Seven Sisters
Petit Ange

Vigésima Sexta Noite / Epílogo: Aqueles que Remanesceram.

"...E agora, falando do bizarro incidente em Seven Sisters."

Quando estas palavras pipocavam nos noticiários locais, imediatamente as atenções dos ouvintes, principalmente os da Inglaterra, voltava-se para a TV ou rádio que transmitia. Imagens panorâmicas e trêmulas, salpicadas de comentários dos jornalistas ou dos repórteres que faziam a cobertura, mostravam o novo horror: a comunidade estava infestada de estacas negras que assemelhavam-se a algo que lembrava uma broca gigante. Eram negros, mas davam a sensação de não poder ser sentido se tocado.

"O Exército Nacional diz que a situação, atualmente, já está sob controle, Ainswort. Como vocês podem ver, lá embaixo." – e o zoom da câmera fez o máximo que podia em mostrar um camburão militar na entrada da cidade infestada. – "Agora, eles estão cuidando dos cadáveres dos moradores, vítimas desta tragédia sem precedentes. Seven Sisters é uma cidadezinha modesta, com..."

E houve um breve silêncio, no qual muitos dos espectadores também viram-se com o coração na mão. O maldito zoom continuava naquele soldado carregando uma maca com um cadáver displicentemente coberto por uma lona negra, mas eles estavam sendo cuidadosos demais, se alguém pudesse notar isso.

"Meu Deus! Acabamos de receber a informação de que houveram sobreviventes!"

A câmera que, até então, filmava a situação lá embaixo, virou-se de imediato para a repórter de cabelos negros e olhar brilhante. Ela parecia excitada com esta informação que recebera, e tinha no rosto e nos trejeitos a falsidade teatral típica daquelas pessoas do meio.

"Sim, é confirmada a informação. Três adolescentes sobreviveram à tragédia!" – o microfone tremia discretamente por baixo daquela pose controlada. – "Infelizmente, não há retratos deles, mas foram liberados os nomes. Os adolescentes Aileen Dawson, Archer Crowell e Elise Ashford, remanescentes da tragédia de Seven Sisters, já foram resgatados pelos militares. Não há mais nenhum sobrevivente oficialmente anunciado."

Com um aceno de cabeça, ela piscou nervosamente.

"É com você, Ainswort."

As reações dos britânicos a partir dali dividiram-se: alguns cerraram os olhos, soltando longos suspiros e perguntando-se se o mundo estava para acabar. Outros, acreditavam que aquilo era baboseira da mídia, algum incidente bizarro, mas não digno daquele estardalhaço. Outros, acompanharam o resto do noticiário, porque era costume, por interesse nas notícias, por qualquer outro motivo. Alguns outros, simplesmente, trocaram de canal antes ou depois da notícia. E assim, a vida continuava.

Entretanto, algumas outras pessoas não tiveram a mesma reação. Num apartamento numa área Londrina, uma senhora de olhos bondosos aumentados brevemente por óculos, os lábios entreabriram-se para formar palavras, mas as mesmas foram abafadas pela pose surpresa.

"Mas Seven Sisters era o lugar para onde meu Henry mudou-se há quase dois meses e meio!..." – a senhora Dawson lamentava, pregada dolorosamente no sofá escarlate. – "Santo Deus, que isso não esteja acontecendo!..."

Em outro lugar da mesma Londres, em uma área residencial no leste, um homem pediu silêncio para ouvir aquela notícia que chamou-lhe atenção. Escutou toda a baboseira típica dos repórteres, ficou intrigado com a cena dos cadáveres dos cidadãos sendo carregados e com todo o cenário caótico daquele lugar em si, e por fim, ouviu o nome dos três sobreviventes.

Um susto fê-lo ficar pálido e suar frio no mesmo instante. Veio-lhe, de imediato, uma carta que ele queimou há muitos anos atrás. Era escrito por sua antiga namoradinha, coisa passageira, mas por toda vida houve-lhe um nó na garganta por causa daquele pedaço de papel. A notícia de Seven Sisters pareceu-lhe, repentinamente, despertar um antigo fantasma.

'Boa tarde, caro Eric...', começava assim. Depois do fora que ele deu-a quando grávida, ela ficou muito soturna e formal para com ele. 'Vou ser breve, afinal, não quero chorar aqui na cafeteria que costumávamos freqüentar no início do namoro. Ela ainda é um dos poucos lugares em que estivemos juntos que aprecio.'

"Ei! Kevin, fique quieto! O papai não consegue assistir o noticiário com isso!"

O pequeno, que brincava de correr pela casa imitando mal e porcamente o som do foguete espacial de brinquedo que tinha nas mãos, parou e encolheu-se ao ouvir a represália do pai. Com um beicinho contrariado, foi saindo, sem dizer uma palavra, procurar sua mãe para reclamar.

Na verdade, porém, o homem não estava vendo o noticiário. Tinha a mente levada, estranhamente, para um lugar muito distante. Para aquela carta que ele leu com o coração na mão. Desfiou-a mentalmente; depois de lê-la e relê-la tantas vezes, acabou até decorando seu conteúdo.

O final dizia 'Abraços da sua ex que ainda é uma tola por gostar de você, Rachel'. E então, vinha o P.S., que foi o motivo de ter parado tudo quando ouviu aquela notícia no jornal da noite.

'P.S.: Estou pensando em chamar a criança de Marine, se for menina. Se for menino, eu gosto do nome Archer. Enfim, pode deixar que disso cuido eu.'

Sua antiga Rachel, a menina alegre como um passarinho, com aqueles seus cabelos loiros que tanto o atraíram até o fatídico dia, tinha o sobrenome Crowell, do mesmo jeito que aquele sobrevivente. Coincidências demais para o mesmo dia ou...?

"Querido! Pare de brigar com o Kevin por esse programa idiota e venha jantar!"

Quem sabe...

XXXxxxXXXxxx

Havia um som contínuo e agudo perturbando seus ouvidos. Obrigou-se a abrir os olhos, para logo em seguida, ser invadida por uma avalanche de imagens desagradáveis. De imediato, sentou-se na cama. Cama? A última lembrança que teve foi a de ter desmaiado num chão áspero e gelado, de ter em cima de si o peso de dois corpos inconscientes e de ter na mente um grito desesperado que nunca saiu.

Dejà vu. Foi isso que disse antes de desmaiar, naquela noite. E, agora, era tudo que havia na sua cabeça para explicar essa situação. De fato, no seu segundo dia na cidade, ela acordou deitada na sua cama, como se nada tivesse acontecido. O que diferenciava-a daquela garota era que, agora, ela não só sabia como enfrentara o epicentro do problema. Entretanto, não era hora de pensar nisso: a questão central era 'o que diabos estava fazendo deitada naquele lugar?'.

Queria chamar alguém, mas a voz não saiu. Em vez disso, retesou-se quando ouviu sons de risos e pessoas. Os sons que vinham lá de fora sugeriam que já era noite alta. Incrível como tinha medo de pessoas agora. Não. Não era exatamente das pessoas; era de toda situação. Ela desmaiou e não havia ninguém senão monstros rodeando-a. E agora, de repente, ouvia risos que denotavam uma situação informal. Ergueu um pouco as cobertas e notou que estava com uma roupa diferente. Parecia uma espécie de uniforme militar. Só então olhou a sua volta e percebeu.

