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FEITICEIROS
Por Kath Klein
Colaboração: Yoruki Hiiragizawa
Revisão: Rô Marques & Yoruki Hiiragizawa
Capítulo 26
Calmaria
A grande sala de reunião, onde anteriormente o Círculo de magos tinha se encontrado, agora só era ocupada por três pessoas. Smith, Charles e Rosas. Os três estavam sentados praticamente um de frente para o outro se entreolhando.
'Smith tem razão. Não conseguiremos derrotar os dois. Eles estão muito fortes. Principalmente agora que o guardião, teoricamente, tem o poder primário dele.' Charles falou. 'Além disso, não temos ideia do poder do pilar.'
Rosas balançou a cabeça de leve. 'Tem que ter alguma maneira. Eles não podem ser indestrutíveis. Eles são uma ameaça a todos nós. Hiiraguizawa está minimizando a situação. Para mim, ele está envolvido em toda esta trama. Lembre-se que o Caos só surgiu por causa da ajuda dele a Muy Shyrai.' Ele falou em um inglês arrastado com forte sotaque espanhol.
'Exatamente…' Charles concordou. 'Se eles estão ligados emocionalmente, então, destruindo um, será mais fácil destruir o outro.'
Smith sorriu de forma irônica. 'Vai me dizer que você acreditou mesmo naquela estória ridícula de amor além da vida?'
Charles deu de ombros. 'Vai saber… Não sei… Realmente não acredito que o guardião tenha aberto mão do paraíso só por causa de uma mulher. Isso não faz sentido.'
'Só faria sentido se ele estivesse bastante confiante na sua vitória, não acham?' Rosas ponderou. 'O poder que ele tinha como guardião deste universo do mundo das trevas o conecta àquela dimensão terrível. E se ele usou isso apenas como uma desculpa para ir até lá e se fortalecer?'
'Para mim isto faz muito mais sentido.' Smith falou. 'Não duvidaria se, daqui a pouco, ele resolvesse destruir tudo e transformar nosso universo no mundo das trevas.'
Charles respirou fundo. 'Mas por que ele faria isso?' Perguntou, fitando os dois companheiros. 'Muy Shyrai era louco. Tinha perdido a família em um evento traumático. Acabou ficando no mundo das trevas porque Clow se acovardou e o deixou lá. Talvez se tivéssemos dado a cabeça de Hiiraguizawa numa bandeja para ele já fosse o suficiente para desistir de abrir aquele portal.'
'Os objetivos de Sakura Kinomoto e Syaoran Li não são tão claros. Mas sabemos que o Clã Li não ficou nem um pouco feliz com o rapaz quando ele voltou sem as cartas Clow.' Rosas continuou com suas especulações.
Smith concordou. 'Talvez ele queira se vingar do Clã dele. Hoje a Senhora Li vai ter que explicar direitinho a volta dele para os anciões que estavam aqui presentes. Eles ficaram surpresos. Pelo jeito a matriarca andou escondendo informações dos anciões.'
'Exatamente.' Eles ouviram uma voz atrás deles e voltaram-se para trás. Encontraram Reyume Li que se aproximava com Wing Chieng Li. Os dois pararam perto dos três. 'Yelan não nos alertou sobre a volta de Xiao Lang. Inclusive a sepultura dele foi violada. O corpo sumiu.' Reyume informou.
Wing Chieng olhou para o grupo. 'Xiao Lang nos humilhou na frente de todos os membros do Clã para nos enfraquecer. Não duvido que tenha voltado do inferno para nos destruir.'
'Temos motivos para eliminar tanto ele quanto a mestra das cartas deste plano. Eles aqui são uma ameaça para nós…' Reyume pigarreou. 'Uma ameaça para todos nós.' Ajustou sua frase.
O grupo ficou em silêncio por algum tempo. Estavam se estudando. Analisando se poderiam confiar um no outro. Não podiam, mas tinham o mesmo propósito, destruir Syaoran Li e Sakura Kinomoto.
Smith se levantou e fitou os outros. 'Precisamos achar uma maneira. Todos aqui concordam que, mesmo nós cinco juntos, não teremos poder para destruí-los.'
Eles concordaram. Wing Chieng levantou o rosto e fitou seus aliados com um sorriso. 'Nós não temos força, mas, com certeza, existe uma pessoa que teria poder e força para derrotar um ser das trevas.'
Smith franziu a testa. 'Quem? Nenhum membro do círculo tem poder, por isso que ficaram tremendo nas bases, com medo de enfrentá-lo. Quem não foi a favor de deixá-los em paz simplesmente se absteve.'
'Um guardião das trevas tem poder de destruir um demônio.' O ancião falou com calma.
Rosas deu uma gargalhada. 'Este é nosso problema, caro senhor. O guardião é o demônio agora.'
'E se trouxermos um guardião de um universo paralelo ao nosso?' Finalmente explicou.
'E como faremos isso, velho?!' Smith perguntou impaciente.
'Temos as anotações de Clow e Shyrai de quando estavam estudando as possibilidades de abertura de uma brecha. As anotações de Shyrai faz referência a várias outras possibilidades que não o uso do artefato que acabaram utilizando. Algumas são inconclusivas, mas outras podem nos ajudar a encontrar a solução de nosso problema.'
'Estas anotações deveriam estar em poder do Círculo e não com os Lis.' Rosas observou e foi apoiado pelos outros dois magos.
Reyume sorriu de forma debochada. 'Existem vários documentos que também deveriam estar em poder do Círculo e da humanidade, não acha senhor?'
Rosas franziu a testa. 'As relíquias do Vaticano dizem respeito apenas a nós.'
Reyume inclinou o corpo, encarando o homem. 'Então, não me venha com hipocrisia, padre.'
'Senhores… Não vamos desviar de nosso objetivo.' Wing Chieng falou com a voz calma. 'São relíquias de família. Além disso, era certo que o guardião viesse dos Lis, nada mais justo que este material estivesse conosco para orientar nossos membros.'
'Humph… Vocês realmente se acham grande coisa, não é?' Charles comentou, olhando para os dois anciões.
