Capítulo Vigésimo Sexto.
Um terrível barulho de correntes arrastando-se por grades de ferro fizeram com que Petyr Baelish se assustasse. Estava atado pelas mãos a uma corda que pendia do teto e o forçava a ficar de pé. A primeira figura entrou na cela carregando uma tocha, sendo seguida por duas outras pessoas. A luz fraca da tocha era o suficiente para cegá-lo, estando ele há alguns dias sem ver qualquer outra luz. Tentou falar, mas sua garganta estava seca e sua língua inchada.
-Eu tenho uma divida com você. –foi a primeira coisa que escutou, ouvindo o ruído metálico de uma adaga sendo sacada da bainha- Eu lhe disse uma vez que se você tentasse colocar os olhos sobre minha mulher novamente eu os arrancaria da sua cara e faria com que você os comesse, está lembrado?
Então a imagem de Tywin Lannister entrou em foco, para completar o efeito congelante que suas palavras deixaram pairando no ambiente.
-É mais ou menos isso que vai acontecer agora, exceto porque eu desejo que você ainda possa enxergar o que vai acontecer com você quando a hora final se aproximar. E para isso você vai precisar de pelo menos um olho.
Catelyn estava imóvel e mantendo a respiração curta, enquanto uma das aias puxava os cordões do espartilho. Sabia o quanto Tywin detestava aquele tipo de vestido, difícil de ser retirado, mas aquela noite aquilo não tinha muita importância. Estava com medo, mas tentava manter-se serena a todo custo. Antes de deixa-la sozinha com as aias, Tywin colocou um punhal de aço valiriano sobre a mesa. Era visível que ele estava empolgado com aquilo, mas ela apenas conseguia sentir-se nauseada.
As vestes que envergava eram muito semelhantes às roupas de Cersei. Imaginou se aquilo seria uma espécie de sinal ou regra.
"Todas as rainhas devem vestir-se assim?"
Quando saiu do quarto, encontrou Edmure no corredor. Silenciosamente ele lhe ofereceu o braço e a conduziu pela escada abaixo.
-E o bebê? –perguntou apenas
-Está dormindo. Bebês mamam e dormem, qualquer coisa a mais do que isso parece estar fora de rotina.
-Catelyn, você não precisa fazer isso se não quiser. –Edmure disse pela décima vez- Foi uma excelente ideia, mas você não é uma assassina. Isso é algo muito Lannister, vingar-se com as próprias mãos, e você...
-Oh, Edmure... –ela suspirou cansada, porém resoluta- Quando Tywin Lannister me cobriu com aquele manto ficou bastante claro quem eu passaria a ser a partir dali.
-Você não pode se perder na sua essência.
-Eu não me perdi. Eu apenas encontrei dentro de mim uma Catelyn que mesmo eu desconhecia.
Todos os anos vividos como Lady Lannister ensinaram a Cat uma nova constante em sua vida: a necessidade de ser forte. Aquele lugar, Casterly Rock, não foi feito para pessoas fracas e submissas. Aquele homem, Tywin Lannister, não respeitaria mulher nenhuma que aceitasse calada seus abusos e constantes desvios de humor. As crianças nascidas para herdar aquele lugar jamais poderiam ser como Tyrion, que mesmo tendo uma personalidade única e forte, não era perfeito. Sansa fora criada como uma princesa, cercada de amor e cuidados, mas ao mesmo tempo era colocada contra a parede e forçada a aprender a ser fria e segura como o pai, e impor suas vontades do jeito que a mãe sempre fazia. Depois de dez anos em que ela havia nascido e Cat jamais pudera engravidar novamente, Tywin entendeu que Sansa possivelmente herdaria o Rochedo e a preparou para isso.
Ele conseguia ser abissalmente duro quando queria, muitas vezes cruel, mas Catelyn sabia que por dentro, se ela atuasse do modo correto, ele mudaria de atitude. Foi necessário muito tempo e muita paciência para entender que independente de suas atitudes rudes e hostis, Tywin jamais faria algo para machuca-la, e com um pouco mais de persuasão, ela pode perceber que ele a amava, antes mesmo que ela pudesse desenvolver alguma afeição verdadeira por ele. Todas as experiências vividas ali, e daquele modo, modificariam até mesmo a mais doce das criaturas. Cat não seria diferente. E baseando-se naquilo tudo, ela não podia duvidar que seria capaz de executar Petyr. Ou que de algum modo, desfrutaria daquilo.
Quando fechava os olhos podia lembrar-se de todo o horror vivido naquele barco, ou das constantes discussões quando finalmente foi levada para terra firme, ou do modo como ele a tocava, tentando sempre forçar alguma interação mais intima entre eles. Catelyn estremeceu de fúria ao lembrar-se disso, e foi sentindo-se assim que irrompeu pelas portas do castelo, saindo para o pátio lotado de pessoas conversando em tons festivos. Tywin aproximou-se dela com passos cautelosos. Identificou a adaga bem segura na mão dela.
-Você está pronta? –ele perguntou.
