A Substituta
Autora: Érika
"Saint Seiya" é propriedade de Masami Kurumada, Shueisha e Toei Animation.
Capítulo 10 - Parte 3
Aioros e Aioria nasceram e foram criados no próprio Santuário. O pai deles fora cavaleiro de prata e a mãe amazona de bronze. Os dois morreram quando os irmãos tinham respectivamente quatorze e quatro anos de idade. Faleceram em um confronto que o Santuário tivera contra alguns semideuses. Naqueles tempos, Aioros já treinava para se tornar cavaleiro. Iniciara seu treinamento sob o comando dos pais. Sentiu-se destruído com a morte deles. O Santuário vencera a batalha, mas ele perdera as duas pessoas que mais amava além do pequeno irmão. E foi justamente por ele que Aioros encontrou forças para superar esta tragédia e seguir adiante. Continuou seu treino sob as ordens de outro cavaleiro e decidiu que treinaria Aioria quando este estivesse mais crescido, em memória dos pais.
Quando completou sete anos, Aioria começou também a treinar. Como era muito pequeno quando os pais morreram, não se lembrava deles. Mas Aioros sempre falava dos dois com muito carinho, mostrava-lhe fotos e se emocionava muitíssimo.
- Eles nos amavam tanto... éramos tudo para nossos pais - dizia Aioros nostálgico.
Aioria sorria docementre ao ouvir essas palavras. Havia uma grande afeição entre os irmãos, ainda que várias vezes Aioros se comportasse quase como se fosse pai de Aioria, não seu irmão. As outras pessoas também notavam isso e o próprio Aioria tinha consciência desse fato.
Às vezes Shura comentava:
- Você seria um ótimo pai, Aioros.
O amigo, ao ouvir tal comentário, sorria indulgente e respondia:
- Talvez. De qualquer modo, meu irmão não sente falta dos nossos pais. Não como eu.
- Porque não se lembra deles - replicava Saga.
- Sim, é verdade - concordava Aioros.
Aliás, Shura e Saga eram os maiories amigos de Aioros. E também eram muito afeiçoados a Aioria. Mas quando chegou o dia em que Ares tentou matar Athena, e fracassando começou a divulgar que Aioros era um traidor, tudo modificou-se totalmente. A partir de então, Aioria ficou sozinho, com um estigma pesando sobre ele durante os anos subseqüentes. Mais tarde, conheceu Marin e rapidamente se apaixonou por ela. Era uma pessoa gentil, amável. Conhecia toda a história tão sórdida a respeito de seu irmão, mas apesar disso, não discriminava Aioria como a maior parte das pessoas. E com ela, ele até se sentia em liberdade para falar sobre esse assunto, que tanto lhe magoava.
Marin sempre se mostrava uma boa ouvinte, atenta, compreensiva e solidária. No entanto, nunca falava sobre sua própria vida, seu passado. Na verdade, Aioria notava que ela era extremamente reservada e, quando resolvia falar de si mesma, o diálogo se resumia simplesmente a seus treinos com Helena Marin, os golpes, estratégias de combate... neste ponto, a conversa se tornava um pouco técnica. E na opinião de Aioria, às vezes um pouco maçante também. Efetivamente, ele tentava arrancar alguma confissão mais íntima de Marin com bastante freqüência. Mas ela sempre desconversava habilmente. Aioria, finalmente dando-se por vencido, desistia.
Muitas vezes, durante o sono, o cavaleiro sonhava com Marin. Tinha muita vontade de ver seu rosto, mas sabia que não poderia. Entretanto, um dia atreveu-se a dizer a ela:
- Gostaria de saber como você é. Sei que é um atrevimento. Mas adoraria ver seu rosto.
Marin respondeu desconcertada:
- Você sabe que isso não é possível.
- No entanto, entre mim e você há carinho, afeto... - ele ia dizer talvez "amor", mas preferiu calar-se.
- Sim. Eu sei. Mas mesmo assim, não posso fazer isso e você sabe - afirmou ela categoricamente.
- Sim, porque senão... teria que me amar. Diga-me Marin, isto seria tão ruim assim? - perguntou ele bruscamente.
- Eu também teria a opção de te matar - lembrou-o ela.
- Mas se mostrasse sua face voluntariamente, não teria por que fazer isso - disse ele timidamente.
- Mas acontece que eu não farei isso - redargüiu ela.
- Que pena. Mas pelo menos me diga como é o seu rosto. Ou será que isso também é proibido? - perguntou ele em tom levemente irônico.