O quarto ou lugar onde estava era prático e simples ao extremo. As paredes eram numa cor de interior de manga, um creme meio laranja, envelhecido e pálido, contrastando com o verde militar das cobertas. O travesseiro branco a lembrou vagamente daqueles de hospital. Esfregando os olhos para ver se estava enxergando tudo normalmente, a garota acabou por se convencer de que aquilo estava acontecendo.

Salva, afinal. Não sabia como, mas salva de novo. Incrível como sua sorte mostrava-se mais implacável do que pensava a princípio.

Com uma animação repentina por pensar nessa possibilidade, sem preocupar-se temporariamente com espingardas, sobreviventes ou cidades assombradas, ou até mesmo sua própria sobrevivência. E nesta animação que pela primeira vez em horas a erguia do chão de contentamento a fez correr para fora, procurar mais humanos de verdade e ver o que a aguardava.

A cena era, como dizer... Assustadora. Sentados, dispostos pelos bancos de uma mesa de um pátio de refeição, como aqueles das escolas públicas, um bando de soldados estavam rindo como animais (de dentro daquele alojamento, coisa que ela só descobriu quando saiu e viu a porta, parecia tudo mais calmo), com latinhas de cerveja nas mãos. Vestidos como militares de verdade, contavam coisas regadas com palavrões e piadinhas de duplo sentido. Enfim, era o horror que ela vivia na cidade, mas agora, transferido para aqueles homens.

O pior, é claro, não foi ver isso.

"WAAAA~! Olhem pra mim! Eu sou um monstro de Seven Sisteeeeeers!"

Foi ver isso.

Elise estava ridiculamente mais alegre, vestida com uma roupa muito parecida com a sua e sem aqueles seus acessórios bizarros, subindo numa daquelas mesas e cambaleando de um lado para o outro, com as mãos erguidas num certo ângulo, como se fosse um zumbi mal feito de filme B. Os homens dividiram-se entre chamá-la de "que coisinha meiga", "Elisezinha" (meu Deus...), pedirem para fazer de novo ou rirem como um bando de idiotas.

Não, a coisa não parava aí. Tudo pode ficar muito pior quando se pensa que acabou, e esta frase aplicava-se com perfeição naquela cena antológica. No meio de todos aqueles homens altos e fortes, Archer, um garoto tão alto quanto eles, quem sabe, também estava rindo (com uma latinha nas mãos, Jesus!), muito fundido ao ambiente, até. Pelos deuses, onde fora parar? Preferia a cidade amaldiçoada!

"Olha lá! A albininha acordou!" – um deles apontou para ela, assustando-a prontamente com o ato.

A garota em questão viu uma montanha de olhos cravarem-se nela, curiosos e com aquele brilho de alívio por saberem-se sem nenhum possível cadáver nas dependências daquele lugar, seja ele qual fosse. Ela poderia classificar aquele 'banho de pestanas' como Muito Envergonhante. Deu um primeiro passo meio duro de vergonha na direção deles, de cabeça baixa.

"Tudo bem com você, moça?" – perguntou um dos militares.

"Hã... S-sim, eu estou bem, obrigada..." – respondeu ela, usando a velha tática do respirar fundo para controlar a vergonha.

"Você dormiu, hein! Tá mesmo tudo bem?" – um segundo homem questionou.

"AILEEEEEEEN~! VOCÊ TÁ VIVA!" – a garota escapou de uma mulher cheia de vingança e ódio que fazia nascerem estacas quilométricas do chão. Escapou de uma cidade cheia de monstros almejando carnificina. Escapou de uma loja de armas cheia dessas criaturas, escapou de milhares delas perseguindo-a pelas escadas de um prédio. Mas não escapou daquele bote certeiro: a outra pulou sobre suas desavisadas costas, fazendo ambas caírem.

"Elise, queridinha, acho que você acabou de matá-la..."

"Aileen, Aileen!" – a garota ergueu-a como pôde, e até ajudou-a a limpar o uniforme estranho e maior que o corpo dela que usava como roupa. – "Tá tudo bem? Eu te machuquei...?!"

A garota não conseguia falar nada. Com muito esforço respondeu que estava bem para aqueles homens, mas frente a frente com Elise, que lembrava-lhe agora aquela garota com sorriso frio e olhos maliciosos e sem vida que bateu-a e tentou matá-la, parecia até estar protagonizando uma situação irreal, fruto de algum devaneio infame de sua cabeça. Não era difícil estar assustada; bastava lembrar-se de que aquele corpo tentou matá-la diversas vezes.

Aquela cena surreal a fez virar-se para encarar a segunda pessoa que identificou de pronto, antes de outras. Archer estava vivo. Ele, aliás, parecia encará-la como quem está aliviado por perceber a mesma coisa também. E Aileen não soube quem abraçar primeiro, a quem perguntar como estavam ali naquela cena bizarra e não desmaiados no meio da cidade devastada, como ela lembrava.

Uma mão puxou-a, obrigando-a a inclinar o corpo mais para lá. E ela sentiu braços envolvendo-a e um queixo encostando em sua cabeça. O cheiro era inconfundível assim como o calor: definitivamente, o garoto Crowell estava bem. E sentir os braços da outra envolvendo-a ainda, como quem diz "bem-vinda de novo", estar naquela cena com vários homens olhando aquelas três crianças abraçadas foi a coisa mais estranha da sua vida, e mesmo assim, a mais satisfatória.

"...Meu Deus! Vo... Vocês tão vivos mesmo...?!" – ela mal conseguia formular uma frase em sua cabeça, quem diria em sua boca.

"Por pouco, moça! Por muito pouco!" – um homem cheirando a álcool (todos cheiravam a isso, mas enfim) aproximou-se deles, sentado ao lado do garoto.

"É mesmo! Lá estávamos nós..."

"Vai começar com essa história de novo, Creever?!" – Archer suspirou, como quem já ouviu milhares de vezes a mesma coisa. – "Aileen, não dá ouvidos à ele! É tudo mentira desse idiota!"

"Pára de estragar tudo, Crowell!..." – ele lhe deu um soquinho amigável no ombro.

"Conta, Creever, eu adoro ouvi-lo se emocionar com a própria história!" – Elise, ainda agarrada na outra garota, pedia.

"Então... Lá estávamos nós, cuidando da nossa vida. Então, chegou o von Ritcher e nos disse 'meu deus, olhem lá! O que é aquilo?!'." – quando disse isso, aproximou-se e agarrou o ombro da albina, que assustou-se com a ação repentina. – "Aí começou o caos! Chovia ligações pra tudo quanto era lado! Lá fomos nós correr pro epicentro do problema antes que a mídia começasse com as suas fofoquinhas! Minha nossa, a cidade tava um caos danado! Aquelas coisas pra tudo quanto era lado, tudo escuro como se tivesse uma tempestade... Só naquela área, o pior é isso! Muito bizarro!" – ele falava com uma emoção que chegava a fazer a menina querer rir, de fato. – "Aí eles disseram 'desçam e procurem sobreviventes!', e lá fomos nós, mesmo não acreditando que poderia haver gente ainda viva naquele lugar... Aquelas coisas enormes queimavam de tão geladas, sério, e então, ouvimos uns sons."

