Capítulo 26

*Um problema chamado "mal-entendido" - Parte 3*

Além do seu pai, Vegeta descobriu que mais quatorze saiyajins tinham sido capturados por Freeza e estavam sendo mantidos trancafiados em prisões desde a queda de Vegetasei. Ele não conseguiu nenhum nome nos arquivos acessados no nave do tirano, nenhuma dica de qual seria a possível identidade de cada um daqueles prisioneiros, no entanto, descobriu a localização de onde estavam enclausurados e, de posse da informação, não se permitiu perder mais tempo; juntamente com Raditz e Kakarotto, despediu-se de Piccolo – que, daquele momento em diante, seguiria sozinho até o planeta onde poderia plantar a semente sagrada – e retornou o mais rápido possível ao hangar onde tinha deixado a espaçonave.

O curso foi traçado para o planeta-cárcere mais próximo, KX-04, onde, de acordo com as informações recuperadas do computador de Freeza, seis saiyajins estavam aprisionados. A viagem durou um pouco mais de 30 horas, e cada segundo foi uma agonia para os três, pois era inegável a ansiedade que cada um deles sentia ante o prospecto de encontrarem mais membros da sua raça. Kakarotto, em especial, Vegeta notou – porque aquilo foi algo estranho demais para não se notar –, passou boa parte da viagem em silêncio, provavelmente mergulhado em pensamentos e devaneios.

— Ele acha que nosso pai está vivo — Raditz lhe confessou em determinado momento, sussurrando as palavras para que o irmão caçula não o ouvisse. — Eu tentei dizer a ele para não nutrir esperanças, mas ele... ele é otimista demais para o próprio bem.

— E o que você acha? — Vegeta indagou, avaliando a possibilidade de encontrarem Bardock entre os poucos sobreviventes. — Há alguma chance de...?

— Não — Raditz respondeu antes mesmo de Vegeta concluir a pergunta. — Ele está morto. Eu tenho certeza. Papai e mamãe morreram em Vegetasei.

O príncipe ouviu a resposta em silêncio, meneou a cabeça e não falou mais nada até alcançarem o primeiro destino.

Quando chegaram a KX-04, foram surpreendidos por vários guardas e soldados de Freeza, que ainda nada sabiam sobre a derrocada do vilão.

— Freeza está morto — Bradou Vegeta enquanto expandia o próprio Ki e concentrava uma esfera de energia na palma da mão, o que fez vários soldados congelarem de medo, dezenas de pares de olhos repletos de pavor – e de expectativa – cravados no semblante poderoso do príncipe. — Ele morreu pelas mãos dos saiyajins... e já adianto que este será o mesmo destino daqueles que se meterem no meu caminho. Agora, se quiserem continuar vivos, me digam onde estão os saiyajins que aquele verme maldito escondeu nessa pocilga.

Os prisioneiros estavam sendo mantidos em celas distintas, e Vegeta achou melhor o trio se separar para adiantar o resgate. Assim, sozinho, o príncipe seguiu por vários corredores lúgubres e bem compridos até alcançar o compartimento no qual um dos saiyajins provavelmente estava. Forçou a porta de ferro, quebrando a tranca, e, após um longo suspiro, entrou na cela.

Era um cubículo bastante escuro, e seus olhos demoram a se acostumar com a falta de luz. Também era pequena – muito menor do que a cela onde encontrara seu pai e Bulma – e impossivelmente abafada, não possuindo nenhuma fresta para o exterior, o que impedia a circulação de ar e saturava a atmosfera interna com um mau cheiro pútrido.

Com a respiração presa e a pulsação acelerada, o saiyajin deu alguns curtos passos à frente e parou ao escutar um gemido rouco e o som tilintante de metal.

— Quem está aí?

Uma voz desgastada, velha e assustada perguntou, e Vegeta deu mais um passo à frente, apertando os olhos para conseguir enxergar alguma coisa.

— Sou Vegeta, o seu príncipe. Estou aqui para tirá-lo desse inferno.

Vegeta ouviu o prisioneiro fazer um som estranho – algo entre um engasgo, um soluço e uma risada – e estreitou ainda mais os olhos. Foi capaz de ver alguns contornos na escuridão, e, após vários segundos, conseguiu definir o que seria um homem muito velho e muito magro acorrentado à parede. Por um instante, lembrou-se da condição em que seu pai estava quando o encontrou, e a sensação de déjà vu fez um calafrio percorrer-lhe a espinha.

A cena era parecida demais.

E tão horrenda quanto.

— A-Alteza...? — O saiyajin sussurrou num misto de choque e exaltação, e Vegeta, após aproximar-se o suficiente, fechou as mãos entre as correntes e as quebrou sem dificuldade.

— Você está livre — Disse o príncipe.

— Livre?

— Sim, livre. Agora, vamos. Nosso tempo é curto.

O saiyajin, contudo, não parecia ter escutado Vegeta, pois contemplava, maravilhado, os pulsos não mais acorrentados, seus lábios feridos escancarados num sorriso enorme e quase sem dentes.

— Ei! — Vegeta tentou chamar atenção do velho prisioneiro. — Disse que temos qu-

— Obrigado — A fala emocionada fez Vegeta se calar e sustentar o olhar no rosto maltratado do saiyajin. — Eu esperei, esperei muito por esse dia. Às vezes, pensava se meu destino seria morrer como um escravo de Freeza, mas... mas você chegou! Muito obrigado, alteza. Graças a você, morrerei um saiyajin livre.

