Olá todo mundo!
Oh, Deus, sei que demorei uma eternidade! Sinto muito, pessoal! Estou até com vergonha de pedir desculpas...
Mas esse capítulo me deu muito trabalho. Estava com boa parte dele escrita, inclusive o final, há meses. Mas chegou um ponto onde eu emperrei totalmente. Não conseguia prosseguir, escrevia, apagava, voltava a escrever... Foi um calvário. Fora que a falta de tempo não contribuía em nada. Quando estava inspirada acabava não podendo escrever por estar ocupada com os estudos, ou alguma outra coisa. Enfim... pelo menos consegui terminar. E prometo tentar terminar o próximo capítulo sem muita demora.
Um beijo a todos, e obrigada pela paciência!
Priscila Black.
Cap. 26 – De volta à realidade
Um feixe de raio de sol muito fraco venceu as nuvens pesadas, e iluminou parcialmente o chão do quarto. Sua luminosidade delicada não era nem um pouco incômoda. Mas um dos ocupantes do quarto não estava nem um pouco interessado na iluminação, ou no feixe de sol.
A única coisa que interessava a James Potter era Lily Evans. E mais nada.
Ele não ligava para o horário. Para o dia. Para mais nada no mundo.
O momento que dividiram era único. E nunca mais se repetiria. James sabia disso. E foi exatamente por esse motivo que ele acordou tão cedo.
Ele abriu os olhos, e, sem sequer notar, sorriu. Dominado pelo que sentia. Uma felicidade indescritível. Ainda mais se levando em conta que ele quase tinha jogado aquela noite maravilhosa pela janela.
James sabia que tinha cometido uma enorme besteira. E voltou ao quarto disposto a pedir perdão à Lily pelo tempo que fosse necessário. Ele estava disposto até a dormir na porta do quarto, se ela não quisesse abrir a porta.
Mas não foi isso que aconteceu.
Lily, de forma surpreendente, o perdoou quase de imediato. E, para o total deleite do rapaz, estava disposta a esquecer completamente o ocorrido. Fora que, ainda mais surpreendente, ela o esperava de lingerie.
Isso James não conseguiu prever. Nem nos seus sonhos mais otimistas.
Ele tinha chegado ao quarto disposto a ter uma longa conversa. Expor o que estava sentindo, e dar toda a chance para Lily explicar seu lado da história. Estava disposto a ouvir a garota falando de Kyle. Mesmo que ele não gostasse dessa idéia, ele iria suportar bravamente. Ele sabia que tinha sido injusto com Lily.
Mas Lily não quis conversar. Por pior que isso pudesse parecer, inicialmente, na verdade ela não queria conversar porque queria fazer outra coisa. E uma coisa muito, mas muito melhor.
Todos os instantes que se seguiram após Lily, numa atitude ousada que James nunca poderia prever, desamarrou delicada e lentamente seu penhoar, foram de total deleite para o rapaz. Lily volta e meia surpreendia James com atitudes que ele não esperava, mas que eram tão maravilhosas e espontâneas que ele sequer conseguiria imaginar algo parecido. E a noite anterior se adequara a tal situação.
James estava preparado para a primeira vez deles. Estava preparado para ser paciente, delicado e muito cuidadoso com a namorada. O que ele não previu foi que a primeira vez deles pudesse ser tão diferente do que ele esperava. Lily, ao contrário do que ele imaginava, não foi nem um pouco tímida. Ela parecia decidida. Parecia totalmente consciente de sua escolha. E não ficou nem um pouco insegura.
É claro que ele foi cuidadoso com ela. E muito delicado. Mas ela, de uma forma geral, o surpreendeu. Claro que, num primeiro momento, eles precisaram se adequar um ao outro. Mas, quando tudo começou a fluir, James teve a sensação de que eles dividiam um momento perfeito. Com todos os aspectos bem equilibrados, e momento mesclava emoção e instintos. Corpo e alma. Eles puderam demonstrar de uma forma diferente, física, o que sentiam um pelo outro.
Então, quando James abriu os olhos, e viu Lily deitada ao seu lado, uma corrente de emoções tomou conta de seu corpo. E ele admirou a bela jovem deitada, imersa em seu sono tranqüilo. E não conseguiu evitar o enorme sorriso em seus lábios.
Lily respirava lentamente, de forma profunda. E James não se conteve, e se aproximou dela. Da forma mais delicada e suave que ele conseguiu, o rapaz deu um beijo muito leve no topo da cabeça da namorada. Mesmo tendo sido muito delicado, foi o suficiente para Lily respirar mais profundamente, e lentamente começar a abrir os olhos.
A garota demorou alguns segundos para realmente despertar. Quando ela finalmente conseguiu focalizar alguma coisa, sua primeira visão foi os olhos castanho-acinzentados de James Potter.
James sorria de maneira suave para ela. Então todos os acontecimentos da noite anterior passaram pela mente de Lily como num filme correndo em velocidade absurda.
O rapaz abriu ainda mais o sorriso, e Lily viu como ele era luminoso. Ela mesma começou a sorrir timidamente, e ouviu a bela voz de James falando, tão suave e morna que ela suspirou brevemente.
- Bom dia meu amor.
Lily, ainda perdida na voz e nos olhos de James, apenas respondeu.
- Bom dia...
James se aproximou da namorada, e colou seus lábios nos dela. Num beijo delicado e calmo. Lily fechou os olhos, e se deixou levar pelo momento que eles dividiam.
--------------------------------
Sirius acompanhava atentamente cada movimento de seu dedo indicador direito. Olhava a linha que ele lentamente traçava na superfície suave que ele percorria. A cada centímetro percorrido, mas ele parecia interessado naquela brincadeira. Até que ele ouviu um suspiro baixo. Tirou os olhos de seu dedo, e da superfície macia que ele percorria, e olhou para a origem do som. Os lábios de Ellie.
- Gosta? – ele perguntou.
A jovem estava deitada na cama, de barriga para baixo. A superfície que Sirius percorria o dedo anteriormente, as costas nuas da garota, voltou a ser o alvo da atenção do rapaz. Tanto que ela sorriu de lado muito levemente, e respondeu.
- Você sabe que sim.
Sirius riu da resposta dela, e se aproximou. Começou a depositar beijos muito suaves nas costas de Ellie, e viu que a pele dela ficou imediatamente arrepiada. E ela contraiu involuntariamente os ombros. Sirius parou momentaneamente de beijar a pele da garota, e falou.
- Já está assim?
Ellie virou seu rosto para trás, e falou.
- A culpa é sua, fica me alisando o tempo todo.
Sirius não conteve o riso, e falou, sem deixar de percorrer com os dedos a parte de baixo das costas da garota, perto da tatuagem que ela tinha feito.
- Quer saber de uma coisa? Você é bem mais tarada que eu.
Ellie arregalou os olhos, e só não virou o corpo porque ele estava ligeiramente apoiado sobre ela. E sua voz demonstrava um tanto de indignação.
- Eu não sou não! Você é um pervertido!
Mas Sirius continuou rindo, e falou.
- Ah, não fui eu que repeti vez após vez no meu ouvido: "vem, mais, mais..." – ele fez uma expressão engraçada, tentando imitar o que Ellie tinha falado na noite anterior.
Ellie abriu a boca ligeiramente, e ficou um instante sem resposta. Provavelmente porque sabia que Sirius estava certo. Mas como ela não conseguiria deixar que ele vencesse assim tão fácil, ela retrucou.
- É isso que você acha? Então me diz quem foi que quis transar em todos os locais disponíveis do quarto? E do banheiro?
Mas Sirius nem se abalou, e voltou a beijar as costas da garota, dando sua resposta à pergunta.
- Mas isso nem conta. Afinal, não é culpa minha que você seja assim, tão absurdamente gostosa...
Desta vez, Ellie não conseguiu responder. Ela tinha perdido a linha de raciocínio, com Sirius beijando suas costas de forma tão suave e insinuante. Ela fechou lentamente os olhos, mas os abriu imediatamente, ao ouvir a frase que ele disse.
- Eu não disse? Olha só para você. Já está toda arrepiada de novo.
A garota bufou. Como não tinha uma resposta boa o suficiente, apenas retrucou
- Idiota.
Mas Sirius riu, achando graça na reação dela. E ele continuou falando.
- Ah, tem algo que eu quero te perguntar desde ontem.
Ellie franziu a testa, e perguntou desconfiada.
- O que você quer saber? Porque se quer saber sobre sua performance, pode esquecer que eu não vou falar nada!
Sirius gargalhou alto. E falou, com um sorriso divertido no rosto.
- Não é isso, não. É que você não foi ao passeio do Louvre, e eu fiquei curioso... onde você foi naquele dia?
Ellie inspirou profundamente. Ela tinha contado apenas para Lily sobre sua reunião. E o inesperado resultado dela.
Sirius ficou esperando a garota responder, tentando não parecer muito ansioso. Ela demorou alguns segundos para começar.
- É que eu... bem, você sabe, minha mãe trabalhava como modelo quando nova. – Sirius concordou com a cabeça – Então ela... bem, ela tem vários amigos no ramo.
Sirius continuou prestando atenção no que ela falava. Mas Ellie parecia um tanto constrangida ao falar. Ela demorou alguns segundos para continuar.
- Ela ligou para Karl Lagerfeld e pediu que ele me recebesse, já que estaria em Paris. – Sirius franziu a testa. Já tinha ouvido Ellie falando aquele nome, mas não tinha idéia a quem ela se referia. Ela percebeu, e explicou – Ele é o estilista da Chanel.
- E o que você foi falar com ele? – Sirius perguntou, agora mais curioso.
- Eu fui... pedir que ele me considerasse para o próximo estágio da grife, no verão.
- Você vai passar o verão aqui na França? – Sirius falou, tentando não deixar transparecer a leve decepção pela notícia.
- Não. Ele disse que eu... sou muito nova para o estágio. Ele só contrata alunos que já cursam faculdade de moda.
Sirius ficou satisfeito momentaneamente ao saber que ela não passaria o verão fora da Inglaterra, mas só até perceber que ela estava decepcionada. Então falou.
- Idiota esse cara. Você é ótima com essas coisas de roupa.
Mas ela não reagiu como ele imaginava ao comentário. Ellie apenas mordeu o lábio inferior, e Sirius percebeu imediatamente que ela não estava contando tudo.
- O que você não está me contando?
Ellie corou brevemente, e falou, tentando não encarar o rapaz deitado ao seu lado, na cama.
- Ele falou que... eu sou muito bonita. E que queria que eu trabalhasse para ele. Como modelo. Numa campanha de um perfume da grife.
Ellie continuava envergonhada. Mas Sirius adorou a notícia, e sorriu.
- Mas isso é ótimo!
Ellie franziu a testa, e falou.
- Você acha?
Ele sorriu ainda mais, e falou.
- Lógico. Eu vou poder falar para todos os marmanjos que ficarem babando ao ver suas fotos que você é minha garota.
Ellie desviou o olhar imediatamente. Sirius finalmente tinha chegado ao ponto que ela estava evitando, desde que eles tinham acordado, naquela manhã.
Ela não tinha idéia de como as coisas ficariam, depois daquela noite. Era verdade que eles tinham passado uma noite maravilhosa. E que a compatibilidade física entre os dois era inegável. Mas os problemas entre eles não tinham acabado da noite para o dia. Eles continuavam lá.
E o motivo do término deles ainda existia. E, naquele momento, Ellie percebeu que poderia ter cometido um enorme erro. Porque, mesmo ela tendo sofrido tanto com a fofoca sobre ela e Sirius se espalhando em Hogwarts, ela acabou cometendo o mesmo erro que ocasionou a fofoca. Ela tinha, novamente, ido para a cama com Sirius.
Um nó apertou a garganta da garota. Ela não sabia o que fazer. Tudo poderia se repetir. Toda a dor do rompimento, o sentimento de traição, de perder a confiança em alguém que ela amava.
Sem capacidade de decidir absolutamente nada naquele momento, Ellie simplesmente levantou da cama, e caminhou até o banheiro. Numa voz fraca, e ligeiramente falhada, ela falou.
- Eu vou... tomar um banho.
-------------------------------------------
Eu não vou te abandonar.
Melissa abriu os olhos lentamente. Parecia que apenas alguns minutos antes ela tinha ouvido a frase de Remus, prometendo ficar ao seu lado. Mas a frase tinha sido dita há várias horas. E a garota começou a lembrar-se delas aos poucos.
Logo após a frase, ela e Remus partilharam um beijo inesquecível. Ela nunca tinha se sentido tão protegida em sua vida. Tão acolhida. E tão querida por alguém.
Os dois passaram boa parte da noite trocando beijos delicados, mas muito intensos. Remus acariciou seu rosto, seus cabelos, e beijou cada centímetro de seus lábios.
Melissa nunca tinha tido uma noite como aquela.
Remus tinha se portado com um perfeito cavalheiro, e em momento algum ele tentou avançar mais do que os beijos que eles trocavam. E, mesmo assim, Melissa teve a sensação de que iria explodir se ele continuasse naquela provocação.
Até porque aqueles beijos, de inocentes, não tinham nada.
Mas ele insistiu em manter as coisas sob controle. E parecia decidido a mostrar para Melissa que nem todos os homens são cafajestes. Nem todos os homens iriam se aproximar dela querendo apenas sexo.
Mas Melissa já sabia disso. Pelo menos ela sabia que existia um homem que a tratava de forma diferenciada. E aquele homem estava deitado na mesma cama que ela, naquele momento.
A jovem abriu completamente seus olhos, e focalizou a visão. Remus ainda dormia. Ele respirava de forma tranquila, e Melissa podia acompanhar a respiração dele, já que estava com a cabeça apoiada no peito dele. Uma de suas pernas estava entrelaçada na dele.
Melissa sentiu uma vontade bizarra de rir. Mas segurou o riso. Se alguém a contasse que ela iria acordar no dia após o réveillon, deitada toda enroscada em um belo e respeitador rapaz, como um casalzinho romântico, ela teria rido sua melhor risada irônica.
Mas foi exatamente isso que aconteceu. Ela tinha passado uma bela e romântica noite de réveillon com um rapaz muito educado e carinhoso. E, para seu total pavor, ela tinha adorado.
- Estou perdida. – ela falou tão baixo que seria impossível alguém ouvir.
Ela tentou se livrar do abraço de Remus, sem acordá-lo. Moveu-se lentamente, procurando ser o mais delicada possível. Quando se afastou o suficiente para erguer o corpo, ela levantou. Apoiando o cotovelo na cama, ela tentou se mover o mais delicadamente que pode.
Com muito cuidado, ela se pôs de pé. Remus não acordou com seu movimento. Ele parecia perfeitamente sereno em seu sono. Melissa se flagrou observando o rapaz. Ele tinha retirado a camisa para dormir, mas manteve a calça jeans. Ela mesma tinha dormido com a roupa que estava usando, uma blusa de mangas compridas e calça jeans escura.
Ela observou com atenção o sono de Remus. Por um momento, deixou-se levar pelo momento.
Percorreu com os olhos o rosto do rapaz. Remus era bonito, isso era óbvio, mas ela notou que existia algo a mais nele. Seu rosto era bem proporcionado, de traços suaves e bem feitos. Numa outra oportunidade, Melissa tinha reparado que o nariz do rapaz era muito bonito, e isso contribuía para o equilíbrio geral da beleza clássica dele. Só que algo a intrigava. Ela parou para pensar em algo que já tinha lhe ocorrido antes.
Remus não era, se você olhasse de uma primeira vez, o rapaz mais bonito da turma de amigos dele. Obviamente ele não tinha nada de feio, muito pelo contrário. Certamente o cargo de mais bonito seria ocupado por Sirius, alto, moreno, e com físico de atleta. Mas Melissa se perguntou mais de uma vez como, por mais que ela conseguisse ver essa situação aparentemente óbvia, ela não conseguia concordar com ela.
Melissa achava Remus o rapaz mais bonito, entre seus amigos. Algo entre os olhos castanhos profundos, o sorriso sincero, o nariz perfeito e seus cabelos cor de mel sempre alinhados a fazia ter essa certeza. E, se ela fosse ser sincera consigo mesma, ela iria dizer que Remus era o rapaz mais bonito de Hogwarts. Não que os outros não fossem, claro. Ela via o óbvio. Via como Sirius era mais parecido com um modelo do que com um aluno de escola. Como James atraía com seu sorriso perfeito e seus cabelos charmosamente rebeldes. Como Regulus, tão parecido com o irmão, ainda tinha um apelo a mais, um charme levemente obscuro que fazia dezenas de garotas da escola suspirarem por ele pelos corredores. Ou então Frank, e seu sorriso arrebatador (que havia certamente conquistado Alice), os gêmeos Prewett, ruivos e muito charmosos, e até mesmo o certinho Kyle Wilshire, mesmo que cultivasse um ar nerd que não atraía Melissa, tinha um rosto perfeito, e olhos claros hipnotizantes.
Melissa sorriu de lado, e percebeu que aquela escola mais parecia um desfile de moda. Eram tantos rapazes bonitos (e ela nem estava contando com as garotas. Ellie e sua perfeição arrebatadora, Lily e sua incrível beleza exótica, Marlene e sua perfeita cabeleira loura... a lista era enorme). Mas o que intrigava a garota, naquele momento, era como ela simplesmente nem enxergava nenhum deles. Nenhum. Ela os via, percebia que eram bonitos, mas nem ligava para esse fato. Porque ela só via um deles.
Remus.
Desde que colocou os olhos nele, ela percebeu que ele tinha algo de diferente. Exatamente por este motivo ela decidiu conversar com ele, quando o encontrou na boate. Ela estava cheia de problemas. Sua briga com Dan ainda não tinha acontecido, mas ela já estava se sentindo perdida. E traída. Estava tentando esquecer o que tinha acontecido com seu ex-namorado. E a idéia de se envolver emocionalmente com outro homem estava fora de cogitação. Homens eram descartáveis. Eram para se usar, e jogar fora. E era isso que ela fazia. Bem, pelo menos era o que ela fazia até encontrar Remus.
E foi naquele momento que ela percebeu. Que ela entendeu tudo.
Ela tinha se deixado envolver. E parecia que não poderia mais sair daquela situação.
Ela tinha contado seu segredo para ele. Não tinha falado nada com as novas amigas, que estavam deixando-a cada vez mais à vontade. Tinha contado para Remus.
E não era só isso. Era um turbilhão de coisas.
Era o sentimento de segurança que ele lhe inspirava. Era a forma carinhosa como ele a tratava. Eram os beijos inesquecíveis que ele lhe dava. Era o absurdo desejo que ele lhe despertava. Era o fato dela só ter olhos para ele, no meio de tantos homens tão bonitos. Nenhum era tão bonito como ele. E tão inteligente. E tão sexy. E tão...
- Perfeito. – ela completou, falando em voz alta, mas num tom que não pudesse acordar Remus.
Uma sensação de nervosismo a fez respirar aceleradamente. O medo tomou conta dela. Um medo que ela nunca tinha sentido antes. Parecia que o ar do ambiente estava acabando, e ela iria se sufocar.
Ela olhou novamente para Remus, e na perfeição de seu sono tranqüilo. E olhou para si mesma, e se sentiu uma farsa. Sua roupa estava amassada. Seus cabelos bagunçados. E, o mais importante, sua vida era um desastre.
Ele representava tudo de certo. E ela, tudo de errado.
Então porque ele a queria?
A falta da resposta para essa pergunta a fez se agitar ainda mais. Ela teve o ímpeto de correr até sua bolsa, e fugir correndo daquele quarto. Mas logo lembrou que Sirius e Ellie estavam ocupando seu quarto, e ela não estava com a mínima vontade de interromper a maratona sexual que o casal certamente estava executando. Então ela não tinha muitas opções. Ela estava cogitando descer para o café da manhã quando percebeu uma movimentação na cama. Melissa já estava com sua bolsa na mão quando virou, e viu Remus de olhos abertos. Ele se apoiou na cabeceira da cama, e sorriu. A garota quase suspirou. Ele parecia lindo mesmo ao acordar.
- Vai fugir do quarto como se eu fosse um amante de uma noite só? – ele falou, com um sorriso torto nos lábios.
Melissa desviou os olhos dele. A falta da camisa do rapaz não contribuía para o raciocínio perfeito dela.
- Eu... não queria te acordar. – ela falou, tentando dar um ar casual à frase.
Mas Remus levantou da cama num pulo, e foi até ela. Parou bem na sua frente. E falou, retirando a bolsa das mãos dela.
- Não posso permitir sua saída desse quarto, mocinha...
Melissa sentiu um arrepio muito nítido subindo da base de sua coluna até sua nuca. Ele logo enterrou seu rosto entre os cabelos dela, e falou, entre beijos suaves no pescoço da garota.
- Acha que vou te deixar dormir comigo e ir embora sem se despedir de forma decente?
Melissa tentou argumentar qualquer coisa com ele, mas não conseguiu. Ela apenas fechou os olhos. E esqueceu o resto do mundo.
----------------------------------------------
Marlene abriu os olhos. Um barulho esquisito a despertou. Parecia um zumbido. Ela passou a mão levemente pelo rosto, e conseguiu entender o que estava acontecendo.
O zumbido que ela ouviu não era exatamente um zumbido. Na verdade, era um celular vibrando. O celular de Regulus.
A garota inspirou profundamente.
Era o celular de Regulus vibrando. De novo.
A jovem então se recordou da noite anterior. E das inúmeras vezes que o celular de Regulus vibrou, sempre interrompendo o clima entre os dois.
Marlene então viu o jovem Black alcançando o aparelho na mesa de cabeceira, e olhando para o visor. Num pulo, ele levantou da cama. Ele olhou para Marlene, e viu que ela estava acordada. Então ele falou de forma simples, antes de atender.
- Minha mãe.
O rapaz parou em frente à janela, e atendeu ao telefone em voz baixa.
Marlene olhou para ele por um instante. E falou, sem que ele pudesse ouvir.
- É. Mas ontem não era sua mãe.
Ela se resignou, e levantou da cama. O fato de ela estar ainda vestida com a camisola que colocou, ao ir dormir, a fez lembrar-se de todos os acontecimentos da noite anterior. Por mais que ela tivesse gostado de estar junto de Regulus, ela não podia tentar se enganar, achando que a noite tinha sido uma maravilha. Porque, na verdade, a noite nem chegou perto disso.
Assim que entrou naquele quarto, Regulus se aproximou dela, e a beijou. Isso fez Marlene achar que tudo correria às mil maravilhas. Mas ela se decepcionou.
Regulus a tratou muito bem. Mas acontecimentos fora do controle dos dois acabaram interrompendo tudo. E isso tinha deixado Marlene muito triste.
Eles estavam deitados na cama, se beijando, quando o celular de Regulus começou a tocar. Inicialmente ele atendeu. Mas Marlene preferia que ele não tivesse atendido.
Porque quem estava ligando era uma garota da sala dele. Não só uma, era uma turma delas. E elas o convidaram para uma festa que estava acontecendo na piscina do hotel. Regulus as dispensou, e Marlene ficou satisfeita como ele tinha agido. Mas, o problema aconteceu daí em diante.
Insistentemente, o celular dele continuou tocando. Ele passou a ignorar as ligações, então elas passaram a mandar mensagens de texto. E Regulus dizia que não podia desligar o celular, já que a mãe dele poderia tentar ligar.
E esse assédio constante acabou totalmente com o clima entre os dois. Regulus se desculpou algumas vezes, e Marlene foi obrigada a encarar a realidade.
Regulus era um Black. E isso significava diversas coisas, mas, principalmente, significava carregar uma fama. E Regulus, pelo que Marlene sabia, fazia jus à sua fama.
Ele podia não ser tão popular quanto o irmão mais velho, mas isso não queria dizer muita coisa. Porque Sirius, por mais popular que fosse, era claramente um homem de uma mulher só. E o nome dela era Ellie Dumbledore.
Só que Regulus, pelas fofocas que se espalhavam por Hogwarts, estava muito mais para o lado de Bellatrix, que para o lado de Sirius. E Bellatrix era conhecida em Hogwarts como uma promíscua.
Ela era muito agressiva com os homens. Apesar de namorar Rodolphus Lestrange, ela continuava tendo casos amorosos com quem bem entendia. Rodolphus parecia não se importar com isso, já que ele fazia o mesmo. E, para a tristeza de Marlene, Regulus tinha a fama de estar seguindo os passos da prima.
E diversas garotas de Hogwarts pareciam simplesmente encantadas por qualquer tipo de atenção que pudessem receber de Regulus. Ele era bonito, era rico, e ainda tinha um charme diferente, um ar obscuro e misterioso, que certamente as enlouqueciam. Ele passava pelos corredores, geralmente sozinho, e Marlene via como diversas garotas suspiravam. Principalmente porque ele parecia um tanto inatingível. Nenhuma garota jamais tinha dobrado Regulus. Ele passava de garota a garota, sempre de maneira extremamente discreta, mas também sem remorso algum. E, mesmo assim, elas continuavam seguindo-o, enlouquecidas.
Marlene caminhou até o banheiro. Parou na frente do espelho, e olhou seu reflexo. Suspirou profundamente. Toda a produção que ela tinha preparado tinha sido inútil. A camisola escolhida a dedo, a maquiagem suave, a iluminação intimista que ela tinha ajustado, a música lenta e romântica tocando. Nada disso importava agora. Tinha tudo sido em vão. Ela e Regulus, depois de tantas interrupções, acabaram simplesmente dormindo. Isso foi bem agradável, já que ele a puxou para perto dele, e a colocou para dormir em seu peito. Mas nada, além disso, aconteceu.
Então Marlene, resignada com sua noite frustrante e sem nenhuma ação, abriu a torneira da pia, e lavou o rosto. Quando alcançou a toalha para secá-lo, viu Regulus parado na porta do banheiro. Ele estava sério, mas a observava atentamente. Por um instante, Marlene achou que ele estava tão frustrado quanto ela pela noite anterior. Mas logo ela achou que tinha tido uma impressão errada. Porque o rapaz simplesmente falou.
- Eu tenho que ir.
Sem saber o que dizer, Marlene apenas acenou com a cabeça, concordando. E ouviu Regulus falar novamente.
- As garotas já devem estar voltando para cá, de uma forma ou de outra.
Novamente, Marlene concordou com a cabeça. Mas não achava que nem Lily, que tinha passado a noite com James, e Ellie, que sempre arrumava algo para fazer quando estava sozinha, iriam aparecer tão cedo no quarto. Mesmo assim, ela ficou calada.
Regulus olhou para ela por alguns instantes. Parecia que ele iria falar algo, mas ele logo desviou o olhar, e saiu caminhando pelo quarto.
Após alguns segundos, Marlene o seguiu. Viu que ele já estava pronto para ir embora. Tinha calçado o sapato que usou na noite anterior. E olhou para ela.
- Já vou indo.
Marlene teve que segurar a enorme vontade de despejar tudo que estava sentindo naquele momento. Mas ela conseguiu conter seu ímpeto, e falou.
- Tudo bem.
Novamente parecia que Regulus falaria algo importante. Mas, mais uma vez, ele se conteve, e simplesmente se aproximou dela. Depositou um beijo rápido nos lábios da garota, e falou.
- Nos vemos depois.
Marlene teve que segurar as lágrimas. Parecia que ele a estava deixando.
Mas ela se conteve, e concordou com a cabeça. Só que Regulus não se moveu. Ele parecia preso ao chão, como se só conseguisse sair se falasse o que estava pensando.
O rapaz relutou por alguns momentos, mas conseguiu se mover. Foi caminhando até a porta. Abriu com cuidado, e olhou discretamente para os dois lados do corredor. Constatou que ninguém poderia vê-lo, então voltou seu rosto para Marlene, e falou.
- Lene...
Ele ficou com a boca aberta, mas nenhum outro som saiu de lá. Marlene, com a garganta apertada, só queria correr até a porta, e puxá-lo para dentro novamente. E queria beijá-lo. E queria ficar ao lado dele. E queria poder falar para aquelas garotas oferecidas que eles pertenciam um ao outro.
Mas ela não fez. Regulus ouviu um barulho vindo do corredor, e falou apressadamente, antes de sumir porta afora.
- Tenho que ir.
A porta se fechou. E Marlene finalmente pode deixar suas emoções fluírem.
- Ah, merda! – ela falou, se jogando na cama. Deitou encolhida, e abraçou um travesseiro. Fechou seus olhos, e tentou, em vão, esquecer a noite anterior.
Só que ela sabia que isso seria impossível.
---------------------------------------------
Um a um, os alunos de Hogwarts foram acordando em seus quartos de hotel, em Paris. Alguns sonolentos, outros animados. Vários de ressaca por conta do réveillon na noite anterior, e a louca festa na piscina, que durou até quase a manhã do dia seguinte.
A professora McGonagall foi percorrendo o corredor, de quarto em quarto, batendo nas portas. Ela mandava os alunos acordarem, sempre repetindo que eles perderiam o vôo se não se arrumassem logo.
