XXV

"Por quanto tempo você pretende ficar deitado? Suas roupas já estão passadas e precisamos descer."

Sua companhia não respondeu, puxando o cobertor e escondendo-se totalmente.

Ivan suspirou, encarando as roupas que havia acabado de vestir e ponderando qual seria a melhor atitude naquele momento. Ele não vai tomar banho se eu não insistir. Os olhos cor de mel foram para o relógio do outro lado do quarto e sobre a lareira. Os convidados só começariam a chegar em meia-hora, mas como anfitrião era seu dever estar a postos para recebê-los.

"Alaudi, por favor." O moreno sentou-se na beirada da cama e tocou o amontoado de cobertores ao lado.

Nada. O Inspetor mantinha-se enrolado como uma lagarta no casulo e parecia não se importar se Ivan chegaria atrasado ao evento mais importante do ano. Aquele comportamento vinha acontecendo há alguns dias, mas ele achou que o amante não fosse agir daquela forma, pelo menos naquela noite.

"A água da banheira vai esfriar e você tomará banho gelado." Ele sentia como se falasse com uma criança.

"Eu não quero ir. Desça sem mim." A resposta soou sussurrada e abafada.

"Você sabe que eu não posso fazer isso." Ele riu. "Você é parte dessa família e o Guardião da Nuvem dos Vongola. Giotto irá partir em poucas semanas e você será a face que todos verão aqui na Itália."

A menção à viagem o fez tremer e Ivan suspirou. Desde que concordou em deixar Francesco ir com Giotto Alaudi havia mudado. Seus olhos estavam sempre baixos e tristes e ele não tinha vontade de fazer nada além de permanecer ao lado do herdeiro. Além disso, o louro o culpava por isso diariamente, então não seria necessário mencionar que as brigas haviam se tornado constantes. Alaudi havia ido à mansão no dia anterior e passado o tempo todo na cama. A ideia poderia soar tentadora, porém, o Chefe dos Cavallone não estava autorizado a tocá-lo. Ambos dividiam a mesma cama, mas não havia toques, beijos ou carícias. Ele está me punindo.

"E de quem é a culpa por Francesco estar indo embora?"

O louro sentou-se sobre a cama e retirou os cobertores de cima de sua cabeça. Seus cabelos estavam completamente bagunçados e espetados, o rosto vermelho e ele aparentava estar tão visivelmente irritado que Ivan arrependeu-se de ter tocado no assunto.

"Minha, eu sei." Ele esticou a mão para tocá-lo, mas o tapa que recebeu o fez mudar de ideia. "Você pode me culpar depois da Festa, está bem?"

"Eu vou lhe culpar para sempre." Os olhos azuis se tornaram pequeninos.

Sem sexo para sempre? O moreno sorriu e não tinha pretensão de desistir.

"Vá tomar banho, Alaudi. Vista-se e desça comigo. Não vou pedir para permanecer durante todo o tempo, mas preciso de alguém para ficar de olho em Francesco e Catarina. Muitas pessoas virão e temos a melhor segurança da Itália, mas se você estiver comigo eu ficarei mais tranquilo." Ele ofereceu a mão. Não vou arriscar outro tapa.

"Palavras doces não vão me persuadir." O Inspetor hesitou um pouco, mas aceitou a mão e entrelaçou os dedos. "Eu farei isso por eles."

"Eu sei." O Chefe dos Cavallone sorriu e encarou os pálidos e delgados dedos juntos aos seus. "Quando tudo terminar eu quero conversar com você sobre aquele assunto." Seus olhos se abaixaram e foi difícil dizer aquelas palavras. "É hora de você saber de algumas coisas e talvez entenda porque permiti que Francesco fosse com Giotto para o Japão."

Aquela informação pareceu ser o empurrão que faltava para tirar o amante da cama. Seus olhos se tornaram sérios e ele levantou-se, dando a volta e deixando à mostra a única peça que vestia: a parte de cima de um velho pijama de Ivan. A visão encheu seus olhos e ele que sabia que não conseguiria resistir. Suas mãos o puxaram e o fizeram sentar em seu colo, embora Alaudi houvesse tentado se desvencilhar, mas sem muita convicção.

"Você insistiu para que eu fosse tomar banho e agora me atrapalha?"

"Você não pode me culpar. Nós estivemos juntos por quase dois dias, mas você não me deixou lhe tocar."

"Porque você é uma falha humana. Você vai mandar meu filho para longe."

"Ele estará com a sua irmã. Não é como se eu fosse abandonar Francesco em uma ilha deserta."

A menção de Allegra o fez parar de reclamar, ainda que não aplacasse a expressão séria e pesada. O moreno resolveu ignorá-la, beijando o pescoço do amante e sentindo o cheiro de sua própria colônia.

"Eu quero um beijo e então lhe deixarei ir."

"Eu irei de qualquer forma."

"Alaudi..."

O louro ainda tentou levantar-se, no entanto, todo seu esforço parecia apenas uma maneira indireta de não se entregar. O rosto virou-se devagar e os lábios se encontraram já entreabertos. As línguas se misturaram e Alaudi passou os braços ao redor de seu pescoço demonstrando que aceitava aquela breve trégua. A carícia era quase tudo o que Ivan precisava para conseguir sobreviver àquela noite e, ainda que houvesse dito que queria um beijo, não havia a menor chance de seu corpo ficar satisfeito somente com isso. A mão direita subiu pelo interior da coxa sabendo exatamente o que encontraria.