— Não diga asneiras! Ninguém aqui vai morrer! — Rosnou Vegeta, soando furioso, mas também um pouco aflito. — Se está doente ou ferido, temos condições de ajudá-lo. Apenas aguente firme.

O prisioneiro, contudo, não o respondeu, e o príncipe saiyajin deu dois passos à frente quando viu o corpo do sujeito desfalecer de repente. Agachando-se ao lado dele, percebeu que a pele estava fria ao toque e, ao procurar por uma pulsação, não encontrou nada.

Ele estava morto.

~Dragon Ball~

Dos seis saiyajins mantidos em KX-04, apenas quatro deixaram a prisão com vida. Eles eram todos sujeitos já bem idosos – da mesma idade ou até mesmo mais velhos que o rei Vegeta – e disseram terem sido membros da corte de Vegetasei, no passado. Vegeta não se recordava de nenhum deles, pois suas lembranças da infância eram escassas e enevoadas, entretanto, Raditz se recordava especialmente de um deles: um homem alto, de rosto esquálido e cabelos ralos e grisalhos chamado Tora, que fora um grande amigo do seu pai.

— É verdade que você conheceu o nosso pai? Eram amigos? — Kakarotto logo perguntou, cheio de expectativa. — Sabe se ele também foi feito prisioneiro? Acha que ele tem chance de estar vivo?

— Bardock foi mais do que um amigo para mim. Ele foi um irmão — Respondeu Tora, seus olhos opacos de catarata umedecidos pela emoção do momento e pelo poder que aquelas recordações possuíam. Colocou uma mão sobre o ombro de Kakarotto e ofereceu-lhe um sorriso cortês. — Ele morreu com honra.

Kakarotto sorriu de volta, mas Raditz percebeu que aquele fora um sorriso forçado e infeliz, pois aquela não era a resposta que seu irmão tanto queria ouvir.

— Eu devia ter te escutado quando disse que não devia ficar cultivando falsas esperanças — Kakarotto lhe dissera algum tempo depois, os ombros murchos e o semblante cabisbaixo. — Você estava certo, Raditz.

— Acredite quando digo que preferia estar errado — Confessou o mais velho, esfregando o rosto amarrotado pelo cansaço com as mãos. — Eu... eu sinto muito, Kakarotto.

— Tora disse que papai morreu lutando, e que não há honra maior do que morrer num campo de batalha, defendendo o seu povo — Comentou o mais jovem e, após um hiato de silêncio, coçou o queixo. — Hein, Raditz! Por que você acha que Freeza aprisionou esses saiyajins por todos esses anos? O que será que ele pretendia fazer?

— Esses homens que resgatamos — Murmurou Raditz, pensativo. — eram todos saiyajins poderosos, tanto em força física e poder de luta quanto em influência. Todos ocupavam altos cargos na corte de Vegetasei e eram respeitados e admirados pelo povo. Kakarotto, eu não sei ao certo, mas acho que Freeza os capturou e os subjugou apenas por pura vaidade, entende? Para mostrar que podia — Suspirou fundo. — Bem, mas isso é só uma suposição. A verdadeira resposta, contudo, morreu com Freeza.

~Dragon Ball~

O segundo – e último – planeta para o qual os saiyajins seguiram foi KX-22. E KX-22 não era apenas um planeta-cárcere.

Ele era algo muito pior.

Era em KX-22 que havia os maiores depósitos de ferro de todo o Império, e, por causa disso, Freeza transformou aquele planeta numa monstruosa siderúrgica para a produção de chapas de ferro e ligas de aço, usando, como mão de obra, milhares e milhares de prisioneiros de todas as espécies possíveis.

O lugar era um gigantesco caos e quente feito o inferno.

— Vai ser impossível encontrar alguém aqui — Raditz deixou escapar num sopro de ar, seus olhos estupefatos correndo de um lado a outro pela imensidão da fábrica.

Por todos os lados, chaminés compridas se erguiam, cuspindo uma fumaça preta e danosa, fornalhas agigantadas queimavam sem parar, consumindo madeira, ferro e o que mais delas se aproximasse, e alto fornos ardiam incessantemente.

Raditz passou as costas da mão na testa, limpando o suor que já empapava-lhe o rosto, e encarou Vegeta, esperando uma resposta do amigo. Percebeu, entretanto, que o príncipe parecia estar pensando a mesma coisa.

Pela expressão em seu rosto, ele não fazia ideia de como fariam para localizar os saiyajins em meio àquela confusão.

— Esse lugar é enorme — Comentou o soldado, impressionado com o tamanho da usina. — Jamais imaginei que Freeza controlasse algo assim.

— Se pararmos para pensar, — Vegeta falou. — faz sentido. Todas aquelas naves que Bulma construía... o material tinha que sair de algum lugar.

Raditz coçou a cabeça.

— Eu sei, mas sempre imaginei que ele apenas saqueasse civilizações e roubasse tecnologia. Nunca passou pela minha cabeça que ele teria a sua própria usina siderúrgica... muito menos que fizesse prisioneiros para usá-los desse jeito. É... ...diferente, eu acho.

