precisar voltar para a farmácia. Já de manhã, as crianças estavam a mil, ansiosas para conhecerem as novas irmãs que nem nome tinham ainda. Porém, como deixá-los em seu apartamento? Um minuto de desatenção e eles pulariam pela janela e, além disso, ainda havia a caixa de Ginevra que Helga não havia conseguido olhar direito... O velho Malfoy havia convidado-a para um café da manhã em sua casa e fazia uma semana ou mais que ela havia aceitado, não poderia em cima da hora cancelar a visita, ele encheria seus ouvidos para todo o sempre e mais. Foi uma surpresa para Helga – e o resto do mundo se esse pudesse ver – Draco ter aceitado as crianças em sua mansão, mesmo depois de alguns segundos de hesitação.
— Crianças, digam bom dia ao senhor Malfoy. – se referiu à Ellen e Phill. Em seu colo, Henry dormia sem nem se mover.
— Bom dia! – a menina sorriu, seu cabelo liso desgrenhado e seu pijama de flanela coberto de bolinhas de lã, devido a tentativa falha de Adam em lavar a roupa.
— Bom dia. – Draco respondeu aparentando o contrário.
— Por que o senhor é tão velho? – o menino soltou.
— E por que você tem orelhas de abano?
— Certo, certo, vamos parar com isso? – Helga encarou os dois como se ambos tivessem os cinco anos de Phill. — Estou conjurando colchões para vocês dois.
— No meio do hall de entrada? – Draco pareceu ultrajado. — De modo algum, tem um porão com entrada em algum lugar...
— Não vou colocar os filhos da minha amiga no porão! – a voz da bruxa afinou a tal ponto de seu chilique pode ser confundido com um dos ataques de Pandora.
— Por que não? – a olhou com desdém.
— Ora porque... – ela não tinha argumentos. — Porque não! Não são entulhos!
— Olha tia, eu consigo me ver refletida no chão! – Ellen comemorou. — É como um espelho que a gente pisa em cima!
— Que garotinha brilhante você é, não? – Draco não conteve a ironia.
— Pare de zombar deles! – Helga o repreendeu, fazendo um colchão surgir. — Até parece que não gosta de crianças!
— Gostava das minhas. – cruzou os braços. — Crianças de outras pessoas tendem a ser um pouco... – ele viu Phillip tentando dar cambalhotas no assoalho polido. — Estranhas.
— Não fale assim do menino... – e se voltando para as crianças, completou. — Quero todo mundo deitando agora naquela cama ou senão já sabem o que vai acontecer.
Ellen e o irmão pararam de rir e cutucar o piso e correram até o colchão, escondendo-se embaixo do cobertor felpudo, ainda sustentando olhares brincalhões para cima de Draco, que se afastava um tanto incomodado – talvez enojado – da presença daquelas crianças. Felizmente, Ludmila deixou que eles comessem açúcar e assistissem televisão à vontade enquanto ela dormia – era essa sua definição de "cuidar das crianças" – e foi só eles repousarem suas cabeças no travesseiro para dormirem instantaneamente. Nunca a falta de sensibilidade de Colt foi tão bem-vinda.
Ainda com Henry pendurado em seu pescoço, ela seguiu até a cozinha, as empregadas de Draco com feições horrorizadas, como se presenciassem o Apocalipse, ainda não acreditando que ele disse um relutante "sim" quando Helga o ligou meia hora mais cedo. Receberam um olhar não muito amigável do patrão e deram meia-volta para os fundos da casa, acompanhadas de grandes cestos de roupas e lençóis para serem estendidos ao pouco sol da manhã.
Enquanto balançava seu tronco para os lados, ninando o bebê adormecido, Helga tirou a água quente do fogão e usou parte para fazer o chá e a outra para esquentar o leite na mamadeira de plástico. Enquanto isso, Malfoy esperava que a moça fizesse um malabarismo de água com leite para lhe servir seu café da manhã, folhando um exemplar do Profeta Diário trazido por Parks como agradecimento. Em troca recebeu um bufar do idoso, que recebia um daqueles gratuitamente todos os dias desde 2052.
Mesmo dormindo, o menino tomou todo o conteúdo da mamadeira e ela duvidava se ele não ingerisse pregos também, visto que tudo o que lhe era oferecido era comido sem protesto algum. O aconchegou melhor em seu colo – ela tinha muito medo em deixá-lo dormir no mesmo colchão que os irmãos, mesmo que o bebê conseguisse engatinhar com mais velocidade que uma criança normal correndo – e enfim conseguiu se sentar pela primeira vez em muitas horas. Sua xícara já estava cheia de chá morno e até mesmo um pedaço de bolo de chocolate com hortelã estava disposto em um prato impecavelmente branco.