Uma pausa calculada para ele pigarrear e agarrar com mais força o ombro da outra foi necessária.

"Tinham umas criaturas amontoadas num cantinho lá, e a gente ficou 'ah, o que é isso?!', no começo. Aí elas ouviram e vieram com tudo... Caaara~!" – ele abriu um largo sorriso. – "Aquilo foi diferente de qualquer joguinho de infância! Foi assustador! Aí a coisa ferrou mais quando o Ferguson gritou 'tem crianças ali!'. Aí a coisa ficou preta! Atiramos até acabar com a raça dos monstrinhos e lá estavam vocês! Uns cacos, moça, vocês tavam morrendo mesmo! Se tivéssemos demorado mais um pouco, eles tinham devorado vocês mesmo! Trouxemos, aí, vocês pra cá e tratamos no departamento médico do Exército! O Archer foi o primeiro a acordar!"

"Pára de mentir e solta ela, Creever!" – o rapaz de olhos azuis empurrou-o, trazendo a albina confusa de novo para perto de si. – "E você, nem pergunte o que aconteceu depois, Aileen..."

"Ah, tá envergonhado! Não precisa ficar com vergonha... Elas são amiguinhas, a gente fica assim quando acontece isso." – um outro homem riu.

"A Aileen dormiu demais porque ela nos ajudou." – a garota dos cabelos lilases sorriu. – "Foi isso que nos disseram, pelo menos."

"É sim! Pela cena em si, o ângulo e tudo o mais, só pudemos concluir que você carregou-os feridos até onde pôde e, então, desmaiou depois de ter esvaziado a espingarda que estava com vocês. Foi isso que aconteceu, não é?"

Enquanto aquela avalanche de vozes dirigiam-se à ela, a garota só conseguia olhar para o próprio corpo e notar que, de certa forma, ele falava a verdade: ela tinha muitas marcas de mordidas novas, até alguns pontos. Provavelmente, eles desmaiaram mesmo e os monstros fizeram a festa. Achou que devia a vida àqueles homens. Não só a dela, mas a dos outros dois adolescentes também.

Chegou a virar-se e procurar alguma coisa neles, mas aquelas roupas escondiam os possíveis ferimentos. Quis amaldiçoar-se muito, mas no fim, viu que o que importava mesmo era a segurança de ambos. Estavam vivos, afinal. E assim já estava bom. O resto, como ela aprendeu com o tempo, se ajeita.

"Ah... Sim, sim... Eu tentei, mas acabei desmaiando quando as balas acabaram."

"E você sabe..."

"De novo com isso?" – o rapaz dos olhos azuis resmungou. – "A gente não sabe de nada, Creever. Ela também não sabe. Agora vamos pular essa parte."

"Não sabemos de nada o quê...?" – confusa.

"A cidade, do nada, começou a ficar daquele jeito. É tudo que sabemos." – o garoto respondeu, sendo de pronto apoiado pela pseudo-punk. – "Agora, chega disso."

A albina fixou os olhos vermelhos nos dois adolescentes, ficando, como não deixaria de estar, confusa no início, mas no fim, entendeu o que ele queria dizer.

"Desculpe não poder ajudá-los mais do que isso..."

Um enorme silêncio separou os soldados da cena que fizeram a seguir.

Aileen teve tempo de arregalar os olhos antes de ver uma montanha de homens se precipitarem em cima deles, abraçando-os, afagando suas cabeças, como se eles fossem mascotes fofinhos de alguma propaganda ou sobreviventes bebês de alguma tragédia realmente grande, que todo mundo ama por simples dó. Em suma, quando ela achava que nada podia ficar pior, sempre ficava.

"Pobrezinhos! Devem ter sofrido tanto, coitados!"

"Fugir daquelas coisas só com uma arma!... Isso não é vida!"

"Vocês são heróis, pequeninos! É sério, ninguém é melhor que vocês!"

Afogada numa montanha de homens vestidos com uniformes militares e com cheiro de álcool, ela só pôde olhar os outros dois, fundidos ao ambiente, dando tapinhas amigáveis nas costas deles como se os marmanjos estivessem sendo consolados. Elise deu um sorrisinho, como se dissesse 'isso é normal nessas horas'.

"Hã... Tá tudo bem, tá tudo bem... A gente tá legal..." – ela tentou argumentar.

"Tá decidido! Hilton, vai pegar mais cerveja!" – um deles, um homem alto de cabelos pretos, ordenou. – "A albininha também precisa beber!"

Se o álcool era capaz de transformar um bando de homens desocupados em idiotas, ela nem queria pensar no que aquilo faria com ela.

"A-ah, eu não... E-eu não bebo, senhores...!"

"Besteira! Beber é viver! Hilton, vai lá pegar mais!"

"O Hilton tá mais pra lá do que pra cá." – a garota dos olhos castanhos riu do soldado, que estava realmente distraído, de forma que nem pareceu ouvir. – "Deixa que eu pego mais. Lá no lugar de sempre?"

"Obrigado, Elisezinha... Só você pra nos ajudar..." – um deles agradeceu.

"Eu vou com ela, pra ajudar." – Archer declarou, deixando a latinha dele em cima da mesa de refeitório. – "Afinal, vocês são piores que esponjas."

Tudo bem, tanto o rapaz alto quanto a menina dos cabelos estranhos estavam acordados, aparentemente, há muito mais tempo que ela, de forma que conheciam bastante aquele lugar, a ponto de perguntarem se as bebidas estariam no 'lugar de sempre', seja ele qual for. Mas ela, a albina estranha, não estava acostumada; aliás, sentia-se uma corça cercada de hienas que iriam brincar com ela antes de matá-la. Não que eles fossem matá-la realmente, mas a sensação de prisão e estranheza era a mesma.

Ela quis dizer que esperassem, que queria segui-los, qualquer coisa para não ficar sozinha com um bando de homens bêbados, sendo a única sóbria entre eles, mas não teve jeito. Acabou calando-se, sem jeito, e viu os outros dois sumirem por trás de um dos alojamentos, provavelmente indo pegar mais cervejas em algum freezer ou coisa do tipo. E ela teria de aturar aquilo.

"Vamos aproveitar que nossos superiores não estão no momento e que eles dois saíram e roubar o resto das suas cervejas!" – um dos homens disse.

E a briga começou pelo resto da bebida que Archer tinha deixado.

"Ai, meu Deus..." – suspirou a garota.

XXXxxxXXXxxx

Aquela era, definitivamente, uma sensação amiga sua de longa data.

Inicialmente, era algo doloroso, como separar-se de um cordão umbilical invisível. E então, ela via-se num mundo devastado, sua própria visão de tudo, aquela eterna solidão e amargura que impedia-a de ver as coisas como realmente são, apenas lhe mostrando aquilo que queria ver através dos filtros de seus olhos cansados.