'Nosso Clã é tão antigo quanto o próprio Círculo. Nosso conhecimento e fontes são ilimitados. Não há o que discutir quanto a isso.' Reyume falou com arrogância.
Smith se levantou e encarou o senhor. Não gostando da colocação dele. Reyume sorriu de lado. 'Estamos aqui justamente para tentar deter um membro do nosso clã.'
Não gostava de Xiao Lang, mas não poderia ignorar o fato do rapaz ter feito o impossível. Sempre tinha achado aquele garoto com o espírito forte demais. Todos sabiam da capacidade que ele teria para pegar as Cartas Clow e nunca engoliram aquela história dele ter perdido para Sakura Kinomoto.
Ele voltou para Hong Kong com aquela história e a manteve de forma inflexível, mesmo depois de ter apanhado tanto. Fora humilhado e, mesmo assim, manteve não mudou sua versão dos fatos. Era cabeça dura demais. Passou por tudo aquilo e depois enganou todos os anciões, fazendo-os acreditar que ele voltaria para o Japão para tomar as cartas de Kinomoto de uma vez por todas, mas, na verdade, foi mesmo era se deitar com ela. Maldito arrogante. Jogou no lixo milênios de tradição porque pensava com a cabeça errada.
Mas isso não foi suficiente para Xiao Lang. Ainda resolveu fazer aquela interferência astral, manifestando-se no corpo do primo e humilhando a todos. Depois do que todos do clã viram Hyo Ling fazer, para o rapaz ser colocado no posto de patriarca foi questão apenas dele se recuperar dos ferimentos. Yelan tinha tudo arquitetado. Ela simplesmente tirou o poder dos anciões que agora eram apenas conselheiros, assim como ela.
O Clã Li estava enfraquecendo. Os outros anciões simplesmente colocaram o rabo entre as pernas e aceitaram as mudanças. Ele e Wing Chieng eram os únicos contrários e, por isso, foram ameaçados de serem banidos. Xiao Lang, depois de morto, tinha lhes dado um golpe quase fatal. E o pior de tudo, o desgraçado ainda tinha voltado a este universo e estava vivendo tranquilamente com a mestra das cartas.
Reyume observou os homens a sua frente. Não confiava em nenhum deles, mas precisava deles para destruir Xiao Lang. 'E então? Temos ou não um acordo?'
Smith adoraria dizer que não, mas sua resposta foi apenas estender a mão para o ancião que a apertou selando assim o acordo deles em destruir Sakura Kinomoto e Syaoran Li.
Syaoran caminhava de forma apressada pelo Campus. Sentia-se incomodado com alguma coisa, mas não sabia exatamente o que era. Não era só a questão de Meilyn. Tinha alguma outra coisa que fazia com que seus sentidos ficassem em alerta. E não era apenas questão de ser um demônio agora ou não, sempre que se sentia de alguma forma ameaçado tinha aquela sensação ruim na boca do estômago. Ouviu o toque do celular e pegou o aparelho do bolso. Franziu a testa, observando o número que apareceu no display. Atendeu o telefone.
'Xiao Lang, Jìng qǐng guānzhù'. (Syaoran, precisa ficar atento) Ouviu a voz da mãe.
'O que aconteceu no Círculo?' Ele sabia que o assunto com certeza era este. 'Os babacas não engoliram o fato de Sakura não largar tudo e ir correndo quando chamaram?'
Take all of your wasted honor
(Pegue toda a sua honra desperdiçada)
Every little past frustration
(Todas as pequenas frustrações passadas)
Take all of your so called problems
(Pegue todos os seus chamados "problemas")
Better put 'em in quotations
(Melhor colocá-los entre aspas)
Say what you need to say
(Diga o que precisa dizer)
'Eles já sabem de você.' Ela falou e o rapaz trincou os dentes. Era realmente ingenuidade achar que passaria despercebido para um bando de babacas que não tinham o que fazer além de encher o saco dos outros. 'Estão com receio tanto de você quanto de Sakura. Eles já sabem do relacionamento de vocês.'
'Isso não é da conta de ninguém.'
'Não se iluda achando que eles vão deixá-los em paz.'
Ele respirou fundo. 'Eles não têm nada que se meter nisso.'
'Apenas fique atento. A decisão oficial do Círculo é deixá-los em paz, mas você conhece muito bem a arrogância humana.'
'Sim.' Ele concordou.
'Sua sepultura foi violada. Sumiram com o seu corpo.' Ela falou. 'Tentei abafar a situação para não chegarem até você, mas…'
Walkin' like a one man army
(Caminhando como um exército de um homem só)
Fightin' with the shadows in your head
(Lutando contra as sombras em sua mente)
'Mãe…' Ele a interrompeu. 'O corpo não existe mais.'
'Como assim?' Ela perguntou surpresa. Era uma vidente poderosa, mas parecia que a vida do filho vivia numa montanha russa de acontecimentos que ela não conseguia acompanhar.
'É uma longa história… Mas não se preocupe com o que fizeram com o corpo, ele não existe mais. Nada existe mais… Eu não sei nem se eu existo mesmo.' Desabafou, sem querer, e se arrependeu. 'Quer dizer…'
'Xiao Lang…' Ela o advertiu. 'Você sabe exatamente quem você é, não fique em dúvida.' A voz dela era firme.
'Não estou.' Respondeu, sorrindo de leve.
'Ótimo.' Ela falou. 'Cuide de Sakura.'
'Eles a ameaçaram?' Ele perguntou em tom de urgência.
'É poder demais para uma só pessoa. Isso causa medo nas pessoas.'
'Se eles…' Ele começou a falar e se reteve. 'Isso não vai terminar nunca, não é? Não tem como nós vivermos uma vida tranquila.'
Livin' up the same old moment
(Vivendo o mesmo velho momento)
Knowin' you'd be better off instead
(Sabendo que estaria em melhores condições se quisesse)
'Você sabe muito bem que poderiam viver tranquilamente se não se amassem.' A resposta sincera dela o feriu em cheio.