Fez uma pausa e observou, por um instante, um grupo de arcosianos passar próximo de onde estavam, as pobres criaturas esforçando-se para carregar uma comprida chapa metálica. Mais ao longe, dezenas de tritekianos e o que Raditz pensou se tratar de saibamans carregavam, nas costas, fardos e mais fardos de minério bruto, os alienígenas se arrastando e quase cedendo ao peso descomunal que eram obrigados a suportar.

A cena fez o peito do saiyajin apertar.

— Vegeta, você acha certo mesmo resgatarmos apenas o nosso povo? Poderíamos ajudar essas pessoas.

— Quando a notícia de que Freeza não mais está no poder se espalhar, — Disse o príncipe, sem encarar Raditz, sua voz séria e dogmática. — as prisões vão ruir por conta própria. Eu entendo que você esteja ansioso, mas temos que ter cuidado. Se espalharmos o fato de que estamos livres de Freeza num lugar como esse, o caos se instalará quase que imediatamente. Ficará impossível sair daqui — Murmurou sem tirar os olhos de uma série de alto fornos que cozinhavam uma massa incandescente. — Temos que encontrar os saiyajins que viemos procurar e dar o fora desse lugar antes que os prisioneiros deem início a uma rebelião.

Raditz bufou de levinho, sentindo-se, ao mesmo tempo, contrariado e obrigado a concordar com o raciocínio de Vegeta.

Aquele lugar era uma bomba-relógio. E era só uma questão de tempo até explodir.

— Muito bem — Disse, por fim. — E como é que vamos fazer para encontrar oito saiyajins sem fazer alarde, chamar atenção ou criar suspeitas?

Vegeta franziu a testa.

— Estou pensando. E você deveria estar pensando também num plano ao invés de ficar se preocupando com coisas que nã-

Um grito alto, agudo e persistente fez Vegeta se calar rapidamente e olhar para trás, na direção do inesperado barulho. Viu uma moça de aparência humana, de cabelo preto, olhos grandes, corpo magro e roupas maltrapilhas, cair de costas no chão enquanto segurava em seus braços algo semelhante a um embrulho.

Um embrulho bastante escandaloso, já que era ele a fonte do barulho tão irritante.

— Por favor, eu imploro! Tenha piedade! Ele é apenas um bebê! — A mulher rogou a uma criatura imensa que parecia algum tipo de crocodilo humanoide.

— Um bebê muito barulhento — Rosnou a criatura ao mesmo tempo que ergueu ameaçadoramente um chicote acima da cabeça. — Se você não conseguir calar essa criança neste segundo, sua terráquea inútil, eu mesmo irei silenciá-la!

O monstro, então, preparou-se para atacar a humana, que chorava e dobrava-se sobre o bebê em seus braços, fazendo o possível para protegê-lo, quando, de repente, Kakarotto se interpôs entre o réptil bípede e a mulher.

— Merda! — Vegeta escutou Raditz xingar ao seu lado. — O que Kakarotto pensa que está fazendo? E como ele foi parar ali? Achei que estivesse aqui conosco...

— Seu irmão é um idiota — Vegeta resmungou ao ver Kakarotto tentar dialogar com o réptil em favor da humana. — Ele vai estragar tudo.

— Já está estragando — Raditz comentou, percebendo que vários alienígenas pararam de trabalhar para assistir ao desenrolar da cena. — Ele está chamando atenção dos outros.

— Então vamos ter que dispersar os curiosos.

O príncipe saiyajin quase rugiu e lançou uma encarada tão feia a um grupo de espectadores que as pobres criaturas saíram correndo. Seguindo o exemplo de Vegeta, Raditz também afugentou mais alguns alienígenas e, quando se aproximou o suficiente de onde Kakarotto estava, percebeu que o enorme crocodilo humanoide estava caído no chão, inconsciente.

— O que você pensa que está fazendo? — Perguntou o mais velho ao irmão. — O plano era "não chamar atenção", Kakarotto!

— Ah, desculpe, mas... esse cara não estava querendo cooperar — Kakarotto tentou se desculpar, não gostando nem um pouco dos olhares recriminadores que tanto o seu irmão quanto Vegeta lhe lançavam. — Ele queria atacar essa moça e o bebê. Eu não podia ficar de braços cruzados.

Vegeta rolou os olhos e pinçou a curva do nariz e, depois, fitou a mulher, que ainda estava ajoelhada no chão, encarando os saiyajins com olhos arregalados e a boca ligeiramente entreaberta.

Nos braços dela, o bebê continuava a gritar.

— Numa coisa eu tenho que concordar com aquela besta — Murmurou o príncipe, olhando de canto para o crocodilo nocauteado. — Essa criança é muito barulhenta. Não consegue fazê-la ficar quieta?

— Vegeta, não seja tão mal-educado — Kakarotto murmurou e caminhou até a humana, ajudando-a a ficar de pé. — Não ligue para o meu amigo. Ele não tem muito jeito com pessoas.

— Eu também não sou seu amigo — Vegeta retrucou de imediato, e Raditz foi obrigado a abafar uma risada.

— Você salvou a minha vida — A moça, então, saiu daquele estado de estupor e conseguiu falar, seus olhos grudados em Kakarotto. — M-Muito, muito obrigada pelo que você fez. Tem minha eterna gratidão!

As bochechas do jovem saiyajin coraram de vergonha.