Lily e James estavam se beijando calmamente quando ouviram as batidas e a voz da professora, do outro lado da porta. Lily levantou-se tão rápido que James não foi capaz de acompanhar os movimentos da garota com os olhos. Ela simplesmente recolheu tudo que tinha deixado espalhado pelo quarto (o que significava sua lingerie que ficou espalhada pelo caminho até a cama, e sua bolsa), e foi voando até o banheiro. James levantou-se da cama, vestiu uma calça de moletom, e foi abrir a porta.
Assim que a porta se abriu, a professora McGonagall já disparou.
- Porque demorou tanto para abrir a porta, senhor Potter?
Se James fosse um adolescente comum, provavelmente se enrolaria com as palavras. Mas ele já estava tão acostumado a se envolver em confusões que isso lhe deu prática suficiente para se livrar de situações embaraçosas.
Então ele respondeu, sem aparentar nada além de sinceridade extrema.
- Eu estava dormindo, professora.
McGonagall contraiu os olhos, e fez uma rápida inspeção visual no quarto, por cima dos ombros de James. E ela logo perguntou novamente, ao notar a cama de Sirius feita.
- E onde está o senhor Black?
James sacudiu os ombros, e respondeu novamente.
- Não sei. Ele deve ter acordado cedo, não o vi sair. Acabei de acordar, como disse antes.
Extremamente desconfiada com a ausência de Sirius, ela simplesmente falou.
- Então vá logo se trocar e desça para o café da manhã. E se o senhor Black aparecer, diga a ele que eu ainda quero ter uma conversa muito séria com ele.
James fechou a porta, e fez uma pequena careta. Não queria incriminar Sirius, mas como ele achava que o rapaz tinha dormido no quarto de Remus, ele não sofreria nenhum tipo de repreensão séria. Então ele foi até o banheiro, e bateu na porta, falando com Lily.
- Lily, ela já foi. Pode sair.
Lily abriu a porta lentamente. Estava tão vermelha quanto seus cabelos, e seus olhos estavam arregalados. E ela já tinha se vestido. Quando recuperou a voz, ela falou, baixinho.
- E ela... desconfiou de alguma coisa?
James riu, satisfeito.
- Não. O Sirius pode ter algum problema. Mas nada que ele não saiba lidar. Já arrumamos problemas muito piores na escola, e nos safamos. Pode ficar tranqüila.
Lily apenas acenou com a cabeça, e imaginou que era melhor nem saber exatamente quais problemas James e Sirius já aprontaram na escola. Com certeza seria algo digno da fama dos dois...
James se aproximou da namorada, e a envolveu pela cintura. Beijou de leve a testa dela, e falou.
- O que quer fazer agora?
Lily sentiu sua respiração acelerar um pouco, e um nervosismo estranho tomou conta dela. Sem saber o que dizer, ela simplesmente falou o que lhe veio primeiro na cabeça.
- Acho melhor descermos para o café da manhã. Senão vamos nos atrasar.
James olhou para ela por um instante, mas concordou.
- Então vamos. O pessoal deve estar descendo também.
Lily apenas concordou com a cabeça, e falou, se afastando de James.
- É melhor se eu... descer antes. Para ninguém perceber.
James franziu a testa de leve, mas concordou com a cabeça. Então Lily abriu a porta com cuidado, e verificou o corredor. Como parecia tudo tranqüilo, ela saiu. Olhou muito rapidamente para James, e o viu retirando a calça de moletom que vestia. Ele estava trocando de roupa.
Lily saiu andando pelo corredor, um tanto sem rumo. E com o rosto totalmente corado.
----------------------------------------
Lily foi andando pelos corredores do hotel. Pensou em deixar suas coisas no quarto, antes de descer para o café da manhã. Mas lembrou que seu quarto estava ocupado por Marlene e Regulus, então ela desistiu desta idéia. Só de pensar em dar de cara com o casal lá a deixou constrangida. O que ela iria falar se Regulus abrisse a porta?
Então ela pensou em outra solução. Lembrou que Ellie e Melissa estavam no quarto da morena. E lá era um local seguro o suficiente para deixar suas coisas, e aproveitar para conversar com as amigas sobre a noite anterior.
Lily foi caminhando até o quarto de Melissa. O corredor estava vazio quando ela chegou à porta. Mas, antes que ela pudesse bater, a porta abriu bruscamente. E uma voz muito conhecida saiu de lá de dentro.
- Vai embora logo, Sirius! Quer que a McGonagall te pegue aqui?
No instante seguinte, um cambaleante Sirius Black saiu do quarto. Ele parecia ter sido empurrado porta afora, mas tinha um sorriso muito sem vergonha nos lábios. E ele também estava usando uma camisa toda desabotoada até embaixo, e calça jeans. Carregava numa mão seus sapatos (ele estava descalço) e na outra, uma mala.
Lily arregalou os olhos imediatamente. Seu queixo caiu.
Sirius logo percebeu a presença de Lily. Seu sorriso aumentou ainda mais. E quando ele falou, parecia ainda mais satisfeito de ter sido flagrado saindo do quarto.
- Oi Lily. Teve uma noite legal?
Lily ainda estava estática. Mas respondeu alguns segundos depois, já abrindo um sorriso.
- Tive. Mas acho que a sua também foi, né?
Sirius riu, e falou, com uma expressão completamente safada.
- Muito mais que legal, Lily. Muito mesmo.
Lily não agüentou, e riu. O rapaz saiu andando pelo corredor, e falou, sem virar o rosto para trás.
- Fala com ela que eu já estou com saudade.
Lily riu ainda mais, e foi até a porta do quarto. Ela bateu duas vezes na porta, e ela abriu rapidamente. Ellie já começou a falar, mesmo sem ver quem estava ali.
- Mas o que foi...
Ela arregalou os olhos quando deu de cara com Lily Evans.
- Ah... – ela gaguejou – Oi... Lily.
Mas logo ela percebeu que Lily ria. E entendeu que a amiga viu Sirius saindo do quarto.
Lily entrou no quarto de Melissa, e continuou rindo. Ellie franziu a testa, já esperando a frase que invariavelmente estava a caminho.
E a frase veio. Logo em seguida.
- Ellie! Você e o Sirius?
Ellie revirou os olhos, e falou.
- Ah, Lily...
Mas Lily não desistiu tão fácil. E insistiu.
- Como foi que isso aconteceu?
Ellie inspirou profundamente, e se resignou. Lily não ia desistir mesmo, então ela começou.
- A Melissa achou que ia ser muito engraçado colocar eu e o Sirius para dormir no mesmo quarto. – ela falou, ligeiramente contrariada.
Lily sorriu de lado, e falou.
- Mas isso não explica porque você expulsou o Sirius quase sem roupas porta afora, e muito menos o sorriso de orelha a orelha que ele exibia.
Ellie pareceu feliz por um instante, ao ouvir de Lily que Sirius estava sorridente. Mas logo ela se recompôs, e falou.
- Você tem que entender que... a carne é fraca, Lily! Eu... ah, ontem à noite parecia uma boa idéia... e ele estava tão lindo e cheiroso...
Lily gargalhava das desculpas esfarrapadas de Ellie. Então ouviu a garota decretar, finalmente.
- A culpa é toda da bebida. Eu tomei mais champagne do que devia. É isso, nunca mais eu bebo!
Lily viu uma garrafa de champagne jogada no chão, duas taças na mesinha de cabeceira, e levantou uma das sobrancelhas.
- E desde quando você fica bêbada com meia garrafa de champagne?
Ellie corou visivelmente, e tentou se justificar.
- Ah, Lily... eu falei, eu sou fraca! Ele veio cheio de conversa, estava tão lindo... eu não resisti! E ele ainda me deu um presente de Natal!
Ela mostrou os brincos, que ainda estavam em suas orelhas. Lily sorriu, e falou.
- Nossa, são lindos! Mas... continuo achando a mesma coisa. Você não teria feito nada se não quisesse...
Conformada, Ellie apenas falou.
- Ele é muito gostoso, e eu estava carente. Acho que isso resume tudo.
Lily apenas sorriu, e Ellie viu nisso uma oportunidade de escapar do assunto. E atacou de vez.
- Chega de falar da minha noite. Vamos falar da sua!
Lily baixou os olhos instintivamente, e Ellie bombardeou logo de cara.
- Como foi a noite romântica com o Jay? Rolou de tudo?
Lily corou, e Ellie riu.
- Ah, eu sabia!
Lily sentou na cama, largando a bolsa no chão. Ellie a seguiu, e sentou na frente da amiga, de pernas cruzadas. E com uma expressão de expectativa no rosto.
- Conta tudo! – ela pediu.
Lily tomou fôlego. Pensou em começar pelo desentendimento entre eles, em que James brigou com ela por causa de Kyle. Mas algo nela a fez excluir esta parte. Ela não saberia dizer por que, mas voltar ao assunto sobre Kyle Wilshire a fazia ficar muito desconfortável. Então ela editou a história, contando apenas sobre ela e James.
- Bem, acho que tudo fluiu de forma normal...
Ellie franziu a testa, e protestou.
- Normal? Lily, foi sua primeira vez! Impossível ser apenas normal.
Lily não sabia mais o que dizer. Na verdade, estava buscando palavras para descrever a noite anterior, mas não as encontrava. Ela não sabia como se sentir. Tinha muitas dúvidas, mas tinha certeza que, relacionado a este assunto, ela não poderia ter ajuda da parte de Ellie. A amiga tinha tido uma primeira vez tão maravilhosa, que provavelmente não passou por nenhum dos sentimentos que Lily experimentava naquele momento. Até porque Lily não conseguia sequer nomeá-los naquele momento.
Lily ficou calada por alguns momentos, e Ellie ficou um pouco assustada. Então falou, num tom muito mais cuidadoso do que falou anteriormente.
- O que foi, Lily? Foi... ruim?
Lily inspirou para responder, mas Ellie disparou a falar.
- Olha, porque isso é totalmente normal de acontecer. E não quer dizer nada, tá? Às vezes dói, e tal, mas com o tempo a pessoa se adapta, e fica tudo ótimo! Eu tenho certeza que vai ficar tudo bem. É só vocês continuarem fazendo que...
Naquele instante, Lily arregalou um pouco os olhos, e interrompeu Ellie de imediato.
- Ellie. Eu... não disse que foi ruim.
Ellie pareceu aliviada.
- Não foi ruim? Ah, mas então isso é ótimo!
Mas Lily continuou pensativa, e Ellie a encarou, olhando nos olhos dela.
- Lily, o que foi? Você sabe que pode falar qualquer coisa comigo.
Por mais que Lily confiasse na amizade de Ellie, naquele momento ela achou que Ellie não poderia ajudá-la. A amiga estava em outra situação completamente diferente. Mesmo que ela estivesse terminada com Sirius, Ellie tinha acabado de ter uma noite de sexo com o rapaz. E isso a fazia ficar a anos-luz da situação de Lily.
Lily estava confusa. Tinha acabado de ir para a cama com o namorado. Mas não sabia o que sentir quanto a esse aspecto. Enquanto a amiga já estava em outro patamar. Ellie via sexo com algo muito mais natural. Tanto que confessou ter sucumbido ao desejo, e transado novamente com o ex-namorado.
- Lily?
A ruiva então resolveu, mesmo que parcialmente, conversar sobre o que sentia com a amiga.
- Bem, é que... eu ainda não sei o que pensar sobre a noite passada.
Ellie franziu a testa, não compreendendo a situação. Mas ficou calada, dando uma chance de Lily esclarecer tudo.
- É muita novidade... eu ainda estou processando.
Ellie concordou com a cabeça. E falou.
- Ok. Mas quando você terminar de processar, e quiser me contar, eu estou aqui, tá? À sua disposição.
Lily sorriu brevemente, mas não falou nada. Ela ouviu um barulho vindo da porta, e logo viu Melissa entrando, carregando sua bolsa sobre o ombro.
- Bom dia. – ela falou, de forma simples.
Ellie estreitou os olhos, e falou.
- Melissa, a senhorita me deve uma boa explicação!
Mas Melissa apenas revirou os olhos, sem se importar.
- Vai dizer que você não gostou? O Sirius chegou agora a pouco ao quarto do Remus, com uma expressão tão satisfeita que eu tenho certeza que vocês aproveitaram muito bem a noite.
Ellie levantou uma das sobrancelhas, e falou.
- Você é ardilosa, garota...
Melissa sorriu de lado, e falou.
- Obrigada.
Ellie se rendeu, e sorriu também. E logo fez a pergunta que também estava na ponta da língua de Lily.
- E como foi a sua noite?
Melissa estava buscando com os olhos as suas coisas que ficaram no quarto. Ela queria trocar de roupa. Mas a frase de Ellie a fez parar por um instante. Ela tentou responder com a voz mais estável que conseguiu.
- Boa.
- Boa? – disseram, ao mesmo tempo, Lily e Ellie. E, curiosamente, ambas usaram o mesmo tom irônico.
Melissa tentou desviar o rumo da conversa. Ela reuniu suas coisas, para poder tomar banho. E resmungou.
- Vem cá, um furacão passou por aqui, foi? Está tudo revirado. O quarto está uma bagunça.
Ellie desviou o olhar, fingindo-se de desentendida. Melissa observou-a por um instante, e falou, num tom falso de reprovação.
- Vocês transaram pelo quarto inteiro, não é? Que coisa feia...
Ellie sorriu, sem graça. Lily prendeu o riso como pode, mas, finalmente sucumbiu a uma gargalhada. Melissa entrou no banheiro, resmungando no caminho.
- Pervertidos.
- Você ainda não respondeu a pergunta! – Lily, após parar de rir, falou.
Melissa então colocou a cabeça para fora do banheiro, e falou.
- Já respondi sim. – ela falou, tentando encerrar o assunto – Ah, e aonde é seguro para eu colocar minhas coisas, Ellie?
Ellie corou visivelmente, e pensou por um instante. Quando pareceu ter repassado mentalmente todos os locais utilizados por ela e Sirius, ela respondeu.
- A bancada da pia.
Lily deu uma risadinha, e Melissa entrou novamente no banheiro. Mas Ellie ainda completou, parecendo ligeiramente constrangida.
- Quer dizer... o lado esquerdo da bancada da pia.
Melissa resmungou algo dentro do banheiro, mas logo as duas a ouviram ligar o chuveiro. Lily olhou para Ellie, e falou.
- Você acha que aconteceu algo a mais entre eles?
- Bem, eles dormiram no mesmo quarto... e o Remus, de bobo, não tem nada. A Melissa muito menos!
As duas se entreolharam. E pareciam ter captado o pensamento uma da outra. Então levantaram da cama simultaneamente.
- Melissa... – Lily e Ellie falaram, com uma voz cantada.
A garota, que estava retirando o condicionador do cabelo, abriu os olhos, e viu as duas amigas paradas na porta do banheiro.
- Conta como foi sua noite com o Remus! – Ellie falou, sorridente.
- Estamos curiosas! – Lily fez cara de pidona.
Melissa revirou os olhos. Terminou seu banho em silêncio, mas nem Lily, nem Ellie, arredaram o pé da porta do banheiro. Então Melissa viu que elas não desistiriam. Começou a perceber que, agora que ela tinha amigas novamente, era provável que sua privacidade deixaria de ser algo tão fácil de preservar. Mas como elas pareciam genuinamente curiosas, e certamente já tinham provado serem dignas de confiança, ela cedeu. E perguntou.
- O que vocês duas querem saber, suas malucas?
As duas riram, e Lily respondeu.
- Acho que você sabe muito bem.
A memória da noite anterior inundou a mente de Melissa. O segredo que ela partilhara com Remus. Todo o carinho que ele demonstrara. Os seus beijos insinuantes...
Melissa tentou se recompor antes de falar.
- Eu não transei com o Remus.
Lily e Ellie se entreolharam. Elas não sabiam o que dizer naquele momento. Depois de longos segundos de silêncio incômodo, Ellie arriscou.
- E... por que não?
Melissa inspirou antes de falar, usando o tom mais casual que conseguiu.
- Não rolou. – Lily franziu a testa ao ouvir, e Melissa completou, tentando fazer pouco caso da situação – Não é como se nós fossemos namorados, ou algo do tipo. Eu só saí com ele. Nada de mais.
Melissa percebeu que não conseguiria convencer ninguém com o que tinha acabado de falar. Mas ficou muito agradecida pelo fato de Lily e Ellie terem ficado quietas, e desistirem do interrogatório. E, mesmo que ela tenha ficado constrangida por ver que as amigas perceberam sua insatisfação com a situação entre ela e Remus, Melissa valorizou muito a bondade de ambas em não tocarem mais no assunto.
As três então começaram a arrumar as malas, e organizar as coisas para a viagem de volta para casa. Depois de muita confusão, os objetos espalhados foram recolhidos, colocados em suas devidas malas.
Todos os alunos da excursão perderam bastante tempo nessa maratona. A professora McGonagall ficava circulando pelos corredores, sempre preocupada com o horário. Ela tinha que organizar o transporte de todos os alunos até o aeroporto, e tinha que assegurar que eles cegariam lá a tempo de pegar o vôo.
Quando terminaram a arrumação de tudo, e as malas foram acomodadas nos ônibus que fariam o transporte até o aeroporto Charles de Gaulle.
A professora McGonagall e o professor Binns reuniram os alunos no saguão do hotel. Davam várias recomendações que os alunos prontamente ignoraram, ansiosos demais para se concentrar no que eles diziam. Quando conseguiram organizar os alunos, e terminaram a conferência para saber se todos estavam presentes, eles começaram a acomodá-los nos ônibus.
Logo que desceram, Lily, Ellie e Melissa buscaram com os olhos por Alice e Marlene. Logo as localizaram. Alice e Frank estavam juntos, e Marlene estava com eles. A loira parecia um pouco desanimada, mas Alice estava muito feliz, abraçada a Frank.
As garotas mal tiveram tempo de trocar algumas palavras. Os professores já estavam empurrando todos em direção aos ônibus. Na confusão que se instalou, elas acabaram não sentando todas juntas. Lily e Ellie conseguiram um assento na parte de trás do ônibus.
Assim que os ônibus saíram do hotel, os alunos começaram a circular pelo corredor. Logo Lily pode ver quem tinha conseguido entrar em seu ônibus. Ela buscou com os olhos, e viu Remus conversando com Frank. Mas não viu sinal algum de James.
Lily pensou por um instante se estava preparada para um encontro com James, tão cedo. E concluiu que tinha sido bom que eles entraram em ônibus diferentes.
Ela olhou para o lado, e ouviu Ellie falando em como estava ansiosa para voltar para casa. Lily inspirou profundamente, e olhou para a janela. Ela, também, queria logo chegar em casa. Só não sabia se o seu motivo era o mesmo da melhor amiga.
---------------------------------------
A viagem de volta foi muito rápida. Lily achou que foi infinitamente mais rápida que a ida. Mas isso podia ser apenas reflexo da ansiedade da ida, quando todos queriam chegar logo na França.
Durante o vôo, James sentou-se ao lado dela. Sem saber exatamente como agir, Lily apenas falou ao namorado que estava cansada. Ele sorriu, e ofereceu seu ombro para que ela encostasse a cabeça, e dormisse. Lily sentiu um conforto interior com a gentileza de James, mas mesmo assim evitou encará-lo. Ela queria muito chegar em casa, e poder colocar seus pensamentos em ordem. E precisava estar sozinha para que isso acontecesse.
O vôo aterrissou tranquilamente no aeroporto de Heathrow. Lily pegou sua bagagem, e foi andando com Ellie até a área de desembarque. Logo elas avistaram diversos pais de alunos, acenando animados para os filhos. Alguns tiravam fotos, como se os filhos tivessem passado o ano inteiro fora de casa. Ellie logo localizou sua mãe, Lisa, e foi andando até ela. Lily, que pegaria uma carona com a amiga até em casa, a seguiu.
Antes que Lily pudesse alcançá-las, uma mão a impediu de prosseguir. Era James.
- Lily. – ele falou.
Lily se virou, e encarou o namorado. E ele falou.
- Quer carona para casa? Meus pais vieram me buscar.
Lily viu os Potter organizando as malas do filho, e acenou para eles. Dorea sorriu para a garota, e Charlus acenou de volta. E respondeu a James.
- A Ellie vai me dar carona. Já combinei com ela.
James franziu a testa muito rápido, mas continuou.
- Tem certeza? Podemos ficar um pouquinho lá em casa, depois eu te levo de táxi.
Lily desviou o olhar dele, e falou.
- Eu... estou cansada. E minha mãe deve estar louca para que eu chegue logo em casa. Fora que tenho que organizar as coisas para a volta à Hogwarts, tenho que separar os livros e...
James observava atentamente o rosto de Lily. E acabou interrompendo-a, sem querer.
- Lily... está tudo bem?
A frase dele a fez voltar a encarar o namorado. O rosto de James estava aparentando preocupação, mas mesmo assim ele estava tão bonito...
- Está sim. Só estou cansada mesmo. – ela falou. E soou convincente o suficiente. Até porque não estava mentindo totalmente. Estava cansada, sim. E queria logo chegar em casa.
James pareceu satisfeito com a resposta. E então se inclinou, deu um beijo suave nos lábios de Lily, e falou.
- Tudo bem, então. Descansa bastante, princesa.
Lily não conseguiu evitar o sorriso bobo que tomou conta de seus lábios. Por mais confusa que ela pudesse estar, ela jamais conseguiria ouvir a voz morna de James, chamando-a de princesa, e ficar alheia a isso. Era impossível.
Ela então se afastou, e foi andando até Ellie e Lisa. Viu a amiga sendo quase esmagada por um abraço sufocante da mãe, enquanto ela falava muito rápido com a filha. Ellie tentava se livrar do aperto, falando.
- Mãe, você está bem? Está com TPM ou algo do tipo?
- Ah, minha princesa! Estou tão feliz que você voltou. Odeio ficar sozinha em casa...
Ellie riu, e conseguiu sair do abraço da mãe. Vendo Lily ao seu lado, ela falou.
- Deve ser abstinência de chocolate... Hormônios são mesmo terríveis.
Lily riu, e acompanhou as duas até o estacionamento. Elas guardaram as bagagens no porta-malas (que ficou lotado por conta dos exageros em compras de Ellie), e seguiram em direção à casa de Lily.
No caminho, a garota ia olhando a paisagem passando pela janela, sem dar muita atenção à conversa animada entre Ellie e sua mãe, na parte da frente do carro.
- Eu trouxe seus macarons de Pierre Hermé. Mas achei que você podia aprender a variar um pouco, então trouxe uma caixa da Ladurée também. – Ellie falava para a mãe – Ah, e trouxe os lenços Hermès que você pediu. Duas caixas de Cristal, e três garrafas de Cîroc. Nem sei como me deixaram passar na alfândega com elas...
Lisa riu, mas logo mudou de assunto.
- Você não disse como foi com Karl.
Lily abandonou seu devaneio por um instante. Ela mesma não tivera oportunidade de conversar com Ellie sobre o assunto. Então passou a prestar atenção na conversa das duas.
Ellie ficou visivelmente embaraçada. Mas falou, tentando não dar atenção ao assunto.
- Ah... ele falou que eu sou muito nova para o estágio.
Lisa olhou rapidamente para a filha, e depois voltou sua atenção ao trânsito. E falou, num tom delicado.
- Eu imaginei que ele pudesse pensar isso.
Ellie franziu a testa, e falou.
- Se sabia que isso ia acontecer, porque me deixou ir lá?
Lisa sorriu brevemente, e falou.
- Porque eu queria que ele olhasse para você. Ele propôs outro acordo, não foi?
Ellie apertou os olhos, desconfiada.
- Mãe, o que você andou aprontando?
Lisa continuou em seu tom tranqüilo.
- Querida, eu sabia que, assim que ele colocasse os olhos em você, teria um interesse diferente do que você imaginava.
- Mãe! – Ellie protestou – Você sabe que eu quero ser designer de moda! Não quero ser modelo.
Lily arregalou os olhos ao ouvir a nova informação. Mas não interrompeu a discussão das duas.
- Eu sei. – concordou Lisa – Mas você sabe que eu conheço bem esse meio, querida. É a melhor forma de entrar. Se você tem essa vantagem, deveria aproveitá-la. Pode trabalhar com um dos melhores estilistas de mundo, e aos 16 anos. Não é qualquer uma que consegue isso. Vai ajudar muito sua futura carreira ter esse tipo de contato.
Ellie desviou seu olhar, que se perdeu através do vidro do carro. Lisa não falou mais nada, sabia que a filha ainda estava remoendo a situação.
Sem muita demora, Lisa estacionou seu carro em frente à casa dos Evans. Elas saltaram do carro, e começaram a retirar a bagagem.
Lily despediu-se de Ellie e Lisa. Ellie fez vários sinais para a amiga, e gritou, antes da mãe arrancar com o carro.
- Me liga, Lily!!
Lily riu, e entrou em casa.
Previsivelmente, ela deu de cara com sua mãe. Depois de muitos abraços e inspeções para ver se a filha estava bem, ela começou a bombardeá-la com perguntas sobre a viagem.
- Como foi em Paris, querida? Divertiu-se muito? Gostou dos museus? O que vocês faziam no tempo livre? Como foi o réveillon?
Lily já estava ficando tonta com tantas perguntas. Ela estava subindo com uma de suas malas, e a mãe carregava a outra. Mas isso não a fazia perder o ritmo das perguntas.
- Você comeu direito, Lily? Não ficou desagasalhada no frio, ficou?
- Mãe! – Lily protestou – Eu estou bem, você não está vendo?
A Sra. Evans olhou para a filha, satisfeita. E falou.
- É que eu estou tão feliz por você ter ido nesta viagem. Por isso quero saber se você se divertiu.
Lily sorriu para a mãe, e respondeu.
- Eu me diverti na viagem sim, mãe. – Então, por um instante ela se lembrou da noite de réveillon com James, e sentiu um pouquinho de nervosismo. E completou – Só estou cansada. Quero arrumar as malas e deitar um pouco.
A Sra. Evans não percebeu a hesitação da filha, por isso sorriu novamente, e falou.
- Claro, querida. Vá descansar primeiro, depois você arruma tudo.
Lily olhou para a mãe, e concordou.
- Tudo bem. Mas tenho que começar a organizar tudo, as aulas vão recomeçar e eu quero estar preparada.
- Certo. – disse a Sra. Evans. – Eu não esperaria outra coisa de você, querida...
O tom divertido da mãe fez Lily sorrir. Mas logo ela estava encostando a porta de seu quarto e se jogando em sua cama.
A garota encarou o teto. Ficou imaginando em quando conseguiria, finalmente, entender o que estava sentindo. O que tinha mudado em sua vida, e em seu namoro, depois da noite de réveillon.
---------------------------------------
- Jaaaamessss...
James Potter abriu os olhos. Demorou um instante para focar o rosto que estava bem em frente ao seu. O enorme sorriso que o rosto exibia costumava ser sinal de encrenca. Assim como o tom cantado que a pessoa usou ao falar seu nome.
- Huuummm... – James resmungou.
- Acorda, preguiçoso!
James abriu os olhos de vez, e viu Ellie exibindo um enorme sorriso para ele. A garota estava sentada na cama dele, e parecia muito animada.
Ele não viu saída alguma senão acordar. Ele conhecia Ellie o suficiente para saber que ela não sossegaria até que ele estivesse totalmente acordado.
- Estou esperando. – ela falou, agora se afastando, e cruzando as pernas.
James se esticou um pouco na cama, e olhou para a garota, resmungando novamente.
- Ah, Ellie, vê se me erra, tá! Ainda está de madrugada...
Ellie não se abalou com a reclamação do amigo, e falou.
- James, faltam exatamente 10 minutos para o seu despertador tocar. Só estou aqui para garantir que você não perca a hora no dia em que voltamos às aulas! – ela exibiu o sorriso de novo.
Derrotado, James levantou da cama. Lançou um olhar assassino para a garota, que olhou para cima fingindo inocência. Ele foi até o banheiro, e Ellie caminhou até o closet dele. Enquanto ele tomava banho, ela separou o uniforme de James. Não ia deixar ele perder tempo algum naquele dia.
Logo o rapaz saiu do banho com a toalha em volta da cintura, e deu de cara com Ellie. Ela já estava toda arrumada para a escola, com seu uniforme impecavelmente arrumado, meias pretas nas pernas, e uma presilha pequena na lateral do cabelo. E o sorriso novamente no rosto.
- O que você quer? – James perguntou – Você nunca vem na minha casa tão cedo, nunca perde os últimos minutos de sono nem que o mundo esteja caindo.
O rapaz entrou no closet para se trocar, e viu seu uniforme separado e pendurado em frente ao espelho. Ele resmungou algo incompreensível, e Ellie, mesmo do quarto, respondeu.
- Eu quero conversar com você, Jay! Parece que todo mundo sumiu nesses dois dias...