'Não tenho como controlar isso.'
'Eu sei.' Yelan falou. 'É o preço a se pagar.'
Ele ficou em silêncio observando os jovens no Campus Universitário. Alguns casais de namorados passeavam de mãos dadas. Por que ele e Sakura não poderiam ser normais daquela forma? 'É… Não tem outro jeito.'
'Fique atento e peça para Sakura também ficar.' Ela falou por fim.
'Certo.'
'Outra coisa… Avise a Mei Ling que ela foi precipitada demais, como sempre.'
'Como sabe…'
'Era óbvio demais. Até Hyo Ling sabe que ela foi para o Japão. Ele só não sabe de você e, quando ele descobrir, pode interpretar errado. Homens apaixonados não raciocinam de maneira correta.'
'É… Acho que sim.' Falou, sorrindo de leve.
'Ele já ameaçou pegar o avião duas vezes para ir atrás dela. Teria realmente feito isso, não fosse a interferência do Clã. Mei Ling abandonou o esposo e agora não é mais considerada parte do clã. Quero que você a oriente a assinar os documentos o quanto antes para oficializar esta separação.'
If you could only
(Se ao menos pudesse)
Say what you need to say
(Dizer o que precisa dizer)
Syaoran franziu a testa com a frieza da mãe. 'Mei Ling é apaixonada por Hyo Ling e ele por ela. Eles ainda podem se entender.'
'Isso está fora de cogitação agora, Xiao Lang. Abandono é imperdoável dentro do clã.'
'Ela apenas se desesperou porque…' Ele se interrompeu, trincando os dentes. Não era seu direito falar sobre os problemas da prima e, também não adiantaria tentar explicar para a mãe. Apenas pioraria a situação de Meilyn dentro do clã. Suspirou de forma pesada.
'Ela foi precipitada.' Yelan o interrompeu. 'Ela não viu todas as possibilidades... Mas, principalmente, ela decidiu sozinha e não obedeceu seu esposo. Esse tipo de independência em uma mulher, é imperdoável.'
Syaoran ficou em silêncio, pensando na prima. Meilyn no fundo estava querendo proteger o primo. Ou será que ela estava usando sua infertilidade como desculpa para fazer algo que já queria ter feito há muito tempo?
'Preciso desligar. Cuide-se, meu Pequeno Lobo.' Ela falou de forma carinhosa.
'Xiè xiè, fù mǔ'. (Obrigado, mãe). Agradeceu e finalizou a ligação.
Ficou ainda um tempo pensando, eram muitos problemas. Respirou fundo, tinha que enfrentar uma aula chata de resistência dos materiais ainda pela frente.
Have no fear for givin' in
(Não tenha medo de ceder)
Have no fear for giving over
(Não tenha medo de desistir)
You better know that in the end
(Seria melhor você saber que no final)
It's better to say too much,
(É melhor falar demais)
than never to say what you need to say again
(que nunca dizer o que você precisa dizer de novo)
'Então você simplesmente resolveu largar seu marido e vir morar aqui com seu primo?' Tomoyo perguntou olhando para a amiga chinesa que estava sentada à sua frente. Estavam na casa de Sakura. A ruiva estava também sentada no sofá, observando as duas amigas.
'Eu nem sabia que Xiao Lang estava vivo. Foi um baita susto!' A chinesa se defendeu. 'Pensei que esta louca estava morando com uma carta.' Falou apontando para Sakura.
Sakura rodou os olhos e Tomoyo sorriu. 'Mas onde é que você estava ontem, Tomoyo? Procurei você em tudo quanto foi lugar.' Meilyn perguntou e observou a amiga ficar corada, ergueu uma sobrancelha. 'Você estava num encontro?'
'Não!' A morena respondeu rapidamente. 'Não foi um encontro… A gente só foi assistir um show juntos.'
'Você e aquele grandalhão estão namorando?'
'Não! Não estou namorando o Kurogane.' Ele repetiu.
'Ah, sim… Kurogane… Este é nome do rapaz que você está enlouquecendo.' Meilyn falou sorrindo de forma maliciosa e fazendo a jovem morena comprimir os lábios nervosa.
'Não é nada disto.' Tomoyo ainda falou.
'E como foi o show?' Sakura perguntou como quem não queria nada, antes de beber um gole do refrigerante. 'Você voltou bem tarde pelo jeito. Tentei ligar para você, mas seu celular estava desligado.'
Tomoyo olhou para os dois pares de olhos inquisitórios a sua frente. Elas estavam vendo maldade em tudo. Ela tinha ido apenas a um show com o rapaz.
'Foi diferente.' Ela respondeu por fim, quem sabe, assim que saciasse a curiosidade das duas, poderia voltar a sentir as bochechas que estavam pelando. 'Foi uma experiência muito inusitada. Ele me mostrou que há outros tipos interessantes de projetos musicais.'
'Peraí!' Sakura interrompeu. 'Vocês não foram para o show do Ayreon?'
'Show de rock?!' Meilyn perguntou surpresa.
'Não é bem apenas um show de rock… É rock ópera. Tem uma história por trás. Eles contam uma história com as músicas. Uma história muito profunda. Cantam sobre sentimentos.' A morena tentava explicar. 'É uma forma de contar uma triste história, de sentimentos conflitantes, da natureza humana.'
Sakura ergueu uma sobrancelha. 'Você disse que estava indo porque se sentiu constrangida de recusar o convite do Kurogane que faz tudo, absolutamente tudo por você.'
Tomoyo sorriu de leve. 'Sim… Inicialmente foi, mas eu achei bem interessante. Nunca imaginei que no fundo Yuo tivesse sensibilidade para entender algo além do que é apresentado inicialmente. Ele consegue ler com bastante precisão o que está nas entrelinhas.'
'Yuo?' Meilyn falou, sorrindo. 'Já o está chamando pelo primeiro nome.'
A morena rodou os olhos. 'Claro! Somos amigos.'
Sakura e Meilyn se entreolharam e depois fitaram a amiga. 'Vocês realmente não estão namorando?' A ruiva perguntou novamente.