— Não precisa agradecer por isso — Ele balbuciou, sem graça. — Espero que você e o seu filho estejam bem.

— Hum? Meu filho? — Indagou ela, confusa, e, de repente, olhou para o bebê choroso em seus braços. — Ah! O Gohan não é meu filho.

— E onde estão os pais dele? — Raditz perguntou, aproximando-se do irmão e da humana. Deu uma boa olhada na criança, que já tinha o rosto todo vermelho de tanto que chorava, e tornou a falar: — Vai ver que é por isso que está chorando tanto. Porque precisa dos pais.

O rosto da humana foi assolado por uma tristeza repentina, e ela apertou ainda mais o bebê contra o peito.

— Os pais de Gohan estão mortos. Já faz algum tempo que estou cuidando dele — Ela balançou o pequeno Gohan nos braços e ergueu um pouco o rosto, dando uma boa olhada nos saiyajins, como se avaliando cada um deles. Mordeu o lábio inferior e inspirou fundo. — Mas não é por isso que ele está chorando. Eu não sei se deveria mostrar isso a vocês, mas... mas vocês são saiyajins e acho que entenderiam. Além disso, acabaram de salvar a minha vida, então creio que não faria mal...

— Do que você está falando? — Vegeta disparou, cruzando os braços na frente do peito e fitando-a com suspeita.

— Sobre isso — A mulher ajeitou a criança no colo e, após olhar ao redor, como se para ter certeza de que ninguém mais os observava, e guiar os saiyajins até um canto mais afastado e escondido, afrouxou um pouco a roupinha que o bebê usava. No mesmo instante, um rabo peludo e marrom escapou pelo espaço da roupa e o choro cessou, sendo substituído por pequenos soluços de alívio.

Os três saiyajins ficaram subitamente emudecidos.

— Ele fica muito incomodado com a cauda presa, mas é necessário que ela fique bem escondida. Os guardas não podem descobrir que ele é um saiyajin.

Raditz estreitou os olhos.

— Por que não?

— Os guardas de Freeza nos tratam feito lixo, mas com os saiyajins... …com os saiyajins é diferente.

— Diferente? Diferente como? — Inquiriu Kakarotto, e a moça exalou um sopro de ar.

— Os guardas são mais cruéis com os saiyajins. Muito mais cruéis. Por isso não posso deixar que descubram sobre Gohan, pois o maltratariam muito. Eu prometi à mãe dele que cuidaria do bebê como se fosse meu.

Vegeta observou o bebê por algum tempo e, em seguida, sustentou o olhar no rosto sujo da humana.

— É por isso que os pais dele estão mortos? Os guardas de Freeza os mataram?

A moça fez que não.

— O pai dele, Parsla, morreu num acidente um pouco antes de Gohan nascer. O piso de uma das plataformas cedeu e ele caiu num caldeirão de ferro fundido.

Raditz e Kakarotto estremeceram ao ouvirem sobre a morte horrenda de Parsla, e Vegeta desviou o rosto e olhou na direção de um dos caldeirões. Tentou supor a temperatura necessária para se cozinhar aquela massa de ferro – 1.400ºC? 1.500ºC? – e foi obrigado a lutar contra um arrepio ao imaginar a cena.

Certamente uma morte bastante desagradável.

— A mãe dele, ao contrário do que vocês estão pensando, não era saiyajin. Honey era uma terráquea, assim como eu — A moça continuou a falar, e as palavras dela fizeram Vegeta arquear as sobrancelhas em surpresa e trocar um olhar entendedor com Raditz. — A gravidez foi uma surpresa para ela e também foi bastante difícil e exigiu muito do seu corpo. Ela morreu no parto.

A humana falou mais coisas, inúmeras coisas; para Vegeta, no entanto, todas as palavras que saíram da boca dela pararam de fazer sentido após ser-lhe revelado o destino da mãe do bebê. Foi impossível para o príncipe, naquele momento, não pensar em Bulma, em Trunks e em Honey, uma mulher que ele não conhecia, mas que morrera ao dar a luz a uma criança que era metade saiyajin.

Perguntou-se mentalmente se seria esse o destino de Bulma caso não tivesse perdido o filho e sentiu a boca secar.

— Ei, Vegeta.

O príncipe foi arrastado de volta à realidade ao sentir a mão de Raditz em seu ombro e buscou os olhos do amigo.

— Vegeta, — O soldado prosseguiu. — você não ouviu o que a senhorita Chichi disse?

— Chichi? — Ele fraziu a testa. — Quem é Chichi?

Raditz lançou-lhe um olhar preocupado e questionador.

— É o nome da moça com quem estivemos conversando até agora. Você não estava prestando atenção?

— Eu... eu — Hesitou e sacudiu a cabeça para os lados, tentando afastar os pensamentos de Bulma e Trunks de sua cabeça. — Acho que não.

— Hn, bem... ela vai nos levar até os outros saiyajins. Então, vamos logo. Quanto antes sairmos desse lugar, melhor pra gente!