Os dedos percorreram o membro e começaram a masturbá-lo, sentindo-o reagir a cada movimento. O beijo se tornou mais profundo, apesar de o Chefe dos Cavallone estar atento. Não era do feitio do amante deixar-se levar pelo momento, ainda mais quanto tinha um compromisso. Ele sentiu a ereção crescer em sua mão e os sons molhados misturavam-se ao movimento das línguas. O moreno sabia que aquela não havia sido uma boa ideia. Seu tempo era limitado e mesmo que seus dedos aliviassem sua companhia ele sabia que ficaria frustrado se aquela provocação não terminasse em mais do que masturbação.

Ivan decidiu arriscar. O máximo que poderia ouvir era uma negativa e se o Inspetor se recusasse ele daria um jeito de lidar com sua ereção. O movimento foi rápido e ele virou-se, deitando o louro sobre a cama, que o olhou com os lábios entreabertos e avermelhados. As bochechas estavam coradas e a blusa do pijama havia subido e deixava seu sexo à mostra. A visão era muito mais do que seu pobre coração poderia suportar.

"Eu quero você agora." Ele foi o mais direto possível. Por mais que quisesse mimá-lo com beijos e carícias longas e provocantes ambos tinham pouco tempo para estarem apresentáveis.

O Inspetor umedeceu os lábios com a língua e virou-se sobre a cama, arrastando-se até abrir o seu lado da cômoda. O moreno sabia muito bem o que ele procurava e assim que o vidro de óleo lubrificante chegou às suas mãos ele apressou-se para abrir o cinto da calça social que vestia. Suas roupas haviam sido escolhidas por Mario especialmente para aquela noite, da meia ao lenço que ele usaria no terno. A calça que havia sido feita sob medida, e cujo material fora importado, escorregou por suas pernas. Ivan não tinha tempo de prepará-lo, logo, deixou o óleo tocar a entrada de Alaudi diretamente. Dois dedos o penetraram algumas vezes e o restante do óleo foi passado sobre seu sexo.

O louro arqueou o quadril no instante em que Ivan ajoelhou-se sobre a cama. O Chefe dos Cavallone sorriu satisfeito pelo amante não tê-lo rejeitado e até escolhido a posição. A ereção entrou em um único movimento e no mesmo instante Alaudi gemeu. A pressão que os músculos faziam era torturante e excitante, apertando seu membro todas as vezes que ele deslizava para dentro. Os movimentos não começaram devagar e em segundos ele impôs seu ritmo. As reações do Inspetor eram deliciosas de observar, fosse a pele arrepiada, os gemidos excitados ou o quadril que se movia no ritmo das estocadas, garantindo que fosse penetrado totalmente.

O momento feliz consumiu preciosos minutos, mas Ivan atrasaria qualquer evento por Alaudi.

Seu orgasmo aconteceu primeiro, mas ele continuou a se mover até vê-lo atingir seu clímax. Palavras não poderiam descrever o que ele sentiu ao retirar seu sexo e ver o modo como seu sêmen escorria da entrada à parte interna da coxa esquerda. A vontade de possuí-lo novamente só não era mais forte do que seu senso de responsabilidade, ou melhor, a certeza de que Mario invadiria o quarto e o arrastaria nu para a Festa. O louro deixou-se cair sobre a cama, a respiração alta, mas uma expressão serena e satisfeita.

"O que você está fazendo?" O Inspetor o olhou ao vê-lo retirar as roupas. "Você disse que não temos mais tempo."

"E não temos, mas eu jamais recusaria um banho com você."

"Você já tomou banho."

"Eu vou lhe ajudar a ensaboar as costas!" O moreno retirou as peças com cuidado e as deixou sobre a peça de madeira que servia para guardar as meias e roupas de baixo.

"Hm..." Alaudi apertou os olhos ao passar por ele. "Se tentar alguma coisa eu vou algemá-lo e eu não estou me referindo a preliminares."

O Chefe dos Cavallone riu e o acompanhou até a banheira. Seu próprio banho foi mais rápido e ele saiu a tempo de deixar que sua companhia tivesse seu momento privado. A roupa de cama foi trocada e os lençóis sujos colocados ao lado. As roupas foram recolocadas uma a uma com cuidado e atenção. Qualquer sinal de amassado significaria que ela precisaria ser trocada e por um instante o moreno sentiu-se vitorioso por estar quase tudo intacto. A única peça que precisou ser substituída foi a calça, que havia sido arruinada durante o orgasmo. Mario vai me matar... Ele passou alguns minutos em frente ao cômodo ao lado e que servia como um gigantesco guarda-roupa na busca por uma peça substituta.

A nova calça era muito semelhante a anterior e Ivan torcia para que seu Braço Direito estivesse um pouco distraído naquela noite. O lenço dourado foi arrumado no bolso do paletó no instante em que Alaudi deixava o banheiro apenas com a toalha ao redor da cintura. Aquela foi a oportunidade que ele viu para deixar o quarto. Seu autocontrole não suportaria vê-lo vestir-se na sua frente. Seria um desperdício, principalmente quando todos os seus sentidos desejariam despi-lo.

"Eu vou procurar por Mario e ver como estão as coisas." O Chefe dos Cavallone depositou um beijo na testa do amante. Ele cheirava a banho tomado e colônia e Alaudi. "Não me faça subir!"

O Inspetor fez um rápido movimento como a mão como se o enxotasse. Ivan deixou o quarto com um largo sorriso, que por um instante tremeu ao fechar a porta e ganhar o corredor. A ideia de sentar e conversar após a festa era dolorosa, contudo, ele havia feito uma promessa e, verdade fosse dita, o moreno estava um pouco surpreso por ter sido capaz de guardar aquele segredo por tanto tempo.