- Para que quer saber se você nunca poderá me ver sem máscara? - retrucou ela cortante.
Aioria encolheu os ombros.
- Mas eu gostaria de te imaginar. Além do que, "nunca" para mim é uma palavra muito definitiva. Quem sabe algum dia... - disse ele com um vago sorriso.
- Tenho olhos castanho-escuros, nariz arrebitado, queixo comum... enfim, um rosto comum - disse ela displicente.
- Comum eu não acredito. E a partir de agora, começarei a te imaginar melhor - disse ele ainda sorrindo.
Mas o tempo passou, muitas coisas aconteceram depois. A luta contra Seiya, o engano terrível, depois seu confronto com o Mestre... sua luta de novo contra o cavaleiro de Pégasus, mas desta vez no Santuário... e depois a morte de Cássios, fato este que o fazia sentir-se muito culpado. E por fim, a batalha contra Hades. O final. Ou pelo menos, isso foi o que ele havia imaginado. Porém, era um recomeço. Ele e o seu irmão estavam juntos novamente, como sempre teriam estado se não fosse pela maldade de Ares.
Aioros estava muito feliz, parecia um garotinho no seu entusiasmo. Mas ele merecia, depois de tudo que tivera de enfrentar. E Aioria prometeu ao irmão que sempre estaria ao seu lado e recuperaria o tempo perdido. Começou a fazer confidências a ele, falando sobre seus sentimentos por Marin.
- E ela sente o mesmo por você? - perguntou Aioros, com um sorriso cúmplice.
- Acredito que sim. Mas ela é mesmo muito reservada. E depois, com todos os acontecimentos e as lutas... nunca tivemos tempo para esclarecer - disse Aioria pensativo.
- Tempo sempre há. É um questão de oportunidade - disse Aioros.
- Bom... sim, eu sei. É isso o que eu quero dizer - concordou Aioria.
- Meu irmão... você cresceu mesmo. E pensar que ontem você era um garotinho... tive você em meus braços. E hoje estamos falando sobre namoro - disse Aioros com ternura.
- Ela não é minha namorada, irmão - disse Aioria envergonhado.
- Ainda! - disse Aioros veemente.
Aioria riu:
- Pelo visto, daqui a pouco você até vai querer saber quando pedirei a mão dela em casamento.
- Não seria má idéia - disse Aioros rindo.
- O mal é que a conheço há tanto tempo e nunca vi seu rosto - disse Aioria desanimado.
- Não se preocupe. Haverá tempo para isso. Se vocês começarem a namorar, ela não poderá evitar. De qualquer maneira, se ela já gosta de você, não fará diferença - disse Aioros.
- Sim, é mesmo - disse Aioria um tanto incerto.
- Estou mesmo ficando velho - gracejou Aioros.
- Tem razão. Você é quem tem que arranjar uma namorada primeiro. Depois do mais velho, aí sim será a vez do mais novo - brincou Aioria.
- Eu tive minhas aventuras nos tempos em que treinava para me tornar cavaleiro - disse Aioros brejeiro.
- É mesmo? Mas você nunca me disse nada - surpreendeu-se Aioria.
- Acontece que naqueles tempos você era muito pequeno. Então não podia falar desses assuntos com você - disse Aioros sorrindo. Mas logo sua expressão tornou-se amarga quando ele acrescentou: - E depois tive que me separar de você. E passamos anos separados...
- Não pense mais nisso, já passou - disse Aioria, apressando-se em consolá-lo.
Aioros tornou a sorrir:
- Sim, tem razão. Mas e você? Vai se declarar afinal? Já estou ansioso para ter sobrinhos.
- Mas como você é apressado! - disse Aioria com uma risada.
Aioros o acompanhou no riso.
Mais tarde, Aioria pensou muito nessa conversa e decidiu falar com Marin abertamente:
- Agora que as lutas acabaram, creio que já é tempo de conversarmos, Marin.
- Você acha mesmo que não haverá mais lutas? - perguntou ela.
- Bem, eu não disse isso. Infelizmente, imagino que teremos outras batalhas pela frente. A paz é algo muito difícil de se alcançar - disse Aioria vagarosamente.
- Às vezes penso que é impossível - disse Marin sombria.
- Impossível também não é. Não seja negativa - disse Aioria.
- Eu digo porque é o que eu sinto - defendeu-se Marin.