— Então é essa a famosa Pandora Fary... – Draco falou com ares de zombaria, enquanto Helga engasgava com o primeiro gole da bebida.
A foto de Pandora estampava metade da folha, uma imagem de corpo inteiro da albina que sorria enigmática, como se estivesse olhando nos olhos de qualquer leitor que pegasse algum exemplar. Draco arqueou as sobrancelhas e balançou a cabeça, como se estivesse conversando internamente com si mesmo e concordando com todos seus próprios argumentos.
— Ela é linda, poderia ser uma parente minha... – ironizou, rindo por dentro do nariz torcido de Helga. — Você deveria sentir vergonha.
— Sinto vergonha alheia daquela ridícula. – desdenhou, como se a beleza acima da de qualquer veela fosse algo irrelevante e que passasse completamente despercebido.
— Inveja é um sentimento tão feio, menina... – ela escancarou a boca dramaticamente.
— Eu não tenho inveja dela!
— Shh... – a repreendeu. — Vai acordar a criança.
Embora rabugento e um tanto desagradável, Draco olhava para o bebê adormecido com o semblante bem mais relaxado que o usual. Helga poderia até mesmo dizer que ele parecia sorrir com a visão e de sorrisos ocultos ela bem conhecia, já que era amiga de Ludmila há tempo o bastante para decifrar todas as inexpressões da bruxa. Era como se ele tivesse mergulhado em lembranças – aquelas que ele ainda não havia dito e que ela não sabia se diria.
— Você tem olhos bondosos. – sorriu e a observação o pegou de surpresa.
— E você tem olhos saltados. – rebateu recuperando seu humor ou falta dele.
Helga deixou Henry pendurado na faixa amarrada em volta de si, devidamente reforçada com um pouco de magia, dado o medo de seu desastre natural ser capaz de errar algum nó e derrubar a criança no chão. Enquanto ouvia o som engraçado que ele fazia com os lábios esmagados devido seu rostinho gorducho amassado contra o ombro, ela retirava a mesa do café limpando os farelos e mandando xícaras e talheres para a pia, onde as esponjas aguardavam para limpar a pouca louça usada. Agia de forma tão natural e familiarizada com a organização da cozinha, que Draco espantou-se ao notar que era como se a casa fosse dela, ainda que a garota só conhecesse escritório, hall de entrada e cozinha. E agora estava levando crianças para sua casa. Perceber a familiaridade das cenas vistas reforçou a estranha sensação que lhe incomodava o peito nas vezes que Helga o visitava.
Deixou passar. Talvez fosse um infarto.
.:.
Muito silenciosas, as crianças ouviam Draco ler uma história em um grande livro colorido. Helga acordou com a voz rouca balbuciando algum conto, os olhinhos de Ellen, Phill e Henry focados no clímax do conto, um pequeno elfo que iria descobrir onde estavam guardadas as meias de seu dono. Era visível o incômodo de Malfoy em ler uma história fantasiosa cujo herói era uma criatura doméstica. Ele devia ter feito um grande esforço para narrar aquela aventura que certamente havia sido escolha das crianças Miller; eles sempre tiveram certo dom para a inconveniência, deviam estar andando muito com Ludmila.
Apanhando a câmera fotográfica descoberta anteriormente, ela focou a cena e bateu a foto, o flash fazendo os pequenos olharem para Helga em desaprovação, tal como Draco. Ellen e Phill colocaram o indicador na frente dos lábios fechados em bico e chiaram em pedido de silêncio, Henry inclinado para frente grunhindo manhoso, como se reclamasse a interrupção da história. Helga riu e saiu na ponta dos pés, não sem antes espiar aquela cena encantadora. Era incrível como Malfoy tinha tanta afinidade com crianças. E pensar que horas mais cedo ele e Phill quase espernearam um com o outro.
Andou até a cozinha e vislumbrou Guertrudes a olhando com o semblante meio confuso, enquanto a empregada mais baixa e magrela parecia completamente alheia, quase dormindo apoiada na vassoura. Helga parou os passos e puxou o ar para falar alguma coisa qualquer, mas a expressão da outra a desencorajou, então ela só acenou e apressou o passo para a cozinha a fim de separar biscoitos e leite para levar para eles.