Tomoyo fechou o sorriso e se ajeitou no sofá. 'Não. Estamos nos conhecendo.'
'Você é difícil.' Sakura voltou a falar.
'Olha quem fala!' Meilyn comentou, agora, olhando para a ruiva. 'Você demorou meses para dar uma resposta para Xiao Lang.'
'Hei! Eu tinha onze anos!' Ela tentou se defender. 'Eu estava confusa! Eu achava que amor era o que eu sentia pelo Yukito. Não sabia o que estava sentindo pelo Syaoran.'
'Ah, sim... Ótima desculpa.' Meilyn rebateu. 'Ai, ai, ai, Yukito!'
Recebeu como resposta uma almofadada da amiga. 'Você não sabe da história toda.' Ela falou com o rosto bravo. 'Além disso, não estamos aqui discutindo o meu relacionamento com Syaoran e, sim, o da Tomoyo com o Kurogane.'
'Relacionamento?' Tomoyo interrompeu. 'Somos só amigos.' Repetiu.
'Amizade colorida.' Sakura completou, sorrindo. Meilyn caiu na gargalhada.
A morena franziu a testa para a amiga, Sakura tinha ficado bem maliciosa depois de velha. Tinha saudades daquela patetice dela quando criança nestas horas.
'Eu não sei se gosto do Yuo. Quer dizer, eu gosto dele. É um rapaz muito gentil, mas não sei se…' A morena não soube exatamente o que falar, aquilo era tudo muito novo para ela. Ela se lembrou, de repente, da questão do Círculo. 'Teve notícias de Eriol?'
'Eriol?' Sakura repetiu o nome do amigo, estranhando a lembrança dele naquele momento pela morena.
'Sim, oras!' Tomoyo respondeu. 'Ele falou como foi a tal reunião com o Círculo? Como eles reagiram por você não ter ido?'
Sakura balançou a cabeça. 'Não… Eu não tive nenhum retorno dele. Mas isso é normal vindo de Eriol, não é? Se foi bom ou ruim, ele não vai falar de forma direta para mim.'
'Você foi convocada?' Meilyn perguntou espantada. Sabia da importância de um convite daqueles para o mundo da magia.
'Agora que está tudo tranquilo eles me convocam…' Sakura falou com a voz ressentida. 'Quando podiam nos ajudar, evitar aquela confusão e tentar impedir que Syaoran morresse ninguém se manifestou… Não estou a fim de olhar para a cara deles agora.'
'É uma grande honra ser convocada.' A chinesa ainda insistiu.
Sakura deu de ombros. 'Eu quero apenas viver minha vida em paz com Syaoran.'
Elas ficaram em silêncio. Tomoyo terminou de tomar o suco e olhou para Meilyn. 'Você realmente acha que Hyo Ling não virá até aqui atrás de você?'
A chinesa encolheu os ombros. 'Ele agora tem uma posição importante no Clã, não pode simplesmente largar tudo e vir atrás de mim. Será mais fácil para ele anular nosso casamento desta maneira.'
'E é isso que você quer?' Tomoyo perguntou, observando a jovem que tinha o olhar fixo no copo em cima da mesa de centro. 'Você quer realmente se divorciar dele?'
'Eu não sei…' Ela respondeu com sinceridade.
Gostava do marido. Ele realmente era um homem maravilhoso, carinhoso. Hyo Ling tinha sido extremamente amoroso na noite de núpcias e em todas as outras vezes que tiveram intimidade. Quando o rapaz enfrentou Reyume, durante a luta dos dois, ela sentiu que o seu coração tinha parado de bater, doía demais vê-lo machucado.
Não tinha entendido direito o que aconteceu e, verdade seja dita, sentiu até raiva de Xiao Lang quando soube por alto que havia sido obra do primo, vindo do além. No final, Hyo Ling acabou sendo muito respeitado por todos e para ele ser praticamente obrigado a assumir o posto de patriarca do clã foi uma questão de tempo e de alguns movimentos de Yelan.
O problema todo era que agora ela também estava num posto importante no Clã. Todas as mulheres gostariam de ocupar aquele lugar. Yelan a estava preparando. A tia não dava um ponto sem nó. E, com o excesso de obrigações, os dois começaram a se ver cada vez menos.
Hyo Ling chegava cada vez mais tarde. Estava cansado. Tentava continuar o mesmo marido amoroso de sempre, mas ela tinha que ser mais compreensiva. E foi aí que descobriu que, ao contrário do que imaginava, não tinha esta qualidade.
'Meilyn….' Sakura a chamou. 'Você não sabe se gosta ou não do seu marido?'
'Eu… Eu gosto de Hyo Ling.' Ela falou com sinceridade.
'Mas não tem certeza que o ama, é isso?' Tomoyo perguntou.
Meilyn mordeu de leve os lábios e apertou o copo que tinha nas mãos. Olhava fixamente para ele. 'Desde que Hyo Ling assumiu o posto de patriarca, estamos nos vendo cada vez menos. Ele não tem tempo para mais nada agora.' Ela falou com pesar. 'Acho que, no fundo, sou um pouco egoísta.'
'Você o ama.' Tomoyo falou com segurança. As duas olharam para a jovem morena. 'Você está louca para que ele bata aqui na casa de Sakura para vir buscá-la.'
Meilyn se levantou surpresa. 'Você que está louca, Tomoyo. Claro que não!'
Tomoyo sorriu. 'Meilyn… Quando Syaoran terminou o pseudo-relacionamento que vocês tinham, você simplesmente chorou a noite inteira e depois acordou como se nada tivesse acontecido. Você não amava o Syaoran.'
'Eu gostava dele!' Meilyn rebateu e depois se arrependeu, observando Sakura pelo canto dos olhos. 'Isso é passado.' Tentou consertar. 'Coisa de criança.'
'Entendi agora.' Sakura soltou. 'Depois de 10 anos.' Ela falou sorrindo de leve. Observou as duas olhando para ela. 'A carta que você mandou para Tomoyo. Desculpando-se por ter molhado os joelhos dela.'
