Damashi no Mori
O samurai das Terras do Oeste
A side story
Para Rin-chan
Não havia mais som distante que ele pudesse ouvir.
Não havia mais cheiro a quilômetros que ele pudesse sentir.
Tudo era agora um caos de pequenas quantidades com as quais ele não sabia lidar.
Primeiro, logo no primeiro momento em que percebeu que havia algo errado, ele não conseguira abrir os olhos. As cores estavam diferentes, apesar de ter visto milhões de tons diferentes em séculos de existência. O mesmo aconteceu com os odores. E foi desesperador não sentir um cheiro tão importante perto dele nesses primeiros segundos.
E dias se passaram. Não sabia quantos. Havia sol e chuva, chuva e sol, sol e lua, lua e sol. Ele ficou quase o tempo todo num só local – apoiando as costas contra o tronco de uma velha árvore de laranjeira que recomeçava a florir. Apenas saía para lavar-se perto de um riacho e cuidar de si mesmo.
Começou a sentir fome e a ter outras necessidades que ele só via acontecer com outros humanos. Como com Sara e Rin.
Um dia, ele ouviu vozes. Não eram vozes distantes. Na verdade, há tempos desistira de tentar ouvir alguma coisa com a distância. Ficou sentado no mesmo lugar, olhos fechados enquanto sentir o vento trazer um pouco de frescor numa tarde de tanto calor.
As vozes não eram delicadas. Eram rudes, roucas. Eram homens. E eles mal falavam uma palavra com concordância correta, o que indicava a pouca educação que receberam. E tinham um linguajar tão vulgar... Ele nunca se atreveu a falar com Rin daquela maneira.
Abriu os olhos e observou.
Foi então que os homens apareceram. Alguns vestiam armaduras de samurais, outros apenas trajavam roupas leves e velhas, podendo-se ver os rasgos e remendos do tecido. Eles falavam sobre algum vilarejo que não tinha comida e eles terem que viajar para outro canto.
Não. Eles não eram samurais. Eram bandidos.
E Rin havia contato tantas histórias sobre o que esses homens faziam com qualquer um que estivesse no caminho deles... E, longe dela, ele só pensava no que ela faria para se proteger caso os encontrasse e não estivesse com ele.
Fechou os olhos e fingiu dormir.
Implorou aos deuses que alguém estivesse protegendo-a no lugar dele.
As vozes pararam. Ele ainda mantinha os olhos fechados, mas sabia que eles o haviam visto apoiado na árvore, que tinha duas espadas aparentemente valiosas com ele, que ele parecia indefeso ali.
Uma vítima perfeita.
Sentiu-os se aproximando. E, mesmo de olhos fechados, conseguia sentir as intenções de todos.
Eles queriam atacá-lo, matá-lo e levar as valiosas espadas. O corpo seria provavelmente jogado num rio. Talvez cortassem a cabeça e a deixassem em algum ponto do caminho para amedrontar os outros.
Nunca se sabia o que essa gente pensava, e isso era o que mais detestava nesses humanos nojentos. A pior gente que conhecia.
Continuou a fingir que dormia e sentiu a ponta de um metal frio tocando o ombro dele. Ótimo, além de vulgares, ainda eram mal-educados. Ele odiava ser cutucado daquela forma.
A pressão da ponta ficou mais forte e esse foi o erro do maldito que estava em pé diante dele para verificar se a vítima realmente dormia.
Num piscar de olhos humanos, não havia mais pressão porque o bandido já estava ensanguentado, contorcendo-se no chão depois de ter a garganta tocada. Houve um murmúrio geral e a próxima coisa que os lentos olhos dele registraram foram mais espadas avançando e o corpo dele reagindo automaticamente.
Um corte no braço foi o bastante para despertar mais coisas com que ele não estava acostumado. Isso era o que os humanos chamavam de adrenalina? Se sim, a sensação era mais do que agradável. Aqueles bandidos estavam dando uma enorme descarga de adrenalina no organismo dele, o que o tornava um atacante mais rápido, mais habilidoso, mais feroz. Os cortes em algumas partes do corpo – pés, perna e braços – nem doíam.
As habilidades marciais com espada de séculos de treinamento mostravam-se ainda dignas de nota.
Mal percebeu quando tudo acabou. Só havia corpos, sangue e cheiro de morte ao olhar ao redor. A adrenalina baixou e ele precisou se apoiar sob um joelho para aguentar o ritmo cardíaco e os membros trêmulos.
Depois de alguns minutos naquela posição, arrastou-se até um riacho próximo e lavou o rosto, os braços, as mãos e os pés. Havia ainda muita sujeira e sangue grudado, e ele levou muito tempo tentando se limpar.