Vagava sem saber para onde ia, exatamente, pensando no quanto havia sido tola e, ao mesmo tempo, no quanto aquela boa ação significou para si. Das duas maneiras, a boa e a ruim, ela sentiu-se bem, ao término. Mesmo que tenha sacrificado totalmente aquela sua maldição que passava de sangue em sangue, quis sorrir por finalmente libertar aquelas pobres moças da sina que foi imposta àquele fantasma original, ela própria. Ao menos, agora poderiam descansar em paz.

(Para onde estava indo? O que estava fazendo?, perguntava-se no meio de toda essa divagação solitária).

Entretanto, ela não podia fazer isso. Não enquanto não fizesse Felicia e Stephan pagarem pelo que fizeram-na passar. Há males que esquecemos e outros que carregamos conosco até o dia de nossa morte e além; e esse era um mal que ela nunca poderia perdoar, por mais que quisesse, enquanto não os visse na sua frente, implorando a morte como dois passarinhos com as asas cortadas.

Havia algo chamando-a enquanto pensava nisso. Uma sensação que ela conhecia. E isso a alertou. Achou que nunca mais iria senti-la.

Já podia até ouvir algumas vozes.

"Limpe isso direito, moleca!" – era uma voz de homem. Ótimo. – "Olha só isso, o chão continua todo sujo! Faça isso direito!"

Sentiu, nesse momento, uma palpitação.

Quis engolir em seco, mas não tinha o que engolir. Estava de tal forma embasbacada que só o que fazia era encarar aquela cena: como sempre, no meio daquela cidade desolada, aquele lugar estava sujo e empoeirado. Haviam teias de aranha, a madeira parecia velha e a lady julgava impossível alguém conseguir limpar aquilo. O próprio ambiente, uma cozinha, provavelmente, cheirava e lembrava de cara desolação. Só restou-lhe sentir pena e felicidade.

A realidade, porém, foi diferente: a cozinha estava limpa, sem teias de aranha, com a luz ligada, muito brilhante e asseada. Mas isso só foi possível com horas de esforço sobre-humano da parte daquela pequena, ordenada e vigiada de perto por aquele homem de compleição forte. Ele inspiraria medo em qualquer um, quem dirá numa franzina garotinha como aquela.

"A-acho que acabei, senhor Henseford..."

"Acabou?!" – ele abaixou-se para tocar no chão. Passou o dedo pela superfície dele e tirou dali uma ou duas partículas de poeira. – "Chama isso de acabar?!"

"E-eu... Ah..."

"Vai ficar sem jantar, pirralha! Quero que limpe tudo de novo!"

Era humanamente impossível, Alice pensava. Mas sua surpresa, mais do que aquele cenário desolado que só ela via, era aquilo que se escondia por trás da pequenina. Algo muito maior e muito mais assustador.

Com uma pressa que nunca saberia explicar, inclinou-se, tocando nos ombros delicados e trêmulos como uma vara-verde.

"Oh, minha preciosa... Tirar-vos-ei esta nímia preocupação de teus ombros."

A pequena teve um estremecimento a seguir, algo que fez o homem que a vigiava olhá-la com uma cara feia e a fez esfregar os olhos, esforçando-se por manter a consciência acordada com ela. Entretanto, era fato que, naquele exato momento, as coisas nunca mais foram as mesmas para ela.

XXXxxxXXXxxx

Na parte de trás de um dos alojamentos, havia um freezer muito bem escondido onde as cervejas para aquelas festinhas de madrugada longe dos olhos dos superiores eram guardadas. Naquele momento de dificuldade, era totalmente necessário alguns goles de álcool, de forma que os soldados acabaram por revelar o esconderijo para os novos pequeninos do lugar (eles brincavam que eram seus 'cativos' até terem ordens superiores provando o contrário).

"Até que tá sendo divertido..." – a garota comentou, despertando a atenção do outro, que até então, tirava latas dali. – "Não achei que o Exército fosse isso."

"É que a situação é singular, né..." – ele respondeu. – "Nossa cidade acabou, a mídia está doida com o novo furo, o Exército tem de encobrir e conduzir investigações em segredo, o governo deve estar doente... A partir de agora, as coisas tendem a ficar assim mesmo, de pernas pro ar."

"Já sinto saudades de Seven Sisters."

"É..." – na verdade, Archer não sentia. Elise, até onde sabia, só a conhecia pela manhã, porque Alice ocupava seu corpo de noite. Mas ele sobreviveu cinco anos achando que aquele lugar era uma prévia do Inferno.

"Disseram que todas as pessoas morreram, né?"

"É mesmo..."

"O fato de eu não me lembrar de nada e desses seus monossílabos... Você sabe exatamente o que aconteceu, né, 'Monstrinho'?"

Bem que ele queria dizer o que aconteceu. Mas não acreditava que alguém iria compreender a real extensão do problema. Nem mesmo, infelizmente, Elise. Ao menos, não agora. Quando ela acordou, estava assustada, confusa, chegou até a chorar antes dele ser avisado de sua melhora. Só parou quando avistou-o, e chorou mais um pouco quando agarrou-se nele, como uma criança. Aquelas mínimas cenas mostravam que ela sabia, lá no fundo, o que acontecia, mas a compreensão consciente ainda estava longe de seus domínios ainda.

"Um pouquinho..." – confessou, encarando-a firmemente. – "Mas você sabia disso e, mesmo assim, mentiu que não tinha consciência de nada."

"Você tinha ganas de esconder a verdade, seja ela qual for, de qualquer um. Presumi que fosse algo incompreensível e entrei na mentira." – ela sorriu. – "A... A Aileen também sabe, né?"

Maldita intuição feminina. – "Sabe sim."

"Foi o que pensei."

O garoto virou-se, porque teve a impressão de ter ouvido o tom dela mais distante do que o normal. De fato, o rosto de Elise tinha uma nostalgia vaga, alguma coisa que deixava-a ainda mais frágil do que já era. Archer sentiu-se mal vendo aquela cena, aquela menina com latas de cerveja na mão e olhar distante, porque julgou-se culpado por tudo. Teve essa mesma sensação quando a viu acordar, na ala médica, e percebeu um enorme curativo na sua barriga.

O médico disse, depois, que era marca de um tiro. E, de alguma forma, aquelas palavras fizeram-no entender tudo de pronto. A verdade mortificou-o, fê-lo sentir-se um traste. Desde que Alice de York lhe dissera que ela estava grávida ele começou a sentir-se mal quando ficava perto dela. Porque julgava-se digno de alguma punição. Que ela sacasse alguma arma e matasse-o, batesse nele até fazê-lo desacordar... Qualquer coisa que não fosse sair impune.

"Ah... Elise..." – chamou-a, engolindo em seco.

"Pois não, Archer?" – virou-se, sorrindo como sempre, aquela tola.