Quando começou a cortejá-lo, ele lembrava-se bem de ter perguntado se Alaudi iria investigá-lo. Na época, o louro meneou a cabeça em negativo e disse que se havia algo em sua vida que ele não soubesse era porque não era o momento certo para saber. O momento chegou.

A pessoa que ele procurava estava no hall de entrada.

A neve não havia caído durante o dia, mas Ivan achou melhor não arriscar e resolveu colocar as mesas dentro da casa. O primeiro andar, com exceção da biblioteca, ficaria aberto para os visitantes. As escadarias que levavam ao segundo andar seriam fechadas por seguranças e haveria quatro longas mesas espalhadas pelo hall.

As flores que adornavam os vasos haviam sido importadas e combinavam perfeitamente com o tapete vermelho que ia do hall até o final da escadaria, no jardim. Mario dava ordem às empregadas, que naquela noite vestiam um uniforme especial, que lembrava um vestido negro com um avental branco. As gêmeas haviam mudado o penteado, provavelmente para não serem confundidas pelos convidados, embora ele não soubesse ao certo quem era quem.

"Eu não acredito!" Os olhos do ruivo foram diretamente para a calça e o Chefe dos Cavallone coçou a nuca sem saber o que dizer. "Você tem ideia do trabalho que tive para conseguir o material? Três semanas, Ivan! Por três semanas eu quase implorei para o vendedor reservar o tecido e você não pôde ficar um minuto sem fod—"

"Ah, Giuseppe!"

O moreno ergueu a mão e acenou para Giuseppe, que vinha do jardim e pareceu surpreso ao ouvir seu nome. Suas roupas eram uma mistura de peças brancas e cinzas, que lhe deixavam ainda mais delicado. Os cabelos estavam presos em um belo rabo de cavalo e perfeitamente escovados. Suas bochechas coraram e ele se aproximou no instante certo. Quando tudo isso terminar eu precisarei me desculpar com ele. Eu espero que Giuseppe possa me perdoar por tirar Francesco de seus braços.

"Pelo menos alguém conseguiu manter a roupa que eu escolhi." Mario olhou para o irmão com orgulho.

Giuseppe aproximou-se e esboçou um meio sorriso ao avisar que a iluminação do chafariz havia sido arrumada e que alguns carros já foram avistados se dirigindo ao portão principal. Ivan pediu que ele subisse para ver se Francesco e Catarina estavam prontos e somente ao vê-lo no segundo andar foi que retomou a conversa.

"Niccolò está no portão principal. Ele realocou os seguranças e deixou somente os mais antigos." Mario sussurrava enquanto seus olhos fitavam o jardim. A grande porta do hall estava aberta e dali era possível ver os empregados andando de um lado para o outro. "Ninguém entrará na propriedade se não for convidado."

"Obrigado." O moreno engoliu seco e passou as mãos nos cabelos. Todas as vezes que pensava no assunto ele sentia uma forte vontade de vomitar. "Eu contarei a Alaudi esta noite. Encontre algum momento oportuno e conte a Giulio, mas peça descrição. Eu acho que eles devem saber."

O Braço Direito o encarou e concordou. Quando seus olhos pousaram em Ivan ele suspirou e esticou as mãos, tocando-lhe os cabelos e ajeitando alguns fios que estavam soltos. O Chefe dos Cavallone deixou o hall e caminhou até a escadaria, ainda que não ousasse descer. Ele sabia que tudo caminhava de acordo com o esperado, apesar de se sentir tentado a perguntar diretamente aos empregados se precisavam de ajuda. Entretanto, experiência o havia ensinado que sua presença mais atrapalhava do que ajudava então sua única função naquela noite era receber os convidá-los e entretê-los.

Alaudi desceu após alguns minutos e a visão de sua pessoa sob o tapete vermelho foi de tirar o fôlego. A camisa branca e o sobretudo negro, peças que ele usava quase diariamente como uma segunda pele, haviam dado lugar a um conjunto de calças e camisa brancas com detalhes vermelhos. O lenço que cruzava seu peito destoava seus olhos claros e os cabelos foram escovados para trás, deixando à mostra seu belo rosto. Ivan sorriu ao vê-lo, adentrando ao hall e imaginando se naquela noite teria a chance de envolvê-lo novamente em seus braços. Provavelmente não. Quando sentarmos para conversar o assunto irá acabar com qualquer resquício de sedução.

"Você parece absolutamente estonteante," ele tocou-lhe o rosto e depositou um breve beijo em seus lábios, "parte de mim quer que você volte para o quarto e me espere na cama, pois não quero que lhe vejam."

"Não me tente. Minha única vontade é passar a noite debaixo das cobertas." O Inspetor tinha uma expressão séria. "Mas eu ficarei... por Francesco e Catarina."

"Tão cruel..." O moreno deu um passo à frente e o envolveu pela cintura.

"Qual o nome da mulher com quem você estava almoçando às escondidas?"

"Minha prima?"

"A que você diz ser sua prima, sim."

"Tânia," Ivan riu, "acredite em mim, uma olhada para ela e você terá certeza de que somos parentes."

Alaudi lançou um olhar de descrença, que foi recebido por outra risada. Suas mãos subiram pelo terno de Ivan e aquele era o sinal que ele esperava. Seu rosto abaixou-se o suficiente para que os lábios se encontrassem. O beijo, ao contrário do anterior, foi longo e profundo. Por um instante ele se esqueceu de onde estavam, que os empregados entravam e saiam da casa e que a porta estava totalmente aberta. Tudo o que importou naqueles curtos minutos foi a sensação de pura felicidade que aquela pessoa era capaz de proporcionar.