~Dragon Ball~

Num total, foram resgatados nove saiyajins – quatro em KX-04 e cinco em KX-22 –, dezesseis terráqueos e um bebê híbrido. A nave que outrora pertencera ao esquadrão Ginyu não teve condições de comportar a todos, então foi necessário a apropriação de uma outra espaçonave. Raditz, que estava mais familiarizado com os controles da nave de Ginyu, seguiu com ela, enquanto Borgos, um dos saiyajins resgatados, e que, por sinal, tinha bastante facilidade com pilotar veículos espaciais, pois fora, no passado, o comandante da força aeroespacial de Vegetasei, foi o responsável por conduzir a espaçonave recém-roubada.

O curso para Tech-Tech foi traçado, e a viagem de volta durou exaustivos três dias e meio.

No primeiro dia, Vegeta estava tão cansado que, assim que se certificou de que tudo estava bem, dormiu por onze horas seguidas, mal se mexendo sobre o catre no qual estava deitado. No segundo dia, entretanto, não conseguiu dormir quase nada, pois foi assombrado por pesadelos diversos. Em um deles, o saiyajin via-se chegando à prisão onde Bulma e o rei estiveram trancafiados, apenas para encontrar uma cela vazia, mas toda suja de sangue.

— Chegou tarde demais, macaquinho — Ouviu a voz de Freeza, embora não conseguisse ver o maldito. — Eu já me livrei da sua cientista terráquea.

A voz sibilante e maldosa ficou suspensa no ar, e Vegeta apertou as mãos ao lado do corpo e reprimiu um grito de ódio, horror e dor, seus dentes rangendo tanto que estavam a ponto de trincar. E então, aquela voz peçonhenta começou a mudar, e Vegeta percebeu que não era mais Freeza quem lhe falava, mas Zarbon:

— Deve ser mesmo muito frustrante, não é? Ter poder suficiente para destruir Freeza e seu império, mas não para conseguir salvar aqueles que lhes são... ...queridos.

Vegeta acordou molhado de suor, com um grito preso na garganta e uma dor indescritível varando o seu peito. Demorou a voltar a pegar no sono, mas, quando tornou a adormecer, sonhou com Bulma. Dessa vez, ela estava bem viva – e bem grávida, também, a julgar pelo tamanho da barriga – e gritava, rugia e chorava, agonizando nos braços de Vegeta enquanto dava a luz a Trunks. Quando o choro de bebê eclodiu no ar, os gritos de Bulma finalmente cessaram, bem como as batidas do seu coração.

Vegeta acordou sentindo-se sufocado e decidiu que não mais dormiria até chegarem a Tech-Tech.

A lembrança de uma Bulma morta em seus braços e do choro agonizante de um bebê que jamais teria a oportunidade de conhecer a mãe o acompanharam até o fim da viagem.

~Dragon Ball~

Bulma observou, a uma certa distância, as duas naves pousarem num terreno descampado de Tech-Tech e suas respectivas rampas serem baixadas. Olhou para o chão por um instante e pressionou a mão sobre o coração palpitante. Estava um pouco nervosa – além de bastante apreensiva – com a possibilidade de rever Vegeta, e seu corpo inteiro sofria com aquela intensa ansiedade: a boca estava seca; as pernas, bambas; o estômago se revolvia em inúmeros nós; e a respiração, vez ou outra, ficava laboriosa, pois o ar parecia lhe faltar. Quando conseguiu se acalmar um pouco, ergueu o rosto e deparou-se com uma pequena multidão de techtecanos, saiyajins e o que pareciam ser terráqueos concentrados na frente das espaçonaves.

Temerosa de se aproximar, permaneceu onde estava e esticou um pouco o pescoço para procurar por Vegeta. Não tardou a encontrá-lo, pois logo reconheceu o cabelo preto e arrepiado, agitado pela leve brisa, o rosto moreno e suado – e muito cansado – brilhando sob o sol forte e os músculos bem definidos, que, por algum motivo, pareciam estar sempre tensos, como se fossem obrigados a suportar o peso do universo. Observou enquanto ele trocava algumas palavras com o rei Vegeta e mais alguns sujeitos que eram, sem sombra de dúvida, saiyajins, pois, apesar da magreza exagerada e dos óbvios sinais de maus-tratos, ainda assim carregavam o mesmo porte guerreiro que só os saiyajins possuíam.

Viu quando ele deu as costas ao grupo e se afastou um pouco, indo ter com Raditz, Tarble e mais um outro rapaz, que Bulma julgou se tratar de Kakarotto. E então, de repente, prendeu a respiração quando Vegeta desviou o rosto dos outros saiyajins e ergueu o olhar, fitando-a de volta com uma intensidade desconcertante. As feições dele estavam marcadas pela seriedade e pela exaustão da viagem, ela logo notou, com os lábios unidos numa linha dura, a testa enrugada e os olhos severos, e a cientista pensou, por um breve momento, que aquela sisudez iria evaporar, que os olhos dele perderiam a frieza e que os lábios se contorceriam num sorriso petulante e vitorioso, porém seguro e cheio de promessas de que, dali em diante, tudo ficaria bem.

Por um breve instante, pensou que estivera se comportando feito uma tola e que passara todos aqueles dias preocupando-se à toa com o que aconteceria quando Vegeta retornasse.

Por um breve instante, pensou que nada tinha a temer.

E então, aquele breve instante não só chegou ao fim, como foi estilhaçado bem diante dos seus olhos, pois o rosto de Vegeta, ao contrário do que Bulma imaginara, não se iluminou ao vê-la. Seus olhos não se suavizaram. Seus lábios não esboçaram o menor sorriso. Ao invés disso, o príncipe saiyajin franziu ainda mais o cenho e desviou o rosto, evitando os olhos dela.