'Você foi lenta…' Meilyn falou, suspirando.
'É, fui lenta por muito tempo.' Sakura falou, desviando os olhos delas. 'Inclusive depois de ter entendido o que eu sentia por Syaoran.' Ela voltou a fitar a chinesa. 'Você deveria ter me contado o que estava acontecendo com ele.'
Meilyn arregalou os olhos surpresa. Virou para Tomoyo com o olhar duro. 'Você contou para ela?!'
'Não!' A morena respondeu rapidamente.
'Ele mesmo me contou.' Ela esclareceu com um rosto triste. 'Mas pelo jeito todo mundo sabia, menos eu. O pior é que eu sabia que tinha alguma coisa errada, mas achei que era coisa da minha cabeça.' Disse ressentida. 'Que era saudades, mágoa, enfim…'
'Isso é passado.' A chinesa interrompeu. 'O passado a gente não pode mudar. Agora vocês dois estão juntos e é isso que importa.'
Sakura confirmou com a cabeça. 'Sim. Mas parece que estamos sempre vivendo sob ameaça.' Ela desabafou.
Tomoyo se levantou e sentou perto da amiga. 'Como assim, Sakura?'
'Eu não sei… Apenas não estou com um bom pressentimento.'
'Teve algum sonho?' Tomoyo perguntou, sabia dos sonhos premonitórios da prima.
Sakura negou. 'Não. Há muito tempo não tenho um sonho…' Ela sorriu de forma feliz de repente. 'Acho que porque eu estou vivendo num sonho, não é? Tê-lo aqui comigo depois de tudo.'
As duas concordaram e sorriram para a amiga.
'E quando vão casar oficialmente?' Meilyn perguntou do nada. 'Vocês dois estão vivendo em pecado, sabia?'
Sakura riu com gosto. 'Oras… Isso não faz diferença. Melhor deixar as coisas assim, não queremos chamar atenção para a documentação de Syaoran. Além disso… É só formalidade.'
Tomoyo balançou a cabeça, sorrindo. 'Não acredito que vocês conseguiram convencer Touya. Você não usou mesmo nenhuma magia nele?' Ela perguntou, fitando a amiga desconfiada.
Sakura riu. 'Nenhuma magia faria Touya concordar com isso. Ele aceitou apenas porque não teve alternativa.' A ruiva suspirou, pensando no irmão, depois voltou-se para a amiga chinesa que sorria para ela. 'Você também é bem espertinha, mudou totalmente de assunto.'
'Eu?!' Meilyn falou encabulada.
'Exatamente. O assunto em pauta é você e Hyo Ling.'
'Não há assunto em pauta aqui… Além disso, minha situação com Hyo Ling não tem mais volta. Mesmo que ele apareça aqui, eu já sou considerada uma desertora do Clã por tê-lo abandonado.'
'Ele, como patriarca, tem poder para mudar isso.' Tomoyo rebateu.
'Ele não vai fazer isso. Hyo Ling é correto demais.' Meilyn respondeu. 'E você também não sabe de nada Tomoyo. Não é porque eu me casei com ele que estou morrendo de amores.' Falou, tentando ser indiferente ao que sentia.
Tomoyo semicerrou os olhos nela, indicando que não dava credibilidade nenhuma àquelas palavras.
Meilyn continuou. 'Tenho que tocar minha vida para frente. Eu… Eu acho… Bem, eu acho que vou ter que procurar um emprego.' Desviou os olhos para Sakura. 'Não dá para ficar sendo sustentada por Xiao Lang e você. A grana de vocês deve estar apertada.'
'Não se preocupe com isso, Meilyn.' Sakura falou. 'Eu e seu primo temos tudo controlado. Pelo menos financeiramente, já que nunca se sabe quando vai aparecer outro maluco para tentar destruir o mundo.' Ela falou se levantando. 'Vou pegar mais um pedaço de bolo, vocês duas vão querer?'
'Eu quero!' Meilyn aceitou. Tomoyo recusou com um gesto. Em poucos minutos ela voltava com os dois pedaços, estendeu um para Meilyn que aceitou. 'Se eu continuar comendo assim, vou ficar uma baleia.' Ainda falou. 'Até que você cozinha muito bem, Sakura. Pelo menos doces.'
'É receita do papai.' Ela falou com suavidade, antes de colocar um pedaço na boca.
'Por que não tenta entrar na faculdade, Meilyn?' Tomoyo perguntou.
Meilyn parou com o garfo no meio do caminho. Nunca tinha pensado em entrar numa faculdade. Isso não era comum para as mulheres do clã. Elas terminavam a high school e depois casavam. Faculdade não era um objetivo para elas. 'Nunca pensei nisto.'
'É uma boa ideia.' Sakura concordou. 'Você tem ideia do que gostaria de fazer?'
'Nunca… Nunca parei para pensar nisso. Não tenho a menor ideia do que eu gostaria de fazer.' Respondeu com sinceridade.
'É uma boa hora para pensar. Você era ótima aluna no colégio. Duvido que tenha um currículo escolar ruim. Poderá entrar em qualquer curso que quiser.' Tomoyo lembrou e a chinesa concordou. Realmente tinha sido ótima aluna.
'Mas deve precisar de muito dinheiro e…' Ela começou a falar.
'Já lhe disse que não é problema. Além disso… Pode tentar conseguir uma bolsa. Syaoran está com uma integral e eu com uma parcial. Isso já ajuda bastante.' Sakura esclareceu.
Meilyn sorriu novamente, estava começando a ficar excitada com a possibilidade que a vida estava lhe apresentando. Entrar na faculdade nunca havia sido uma opção pensada, mas agora, parecia uma possibilidade tão óbvia para ela. Era só decidir que curso faria. Poderia se formar, ter uma carreira, trabalhar, sentir-se realmente útil.
'Acho… Acho que vocês tem razão…' Meilyn falou por fim, finalmente colocando o pedaço de bolo na boca. Realmente Sakura sabia fazer um bolo delicioso, nunca um doce teve um gosto tão bom.