"Pode até ser que eu goste da Aileen e tudo o mais... Mas não é por isso que eu deixei de ser seu amigo..." – começou, muito sem jeito. – "Você sabe... Afinal, foi a primeira pessoa que se aproximou de mim... Eu devo muito a você, mesmo que não pareça..."

A garota continuou olhando-o, sem mexer a boca para responder.

"Por mais que eu brigasse quando você me chamava de 'Monstrinho', por mais que eu parecesse frio... No fundo, você me era agradável. Eu me apoiei em você. Cheguei a lhe contar que via monstros, você sabe... Afinal, me apelidou disso... Acho até que eu parei de te chamar pelo sobrenome agora... Talvez eu estivesse te chamando antes porque não queria admitir que precisava da sua amizade." – 'eu enlouqueceria sem ela, acho', pensou, mas não teve coragem de dizer isso.

Elise continuou olhando-o por muito tempo. Muito tempo mesmo. Ou, ao menos, para ambos, pareceu isso, uma eternidade excruciante.

"A Lisa..." – foi isso que ela disse.

"Hã?" – não entendeu o porquê daquele nome.

"Eu... Estava lembrando de como me aproximei da Lisa. Acho que eu sempre fui assim, idiota. Desde que pintei o cabelo, prometi pra mim mesma que iria fazer o que eu queria fazer, me aproximar de quem eu queria me aproximar..." – ela sorriu. – "Note, Archer, que eu não era amiga de mais ninguém além de vocês dois, antes da Aileen aparecer. Por mais que me desse bem com todos, era com vocês que eu sempre estava."

De fato, era mesmo.

"E você esteve sempre coberto de razão... Às vezes, eu penso que sua sensibilidade é maior que a minha pra essas coisas." – a jovem meneou a cabeça, tentando manter aquele sorriso resignado no rosto. – "Talvez você saiba disso também... Que eu vivia às custas de vocês todos."

Archer começou a se arrepender de ter iniciado conversa. Não era, exatamente, aquelas palavras que queria ouvir dela.

"A Lisa, você, a Aileen... É só notar. Todos vocês tinham problemas, eram excluídos da sociedade, tinham aquela aura de tristeza eterna... Um sofrimento silencioso que não ousavam externar por nada. E eu me tornei uma parasita. Eu farejei aquela distorção em vocês. Eu não quis ficar amiga de vocês porque eram boas pessoas, porque me deu pena..." – suspirou. – "Eu os quis porque eram como eram. Eram quebrados e imperfeitos. Eu nunca os quis consertá-los, libertá-los para o mundo... Eu queria me aproveitar, de fato, de seus defeitos. Mesmo se vocês me ignorassem e me afastassem, eu continuaria sorrindo e ficando ao lado de vocês, porque eu precisava disso. Precisava sentir pena de vocês, não de mim... Do contrário..."

'Por favor, não continue...', ele implorou mentalmente.

"...Do contrário, eu iria quebrar. Me matar, enlouquecer, qualquer coisa. Vocês foram minha sanidade. Eu sim devo à vocês e suas imperfeições... E vocês confiaram em mim, diziam ser meus amigos. Isso sim me doía. Eu estava usando-os e ferindo-os e, mesmo assim, vocês não acreditavam que eu pudesse ser de tal índole." – Elise abriu um sorriso radiante, como quem conta uma bela piada. – "Essa pose de santa sempre enganou todo mundo. Mais um disfarce para que vocês ficassem sempre perto de mim..."

Aquele sorriso permaneceu em seus lábios, dali em diante.

"Quando a Lisa morreu, você lembra? Eu me agarrei em você com todas minhas forças. Se você morresse, eu morreria junto... Mas não porque era meu amigo. Era porque, se você sumisse, eu não teria ninguém mais de quem sentir pena, de quem cuidar, como um gatinho ferido. Eu ficaria sozinha em minha autocomiseração." – ela ficou um pouco quieta, de olhos brilhantes, provavelmente de lágrimas, e então voltou a falar, mas dessa vez, foi um sussurro suplicante. – "...Por favor, não fala nada disso pra Aileen. Esse é o nosso segredo, Archer. Só você sabe que eu sou uma cretina."

O garoto não agüentou aquele seu silêncio. Aproximou-se dela, com as latas de cerveja só num de seus braços, e a outra mão livre segurou o pulso dela.

"Não é isso, sua boba! Eu não quero que você admita que é suja e imperfeita como eu ou a Aileen... Eu não quero isso. Você é humana e eu compreendo! O que eu não suporto... Eu não suporto o que eu fiz pra você. Eu acabei com você! Não entende?! Nada que você tenha feito justifica o que eu fiz!"

"Está arrependido, é isso?" – ela parou de sorrir.

"Sim. Eu quero que você me perdoe, ao mesmo tempo que desejo que me pisoteie até eu me sentir um lixo... Da mesma forma que eu fiz você se sentir. É isso que eu quero! Quero que faça alguma coisa... Que fique brava, que me xingue... Sei lá, mas não me deixe assim, sem punição nenhuma! Isso sim eu não suporto!..."

"Mas eu mereci..."

"Não! Você não mereceu! Mesmo que tenha nos usado e tudo o mais... Não importa! Eu não devia ter feito isso... Eu não sabia de nada que estava acontecendo com você, e se soubesse, talvez tivesse sido mais gentil... Mas não importa... Você veio correndo pra mim porque achou que eu fosse o único que aceitaria esses pecados indeléveis. De fato, eu aceitei-os, mas... Mas... Que droga, Elise, fique brava e me bata!"

"Mas eu não quero ficar brava com você." – sacudiu a cabeça. – "Eu mereci..."

"Pare de conversa e me bata, sério..." – afrouxou o aperto no pulso dela, mas continuou olhando-a nos olhos.

A pseudo-punk precisou de alguns segundos para decidir-se.

"Eu fico feliz que você esteja arrependido e me implorando para ser punido, sabe? Me faz ter a certeza de que eu, ao menos, soube escolher muito bem o menino pra quem eu iria contar tudo isso." – sorriu radiante. – "Mas, Archer... Às vezes, dói bem mais quando a gente não recebe punição alguma..."

A afirmação mortificou-o de pronto, porque ele sabia que era verdade. Se Elise quisesse torturá-lo por tudo que fez de ruim com ela, aquela era a forma mais eficaz de fazê-lo. Chegou a ficar sem reação, soltando o pulso dela, deixando a mão pender e cair ao lado do corpo, apático. Então, ela não iria puni-lo. Não havia nada de feliz naquelas palavras. Só havia um enorme abismo que ele nunca seria capaz de transpor.

"Entretanto..."

"Como...?" – ainda parecia em transe.

"Você e o seu rostinho bonitinho não merecem isso... É uma lástima..."

O garoto teve o impulso de perguntar o que diabos ela queria dizer, mas ouviu um som próximo de seu rosto e... Veio a dor. E, em seguida, a satisfação. O susto não teve tempo de vir, afinal, a felicidade foi maior. Por um momento, Archer achou mesmo que ela ia deixá-lo sair assim, ileso e sem nada, enquanto ele empurrou-a e destruiu todas suas esperanças. Aquele preço, um tapa na cara, era muito pequeno em comparação ao dela, mas sentiu-se parcialmente satisfeito com aquilo.