Ela o encarou longamente. Ele parecia ansioso e ela começava a se sentir mais firme e decidida.
-Você não precisa fazer isso se não quiser.
-Eu quero.
Quando sua presença ali foi finalmente registrada pelas pessoas presentes, ela sentiu o que era ser ovacionada pela primeira vez. A sensação era de triunfo extremo. Estava entre o marido e o irmão, que claramente não gostando um do outro, mas respeitavam-se mutuamente por ela.
-Eu deveria dizer alguma coisa? –ela perguntou sentindo-se insegura.
-Não, apenas termine logo com isso. Todos sabem porque Lorde Baelish está morrendo.
-Vocês virão comigo? –ela olhou para ambos, que assentiram silenciosamente.
Ela desceu os degraus que levavam ao pátio, observando os homens curvarem-se em reverencia, abrindo um caminho direto ao centro do jardim, onde um homem permanecia amarrado a uma estaca. Estava nu e fora bastante surrado, mas estava vivo o suficiente para sorrir debochadamente quando a viu.
Catelyn notou que um dos seus olhos havia sido retirado da orbita e pode imaginar exatamente quem havia feito aquilo. Olhou para o marido por cima do ombro por um instante. Sorriu quando ele ergueu uma sobrancelha, confirmando que antes de levar Petyr para a execução, tivera alguns momentos de diversão com ele. Ela notou também que algo mais faltava na anatomia do homem a sua frente, e dessa vez sorriu ainda mais abertamente. Eles sequer se deram ao trabalho de costurar o corte deixado pela remoção de suas partes intimas, apenas queimando a pele para evitar que ele se dessangrasse até a morte.
-Petyr. –ela disse, a voz firme e decidida.
-Você veio observar enquanto seu marido finalmente termina o serviço? –ele estava praticamente sem voz.
-Não. –ela respondeu, dando mais alguns passos adiante, retirando a adaga de dentro da bainha- Eu vim terminar o serviço.
-Você não será capaz. –ele debochou.
-Petyr Baelish, eu, Catelyn Lannister, Rainha dos Sete Reinos, primeira de seu nome, Senhora de Casterly Rock, sentencio você à morte por inúmeros crimes cometidos contra mim. Suas ultimas palavras devem ser ditas agora.
-Em toda minha vida só houve uma mulher, Cat... –ele esganiçou-se, sentindo a proximidade dela empunhando uma lâmina brilhante- Uma única mulher.
Ela ainda o observou por um instante, esperando que ele fosse dizer qualquer outra coisa, mas ele permaneceu em silencio, o único olho restante pousado nas mãos dela. Cuidadosamente, Catelyn deu o ultimo passo que restava entre ela e o homem. Segurou os cabelos dele, puxando a cabeça para o lado, como se fosse segredar-lhe algo, e ele realmente esperou por isso. Então quando ela deslizou a lâmina pela sua jugular, ele arfou surpreso. Catelyn apenas ficou observando o sangue esguichar por quase um metro. Ele não gritou, sua reação se resumiu a uma careta de dor. Em pouco tempo, estava acabado. Ela recuou alguns passos, sentindo a mão de Tywin repousar em seu ombro, retirando a adaga de sua mão.
-Você está bem? –ele perguntou em voz muito baixa.
-Acredite ou não, eu estou. –e o encarou com um sorriso.
-Vamos lavar essas mãos antes do jantar. –só então Catelyn percebeu que estava muito suja de sangue.
-O que será feito do corpo? –Brynden Tully perguntou.
-Queimem-no. –Cat disse- Ele não merece um tumulo.
Sansa e Tyrion caminhavam pela praia durante aquele entardecer. Estava quente e abafado, e os dois já não podiam mais aguentar um minuto no salão menor, ouvindo reclamações e problemas de praticamente todos os habitantes do Oeste. E durante aquele dia eles estiveram ainda mais pressionados, já que as noticias de que Stannis Baratheon cedera o Trono de Ferro para Catelyn finalmente chegaram ao Rochedo.
-O medo das pessoas é bem aceitável. –Sansa pontuou- Imagine que repentinamente o lugar em que você vive vai passar a ser uma nova Porto Real... Eu quero dizer, se você tem ouro o suficiente para se impor na sociedade, tudo bem, mas se você vai ser para sempre alguém da Baixada das Pulgas...
-Escreva o que eu estou dizendo, irmãzinha, não haverá Baixada das Pulgas aqui.
-E por que não? Eu pensei que esse fosse um aspecto constante de todas as cidades!
-Mas e Casterly Rock? Por acaso temos algo parecido à Baixada das Pulgas aqui?
-Temos o Mangue. –ela disse.
-Mas não é nem minimamente comparável. O que eu estou tentando dizer é que antes do nosso pai se casar com sua mãe, as coisas costumavam ser bem diferentes por aqui. Não havia apoio financeiro àqueles mais pobres, ou às mulheres que perderam seus maridos... Ela convenceu nosso pai a resumir os impostos pagos ao Protetor do Território, considerando que não necessitamos nada disso. Imagine que tudo isso será ampliado Westeros afora, através dela. A Baixada das Pulgas eventualmente sumirá.