Ao voltar ao local onde havia cometido o massacre, procurou algo entre os pertences dos bandidos que pudesse servir a ele, como a armadura, adagas e dinheiro. Um pequeno sorriso apareceu nos cantos do lábio dele ao lembrar que alguém também costumava fazer o mesmo.
Os dias voltaram a passar e ele teve que continuar aprendendo a se alimentar, a beber água, a lavar-se apropriadamente.
E também a fazer uma caminhada em direção aos novos vilarejos.
Uma pena que em todas essas caminhadas ele fosse atacado e tivesse que deixar um rastro de sangue para trás.
Um dos problemas de estar em condições como aquela era ter que cuidar de ferimentos. Ele nunca havia pensado que seriam tão trabalhosos todos aqueles momentos que Rin trocava os curativos e preparava alguma erva medicinal para ajudar a cicatrização. Lembrava que ela muitas vezes gemia de dor, e não era sem motivo. Pior que limpar os ferimentos era ter que colocar aquelas malditas ervas para o tratamento.
E lá estava ele limpando mais um ferimento, provocado desta vez não por bandidos durante uma luta, mas sim por lobos. Havia muitos deles naquela maldita floresta. Não só lobos selvagens, mas gatos e cachorros também. Ele conseguiu expulsar todos, mas ainda assim havia sido mordido por um no braço.
Ajoelhado às margens de um rio, ele mantinha o braço machucado imóvel enquanto que o outro trabalhava num amontoado de ervas, amassando as folhas com uma pedra em cima de uma pequena tábua de madeira que encontrara por perto. Já havia limpado a ferida e o sangramento havia parado, e agora precisava amassar um pedaço de pano por cima de uma cama de ervas que estava preparado e deixar no braço por algumas horas.
Depois daquilo, ele ainda teria que arrumar algo para comer.
Mas estava tão cansado.
Talvez só procurasse um lugar seguro para dormir e fosse comer na manhã seguinte. O plano inicial era dormir em um galho de árvore, assim como já vira o irmão fazer centenas de vezes, mas não era o caso agora que estava com o braço daquele jeito.
Ouviu ruivos de mais lobos e sentiu um calafrio percorrer a coluna, uma sensação com a qual não estava acostumado ainda. Era um pouco também de instinto, pois sabia agora que aquilo alertava humanos para o perigo.
Felizmente, o calafrio passou rápido, e o ruivo parecia estar muito distante demais. E ele estava perto de um rio. Lobos quase nunca se aproximavam de água.
Terminou de preparar o remédio e colocou-o em cima do ferimento, espalhando com cuidado com a ponta dos dedos enquanto pensava em outra coisa para se distrair da ardência. Era efeito do remédio, não? Ele ainda precisava se acostumar com aquilo.
Um pedaço de pano fez o acabamento do curativo, ficando por cima da pasta verde de cheiro ruim que agora agia no ferimento dele.
Foi quando ouviu de novo. Desta vez, havia alguém fugindo.
Não era, porém, a primeira vez que ouvia alguém fugindo. Ou pedindo socorro. Normalmente ele tentava ignorar, muitas vezes por perceber que não adiantaria os esforços dele e por estar ainda muito ferido para lutar. Mas a honra de ajudar o próximo, presente no espírito dos samurais, era mais forte e ele sempre se erguia, de onde quer que estivesse, para ir socorrer a vítima.
Lembrava-se sempre de uma pessoa... Rin... quando ela fugia e fugia... e se ela não estivesse naquela situação tão trágica eles nunca teriam se encontrado.
Deu um suspiro cansado. Segurou com força o cabo da espada para erguer-se. Apalpou o ferimento.
-Muito bem. – ele falou para si mesmo.
E virou-se em direção à fonte que precisava de ajuda.
Nota da Autora: um rápido outtake para ajudar no desenvolvimento da história :) está meio confuso, mas prometo que fará mais sentido no capítulo que vem!
Alguém aí descobriu quem é a figura, o "samurai" deste outtake? :) Oh, e o que será que essa pessoa está passando? E quem é que está em perigo?
Entrou oficialmente na terceira fase da história. Os capítulos continuarão curtos, mas serão mais atualizados até final do mês :) Obrigada a quem leu e comentou no capítulo anterior: Hiwatari Satiko, Lan-Lan, Maya Yoru, Lineh e Lucy! Obrigada, muito obrigada pelos incentivos!
Próximo update: 08/04/2012! Até lá!
Shampoo-chan/Analoguec