"Obrigado..." – tocou no rosto com a mão livre e riu, como quem ainda não acredita naquilo.

"Um favor de amiga, né?" – sorriu. – "Mas nunca mais me peça pra te bater... O som que faz é horrível... Além disso, se a Aileen souber, vai ficar uma fera. Isso é meio sadomasoquista..."

"Auh... Você tem uma direita incrível..." – ele riu, ainda com a mão no rosto.

"Machucou muito...?!" – precipitou-se sobre ele, já preocupada de novo.

"Pode deixar, eu merecia bem mais forte, acho..." – o rapaz pegou as latinhas de cerveja que estavam com ela e acabou por carregar todas. – "Um favorzinho irrisório, mas de coração, por você ter me batido. Te devo uma, viu?"

"Um dia, vou cobrar isso!" – ela também riu.

"Acho que devemos ser as únicas pessoas que ficam pedindo-se desculpas e agradecem quando levam um tabefe... Tudo isso bêbadas, diga-se de passagem."

"Eu não tô bêbada." – mentiu.

"Claro, claro... Eu sou o alter-ego da Rainha Elisabeth."

"Ah, pare de ser maldoso!..." – empurrou-o de leve. – "Eu estou muito mais sóbria que você, pelo menos!..."

"Que mentira! Você chegou a experimentar naquela mangueira estranha!"

"AEEEE~! TÁ COMBINADO! CREEVER, TRAGA O SUPER-TRAGO PRA CÁ! VAMOS EMBEBEDAR ESSA MENININHA TEIMOSA!"

"NÃO! EU REALMENTE NÃO BEBO, SENHORES!..."

Ao ouvirem isso, vindo lá de onde estavam, eles não agüentaram encararem-se sérios, e começaram a rir. Para quem, há poucos momentos, estavam sentindo-se pressionados por sentimentos inconsoláveis, agora as coisas estavam devidamente em seus lugares. Sempre foi assim, afinal; eles sempre entenderam-se muito mais rápido do que as outras pessoas, e por conseqüência, sabiam mais sobre eles do que qualquer um. Talvez por isso nunca houvesse dado certo entre eles, se tivessem ousado tentar.

De qualquer forma, Elise estava satisfeita. Achou, no início, que era o fim do mundo, mas no fim, mostrou-se apenas uma nova chance dela tentar encontrar-se. Estava livre de suas amarras da antiga cidade, por mais que sentisse falta dela.

"Ah, não...! ARCHER, SOCORRO!" – Aileen choramingou ao vê-los chegar.

"Ô Creever, o que você tá fazendo?!" – ele conteve a vontade de rir diante da cena de um bando de marmanjos oferecendo um copo enorme para ela, que afastava-se o quanto podia.

"Ela está sóbria, Archer! Isso é um perigo!" – ele disse.

"AH, NÃO, NEM VEM! Parou tudo, parou tudo mesmo! Se ela não quer, eu quero bebeeeeeer~!" – a garota dos cabelos lilases ignorou tudo e correu até eles. – "Deixa eu beber, tio Creever, por favor!..." – apelou para sua carinha de criança.

Naquela noite, Aileen permaneceu firme como a única pessoa sóbria da cena. E, diferente dos outros, que achavam que tudo estava muito bem, obrigado, pelo menos ali, ela tinha uma vaga sensação de que justamente ali, seja no quartel ou seja na cidade, as coisas estavam indo muito mal.

XXXxxxXXXxxx

"E então? Como andam as aulas de violino?"

O rapaz limitou-se a dar um esgar de riso, um princípio, o máximo que sabia fazer, para ser sincero. Com as mãos nos bolsos e o corpo displicentemente largado sobre o divã, com a maleta onde repousava o violino aos pés do mesmo, ele suspirou em seguida, encarando o teto.

"Estou aprendendo algumas melodias por sheets, de forma autodidata, claro. Não tem nenhum dedo seu na decisão deles de preencher todas as lacunas possíveis do meu tempo com alguma coisa, ou tem?"

"Deles quem? Dos seus pais?" – a mulher sorriu. – "Os segredos do meu pequeno paciente são confidenciais."

"Ultimamente, eles têm me chamado de louco muitas vezes."

"Talvez os senhores McGriffith tenham te posto aqui por esse motivo, não?"

Ao ouvir aquela afirmação em forma de pergunta, o garoto passou a mão pelos cabelos loiros (um antigo tique seu) e obrigou-se a pensar melhor. Sua psicóloga, afinal, tinha razão. Desde aquele dia distante, o único e último episódio de sua vida onde ele realmente desejou alguma coisa, tudo nos seus dias foi preenchido com o mesmo desespero que viu nos olhos dos pais quando acordou no hospital.

Natação, violino, clubes extra-escolares, cursos de línguas estrangeiras, clubes de leitura, beisebol... Havia tantas atividades diárias praticamente comendo todas suas horas da tarde e noite em sua agenda, sete dias por semana, que ele, sinceramente, tinha vontade de mandar tudo para os ares, às vezes.

E, então, lembrava-se do essencial: ele não tinha motivo para estar ali naquela mulher, mais um preenchimento de sua agenda para os pais não precisarem mais se preocupar. Não havia motivos, mas apreciava poder descansar naquele divã e ter conversas supérfluas, só para dar-lhe dinheiro e a ilusão de que estava curando-se.

"É... Você tem razão." – um suspiro abandonou-o na hora.

"Aliás, me diga uma coisa." – a mulher pigarreou. – "Você chegou a ver em algum lugar aquele incidente bizarro na área de Seven Sisters?"

"A cidade dizimada? Vi sim, claro. A notícia tá em todo lugar. Chega a ser chato."

"Você me disse no começo da nossa convivência uma coisa interessante... Sobre uma amiguinha de infância da sua mãe, lembra?"

"Lembro sim." – foi um dos erros que prometeu não cometer quando mandaram-no para uma psicóloga: contar fatos pessoais verdadeiros de sua vida ou de seus familiares para ela. Impossível esquecer. – "O que tem essa mulher?"

"Tem um dos sobreviventes... Ele tem o mesmo sobrenome dela." – sorriu a moça, sentada placidamente em sua cadeira estofada. – "Lembrei-me de você na hora, sabia?"

"Minha mãe falou que a tal Rachel, ou qualquer coisa assim, se foi porque tinha engravidado." – o tom dele era indiferente. – "E, sendo ou não sendo relacionado, aquele menino é só um adolescente qualquer que sobreviveu à um fenômeno anormal. Não é nenhum ato de bravura, nem nada que se deva admirar. Todo dia muita gente faz isso, senhora Melody."

A moça deu mais um de seus sorrisos calculados de psicóloga e ajeitou os óculos, de forma que ainda pudesse manter os olhos no menino loiro deitado no divã.

"Então, você não sente pena deles?" – se bem que já sabia a resposta.

"Não." – emendou na hora. – "Você sabe que já faz muito tempo que eu perdi a vontade de sentir qualquer coisa por qualquer um que não seja..."