-Mas não é você quem diz que dar dinheiro às pessoas apenas serve para forçar as coisas a custarem cada vez mais caro? Isso não estaria fazendo dos comerciantes cada vez mais ricos, e dos pobres cada vez mais pobres?
-Não é isso o que acontece aqui, mas seria isso que aconteceria em qualquer lugar que não fosse comandado por sua mãe.
-O que você quer dizer com isso? Não é como se ela fosse perfeita com estratégias e coisas do tipo.
-Não, mas nosso pai é impecável nesse aspecto. A grande jogada de sua mãe é o poder politico direto que ela tem. Imagine, Sansa... Imagine que ela determine que os comerciantes mantenham os preços num limiar aceitável após começar a ajudar o povo financeiramente... Imagine as pessoas de toda Westeros tendo o que comer, roupas para vestir, condições de suportar um inverno...
-Isso faria o reino mais pobre.
-Esse é um pensamento do nosso pai na sua cabeça. –Tyrion riu segurando a mão dela- Mas o pensamento que deveria estar ai agora é o da sua mãe.
-Você quer dizer que fazendo o reino mais pobre, ao mesmo tempo está fazendo dele mais prospero, já que as pessoas estariam bem assistidas.
-Não era bem isso o que eu diria. Eu diria que assim ela estaria fazendo de Westeros uma massa sólida de pessoas que seguiria o que ela determinasse independente de qualquer outra situação que surja. Mas você tem razão no seu ponto.
-Porque eu tenho um mau pressentimento sobre isso tudo?
-Por que é diferente de tudo aquilo que você já viveu. Eu estou animado! Eu quero dizer, ela acabou com as prostitutas de Casterly Rock, mas contanto que ela não faça isso por todo o continente, estaremos bem.
Sansa gargalhou, sentindo a agua do mar tocar seus pés descalços. Olhou o irmão, a quem amava incontestavelmente, e fez a pergunta que maltratava seu coração desde o dia anterior.
-Sobre o rapaz Stark... O que eu devo fazer?
-Você deve aceitar. –ele respondeu- Não sobram opções melhores do que ele, Sansa.
-Mas Winterfell, Tyrion... –ela gemeu insegura- Uma fortaleza gelada no coração do Norte, cercada de bárbaros e lobos gigantes!
-Eu conheci o garoto. Ele é exatamente o que se diz por ai.
-Eu não sei exatamente o que se fala dele por ai.
-Ele é uma espécie de Eddard Stark II. Extremamente honrado. E calado. Quando fala é com uma voz baixa, mas mesmo assim é respeitado por todos. É um rapaz um pouco tímido e frio, mas é uma boa pessoa. Você estará bem com ele, estará segura e governará metade do continente quando se tornar a senhora do lugar.
-Eu imaginei uma vida diferente pra mim. –ela sorriu triste- Algo mais alegre e colorido do que uma planície de gelo.
-Lady Catelyn teria aceitado isso com um humor melhor do que ela tinha quando aceitou casar-se com nosso pai. Você conhece a história.
-Desde garotinha. –ela murmurou.
-E se ela tinha uma opinião tão boa em relação ao Norte, porque você está tão arredia? Você acha mesmo que ela na sua idade não era exatamente como você é agora? Talvez ainda mais encantada por cavaleiros e bailes, se você quer saber! Mas ao mesmo tempo, ela sabia que a melhor opção para ela era casar-se com um Stark. E antes mesmo de completar os treze dias de seu nome, ela já estava noiva. Mas ele morreu e ela ficou sozinha. E a opção que ela teve, a melhor chance que surgiu para ajudar a causa pela qual o amado Brandon dela morreu, foi casar-se com nosso pai. Ela fez o que precisava ser feito pra que a morte dele não fosse em vão.
-Uma Tully, de fato.
-E agora você descobre que sua mãe recebeu os Sete Reinos e sua única preocupação é com quem irá se casar, e a melhor opção que você tem é aceitar um Stark, e você certamente está pensando em como a vida na Campina seria mais interessante!
-Se eu tivesse aceitado Loras Tyrell em primeiro lugar, eu estaria praticamente casada a essa altura. Mas eu pensei com a cabeça do nosso pai. E agora meu noivo está morto e eu irei pro Norte porque você sabe como me fazer sentir culpada por não pensar como minha mãe pensa.
-Você deve fazer o que precisa ser feito. Negar o Norte é uma afronta. Aquele é o reino mais instável que temos. Os nortenhos podem muito bem declarar Lorde Eddard como seu rei, forjar uma coroa e não ajoelhar perante sua mãe. E você negando um pedido como este, é apenas mais um passo nessa direção. Eu quero que você tenha isso claramente na sua mente. O Norte é sua responsabilidade, Sansa. E se eles querem outra coroa, assegure-se de que ela esteja na sua cabeça daqui a alguns anos.