Ignorando-a completamente.

E aquilo, aquilo espalhou uma sensação tão ruim pelo corpo de Bulma que foi como se o sangue gelasse em suas veias e o chão ruísse sob seus pés.

Aquilo bastou para confirmar que os seus maiores temores estavam certos, pois, uma fração de segundo antes de Vegeta virar o rosto e ignorá-la, ela viu um lampejo de vergonha transpassar aqueles olhos escuros.

E Bulma sabia qual era o motivo daquela vergonha: era ela. Tinha de ser ela. E por que não seria? Até ela sentia vergonha de si mesma e da debilidade do seu próprio corpo, então, por que Vegeta não poderia sentir o mesmo?

Com o pensamento em mente e um peso no coração, a cientista deu as costas a todos, retornou à casa de Gure e se trancou no quarto.

~Dragon Ball~

Naquele dia e no seguinte, Bulma evitou Vegeta – e Raditz, Tarble, Gure e o rei Vegeta – o máximo que pôde, inventando sempre alguma desculpa quando batiam-lhe à porta e lhe procuravam. Não conseguiu, todavia, evitar Kakarotto, o irmão de Raditz, pois o jovem saiyajin, além de extremamente persistente, também não tinha o menor senso de convivência social e não era capaz de perceber que Bulma não queria ser incomodada.

— Ei! Estão todos perguntando sobre você — O rapaz disse ao entrar no quarto e sobressaltando Bulma, que estava deitada na cama. — Você não está doente, está? Desde ontem que não sai desse quarto... ...espero que não seja nada grave.

— Eu estou bem — Ela sussurrou, sem vontade alguma de conversar. — Você é Kakarotto, não é? O que quer?

Ele coçou a nuca, meio sem jeito, e se aproximou, sentando-se na beirada da cama, e foi aí que Bulma percebeu que ele carregava algo no braço.

— Por acaso isso é um bebê? — Perguntou, espantada e curiosa, e Kakarotto fez que sim.

— Esse é o Gohan. Estou tomando conta dele para a Chichi. Ela está ocupada cozinhando pra gente e não pode cuidar dele. Ela também disse que Gohan gostou de mim, por isso me pediu para ficar com ele por um tempo.

Bulma anuiu e fitou o bebê, que parecia bem à vontade nos braços do saiyajin.

— A mãe dele era uma terráquea assim como você, e o pai era um saiyajin chamado Parsla.

Bulma engoliu em seco.

— Parece com você e Vegeta, não acha? Claro, eles estão mortos... e essa parte não parece tanto assim, mas... acho que você me entendeu, não entendeu?

Ela não o respondeu. Na verdade, mal prestou atenção no que ele disse, pois estava completamente focada na criança que dormia um sono profundo nos braços de Kakarotto.

— Quer segurá-lo, Bulma?

— O quê?

— Quer segurá-lo um pouco? — Perguntou ele, inocentemente, e Bulma hesitou por um segundo ou dois.

No final, fez que não com a cabeça.

— Ah, está bem — O saiyajin tartamudeou alguma coisa, até que, num instante, seus olhos se iluminaram, como se de repente se lembrasse de algo. Encarou a cientista com um sorriso no rosto. — O pai de Chichi, o senhor Cutelo, tem essa ideia de que poderia partir com os outros terráqueos e procurar um novo planeta para habitar... por isso ele queria saber se você poderia dar uma olhada numa das naves, sabe? Ver se elas estão funcionando direito, se ainda têm combustível suficiente para uma longa viagem e tudo o mais.

— Os terráqueos estão indo embora?

— Gure e os outros techtecanos estão sendo muito gentis com todos, mas o senhor Cutelo não quer abusar muito da hospitalidade deles e pretende partir assim que possível. Então, o que diz? Pode ajudá-los? Vai dar uma olhada nas naves?

Ela pensou um pouco e logo meneou a cabeça num gesto afirmativo.

— Claro. Vou apenas lavar o rosto.

~Dragon Ball~

Bulma gastou quatro dias avaliando as duas naves. Nenhuma delas estava muito avariada e nem precisava de grandes reparos, mas a cientista fez vários upgrades nos dois veículos, aumentando a potência dos motores e a eficiência dos amortecedores inerciais, bem como a eficácia dos sistemas de propulsão e combustão. Após concluir tudo, guardou as dezenas de ferramentas numa maleta, limpou as mãos sujas de graxa na lateral da calça e estava prestes a deixar a nave e ir direto para o banheiro tomar um bom banho quando viu que Vegeta estava parado na frente da abertura da espaçonave, os braços cruzados e a testa franzida.

Bulma parou de súbito ao vê-lo e respirou fundo.

Era a primeira vez que se encontrava cara-a-cara com ele desde que retornara da missão de resgate.

— Vegeta — Ela murmurou, fazendo o possível para não encará-lo. — Precisa de alguma coisa?

— Queria falar com você — Disse o saiyajin, a voz rouca e áspera.

Bulma assentiu em silêncio, os olhos fixos em tudo, menos nos dele.

— Já terminou de reparar esta nave?

Ela sentiu uma vontade enorme de corrigi-lo e dizer a ele que não tinha reparado nada, apenas feito algumas modificações, no entanto, apenas respondeu que sim.