Syaoran chegou em casa depois das aulas. Tivera treino de futebol no final da tarde e, verdade seja dita, tinha ido ao bosque de Tomoeda pela manhã bem cedo para treinar um pouco. Estava se sentindo ansioso. O telefonema da mãe durante o dia só tinha confirmado o pressentimento de insegurança. Foi colocar a chave na porta e ouviu os gritos femininos. Abriu a porta quase chutando. 'O que foi?! Sakura!'
A luz da sala acendeu. O rapaz arregalou os olhos vendo as três garotas na sala, olhando para ele de forma interrogativa. Desviou os olhos da namorada, passou para a prima e a amiga e depois finalmente cravou na televisão com a cena congelada. Ah… Sim… O filme… Finalmente relaxou.
Sakura franziu a testa. A presença do rapaz tinha explodido, realmente assustando-a, mais até do que a cena de massacre do filme de terror de quinta que Meilyn obrigou as amigas a assistirem.
Ele olhou encabulado para elas. 'Boa noite.' Falou por fim. Realmente andava uma pilha de nervos nos últimos dias.
Meilyn e Tomoyo cumprimentaram o rapaz. Sakura se levantou e o beijou rapidamente, ele reparou no rosto sério da jovem. Ela estava preocupada, mas tentou disfarçar.
'Não quer terminar de ver o filme com a gente, Xiao Lang?'
'Hã… Acho que vou tomar um banho.' Ele falou sem graça.
'Assim que terminar o filme, preparo o jantar rapidinho.' Sakura falou, olhando para o relógio de pulso. 'Nossa! Perdi a hora hoje!'
'Ajudo você.' Ele falou, dando um beijo no rosto da jovem e subindo para o segundo andar.
Sakura acompanhou a saída do namorado e depois voltou-se para as amigas que se mantinham caladas.
'Ele está uma pilha.' A chinesa comentou.
'Também está com o mesmo pressentimento que eu.' Sakura esclareceu. Ela respirou fundo e tentou relaxar. Foi até o sofá e se deixou cair nele entre as duas amigas. 'Bem… Vamos terminar de ver… Será que o tiozinho mal não morre nunca?!'
Tomoyo e Meilyn se entreolharam. 'Sakura… Syaoran está bem mesmo?' A pergunta foi de Tomoyo, mas também era a mesma que Meilyn queria fazer.
'Não tem como uma pessoa voltar de onde ele voltou 100%, não é?'
'Os pesadelos continuam?' Tomoyo perguntou e Sakura confirmou com a cabeça.
'Mas nem adianta perguntar sobre o que ele sonha, porque ele é escorregadio demais. Não dá para procurar um psicólogo e dizer para ele o que o perturba.' Ela falou com um tom de ironia. 'E ele não se abre. Parece uma concha.'
'É muito difícil para um homem mostrar fraqueza para sua parceira.' Meilyn falava com tom maternal. Bateu de leve no ombro da amiga. 'Você precisa ser paciente.' Sakura olhou de esguelha para a amiga. 'Precisa ser amorosa e compreensiva.'
'Aprendeu isso no clã, Meilyn?' A ruiva não resistiu em perguntar.
Meilyn confirmou com a cabeça. 'Xiao Lang pode ser um desertor, mas ainda é um Li. Você precisa aprender estas coisas…'
'Hã…' Sakura rebateu. 'Syaoran abandonou o clã. E este seu clã é muito machista e idiota, Meilyn.'
'Humph…' A chinesa resmungou, mas depois abriu um sorriso. 'São idiotas mesmo, né?'
Tomoyo balançou a cabeça, a amiga chinesa estava tão desorientada que nem sabia o que falava. Ou melhor, repetia o que tinha aprendido a vida inteira e, só agora, dava-se conta das coisas por si só. Verdade que sempre desconfiou que a jovem nunca se daria bem com todas aquelas regras das quais ela lhe falara nas conversas por telefone e trocas de e-mails.
Como desconfiava, a situação toda da descoberta de que tinha dificuldades de engravidar foi apenas o estopim para a jovem fazer o que, no fundo, sempre teve vontade. Dar as costas ao clã. O problema é que, por falta de coragem, ela fez isso muito tarde. Agora tinha que pagar o preço de deixar o marido, por quem, apesar dela não aceitar ainda, estava completamente apaixonada.
'Desisto!' Sakura falou, levantando-se. 'Vou começar a preparar o jantar. Vocês duas continuam a ver o filme e me contam o final.' Disse já entrando na cozinha e fechando a porta para não atrapalhar as duas.
Tomoyo e Meilyn se entreolharam novamente.
'Ela está preocupada.' A chinesa falou com o controle remoto na mão, olhando para a cena congelada. Também tinha perdido a vontade de ver o final do filme.
Tomoyo balançou a cabeça de leve. 'Estes dois parecem que nunca vão conseguir viver em paz.'
Meilyn concordou com a cabeça. 'Quase morri do coração quando me dei conta que o Xiao Lang era o Xiao Lang.' Ela falou, fechando os olhos. 'Não dá para acreditar ainda.' Ela reparou que a amiga ficou calada, observando ainda a porta da cozinha de onde podiam ouvir a jovem feiticeira começar a preparar a janta. 'O que foi, Tomoyo?'
'Hã? Nada…'
'Nada? Nem vem, conte-me o que você está pensando. Você é mais esperta do que eu para ver estas coisas.' Meilyn falou, já intimando a morena.
'Tem alguma coisa acontecendo que os dois andam escondendo.' Ela falou baixinho.
'Algo relacionado a magia ou ao relacionamento deles? Eles parecem tão apaixonados… E sabemos como a Sakura ficou no tempo que ele ficou morto.' Ela balançou a cabeça. 'Tempo que ficou morto… Quem ouve isso pensa até que foi uma viagem… Xiao Lang sempre tem que ser mais dramático.'
Tomoyo sorriu de leve. 'É… Eles sempre tiveram as coisas mais complicadas.'
'Desembucha, Tomoyo.'