Em seus braços, Ivan se sentia invencível.

"Eca..."

A voz veio acompanhada de um claro limpar de garganta. O Chefe dos Cavallone abriu os olhos, vendo um pouco atrás de Alaudi a figura dos filhos e Giuseppe. Francesco, que havia limpado a garganta para se mostrar presente, tinha as sobrancelhas juntas e não parecia se importar tanto quanto Giuseppe, cujas bochechas estavam tão vermelhas quanto os cabelos de Catarina.

Naquela noite, a garotinha estava belíssima com seu vestido vinho de camurça e os cabelos presos em um perfeito e ajeitado coque com algumas pedras que lembravam flocos de neve. Todos possuíam algum detalhe na cor vermelha, a única exigência para a Festa.

Catarina olhava com nojo, como se de repente houvesse pisado em uma barata.

"Isso é tão nojento! Sem beijos na Festa!"

Ela revirou os olhos e teria repetido o que disse se a chegada de novas pessoas não roubasse sua atenção.

"Enrico! Jules!"

A pequenina afastou-se do grupo e apressou-se para receber os amigos. Enrico, cuja flor na lapela do paletó combinava com o verde de seus olhos, recebeu-a com um largo sorriso, não poupando elogios sobre seu vestido e cabelos. Jules parecia saído de um quadro. Suas roupas eram creme com os botões vermelhos. Seus cabelos estavam um pouco mais curtos e ele parecia muito mais um amigo de escola de Francesco do que um pintor cujas galerias começavam a receber atenção da burguesia italiana.

"O-Obrigado por me convidar." Jules aproximou-se de Ivan e foi com bochechas coradas que fez uma polida reverência.

"Você é parte da Família agora. É bom que se acostume com esses eventos."

O moreno sorriu recordando-se do quadro que adornava uma das paredes da biblioteca. Alaudi não permitiu que ele o pendurasse no quarto, todavia, pestanejou menos quando Ivan disse que o deixaria na biblioteca. O quadro havia sido colocado quase em frente à sua mesa, o que significava que sempre que o trabalho estivesse tedioso tudo o que ele precisaria era erguer o rosto para encontrar motivação.

O Chefe dos Cavallone temeu que seu amante pudesse nutrir algum sentimento negativo em relação a Jules devido à história do quadro, mas o francês o conquistou totalmente ao entregar, junto com o quadro original, uma pequena tela de Allegra. Os olhos de Alaudi brilharam e não mais do que de repente Jules se tornou sua pessoa favorita.

Trazer o pintor para a Família parecia ter sido arranjado pela Providência. Seu envolvimento passado com Mario serviu como validador de caráter. Ivan admirava seu trabalho, porém, não teria trazido um completo estranho para sua casa. Por sorte, Jules conquistou a todos, principalmente Catarina. Os empregados o adoravam e até mesmo os mais difíceis, como o chefe da segurança, pareciam simpatizar com sua pessoa.

Quando o chamou para se juntar aos Cavallone, Jules agradeceu diversas vezes e disse estar muito honrado, mas pediu para continuar lecionando. Eu não tinha intenção de privá-lo das aulas, ainda mais porque não são diárias e não conseguiria dormir sabendo que o tirei de crianças como Catarina. Ao final, tudo deu certo e o francês era o mais novo rosto da Família, o que significava que as moças, e alguns rapazes, não o deixariam em paz naquela noite.

Catarina segurou Jules pela mão e disse que lhe mostraria todas as decorações da sala de jantar. Giuseppe se convidou a ir com eles e os três deixaram o hall. Enrico e Francesco conversavam na entrada da mansão, olhos baixos e sussurros. O pai de Enrico entrou acompanhado da esposa, o que marcou o início da chegada dos convidados. Como sempre acontecia, Ottavio perguntou sobre sua saúde e avisou que ele deveria evitar tomar friagem até o final do inverno.

A primeira Família a chegar foram os Vongola.

Giotto entrou acompanhado de quatro de seus Guardiões, tendo G. como sombra ao lado direito. Os olhos de Ivan pousaram no homem e seus lábios se repuxaram inconscientemente em um sorriso. Suas vestes eram negras, os cabelos haviam sido penteados para trás e havia um lenço vermelho no bolso de seu terno.

O estilo das roupas era diferente, mas ele estava vestido exatamente como Mario.

"Tsk." G. encarou o Braço Direito e desviou os olhos com desdém.

"Boa noite, Ivan." Giotto se aproximou e os amigos se abraçaram. O Chefe dos Vongola virou-se na direção de Alaudi e ofereceu um caloroso sorriso. "Eu estou feliz por você ter finalmente aceitado participar. Eu conto com você para me representar durante a minha ausência."

O louro não respondeu, lançando um breve olhar e se afastando intencionalmente. A reação de G. foi um olhar pequenino, que o seguiu até que ele deixasse o hall.

"Eu cuidarei de Francesco como se fosse meu filho." A tranquilidade de Giotto era contagiosa. Até a mais extrema situação parecia menos perigosa na sua presença.

"Eu jamais serei capaz de retribuir esse favor."

"Não é um favor, Ivan. Amigos não fazem favores."

O moreno sorriu, sentindo-se um pouco mais receptivo sobre a ida do filho ao Japão. Knuckle e Lampo estavam um pouco a atrás e em silêncio, mas o Chefe dos Vongola havia se aproximado de Francesco e os dois conversavam como velhos amigos. Giotto é uma excelente influência sobre Francesco. Nesses meses eu percebi que ele se tornou mais centrado e responsável e não há dúvidas de que meu velho amigo tem certa culpa por isso.