Quanto antes a terminasse aquela conversa, melhor.

— As duas naves estão prontas. Já terminei o serviço.

— Ótimo — Respondeu ele, não com rispidez, mas com algo que era muito pior.

Frieza e indiferença.

— Os terráqueos partirão amanhã mesmo. Eles levarão esta nave aqui e deixarão a outra para nós.

— Amanhã? — Perguntou a cientista, surpresa. — Acho muito cedo, considerando que ainda vou precisar ensinar a pelo menos dois deles os comandos básicos da espaçonave, o que com certeza levará mais de um dia.

— Isso não será necessário.

— Por que diz isso?

Vegeta, então, ergueu o rosto e sustentou o olhar no dela pela primeira vez em dias. Quando falou, sua voz, suas palavras e o significado que elas carregavam atingiram Bulma como um soco na boca do estômago.

— Eu disse a Cutelo que você iria acompanhá-los. Você irá partir com os outros terráqueos, Bulma. Será bom para você ficar com gente da sua mesma espécie.

Se ela estivesse pensando com clareza, certamente teria respondido algo como "e desde quando você toma decisões por mim?" ou "onde está escrito que você tem algum direito de mandar na minha vida?" ou "vai se ferrar, Vegeta! Eu faço o que bem entender!" ou apenas colocado as mãos nos quadris e dado algumas boas risadas da cara dele. Entretanto, Bulma não estava pensando com clareza naquele momento – e nem agindo como normalmente agia –, pois sua mente tinha sido consumida pela culpa, pela vergonha e pelo medo, e, apesar de Porunga ter curado o seu corpo, sua alma sofria com uma doença que apenas piorava a cada dia. Por isso, ela apenas virou o rosto para que ele não visse a dor que aquilo lhe causara e respondeu:

— Está bem.

E, sem ao menos se despedir, passou pelo saiyajin e se foi.

~Dragon Ball~

O rei Vegeta sabia que havia algo muito estranho acontecendo entre o seu filho e Bulma. No começo, quando Vegeta tinha partido de Tech-Tech para procurar pelos outros saiyajins, não passara nem um pouco despercebido ao rei como Bulma optou por se manter sempre muito distante, calada e preferindo a solidão à companhia dos demais. Ele respeitou o isolamento dela, pois achou que a terráquea realmente precisava de um tempo a sós para lidar com o que tinha acontecido e prantear a perda do bebê. Todavia, quando Vegeta retornou de viagem, Bulma se isolou ainda mais, evitando qualquer tipo de contato com... bem... com qualquer pessoa. Depois, quando Cutelo pediu a ajuda da cientista com o reparo das espaçonaves, a moça praticamente se trancafiou dentro das naves e deixou-se perder no trabalho.

Ele não a viu por dias, até que, de repente, ela o procurou, e o rei percebeu que havia um vazio assustador naqueles belos olhos azuis dela.

Nesse dia, ela o procurou para se despedir.

"Vou partir com os outros", foi o que ela disse, e aquilo pegou o rei tão desprevenido que ele nem soube o que falar. "Foi um grande prazer te conhecer. Espero que fique bem."

Quando ele finalmente recuperou a capacidade de falar, perguntou a ela o que tinha acontecido e por que tinha tomado tal decisão. E tudo o que Bulma respondeu foi que tinha conversado com Vegeta e os dois concordaram que seria melhor ela permanecer com membros da sua própria espécie.

Ele tentou arrazoar com a cientista, saber o que estava acontecendo e porque os dois tinham concordado com uma ideia que, do seu ponto de vista, não fazia o menor sentido, e tudo o que Bulma fez foi fitá-lo com olhos marejados e suplicantes. "Por favor, entenda," foi o que ela disse, controlando-se para não desabar ali mesmo "eu não consigo suportar a forma como ele me olha. Ele tem vergonha de mim... e o pior de tudo é que não posso culpá-lo por isso. Vegeta tem todo o direito de se sentir assim porque eu falhei com ele."

Ao invés da resposta oferecida ter esclarecido as dúvidas do rei, ela o confundiu ainda mais, pois ele duvidava que Vegeta sentia-se assim em relação a Bulma. Se fosse esse o caso, o seu filho jamais teria mostrado toda a preocupação que mostrou pela humana, muito menos teria pedido a Porunga que a ajudasse na recuperação. Havia algo ali que não fazia sentido, e o velho saiyajin estava bastante disposto a descobrir o que de fato acontecera. E, se ele não conseguira respostas claras o bastante com Bulma, ele iria consegui-las com Vegeta.

~Dragon Ball~

O rei encontrou Vegeta do outro lado do planeta.

O príncipe parecia estar lutando sozinho num planalto que era completamente deserto e desprovido de qualquer tipo de vida.

Ou melhor, ele parecia estar destruindo tudo o que havia ao seu redor.

— O que deu em você? — Perguntou assim que o filho terminou de lançar uma série de esferas de energia contra um paredão rochoso, transformando tudo em pó. — Ficou louco, meu filho?

— O que está fazendo aqui? Como me achou? — O saiyajin ralhou, sem fôlego, olhando para o pai por cima do ombro.

— Estou procurando por você há horas. Precisei pedir a Tarble para localizar o seu Ki.