"Você é um menino muito esquisito, sabia?" – Melody riu. – "Tem a atitude mais fria, indiferente e calculista que eu conheço, entretanto, quando o assunto vira aquela sua 'namoradinha imaginária', imediatamente vejo-o mudar. Ah, se você fosse mais velho..."

"Eu sonhei de novo com aquilo." – os olhos do rapaz fixaram-se brevemente nos dela, e em seguida, voltaram a encarar tediosamente o teto.

"Desde quando?" – ela já estava acostumada com as mudanças bruscas.

"Desde aquele dia, tinha parado um pouquinho. Mas já faz uns dois meses, mais ou menos, que tudo voltou... A voz daquele homem e ela." – suspirou.

"Ainda sonhando com as mesmas coisas?" – 'e ele nem me contou', pensava.

"Sim. Com o vestido dela farfalhando no chão, com sua voz, com seus cabelos dourados e cheios de cachos... E, de repente, tudo vira um borrão negro e uniforme, indistinto até. Um nada. E então, tudo que eu ouço são os sussurros dele... 'Alice', ele chama. 'Alice, Alice, Alice'... Chega a ser meio chato aquele silêncio e escuridão toda e só a voz desse homem."

"E como você se sente quando acorda?"

O garoto parou para pensar um pouco, deixando a mão cair molemente em cima do violino. Acariciou-o, como se ele fosse um gato ronronando, e por fim, cobriu o rosto com o braço, numa atitude cansada.

"Inspirado, eu diria..."

O sorriso de Melody encerrou aquela parte oral da consulta. Os próximos cinqüenta minutos seriam, e isso ambos sabiam, apenas furtivos olhares para o relógio recheados com um silêncio sepulcral, apenas com o som do tic-tac como a desarmonia. A mulher pensaria no marido, no quê faria para o jantar ou no quanto adorava quando aquele garoto fazia isso; lembrava-lhe muito George, quando eram namorados.

O menino, por sua vez, largar-se-ia num torpor esquecido naquele divã vermelho escuro com estampas de flores pequenas, delicadas e brancas, achando que aquele lugar, tirando seu quarto, era o único onde ele realmente sentia-se em casa; podia, ao menos, descansar uns cinqüenta minutos no seu dia. Se bem que odiava fechar os olhos, porque assim, aquela voz e aquelas imagens assaltavam-no de novo.

"...Minha Alice." – e era só nisso que conseguia pensar. – "Onde você está...?"

XXXxxxXXXxxx

O sol ainda estava timidamente brilhando, mesmo sendo seis horas da tarde de um Inverno tenebroso (costumava anoitecer cedo, mas não era nesse período do mês, é claro). As árvores já começavam a balançar bastante devido ao vento forte que anunciava que aquela era uma típica noite onde as pessoas enchiam a cama de cobertores e vestiam camadas de pijamas, dormindo ao som do uivo violento do vento ou de uma chuva repentina que, de repente, adorava vir de madrugada.

Aquela era uma rua movimentada, de forma que todos que passavam ali ao menos viravam a cabeça na direção do som melodioso. Era uma música que evocava um certo desespero, talvez misturado com um certo desprezo alheio. Podia-se imaginar com muita facilidade, pela seriedade das notas, uma orquestra a tocando. Apenas um instrumento, entretanto, fazia isso, e os olhos que procuravam o autor da façanha (os que paravam ou diminuíam o ritmo dos passos para a procura) acabavam topando apenas com uma montanha de prédios ou casas de aparência rígida.

Aproveitando-se desta geografia daquela parte de Londres, o autor da melodia em questão fechava os olhos, ouvindo as notas da música que ele treinava saindo, pela primeira vez, sem nenhum erro. Tantas horas treinando na psicóloga haviam adiantado, afinal. Uma partitura especial para violinos, "The Devil's Trill" chamou-lhe atenção justamente por ter aquele toque de um desespero sombrio e silencioso que ele buscava em todas músicas que escutava.

"Hum..." – sentia contra o rosto a superfície gelada da madeira. – "A melodia está boa, mas o tom... Talvez tenha de afiná-lo um pouco mais."

Quem ouvisse, diria que a música estava, sim, perfeitíssima. Mas então, os que conheciam melhor aquele menino sorririam como quem ri de algo que está cansado de ver. Afinal, o primogênito McGriffith era assim mesmo. Perfeccionista, metódico... Tudo estava péssimo e nada estava bom. Confundiam, freqüentemente, aquela atitude com as de um garoto mimado, mas ele fazia questão que fizessem isso; assim, ninguém ousava permanecer muito tempo com aquele 'menino insuportável'. E ele, em sua solidão auto-imposta, lia e divertia-se muito mais.

Ultimamente, entretanto, estava todo recreio treinando violino. Aquele era um capricho seu desde pequeno. Os pais queriam que ele tocasse piano ou violão, que eram instrumentos adequados a uma pessoa da atualidade. O piano era por demais melodramático e o violão, enfadonho. Quando conheceu o violino, seus olhos brilharam. Ele foi totalmente a favor. Os pais podiam morrer, o irmão caçula podia morrer. Mas, se aquele instrumento se perdesse, ele perder-se-ia junto.

Sua psicóloga traduzia isso como 'esse violino é o seu mundo real, não é?'. E ele sorria polido, obrigando-se a concordar. Conhecia esses mecanismos de sublimação e de projeção, não precisava de uma idiotinha com diploma vir lhe dizer, achando que fazia um grande favor. Mantinha conversas com ela porque lá era o único lugar em que realmente descansava, afora o quarto. Uma questão de auto-preservação. O primogênito sempre soube, afinal, ter a paciência e o cinismo adequado para coisas que lhe convém. Veio de berço, praticamente.

Os acordes finais começavam a se pronunciar, e tirando o tom errado do violino, o garoto só tinha que parabenizar-se por aquela atuação impecável. Iria fazer isso assim que acabasse, mas uma sensação que atravessou-lhe o peito num rompante tirou toda sua concentração, obrigando-o a erguer a cabeça.

"Alice...?!"

Só podia. Essa era a mesma sensação que tinha todas as noites em seus sonhos, quando aquele vestido farfalhava no chão, e de repente, tudo ficava turvo e em seguida, totalmente escuro. E aquela voz sussurrava o nome dela tantas e tantas vezes que era só no que conseguia pensar por muito tempo, depois que acordava. A sensação que tinha era de alguém que leva uma punhalada no peito e depois, o assassino não estando satisfeito com aquele ato, sente o metal rasgando a carne até alcançar o estômago. Era uma dor semelhante, apesar de nunca tê-la sentido literalmente.

"Ah... Não acredito... É você, Alice...?!" – o violino foi depositado no chão, com todo cuidado, quando o rapaz loiro ergueu-se para averiguar, com um sorriso de quem passou toda uma vida prisioneiro de alguma coisa. Só via uma montanha de pessoas e carros passando daquela sua varanda. Nenhuma delas parecia-se com aquela mulher de cabelos claros que sorria divinamente. Nenhuma delas.