Os convidados começaram a chegar e sua conversa privativa com Giotto precisaria ser adiada. Quando ele se afastou, levando consigo seus Guardiões, Ivan viu uma rápida mão puxar seu lenço dourado e substituí-lo por um de coloração vermelha. Mario enfiava o lenço dentro do bolso de seu terno com certa fúria e o moreno não conseguiu conter a risada, o que lhe causou uma série de repreensões por um visivelmente irritado Braço Direito.

A casa se tornou cheia em menos de dez minutos. Catarina e Francesco haviam retornado ao seu lado e durante os cumprimentos ambos agiram impecavelmente. A garotinha, que inicialmente sequer deixava o quarto, havia aceitado fazer seu papel como filha de Ivan Cavallone, mesmo que não gostasse da ideia de ficar em um local cheio de gente estranha e ainda por cima adulta.

O moreno apreciava sua personalidade arredia, pensando que quando chegasse o momento de Catarina ser apresentada oficialmente à sociedade ele não teria problemas com pretendentes insistentes. Ela provavelmente vai enxotá-los. Aquele pensamento sempre o fazia sorrir, e sabia que evitaria que seus cabelos se tornassem prematuramente brancos.

Francesco, por outro lado, era sua cópia mais fiel. O rapaz era somente sorrisos e gracejos, não poupando palavras gentis às mulheres que faziam fila para cumprimentá-lo. As mais novas cochichavam e soltavam gritinhos extasiados quando conseguiam sua rápida atenção. Ao seu lado, Giuseppe agia como uma estátua, o rosto com um permanente meio sorriso e um ar angelical que afastava qualquer suspeita de seu real relacionamento com o herdeiro. Há um ano eu jamais teria imaginado que isso aconteceria e meu medo era que ele acabasse infeliz em algum casamento arranjado. O tempo pode mudar tudo.

A viagem do filho ao Japão era um segredo, então nenhuma das moças retornaria triste para casa pensando que não voltaria a vê-lo. Sua relação com Alaudi era de conhecimento de alguns, no entanto, a maioria apenas o conhecia como o Guardião dos Vongola e Inspetor de polícia. Sua presença não levantou suspeitas, pelo contrário. Por duas vezes eles foram elogiados por estarem lado a lado, e uma moça disse que ver tantos homens belos e distintos em um só lugar não fazia bem para o seu casamento.

"Ivan, que noite maravilhosa!"

Seu nome foi seguido por um par de mãos que o segurou pelo rosto. O beijo foi depositado em sua bochecha esquerda e de onde estava ele viu os olhos azuis de Alaudi se tornarem apertados. O Chefe dos Cavallone sorriu, retirando as mãos de seu rosto e as entrelaçando às suas.

"Boa noite, Tânia."

A mulher ofereceu uma charmosa piscadela e sua atenção foi para o Inspetor, que a cumprimentou com um simples menear de cabeça. Tânia era uma bela mulher, cujas curvas cabiam perfeitamente dentro do vestido vermelho. Sua pele era morena clara, os cabelos castanhos e ela possuía os olhos cor de mel dos Cavallone. O pai de Tânia era irmão de seu falecido pai e os dois costumavam brincar juntos quando crianças.

"Onde estão seus filhos?" Ivan olhou ao redor e não viu os gêmeos, que eram um pouco mais novos do que Catarina.

"No jardim com as outras crianças e meu marido."

"Eu preciso agradecê-lo por ter finalmente aceitado meu convite."

"Você sabe que ele não deixou Portugal porque as crianças eram muito pequenas. Elas cresceram e agora estou livre para ir e vir como bem desejo."

"Espero vê-la novamente no próximo ano." Ele levou a mão de Tânia aos lábios e a beijou de leve.

"Espero não precisar retornar antes."

O olhar que a mulher lançou antes de se afastar dizia muito sem dizer nada. Ivan engoliu seco, decidido a colocar aquele assunto de lado, pelo menos durante a Festa.

"Ela realmente é sua prima." Alaudi murmurou baixo, chamando sua atenção.

"Eu não disse? Todos os Cavallone têm os mesmos olhos. Os filhos dela são morenos, como o pai, mas ambos possuem olhos cor de mel."

Conhecer Tânia pessoalmente pareceu satisfazer as dúvidas que o louro ainda possuísse, embora seu momento com o amante houvesse durado muito pouco. Mario se aproximou e ele soube que era hora de andar pela mansão para conversar com alguns convidados. Aquele trabalho não lhe incomodava e era melhor do que passar horas assinando relatórios e lendo cartas.

Enquanto caminhava, Ivan viu alguns empregados disfarçados enquanto outros transitavam pelo local sem esconder sua ocupação. Nada parecia fora do normal e seu coração se tornou leve por ver que a festa acabaria sendo um sucesso e sem nenhum contratempo.

Seu trabalho durante aquele tipo de evento consistia em sorrir e conversar, o que o moreno fazia com maestria. A grande maioria dos convidados eram velhos conhecidos que frequentavam anualmente as Festas oferecidas pelos Cavallone. As Famílias novas eram poucas, mas era refrescante ver rostos novos por entre os convidados.

A música tocada pela banda mudou quando Ivan tomou o centro do hall. O silêncio que antecipou seu discurso anual o fez sentir borboletas no estômago, ainda que suas palavras de agradecimento fossem uma versão diferente do mesmo discurso de todos os anos. Ao final, ele olhou para os presentes fazendo uma reverência e recebendo sorrisos e palmas. A música tornou-se uma valsa e ele sentiu-se compelido a ser o primeiro a dançar.