James logo voltou ao quarto, já vestido com a calça do uniforme. Estava abotoando a camisa quando respondeu.
- Eu fiquei aqui, não sumi, não.
Ellie fez uma expressão irônica.
- Ah, ficou... Você estava fugindo de mim!
James sabia que de nada adiantava discutir com ela. Então ficou quieto, e a deixou continuar o assunto por si mesma. Obviamente, Ellie não se conteve, e falou.
- Eu quero saber o que aconteceu no réveillon!
James desviou o olhar, procurando algo para fazer. Logo alcançou as meias, e começou a calçar seus sapatos. Mas ele não conseguiu enganar Ellie, que resmungou.
- Tá vendo? Depois diz que não está fugindo de mim. Parece que todo mundo está fugindo de mim nesses dias!
James levantou a cabeça, e falou, com um sorriso sem vergonha.
- Eu sei de alguém que não está fugindo de você...
Ellie fechou a cara. Mas falou.
- Você sabe, não é? – James concordou com a cabeça, e Ellie completou – Para que eu perguntei, se já sabia a resposta? É lógico que ele não consegue manter aquela língua enorme dele dentro da boca!
James riu, mas defendeu Sirius.
- Ah, Ellie... nós somos melhores amigos, e ele me conta tudo. Até mais do que eu gostaria de ouvir.
Ellie corou de leve, e perguntou, um pouco receosa.
- O que ele falou?
James realmente não queria ficar recordando do enorme e muito detalhado discurso que Sirius fez, ao voltar para o quarto, no dia seguinte ao réveillon. Mas Ellie também não sossegaria até obter o suficiente, então ele tentou resumir ao máximo o que tinha para falar.
- Ah, ele falou que vocês... bem, você sabe.
Ellie olhou para James com uma expressão de impaciência.
- Até parece que ele só falou isso! Jay, ele não foi muito... literal, foi?
James ainda tentava apagar as imagens mentais que invariavelmente apareceram ao ouvir o relato de Sirius. Por mais exagerado que pudesse parecer, James tinha quase certeza que Sirius estava fazendo um relato totalmente fiel ao que acontecera. E ter que imaginar Sirius, seu melhor amigo, e Ellie, praticamente sua irmãzinha, em situações tão indecentes não era lá muito saudável para a sanidade dele.
- Ah... – Ellie arregalou os olhos, vendo na cara de James que Sirius tinha sido bastante literal – Bem... você sabe como o Sirius é... ele às vezes fala demais.
Ellie inspirou profundamente, e levou uma das mãos à cabeça. Mas James não deixou de notar que ela, em momento algum, tentou minimizar ou desmentir o que tinha acontecido. Isso significava que Sirius tinha sido realmente totalmente honesto em seus relatos.
Ela então olhou para James e falou, com um olhar levemente assustado.
- Ele não falou muito sobre... posições ou gemidos, falou?
James desviou o olhar. E não sabia o que responder.
- Ahhh...
Ellie escondeu o rosto com as mãos, mas logo voltou a olhar para James. E falou, num tom agudo.
- James, pelo amor de Deus, me conta alguma coisa da sua noite! Eu não posso ficar assim, envergonhada sozinha!
James então percebeu algo que não notara antes. Ellie realmente não sabia nada sobre a noite entre ele e Lily. E isso fez o rapaz perguntar imediatamente.
- A Lily não te contou?
Ellie virou para James, e falou.
- Eu não disse que todo mundo está fugindo de mim? Você, a Lily, a Melissa... até mesmo o Remus e a Marlene sumiram! A única pessoa que fica me ligando de cinco em cinco minutos é o Sirius!
- E você não está atendendo ele. – completou James.
Ellie revirou os olhos. E falou.
- As coisas não são assim, James. Eu não posso simplesmente esquecer tudo que aconteceu só porque nós passamos a noite de réveillon transando...
- Ellie... – James protestou.
- Ok, ok. Mas do jeito que ele é, deve ter te contado até a marca das camisinhas que ele usou!
James agradeceu silenciosamente por Sirius ter lhe poupado desse detalhe. E tentou voltar a conversa ao ponto.
- Mas você e a Lily não conversaram sobre o réveillon? Nem na França?
Ellie olhou para o amigo sem entender.
- Não. Eu estava até achando que vocês tinham combinado alguma coisa a respeito desse assunto...
- Não combinamos. – James respondeu de bate pronto.
Os dois ficaram se olhando por alguns segundos, até que Ellie conseguiu perguntar o que queria saber.
- Como foi... quer dizer, foi tudo bem... durante?
James franziu a testa. Pensou por alguns instantes no motivo que tinha levado Ellie a fazer aquela pergunta. E então achou que seria muito bom contar para a amiga o que tinha acontecido. Assim ela poderia avaliar a situação sob uma ótica feminina. Fora que Ellie era muito amiga de Lily, poderia falar algo com a namorada que ele não conseguiria.
- Foi. – James respondeu, com sinceridade. E resolveu abrir o jogo – Antes nós... discutimos.
Ellie franziu a testa, e perguntou.
- Por quê?
James ficou levemente envergonhado ao confessar o motivo.
- Bem eu... tive uma crise de ciúme.
Ellie arregalou os olhos, e James prosseguiu.
- Ah, Ellie, você notou como o Wilshire olha para a Lily!
Ellie cruzou os braços, e falou, contrariada.
- James! Que besteira é essa? E o que importa se alguém olha de forma estranha para a Lily? O que importa é que ela te ama, e não vai querer nada com ninguém. Você tem que confiar nela.
James não gostou muito do sermão de Ellie, e reagiu imediatamente.
- E você não ouve o próprio conselho, não? Vem falar de confiança, mas não acreditou no Sirius quando ele disse que não espalhou aquela fofoca sobre vocês dois.
Ellie desviou o olhar. Aquele assunto ainda estava muito fresco em sua memória, e ela estava cada vez mais convencida de que pudesse ter cometido um erro. Mas a idéia de que Sirius pudesse ter feito algo tão ruim assim a fazia sentir um nó na garganta. Então ela desviou o assunto.
- Continua sua história com a Lily.
James deixou o assunto de lado, e prosseguiu.
- Bem, eu saí do quarto para esfriar a cabeça, e depois voltei. Eu percebi que estava... exagerando. E quando eu cheguei lá ela estava sabe... de lingerie.
Ellie sorriu, satisfeita. James sabia que ela tinha alguma contribuição naquela cena, mas deixou de lado e prosseguiu.
- Foi ela quem começou com tudo, Ellie. Eu só queria fazer as pazes e ficar junto dela um pouco. Mas ela que quis, ela que chegou perto de mim, ela que começou...
- A iniciativa foi dela. – Ellie completou.
James concordou com a cabeça. E continuou.
- E para mim foi tudo maravilhoso. Foi... como nunca tinha sido antes.
Ellie começou a abrir um sorriso. Ela inspirou profundamente. Estava lembrando-se de sua primeira vez.
James prosseguiu.
- Sei lá, foi mais... calmo. Mais tranqüilo. Como se nós tivéssemos o tempo inteiro do mundo. Como se só aquele momento importasse.
Ellie suspirou baixinho, e falou.
- Eu sei.
James sorriu de lado, e falou.
- Sabe? Achei que você e o Sirius só fizessem como dois animais selvagens.
Ellie fechou a cara, e estreitou os olhos. E resmungou.
- Engraçadinho.
James riu, e cutucou as costelas dela. Ellie bufou, mas logo estava sorrindo de novo. E James concluiu.
- Bem, isso foi o que eu senti. Eu acho que não foi muito ruim para ela, ela não reclamou de dor nem nada... apesar de, logo no início, ela parecia levemente incomodada. Mas eu tentei ser... você sabe, cuidadoso. E paciente.
Ellie ficou quieta. Estava pensando. Tentando entender porque Lily não queria falar sobre o assunto. Pelo que James falava, tudo tinha ido muito bem. Então o que poderia ser?
- Está lembrando a sua primeira vez com o Sirius? – James perguntou, rindo.
Ellie revirou os olhos, mas logo falou.
- Não exatamente. Mas acho que sempre vou comparar qualquer relato desse tipo com aquela noite, não é?
James sacudiu os ombros, e falou.
- Acho que é bem diferente, a primeira vez. Para um homem, e para uma mulher. São coisas diferentes, situações diferentes.
Ellie olhou para James, e, sem se preocupar com o que ele pudesse pensar, ou as brincadeiras que ele pudesse fazer, disse.
- Talvez não seja assim tão diferente, Jay. Sei que tem o detalhe anatômico óbvio, mas... comigo e com o Sirius foi bem parecido. Eu acho que nós dois sentimos o mesmo. Um início um pouco desajeitado, mas depois... foi tudo tão... – ela fez uma pequena pausa, e concluiu em seguida – Mesmo com o que aconteceu depois, a confusão toda... aquela ainda é a melhor noite da minha vida.
James não teve vontade alguma de fazer qualquer tipo de piadinha sobre o assunto. Apenas concordou com a cabeça. Mas outro pensamento tomou conta de sua cabeça.
Será que Lily se sentia assim, em relação à primeira vez dela? Será que ela tinha uma memória tão feliz quanto Ellie tinha?
Será que aquela noite de réveillon tinha sido a melhor noite da vida de Lily?
-------------------------------------
Um pequeno pandemônio.
Essa era a descrição que mais se encaixava com o que acontecia nas proximidades do portão de entrada de Hogwarts. Alunos se amontoavam, agitados demais para um simples dia de aula. Só que aquele não era um dia comum. Era o primeiro dia depois do recesso de Natal e ano novo, então amigos se abraçando e cumprimentando outros colegas dominavam completamente a entrada da escola.
Lily suspirou ao ver o portão da escola. Ela tinha pegado uma carona com a mãe, e não se moveu quando o carro estacionou em frente à escola.
- Querida, você não vai saltar? – a Sra. Evans perguntou, ao notar a filha parada, sem se mover.
Lily acordou do devaneio, e abriu a maçaneta imediatamente.
Assim que chegou à calçada, Lily sentiu um frio na barriga. Buscou algum rosto conhecido no meio da multidão, mas não viu ninguém. Então resolveu entrar na escola de uma vez.
Ela atravessou o portão, e foi andando até o pátio. Imediatamente notou algo novo. Ela percebeu que música tocava na escola. Ela olhou para um dos alto falantes instalados discretamente numa coluna ao lado do pátio, e percebeu que o som saía de lá.
A garota franziu a testa. Isso era incomum. Geralmente os alto falantes só eram usados para algum tipo de recado aos alunos. Mas Lily apenas ajeitou a mochila em suas costas, e continuou sua caminhada pelo pátio.
Ela viu, de longe, alguns rostos conhecidos. Acenou para alguns deles, que a cumprimentavam. Então ela olhou para a direção de sua sala, e o viu.
James estava sentado num banco próximo da porta da sala. E Ellie estava sentada ao lado dele, e ambos estavam olhando para algum objeto nas mãos de James. Eles pareciam bem animados, sorrindo e conversando. Lily sentiu um pouco de alívio ao ver a cena. Isso a deixava mais calma.
Então ela foi caminhando até a dupla, que não percebeu sua aproximação. E ela pode ouvir o conteúdo da conversa deles antes que eles notassem sua presença ali.
- Eu achei a idéia ótima mesmo. Quem sabe dá um ânimo a mais para acordarmos tão cedo? – James falou.
Ellie olhava para o objeto nas mãos de James, e Lily viu que era o Ipod de James. E ela falou.
- Adorei sua seleção musical, Jay. Vão tocar as músicas que você escolheu a semana toda?
- Não sei. Mas acho que eu meio que virei um tipo de "consultor musical" da nova rádio da escola.
Ellie sorriu, e levantou o rosto. Imediatamente deu de cara com Lily. E a ruiva aproveitou a deixa para falar.
- Rádio da escola?
- Oi Lily! – Ellie cumprimentou.
Então James levantou a cabeça, e viu sua namorada. Ela estava bonita como sempre, mas o fato de ter ficado sem vê-la por dois dias o fez levantar do banco imediatamente, e se aproximar dela ainda mais. Quase como se fosse para apreciar o rosto dela mais de perto.
- Lily... – ele falou, abrindo um sorriso.
Lily sorriu de volta, e pode perceber que, por mais estranho que pudesse parecer, ela estava corada. James ficou ainda mais animado com aquela reação, e se aproximou dela, passando um braço em volta dos ombros dela.
Ellie sorriu, satisfeita. Parecia que tudo estava bem entre o casal. E então ela respondeu a pergunta de Lily.
- Agora temos uma rádio em Hogwarts. Vão tocar músicas nos intervalos, na entrada e na saída dos alunos. E o Jay é um dos que selecionam as músicas.
- É uma idéia antiga até. – James explicou – Não sei por que demoraram tanto para implantar.
Ellie ficou animada, e falou.
- Essa não é a única mudança não. Vamos ter a renovação de várias atividades extras, e a implantação de outras coisas novas, não só a rádio. Vocês vão ver, muitas coisas legais vão acontecer em Hogwarts daqui pra frente!
Lily riu do entusiasmo da amiga, que começou a falar sobre as mudanças na escola. Ela listou novas contratações no quadro de professores, e a reabertura do jornal de Hogwarts. Lily se perguntou onde Ellie conseguia aquelas informações todas, até que lembrou que ela era neta do diretor da escola. Lily sempre vivia esquecendo-se deste detalhe.
A música que estava tocando acabou, e uma nova logo a seguiu. Quando ouviu os primeiros acordes, Ellie olhou para James, e falou.
- Jet? Legal!
James sorriu, e respondeu.
- Sabia que você ia gostar.
Gotta
leave town
Got another apartment
Spent all my rent
Girl,
you know I enjoyed it
Lily começou a prestar atenção na música, e percebeu que a conhecia. Já tinha ouvido tanto James quanto Ellie ouvindo a melodia.
Gonna
hang around till there's nobody dancin'
I don't wanna hold
hands and talk about our little
plans all right
Lily ia fazer uma pergunta sobre a seleção musical de James, quando percebeu que Ellie, que ainda estava sentada no banco, fez uma expressão de completa surpresa. A garota entreabriu os lábios, e começou a levantar muito devagar. Ela parecia ter sido atingida por um soco. Lily franziu a testa, e ia perguntar o que estava acontecendo, quando ouviu a voz de Ellie, demonstrando toda a surpresa estampada em seu rosto, soando baixa.
- Oh. Meu. Deus...
Lily imediatamente virou seu rosto na direção que Ellie estava olhando. James também seguiu o olhar da amiga, e identificou imediatamente a origem de tanta surpresa. E a reação dele foi instantânea.
- Merda. – ele falou, em tom baixo.
Lily finalmente percebeu o que atraía a atenção total dos dois.
Era uma garota. Ela vinha caminhando pelo pátio, e Lily imediatamente percebeu que ela caminhava lentamente, quase desfilando, como quem fazia aquilo só para atrair a atenção de todos para si.
Ela era baixinha, do tipo mignon. Estava usando o uniforme de Hogwarts, mas sua saia certamente estava fora da medida padrão das outras alunas. Era muito mais curta. Ela tinha um sorriso levemente debochado no rosto. Seus cabelos loiros claríssimos vinham balançando suavemente à medida que ela andava. Seus olhos cinza estavam focalizados em um local específico. E Lily percebeu imediatamente quem era o alvo do olhar da garota. Ellie.
Cold
hard bitch
Just a kiss on the lips
And I was on my knees
I'm
waitin' give me
Cold hard bitch
She was shakin' her hips
Well, that was all that I need
Quando ela estava bem próxima, Lily pode notar que a garota parecia se divertir com o espanto que estava causando. E também percebeu que ela era muito bonita.
A loira parou quando chegou até Ellie. O sorriso debochado dela aumentou ainda mais ao ver o queixo caído de Ellie.
- Elladora Dumbledore. Exatamente quem eu queria encontrar.
Ellie continuava estática. O máximo de reação que ela conseguiu produzir saiu num tom fraco de voz.
- Lara...
A loira riu. Aquilo definitivamente era muito divertido para ela.
- Sabia que você ia sentir minha falta! – ela falou, numa voz que misturava deboche com divertimento. Ela olhou brevemente em volta, e falou – Onde está seu bichinho de estimação?
Ellie ainda estava estática demais para entender o que Lara estava falando. Então a loira explicou.
- Sirius.
O nome de Sirius fez Ellie reagir imediatamente. Ela se recompôs, fechou a boca, e sua expressão mudou para contrariada. Mas Lara riu, achando aquela mudança engraçada. Ellie tomou isso como um desaforo, e retrucou.
- O que você está fazendo aqui?
Lara olhou fixamente para Ellie. Sustentou o olhar por alguns segundos, até que finalmente respondeu.
- Eu estou de volta. Hogwarts deve ter ficado um tédio sem mim...
Gonna
check her out
She's my latest attraction
Gonna hang around
Wanna get a reaction
Lily viu Ellie franzindo a testa e seu rosto estampava algo que Lily praticamente não via na garota: medo. Aquilo deixou a ruiva ainda mais receosa. Estava óbvio que aquela garota era encrenca. O que Lily não sabia era o tamanho da encrenca que era Lara Malfoy.
Então, repentinamente, a loira virou sua atenção para Lily. E falou, sem nenhum rodeio ou pudor.
- E o que é isso? – ela falou, indicando Lily com o rosto.
Ellie imediatamente acordou, e fez uma expressão de desagrado. Mas mesmo assim respondeu.
- Lily Evans. Presidente da classe.
Lara olhou Lily lentamente, de cima a baixo. Durante todo o tempo Lily sentiu que a garota estava julgando-a. E, logo depois, ela fez uma expressão de pouco caso, como se Lily não a tivesse impressionado.
Então ela voltou sua atenção para James. Ele tinha ficado em silêncio durante a estranha conversa entre Ellie e Lara. E a reação da loira não poderia ser mais diferente da reação que teve ao avaliar Lily.
Algo como surpresa tomou conta da expressão de Lara. Como se ela não esperasse que James estivesse com a aparência que estava. Um pequeno sorriso de lado chegou aos lábios da loira, e ela disse.
- James Potter. – ela também o olhou de cima a baixo – Esse ano que eu passei fora certamente te fez bem. Muito bem.
Lily imediatamente mudou sua postura. Ela deu um passo na direção de James, que tinha a testa franzida. Mas Lara achou a reação da garota muito engraçada, tanto que falou.
- Ah, que bonitinho! – ela falou, fazendo uma voz falsamente meiga – A coisinha ficou com ciúme!
Desta vez quem reagiu foi James. Ela fechou a cara, e falou.
- Você não tem nada melhor para fazer, Lara?
Mas Lara apenas sorriu, e respondeu.
- No momento, não. Quem sabe depois? – James abriu a boca para dar outra resposta atravessada, mas ela não lhe deu tempo – Eu já vou indo. Mas não se acostumem muito com minha ausência, meus queridos. Eu voltei para ficar desta vez!
Gonna
take her home cause she's over romancin'
Don't wanna hold
hands and talk about her little plans all right!
Cold
hard bitch
Just a kiss on the lips
And I was on my knees
I'm
waiting give me
Cold hard bitch
She was shakin' her hips
Well that was all that I need
I'm waitin' give me
Cold
hard bitch
Just a kiss on the lips
And I was on my knees
Então ela se afastou, mas não sem antes dirigir um olhar divertido para Ellie, e uma piscadinha de olho para James. E simplesmente ignorou Lily.
Os três seguiram o caminhar desfilado de Lara, que entrou lentamente na sala do segundo ano. E, só depois que ela desapareceu de vista, que as reações começaram.
- Lara Malfoy. Lara Malfoy. De volta à Hogwarts! – Ellie repetia, completamente aturdida.
James estampava em seu rosto um misto de contrariedade e preocupação. E ele olhou para Ellie, e falou.
- Calma, Ellie. Fica calma.
Mas Ellie continuava repetindo o nome de Lara, e falando frases soltas em tom baixo. Parecia falar consigo mesma, e não com os amigos. Lily se aproximou de Ellie, sem entender porque aquela garota despertava tantas reações estranhas nos dois. Ela colocou a mão no ombro da amiga, mas ela pareceu nem notar. Então Lily virou-se para James, e perguntou.
- Mas afinal quem é essa garota?
James olhou muito rapidamente na direção da sala de aula, e respondeu a pergunta de Lily.
- Lara Malfoy. Ela é a irmã mais nova de Lucius. E é... pura encrenca.
Lily ainda tinha a testa franzida. E James tentou explicar.
- Ela foi estudar fora, num colégio interno na Escócia, se me lembro bem. Mas antes ela estudava aqui em Hogwarts, na nossa sala. E ela criou uns problemas...
Ellie então levantou o rosto, e falou, com uma expressão indignada.
- Uns problemas, James? Você está sendo mesmo muito generoso!
James fez uma careta, certamente lembrando-se das confusões armadas por Lara. Lily olhava de um para o outro, e então James falou, num tom de confidência.
- Ela agarrou o Sirius.
Ellie teve um surto de raiva, e falou, num tom muito mais alto.
- E até parece que essa foi a pior coisa que ela fez! Você se esqueceu do que ela já aprontou, James? De tudo que ela fez?
James desviou o olhar, e naquele momento Lily passou a temer o conteúdo da conversa dos dois. O que Lara tinha feito de tão ruim que geraria uma reação tão ruim tanto em James quanto em Ellie?
Ela ia abrir a boca para tentar apaziguar a situação quando uma voz a interrompeu. Sirius vinha chegando apressado, e falando em tom elevado.
- Ei! Vocês ouviram o que eu ouvi? Que a...
Lily viu Ellie inspirando profundamente, e sua raiva aumentando. James tentou fazer um sinal para Sirius, mas não rápido o suficiente. Então a garota já despejou sua frustração imediatamente.
- Lara Malfoy está de volta. Quem sabe você não volta a dar uns pegas nela? – ela resmungou, em tom ácido.
Sirius franziu a testa imediatamente. E sua reação foi instantânea, também.
- Mas eu nunca dei uns pegas nela! Aquela louca que me agarrou!
- E você bem gostou! – Ellie retrucou.
- De onde você tirou isso? – Sirius rebateu, levantando o tom de voz.
Ellie deu um passo na direção dele, e falou.
- Ah, então você está dizendo que não gostou? – ela falou, em tom de desafio. Lily percebeu claramente que Ellie estava descontando naquele momento uma frustração bem antiga. E ela prosseguiu, em tom inflamado. – Talvez você tenha gostado tanto quanto quando espalhou para todo mundo sobre a noite que passou comigo!
- Você está ficando doida? – Sirius respondeu, visivelmente alterado – Ou tirou o dia para me fazer acusações infundadas? Já te disse que eu não falei nada!
- E quem mais poderia? – Ellie retrucou, num tom de voz elevado. Ela imediatamente virou as costas, e saiu andando muito nervosa.
Lily fez menção de ir atrás dela, mas James segurou seu braço, impedindo-a. Ela estava completamente admirada. Nunca tinha visto Sirius e Ellie discutindo desta forma, apesar dos dois viverem se estranhando. Não naquele tom. E, certamente, não de forma tão repentina e explosiva.
Sirius fez um som de frustração. Olhou na direção que Ellie caminhava, e falou, demonstrando ainda uma grande irritação.
- Que bicho a mordeu?
James, que também olhava a amiga desaparecendo por um dos corredores de Hogwarts, respondeu.
- Lara Malfoy. Esse foi o bicho que a mordeu.
Sirius voltou sua atenção para James, e ele completou.
- Ela passou aqui a caminho da sala. E é tudo verdade, ela está de volta.
Sirius expirou alto, e falou.
- Mas que merda.
Lily continuava sem entender o que Lara poderia ter feito de tão ruim, então falou.
- Mas o que ela fez? Para isso tudo acontecer?
James olhou para Sirius por um instante. Eles trocaram um olhar estranho, e James falou, num tom desanimado.
- Quanto tempo nós temos antes da primeira aula começar? Por que, pelo que eu lembro que a Lara aprontou, posso ficar aqui falando até amanhã...
-----------------------------------------
Melissa chegou atrasada em Hogwarts. Não que isso particularmente fosse uma novidade, mas naquele dia específico ela realmente queria chagar atrasada. Queria poder chegar na sala de aula, entrar e simplesmente assistir a aula.
Então, quando ela adentrou os portões da escola, ela viu o pátio quase vazio. Sabia que sua primeira aula seria de física, e que a professora McGonagall não costumava ser muito tolerante com atrasos. Então correu até a sala de aula, na esperança da porta ainda estar aberta.
Assim que chegou à sala, Melissa percebeu que a professora já tinha chegado. Inspirou profundamente, e girou a maçaneta. A professora McGonagall imediatamente voltou sua atenção para ela e falou, evidentemente de mau humor.
- Ah. Srta. Kensington. Que bom que decidiu se juntar a nós.
Melissa procurou não se incomodar com o comentário irônico da professora. Ela tinha certeza que o mau humor dela era por causa da viagem para a França, e as confusões que alguns dos alunos aprontaram. Melissa prendeu um sorriso. Se a professora ficasse sabendo do que eles tinham aprontado na noite de réveillon, com as várias mudanças de quartos na hora de dormir...
Ela foi caminhando direto até o lugar que costumava ocupar. Olhou discretamente para seus amigos, e viu algo realmente surpreendente.
Cada um deles olhava para um lugar, e cada um deles expressava algum tipo de emoção diferente.
Lily e Ellie estavam sentadas juntas, como de costume. Mas a ruiva estava de cabeça baixa, escrevendo algo no caderno. Mas a professora ainda não estava dando aula. Então, ela não parecia ter algum motivo para estar fazendo aquilo. Muito estranho.
Ellie, ao lado de Lily, não dava bola para o que a amiga escrevia. Ela não tirava os olhos do outro lado da sala. Curiosamente, na direção onde sentava Narcisa Black. Melissa também reparou que, ao lado da prima de Sirius, uma aluna nova, com cabelos loiros bem claros, estava sentada, sorridente.
Atrás das duas, James e Sirius pareciam estranhos também. Eles não estavam rindo ou fazendo alguma piada, como de costume. Sirius parecia de muito mau humor. E James expressava clara preocupação com alguma coisa que Melissa não sabia. E, curiosamente, eles olhavam de tempos em tempos na mesma direção que Ellie olhava.
Marlene sentava perto do lugar que Melissa costumava ocupar. E ela tinha o olhar perdido, olhando através do quadro negro. Seu desânimo era quase palpável. Melissa franziu a testa. Isso não era um bom sinal.
Então finalmente ela olhou para a pessoa que mais queria ver, e ao mesmo tempo a que tentava evitar encarar. Remus.
Ele estava sentado ao lado de James. E ele era o único que olhava na direção da porta. Na verdade, naquele instante ele estava olhando na direção dela mesma.
Melissa quis desviar o olhar, mas ele fez um sinal para ela. E retirou sua mochila do lugar logo a frente dele, na fileira que Lily e Ellie ocupavam. Ele tinha guardado um lugar para ela.
Uma imagem muito rápida de Remus beijando o seu pescoço na noite de réveillon passou por sua mente. A garota fez uma pequena pausa em sua caminhada, ajeitou a mochila nas costas. E criou coragem para seguir seu caminho.
Ela sentou na cadeira que Remus guardou para ela. Inspirou fundo, e ficou quieta, tentando prestar atenção no que a professora dizia.
Mas sua atenção durou muito pouco. Alguns instantes depois dela alcançar seu caderno, ela sentiu um toque muito suave em seu ombro. Olhou automaticamente para trás, e viu que Remus estava lhe passando um bilhete.
Ela pegou o papel, desdobrou e leu.
Bom dia, Melissa. Como você está?
Melissa engoliu seco. Inspirou profundamente. Ficou com a lapiseira na mão por algum tempo, tentando arranjar algo que pudesse responder aquela pergunta. Como não conseguiria, e certamente nem queria, revelar como estava se sentindo, respondeu simplesmente.
Estou bem.
Remus novamente escreveu algo no papel, e passou para a garota.
Quer dar uma volta depois da escola?
Melissa não sabia o que responder. As lembranças inebriantes da noite que eles passaram juntos não paravam de se repetir em sua cabeça. Mas ela queria ser racional. Queria manter as coisas sob controle. E sair correndo para os braços dele só pioraria tudo.
Não posso. Tenho algumas coisas para fazer.
Melissa devolveu o papel, e quase se arrependeu. Não queria ter mentido para Remus. Mas o que ela não podia deixar o rapaz saber era que ela estava por um fio. Se ela cedesse, e aceitasse sair com ele novamente, não seria capaz de conter a avalanche de sentimentos que tomava conta dela todas as vezes que eles se beijavam. Ela tinha que tentar conter um pouco esse avanço. Ela tinha concordado em ficar com ele, mas tinha que ser algo mais contido. Se ela se entregasse totalmente a essa situação, não teria mais volta. E ela temia muito o resultado dessa possibilidade.