Henry esmigalhou o coockie e mastigou o bico da mamadeira, em uma tentativa frustrada de acalmar a irritação da gengiva com os primeiros dentinhos nascendo. Já Ellen conseguia fazer com que mais farelos caíssem no tapete importado em cada grande mordida que dava com sua arcada desfalcada e Phill parecia um junção dos dois irmãos. A expressão de Draco em ver sua sala de visitar resumida a uma bagunça infantil era desoladora.
— Senhor Malfoy, – Guertrudes o chamou com sua voz esganiçada. — há uma moça na porta dizendo conhecer a senhorita Parks. Veio buscar as crianças. – ela deu uma olhada para os pequenos, que preparavam seus casaquinhos para irem embora. — Deixo entrar?
— Deixe, isso aqui virou um estábulo mesmo...
— Claro e você é o cavalo. – Helga sentiu-se ofendida, mas Draco não estava ligando para ela no momento.
Ludmila pediu licença e entrou no cômodo, sua educação digna das origens de seu sangue puro encaixando-se perfeitamente no ambiente nobre, com sapatos envernizados, meia-calça azul-marinho, vestido escuro e casaco, apenas o batom vermelho destoando dos tons profundos que ela normalmente usava. Em um das mãos, com a manicure cuidadosamente feita, ela segurava uma carteira preta de verniz e na outra trazia uma foto.
— Boa tarde.
— Que moça elegante... – Draco elogiou, erguendo-se de sua poltrona. — Menina, por que você não é assim?
Helga abriu a boca, seu choque em ser comparada a deixando em partes indignada e em outras ciumenta. Como se ela precisasse se vestir impecavelmente como Colt, ou andar deslizando como ela, ou saber usar vinte tipos diferentes de talheres e taças!
— Eu me pergunto isso todos os dias, senhor. – ah claro, um complô!
— Oiiiii tiiiaaa! – Ellen gritou acenando, como se Ludmila estivesse muito longe. — Viu só, nos comportamos!
— Acho bom, mesmo. – ameaçou em seu jeito distante.
— Ahá! Eu sabia que alguma coisa tinha acontecido para vocês não estarem quebrando nada! – Parks enfim entendeu o bom comportamento anormal das crianças.
— Tia Ludmila disse que cortaria nossos dedinhos se a gente quebrasse alguma coisa. – Phill disse muito sério, espalmando a mão.
— Todos os vinte. – confirmou a bruxa. Helga escondeu o rosto entre as mãos; não era possível que alguém fosse assim tão sádico! — Adam voltou para casa, vai buscar Nymph amanhã pela manhã. – entregou a foto. — Já arrumou o berço para recebê-las.
— São meninas, mesmo? – Phill torceu o nariz.
— Ebaaaa! – comemorou Ellen, saltitando no lugar. Draco, um pouco afastado, observava a cena.
— Anna e Rebecca.
— Elas já tem brincos?! – os pontinhos dourados em suas minúsculas orelhas faiscavam.
— Desde as duas horas de vida. – Ludmila suspirou e mostrou a chave de portal. — Podemos levar eles logo? Estou ansiosa para voltar para minha casa e não fazer nada.
— Ela é sempre sincera assim? – Malfoy apontou para a moça.
— Sonserina... – deu de ombros.
— Ah, eu devia ter notado. – riu jocoso e isso só fez Helga fazer outra careta.
Ludmila saiu da casa tão silenciosa quanto entrou e levou consigo os barulhentos filhos dos Miller, que agora já eram em cinco. A casa de Nymph ficaria do jeito que a lufana sempre quis: cheio de crianças. Helga ainda hesitou em ir embora, limpando a pequena bagunça e certificando-se em fazer Malfoy tomar seu remédio. Ele não quis conversar e nem repreendeu a bruxa com as piadinhas sobre o "vovô Malfoy" ou como ele parecia até mesmo normal lendo histórias para crianças. Ao invés disso mergulhou-se em silêncio e Parks não insistiu, conhecendo-o há um tempo razoavelmente suficiente para saber que não conseguiria tirar dele nada que não quisesse falar. Certificando-se de que ele teria tudo o que precisasse por perto, ela se aproximou dando-lhe um beijo no rosto sério. Draco não expressou nada, os olhos claros ainda encarando o quintal dos fundos.
Às vezes ele queria ser capaz de reviver o passado...