"Eu daria a honra, mas a mulher mais importante da minha vida se recusa a dançar."

O moreno piscou na direção de Catarina, que arregalou os olhos e correu na direção da saída, como se sua vida dependesse disso, e sendo seguida por várias outras crianças. As risadas soaram altas e Ivan viu ali a chance perfeita de se esquivar sem precisar dançar com nenhuma outra pessoa e, assim, evitar a ira de Alaudi. Giuseppe afastou-se momentaneamente de Francesco para ir atrás de Catarina no instante em que o Chefe dos Cavallone chamou os convidados para dançar. O espaço central foi tomado por casais que queriam desfrutar da música para ter um momento íntimo.

"Essa menina vai lhe dar trabalho, Cavallone." Um dos Chefes presentes riu ao se aproximar de Ivan.

"Eu espero que sim!"

Ivan aproximou-se de Giotto, que estava escoltado por seus Guardiões, incluindo Alaudi. Mario havia sido puxado por Tânia para uma dança e, como esperado, não negou o convite. O moreno aceitou uma taça de vinho que fora servida por um dos empregados e utilizou a oportunidade para conversar com o amante. Eles trocaram algumas palavras e ouvi-lo falar, com aquela voz baixa e levemente rouca, fez seu coração se tornar aquecido.

Sua residência estava lotada de pessoas. O ambiente era agradável, os aperitivos servidos deliciosos, contudo, aquele foi o instante em que ele se sentiu mais confortável. As mãos que estavam ao lado se entrelaçaram e durante aqueles minutos de descanso ele pôde realmente relaxar.

A dança ocupou boa parte da noite e Ivan foi convidado a dançar várias vezes, apesar de ter rejeitado polidamente todos os convites. Em seu lugar Mario e Francesco fizeram as honras, este último definitivamente a sensação da noite. As jovens o cercavam com animação, pedindo danças e passeios. Ao seu lado, Giuseppe mantinha a mesma expressão tranquila e por duas vezes os convites foram direcionados a sua pessoa, cuja recusa foi feita com educação, ainda que suas bochechas estivessem coradas.

E, ao contrário da expressão calma, Francesco parecia não gostar das investidas em relação ao seu Braço Direito e chamava a atenção das moças, afirmando que Giuseppe não dançava. Vê-los daquela forma parecia tão natural que o Chefe dos Cavallone se perguntou como não havia notado que alguma coisa estava acontecendo.

Uma das empregadas aproximou-se e o avisou que era hora de servirem o banquete. As mesas já haviam sido arrumadas na grande sala de jantar e em minutos as pessoas se acomodaram. Hábito havia reservado a mesa principalmente para os Cavallone e os Vongola, então Ivan pôde ter alguns minutos ao lado de Alaudi sem despertar suspeitas.

Francesco havia se sentado ao lado de Giuseppe, e Catarina estava cercada por Enrico e Jules, este último corado depois de todos os elogios que havia ouvido dos convidados devido à sua última exposição. Mario estava ao lado do francês e à sua frente estava G. Vê-los frente a frente era um pouco cômico e ambos ficavam visivelmente incomodados quando alguém apontava a semelhança entre eles. Mario deve estar no limite de sua paciência. O moreno havia liberado seu Braço Direito para tirar os próximos dias de folga e torcia para que Giulio fosse capaz de animá-lo.

O jantar foi perfeito e delicioso. Lorenzo havia se sobressaído, fosse nos assados ou nas saladas. Cada prato havia sido preparado com cuidado, e as crianças eram servidas com versões menos temperadas. Os empregados estavam a postos prontos para preencher as taças com vinho ou suco, de acordo com o gosto dos convidados. Os caldos servidos afastaram momentaneamente o inverno e até as sobremesas frias foram bem-vindas. Ivan repetiu duas vezes sua torta de chocolate e até o Inspetor cedeu aos encantos de um pudim de coco com calda de ameixas. Catarina era só elogios por saber que poderia comer a quantidade de doces que quisesse sem que ninguém a incomodasse.

Os convidados se dispersaram ao final da refeição, retornando ao hall que havia sido limpo e reorganizado e onde outro grupo de empregados servia o café. As crianças e os mais jovens ainda não apreciavam aquele hábito, logo, o local foi preenchido pelos adultos.

Aquele foi o momento em que Catarina se despediu da festa. As sobremesas haviam sido deliciosas, entretanto, Ivan conhecia a filha e sabia que já havia passado e muito de sua hora de dormir. A garotinha aproximou-se dele antes de irem para o hall, puxando-o pela ponta do terno enquanto coçava os olhos. O Chefe dos Cavallone se abaixou para ficar na sua altura, percebendo que a flor que ela tinha presa ao coque era a mesma que Enrico havia trazido em sua lapela.

"Eu a levarei para o quarto." Ele sentiu uma mão em seu ombro.

"Obrigado," o moreno sorriu, "lembre-se de trocar de roupa e soltar os cabelos."

Catarina assentiu, acenando antes de seguir pela escadaria de mãos dadas com Alaudi. Os seguranças que cuidavam da entrada do segundo andar se afastaram, dando passagem para pai e filha. A ruiva foi a primeira criança a se render ao cansaço e foi uma questão de tempo até que os convidados com filhos começassem a ir embora. Tânia foi uma delas, mas não sem antes se despedir com um apertado abraço e dizer que Alaudi era muito mais bonito do que as descrições que havia ouvido.