— Se eu quisesse que me encontrassem, não teria vindo até aqui! — Ele rosnou e atacou outra formação rochosa, transformando tudo em minúsculos fragmentos. — Vá embora!

O rei suspirou fundo.

— Por que está fazendo isso? Por acaso... esse seu comportamento irracional teria alguma coisa a ver com o fato de Bulma estar partindo com os outros terráqueos? — Perguntou e viu Vegeta se retesar todo.

Pelo visto, estava no caminho certo.

— Ela disse que foi ideia sua.

— E foi. Será melhor para ela desse jeito — Respondeu Vegeta, e o rei notou algo estranho na voz do filho.

— Tem certeza? Me parece estranho que, depois de tudo o que você fez para encontrá-la, você a mande embora da sua vida — Disse com suavidade e olhou para o céu quando uma nuvem cinzenta bloqueou o sol, fazendo com que um sombra caísse sobre os dois. Quando voltou a encarar o filho, percebeu que os ombros de Vegeta estavam trêmulos. — Filho, eu não sei direito o que aconteceu entre vocês dois, mas, se aceita um conselho, eu acho q-

— Eu passei anos sem precisar dos seus malditos conselhos! — Vegeta virou-se para o pai e ralhou, enraivecido. — Não é agora que vou precisar deles!

O rei arregalou os olhos e empalideceu, e Vegeta, ao ver a tristeza e o choque tão nitidamente estampados no rosto do pai, arrependeu-se na mesma hora do que falara.

Abatido e envergonhado, abaixou o rosto e pregou os olhos no chão.

— Sinto muito — Fez questão de se desculpar, pois seu pai – seu rei – não merecia escutar aquilo. — Sinto muito, passei dos limites com o senhor. Eu... — Ele, então, hesitou e esfregou a mão no rosto suado. — É que... você não entende. Jamais entenderia.

— E vou continuar sem entender se você não me explicar o que está havendo. Apenas... apenas tente. O que aconteceu, Vegeta?

O príncipe levou vários minutos para conseguir vencer o bloqueio que formara-se em sua garganta e que impedia as palavras de ganharem vazão.

— Eu não consigo mais. Não consigo encará-la — Confessou, e o rei, por um instante, pensou se Bulma estava mesmo dizendo a verdade quando afirmou que Vegeta se envergonhava dela.

O mero pensamento o assustou.

— Por que diz isso?

Foram mais vários minutos até Vegeta conseguir falar de novo, e o velho saiyajin lembrou que, certa vez, Bulma descrevera o príncipe saiyajin como sendo emocionalmente constipado. E, ao ver o filho naquela situação, não fazendo a menor ideia de como lidar com seus sentimentos e expressá-los, foi obrigado a concordar com a cientista.

— Eu me pergunto do que adianta — O rapaz falou, de repente, e o rei franziu a testa, confuso. — Eu me transformei no guerreiro legendário. Lutei contra Freeza de igual para igual. Eu ajudei a destruí-lo! E do que tudo isso adiantou? De que adiantou tanto poder? Eu não fui rápido o bastante e, se não fosse pela interferência de um dragão mágico, Bulma teria perdido mais que o bebê. Ela teria morrido.

— Vegeta — O rei falou, pausadamente, e lançou ao filho uma olhar repleto de incredulidade e angústia. — Você não está se culpando pelo que aconteceu a ela, está?

O saiyajin socou o chão, o impacto sendo forte o bastante para abrir uma cratera de metros de diâmetro sob o seu punho cerrado.

— Claro que estou! E ela também está! Bulma mal consegue olhar para mim e, quando olha, há apenas recriminação e julgamento nos olhos dela.

— Você está errado! — Exclamou o rei, horrorizado agora que compreendia o que acontecera entre os dois. — Pelos deuses, meu filho, você está tão errado. O que quer que você acha que viu... o que quer que esteja pensando, você está errado. Se equivocou. Vocês dois... como podem os dois serem tão orgulhosos a esse ponto? Aposto que nem conversaram um com o outro direito e já tiraram conclusões precipitadas.

— Do que está falando?

— Ela não te culpa, Vegeta. Nunca te culpou. Muito pelo contrário. Ela acha que você a culpou pelo que aconteceu.

As palavras do pai deixaram o príncipe aturdido.

— Que eu a culpei? — Falou ele, descrente e, até mesmo, ultrajado com a ideia. — Por que diabos eu a culparia? Que maldita culpa ela carrega nessa história?

— Ela acha que você a culpa por perder Trunks. Ela acha que é fraca, por isso sente vergonha... não de você, mas dela mesma. Vegeta, meu filho, essa recriminação que você viu nos olhos dela não é direcionada a você, e sim a ela mesma. Bulma acha que fracassou com você.

Vegeta demorou até processar tudo o que pai lhe dissera e, quando abriu a boca para falar, ouviu um barulho que era estranho, baixo e muito distante e olhou para trás.

Olhou para o horizonte e viu, ao longe, um pontinho minúsculo cortar o céu, subindo e subindo e subindo até se perder de vista.

Não teve dúvidas de que aquele minúsculo pontinho era a nave dos terráqueos.

Também não teve dúvidas de que era Bulma quem a pilotava, indo embora de vez da vida de Vegeta pensando que ele a condenava por algo que não era, nem de longe, culpa dela. E nem dele.

Agora, contudo, já era tarde demais.