A morena respirou fundo e se levantou. 'Vamos ajudar a Sakura. Outra hora a gente conversa com calma sem ter perigo de sermos ouvidas.'
Meilyn concordou, levantando-se. O filme já deixado de lado. 'Era um filme de quinta mesmo… Nem a mocinha consegue passar credibilidade, chorando dessa maneira. Detesto mocinhas choronas!' Falou, desligando a televisão.
Sakura entrou no quarto e observou Syaoran deitado na cama lendo. Sorriu para ele. O jantar tinha sido bem animado com Tomoyo e Meilyn. Tinham se divertido como há muito tempo não faziam. Meilyn acabou indo com Tomoyo para o alojamento dela. Disseram que queriam colocar a conversa em dia, como se conversar à tarde e quase a noite inteira não tivesse sido suficiente para aquelas duas. Sakura sabia que elas estavam tramando alguma coisa. As duas juntas eram terríveis. Suspirou chamando a atenção do namorado.
'Está preocupada?' Ele perguntou, tirando os olhos do livro e fitando a jovem.
Ela sorriu sem graça. 'Você sabe que estou.' Respondeu com sinceridade. 'Mas não há muito o que fazer.' Completou e ele concordou.
'São muitas coisas ao mesmo tempo.' Ele falou.
'Sim. Mas temos que tentar resolver um problema de cada vez.'
Ela começou a se preparar para dormir, tinha treino pela manhã e aulas marcadas para a tarde inteira. Tinha que manter o rendimento bom nos jogos para manter a bolsa parcial. Quase perdeu o benefício devido às péssimas notas no semestre passado. Não poderia dar mole.
Estava também preocupada com sua menstruação que não tinha vindo. Não sabia se era apenas por causa do ciclo irregular e todo o stress acumulado do que estava vivendo ou se tinha outra coisa. Os dois andavam esquecendo demais de usar preservativos agora que estavam morando juntos. Estavam brincando com a sorte. Syaoran, depois que voltou, andava bem mais imediatista do que antes e ela nunca foi boa em pensar nestas coisas.
Tirou a roupa e colocou a camisola sabendo que Syaoran a observava. Ele a conhecia bem demais. Assim como ela também o conhecia.
'Você parece também preocupado.' Falou, começando a escovar os cabelos para prendê-los antes de dormir.
'Minha mãe me ligou. Falou sobre a reunião do Círculo.'
Ela suspirou. 'E o que aconteceu?' Perguntou, sentando na beirada da cama e olhando para ele.
'Eles sabem sobre mim.' Ele a viu franzir a testa. 'Sabem sobre nós.'
'Eles não têm nada a ver com isso.' Ela falou, indignada. 'Nossa vida não deve ser discutida por um monte de gente que nem sabemos quem são.'
'Bem… Desde que nosso relacionamento foi profetizado pelo grande mago Clow, fica difícil tentar manter a discrição.' Ele falou em tom irônico.
Ela o encarou de forma séria. 'Você ainda tem dúvida?'
Syaoran observou os olhos glaucos encarando-o profundamente. Arrependeu-se do comentário. Estava irritado com aquela situação toda.
'Não.' Respondeu e largou o livro no criado mudo. Aproximou-se da jovem, parando a frente dela. 'Não tenho dúvidas do que eu sinto por você.' Ela semicerrou os olhos nele, esperando a resposta completa. 'Não tenho dúvidas do que você sente por mim.'
Ela abriu um sorriso maroto. 'Acho que seria bom você me provar então...'
Ele ergueu uma sobrancelha, entendendo o que ela queria dizer.
Sakura se ajoelhou na cama à frente dele e se inclinou, beijando o rosto do rapaz. 'Você anda uma pilha de nervos, Syaoran. Precisa ficar mais calmo. Relaxar mais.'
Syaoran fechou os olhos, sentindo os beijos dela no seu rosto. 'Acho que você pode me ajudar nisto, não?'
'Acho que sim..' Ela respondeu, surpreendendo-se quando ele a pegou e a empurrou de costas no colchão, soltou um gritinho e riu. Ele beijava devagar seu pescoço e já descia a mão para a bainha da camisola dela quando ela se lembrou de comentar algo que a estava incomodando há algum tempo. 'A gente anda esquecendo de se proteger…'
'Não se preocupe com isso, minha flor.' Ele falou ao ouvido dela, com a voz rouca. 'Vai ser maravilhoso quando você engravidar.'
Sakura abriu os olhos e fitou o teto. Como assim "quando"? Syaoran não estava esquecendo? Estava deixando de usar preservativo de propósito? Segurou a mão dele que já estava entrando por baixo da camisola.
'Você… Você não está esquecendo.' Ela falou e ouviu um suspiro do rapaz. Ele levantou-se, ficando apoiado em um cotovelo e fitou a jovem.
'Do que você está falando?'
'Você está querendo que eu fique grávida? É isso?' Sakura perguntou, sem entender. Ela o viu desviando os olhos dela.
'Você complica tudo.' Ele falou, sentando-se na cama.
'Se você falasse o que está pensando, eu não complicaria.' Ela falou, sentando a frente dele. 'Fala logo, Syaoran!'
'E se você ficar grávida, qual o problema?'
'O problema é que eu e você não terminamos a faculdade, ainda.'
'Ter um filho não atrapalharia isso.'
'Syaoran…' Ela falou com o rosto sério. 'O que realmente você está pensando? Ter filhos não estava nos planos.'
'Sempre esteve nos meus planos.' Ele rebateu.
'Sim… Sim…' Ela tentou consertar rapidamente. 'Mas não para agora. Por que você está querendo um filho agora?'
Ele desviou os olhos dela novamente, o que ele responderia? Que gostaria de ter um filho para saber se tinha alguma humanidade dentro dele? Que gostaria de ter certeza que poderia constituir família, ter uma vida normal com ela?
'Syaoran…' Ela o chamou e o rapaz a fitou novamente. 'Do que você tem medo?'
Even if your hands are shaking
(Mesmo que suas mãos estejam tremendo)
And your faith is broken
(E sua fé esteja perdida)
'Não é nada…' Respondeu novamente. 'Eu vou… Eu vou dormir na sala.' Falou irritado, já caminhando em direção a porta.