Mas Melissa, incapaz de agüentar, acabou cedendo um pouco, e virando rapidamente para trás. E ela viu Remus de relance. Ele encarava o papel com a resposta dela. E ele parecia bastante chateado.
Melissa sentiu-se péssima. Uma enorme vontade de virar completamente para trás, e beijar os lábios de Remus tomou conta completamente da garota. Ela só se conteve porque eles estavam numa sala de aula, e isso significaria uma detenção na certa. Tentando sufocar esse sentimento, ela olhou para seu caderno em branco. Todos os outros alunos já faziam anotações da matéria que o professor passava. Menos ela mesma.
Ela não conseguia tirar a expressão de Remus da cabeça. Por um instante ela apenas fechou os olhos, e falou tão baixo que ninguém seria capaz de ouvi-la.
- Por Deus, eu tenho que parar com isso.
---------------------------------------
A hora do intervalo logo chegou. Rapidamente, a sala do segundo ano começou a esvaziar. Com a exceção de alguns alunos em especial.
Nenhum deles parecia saber exatamente o que fazer. Ellie apanhou seu celular, e ficou apertando as teclas freneticamente. Começou a enviar mensagens. Mas Lily olhou bem para a amiga, e viu que ela estava fazendo aquilo somente para não precisar levantar o rosto, e dar de cara com Sirius. Ou, o pior, com Lara.
Lily viu a loira saindo da sala, acompanhada por uma Narcisa Black aparentando grande desagrado. Lily achou aquilo muito estranho. Ia perguntar para Ellie sobre a loira, mas viu a amiga levantando apressada, e atendendo uma ligação. Ela saiu de sala, como se não quisesse que nenhum dos amigos ouvisse o que ela falava. Ainda mais estranho.
Então a ruiva não teve outra alternativa. Virou para trás, e deu de cara com James e Sirius. Os dois estavam conversando entre si, e a conversa parecia bem séria. Ela olhou para o namorado, e falou.
- Por que a Narcisa está com esta cara? E será que alguém pode me explicar o que essa Lara pode ter feito de tão ruim que todo mundo está com cara de enterro?
Melissa, que ouviu a frase de Lily, e estava tentando sair de fininho sem ninguém perceber, voltou sua atenção para a ruiva. Remus também ficou curioso, então todos sentaram perto de James, que começou a falar.
- Ah, é meio difícil explicar...
- Pelo que eu me lembro, a Lara era meio... doida. – falou Remus – Mas eu não a conhecia bem. Pelo menos não como vocês.
Sirius fez um som de desagrado, e falou.
- Se dependesse de mim eu nem conheceria.
Lily voltou a olhar para James, e ele começou a explicação.
- A Lara não é como os outros Malfoys. Ela é... diferente deles.
- Diferente como? – perguntou Melissa. Ela não tinha idéia de quem era Lara Malfoy, mas percebeu que a presença dela ali devia ser algo importante o suficiente para modificar a dinâmica de relacionamento de seus amigos.
- Bem... – James visivelmente parecia se esforçar para explicar. Era como se definir Lara em palavras fosse algo muito difícil – Ela, por exemplo, não é preconceituosa como os outros.
Lily franziu a testa, e Sirius completou.
- Com certeza a última coisa que Lara Malfoy pode ser é preconceituosa... – ele falou, num tom de pouco caso.
- Como assim? – questionou Lily.
- Ela... não tem essa mania de só andar com nobres. Ela é mais... bem ela não é esnobe, pelo menos não desta maneira.
Sirius franziu a testa, e falou.
- Qual é a tua, James? Está jogando no time dela agora? Fala a verdade, a garota é psico!
- Eu já ouvi coisas dela que nem imaginava serem possíveis. – Remus falou, fazendo uma careta.
- E qual é o problema dela com a Ellie?
James inspirou profundamente, e falou.
- Elas eram meio que... amigas. E acabou levando a Ellie... bem, ela colocou a Ellie em tantos problemas que ela não agüentou, e rompeu a amizade.
- Amigas? – Lily estranhou. – Mas ela não é irmã do Lucius Malfoy?
- Até parece que o Lucius tem alguma autoridade com a Lara. Ninguém consegue deter aquela mulher. Ela faz o que quer, simplesmente. – respondeu Sirius.
Lily ficou calada por um instante, tentando visualizar a cena: Ellie e Lara sendo amigas. Parecia muito estranho. Ellie aparentava ter horror a garota Malfoy. Mas o que James e Sirius falavam parecia fazer um pouco de sentido. Pelo tom que Lara usou com Ellie, mesmo sendo de enorme sarcasmo, parecia bastante íntimo. Demonstrava que as duas tiveram alguma convivência.
James olhou para Lily, e falou, num tom levemente sombrio.
- O problema é a Lara ter voltado. Pela cara dela, está pronta para aprontar alguma. Pode ter certeza.
----------------------------------------------
A aula chegou ao fim sem maiores acontecimentos. Lara Malfoy ficou apenas desfilando pela escola, cumprimentando conhecidos, fazendo comentários sarcásticos para os que davam a oportunidade. Mas como Hogwarts era movida mesmo a uma boa fofoca, a volta da loira dominava quase todas as conversas. Cada um dava uma versão diferente para o retorno dela, e eles iam ficando cada vez mais absurdos com o passar do tempo. Lily jurou ter ouvido de alguém que a garota estava fugindo da máfia por ter uma enorme dívida de jogo...
- Sério, tem dias que eu simplesmente odeio Hogwarts... – Ellie resmungou, saindo da sala de aula, após o término das aulas regulares do dia.
Lily a acompanhou. Ela tinha que passar na monitoria, e verificar se seu horário de aulas permanecia o mesmo. Ela virou para a amiga, e pensou que seria uma boa idéia convidá-la para ir ao centro de monitoria. Pelo menos lá ela não iria ficar ouvindo conversas sobre Lara Malfoy o tempo todo.
- Ellie, quer ir comigo ver meus horários de monitoria?
- Não vai dar. – respondeu Ellie – Tenho reunião com o pessoal de teatro da escola. Aparentemente temos um novo diretor teatral, e ele quer fazer uma montagem nova. Para a festa do dia dos namorados.
Lily sorriu, e falou.
- Que legal. Espero que você goste.
Ellie sorriu de volta, e falou.
- Eu vou encontrar a Alice lá mesmo, então já vou avisar para você também. Temos que combinar um horário para o treino da torcida. Estamos super atrasadas, daqui a pouco tem jogo e precisamos de uma coreografia nova.
Lily suspirou. A torcida não era a atividade preferida dela. Então falou.
- Ellie, a Charlotte já não tirou o gesso? Ela podia então voltar para a posição dela na torcida.
Ellie franziu a testa, e falou.
- Eu não te falei não? A Charlotte desistiu da torcida.
- Desistiu? – Lily perguntou, com os olhos arregalados.
- É. – respondeu Ellie, rindo – Ela ficou de molho tanto tempo, sem poder dançar, que acabou descobrindo um novo talento. Ela entrou para o clube de xadrez de Hogwarts. E aparentemente ela é muito boa nisso!
Lily ficou quieta, pensando sobre o que Ellie tinha acabado de dizer. Isso significava que ela ainda tinha a vaga dela na equipe. E logo ouviu a amiga falando.
- Agora a vaga é oficialmente sua. – Ellie viu a expressão levemente desanimada de Lily, e continuou – Mas lembra que tem sempre uma vantagem: quando tem jogo com outras escolas, nós vamos junto com o time. E isso significa, para você, uma viagem com seu namorado...
Imediatamente Lily se lembrou da viagem para Paris. Ainda não estava preparada para conversar sobre o assunto, e já podia ver Ellie pronta para iniciar o assunto. Então, antes que ela pudesse falar qualquer coisa, Lily falou.
- Eu tenho que ir, Ellie. Depois nos encontramos.
Ellie saiu apressada, em direção ao anfiteatro da escola. E Lily foi caminhando até o centro de monitoria.
Assim que entrou pela porta principal, e começou a percorrer os corredores do local, Lily viu que realmente os alunos ainda estavam em clima de volta às aulas. O corredor principal estava vazio, e nenhuma movimentação era aparente nas salas de tutoria.
Lily foi até um dos quadros de aviso, esperando encontrar a planilha com a escala dos tutores, mas nada encontrou. Imaginou se receberia algo por email, ou seria avisada por algum professor. Então ela se lembrou de vários de seus alunos, que realmente precisavam de ajuda no estudo. E então decidiu buscar a informação logo.
A melhor e mais óbvia solução se encontrava no final do corredor. Dentro de uma porta com uma plaquinha na frente: Kyle Wilshire.
Lily foi até a sala do chefe dos monitores. Chegando lá, bateu de leve. E ouviu a voz do Kyle soando lá de dentro.
- Entra.
Lily obedeceu, e entrou na sala. Kyle levantou os olhos da folha que lia, repousando em cima de sua mesa. E imediatamente levantou da cadeira ao ver Lily, com uma expressão surpresa no rosto.
- Lily! – ele falou, com os olhos ligeiramente arregalados.
Lily ficou um pouco constrangida com a reação dele, e achou que o estava incomodando. Sentiu seu rosto corar, e falou.
- Ah... desculpe, Kyle. Eu... volto depois.
Mas Kyle imediatamente se adiantou, dando alguns passos na direção dela, e falando rapidamente.
- Não! Eu não estou ocupado. Pode falar. Como posso te ajudar?
Lily, apesar de conhecer Kyle há algum tempinho, nunca deixava de ficar surpreendida com a enorme gentileza que ele sempre demonstrava. Ela olhou para o rapaz, belo, alto e loiro, e falou.
- É que eu... queria saber como vai ficar minha escala de tutoria.
Kyle sorriu por um instante. Lily olhou para ele, e sentiu como se nunca tivesse realmente reparado como ele era bonito. E ficava ainda mais bonito quando sorria. Logo ela abandonou esse pensamento, e esperou a resposta dele.
- Ah, claro. – ele falou, simpático – Eu já ia procurar os monitores mesmo. Sua escala está aqui. Acredito que não está muito diferente do semestre passado.
Ele exatamente a folha que estava observando quando Lily entrou na sala, e estendeu para a garota. Lily a observou, conferindo os nomes de seus alunos, e os horários das aulas. E Kyle voltou a falar.
- Se você precisar de alguma modificação é só me avisar. Eu tentei organizar mais ou menos da mesma forma que estava antes, mas alguns horários foram mudados. Mas eu posso tentar conversar com os alunos, se você quiser... Ou se precisar trocar algum horário... ou quiser desistir de algum aluno, eu posso ver se consigo...
Mas Lily levantou os olhos, e o interrompeu, com um sorriso no rosto.
- Kyle, você é realmente tão atencioso... Não precisa trocar nada. Você já resolveu tudo da melhor maneira possível. Seu trabalho com chefe dos monitores é mesmo ótimo.
Kyle sorriu de forma acanhada, e corou muito de leve. E completou imediatamente, com uma voz suave e agradável.
- Se todos os monitores fossem responsáveis como você, eu não teria trabalho algum.
Lily sentiu seu rosto esquentando de uma forma inesperada. Ela desviou o olhar, constrangida. Não conseguiu entender porque, mas o olhar doce de Kyle a fez sentir uma espécie de nervosismo estranho.
Kyle percebeu a reação dela, e pareceu sentir um misto de receio e, ao mesmo tempo, contentamento. E ele prosseguiu a conversa.
- Bem, eu acho que você é a melhor monitora que temos. Seus alunos fizeram uma ótima avaliação de seu trabalho.
Lily apenas acenou com a cabeça, e falou, de forma ligeiramente tímida.
- Obrigada.
- Não tem porque agradecer. É a verdade. – ele completou.
Lily novamente se sentiu estranha. Algo nela dizia que era melhor ir embora logo daquela sala. Então ela inspirou, e falou.
- Bem... eu já vou então.
Kyle imediatamente adiantou-se, e foi com ela até a porta. Ele gentilmente a abriu, e a garota passou. Mas ele ainda falou, num tom simples, mas muito sincero.
- Pode me procurar quando quiser, Lily. Como chefe dos monitores, ou então como... amigo.
Lily demorou um segundo para responder.
- Ah... obrigada, Kyle.
Ele apenas sorriu para ela, e acenou com a cabeça.
Lily virou, e seguiu caminhando pelo corredor. Mas teve a nítida sensação que Kyle a acompanhou com os olhos durante todo seu percurso.
---------------------------------------------
Melissa estava nervosa. Ela olhava constantemente para o relógio, para ter certeza que estava no horário. Mas a consulta constante só a fazia perceber uma coisa. Ela, na verdade, estava adiantada. A reunião tinha sido marcada para dali 15 minutos. Mas ela estava tão ansiosa que não conseguia ver os minutos passando. Parecia que os ponteiros do relógio estavam voltando, e não avançando.
Aquela era a primeira vez, em toda sua vida, que ela estava fazendo algo pensando no futuro. Num futuro com possibilidades, e não num futuro destrutivo. E isso que estava deixando a garota tão ansiosa.
Por algumas vezes ela pensou em sair daquela sala, e fugir da reunião. Mas conteve o pensamento autodestrutivo, e manteve-se firme. Aquela era uma boa oportunidade. E ela não podia fugir daquilo.
Lentamente os minutos foram passando. E algumas pessoas foram aparecendo. Alguns olhavam para ela com uma expressão estranha. Mas a maioria já a conhecia das aulas extras de literatura inglesa, e não pareciam nem um pouco surpresos. Apesar de não se dar conta disso, Melissa realmente era a aluna mais brilhante da matéria extracurricular.
Quando todos já estavam reunidos, o professor Flitwick, que dava aulas de inglês, apareceu na pequena sala. Ele sorriu ao constatar a presença de tantos interessados, e começou a falar.
- Bem, acho que todos os interessados ficaram sabendo da novidade. – ele fez uma pequena pausa, e prosseguiu – O diretor Dumbledore resolveu que já era tempo de reativarmos o nosso tradicional jornal da escola.
Alguns alunos sorriram para os colegas, cheios de expectativa. E o professor prosseguiu.
- Eu estou muito animado com a idéia. Acho que temos aqui um bom grupo de alunos, e vários de vocês já mostraram ter muita aptidão para o jornalismo, ou para a literatura. Então é tarefa da escola nutrir essa aptidão, e ajudá-la a florescer como campos de lavanda no verão.
Melissa conteve o revirar dos olhos. O professor Flitwick adorava discursos cheios de firula. Mas ela manteve sua postura séria, e engoliu o sarcasmo. Aquilo era importante para ela.
- Mas eu devo, antes de mais nada... – o professor ia falando, mas foi interrompido pela porta da sala sendo aberta.
Melissa virou para ver quem era a pessoa que chegara atrasada à reunião. Logo percebeu que não era apenas uma pessoa, mas sim duas. E ela mal conseguiu conter sua surpresa ao ver quem eram os dois atrasados.
Remus entrou na sala com um ar apressado. Ele carregava alguns livros nos braços, e Melissa logo identificou alguns volumes a respeito de escrita jornalística, e gramática. Ele a viu assim que entrou na sala, e também pareceu estar surpreso com a presença dela ali.
Já a segunda pessoa entrou sem pressa alguma na sala. O andar levemente desfilado da garota de cabelos loiros muito claros, e seu sorriso debochado eram inconfundíveis. Era Lara Malfoy.
O professor Flitwick demonstrou um pouco de impaciência, mas prosseguiu seu discurso.
- Como vários de vocês devem recordar-se, o jornal esteve fechado nestes últimos tempos por conta do comportamento inaceitável de seus integrantes. Sei que nunca é demais adverti-los, então... Qualquer tipo de desavença que se encaminhe à baderna, ou situação que vá contra as normas da escola, ou então qualquer outro problema sério que vocês causem serão punidos severamente. E podem causar um novo fechamento do jornal, sem falar de detenção e suspensões. Então tratem esse trabalho com seriedade e profissionalismo. Temos um nome a zelar. O Hogwarts Times sempre foi sinônimo de tradição e imparcialidade. Vamos mantê-lo assim.
Os alunos ficaram em silêncio por alguns instantes, mas logo começaram a concordar em tom baixo com o professor. Melissa achou que vários deles presenciaram, ou ficaram sabendo do problema que causou o fechamento do jornal, antes dela ir estudar em Hogwarts.
- Ótimo. – exclamou o professor, percebendo que tinha assustado o suficiente seus alunos – Então vamos à parte prática. Apresentem-se uns aos outros, e expliquem suas expectativas a respeito do jornal.
Melissa inspirou profundamente. Detestava falar em público. Sempre se sentia embaraçada, e achava que suas palavras soavam estranhas e mal colocadas. Preferia escrever. Era bem mais simples, e suas idéias saíam mais bem estruturadas.
Um a um, os alunos foram se apresentando. Dois rapazes eram do último ano, e se interessavam por esportes e tecnologia, respectivamente. Uma garota de cabelos cor de mel cacheados, um pouco gordinha e sorridente logo levantou a mão. Ela também era do último ano. O professor Flitwick inspirou profundamente, visivelmente desanimado. Mas cedeu a palavra à garota, que falou.
- Oi, meu nome é Bertha Jorkins. Eu tenho interesse em cobrir a parte, digamos... social da escola.
Melissa imediatamente falou, sem conter seu impulso.
- Como assim social?
Todos voltaram sua atenção para Melissa, que rapidamente arrependeu-se da pergunta. Agora era o alvo dos olhares de todos naquela sala. Mas Bertha a olhou, aparentando muito interesse, e falou.
- Melissa Kensington, não é? Você chegou há pouco tempo em Hogwarts, e já se infiltrou no grupinho mais badalado da escola. Como foi que conseguiu isso? – os olhos de Bertha brilhavam, ávidos de curiosidade.
Melissa levantou uma das sobrancelhas, e rebateu de imediato.
- E eu te devo alguma satisfação a respeito da minha vida?
A reação foi instantânea. Enquanto Bertha pareceu contrariada por um segundo, os outros alunos presentes na reunião olharam para Melissa com evidente admiração. Remus colocou a mão sobre a boca discretamente, tentando disfarçar seu sorriso. Lara encarou Melissa, e sua expressão demonstrava agora um interesse pela garota, algo que antes não existia. Ela parecia ligeiramente intrigada com a morena.
Mas Bertha logo se recuperou, e disparou novamente. Parecia que sua curiosidade superava qualquer rejeição.
- Ah, não precisa ficar assim. Somos todos amigos aqui, não é? – ela falou, tentando dobrar a determinação de Melissa – Você pode se abrir com a gente.
- Na verdade, eu achei que estávamos aqui para montar um jornal. Não uma coluna de fofocas. – Melissa respondeu, séria.
Desta vez até o professor Flitwick pareceu impressionado com Melissa. E, com essa resposta, Bertha resolveu se calar. Mas deu indícios que não desistiria tão facilmente de suas dúvidas.
- Muito bem. – o professor decretou. – Vamos prosseguir com as apresentações. E depois vamos tentar definir os cargos que cada um deve ocupar no jornal. Seria bom se conseguíssemos montar a primeira edição, com uma apresentação do conteúdo do jornal, e os nossos objetivos, ainda esta semana.
Rapidamente, a reunião retomou seu ritmo. O restante dos alunos prosseguiu com as apresentações, e logo eles já estavam discutindo uma pauta para a primeira edição. Isso fez Melissa se acalmar um pouco. Mas não totalmente; a presença de Remus Lupin, no mesmo cômodo que ela, ainda a fazia perder a linha de raciocínio.
Principalmente com os olhares de esguelha que ele lhe lançava, de tempos em tempos.
-------------------------------------
O primeiro dia de volta às aulas terminou bem tarde para a maioria dos alunos. Lily esperou Ellie para as duas irem embora juntas. Ellie contava sobre sua reunião do grupo de teatro. Segundo a amiga, o novo diretor teatral da escola era "um louco, mas genial". Ele ainda estava planejando a nova montagem da escola, mas ela tinha certeza que seria algo pelo menos criativo. Elas não encontraram nenhum dos rapazes, já que Sirius e James já tinham ido embora. Eles tinham tido treino de basquete, mas não demoraram muito porque o treinador não queria exigir demais dos atletas, já que eles vinham de um longo período de folga. Já Remus e Melissa estavam presos na interminável reunião do jornal de Hogwarts, e provavelmente não sairiam de lá tão cedo.
As duas estavam quase passando pelo portão da escola quando viram uma pessoa parada logo à frente, mexendo em sua mochila. Era Marlene.
- Oi Lene. – cumprimentou Ellie.
A loira virou-se para as duas e respondeu. Sua voz soava um pouco desanimada.
- Oi meninas.
Lily franziu a testa. Marlene parecia muito cansada, sem ânimo. E ela logo falou.
- O que você ainda está fazendo aqui em Hogwarts, Lene? Achei que seu último aluno de monitoria tinha sido há mais de uma hora atrás.
Marlene finalmente conseguiu guardar sua escala de monitoria de filosofia, e jogou a mochila nas costas, respondendo a amiga.
- Ah, é que depois eu fui à reunião da equipe de debates. Vamos ter uma competição com outras escolas, então vamos começar a preparação logo.
- Precisam de torcida? – falou Ellie, em tom de brincadeira. – Podemos fazer uma coreografia especial para vocês...
Mas Marlene não riu da brincadeira da amiga. Ela apenas acenou com a cabeça, com um sorriso quase forçado nos lábios. E respondeu.
- Acho que vocês iriam distrair os competidores, dançando de sainhas curtas.
Tanto Lily quanto Ellie notaram o estado de Marlene. E a ruiva falou, num tom acolhedor.
- Lene... está tudo bem com você?
Marlene suspirou. Nem sabia por onde começar. Tantas coisas tinham acontecido ultimamente... A decepção do réveillon com Regulus. A hostilidade que sofreu no intervalo, já que Bellatrix a cercou, e lhe atirou palavras e xingamentos nem um pouco agradáveis. Fora que Regulus tinha desaparecido, e parecia estar evitando-a.
- Eu... acho que estou um pouco cansada. – ela respondeu. Sabia que se começasse a falar, provavelmente não conseguiria parar tão cedo. Então resolveu poupar as amigas da chateação, e não falou a verdade.
- Tem certeza? – questionou Ellie.
Marlene balançou a cabeça, concordando.
- Tenho sim. Obrigada de qualquer forma, garotas. – As três ficaram em silêncio por um instante. Lily e Ellie esperando para ver se Marlene não falaria alguma outra coisa. E Marlene, por não saber o que falar. Então ela tentou sorrir de forma mais convincente, e falou. – Bem, eu já vou indo. O Mike vem me buscar, já deve ter chegado.
Mas Lily e Ellie fizeram questão de acompanhar a amiga até a porta da escola. Mike realmente estava lá, com seu reluzente BMW azul marinho, e um sorriso ainda mais brilhante no rosto. Ele deu um beijo no rosto da irmã, bagunçando os cabelos dela, e logo voltou sua atenção na direção das amigas da irmã.
- Oi Ellie! – ele falou, enquanto a pegava pela cintura, suspendendo-a para um abraço apertado.
- Mike, eu estou de saia! – reclamou a garota, que sentiu que o movimento do rapaz fez sua saia levantar um pouco.
Mas o rapaz a colocou no chão novamente, e falou, rindo.
- Aposto que eu fiz a felicidade de algum desses garotos... – ele indicou com a cabeça alguns alunos que passavam por eles, deixando a escola.
Ellie apenas revirou os olhos, e ele foi até Lily, e a cumprimentou de maneira bem mais comportada, já que a conhecia há pouco tempo. Dois beijos no rosto, e um belo sorriso.
- Como foi a viagem, garotas? Curtiram muito em Paris?
Lily viu um filme muito acelerado em sua cabeça, com partes das memórias da viagem para Paris. Ela desviou o olhar, e ficou muito agradecida por Ellie ter respondido imediatamente.
- Ah, Paris continua tão linda como sempre... Mas eu diria que a viagem teve seus altos e baixos...
Mike sorriu de lado, e falou.
- E eu tenho a impressão que isso é tudo que você vai dizer a respeito da viagem.
Ellie concordou com a cabeça, e falou.
- Sim. Você está certo.
Mike olhou para Ellie, e depois para Lily. As duas continuaram caladas. Então o rapaz apenas riu, e falou.
- Acho que essa é minha deixa, então. Vamos indo, Lene. – Marlene entrou no carro do irmão imediatamente, parecendo aliviada pelo assunto não ter progredido. E Mike apenas sorriu para as duas amigas, e falou. – Vejo vocês outro dia, garotas. Até mais!
As duas acenaram para os irmãos, que desapareceram velozmente pela rua. Lily olhou para Ellie, e falou.
- A resposta da Lene te convenceu?
Ellie a olhou com simplicidade, e respondeu.
- Não. Nem um pouco.
- A mim também não. Acho que alguma coisa aconteceu. E ela não quer contar.
-------------------------------------------
Dois dias se passaram. Nenhum acontecimento marcante aconteceu, pelo menos nada que fosse muito importante. Lily continuava atarefada com suas monitorias, James treinava todos os dias com o time de basquete, junto com Sirius. Ellie se desdobrava em suas muitas tarefas extras, e tinha recomeçado o treino da torcida, do qual Lily foi obrigada a participar. A ruiva ainda tentou escapar uma ou outra vez, mas por fim desistiu, e tentou pelo menos se divertir durante o ensaio das coreografias. Porque durante os jogos ela sabia que iria invariavelmente ficar envergonhada.
Mas quem estava tento o início de semestre mais bizarro de sua vida era Melissa. Ela ainda não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Parecia um sonho estranho, que pertencia à outra pessoa, não a ela.
Tudo por causa da reunião da noite anterior, no jornal da escola. Por votação, o editor chefe do jornal foi escolhido. E, para sua total surpresa, ela tinha sido escolhida. Pela grande maioria dos votos.
Remus logicamente a cumprimentou, todo alegre, quando a votação terminou. E ela só conseguia ficar estática. E, no dia seguinte, quando chegou à escola, ainda se encontrava neste estado.
- Oi Melissa! Ou devo dizer, grande editora chefe do Hogwarts Times? – uma voz feminina a fez despertar para a realidade.
Ellie exibia seu belo sorriso, parecendo satisfeita. Melissa lembrou-se da expressão de Remus quando foi parabenizá-la.
- Como você ficou sabendo? – Melissa quis saber.
Ellie se adiantou para caminhar ao lado da amiga, e respondeu.
- O Remus me ligou ontem à noite, e contou. Ele estava tão orgulhoso... – ela arrematou a frase com um sorriso cúmplice.
Mas Melissa olhou para o lado. Não conseguiu evitar o pensamento que lhe ocorreu. Porque Remus tinha ligado para Ellie? Ela se perguntou se aquilo era algo comum, se eles se falavam com freqüência, fora da escola. Tentando sufocar um sentimento de ciúme que aflorava, ela tentou desviar um pouco o foco.
- Não tenho idéia do motivo que alguém possa ter para votar em mim. – ela falou, e estava sendo sincera.
Mas Ellie riu, e falou.
- Ah, o Remus me disse que o fato de você ter dado um passa-fora na Bertha Jorkins deixou todo mundo impressionado. Eu achei ótimo, a Jorkins é uma fuxiquenta... adora uma fofoca.
Novamente incomodada de ouvir o nome de Remus da boca de Ellie, Melissa mudou de assunto.
- E a Malfoy?
O sorriso morreu no rosto de Ellie. E ela falou.
- O que tem ela?
- O que você acha dela? Ela entrou no jornal, mas até agora só fica observando, quase não dá opinião alguma. De vez em quando fala algo, mas a maior parte do tempo fica calada. Ou sorri de forma muito esquisita, de tempos em tempos.
Ellie inspirou profundamente. E falou, num tom desanimado.
- Ela não costuma ser assim. Geralmente adora dar ordens.
Melissa detectou imediatamente a falta de disposição de Ellie em falar sobre Lara. Agora as duas amigas caminhavam em silêncio. Cada uma evitando um assunto.
Melissa evitava falar sobre Remus. Já que pensar era inevitável.
E Ellie, por outro lado, não queria nem falar, nem pensar em Lara Malfoy.
--------------------------------------------
As aulas passaram num ritmo arrastado. Parecia que os professores estavam tentando recuperar o tempo perdido durante a pausa para Natal e ano novo, e aumentaram a carga de matérias para os alunos. Como se eles precisassem de mais atividades que já tinham.
Mas, mesmo assim, Lily e Ellie conversaram, e resolveram chamar Melissa e Alice para uma conversa com Marlene. As duas tinham ficado preocupadas com a amiga, e resolveram convocar o quinteto inteiro, para arrancar da loira o motivo de seu visível desânimo. Como ela tinha se recusado a falar sobre o assunto durante os dias que se seguiam, elas planejaram uma pequena "intervenção".
Então, depois da aula, as cinco foram para a casa de Ellie sob o pretexto de passarem um tempo juntas sem os namorados (no caso de Lily e Alice), só as garotas. E Marlene, após algum convencimento, aceitou.