- Está bem. Mas o que estou querendo dizer é que, pelo menos por enquanto, tudo está tranqüilo. E acho que este é o momento certo para termos essa conversa - disse Aioria em tom conciliador.
- Que conversa? - perguntou Marin.
- Quero falar sobre nós dois - respondeu ele.
- Ah... sobre nós...
- Sim. Sobre nós dois - repetiu ele.
- Bem... eu... - ela começou a dizer, mas calou-se.
Aioria começou a falar:
- Nós nos conhecemos há muito tempo, você sabe tudo a meu respeito. Sempre nos entendemos muito bem. Não tenho segredos para você. E até mesmo meus sentimentos você conhece, não é mesmo?
- Bom... sim, é verdade - concordou ela.
Ele a estudou pensativo:
- E você?
- Eu? Eu o quê? - admirou-se ela.
- Você sente o mesmo, não é? O mesmo que eu?
Ela não respondeu logo. Meditou por alguns instantes. Quando ele já se preparava para falar de novo, ela disse:
- Você sabe que sim. Digo, sabe que eu sinto o mesmo.
- Que bom, Marin! Não sabe o quanto suas palavras me alegram! - exclamou ele.
- Aioria, você já está sabendo da permissão de Athena? Imagino que sim.
Ele pestanejou um pouco, pois a mudança de assunto foi inesperada:
- Que permissão? Do que está falando?
- Agora nós, as amazonas, já não precisamos usar máscara. Ela aboliu essa lei. Considera-a anacrônica. Eu também, para ser sincera - declarou a Amazona de Águia.
- Que ótimo! - disse ele empolgado.
- Sabia que você ficaria contente - disse ela em tom neutro.
- Claro. Finalmente poderei ver seu rosto - disse ele com um brilho nos olhos.
- Por que será que as pessoas têm essa curiosidade tão grande em relação ao meu rosto? - murmurou Marin mais para si mesma do que para ele.
- As pessoas? E quem mais tem vontade de ver o seu rosto? - perguntou ele contrariado.
- Com ciúme? - perguntou ela divertida.
Ele sorriu ligeiramente desconcertado:
- Sim, um pouco.
- Seiya. Antes de voltar ao Japão, ele pediu para ver meu rosto. Eu retirei minha máscara, mas só quando ele já estava longe, claro. É que eu queria saber o que ele iria fazer no Japão com a armadura, e ele me perguntou se eu mostraria meu rosto se ele me dissesse - explicou Marin.
- Seiya... bom, com ele não me preocupo. É muito jovem. Não poderia considerá-lo um rival - brincou Aioria.
- Só por que ele é jovem? E eu sou uma velha, Aioria? - perguntou Marin, fingindo-se ofendida.
Ele riu:
- O que eu quero dizer é que ele é mais novo.
- E se eu dissesse que gosto de homens mais jovens? - perguntou ela bem-humorada.
- Eu acreditaria, já que sou dois anos mais jovem do que você. Mas Seiya é muito mais - disse Aioria, ainda rindo.
- Sim, é mesmo - disse ela com um risinho.
- A propósito, alguém mais quis ver o seu rosto? - perguntou ele de repente.
Ela riu abertamente:
- Não seja infantil, Aioria.
- Sim, tem razão - disse ele, levemente constrangido.
- Não se preocupe com isso - tranqüilizou-o Marin.
- Mas Seiya não sabia que as amazonas não podiam mostrar seus rostos naquela época? - perguntou Aioria.
- Claro que sabia. Afinal, essa era uma regra de ouro do Santuário. Mas você também sabia e, mesmo assim, queria ver meu rosto - retorquiu a amazona.
- Sim, é mesmo - disse ele sorrindo.
- A única vantagem da máscara é proteger o rosto dos ferimentos. Claro que se ela quebrar, então nem para isso servirá - disse Marin.
- Mas a sua nunca quebra, não é? - disse Aioria provocativo.
- Realmente - concordou ela.
- Você não vai tirar a máscara, Marin? - perguntou ele ansioso.
- Eu pretendo continuar com ela por enquanto. Por isso não a tirei até agora - disse ela.
A decepção estampou-se no rosto dele:
- Por quê? Se agora já não é necessário... e mesmo que fosse, com o sentimento que nos une, não haveria nenhum problema.
- É que você não sabe, Aioria - disse ela.
- Não sei o quê? - espantou-se ele.
- Eu não posso mostrar meu rosto. Não por enquanto - disse ela.