"Espero ver-lhe novamente no próximo ano. Você e toda a sua família." Ivan recebeu o abraço com naturalidade e foi sincero em suas palavras.

"Qualquer novidade eu entrarei em contato. Cuide-se, Ivan."

A despedida geralmente acontecia no jardim e por sorte aquela noite não foi agraciada pela neve que caía nos últimos dias. O Chefe dos Cavallone oferecia abraços e apertos de mão, tendo Mario fielmente ao seu lado. O Braço Direito nada dizia, apenas meneava a cabeça com educação. Giotto foi um dos últimos a ir embora, mas permaneceu alguns minutos na sua companhia enquanto G. buscava o carro. Lampo e Knuckle haviam descido até o chafariz e ele deduziu que os Guardiões queriam deixá-los a sós. Para sua não surpresa, Mario já estava no jardim e conversava com Jules.

"Você vai contar a Alaudi?"

"Sim, esta noite, eu prometi." O moreno abaixou os olhos. Por um instante ele havia se esquecido.

"Ele é uma pessoa compreensiva e vai entender o seu lado e, principalmente, seu silêncio durante todos esses anos."

"Eu sei, mas achei que jamais precisaria contar a ele. Se eu pudesse levaria esse segredo para o túmulo."

"Minha viagem ao Japão será mais curta do que eu esperava, mas ficarei o tempo que você achar necessário." Giotto calou-se momentaneamente quando Francesco surgiu de dentro da mansão para se despedir. O rapaz parecia cansado, porém, animado com o prospecto da viagem. A conversa só continuou quando ele entrou novamente na mansão. "Tem certeza de que não quer que eu leve mais alguém? O Braço Direito dele parece uma boa escolha."

"Eu confio em você e na sua Família, Giotto. E a ausência de Giuseppe chamará a atenção. Todos esses Chefes que estavam aqui esta noite sabem que ele é o Braço Direito do futuro Chefe da Família."

"Mario, talvez?"

Os dois se entreolharam e riram ao mesmo tempo. Giotto havia feito aquela sugestão propositalmente, porém, Ivan sentiu um arrepio na nuca ao imaginar Mario e G. coexistindo em um mesmo lugar. Os amigos se abraçaram e o Chefe dos Vongola acenou antes de descer o restante das escadas. Os dois carros que o trouxeram naquela noite haviam dado a volta no chafariz e depois daquela despedida o restante dos convidados não tardou a ir embora. O moreno retornou à mansão bocejando longamente. Porém, ao contrário de seu visível cansaço, os empregados ainda teriam algumas horas de trabalho.

"Obrigado por tudo. Como sempre, vocês foram maravilhosos."

Ele cumprimentou o líder da banda, um senhor de sorriso fácil e que vinha tocando para a Família há muitos anos. Mario já estava na entrada para escoltá-los até o jardim e ver a agitação pós-festa o deixou mais cansado.

"Francesco já subiu." A voz veio de um dos lados e aquela sim era música para os seus ouvidos.

"Giuseppe foi com ele?"

"Sim."

"Ótimo." O Chefe dos Cavallone ofereceu a mão, que foi não aceita de imediato. "Eu estou exausto! O que acha de dividirmos a banheira?"

Alaudi não se moveu e lançou um olhar de puro desdém.

Ivan sorriu, levando a mão até o peito e sentindo o objeto dentro do bolso. Quando Mario trocou os lenços ele percebeu que seu Braço Direito colocou aquela pequena chave junto à peça vermelha. O sorriso se desfez aos poucos e ele manteve a mão erguida.

"Vamos, Alaudi."

O Inspetor dessa vez aceitou a mão sem hesitar e pareceu surpreso quando o moreno deu meia-volta e caminhou na direção da saída da mansão, que continuava aberta. A expressão confusa não o surpreendeu, pois Ivan sabia que seu amante provavelmente havia ficado ainda mais curioso. Entretanto, Alaudi não fez questionamentos e ambos desceram as escadas até o jardim no mais puro silêncio.

"Eu preciso de um carro." Ele aproximou-se do primeiro subordinado que encontrou. "Ficarei dentro da propriedade e não precisarei de escolta."

O homem assentiu de imediato, cortando aquela parte do jardim e reaparecendo minutos depois com um dos veículos. Ele questionou se deveria dirigi-lo, mas Ivan afirmou que poderia fazer isso sozinho. O louro sentou-se no assento do passageiro e somente quando o carro deixou aquela área foi que ele finalmente abriu a boca.

"Para onde estamos indo?"

"Você vai ver."

O Chefe dos Cavallone esforçou-se para não deixar transparecer seu mal estar por saber exatamente para onde estava indo. Aquele caminho normalmente não lhe fazia sentir aquelas sensações negativas, mas saber que não dirigia para passar o tempo ou dividir uma garrafa de vinho com seu velho amigo o incomodava.

A casa estava escura com exceção das luzes da varanda.

O carro foi estacionado e Alaudi se recusou a descer, olhando-o com uma expressão tão séria que seria cômico em qualquer outra situação.

"Eu preciso lhe mostrar algo que está aqui. Iremos embora em breve, prometo."

O Inspetor desceu do veículo a contragosto, encarando o sobrado onde Mario e Giuseppe moravam e com uma expressão que dizia claramente que seria bom Ivan ter uma explicação para levá-lo até ali. As chaves foram retiradas do bolso traseiro da calça e a porta de entrada foi aberta. As luzes do corredor foram acessas, no entanto, dessa vez ele não seguiria para a biblioteca, como era seu caminho habitual. Seus passos o levaram até a cozinha, mais especificamente à frente de uma larga e pesada prateleira.