As garotas estavam todas reunidas no quarto de Ellie. Mary já tinha servido uma bela rodada de deliciosos milk-shakes caseiros feitos por ela própria, e agora elas estavam apenas conversando, amontoadas na cama da amiga.
- Lily, eu já falei. A McGonagall não vai passar um exercício avaliativo amanhã. Deixa de ser estressada! – Alice resmungou.
Mas a ruiva estava com o laptop de Ellie no colo, e buscava avidamente no site da escola algum indício de avaliação surpresa da rígida professora de física.
- Eu não sei, não, Alice. – ela respondeu – Na última aula, ela falou que, se a turma não parasse de conversar, ela iria aplicar um exercício valendo nota. Para saber se estamos acompanhando a matéria.
Mas Ellie riu da amiga, e falou.
- Lily, você é a única aluna daquela sala que pode ficar tranqüila se a McGonagall passar um exercício. Provavelmente só você vai conseguir responder todas as questões mesmo...
- Fora que a McGonagall sempre ameaça nossa turma. Sempre foi assim, e ela nunca aplica uma avaliação sem avisar antes. – completou Alice.
Só que essa resposta apenas fez Lily ficar mais apavorada. Ela arregalou os olhos, e falou.
- Mas ela avisou! Ela falou aquilo na última aula!
Melissa revirou os olhos, e tomou o laptop da mão de Lily, falando.
- Você vai surtar daqui a pouco se continuar nessa. – então, ela colocou o laptop no próprio colo, e falou, num tom levemente animado – Ei, querem ver algo legal?
As quatro logo se aproximaram, curiosas. Marlene, que estava quieta durante quase todo o tempo, pareceu ter acordado de um devaneio, e esticou os olhos para ver o que Melissa digitava no computador.
Logo a garota terminou sua busca, e falou.
- Fizemos uma versão online do jornal de Hogwarts. Vamos usar o site para colocar notícias mais curtas, e mais simples que na edição impressa. O Samuel, do último ano, é fera em programação, e fez o site. Hoje à tarde nós nos reunimos e vimos a versão que entrou no ar. Todos os alunos receberam por email o link, e já devem estar acessando. Querem ver?
As garotas se reuniram em volta de Melissa, para poderem ver a tela do computador. Logo a página carregou, e elas começaram a ver o conteúdo.
O nome do jornal, The Hogwarts Times, estava estampado na parte superior do site, seguido do brasão da escola. Melissa foi descendo a barra de rolagem, e elas puderam visualizar melhor a página.
Um grito sucedeu imediatamente o clique de Melissa.
- Ei!!! Essa é a minha bunda!
Ellie tinha um dedo esticado, mostrando uma enorme foto estampada no site. Uma foto dela, com os braços em volta de um belo rapaz de cabelos loiros, que segurava sua cintura, dominava boa parte do início da página principal do jornal online da escola. A saia da garota tinha subido com o abraço, e o momento do clique da foto registrou um pedaço da calcinha preta da garota, por baixo do uniforme da escola. E, acima da foto, uma legenda dizia em letras bem visíveis: "Everybody wants to be like Mike!".
- Que merda é essa? – Ellie falou, exasperada.
Melissa estava estática. Ela não podia acreditar no que via. Onde estavam as notícias da escola? Os avisos, as notícias sobre esportes, palestras que estavam programadas, uma pequena entrevista com o Diretor Dumbledore? Tudo tinha sumido. Agora ela olhava as outras notícias que ocupavam a página, e foi ficando cada vez mais pasma.
Ao lado da foto de Ellie estava uma foto de Lara Malfoy, com uma expressão sarcástica, e com os dizeres: "Lara Malfoy volta para detonar em Hogwarts! Clique aqui para relembrar momentos memoráveis da loira na escola".
Um pouco mais abaixo letras vermelhas avisavam: "Novos romances. Saiba quem está pegando quem em Hogwarts!"
Do outro lado da página, uma foto de Remus, com o olho roxo da briga com Dan, tinha uma legenda: "Remus Lupin: de nerd à bad boy!". E, para o total desespero de Melissa, uma foto dela estava estampada ao lado da de Remus, com uma pergunta: "Será a misteriosa nova aluna Melissa Kensington a responsável por essa mudança?"
As garotas estavam todas de bocas abertas. Ninguém era capaz de palavras alguma. E elas continuaram lendo.
Lily soltou uma exclamação de incredulidade ao ver sua foto abraçada a James, e com os dizeres: "Descubra como a garota do interior Lily Evans chegou ao topo em Hogwarts, e conquistou o delicioso James Potter!"
Ellie levou a mão à boca ao se ver numa foto, vestida com o uniforme da torcida, no colo de Sirius. Ele usava o uniforme do time de basquete da Grifinória, e eles estavam partilhando o primeiro beijo em público, depois do jogo contra a Lufa-Lufa. E a legenda da foto era: "Tudo sobre o rompimento do casal-estrela de Hogwarts. E também sobre a recaída deles em Paris. Clique aqui para ler a história completa!"
Ellie esticou a mão para clicar e ler o que o site dizia sobre ela e Sirius. Mas foi impedida por Marlene, que falou.
- Ah, não...
Em letras garrafais, na parte inferior do site, as seguintes palavras atraíram a atenção das cinco amigas: "Saiba tudo sobre a pegação em Paris! Quem ficou com quem? Casais completamente surpreendentes!!"
Marlene quase pulou no colo de Melissa para conseguir clicar em cima do texto. Ela precisava saber. Poderia ser o fim total para ela e Regulus.
Nenhuma das garotas a impediu. Era melhor ficar sabendo de uma vez. Ansiosamente, elas esperaram o segundo que demorou para a página carregar. E começaram a ler o texto.
Muitas novidades aconteceram na fatídica excursão para a França. E aqui você fica sabendo dos detalhes sórdidos!
Dizem as más línguas que um casal muito popular, que rompeu recentemente, acabou passando uma noite de réveillon muito divertida, trancados num dos quartos do hotel. E línguas ainda mais ferinas disseram que era possível ouvir os gemidos pela parede do quarto!
Ellie abaixou a cabeça, totalmente vermelha. Não podia acreditar no que lia. Como era possível acontecer a mesma coisa, novamente? Era como esperar um raio cair duas vezes no mesmo lugar.
Um certo rapaz muito popular foi visto entrando em seu quarto, tarde da noite, no dia de ano novo. Mas ele não era o único ocupante do quarto. Enquanto seu companheiro de quarto estava fora, se divertindo com a ex, ele hospedava a companheira de quarto desta mesma garota. Que, por sinal, de santa só tem a cara. Agora é só vocês somarem dois mais dois, que saberão de quem estamos falando. Uma dica: os quatro alunos em questão ficam lindos de uniformes vermelhos...
Foi o momento de Lily ficar constrangida. Qualquer pessoa que lesse aquela frase poderia deduzir que as pessoas em questão eram Sirius, Ellie, James e ela mesma. Ver aquele momento tão significativo de sua vida, que ela mesma sequer conseguia definir ou compreender, estampado como uma fofoca num site era extremamente constrangedor e humilhante. Então ela olhou para o lado, e pensou em Ellie e sua calcinha estampada na primeira página. É, as coisas sempre podem ser piores do que ela imaginava.
Um jovem integrante de uma das mais tradicionais famílias de Hogwarts foi visto perambulando pelos corredores do hotel, depois da meia noite. Não foi identificado o quarto que ele adentrou, mas isso em si não é uma novidade, com o enorme currículo de conquistas do rapaz. Aqueles olhos enigmáticos e ar aristocrático certamente já seduziram diversas garotas inocentes... ou nem tão inocentes assim! Estamos aguardando ainda material que revele a identidade da nova vítima. Assim que for divulgado, passaremos a notícia em primeira mão. Até porque o rapaz em questão anda deixando de deslizar seus cabelos negros e charme pela população feminina em geral da escola. Isso significa que ele está pensando em se amarrar a apenas uma garota?
Marlene estremeceu. Sua mão foi imediatamente até sua boca. As amigas chegaram mais perto dela. Lily, tentando ajudar, falou.
- Pelo menos não descobriram sobre vocês, Lene...
Mas Marlene não parecia ver as coisas de forma tão positiva. E respondeu, com a voz fraca.
- Não descobriram... ainda.
Ela se afastou do computador. Não queria ver mais nada. Aquilo era uma loucura. Era deprimente. E assustador.
Alice estava de braços cruzados. Ela lia rapidamente as fofocas, buscando mais informações que comprometessem os amigos. Achou algumas menções sobre casais que ela não entendeu imediatamente. Viu uma insinuação sobre ela e Frank terem passado a noite juntos, e ficou irritada ao ver que a nota terminava com uma frase muito abusada: o que será que a mamãe e o papai dessa princesinha iriam pensar se soubessem disso?
Mas Alice constatou que, pelo menos a respeito dos boatos sobre a noite de réveillon, Melissa e Remus tinham escapado, assim como Marlene e Regulus, excluindo-se a menção sobre ele ter uma nova garota. Mas a festinha das meninas foi citada, como uma farra animada com cinco garotas de lingerie e regada à bebida. Bem, aquilo não era mentira. Mas a forma como foi descrita fazia soar como se tivesse sido quase uma orgia.
Ela leu a última nota, que falava sobre Fabian Prewett ter ficado com Rachel Pryce. Pelo menos o dano não tinha sido completo. Mas isso não era consolo para nenhuma das garotas.
Ellie sentou no chão do quarto, e colocou o rosto entre as mãos. Marlene estava no banheiro, lavando seu rosto. Lily a tinha acompanhado, para se certificar que tudo estava bem. Melissa permanecia estática, com o laptop no colo. Ela parecia feita de mármore, de tão imóvel e rígida que estava. Então Alice tomou o computador da garota, e continuou pesquisando os assuntos que o site abordava. Leu as matérias da página principal, e logicamente todas elas eram cruéis e cheias de intriga. Então finalmente ela colocou o computador na cama, e virou para olhar as amigas.
- Eu ainda não acredito nisso tudo. – ela falou, olhando para cada uma delas.
Melissa olhou para ela, e falou, num tom de derrota de dar pena.
- Eu... achei que o jornal ia dar certo... que seria algo legal. Que os alunos iam gostar. Mas acabaram com tudo fazendo isso.
Ellie levantou os olhos para rebater.
- É uma pena pelo jornal, mas acho que foi bem pior para nós, não é? Pô, é o meu derrière ali, para quem quiser ver! – o tom dela era de revolta.
Melissa não respondeu nada, ficando quieta. Então Lily olhou para as garotas e falou.
- O que nós podemos fazer a respeito disso tudo? Nós temos que fazer alguma coisa!
Então Melissa finalmente se moveu. Foi direto até sua bolsa, e pegou seu celular. Procurou um número na memória, e discou. Alice olhou para ela com a testa franzida, e perguntou.
- O que você está fazendo, Mel?
Melissa estava muito séria. E ela respondeu.
- Vou descobrir exatamente como isso tudo aconteceu.
-------------------------------------------------
Um pandemônio geral.
Essa é a única forma de descrever a entrada dos alunos, naquela quinta-feira, em Hogwarts. Grupos reunidos conversando, alguns apontando uns para os outros. A agitação era tanta que alguns dos funcionários tentavam conter os ânimos que começavam a se exaltar.
Duas garotas do terceiro ano começaram a bater boca, e a discussão evoluiu para uma briga física. Elas foram contidas pelos amigos, mas continuavam a gritar uma com a outra.
- Sua vadia, eu vou te matar!
- Deixa de ser louca, eu não fiquei com ele!
Lily tentava passar pelo portão despercebida. Aproveitou a confusão, e conseguiu seguir alguns metros sem ser notada. Mas logo alguém a identificou, e a loucura começou.
- Evans! Evans! É verdade?
- Oh, meu Deus! O James Potter é um sonho. É verdade sobre vocês dois? – falou uma garota mais abusada.
Lily fez força para se controlar. Mas sentia o rosto vermelho, e o lábio tremendo. Ia abaixar a cabeça quando ouviu uma voz soando alta e mal-humorada.
- Sumam daqui agora! Não têm nada melhor para fazer, suas fofoqueiras?
Lily virou para trás, e viu Ellie alcançando-a. A expressão brava da amiga acabou contendo temporariamente as garotas que seguiam Lily, mas elas se juntaram num grupo, e começaram a cochichar. Ellie fez cara feia para elas, e se juntou à Lily.
- Loucos. São todos loucos. – ela resmungou.
- Valeu, Ellie. – Lily agradeceu.
Ellie suspirou, e falou.
- Isso não vai contê-las para sempre. Daqui a pouco elas perdem o medo, e voltam a atacar. E pelo que eu conheço dessa escola, essa fofoca vai demorar muito a sumir.
Isso Lily já tinha deduzido sozinha. As fofocas costumavam durar alguns dias em Hogwarts, mas era diferente daquela vez. O fato de estar num site oficial da escola dava impressão de ser algo comprovado. Fora que o volume de fofocas era bem maior agora. E envolvia diversos nomes, e diversas situações.
- Eu não devia ter vindo para a escola hoje. Quando isso chegar aos ouvidos dos meus pais... ai, eu nem quero saber o que vai acontecer... – Lily desabafou.
- Não tem como os pais não ficarem sabendo. Com certeza vão convocar uma reunião em caráter extraordinário. E a administração da escola vai ouvir os gritos de pais muito raivosos. Você tem idéia da quantidade de filhos de famílias tradicionais que foram envolvidos nessas fofocas? Eles vão chegar aqui cuspindo fogo.
Lily suspirou. Pelo menos os pais dela não eram políticos, como o pai de Marlene, ou a mãe de Ellie. Mas ela podia muito bem ver os pais de Lara Malfoy, citada na página principal, gritando e exigindo que os culpados sejam punidos.
- Vem, vamos procurar as garotas. E ver se elas têm alguma novidade. – chamou Ellie, pegando a mão da amiga, e puxando pelo pátio.
Lily a acompanhou, mas internamente ela não sabia realmente se queria saber de alguma novidade sobre o assunto. Ela preferia poder simplesmente esquecer tudo aquilo.
---------------------------------------------
- Isso é um absurdo completo! Simplesmente um ultraje!
Toda a equipe do recém formado jornal de Hogwarts estava reunida na diretoria da escola. Eles tinham sido avisados, por telefone, que deveriam chegar à escola meia hora antes do horário normal, e se encaminhar imediatamente para a diretoria.
Melissa chegou ainda mais cedo. Ela queria muito saber se já tinham descoberto algo sobre o assunto. Mas, como foi a única a chegar cedo, ficou esperando os outros. E não conseguiu conversar com ninguém antes de serem chamados para a sala do diretor.
Lá estava o diretor Dumbledore. Ele mantinha a expressão calma, mas agora apresentava uma seriedade bem mais intensa que o normal. E os quatro chefes das Casas de Hogwarts também estavam lá. McGonagall, Flitwick, Slughorn e Sprout. E a professora McGonagall estava fazendo um longo e apavorante discurso sobre como era absurdo o que tinha acontecido.
Após longos minutos, o diretor levantou a mão, e num tom sério, interrompeu a professora de física.
- Já chega, Minerva. Eles sabem como é inapropriado o que aconteceu. Agora o mais importante é descobrir como isso aconteceu.
Um rapaz alto e magro, de cabelos castanhos encaracolados, se adiantou timidamente, e falou.
- Diretor... senhor... – ele gaguejava ligeiramente. Mas foi corajoso o suficiente para se manifestar sem ter sido chamado – Eu que programei a página...
McGonagall olhou para o rapaz, e falou, num tom indignado e exasperado.
- Samuel Collins! Você está dizendo que é o responsável por essa brincadeira de mau gosto?
O rapaz corou da cabeça aos pés, mas respondeu imediatamente.
- Não! – ele apressou-se em corrigir – Eu programei a página que escrevemos juntos, todos do jornal. Essa aí foi modificada... por alguém que eu não sei quem é.
- Como assim? – perguntou a professora Sprout.
O rapaz inspirou profundamente, e falou.
- Alguém acessou a página, e a modificou. Essa não foi a versão que fizemos. O professor Flitwick viu a nossa versão.
Flitwick, mesmo aparentando estar muito nervoso, confirmou.
- Eles me apresentaram uma versão normal do jornal, com um conteúdo adequado. E não... isso aí.
O diretor Dumbledore observou atentamente os alunos que estavam à sua frente. Então olhou para Samuel, e perguntou.
- E como funciona o acesso à página do jornal? Vocês têm alguma senha, ou algo do tipo?
Samuel concordou com a cabeça, e falou.
- Cada membro do jornal tem um login, e uma senha. E um email vinculado ao jornal.
A professora McGonagall interrompeu o rapaz, e falou, num tom ainda mais bravo.
- Então você está dizendo que um de vocês fez essa atrocidade?
- Não! – o rapaz quase gritou – Eu tenho certeza!
Todos olharam para ele, e ele ficou ainda mais vermelho. O professor Slughorn olhou para o rapaz com um misto de pena e confusão, e perguntou.
- Então o que aconteceu, meu rapaz?
O rapaz tomou fôlego, e respondeu. Melissa olhou em volta quando ele falava. Ela já sabia a resposta da pergunta, já que tinha questionado o próprio rapaz quando notou o site alterado.
- Alguém invadiu o sistema. Um hacker. Ele burlou as senhas, criou um login falso, e alterou tudo. E não deixou rastros. Serviço de profissional. Eu não saberia nem por onde começar a buscar traços de sua passagem, e eu sou um bom programador, modéstia à parte...
Todos mantiveram o silêncio. Melissa buscava no rosto de alguém algum tipo de traço de reconhecimento. Mas todos pareciam desconhecer qualquer informação.
Remus ainda parecia em choque. Melissa suspeitou ser por ele ter visto sua foto na página principal do site, como uma notícia importante. Provavelmente ele nunca tivesse notado a própria popularidade.
Lara Malfoy tinha uma expressão estranha no rosto. Por alguns instantes, ela parecia estar achando aquilo tudo engraçado, mas não de forma como se ela fosse a responsável. E sim por estar achando ironicamente cômico. Mas por outros ela demonstrava estar toa surpresa quanto todos ali.
Bertha Jorkins, que era a mais famosa fofoqueira de Hogwarts, tinha seu rosto voltado para o chão. Em alguns momentos ela parecia assustada, mas em outros ela demonstrava sua incontrolável curiosidade.
Os outros membros pareciam extremamente assustados. Então Melissa começou a cogitar a possibilidade do responsável por aquela invasão não ser um membro do jornal de Hogwarts. Mas quem podia ser... ela não tinha idéia.
Quando voltou a si, ela percebeu que o diretor falava. E voltou sua atenção a ele.
- Então, por enquanto, vocês estão dispensados. Mas poderão ser convocados novamente, para futuros esclarecimentos. Podem ir para suas salas.
Melissa imediatamente se moveu. Tinha que fazer alguma coisa. E rápido. Porque ela suspeitava que, se não descobrissem logo quem era o responsável pela invasão ao site, a situação ficaria ainda pior. E isso poderia levar ao fechamento do jornal. Mas o pior de tudo nem era isso. O pior era a possibilidade de o fofoqueiro continuar investigando sobre os alunos, e acabar descobrindo fatos do seu passado que ela tentava desesperadamente esquecer.
----------------------------------------
A confusão continuava pela escola. Mesmo quando o sinal tocou, e os alunos entraram na sala de aula, a bagunça era geral. Muitos ânimos precisavam ser contidos, discussões começavam praticamente do nada. Inclusive entre os muitos alunos do segundo ano.
Lily tinha demorado um instante para entrar na sala, já que Alice gritou seu nome, e ela esperou a amiga se aproximar. Quando as duas entraram na sala, encontraram um enorme tumulto. E viram que ele era causado por uma discussão entre Ellie e Sirius.
James estava tentando conter a briga dos dois, que já estavam alterados, e batiam boca abertamente.
- Ah, que engraçado, Sirius! Agora você vai dizer que não tem nada a ver com isso tudo? – Ellie resmungava, num tom irônico.
- Lógico que não! Você está ficando paranóica agora? – ele rebatia, num tom bravo.
- Paranóica? – Ellie retrucou – Então me explica como, de novo, a mesma coisa foi acontecer? Explica!
Sirius ficou um instante sem resposta. Até porque ele realmente não sabia como alguém podia ter descoberto, pela segunda vez, que ele e Ellie tinham passado a noite juntos.
- A única coisa que eu sei é que não saí espalhando por aí o que aconteceu entre nós no réveillon. E nem no dia da sua casa! – ele falou, num tom alto o suficiente para todos em volta ouvirem.
- Sirius! – James falou, num tom de reprovação.
Ellie apenas olhou para o ex-namorado, balançou a cabeça negativamente, e num tom de decepção, ela falou.
- Ótimo, Sirius. Ótimo.
Sirius só percebeu a besteira que tinha feito ao notar os cochichos entre as pessoas que assistiam a briga. Ele tinha acabado de confirmar tudo que estava escrito sobre o casal no site adulterado do jornal da escola.
Ellie simplesmente pegou a sua mochila, e foi andando até um local vago, no canto da sala. Marlene pegou seu material, e foi sentar ao lado da amiga. E logo começou a conversar com ela, num tom muito baixo.
Sirius jogou suas coisas em cima da mesa, e bufou.
- Merda!
Lily aproximou-se lentamente. James apenas ergueu a cabeça ao ver a namorada. Um sorriso fraco tomou conta dos lábios do rapaz, e ele falou, num tom desanimado.
- Bem vinda à Hogwarts. Agora você finalmente está conhecendo a realidade deste lugar.
-------------------------------------
Quando o sinal tocou, indicando que o intervalo iria começar, Lily sentiu como se estivesse acordando. Ela tinha passado boa parte da aula trocando bilhetinhos com Alice e Melissa, que colocava as duas a par do que tinha acontecido durante a reunião na diretoria. E, para completar sua distração em relação à matéria exposta no quadro, ela pode ouvir toda a conversa entre James, Sirius e Remus, sentados atrás dela, que passaram a aula inteira falando num tom discreto. Depois de ouvir pelo menos 15 palavrões diferentes de Sirius, todos dirigidos a Mike Mckinnon numa crise de ciúme pela foto exposta no site, o rapaz conseguiu se acalmar. E pelo que Lily conseguiu ouvir, ele disse aos amigos que ninguém, além de Lily, o viu no caminho do quarto, no hotel em Paris. Então ele não tinha idéia de como foi flagrado naquele dia. James também falou não ter visto ninguém no caminho de volta ao quarto, na noite de réveillon. Lily sentiu um pequeno frio na barriga. Ela estava tão concentrada no que estava acontecendo que até tinha se esquecido da noite de réveillon.
Tentando se recompor, Lily aproveitou a oportunidade, e saiu puxando as amigas pela mão, em direção ao pátio. Ela tinha visto Ellie e Marlene saindo da sala assim que o sinal tocou, e tentou segui-las. Mas elas já estavam longe quando as três passaram pela porta da sala.
- Elas foram para o jardim. – falou Alice, conduzindo o grupo.
Melissa não parava de tentar encontrar uma saída para a situação. Raciocinava em silêncio, e seguiu as amigas sem contestar. Logo as três alcançaram Ellie e Marlene, que conversavam discretamente sentadas num banco.
Lily viu, assim que se aproximou, algo que desejou muito não ser verdade. Mas estava acontecendo.
Ellie tinha os olhos cheios de lágrimas. Ela não chorava, mas parecia estar se contendo à duras penas. Marlene segurava uma das mãos da amiga, e falava baixinho, tentando consolá-la.
- Não fica assim, Ellie...
Lily abaixou na frente de Ellie, olhando a amiga nos olhos. E falou.
- Ellie...
E a garota finalmente falou. Seu tom era amargurado.
- Não adianta. Eu acho que nunca vou aprender.
Alice sentou do outro lado da garota, e falou.
- Não fala isso.
Mas a garota apenas suspirou, e falou.
- Não tem jeito. Eu até pensei que poderíamos... ter uma chance. Mas, com isso... acabou de vez. Nunca mais.
Lily se sentiu péssima pela amiga. Queria falar algo que a animasse. Algo que a deixasse com esperança. Mas viu estampado nos olhos dela que seria inútil. Ellie estava, naquele momento, desistindo de Sirius. E parecia ser para sempre.
Mesmo assim, ela tentou.
- Ellie... talvez isso tudo seja um mal entendido...
Mas Ellie não aceitou o argumento.
- Mal entendido? Lily, a mesma coisa aconteceu. Eu fiz a besteira de ir para a cama com ele, e todo mundo ficou sabendo. Agora me responde: quem é a pessoa que mais se dá bem com essa notícia se espalhando?
Lily sabia a resposta para aquela pergunta. Sim, era Sirius. Mas ela não falou nada. Apenas ficou calada, e baixou os olhos. Ellie entendeu aquilo como uma resposta positiva, e prosseguiu.
- Então você sabe que eu não posso continuar com isso. Não posso continuar me magoando... desta forma. – ela levou a mão ao rosto. Uma lágrima escorreu por sua face. A garota a secou imediatamente; estava tentando ser forte. – Nada vai mudar. E só eu que saio machucada, todas as vezes.
Então ela se levantou. Inspirou fundo, e falou. Tentando se controlar da melhor forma possível.
- Eu vou lavar o rosto. Vejo vocês na sala.
Lily levantou junto com a amiga, e falou.
- Eu vou com... – mas foi interrompida por Ellie.
- Não precisa, Lily. – ela falou, visivelmente tentando manter a compostura – Eu posso lidar com isso. Pelo menos com o povo dessa escola.
A garota saiu de perto das amigas. Lily não pode deixar de admirar a força de vontade de Ellie. Ela passou por grupinhos que cochichavam e apontavam para ela. E manteve a cabeça erguida. Lily seguiu a amiga com o olhar até sua atenção ser desviada para Melissa, que começou a falar.
- Nós temos que fazer alguma coisa.
Marlene, visivelmente sensibilizada com a situação de Ellie, fungou baixinho, e respondeu.
- Eu concordo. Odeio vê-la assim.
- Fora que existe toda a questão envolvendo nós mesmas. – Alice falou – Vocês têm idéia do que eu vou ter que ouvir em casa? Meus pais vão ficar loucos quando souberem!
- Todos os pais vão ficar loucos quando souberem. – resumiu Melissa.
Lily corou só de pensar o que seus próprios pais iriam falar. Ela não queria mentir para eles, mas acabou pensando se não seria conveniente dizer que o site só continha fofocas falsas. Estava perdida no pensamento da futura e inevitável conversa, quando Melissa finalmente disse.
- A questão é a seguinte: temos que descobrir quem fez isso.
Alice e Marlene responderam juntas, e exatamente ao mesmo tempo.
- Lara Malfoy.
Lily franziu a testa. E Alice falou.
- Só pode ser. A Ellie com certeza vai concordar. A Lara é louca, e ela acabou de voltar para casa. Exatamente quando o site começou a funcionar.
- Fora que ela é do jornal, como você, Mel. Teve acesso a tudo. – Marlene completou.
Lily imediatamente olhou para Melissa. Mas a morena fez uma expressão estranha, com a testa franzida. E falou.
- Eu não acho que seja ela.
- Não? – Lily questionou – Por quê?
Melissa tomou fôlego, e respondeu.
- Porque ela também saiu queimada. Vocês leram o que escreveram sobre ela? Para ser honesta, é muito pior do que qualquer coisa que tenham escrito sobre todas nós. Fora que o fato dela ter voltado não quer dizer nada, já que a pessoa que invadiu o site podia estar apenas esperando uma oportunidade. Como o site do jornal só entrou no ar esta semana, não existe uma conexão real entre os dois fatos.
As três garotas se entreolharam. Aquilo fazia sentido. Então Melissa falou, sugerindo um nome.
- Eu pensei em Bertha Jorkins.
Mas Alice descartou o nome num instante.
- Jorkins? Sem chance. Ela é uma fofoqueira, mas também uma anta completa. Pelo que você disse a pessoa que invadiu o sistema é um gênio em informática. Nunca poderia ser ela. Fora que a Jorkins adora levar o crédito pelas fofocas que repassa. Fazer intrigas de forma anônima... não parece mesmo ser a praia dela.
Novamente um nome estava sendo descartado. As quatro amigas ficaram um bom tempo cogitando pessoas. Mas sempre aparecia algum empecilho, algo que não fazia sentido. Então Melissa resolveu acabar com a especulação, e falou.
- Nós temos que fazer alguma coisa. Ficar aqui propondo nomes não vai nos levar a lugar algum.
Marlene franziu a testa, e perguntou.
- E o que fazemos, então?
- Temos que sair questionando as pessoas. Investigando. Descobrir como os boatos começaram, quem viu o que.
Mas Lily raciocinou por um instante, e viu uma falha óbvia no plano.
- Seria o melhor a fazer, Mel, se não fosse por um pequeno detalhe: nós todas fomos mencionadas no site. Você acha que alguém falaria algo conosco, se for culpado? E mesmo a Marlene, que não foi citada, vai conseguir grande coisa. Todo mundo sabe que ela é nossa amiga.