- Por que não? - perguntou ele alarmado.
- Porque não quero que saibam como eu sou, evidente - respondeu Marin evasiva.
- Mas eu não entendo. Por quê? Você tem... algum problema? Digo, alguma marca, talvez... algo que a faz se sentir complexada? Não se preocupe, eu não me importo com isso - disse ele em tom carinhoso.
- Não se trata disso. É que eu tenho um segredo. E se eu revelar meu rosto, tal segredo será descoberto - disse ela.
- Continuo sem entender - disse ele confuso.
- Desculpe-me. Não posso explicar - disse ela.
- Por que não? Confie em mim! Seja o que for, eu vou entender - prometeu ele.
Marin ficou pensativa por alguns instantes. Finalmente, decidiu-se:
- Está certo. Vou dizer. Mas só para você, e será apenas para você também que mostrarei meu rosto. Pelo menos por enquanto.
- Ok - disse ele em expectativa.
Marin ainda hesitou por alguns segundos, até que por fim retirou a máscara. Aioria olhou para ela encantado. Era muito mais linda do que nos seus sonhos. Os olhos eram muito grandes e possuíam uma beleza inexplicável. O nariz delicado, a boca pequena... de repente, ele concentrou sua atenção nos lábios dela. A expressão do rosto dela, completamente serena, não revelava nada. Ele se aproximou dela, afagando-lhe os cabelos, e encostou sua boca na dela. Beijou-a lentamente, com extrema ternura. Depois, sorriu para ela:
- Você é belíssima, querida.
- Obrigada - disse ela, retribuindo o sorriso.
Afastou-se um pouco dele e tornou a colocar a máscara.
- Agora vou te explicar tudo - disse ela. E começou a narrar a história de sua vida, a qual ele quisera conhecer por tanto tempo.
Quando ela terminou, ele compreendeu por que ela sempre ocultara tudo:
- Entendo agora sua reserva. Mesmo assim, podia ter confiado em mim.
- A questão não é essa, Aioria. Eu simplesmente não queria que ninguém soubesse, isso é tudo - argumentou Marin.
- Sim, já entendi. Entretanto, desta vez você terá que agir, amor. Essa moça que diz ser irmã de Seiya é uma impostora. Não conhecemos suas motivações. Mas provavelmente é uma inimiga. E não é justo que ela use Seiya, brincando com seus sentimentos para conseguir o que almeja. Não é certo. Por sinal que eu ainda não a vi direito - declarou Aioria.
- Sim, mas eu já disse que não revelei nada porque antes prefiro tentar descobrir o que ela pretende. É sempre bom ter o fator surpresa a nosso favor - insistiu ela.
- E antes, Marin? Quando você treinava Seiya. Naquela época mesmo você podia ter dito a verdade. E agora nada disso estaria acontecendo. Você devia ter falado - censurou-a ele.
- Eu já expliquei por que nunca disse nada, Aioria - disse Marin pacientemente.
- Ainda assim não me parece correto. É melhor você contar tudo de uma vez. Essa moça está aqui no Santuário. Se tentar fazer algum mal, poderemos impedi-la sem problemas - disse ele obstinado.
- E suponha que eu não diga nada? - rebateu ela.
- Não gostaria de fazer algo que a desagradasse. Mas se você não falar, eu mesmo terei que fazê-lo - disse ele com firmeza.
Ela ficou quieta por um momento. Ele tornou a falar:
- É muito importante que você fale, Marin. Ademais, como você mesma expôs, talvez essa moça não seja uma inimiga e realmente pense por alguma razão obscura que é mesmo irmã de Seiya. Mas ainda que não seja assim, mesmo que seja quase certo que ela é uma inimiga, não importa. O fato é que você precisa falar.
- Está bem, Aioria. Eu falarei - ela concordou finalmente.
Ele sorriu para ela:
- Fico contente.
Abraçou-a e, retirando sua máscara, tornou a beijá-la ternamente.
- Não tenho prática. Nunca fui beijada por um homem - desculpou-se Marin timidamente.
- Eu também não - disse ele.
- Ah, você nunca beijou um homem? Que bom! - disse ela divertida.
Ele deu uma risada.
- Eu nunca tinha beijado antes - explicou ele.
- Nunca mesmo? - perguntou ela.
- Nunca. Você foi a primeira mulher que beijei. E a única que beijarei sempre - afirmou ele, enquanto a abraçava mais fortemente, sentindo-se o mais feliz dos homens.