"Eu precisarei de sua ajuda."

A face de Alaudi exibia uma expressão confusa. Suas sobrancelhas estavam juntas e ele não entendia o que estava acontecendo, mas ajudou a empurrar a prateleira para o lado. A peça fez barulho e deixou um rastro por onde passou, denunciando que não fora movida há muito tempo. Atrás, e escondida por um fio de pó, estava uma porta.

Os dedos tocaram a maçaneta e a chave que estivera escondida dentro do bolso do terno girou na fechadura, contudo, o moreno não conseguiu abri-la. Sua mão tremia e seu estômago dava voltas. Ele não havia estado naquele lugar há mais de dez anos e, mesmo que soubesse que não haveria outra alternativa além de seguir em frente, um avassalador medo percorreu cada centímetro de seu corpo indo se alojar na cicatriz em seu abdômen.

"Ivan..."

A mão gelada foi pousada sobre a sua com gentileza. A expressão séria havia dado lugar a olhos preocupados e o Chefe dos Cavallone viu a relutância de Alaudi em continuar. Ele vai dizer para irmos embora, que ele não precisa saber. Aquela gentileza foi a coragem que ele precisou e seus dedos giraram a maçaneta e a porta abriu-se com barulho.

O ar que os recebeu era seco. Havia uma pequena janela no porão, o que evitava que o local ficasse permanentemente fechado, mas Ivan não hesitou em tirar seu lenço do bolso e ofereceu ao louro.

"Cuidado com os passos. Os degraus são de pedras, mas a iluminação aqui embaixo é ruim."

O moreno segurou a mão livre de Alaudi enquanto a outra protegia sua boca e nariz da poeira. Aqueles oito degraus foram percorridos devagar e ao atingir o chão ele pôde ver onde estavam. Não havia iluminação direta, porém, o local recebia a claridade das luzes de fora e que iluminavam apenas uma parte. O lugar estava completamente vazio com exceção de algo grande em uma das paredes. O pano que forrava aquela área costumava ser branco como a neve, mas estava escuro e empoeirado.

"Espere aqui."

Ele caminhou até o pano branco como se andasse sobre nuvens. Os passos cessaram ao parar em frente àquela larga peça e seus dedos tocaram o tecido sentindo uma triste nostalgia. A última vez que esteve naquele lugar foi exatamente para deixar aquela peça e cobri-la para escondê-la dos olhos alheios. Mario foi contra. Ele insistiu para que a queimássemos, mas eu jamais conseguiria fazer isso. Talvez eu ainda não soubesse, mas eventualmente precisaria mostrá-la a Alaudi.

O pano precisou somente de um puxão para escorregar até o chão. O pó que subiu o fez virar o rosto e tossir, mas assim que a tela se tornou visível Ivan sentiu-se novamente levado a mais de vinte anos atrás quando ela fora pintada. Ele escutou os passos de Alaudi se aproximarem e, quando o sentiu ao seu lado, as mãos se entrelaçaram.

O quadro era grande e ocupava aquela parte inteira da parede.

Havia três pessoas em seu interior: o homem estava sentado em uma cadeira talhada em madeira escura e não sorria. Seus cabelos eram claros e o pintor havia acertado em misturar o dourado com o branco, mas sem passar a impressão de velhice. Sentado em um de seus joelhos estava um garotinho da mesma idade de Catarina. Seus cabelos eram negros e havia um gentil e tímido meio sorriso em seus lábios. Ver sua versão criança levou lágrimas aos seus olhos, como se houvesse se passado centenas de anos desde que aquela época acontecera.

A terceira pessoa estava ao lado esquerdo, em pé e atrás da cadeira. O garoto tinha quase a idade de Francesco e, ao contrário da feição gentil de Ivan, sua expressão era séria. Seus lábios formavam uma fina linha e seus olhos tinham um brilho diferente. Assim como o pai, os cabelos eram louros, e todos os três compartilhavam semelhanças físicas, principalmente os olhos cor de mel. Não havia dúvidas do grau de parentesco entre eles e aquele foi o instante que o moreno encarou sua companhia. O Inspetor olhava o quadro com surpresa e as dúvidas estavam claras em seus olhos.

"Caesar." O nome foi dito como um sopro. Há vinte anos ele não o pronunciava e algumas vezes achou que acabaria se esquecendo de como ele soava ao deixar sua boca. "O nome do verdadeiro Chefe dos Cavallone."

As palavras deixaram seus lábios como se correntes houvessem sido retiradas de seus pés. A verdade que por anos o manteve preso ao passado havido ganhado forma e a sensação que seguiu foi uma tranquilidade sem igual. Ele sabia que havia muito mais por trás daquela história, todavia, dizer aquelas poucas palavras foi suficiente para libertá-lo do segredo que o fazia refém há tanto tempo.

"Quem é Caesar?" Alaudi tinha a mesma expressão curiosa.

"Caesar é meu irmão." Ivan apertou um pouco a mão junto à sua.

O louro entreabriu a boca e pareceu entender o que o quadro significava. Seus olhos se fixaram por alguns segundos no rapaz ao lado da cadeira e, quando voltaram a pousar sobre ele, exibiam um misto de tristeza e compaixão.

"Eu sinto muito." Alaudi engoliu seco e a expressão se tornou dolorosa. "Se você não se importa que eu pergunte, mas como ele morreu?"

O Chefe dos Cavallone fitou o quadro e o sorriso que exibiu era tudo, menos feliz.

"Meu irmão está vivo, Alaudi."

Continua...