O silêncio de todas era a prova de que concordavam com Lily. Realmente era pouco provável que elas obtivessem algum sucesso daquela forma. Alice bufou, e resmungou.
- Temos que achar alguma saída.
Lily ficou um bom tempo olhando para o chão. Uma idéia estava passando por sua cabeça. Fazia sentido, e podia dar certo. Antes de terminar o raciocínio, ela começou a falar.
- Eu pensei em algo. Que talvez ajude.
As três olharam atentamente para a ruiva, que continuou.
- Bem, a Melissa falou que o hacker não deixou rastro, não é? Bem, nós poderíamos investigar algo mais simples, e mais fácil de descobrir. E que, pelo que eu acho, tem conexão com as fofocas do site.
- O que? – perguntou Alice.
- A fofoca sobre a Ellie e o Sirius.
Marlene franziu a testa, sem entender. E Lily explicou.
- Alguém espalhou a fofoca sobre a primeira vez deles. E até hoje não sabemos o que aconteceu mesmo. E eu acho difícil ter sido o próprio Sirius que espalhou, então... alguém fez isso. E foi alguém que ficou sabendo de uma informação praticamente inacessível, exatamente como os acontecimentos do réveillon.
- É o mesmo padrão. Você está certa. – falou Melissa.
- Mas isso não muda o fato de que certamente ninguém vai contar nada para nós. Todo mundo sabe que somos amigas da Ellie. – interveio Marlene.
Melissa coçou o queixo, e falou.
- Precisamos de alguém para fazer isso por nós.
Alice concordou imediatamente.
- Alguém que seja confiável. Mas que não esteja conectado a nós diretamente.
- E que não esteja mencionado nas fofocas do site. – completou Melissa.
Lily abaixou a cabeça. Inspirou por um instante, e levantou os olhos, falando.
- Kyle Wilshire.
- O que? – perguntou Marlene. Ela estava distraída, não ouviu direito.
Então Lily falou com mais confiança.
- O Kyle. Ele atende todos os requisitos.
Melissa pensou por um instante, e falou.
- E ele é confiável?
- Totalmente. – respondeu Lily. Ela não sabia exatamente porque, mas sentiu, naquele momento, que poderia confiar sua vida a Kyle Wilshire, que não se arrependeria.
- Então está decidido? – perguntou Alice.
- Todas concordam? – questionou Melissa.
As três concordaram com a cabeça. Então Lily decretou.
- Ótimo. Então vamos falar com ele.
---------------------------------------------------
- Mas... eu? Vocês têm certeza?
Lily confirmou com a cabeça, demonstrando segurança. E respondeu.
- Temos sim, Kyle. Só você pode nos ajudar.
Kyle Wilshire olhou à sua volta. Ele estava sentado em sua sala, no centro de monitoria. Em volta de sua mesa, Lily Evans, Melissa Kensington, Alice Mckenzie e Marlene Mckinnon o cercavam, em pé. Todas elas estavam muito sérias, confirmando a afirmação de Lily. Kyle franziu a testa por um instante, e voltou a olhar para Lily. Ao ver a expressão de preocupação, mesclada com determinação, ele imediatamente falou.
- Tudo bem. Eu concordo. Mas...
Melissa rebateu instantaneamente.
- Mas o que?
Kyle pareceu constrangido por um instante, e respondeu.
- É que eu não tenho idéia de como fazer.
As garotas se entreolharam. Melissa estava impaciente, e apenas revirou os olhos. Então foi Alice quem socorreu o rapaz.
- Ah, Kyle... Você tem que sair perguntando.
A frase de Alice não pareceu ajudar muito o rapaz. Lily sabia que Kyle era um tanto tímido, e a idéia de sair pela escola fazendo perguntas sobre as fofocas do site certamente não o agradava. Mas, como ele estava disposto a ajudar, ela tentou auxiliá-lo também.
- Eu acho que se você chegar perto de pessoas que estejam falando sobre o assunto, vai ficar mais fácil. – ela tentou.
- Ou seja, é só se aproximar de qualquer um nesta escola. – Melissa completou, visivelmente incomodada.
- Quem sabe você nem precisa sair perguntando, Kyle? Pode ser que as pessoas comecem a falar sobre o assunto por livre e espontânea vontade. – Marlene acrescentou, tentando incentivá-lo.
- O que não é nada difícil de acontecer, Lene. – Alice concordou.
Kyle novamente percorreu os rostos de todas as garotas, terminando em Lily. Olhando o belo rosto da ruiva, ele sentiu seus receios indo embora, e falou, desta vez com mais firmeza.
- Está bem. Vou tentar.
Melissa olhou para ele, séria, e disse de forma inflexível.
- Tentar, não, Wilshire. Você tem que fazer.
Lily sentiu um incômodo percorrer seu corpo, ao ver Melissa sendo tão dura com Kyle. E imediatamente foi em auxilio ao rapaz.
- Ele vai conseguir, Mel. Fica tranquila.
Melissa imediatamente voltou sua atenção para Lily. Ela ficou observando o rosto da amiga por alguns instantes, com uma expressão intrigada. Mas logo desviou sua atenção quando Alice falou.
- Ótimo, então está combinado. Acho que você devia começar o quanto antes, Kyle.
- É verdade. – concordou Marlene. – Assim podemos dar um jeito nessa confusão sem mais demora.
Kyle levantou de sua cadeira, e seu rosto demonstrava determinação. Lily sorriu brevemente para ele, e o rapaz ficou ainda mais satisfeito. E ele falou, finalizando.
- Vou terminar minhas tarefas aqui, e vou imediatamente começar a investigação. E assim que eu tiver alguma pista, procuro vocês.
As quatro amigas se entreolharam, concordando. Mas, antes de saírem da sala do rapaz, Melissa falou.
- Estaremos esperando seu retorno, Wilshire.
Kyle concordou com a cabeça. Uma a uma, as garotas deixaram a sala do rapaz. Lily foi a última. Quando ela alcançou a maçaneta, para fechar a porta, ela ainda falou.
- Obrigada, Kyle.
O rapaz sorriu para a jovem. Ela fechou a porta, e o sorriso dele aumentou ainda mais. Tinha ganhado o dia.
-------------------------------------
- Ei, Lily! Espera!
Lily virou seu corpo na direção da voz que a chamava. A aula de quinta tinha terminado, e a garota estava se encaminhando para o centro de monitoria. Por dois motivos: ela tinha alunos para atender, e também queria tentar conversar com Kyle, e saber se ele tinha descoberto algo durante as aulas que tinha assistido. Mas seu caminho foi interrompido.
James vinha correndo, usando o uniforme do time de basquete da grifinória. Ele provavelmente iria começar o treino em alguns minutos.
- Oi James. – Lily falou.
O rapaz parou bem na frente da garota. Ele tinha pensado por bastante tempo sobre o que iria falar com Lily, mas travou por um momento.
Os dois ficaram se olhando em silêncio. Então, sem saber o que fazer, James deu um beijo na namorada. Lily estranhou, mas correspondeu o beijo. Assim que ele se afastou, ele conseguiu articular.
- Lily... está tudo bem?
Lily olhou para James diretamente nos olhos. Ela tinha diversas respostas para aquela pergunta. Sim, ela estava bem, considerando a possibilidade de descobrir quem tinha espalhado as fofocas no site. Não, ela não estava bem, considerando que ela teve que assistir sua melhor amiga enfrentando mais uma vez o mesmo problema, e vê-la ir embora da escola com uma expressão arrasada. Ainda tinha a possibilidade de enfrentar a situação das fofocas quando seus pais ficassem sabendo de tudo. E, finalmente, ela não sabia se estava bem, quando pensava nos acontecimentos da noite de réveillon, quando ela tinha se relacionado com o namorado de forma tão íntima. Era difícil ter que pensar no assunto, organizar todos os seus sentimentos de forma coerente. Então ela estava tentando evitar pensar naquele assunto. Pelo menos por enquanto.
Sem uma resposta para a pergunta, ela simplesmente falou.
- Está sim.
James franziu a testa. Aquela resposta não o convenceu. Ele estava tentando conversar com Lily desde a volta de Paris, mas ela parecia estar fugindo dele. Sempre tinha uma desculpa para se afastar, ou para não encontrá-lo após a aula. E ele já estava ficando preocupado com o motivo dessa fuga.
- Você tem certeza? Porque nós podemos conversar...
Mas Lily tinha tanto em sua cabeça, naquele momento, que conversar com James sobre a noite de réveillon era exigir demais de si mesma. Então ela não o deixou terminar a frase, e falou, dando seu mais convincente sorriso.
- Está sim, James. Só estou muito ocupada. Estou resolvendo umas... coisas.
James ficou imediatamente curioso, e perguntou.
- Que coisas?
Lily inspirou, e respondeu, tentando achar a melhor resposta que pudesse.
- Umas coisas de... bem, é assunto de garotas.
James ficou alarmado no mesmo instante, e Lily imaginou que ele poderia interpretar de forma equivocada. Então ela completou.
- Estou resolvendo umas coisas com as garotas. – ela emendou – Não é nada que você precise se preocupar.
James ainda manteve a expressão de dúvida. Mas Lily resolveu interromper a conversa antes que não pudesse mais arranjar desculpas. Então ela falou.
- James, eu tenho que ir. Meus alunos estão esperando.
James fez menção de falar algo, mas ficou quieto. Lily ia continuar seu caminho para o centro de monitoria, mas sentiu James segurando sua mão. Ele a fez voltar-se de frente para ele, e, sem dizer nada, puxou-a para um beijo.
Lily se esqueceu de tudo. Dos problemas, das tarefas, de tudo. O beijo a transportou para outro lugar, onde suas aflições estavam longe, esquecidas. O contato da mão carinhosa de James em seu rosto a afastava de tudo.
Mas o beijo não foi longo. Logo o rapaz se afastou, e olhou nos olhos dela. E tudo voltou. O nervosismo de não saber como agir na frente de James tomou conta dela. E ela reagiu de acordo.
- Depois a gente conversa. – ela falou, se afastando.
James continuou parado no pátio da escola. Viu Lily sumir porta adentro do centro de monitoria. Então ele abaixou a cabeça, e seguiu seu caminho para a quadra de esportes da escola. E a dúvida ainda pairava sobre sua cabeça. Na verdade, a dúvida tinha até aumentado.
Por que Lily estava fugindo dele?
--------------------------------------
Noite de quinta-feira. Lily estava deitada em sua cama, tentando se concentrar na leitura de Oliver Twist, de Charles Dickens. Sabia que a leitura era obrigatória para a aula de literatura, mas não conseguia passar da página que lia há cerca de meia hora. Todas as vezes que terminava a página, percebia que não tinha retido na memória sequer uma palavra que tinha lido, e recomeçava a leitura. Vendo que aquilo era inútil, ela resolveu deixar o livro de lado. Sabia que o atraso anormal de seus pais, que ainda não tinham chegado em casa do trabalho, tinha um significado. Eles ainda estavam na reunião de pais em Hogwarts.
Lily tentou, em vão, não pensar nesse assunto. Mas era impossível. Ellie tinha ligado para ela havia umas duas horas, e avisou que os pais tinham sido convocados para a reunião. A voz e o ânimo da amiga não tinham melhorado ainda, e Lily estava começando a duvidar que ela fosse se recuperar tão cedo. Então o plano que ela e as amigas tinham colocado em prática, com a ajuda de Kyle, era de vital importância.
Pensando no plano, foi inevitável pata Lily não pensar em Kyle. O rapaz estava sendo extremamente prestativo em ceder boa parte do já apertado tempo dele, e o utilizando nas diversas perguntas e questionamentos que ele fez pela escola. No final do dia, ele ainda não tinha uma pista boa o suficiente. Mas estava conseguindo juntar algumas peças do quebra-cabeça, e ele estava confiante que conseguiria algo no dia seguinte. Até porque ele percebeu que a busca estava se estreitando, e as pessoas começavam a apontar os mesmos nomes como a fonte da informação sobre Ellie e Sirius.
Lily estava divagando sobre como Kyle era tão bom e prestativo, quando ouviu uma batida em sua porta. Ela estranhou o fato, já que Petúnia era a única pessoa em casa, e a irmã não costumava bater em sua porta. Ela então falou.
- Entra.
Lily quase deu um pulo da cama ao ver sua mãe entrando. Ela estivera tão distraída que nem ouviu o barulho dos carros dos pais chegando.
A garota ficou sentada na cama, e não conseguiu dizer sequer uma palavra. Então a mãe tomou a iniciativa.
- Querida... posso falar com você um instante?
Lily teve que reprimir uma incontrolável vontade se sair correndo porta afora. Mas respirou fundo, e respondeu.
- Claro, mãe.
A Sra. Evans encostou a porta atrás de si, e foi até a cama da filha. Sentando ao lado da garota, ela falou.
- Eu e seu pai acabamos de chegar de uma reunião em Hogwarts.
Lily, muito nervosa, apenas confirmou com a cabeça, e falou, num tom mais baixo.
- Eu sei.
Lily viu sua mãe observando-a por um instante. E depois ela falou.
- Então você deve saber o que foi discutido nesta reunião, não é?
Lily confirmou com a cabeça. Sua mãe prosseguiu.
- Querida... por que você não nos contou nada?
Lily não sabia o que falar. Tentava buscar palavras, mas nada lhe vinha à cabeça. Ela apenas baixou o rosto, e ficou quieta. Mas ouviu a voz doce de sua mãe falando, num tom muito delicado.
- Minha filha... Não precisa fica assim. Isso que aconteceu não é culpa sua.
Lily lentamente levantou a cabeça. Estava esperando um discurso decepcionado de sua mãe. Mas não era isso que estava acontecendo.
- Sei que deve estar sendo muito difícil para você esta situação toda. E para seus amigos também. Eu encontrei Lisa Dumbledore lá, e ela parecia arrasada.
Lily franziu a testa ao lembrar-se da foto cruel de sua melhor amiga, estampada na página inicial do site. Imaginou como deve ter sido um choque ainda maior para a mãe de Ellie ter que ver sua filha daquela forma.
- Eu e seu pai conversamos, e queremos que você saiba de algumas coisas.
Lily novamente ficou tensa. E finalmente conseguiu falar.
- O que? – ela disse, num fio de voz.
Lily sentiu sua mãe pegando sua mão, e acariciando de leve.
- Nós somos seus pais, Lily. Nós sempre vamos ficar ao seu lado. Vamos te apoiar sempre.
Lily respirou mais aliviada. Mas logo ficou tensa ao ver a expressão de sua mãe ficando mais séria.
- Acho que eu falhei ao deixar de ter uma conversa com você. Falar algo que considero muito importante.
Lily sentiu seu corpo gelando da cabeça aos pés. Sua mãe iria começar a falar de sexo com ela? Aquela conversa já tinha acontecido há bastante tempo, quando Lily começara a namorar com Mark, ainda em sua cidade natal.
- Nós viemos de uma cidade pequena, Lily. Um lugar onde conhecemos nossos vizinhos, sabemos quem são as pessoas. Um lugar onde podemos confiar nas pessoas que nos cercam.
Lily franziu a testa muito de leve. E ouviu sua mãe prosseguir.
- E chegamos a Londres, e te matriculamos numa escola de elite, para que você pudesse ter a melhor educação possível. Mas eu sei que errei em deixar de conversar com você sobre as diferenças entre as pessoas de nossa cidade, e as daqui.
- Mas eu gosto das pessoas daqui. Tenho ótimos amigos. – Lily falou.
- Eu sei, querida. E você não pode imaginar como eu fico feliz em te ver com amigos tão bons. Você sabe que eu adoro a Ellie. Mas isso não muda o fato que, querendo ou não, você acabou ficando muito exposta em sua escola. É presidente da classe, amiga da neta do diretor...
Lily pensou um instante no que a mãe falava. E viu que realmente fazia muito sentido.
- Então eu vejo que deveria ter te alertado. Você escolheu bem seus amigos, mas não pode conhecer todas as pessoas que te cercam, não é? E eu temo que você possa despertar sentimentos ruins em pessoas à sua volta.
- Sentimentos ruins? – Lily perguntou, assustada. E viu sua mãe dando um sorriso triste, e falando.
- Minha querida... você é uma pessoa muito boa, não costuma ver o lado ruim nas pessoas. Nunca notou como desperta a inveja em algumas pessoas.
Lily arregalou os olhos. Inveja? Quem teria inveja dela? Esse pensamento era um tanto absurdo para ela. Ainda mais que ela vivia cercada por pessoas que certamente despertariam muito mais inveja do que ela. Dentre todos os seus amigos, ela achava que ela a que menos poderia despertar esse tipo de sentimento em alguém. A única exceção era o fato de ela namorar James Potter, constantemente assediado por diversas garotas.
- E quem teria inveja de mim, mãe? Já viu as pessoas com quem eu ando?
A Sra. Evans riu da ingenuidade da filha. E falou.
- Querida... você realmente não se vê de forma correta, não é? Você é linda, é inteligente, alegre, bondosa, ocupa espaços de grande evidência em sua escola, fora que tem um namorado bem popular...
Era muito estranho ouvir da boca de sua mãe que James era popular, mas como a mãe estivera na reunião na escola, ela certamente viu que as várias citações ao nome de James, no site de fofocas, denunciavam a posição de destaque do rapaz na escola.
Mas Lily ficou calada. Não tinha idéia do que dizer para a mãe. E a ouviu prosseguir.
- Então, minha filha, o que eu posso te dizer, agora, é que eu sinto muito em não ter te alertado antes. E também que eu gostaria muito que você fosse bastante cuidadosa daqui para frente.
Lily acenou com a cabeça. Sua mãe continuou. E agora seu tom era mais baixo, e delicado.
- Eu não vou te perguntar sobre as fofocas daquele site. Você tem direito a sua vida particular com seu namorado. Só tenho que dizer que espero sinceramente que vocês prestem bastante atenção em relação à intimidade de vocês. Para não acabarem expostos a uma situação como essa novamente.
Lily engoliu seco. Mas agüentou firme.
- Eu e seu pai gostamos muito do James, Lily. Ele é um bom rapaz, e sabemos que ele é uma vítima desta situação, tanto quanto você.
Lily finalmente conseguiu sorrir. Não foi um sorriso muito grande, mas foi o suficiente para sua mãe parecer satisfeita.
- Obrigada, mamãe.
A Sra. Evans sorriu, e falou.
- Eu quero que você saiba que eu estou aqui, se você quiser conversar. Se quiser me contar sobre você e o James, eu vou te ouvir. Mas se preferir manter para si mesma, não vou invadir sua privacidade. Só saiba que eu estou sempre aqui, querida.
Lily esboçou um sorriso tímido. Não sabia se conseguiria contar para sua mãe naquele momento, então falou.
- Obrigada, mãe. É bom saber disso.
Então a Sra. Evans olhou para a filha, e falou.
- Você tem... alguma pergunta?
Lily respondeu de imediato.
- Não, mãe. Mas obrigada.
Vendo que a conversa não evoluiria daquele ponto, a Sra. Evans levantou-se, e falou, caminhando em direção à porta.
- Então durma bem, minha querida. É só uma questão de tempo descobrirem o responsável por isso tudo. Fique tranquila. E boa noite!
Lily sorriu para a mãe, que fechou a porta em sua saída.
Ela deitou em sua cama novamente. Com a pergunta de sua mãe ainda na cabeça.
Lily realmente não tinha nenhuma pergunta para a mãe. Todas as suas dúvidas estavam direcionadas para um único ponto. E somente uma pessoa poderia responder suas dúvidas.
Ela mesma.
---------------------------------------
Sexta feira. Lily mal tinha vontade de ir à escola. Sabia que o pandemônio seria ainda maior após a reunião com os pais. Já podia ver os alunos acusando uns aos outros, brigando ou então fofocando ainda mais sobre o conteúdo do site adulterado. Pelo menos ela podia respirar aliviada. Seus pais foram muito compreensivos em relação ao seu nome ter sido mencionado pelo fofoqueiro misterioso. Fora que sua mãe foi ainda mais bondosa ao poupá-la de uma conversa extremamente constrangedora, a respeito de seu relacionamento com James. Ela realmente não tinha muito do que reclamar.
Então, resignada, ela se arrumou para enfrentar a confusão. Precisava apoiar Ellie, que sofria novamente o mesmo baque que tinha sofrido há tão pouco tempo. Fora que ela queria muito falar com Kyle, e saber se ele conseguira avançar um pouco mais em suas investigações. Ele tinha dito que conversaria com algumas pessoas da escola quando estivesse em casa, via internet, e tentaria arrancar mais informações. E ele parecia bem mais confiante agora, que conseguira reunir algumas pistas. Ele achava que poderia descobrir a origem da fofoca mais cedo do que estava imaginando inicialmente.
Quando a garota chegou na escola, confirmou suas suspeitas. Realmente a confusão reinava em Hogwarts. Várias pessoas discutiam, alguns batiam boca, muitos reunidos em grupinhos, apontando uns para os outros. Ela tentou passar despercebida, mas obviamente despertou o interesse de diversos alunos. Lily podia sentir os olhares deles em si mesma. E tratou de apressar o passo. Já estava perto de sua sala quando ouviu alguém chamando seu nome.
- Lily!
Ela virou o rosto, em direção à voz conhecida.
- Oi, Kyle. – ela cumprimentou, se aproximando dele.
- Posso falar um instante com você? É sobre sua escala de monitoria. – ele disse, em voz alta.
Lily franziu a testa por um instante, mas concordou com a cabeça. Achou que ele falaria sobre a investigação. O rapaz parou ao lado dela, e retirou uma folha de dentro da mochila. Quando eles estavam bem próximos, ele sorriu levemente, e falou, num tom baixo, para que somente ela ouvisse.
- E aí, gostou do meu disfarce?
Lily franziu a testa novamente, e ele falou.
- É que eu achei que seria melhor que as pessoas em volta achassem que nosso assunto fosse apenas acadêmico. Assim ninguém desconfia de nada quando eu começar a fazer perguntas.
Lily então sorriu brevemente, e acenou com a cabeça. Kyle parecia bastante satisfeito consigo mesmo. E também parecia bem mais relaxado, e menos formal do que costumava ser.
- Pois é. – ele prosseguiu – Ontem eu consegui algumas informações a mais. Estou eliminando uma porção de nomes, e minha lista de possíveis fofoqueiros está bastante reduzida. Com sorte, eu consigo descobrir algo ainda hoje!
Lily olhou para o rosto de Kyle. O rapaz parecia bem animado. Era como se a investigação toda o divertisse bastante. Algo que Lily não previra. Então ela falou.
- Isso é ótimo, Kyle. Obrigada.
Mas ele novamente exibiu um sorriso devastador, e falou.
- Sabe que toda essa história de investigação é bem divertida? Estou me sentindo o próprio Sherlock Holmes... Fora que é incrível como as pessoas estão dispostas a falar sobre a vida dos outros. Mal preciso fazer perguntas, elas já começam a falar por livre e espontânea vontade. – ele concluiu a frase com uma careta de nojo, desaprovando visivelmente esse comportamento.
Lily se surpreendeu com esse lado de Kyle. Muito mais relaxado. E certamente mais divertido.
- Bem, eu já vou indo. Não quero deixar ninguém desconfiado pelo tempo que nós passamos conversando. Fora que tenho que começar as investigações de hoje. Vou atacar alguns alunos da Lufa-lufa, do meu ano. Ainda não falei com eles, acho que podem ajudar a cortar mais alguns nomes da lista.
Lily, sem saber o que falar, apenas concordou com a cabeça. Kyle ficou parado por um instante, como se estivesse decidindo se faria algo ou não. Ele se aproximou alguns centímetros de Lily, como se fosse dar um beijo no rosto da garota, mas logo voltou atrás, e começou a se afastar.
Lily observou-o indo embora. Quando ele sumiu de sua visão, ela teve uma sensação estranha, algo inexplicável. Um aperto na boca do estômago.
Ela então sacudiu a cabeça, tentando deixar a sensação incômoda de lado. E foi caminhando até sua sala.
Apoiada numa parede, próxima dali, Lara Malfoy observara toda a cena. Atentamente. Um sorriso de lado surgiu em seus lábios. E uma idéia genial estava se formando.
------------------------------------------
Melissa seguia apressada seu caminho pelo pátio. Ela estava um tanto atrasada para a primeira aula. Desta vez, não propositalmente. Ela teve que ouvir um longo e chatíssimo discurso de sua mãe, que a acusava de estar aprontando em Hogwarts. Apesar de Melissa ter sido citada como "misteriosa" no site, a mãe da jovem estava convencida que a filha tinha voltado aos antigos hábitos ruins. Ainda mais após ver a foto de Remus, com o olho roxo, e o nome de Melissa associado ao fato. A garota tentou argumentar, mas a mãe estava determinada em acreditar no site. E o resultado disso foi uma longa e nervosa discussão entre as duas, e um castigo de uma semana para Melissa.
Mas a garota nem estava se importando com o castigo. Ela saberia que conseguiria fugir dele se fosse necessário. Não que esse fosse seu plano, já que ela praticamente não tinha motivos para deixar sua casa à noite, ainda mais agora que estava começando a nevar, mesmo que de leve, durante as madrugadas. Bem, o praticamente que a garota pensava tinha uma exceção. E ela fazia muita força para evitar ficar pensando nesta exceção o tempo inteiro. Porque se ela continuasse com aquilo, acabaria pulando a janela de seu quarto, e indo parar bem em frente à casa dele.
Tentando não visualizar o rosto perfeito do rapaz que dominava sua mente, ela não percebeu a aproximação de alguém. Quando a pessoa estava bem ao lado dela, ela ouviu sua voz falando.
- Por quanto tempo você acha que vai conseguir fugir de mim?
Ali estava ele. O pátio da escola estava praticamente vazio, salvo por alunos que corriam para suas salas, tentando evitar uma bronca dos professores. Melissa parou imediatamente ao vê-lo. Era óbvio que ele estivera esperando que ela chegasse à escola. Ele nunca se atrasava para as aulas.
Tentando evitar o encontro de seu olhar com aqueles olhos, ela apenas falou, voltando a caminhar.
- Não estou fugindo de ninguém.
Remus apenas levantou uma das sobrancelhas, e começou a andar ao lado dela. Melissa começou a apertar os livros que trazia nos braços. Tentando conter o nervosismo idiota que tomou conta dela.
- Então por que eu precisei ficar aqui te esperando? – ele falou, com um pequeno sorriso no canto dos lábios.
- Eu... tenho estado ocupada. – ela viu que ele rebateria sua frase, então tentou mudar o rumo da conversa, numa tentativa de evitar que o assunto fosse parar na noite de réveillon, e de todos os seus acontecimentos – E você, por que não entrou para assistir a aula? Eu estudo na mesma sala que você, não justifica ter me esperado do lado de fora.
Mas Remus sorriu, o olhou para ela por um instante. Parecia ter percebido que ela estava falando qualquer coisa, por estar nervosa. E apenas falou, com o sorriso ainda nos lábios.
- Eu não me importo em me atrasar para uma aula.
- Desde quando? Você nunca se atrasa para nada.
O rapaz riu de novo, desta vez de uma forma que Melissa sentiu o ar escapando de seus pulmões instantaneamente. E ele falou, num tom que misturava divertimento com audácia.
- Talvez eu seja mesmo um bad boy, como andam dizendo por aí.
Mas Melissa fechou a cara, e falou, num tom de reprovação.
- Muito cedo para piadas deste tipo.
Ele então se colocou na frente dela, e falou.
- E se não for uma piada?
Melissa tentou desviar dele, mas ele a impediu. Ela foi forçada a olhar para o rosto dele, e disse, numa voz incerta.
- Pare com isso.
Remus então ficou mais sério. E falou.
- Claro. Desde que você converse comigo.
O olhar dele a fez lembrar imediatamente das frases que ele sussurrou no ouvido dela, na noite do réveillon. A mera lembrança daquela sensação a fez inspirar mais profundamente. Ela tentou falar qualquer coisa, mas nada lhe ocorria. Então ele falou.
- Sai comigo hoje à noite. Aí nós podemos conversar com calma.
Melissa assumiu uma postura defensiva no mesmo instante. E falou, num toma mais baixo.
- Estou de castigo.
Mas Remus sorriu, e falou.
- Achei que você não obedecesse a esse tipo de coisa.
Ela conseguiu recuperar um pouco de sua postura, e rebateu.
- Talvez esta seja minha resolução de ano novo.
Mas Remus não continuou sorrindo. Ele a olhou de modo tão carinhoso, e falou num tom tão macio que Melissa teve que desviar o olhar ao ouvir sua voz.
- Eu pensei que sua resolução de ano novo fosse se abrir mais. Baixar as barreiras.