Sakura arregalou os olhos, mas ele não faria isso mesmo! Não era mais um moleque para sair correndo toda vez que se sentia encurralado. Ela se levantou e correu, parando a frente do rapaz, impedindo-o de cruzar a porta do quarto.
'O que está acontecendo com você?'
'Não está acontecendo nada! Você não está a fim, então eu vou dormir na sala.' Falou para fugir do assunto.
'Hei, hei, hei…' Ela falou sem sair da frente dele. 'Não vai fugir desta maneira, não! Não me obrigue a usar magia para mantê-lo aqui. Eu amarro você nessa cama!' Ameaçou.
Ele sorriu de lado. 'Hum… Estou começando a gostar da ideia.'
'Não fuja da resposta. Do que realmente você tem tanto medo, Syaoran?'
Even as the eyes are closin'
(Mesmo enquanto seus olhos se fecharem)
Do it with a heart wide open
(Faça isso com o coração aberto)
(Wide heart)
(De coração aberto)
Ele fechou os olhos e respirou fundo. Talvez… Talvez o certo fosse se abrir com ela. Ela era sua companheira, não era só sua namorada ou amante. Ela confiava nele, ele também deveria confiar nela.
'Eu… Eu não sou mais humano, Sakura. Não sei o que eu sou realmente.' Falou por fim. 'Não sei se vou envelhecer, não sei se vou morrer, não sei se vou poder ter filhos.'
Sakura entendeu o que ele queria dizer. Ele tinha razão. Ela não tinha ainda se dado conta disto. Estava tão feliz em tê-lo ao seu lado que não tinha pensado nestes detalhes. Ela deu um passo à frente e o abraçou bem forte. 'Não importa, Syaoran.'
'Claro que importa…' Ele sussurrou, abraçando-a.
'O que importa é que você está aqui comigo. Se estivermos juntos, daremos um jeito. Tudo vai terminar bem.'
Syaoran fechou os olhos e a abraçou mais forte. 'Eu espero que sim.' Falou com sinceridade. Sorriu de leve e passou a mão nos cabelos dela. 'Wǒ de xīn lǐ zhǐyǒu nǐ.' (Você é a única pessoa em meu coração)
Sakura sorriu, conseguindo entender o que ele falava em mandarim para ela. 'Wǒ huì yīzhí péi zài nǐ shēnbiān' (Eu sempre estarei ao seu lado). Ela respondeu, fazendo-o abrir um sorriso.
Afastou-se dela apenas para levantar o rosto amado pelo queixo e fitar os belos olhos glaucos que tanto o fascinavam. 'Wǒ fēicháng xǐhuān nǐ.' (Eu amo muito você). Declarou antes de beijá-la nos lábios.
Say what you need to say
(Diga o que precisa dizer)
Continua
Notas Específicas:
Música do capítulo: Say (Diga), do John Mayer.
Notas da Autora:
Mais um capítulo disponível. Este capítulo já iniciou mostrando que realmente alguns membros do Círculo não vão deixar o casal de Feiticeiros em paz.
As três amigas também parecem bem enroladas. Cada uma com seu problema. Mas é muito bom sempre ter os amigos para se apoiar. Será que Meilyn realmente vai considerar as novas possibilidades? E Tomoyo? Depois de tanto tempo vivendo um amor platônico, agora se encontra balançada por dois rapazes.
Quero avisar para o pessoal que está acompanhando Feiticeiros que eu e a Bruna finalizamos a história. Então, por favor, não se preocupem, pois não tem mais a menor possibilidade desta fic ser abandonada. Sei que traumatizei muita gente e por isso fico muito feliz em informar a todos que isso não acontecerá.
Muito obrigada a Yoru que foi quem me colocou na linha e não me deixou desanimar jamais para continuar escrevendo, e superar os momentos de "empacação".
Beijos a todos que estão acompanhando a história e que sempre mandam reviews e e-mails.
Até a próxima quinta.
Notas da Colaboradora:
Deixa eu começar mencionando sobre como a Sakura, aos poucos, está quebrando "a carapaça" de proteção onde Syaoran costuma se trancar quando algo o incomoda… Adoro esses pequenos momentos em que o relacionamentos deles se aprofunda! Está tão mais fácil de se identificar com eles… Eles receberam um "boost" em empatia e eu estou amando isso!
Eu não consigo pensar no Smith, no Rosas, no Charles e nos dois anciões idiotas sem sentir vontade de socar a tela do computador. Eles são personagens que realmente me irritam tremendamente. Em uma outra nota, Yelan também tem seus momentos com sua mente "pré-histórica". Honestamente… A melhor coisa que Syaoran poderia ter feito na vida: abandonar o Clã. Não tenho dúvidas disso!
Por mais complicado que esteja o relacionamento entre Sakura e Syaoran, Meilyn e Tomoyo também estão bem enroladas, não? Mas é engraçado pensar que Sakura não é mais a "tonta" do trio… (Sim, Meilyn! Estou falando com você! Tomoyo é outra história...)
É… parece que a situação com o kyonshi e a destruição do corpo dele ainda está incomodando, e muito, o Syaoran. Força, Syaoran! Tudo vai ficar bem! Você vai ver…
Até o próximo capítulo!
Notas da Revisora:
Vou me unir à Bru para espancar a trupe de feiticeiros tapados. Caraca, que raiva que dá deles. Ainda se juntando para esquematizar, especular e tramar… (parece tudo a mesma coisa, mas vocês entenderam) Guerra!
As meninas conversando sobre seus problemas foi bem legal, uma querendo ajudar a outra, tentando entender o que se passa na cabeça. Gosto mais da Meylin quando ela reage, não curto ela abaixar a cabeça para os problemas.
E ainda bem que a Sakura tá dando umas duras no Syaoran, que é isso de ir dormir no sofá? Amarra ele mesmo.
Gostei do capítulo… Tranquilo e cheio de possibilidades. O que será que vem por aí?