Melissa sentiu sua garganta ficar seca. Sem ter nada que pudesse ser meramente inteligente para dizer, ela apenas deu um passo para trás, e baixou a cabeça. Mas Remus se aproximou novamente, e tentou pegar a mão dela. Mas Melissa conseguiu se desvencilhar rapidamente, e saiu andando. Falou, entre passos apressados.
- Eu... tenho que ir. Estamos atrasados para a aula.
Remus inspirou profundamente. Continuou parado por alguns instantes, e então seguiu seu caminho, atrás de Melissa, até a sala de aula.
Todo o avanço que eles tinham feito na noite de ano novo parecia ter desaparecido como fumaça. E ele não sabia o que fazer para recuperá-lo.
--------------------------------------------
Quando Melissa entrou na sala, seguida de Remus, ela logo estranhou o posicionamento de seus amigos. Ela caminhou até seu tradicional lugar, mas imediatamente após sentar acenou para Lily. A ruiva tinha a testa franzida, e parecia mais nervosa que o habitual. Então Melissa aproveitou a distração do professor, escrevendo a matéria no quadro, e perguntou para a amiga.
- O que aconteceu, Lily?
Lily inspirou profundamente, e respondeu, num tom incerto.
- Eu... não sei.
Melissa olhou para o canto da sala. Lá, ela viu Ellie sentada no lugar que ocupava desde que discutira com Sirius. Mas ela não estava sozinha ali. Na frente dela, de forma surpreendente, estava sentado James. A dupla de amigos conversava num tom baixo, e ininterruptamente. O rapaz tinha abandonado seu local tradicional, ao lado de Sirius, e atrás de Lily. O próprio Sirius parecia não compreender direito o motivo da mudança, já que volta e meia olhava para os dois, e franzia a testa.
- Vocês brigaram? – perguntou Melissa, observando Ellie colocando uma das mãos no ombro de James, e fazendo um carinho de leve. James tinha uma expressão de tristeza no rosto.
Lily demorou um instante para responder.
- Não. – mas ela também não teve coragem de dizer que estava evitando o namorado.
- Estranho. – Melissa concluiu.
No canto da sala, sob olhares de vários alunos da sala, Ellie e James conversavam num tom tão baixo que ninguém á volta deles conseguiria ouvi-los. E a garota falou, fazendo um carinho no ombro do amigo.
- Ela está olhando para cá.
James apenas inspirou, e não falou nada.
- Jay... quem sabe você não está enganado? Ela também não está me procurando, deve estar muito ocupada com a monitoria.
- Ela está estranha desde Paris, Ellie. – James falou, num tom chateado.
- Mas... – Ellie tentou, mas não tinha argumentos. E James rebateu.
- Ela está me evitando, Ellie. Está completamente óbvio.
Ellie não disse nada. Apenas suspirou desanimada.
Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes. Ellie ainda estava com a mão no ombro do rapaz. Ele apenas alcançou a mão dela, e a segurou. Após alguns segundos de silêncio, ele falou.
- Como você está?
Ellie abaixou o olhar. E respondeu, entre um suspiro.
- Na mesma.
- Vocês vão se entender. – James falou, num tom bem mais convicto.
Ellie exibiu um sorriso triste para o amigo.
- Não vamos, Jay.
- Mas vocês ficaram tanto tempo... – James começou a falar, mas foi interrompido pela garota.
- James. – ela inspirou, e ele ficou em silêncio, esperando a conclusão dela – Algumas coisas não são para dar certo mesmo.
James abaixou o olhar. Ficou pensando no que a amiga tinha acabado de falar. Será que eles dois estavam fadados ao desastre em seus relacionamentos?
- Era bem mais fácil antes. – James concluiu.
- Quando? – Ellie perguntou.
- Quando nós não nos envolvíamos de verdade com ninguém. Era tudo só... diversão. Nenhum relacionamento era sério de verdade.
Ellie suspirou de desânimo, e falou.
- Nunca pensei que fosse sentir saudade dessa época.
- É. – James concordou. Olhou de relance para a direção de Lily, e completou – Nem eu.
-------------------------------------
O intervalo chegou, e Lily fez menção de ir até Ellie e James, e desfazer qualquer clima ruim que pudesse estar acontecendo naquele momento. Mas os dois praticamente desapareceram ao ouvirem o sinal tocando. E sumiram das vistas de todos durante todo o intervalo.
Sirius se aproximou de Lily, ao vê-la olhar para todos os lados do pátio, inutilmente buscando James e Ellie com os olhos. E ele falou, num tom desanimado.
- Ei Lily.
- Oi Sirius. – ela respondeu.
Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes. Então Sirius finalmente disse.
- Como ela está?
Lily ficou com pena de Sirius. Ele parecia tão desanimado que mal lembrava o risonho e brincalhão amigo que sempre fora. Ela não tinha uma resposta boa o suficiente, então fez o que pode.
- Está... indo, eu acho. Não falei com ela hoje. Quer que eu pergunte para ela?
Sirius olhou para o jardim, com o olhar perdido. E respondeu.
- Não precisa.
Novo silêncio entre eles. Então Sirius falou novamente.
- O que aconteceu com o Jay? Ele foi lá sentar com ela, nem falou com a gente.
Lily também não tinha uma resposta para essa pergunta. E falou, automaticamente.
- Eu... não sei.
Sirius olhou para a ruiva por alguns instantes. Ele notou a expressão de apreensão de Lily, e falou, num tom de consolo.
- Pelo menos eles estão juntos. Podia ser bem pior.
Lily franziu a testa, e perguntou.
- Como assim?
Sirius inspirou profundamente, e falou.
- Eles poderiam estar com outras pessoas.
Lily imediatamente lembrou-se de sua briga com James, quando seu ex-namorado Mark a beijou numa festa na casa de Ellie. E como ele tinha sido prontamente consolado por Debbie Sullivan. Ela concordou imediatamente com Sirius. Sim, poderia ser muito pior.
Lily olhou para Sirius, e o viu encarando o chão. Ela sentiu uma imensa vontade de contar para ele o que ela e as garotas estavam fazendo, que estavam tentando descobrir a origem da fofoca sobre ele e Ellie. Queria dizer que tudo ia acabar bem, e eles poderiam retomar o namoro assim que tudo estivesse esclarecido. Mas como ela sabia que Sirius era muito impulsivo, e não costumava medir as palavras, achou melhor esperar. Quando elas descobrissem tudo, e desmascarassem o fofoqueiro, ele ficaria bem.
Então Sirius levantou a cabeça, e falou, com um sorriso torto e triste nos lábios.
- É, nós dois estamos ferrados mesmo, não é? Ninguém mandou nos apaixonarmos por duas pessoas com tantos problemas de confiança.
Lily franziu a testa, sem entender a frase de Sirius. Ele percebeu a dúvida dela, e explicou.
- Os dois. Sempre com um pé atrás. Sempre esperando o pior. Acha que ele é tão ciumento à toa?
Lily continuou olhando para Sirius, e falou.
- Ele te contou... sobre a briga que tivemos na noite de réveillon?
Sirius confirmou com a cabeça. Lily então pensou sobre o que Sirius tinha falado. Nunca tinha percebido como James e Ellie eram realmente como ele dissera. Ellie imediatamente acreditou numa fofoca, sem dar crédito ao namorado que a amava. E James constantemente a acusava de estar traindo-o, seja com Mark ou com Kyle. Realmente, Sirius estava certo. Os dois pareciam ter problemas em confiar nas pessoas que amavam.
- Mas sua situação é bem melhor que a minha. O James quebrou todas as regras que tinha por você, Lily. Ele nunca se envolvia antes. Ele foi atrás de você. Eu nunca o vi fazendo isso. Meu problema é bem pior.
Lily novamente ficou com pena do amigo, e falou.
- Não diz isso...
- Mas é verdade. – Sirius falou, colocando as mãos nos bolsos da calça – Ela é bem pior. Acho que ela nunca confiou realmente em mim, sabe? Eu sei que nunca fui santo, mas sempre fui honesto com ela. E ela sempre foi a garota dos meus sonhos. Era só ela acenar com uma possibilidade que fosse, que eu iria atrás. E quantos anos demorou para isso acontecer? Uma eternidade.
Lily tentou encorajá-lo, já que não podia contar que, se seus planos dessem certo, Ellie certamente ficaria muito arrependida do término do namoro entre os dois. Então ela falou.
- Quem sabe ela muda de opinião? As coisas podem se acertar, Sirius.
Sirius fez uma expressão de descrédito.
- Ela não vai dar o braço a torcer, não vai engolir o orgulho e se desculpar. É a criatura mais teimosa desse mundo. Fora que eu não vejo essa possibilidade, Lily. Ela acreditou na primeira mentira que ouviu por aí. Sei que não ajudei muito com o que eu falei essa semana, mas eu não posso ficar aqui, esperando ela vencer o pavor que tem de se envolver completamente. Eu me joguei de cabeça. Ela devia ter feito o mesmo. E não ficar com medo.
Lily olhou para Sirius, levemente admirada. Ela não imaginava que ele pudesse ser desta forma, tão coerente e ciente dos problemas de seus amigos. Debaixo do exterior sempre brincalhão e displicente, ele era uma pessoa como qualquer outra. Queria ser correspondido em seus sentimentos. E estava magoado por ter sido injustiçado e abandonado pela garota que amava.
Incapaz de dizer qualquer coisa, Lily apenas deu dois tapinhas de leve no ombro do rapaz. Ele tentou sorrir, mas seu sorriso saiu tão triste que seria melhor se ele tivesse mantido a expressão séria. Então a garota apenas suspirou, olhando para o jardim da escola. Nenhum sinal de James ou Ellie. Ela olhou de relance para Sirius, e ficou pensando sobre as coisas que o amigo tinha dito.
É, ele tinha razão. James e Ellie eram complicados. E Lily se perguntou se esse fato seria a ruína do relacionamento entre todos eles.
-------------------------------------------
A aula acabou, naquela sexta feira, de forma inusitada. James e Ellie foram embora juntos, sem ficarem para suas atividades extras do dia. Saíram andando apressados, de mãos dadas, como se um estivesse apoiando o outro. Lily percebeu que não adiantaria nada tentar falar com os dois. Era melhor dar um pouco de espaço para ambos. Ela sabia que tinha um problema mais urgente para lidar. E, se todas as suas esperanças se concretizassem, ela poderia resolver praticamente todas as questões que perturbavam os amigos de uma vez só.
Ela tinha combinado de se encontrar com as garotas após o término das atividades extras. Ela só teria monitoria naquele dia, não teria treino da torcida, já que Ellie tinha cancelado o treino e ido embora cedo. Então Lily atendeu seus alunos, mas olhando constantemente para a porta. Ela tinha a esperança de Kyle entrar por ali de repente, dizendo que tinha descoberto o culpado pelas fofocas. Mas obviamente isso não aconteceu, já que seu último aluno foi embora, e ninguém bateu em sua porta.
Ela recolheu seu material e o deixou em seu armário. Olhou para a sala de Kyle, no fim do corredor, e viu que a luz estava apagada. O rapaz não estava ali. Conformada, Lily seguiu em direção ao pátio. Chegando à porta do centro de monitoria, ela encontrou Melissa sentada nos degraus da pequena escada. A morena levantou-se imediatamente, e falou.
- Alguma novidade com o Wilshire?
Lily negou com a cabeça.
- Nada. Ele não está na sala dele. Deve ter ido embora.
Melissa suspirou, desanimada. Ela queria resolver logo aquela situação. Queria poder voltar a trabalhar no jornal da escola, que estava suspenso até uma reunião que aconteceria entre os professores, na semana seguinte. E, por mais estranho que pudesse parecer para ela, a garota desejava ardentemente resolver as questões da fofoca, para ajudar seus novos amigos. Por mais que fosse estranho admitir, ela estava chateada pelos problemas entre eles. Um sorriso muito rápido chegou aos seus lábios. Ela passara tanto tempo não se importando com ninguém que era realmente bizarro nutrir esse tipo de sentimento tão rápido, e por tantas pessoas. Sua vida tinha dado mesmo uma guinada quando ela adentrou pela primeira vez os portões daquela escola.
- Você encontrou a Marlene e a Alice? – perguntou Lily.
- Só mais cedo. Elas disseram que vão vir aqui assim que terminarem suas atividades.
Lily concordou com a cabeça. Ia abrir a boca para falar, mas uma voz a interrompeu.
- Lily! Lily!
Kyle vinha correndo, com os cabelos balançando desajeitadamente. Ele tinha uma expressão atônita no rosto, e Lily imediatamente se adiantou em sua direção. Aquilo só podia ter um significado: ela descobrira o autor das fofocas.
- Kyle! – ela gritou de volta, vendo ele se aproximar rapidamente.
Melissa rapidamente se juntou aos dois, e Kyle ofegava, na frente das duas.
- O que foi? – Lily perguntou, ansiosa.
O rapaz inspirou profundamente algumas vezes, e falou.
- Eu descobri quem foi.
Melissa arregalou os olhos, e disparou, numa voz rápida.
- Fala logo!
Ele inspirou mais algumas vezes, e começou a explicar.
- Eu consegui conversar com as últimas pessoas que faltavam. Eles eram meus principais suspeitou, já que tinham bastante fama de gostar de fofoca. E todos eles me apontaram a mesma pessoa como fonte da informação sobre Sirius e Ellie.
- A mesma pessoa? – perguntou Lily, sem se conter.
- Quem? – exigiu Melissa.
Kyle inspirou profundamente, e respondeu.
- Betty Gilbert.
O queixo de Lily caiu. Ela não conseguiu ter reação alguma. Melissa franziu a testa, e falou.
- A loira da Lufa-lufa, do nosso ano?
Kyle confirmou com a cabeça. Lily ainda não esboçava reação alguma. E Kyle continuou sua explicação.
- Todos eles ouviram dela o relato da fofoca. Você lembra que a fofoca estava espalhada numa terça feira, logo após o fim de semana em questão? Pois bem, eles me falaram que ouviram a fofoca da boca da Betty, no início do intervalo, na segunda feira! Foi a partir daí que a fofoca se espalhou. E todas as outras pessoas que perguntei falaram que foram ouvindo as fofocas depois desse horário.
- Então isso quer dizer que a Gilbert é a responsável pelo site? Mas ela sempre me pareceu tão... burra. – Melissa falou, com a testa franzida.
Kyle olhou por um instante para Lily, que ainda parecia em outra dimensão. Então respondeu a pergunta de Melissa.
- Se você quer minha opinião, eu diria que ela não tem nada a ver com o site. Ela faz monitoria de informática, e é uma aluna bem fraca no assunto. Acho que os dois problemas não estão ligados. Acredito que o responsável pelo site é alguém que não teve conexão direta com a fofoca de Sirius e Ellie.
Melissa concordou lentamente com a cabeça. Sim, Kyle tinha razão. Betty Gilbert mal sabia ligar um computador, e era uma aluna sofrível. Com certeza não poderia ter invadido o site da escola. Mas isso não explicava como ela tinha tido acesso à informação sobre a noite entre Sirius e Ellie.
Kyle olhava preocupado para Lily. A garota não reagia, parecia perdida em seus próprios pensamentos. Tanto que o rapaz aproximou-se delicadamente, e falou, num tom suave.
- Lily... você está bem?
Lily finalmente acordou. E olhou para Kyle de forma decidida. E falou.
- Você falou com a Gilbert, Kyle?
Kyle negou com a cabeça.
- Não. Mas sei que ela ainda está na escola, ela deve estar terminando a monitoria de Inglês.
Lily olhou para Melissa. As duas ficaram se encarando em silêncio por um segundo. Era como se tivessem se comunicado por telepatia. Então Lily falou.
- Vamos resolver isso, Mel. De uma vez por todas.
Melissa concordou com a cabeça. E Lily virou-se para Kyle, e falou.
- Kyle, você pode esperar por Marlene e Alice? Elas estão para chegar daqui a pouco.
Kyle concordou com a cabeça, e falou.
- Eu falo com elas.
Lily acenou brevemente com a cabeça, e falou.
- Obrigada por tudo, Kyle. Mas nós assumimos daqui para frente.
Kyle teve um pouco de receio a respeito do que as duas pudessem fazer. Mas não fez nada, e apenas viu as duas entrarem no centro de monitoria. E ouviu a voz de Melissa soando muito séria.
- Vamos lá.
-------------------------------------------
Lily e Melissa saíram decididas, andando direto até encontrar Betty. Percorreram os corredores do centro de monitoria. Finalmente a encontraram andando distraída pelo corredor do andar térreo, olhando para uma folha que tinha nas mãos. A garota não percebeu a aproximação das duas. Tanto que se assustou quando deu de cara com as grifinórias.
Betty encarou Melissa e Lily com os olhos arregalados. Tentou abrir a boca, mas nenhuma palavra saiu de seus lábios. Então Melissa tomou a iniciativa, e começou a falar.
- Pode ir confessando, Gilbert.
A garota arregalou ainda mais os olhos. E ficou visivelmente nervosa. Mas tentou responder, debilmente.
- Confessar o que? Não tenho idéia do que você está falando.
Melissa levantou uma das sobrancelhas, e se aproximou um pouco mais de Betty. Ela caprichou na expressão amedrontadora, e viu que ela foi muito eficiente, já que Betty se encolheu visivelmente.
- Você espalhou aquele boato sobre a Ellie e o Sirius. Confessa.
Betty desviou o olhar. Lily começou a respirar mais intensamente. Ela mal continha a raiva. Estava apenas esperando a confirmação da boca daquela maldita.
Mas Betty tentou enrolar, gaguejando.
- Eu... não sei...
Ela parou de falar quando viu duas pessoas se aproximando. Lily e Melissa se viraram, e viram Marlene e Alice se juntando a elas. E ambas tinham expressões tão bravas quanto ela. Era bem provável que Kyle tivesse contado para as duas sua teoria.
Cercada por quatro garotas visivelmente raivosas, Betty se descontrolou. E começou a resmungar.
- Olha aqui, Kensington, eu não tenho culpa de nada! Eu não inventei boato, era tudo verdade!
Alice abriu a boca, e ficou muito vermelha. Marlene estreitou os olhos, como um predador prestes a abater a presa. Lily inspirou profundamente, e prendeu a respiração. Melissa, um pouco mais controlada que as outras, deu um cutucão nem um pouco amistoso em Betty, e exigiu.
- Cospe logo tudo!
A garota olhou para as quatro amigas que a cercavam, e viu que era inútil tentar fugir. E começou a despejar tudo de uma vez.
- Tá, eu confesso! Eu estava naquele maldito banheiro, e ouvi as duas entrarem. E ouvi a conversa, onde ela contou tudo sobre a noite que eles passaram juntos. Fui eu, sim!
PLAF!
Nenhuma das garotas conseguiu reagir tão rápido quanto Lily. Ela deu um tapa estalado do rosto de Betty, e partiu para cima da garota.
- SUA VACA! – ela gritou, deixando toda sua raiva fluir.
Melissa, que estava ao lado de Lily, ficou tão surpresa com a reação da ruiva que demorou um segundo para reagir. Quando ela tomou consciência do que acontecia, Lily já estava no chão, em cima de Betty, tentando socar a garota como podia.
- Lily! – Marlene gritou, assustada.
- SUA VAGABUNDA RIDÍCULA! EU VOU TE MATAR! – Lily gritava, mais vermelha que seus cabelos.
Imediatamente Melissa, com a ajuda de Alice, agarrou os braços de Lily, impedindo a ruiva de quebrar o nariz de Betty, ou de arrancar seus cabelos loiros.
Mas Lily não se deu por vencida. Mesmo presa pelos braços das amigas, ela ainda se debatia, e gritava.
- Você vai ver! Eu vou quebrar sua cara!
Betty, caída no chão, estava visivelmente descontrolada. Ela gritou, assustada.
- Essa doida quer me matar!
- AINDA BEM QUE VOCÊ SABE! – gritou novamente Lily.
- Lily, fica calma! – tentava, inutilmente, Marlene.
Mas Betty começou a chorar. Descontroladamente. Melissa olhou para a garota, franzindo a testa. E a ouviu despejando as palavras aceleradamente.
- Eu... não achava que fosse acontecer tudo isso! Achei que eles iam brigar, mas que iam voltar. Eles sempre brigam, e sempre voltam! Eu pensei... que poderia ter uma chance com ele. Mas ele nem olha para mim! Ele sempre continua... atrás dela!
Lily bufou raivosa, sem conseguir formar palavras para retrucar o que a loira tinha dito. Ela começou a diminuir suas tentativas de escapar das mãos de Melissa e Alice. Marlene se aproximou dela, e tentou fazer a ruiva se acalmar ainda mais.
- E o site do jornal da escola. O que você sabe a respeito dele? – Melissa questionou.
Betty franziu a testa, enxugando algumas lágrimas que desciam pelo seu rosto. E falou, com uma expressão sincera de surpresa.
- O que tem o site da escola? Eu sei lá sobre isso! Recebi um email com o link, e vi como todos os outros alunos da escola. É só o que sei!
Melissa viu que a garota estava sendo sincera. Mas esse assunto poderia ser deixado de lado temporariamente. Ainda mais com a confusão que elas tinham que resolver, naquele momento.
Betty continuava chorando, sentada no chão. Lily respirou fundo, e parou de se debater. Então Melissa soltou o braço de Lily, e abaixou para falar com Betty. A loira se assustou inicialmente com a aproximação de Melissa, mas logo viu que ela não iria atacá-la, como fez Lily. Então Melissa falou.
- Pode parar com esse escândalo. E levanta logo.
Betty franziu a testa, e enxugou as lágrimas. Sem entender, ela ficou olhando para Melissa. Mas a morena não teve paciência para explicar, e pegou o braço da Lufa-lufa, sem maiores justificativas.
- Ei! – ela protestou – O que você está fazendo?
- Você vai consertar essa besteira. E não reclama, senão eu dou todo incentivo para a Lily transformar sua cara em paçoca.
Betty arregalou os olhos, e foi erguida pela mão de Melissa. Ela se viu cercada pelas quatro amigas, e inspirou profundamente. Assustada, ela falou.
- Consertar... como?
Melissa se aborreceu com a insistência da garota, e falou, sem paciência.
- Você vai ver. E anda logo!
-------------------------------------
O taxista conduzia seu veículo com a testa franzida. Ele não tinha idéia do que aquelas garotas malucas estavam aprontando, mas tinha certeza de que coisa boa não era. Ele parou quando uma garota loira de cabelos compridos acenou, e imaginou que apenas levaria amigas para um passeio num shopping, ou coisa parecida. E ele não esperava nada parecido com aquilo.
Uma garota de cabelo castanho-escuro na altura dos ombros empurrou uma ruiva para o banco da frente, e falou.
- Lily, se comporta!
A ruiva parecia espumar de raiva. E ela olhava fixamente para uma loira de cabelos curtos, que parecia ter sido obrigada a entrar no táxi. A menina aparentava estar em pânico. Juntamente com ela, as outras se espremeram no banco de trás do táxi, e deram o endereço de onde iam.
Durante toda a corrida, a garota mais baixa, que tinha cabelos pretos longos, parecia repetir ameaças, muito baixo, para a loira. A garota arregalava os olhos cada vez mais, e a ruiva parecia estar a aponto de pular no banco de trás, e dar uns sopapos na garota.
O taxista rezou silenciosamente para que aquelas garotas malucas não estivessem seqüestrando a loira. Ou que fossem fazer algum tipo de ritual satânico com ela.
Quando ele chegou ao endereço fornecido, a ruiva saltou apressada. As outras três, a loira de cabelos grandes, a morena de cabelos médios, e a de cabelos pretos, saltaram do carro, e obrigaram a loira a saltar também. Ele olhou discretamente para a casa que elas se encaminhavam, e viu que era uma grande casa branca. Após receber o pagamento pela corrida, ele ainda ficou alguns segundos olhando para as garotas. Esperando sinceramente que elas não machucassem a pobre menina que levavam como refém.
-------------------------------------------------
Betty estava em pânico. Ela sabia exatamente onde estava. E aquele era o último lugar que ela queria estar, naquele momento.
- Está nevando. – ela resmungou, tentando achar alguma desculpa qualquer. – Ela deve ter saído de casa.
Um olhar assassino de Lily foi o suficiente para que Betty se calasse. Alice se adiantou, e tocou a campainha.
Não muito tempo depois, alguém abriu a porta. Para alegria das quatro amigas, e desespero de Betty, era exatamente a pessoa que elas esperavam.
Ellie.
Ela estava vestida com roupas de ficar em casa. Uma calça de algodão justa, uma camiseta e um casaquinho bem fino, de cashmere. E ela parecia bem desanimada. Mas arregalou os olhos ao ver as amigas em companhia tão inusitada.
- Oi... garotas. – ela falou, sem entender nada.
Melissa então segurou o braço de Betty, e falou.
- Anda logo. Conta tudo para ela.
Betty olhou para Ellie, com uma expressão de pânico. Ellie era conhecida por seu temperamento explosivo, quando estava com raiva. A cena da garota dando um soco no nariz de Lucius Malfoy se repetia na mente de Betty, sem parar. Ela tinha certeza que, o que quer que Ellie fizesse com ela, seria muito pior.
- Ah... eu... – ela gaguejou.
- Acho que devemos deixar a Lily se resolver com ela. O que vocês acham? – falou Alice, olhando para as amigas.
Imediatamente, Lily, Melissa e Marlene concordaram.
- Você tem razão. Deixa a Lily resolver. – falou Marlene, com um sorriso no rosto.
Melissa apenas acenou com a cabeça. Lily tinha um brilho de satisfação nos olhos, e se aproximou da garota.
- Tá, eu falo! Eu falo! – Betty se desesperou.
Ellie estava achando aquilo cada vez mais esquisito. Ela abriu a boca para falar, mas foi interrompida no meio.
- Mas o que está acon...
- Fui eu! – Betty falou, muito rápido. – Fui eu que falei sobre você e o Sirius!
Ellie ficou olhando para a loira. Totalmente sem reação. Seus lábios se entreabriram. Mas ela não falou absolutamente nada. E Betty continuou seu discurso assustado.
- Eu ouvi você e a Evans conversando no banheiro. Você contou sobre a noite que vocês passaram juntos. Eu me escondi num dos reservados, e ouvi tudo. E espalhei como se o Sirius tivesse contado. Fui eu!
A expressão no rosto de Ellie era de total surpresa. Ela estava estática, na mesma posição. Uma de suas mãos ainda se apoiava na porta da casa. Ela nem parecia respirar.
- Eu falei... eu achava que... não fosse acontecer nada de mais...
Então Ellie reagiu. Ela lançou um olhar de desprezo tão grande para Betty, que a garota se encolheu, com medo. Estava preparada para o furacão que ela tinha certeza que viria.
Ellie começou a olhar de um lado para o outro. Estava se lembrando de todos os momentos que se sucederam à descoberta da fofoca em Hogwarts. De como tinha brigado com Sirius. De como eles terminaram o namoro, numa conversa de partir o coração. Lembrou de como ela sofreu, e viu Sirius sofrer em sua frente. E imaginou como ele deve ter se sentido. Então, naquele instante, ela percebeu o mais importante.
Não era Betty, aquele verme em sua frente, com cara de pânico.
Não era o que ela sentia naquele momento, descobrindo a verdade.
E também não era o fato de Sirius ser completamente inocente nas acusações que circularam a escola.
O mais importante era Sirius. A injustiça gigantesca cometida por ela. Mesmo que ela tivesse sido enganada, como todos os outros, por Betty.
A única coisa que importava era Sirius. E como ele devia ter sofrido. E como ainda devia estar sofrendo.
Ellie sentiu um aperto enorme no peito. Sirius estava sofrendo por algo que ela tinha feito. Por mais que ela tivesse sido enganada, foi ela quem terminou o namoro. Foi ela quem acreditou numa fofoca, e não na palavra dele.
Ellie sentiu sua garganta apertar.
Sirius não merecia aquilo. Ele simplesmente não merecia.
Sem dar nenhuma atenção para Betty, ou para qualquer outra coisa, Ellie simplesmente empurrou a garota de sua frente, e saiu correndo pela entrada de sua casa. Suas amigas arregalaram os olhos. Melissa ainda conseguiu gritar, mesmo com Ellie correndo à maior velocidade que conseguia.
- Ellie! Aonde você vai?
Sob a neve que começava a se intensificar, ela gritou de volta, sem olhar para trás.
- Tentar consertar o maior erro da minha vida!
---------------------------------------
As garotas ficaram se olhando, sem apresentar reação alguma. Ellie desapareceu rapidamente do campo de visão delas. Então Lily finalmente decretou.
- Eu acho... que ela foi atrás dele.
Marlene concordou com a cabeça. Alice olhou para Melissa, que abriu um pequeno sorriso. Ela logo voltou sua atenção para Betty, e falou.
- Bem, já que esta parte está resolvida, falta resolvermos o que vamos fazer com você.
Betty arregalou os olhos, em pânico. E começou a falar, muito rápido.
- Não! Eu fiz o que vocês pediram. Eles vão se acertar. Tudo vai ficar bem. Deixem-me em paz!
Mas Lily também virou para Betty, e falou.
- Nós não temos certeza se ele vai aceitar o pedido de desculpas dela. Então sua idiotice ainda pode ter conseqüências muito sérias.
Betty se encolheu. Estava morrendo de medo de Lily. Ela falou, com a voz tremendo.
- Não! Eu quero ir embora! Vocês... eu já fiz o que podia!
As quatro garotas se entreolharam. Uma conferência silenciosa foi feita entre elas, então Alice finalmente disse.
- Está bem. Você pode ir. Mas...
Betty já estava tentando se afastar das garotas, quando um passo mais brusco de Lily em sua direção a fez parar e ouvir o que elas tinham a dizer.
- Se você andar espalhando o que quer que seja a respeito dos dois, ou de qualquer outra pessoa, você vai se ver com todas nós. – Melissa falou, num tom de voz frio.
- Eu não vou ser tão boazinha como fui hoje. – Lily falou, e ela viu Betty estremecendo.
- Esquece o Sirius e a Ellie. Não chegue perto dos dois. – Advertiu Marlene.
- É melhor você nem olhar para eles. Porque se soubermos que você tentou aprontar mais uma... – Alice ameaçou.
- Você vai se ver não só com a Lily, mas com todas nós. Na verdade, acho que conseguiremos um bom número de pessoas para ajudar a nossa causa. – retomou Melissa.
- Entendeu bem? – perguntou Marlene.
Betty apenas concordou com a cabeça, doida para fugir dali o quanto antes. Mas, antes que pudesse ser liberada, Lily olhou diretamente nos olhos dela, e falou.
- Nós vamos ficar de olho.
Betty arregalou os olhos, e saiu correndo na primeira oportunidade. Elas viram a garota correndo desvairada pela rua, e entrando no primeiro táxi que achou. Então elas se entreolharam, e sorriam satisfeitas. Alice foi a primeira a falar.
- Bem, eu acho que vai dar tudo certo.
- Você acha que eles vão se entender? – perguntou Melissa.
- Ah, com certeza. – Marlene respondeu – Nós ficamos vendo por anos os dois assim, um louco pelo outro. Não vai ser isso que vai separá-los.
- É verdade. – concordou Alice – Desde que eu me lembro, os dois são a fim um do outro.
Mas Lily não estava participando da conversa. Seu olhar estava perdido. Agora que a situação de Ellie e Sirius parecia encaminhada para uma solução, ela parou para pensar na sua própria situação. Ela tinha evitado a conversa com James por toda a semana. E, curiosamente, agora que ela tinha conseguido ajudar a amiga, ela percebeu que era hora de definir sua própria vida. Precisava falar com James.
- Lily? – falou Marlene. – Você está ouvindo o que estamos falando?
Lily acordou de seu devaneio. Olhou para as amigas, e falou.
- Meninas, eu tenho uma coisa para fazer.
- A respeito da Ellie e do Sirius? Achei que estava tudo encaminhado. – perguntou Alice.
Lily então olhou para a casa em frente à de Ellie, e respondeu.
- Não. Agora o que eu tenho para resolver diz respeito à outra pessoa.
Melissa acompanhou o olhar de Lily, e entendeu que a pessoa em questão era James. Então apenas acenou com a cabeça, e falou.
- Então vai lá.
Ela sorriu brevemente para as amigas, e saiu andando em passo apertado na direção da casa dos Potter. Ela olhou para trás rapidamente, e viu as três garotas acenando para um táxi, e conversando, animadas. Então ela criou coragem, e tocou a campainha da casa do namorado.
Não demorou muito para alguém atender a porta. Ela corou muito de leve ao ver que quem a atendeu era Dorea Potter, mãe de James.
- Oh, olá Lily. Como vai, querida?
Lily sentiu seu rosto ficando ainda mais quente, mas foi capaz de responder.
- Vou bem, Sra. Potter. O James está em casa?
Dorea sorriu, e falou.
- Está sim, no quarto dele. Vai lá falar com ele.
Lily agradeceu, e seguiu pela casa do namorado, subindo rapidamente pela escada. Logo ela estava no segundo andar da casa. Num instante ela chegou à porta do quarto de James, que estava fechada. Sentiu sua mão tremendo quando bateu.
James, do outro lado da porta, apenas respondeu.
- Entra.
Lily criou coragem, e girou a maçaneta. Encontrou James deitado em sua cama, encarando o teto. Ele ouvia música, que dominava o ambiente. Apenas virou o rosto, e pareceu um pouco surpreso ao ver Lily ali parada, na porta.
- Lily?
Come
up to meet you, tell
you I'm sorry
You don't know how lovely you are
I had to find
you, tell you I need you
And tell you I set you apart
Tell me
your secrets, and ask me your questions
Oh let's go back to the
start
Lily inspirou profundamente, e entrou no quarto do namorado. Ele levantou, ficando sentado na cama. Lily foi até ele, e parou na frente dele, em pé ao lado da cama.
- James. Eu quero falar com você.
James baixou os olhos, encarando o chão. Ele fez uma expressão de desolação que simplesmente fez o coração de Lily se partir. Ela imediatamente ajoelhou no chão, e buscou os olhos dele, tentando fazer com que ele a olhasse.
- James...
Ele fechou os olhos e inspirou profundamente. Então falou, num tom de voz baixo.
- Você se arrependeu. Do réveillon. Do que nós fizemos.
Running
in circles, coming tails
Heads on a silence apart
Nobody
said it was easy
It's such a shame for us to part
Nobody said
it was easy
No one ever said it would be this hard
Oh take me
back to the start
Lily então pegou as mãos dele, que repousavam sobre os joelhos do rapaz. Ele abriu os olhos, e levantou o olhar o suficiente para olhar para a garota. Ela viu os olhos tristes de James, e inspirou profundamente. No instante seguinte, ela finalmente conseguiu falar o que pensava.
- Não. Eu não me arrependi.
James franziu a testa por um instante. Ele parecia confuso. Ia abrir a boca para falar, mas Lily delicadamente colocou um dedo em seus lábios, silenciando-o. Ela queria falar tudo de uma vez. Queria que ele entendesse o que ela estava sentindo.
- Eu não me arrependi. Eu só precisava de um tempo, James. Precisava entender o que tudo significou para mim.
James observava atentamente o que ela falava. Não fez menção de interrompê-la, então ela prosseguiu.
- Eu queria saber o que eu estava sentindo. Sei que para você foi diferente, porque não foi... a primeira vez. Mas para mim foi. E eu tive medo. Medo de que tudo mudasse entre nós. Medo do que você pudesse... ter achado do que aconteceu.
Imediatamente James reagiu, e falou.
- Mas Lily, eu...
Novamente ela o silenciou, e prosseguiu.
- Você esteve com outras garotas. Eu nunca estive com ninguém. Eu tive medo de que... você me comparasse com elas.
Ele olhou para Lily por um instante, e falou, desta vez sem ser interrompido.
- Eu nunca poderia fazer isso.
Lily franziu a testa, sem entender o que ele dizia. Então ele esclareceu.
- Porque você é incomparável. Você é... você, Lily. É única.
Lily perdeu o fôlego por um instante. Realmente não esperava tal frase, naquele momento. Ela tinha ido à casa de James para se desculpar, e acabou ouvindo algo tão lindo da boca de seu namorado que precisou se conter para não beijá-lo naquele exato momento.
James olhou nos olhos dela, e perguntou.
- Você teve medo disso? Então não se arrependeu?
Lily devolveu o olhar de James, e respondeu.
- Eu não me arrependi. Só achei que você poderia... achar que eu era pouco demais para você. Achei que, por eu ser eu ser inexperiente, e você não...
James imediatamente levantou da cama, e sentou no chão, ao lado de Lily. Com as mãos dela presas entre as suas, ele falou, num tom quase urgente.
- Pouco? Lily, como você algum dia poderia ser pouco? Isso nunca vai acontecer.
Lily baixou o olhar por um instante. James pegou o queixo dela, o ergueu, e continuou.
- E você não parou para pensar no que realmente aconteceu. O que nós fizemos... eu também nunca tinha feito.
Lily franziu a testa, e ele explicou.
- Eu nunca fiz amor com ninguém. E foi isso que nós fizemos no réveillon.
I
was just guessing at numbers and figures
Pulling the puzzles
apart
Questions of science, science and progress
Do not speak
as loud as my heart
And tell me you love me, come back and hold
me
Oh and I rush to the start
Lily foi lentamente desfranzindo a testa. E o entendimento da frase que James tinha acabado de dizer lhe atingiu. Eles não tinham feito sexo. Tinham feito amor. Era diferente. E, para total satisfação de Lily, James nunca tinha experimentado esta sensação antes. Tudo que ele tinha feito antes não se enquadrava no conceito de amor que ele tinha estabelecido para si mesmo. Era sexo. Com ela não tinha sido. Era a primeira vez dele, tanto quanto a dela. Pelo menos neste quesito.
E, para Lily, estar na mesma situação que James neste quesito era mais que suficiente.
Running
in circles, chasing
tails
Coming back as we are
Lily sentiu a mão direita de James abandonando seu queixo, e percorrendo o caminho até seu cabelo. Ele o afagou lentamente, e falou, num tom que fez Lily se derreter toda.
- Eu te amo.
Imediatamente ela reagiu. Jogou-se nos braços de James, abraçando-o firmemente entre seus braços.
- Eu também te amo, James. Desculpe pelo que fiz.
James envolveu Lily em seus braços, e falou.
- Não tem porque pedir desculpas. Só se lembre que você pode falar qualquer coisa comigo. Eu vou estar sempre aqui.
Lily não agüentou, e levantou o seu rosto, na direção do dele. James entendeu o movimento, e a encontrou no meio do caminho. Os lábios dos dois se tocaram suavemente, num beijo delicado.
Nobody
said it was easy
Oh it's such a shame for us to part
Nobody
said it was easy
No one ever said it would be so hard
I'm going
back to the start
O beijo lentamente foi ficando mais intenso. Lily sentiu James puxando-a para mais perto. Logo ele tinha feito a garota levantar, e sair do chão. Eles sentaram na cama de James, e voltaram a se beijar.
Quando Lily acariciou a nuca de James com seus dedos, o rapaz se afastou um pouco, e falou.
- Lily, tem mais uma coisa. Se você quiser nós podemos ir com calma. Deixar tudo correr lentamente. Eu não me importo de esperar...
Lily olhou para James, e sorriu brevemente. E respondeu.
- Eu sei que você não se importa. Mas eu não acho que isso vai ser preciso...
James franziu a testa por um instante, e Lily esclareceu.
- O que eu estou dizendo é que, quando uma nova oportunidade surgir, não vejo motivo para que ela não seja aproveitada.
James a encarou por um instante, e então sorriu, ao ver o sorriso tímido de Lily. Ele lentamente se aproximou da namorada, selando os lábios dos dois num beijo. E percebeu que, finalmente, estava tudo bem entre os dois.
----------------------------------
Ellie percorria as ruas do bairro, agora cobertas de neve, num estado quase febril. Ela não se importava com o chão escorregadio, com suas roupas finas demais para agüentar a intempérie. Suas roupas, por sinal, já estavam molhadas, pelo contato constante dos flocos insistentes de neve que caíam do céu.
Finalmente a garota chegou ao seu destino. Sem se importar com absolutamente nada, que não fosse seu objetivo de reparar a injustiça que tinha cometido, ela simplesmente entrou portão adentro da enorme mansão em estilo gótico da família Black. Para sua sorte, o portão estava aberto. Mesmo tendo ido pouquíssimas vezes em sua vida na casa de Sirius, ela sabia exatamente onde era o quarto do rapaz. Correu num ritmo acelerado até a lateral da casa, e parou exatamente embaixo da última varanda do segundo andar. A varanda do quarto de Sirius.
- Sirius! – ela gritou, sem se importar com o tom de voz. – Sirius!
Ela esperou por um instante. Nenhuma resposta. Então prosseguiu.
- Sirius!
Assim que ela gritou pela terceira vez, a varanda ao lado da que ela mirava se abriu. Ela sabia que aquela era a varanda do quarto de Regulus. E foi exatamente ele quem apareceu ali.
- Ellie? – o rapaz pareceu tanto admirado quanto espantado.
- Reggie... onde está seu irmão? – ela falou, num tom exasperado.
Mas Regulus ainda parecia espantado com a presença da garota ali. Com toda a raiva que a sua mãe nutria pela mãe de Ellie, ver a garota ali poderia não ser um bom sinal.
- Ellie... o que você está fazendo aqui?
Ellie inspirou profundamente, e respondeu. Ela continuava sem se importar com o tom de voz, ao contrário de Regulus, que falava baixo.
- Eu preciso falar com o Sirius!
- Ellie... fica calma... – Regulus pedia, mas sabia que era em vão. A expressão estampada no rosto da garota dizia claramente que ela enfrentaria o que fosse para poder falar com seu irmão mais velho.
Logicamente Ellie não acatou o pedido de Regulus. Ela olhou novamente para a varanda de Sirius, que estava entreaberta, e falou.
- Ele está ali, não está? Não importa se ele não quer me ouvir, eu preciso falar com ele!
Sem conseguir se conter, ela começou a verificar se conseguiria arranjar alguma forma de escalar a varanda. Percebeu que, se apoiasse um dos pés perto da grade da janela do primeiro andar, conseguiria impulso suficiente para agarrar a parte de baixo da varanda. E tentaria se erguer por ali.
Quando Regulus percebeu a intenção dela, já que ela simplesmente começou a escalar a janela do primeiro andar, ele saiu da varanda falando.
- Espera aí, vou tentar resolver!
Regulus saiu correndo de seu quarto. Abriu a porta rapidamente, e logo deu de cara com a porta do quarto de seu irmão mais velho. Como de costume, ela estava fechada. Regulus bateu, e falou.
- Sirius, abre a porta.
O silêncio foi a sua resposta. Após alguns segundos, Regulus insistiu.
- Sirius, abre aí!
Novamente silêncio. Então Regulus resolveu apelar.
- Pelo menos ouve o que ela tem a dizer.
Regulus colou seu ouvido à porta. Ele pode ouvir o barulho de alguém caminhando no quarto. E, no instante seguinte, uma voz feminina falando num tom baixo. A voz de Ellie.
- Sirius...
Ele logo se afastou da porta. E voltou ao seu quarto. Quando entrou no cômodo, ele pensou que precisaria fazer algo para ajudar a disfarçar a presença da garota na casa. Pensou por um instante, e decidiu o que tinha que fazer. Com um sorriso de lado no rosto.
No quarto ao lado, Sirius levantou de sua cama. Foi caminhando até a varanda, mas parou no meio do caminho. Uma figura humana estava parada em sua varanda. A neve caía do lado de fora. A silhueta feminina que ele conhecia tão bem. Ellie.
- Sirius...
O rapaz continuou parado, no meio do quarto. Sério. Sem mover um músculo.
Ela não esperou a autorização dele para entrar no quarto. Foi andando num ritmo quase cambaleante até ele, e parou bem em frente ao rapaz. Abriu a boca para falar, mas as palavras saíram emboladas.
- Sirius... eu fui tão... me desculpe...
Sirius franziu a testa por um instante. Ellie então inspirou fundo. Ela tinha tanto para falar que estava atropelando o próprio pensamento.
- Eu... fui uma idiota. Eu não confiei em você. Eu deveria ter acreditado. Mas eu tive tanto medo... medo de me magoar. Eu achei que você tinha... como eu não consegui ver?
Sirius continuava sério. Ellie percebeu que não devia estar fazendo muito sentido. Tentou se acalmar novamente, mas não conseguiu. A expressão séria de Sirius a fazia ter cada vez mais certeza que ele não a perdoaria. Naquele momento, ela não se importava se eles nunca mais voltassem a namorar. A única coisa que ela precisava era do perdão dele.
- Você sempre aprontou comigo. Mas isso não justifica o fato de eu não ter acreditado em você, Sirius. Porque o que você fez comigo não se compara ao que eu te acusei de fazer. Você nunca me deu motivos para que eu não pudesse confiar em você neste aspecto. Você não brincaria com meus sentimentos dessa forma. E eu fui tão estúpida que eu não percebi. Fiquei tão cega de mágoa que ignorei a pessoa que você é. E me deixei levar por uma mentira imbecil.
Sirius ouvia atentamente o que ela dizia. Sem falar uma palavra sequer. Ellie continuava em crescente desespero. Ela agarrou as mãos do rapaz, e falou, num tom de súplica.
- Me desculpe, Sirius! Eu fui uma idiota. Burra. Eu tinha que ter acreditado em você. Por favor, me perdoa...
As lágrimas corriam pelo rosto da garota. Ela não conseguia se controlar mais. Todos aqueles sentimentos ruins que tinham ficado presos dentro dela, durante todo esse tempo, estavam sendo liberados. Ela agora falava sem restrições, e com a voz embargada.
- Eu sinto muito! Por tudo que você sofreu, por tudo que eu sofri. A culpa disso tudo é minha. Como eu posso ter magoado alguém que eu amo tanto?
A última frase dela saiu acompanhada de um soluço alto. Ela começou a perder as forças, sentia suas pernas pesando. Mas não soltou as mãos de Sirius. Ele olhou para ela, e falou, num tom de voz muito sério.
- Ama?
A garota finalmente desabou. Caiu sentada no chão, agora chorando abertamente. E respondeu, erguendo a cabeça e olhando para o rapaz, que permaneceu em pé.
- Amo! Eu te amo, Sirius. E se for preciso, eu espero a vida inteira pelo seu perdão. Mas, por favor, diz que vai pelo menos pensar no assunto. Por favor!
Ela abaixou a cabeça, e continuou chorando. Não percebeu que Sirius se ajoelhou ao seu lado. Só o viu próximo quando ele falou.
- Ei, fica calma, tá?
A voz dele ainda era séria, mas parecia tranqüila. Ellie levantou o rosto, e viu o belo rosto de Sirius perto de seu. E o ouviu falar.
- Não chora.
Ela respirava superficialmente. Sirius a ajudou a levantar, e ficar em pé em frente a ele. A garota começou a se acalmar. Por um instante ela olhou para o chão, e viu o tapete do quarto de Sirius molhado, onde ela tinha sentado. Resultado de suas roupas molhadas. Ela olhou para ele, ainda tentando se acalmar, e falou.
- Estou molhando seu tapete.
Sirius, sem tirar os olhos do rosto dela, respondeu.
- Não importa.
Os dois ficaram se olhando por alguns instantes. Até que, vindo da direção da porta, um som invadiu o quarto do rapaz. Uma música começou a tocar, e era facilmente escutada mesmo com a porta fechada.
Don't
ask me
What you know is true
Don't have to tell you
I love
your precious heart
Sirius lentamente levou sua mão do antebraço da garota até seu braço, e depois seus ombros. Ele sentiu que ela tremia. Retirou uma mecha de cabelo molhado de seu ombro, e perguntou.
- Está com frio?
Ellie apenas confirmou com a cabeça, sem tirar os olhos dele. Não tinha idéia do que aconteceria. Na verdade, ela estava tão nervosa que não conseguia formar uma linha de raciocínio completa.
Sirius percorreu os cabelos dela com uma das mãos. E falou, com uma voz muito mais acolhedora e quente.
- Então... – ele se aproximou ainda mais dela, e começou a puxar o casaco fino que ela usava – Precisamos tirar você dessas roupas molhadas.
I
I
was standing
You were there
Two worlds collided
And they
could never tear us apart
Ellie sentiu seu casaco caindo no chão. As mãos quentes de Sirius continuavam seu trabalho. Peça a peça, ele a despiu por completo. Ellie não conseguia falar nada, ter reação nenhuma. Quando ele abaixou, e delicadamente retirou sua calcinha, ela ofegou alto. Tanto que ele levantou, e tinha um meio sorriso nos lábios quando a encarou.
A garota respirava aceleradamente. Sirius ficou encarando o rosto de Ellie por alguns instantes. Ela podia sentir a respiração quente dele em seu rosto. Então ele aproximou a boca da orelha de Ellie, e falou, num tom sussurrado que quase a fez desabar no chão novamente.
- Posso ficar com sua calcinha como recordação?
Ellie fechou os olhos, não agüentando mais. No instante seguinte, ela apenas sentiu a boca quente de Sirius na sua. Num beijo completamente agarrado, urgente. Ela o envolveu com seus braços, e aprofundou o beijo. Naquele instante, nada mais importava. Somente Sirius.
Ele percorria o corpo dela com as duas mãos, e isso a fazia se arrepiar por inteiro. O frio já tinha passado. Todo arrepio que ela sentia vinha do toque das mãos de Sirius.
We
could live
For a thousand years
But if I hurt you
I'd make
wine from your tears
Sirius então pegou Ellie no colo, num movimento rápido e preciso. Ele foi andando até sua cama, e gentilmente a colocou deitada. Observou a garota despida por um instante, e sorriu. Ellie mordeu o lábio inferior, e o sorriso dele aumentou. Ela o viu retirando de forma lenta a blusa que vestia. Isso fez sua respiração ficar ainda mais acelerada. Ele se livrou da calça ainda mais lentamente, e Ellie achou que ele estava fazendo aquilo de propósito, como se quisesse saber exatamente qual seria a reação dela. E essa reação foi um suspiro alto e incontrolável.
I
told you
That we could fly
'Cause we all have wings
But some
of us don't know why
Um sorriso sacana se formou nos lábios de Sirius. Ele imediatamente se deitou por cima dela na cama. Ellie ofegou com o contato da pele quente de Sirius. Ele imediatamente capturou os lábios dela com um beijo intenso. Mas logo se separou, apoiou parte de seu peso nos antebraços, e falou, novamente com o sorriso sem vergonha no rosto.
- Sabe, o Reg pode ser um chato às vezes, mas tenho que dar crédito ao garoto... Ele sabe escolher uma música boa para fazer um clima.
Ellie finalmente sorriu também, e respondeu.
- Dá para parar de falar sobre seu irmão e voltar ao que estávamos fazendo?
Sirius avançou na direção da orelha da garota e falou, numa voz sussurrada, acompanhada de uma mordida leve no lóbulo da orelha dela.
- Como quiser, senhorita...
I
I
was standing
You were there
Two worlds collided
And they
could never ever tear us apart
--------------------------------------
Regulus encarava o teto de seu quarto, deitado em sua cama. A música alta não o incomodava. Os barulhos que ele ouviria, sem o som estar ligado, certamente o incomodariam bem mais. Por mais que ele gostasse de Ellie, e quisesse que ela fosse feliz ao lado de seu irmão, ter que ouvir o som da reconciliação deles seria demais até mesmo para o tranqüilo rapaz. Ainda mais que isso o lembraria repetidamente da oportunidade que ele deixara passar, no réveillon em Paris. Ele tinha um quarto num hotel extremamente romântico. Ele tinha toda a noite, sem interrupções ou preocupações em manter segredo, ou que alguém os visse. E, acima de tudo, ele tinha Marlene, a garota de seus sonhos, linda e perfeita, em seus braços. Por que ele tinha que ter tido um ataque de respeito, e decidido não seguir em frente? Por que ele não tinha conseguido ir até o fim com ela?
Essa pergunta martelava em sua cabeça, por mais que ele soubesse a resposta.
Ele não queria que ela pensasse que ela era apenas mais uma. Ele queria que ela tivesse certeza que ela era especial.
Regulus tinha total consciência que Marlene sabia da fama dos primos Black. Tirando Andrômeda, que era muito nova, e Sirius, que só tinha olhos para Ellie, era notável na escola que os Black tinham fama de trocarem de parceiros como trocam de roupas.
Narcisa só tinha sossegado quando começou a namorar Lucius. Antes, ela desfilava um namorado diferente por mês. Bellatrix era conhecida como promíscua. E ele... bem, ele mesmo tinha fama de já ter ficado com pelo menos metade das garotas da sonserina. Mesmo que não fosse verdade (o número era próximo, mas não exato), ele nunca tinha se envolvido emocionalmente com ninguém. Até ela aparecer em sua vida.
Com Marlene nada era mecânico. Nada era falso. Tudo era real, e sensível. Ele nunca tinha sentido nada parecido na vida.
Ele sorriu ao lembrar-se do calor das mãos de Marlene. Da sua voz melodiosa. De seu sorriso acolhedor. De seus beijos...
Imediatamente o rapaz rolou de lado, e alcançou o celular, que estava na mesa de cabeceira. Abriu o aparelho, e selecionou um número. E digitou uma mensagem.
Lene,
Preciso ver você. O mais cedo possível. Por favor, me responde...
Seu, sempre.
R.
-----------------------------------
Melissa saltou do táxi, que tinha parado em frente à sua casa. Despediu-se brevemente de Marlene e Alice. Antes de o táxi arrancar, ela ainda viu a loira alcançando o celular e abrindo um sorriso radiante ao ler uma mensagem que tinha acabado de ler. Melissa achou que sabia a identidade do remetente da mensagem apenas pelo brilho nos olhos de Marlene.
Quando se viu sozinha, em frente à sua casa, ela parou por um instante. Percebeu que estava exatamente no local em que Remus a tinha beijado, debaixo da chuva, no dia do show do Oasis.
Tentando não pensar nas conseqüências de seus atos, ela simplesmente ignorou o caminho até a porta de sal casa. Retirou o celular da bolsa, e buscou um número em sua agenda. Apertou o botão de chamada, e colou o aparelho na orelha. Dois toques foram o suficiente para a pessoa atender.
- Alô?
Ela sentiu um leve tremor ao falar o nome dele.
- Remus.
Ele ficou em silêncio por um instante, e então falou, num tom quase incrédulo.
- Melissa?
Ela tomou fôlego, e falou.
- Eu estava pensando... o convite para sair hoje à noite ainda está de pé?
O rapaz respondeu de imediato.
- Achei que você estivesse de castigo.
- E estou. – ela falou, de forma simples.
Melissa pode ouvir o riso baixo dele do outro lado da linha.
- Não era você quem tinha feito uma resolução de ano novo que a impedia de fugir de castigos?
Melissa sorriu, e falou.
- E resoluções de ano novo não existem para serem burladas?
O riso dele foi a resposta que ela precisava. Mas mesmo assim ele ainda falou.
- Então eu sou totalmente a favor de acabar com todas as tradições de réveillon. – ela riu ao ouvir a frase dele, mas logo parou ao ouvir seu complemento. Até porque o que ele falou tirou totalmente seu fôlego – Bem... talvez possamos manter a do beijo à meia-noite...
----------------------------------------
Lara estava de braços cruzados. Já não tinha mais paciência para esperar, mas estava convencida de que aquela idéia iria dar certo. Então aceitou pacientemente esperar, enquanto podia estar fazendo qualquer outra coisa mais interessante. O resultado compensaria.
Mas ela não precisou esperar muito. A pessoa que ela esperava logo surgiu. Ele trancava a porta da sala da qual acabara de sair, e ajeitou alguns livros debaixo do braço. Lara se adiantou, e foi até ele.
- Estudando até mais tarde? – ela perguntou, numa voz amistosa.
O rapaz virou o rosto para ela, e franziu um pouco a testa. A presença dela ali era realmente inesperada.
- Ah... Lara, não é?
A loira sorriu, e falou.
- Isso. E você é Kyle Wilshire. – era uma afirmação.
Kyle ainda não compreendia o que ela poderia querer com ele. Mas mesmo assim, manteve-se parado, esperando ela falar.
- Eu queria conversar um instante com você. Está ocupado?
Kyle estranhou o repentino interesse da garota nele, mas a curiosidade o venceu. Tanto que ele falou.
- Não. Estou livre.
Lara exibiu um sorriso vitorioso. E logo se aproximou do rapaz, falando num tom claro, mas calculadamente amistoso.
- Eu vou ser direta, Kyle. Eu estou acostumada a ter tudo que eu quero. Ninguém me diz não. Até porque eu não costumo desistir fácil de meus objetivos.
Kyle franziu a testa. Não tinha idéia do que ela estava falando.
- Como... assim? – ele falou, apenas por falar. Sabia que ela explicaria suas intenções.
- Eu quero algo. E você vai me ajudar a conseguir. Até porque eu sei que você tem interesses em comum comigo.
Kyle continuava sem compreender. Então a garota finalmente esclareceu.
- Eu quero James Potter. E sei que você quer a Lily Evans. Então... por que não trabalharmos juntos?
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
Músicas do capítulo:
Cold hard bitch – Jet
The Scientist – Coldplay
Never tear us apart – INXS
Fim de mais um capítulo! Espero que tenham gostado, e que tenha valido a pena pela espera. E espero as reviews de vocês, tá? Preciso saber se, depois de ter ficado tanto tempo longe da fic, não perdi a mão em relação à trama.
O próximo capítulo já está devidamente planejado e estruturado. Assim que terminar de digitar, vou postá-lo.
Obrigada aos que leram, e agradeceria ainda mais se deixassem sua opinião!
Beijão!!
Pri.