Mas ele sentia, e não era ridículo a ponto de se alvoroçar por pouco, a presença dela bem ali, fortíssima. Quis descer e procurá-la, certo de que ela o salvaria de alguma forma, mas não. Teria de passar pelos pais; e eles impediriam ali aquela sua idéia ridícula de perseguir um sonho. Ele próprio não tinha nenhum sonho ou desejo, mas não vinha ao caso. Aquilo era uma necessidade que seus pais interpretariam erroneamente, e seriam mais anos e anos em psicólogos. Tudo era motivo para isso.

A sensação diminuiu com sua própria impotência. E quando ela passou, o garoto percorreu a mão pelos fios dourados dos cabelos e respirou fundo. Muito fundo. Sentou-se outra vez no chão e, como se estivesse inteiramente apoiando-se no violino naquele momento singular, voltou a tocar.

Pôs sua alma naquela melodia. Quis, antes que aquela sensação e a mulher que despertava-o isso fossem embora, que ela ouvisse. Quem sabe, poderia saber que aquela melodia era a dele, sempre esperando-a até o fim.

De dentro de um carro, uma pequena sorriu.

"Oh... Que melodia bonita!..."

"Sente-se direito!" – uma segunda voz, de mulher, bradou. – "Não faça nenhuma cena, entendeu? Sente-se agora e fique quietinha."

"Sim, senhora."

A pequena sentou-se e ajeitou a roupa, engolindo em seco. Só não havia apanhado porque aquele era um carro estranho, com um motorista estranho que podia denunciar aqueles maus tratos e isso, mais tarde, iria ser descontado nela. Olhou para seus próprios pés, escutando ainda algum pouco da música.

Fechou os olhos, e quando o fez, sentiu uma pontada. Como se algo quisesse sair de dentro dela, algum grito oprimido, alguma ação assustadora. Encolheu-se, sentindo medo daquela sensação.

Ela pareceu engolir pedras quando conseguiu, por fim, controlar-se. A respiração chegava a estar alterada, mas nada disso foi percebido pela mulher que a acompanhava. Nem sequer os olhos da pequena, que chegaram a emitir um brilho assassino e mal-intencionado... Absolutamente nada foi percebido, de forma que tudo parecia muito normal, como se tudo fosse continuar assim.

Quem pensasse assim estava muitíssimo errado. Mas ninguém sabia disso ainda.

O sinal ficou verde. A música sumiu no ar, como se o autor da melodia tivesse parado. Mas foi o carro, movimentando-se, quem acabou com isso. A cabeça da menina quem ficou encarregada de rememorar os trechos e conter aquela coisa que queria desesperadamente sair.

XXXxxxXXXxxx

Quatro anos depois...

Se fosse possível dizer, aquele era o cenário ideal que todo cineasta iria querer para algum filme sobre Apocalipses. Havia um cheiro de carne em decomposição, uma atmosfera sufocante de morte e abandono. O único som ouvido na rua era do vento carregando papéis, pedaços de folhas mortas, sacudindo chaves ou objetos jogados ao chão ou qualquer coisa do gênero.

Um dia, aquela foi uma rua muito movimentada. Ônibus de turismo, restaurantes, pessoas e celulares, carros passando... Em suma, foi uma cidade normal. Pessoas normais, diversões normais, arquitetura normal. Hoje em dia, muitos perderam totalmente a fé e paradigmas no quesito 'o que é real/normal e o que não é'. Sobrara ali apenas resquícios vãos do que foi um dia a realidade com a qual todos estavam acostumados e na qual todos pisavam sobre.

Havia um forte cheiro de esgoto impregnando as ruas, de forma que, quando se queria passar por ali sem sentir os olhos arderem, era preciso tapar o nariz com o que conseguisse. A luz das áreas urbanas também fora cortada, o que obrigava quem ousava atravessar aquele perímetro a trazer lanternas ou qualquer coisa que pudesse iluminar a cidade escura.

"But sometimes when I medicate..."

Uma voz elevou-se na rua escura, assim como um frágil foco de luz ergueu-se, clareando os vãos dos prédios e estabelecimentos como se fosse uma tocha olímpica.

"...Frustration in you shows me how you feel..."

O som de passos elevava-se, fazendo o silêncio da cidade transformar-se, pouco a pouco, numa cadência ritmada de passos calculados e um som fofo, mas firme no chão do meio da rua, que um cidadão comum podia muito bem reconhecer como alguém caminhando no meio da mesma.

"Não, tá tudo errado!"

"Ah! Não tá não!..."

"Tá sim! Já saiu do ritmo antes do refrão!"

E além daquele som, havia obviamente a voz de duas pessoas elevando-se em pleno silêncio sepulcral, fazendo-as parecerem um estouro de boiada, de fato, do que uma discussão amigável num tom relativamente mais baixo que o comum.

"E você sabe fazer melhor?!"

"Claro que sei!"

"Duvido!..."

"...But I swear I'm not the devil though you think I am..."

Depois deste pequeno trecho, um suspiro entrecortado elevou-se, quebrando a harmonia por breves segundos.

"...I swear I'm not the devil..."

Ignorando totalmente aquela terceira voz contrariada, o dueto continuou, com aquele som característico de quem pigarreia para cantar o próximo trecho, dando uma pisada mais forte e convicta no solo.

"...And I SCREEEEEAAAM!"

"Pelo amor de Deus!" – por fim, a terceira pessoa que localizava-se na área não agüentou aquele berro em particular. – "Vocês têm vinte anos ou não?!"

"Aie! Archer, a Aileen gritou com a gente!..." – a menina escondeu-se atrás dele.

Atrás daquele rapaz de 1m80 ou mais e olhos azuis, ela pôde rir divertida do estouro da garota de pele pálida que andava na frente, quieta e bufando desde que eles saíram. Quando entravam numa das áreas de perigo, como que para irritá-la, a jovem que ria sempre começava a fazer alguma coisa que sabia irritar a outra. Talvez porque fosse divertido, talvez por sadismo saudável. Enfim...

"A gente só tá cantando, Aileen." – ele atalhou. – "Não é motivo de..."

"Se vocês querem atrair os habitantes dessa área pra gente, há métodos mais saudáveis do que cantar essa porcaria no meu ouvido!"

"Você chamou Staind de porcaria?! Que horror!" – a jovem fez um beicinho.

"Eles podem ser o que quiserem pra você, mas pra mim, são uma porcaria. Vocês cantam muito mal..." – fuzilou-os de canto de olho.

"Credo, não precisa nos matar só encarando." – encolheu-se o outro, também.

A jovem que andava, agora, atrás do único rapaz em questão naquele trio, com seus esvoaçantes cabelos castanhos e aqueles olhos quase da mesma cor, dançantes e muito vivos, não conteve uma gargalhada ao ver o humor dela.

"Deixa pra lá, Archer! As grávidas sempre ficam assim no começo!"

Tal insinuação fez a menina dos cabelos loiros, imediatamente, parar de caminhar, atraindo olhares de 'ferrou', mas sorrisos marotos dos outros dois.

"O que você disse, senhorita Ashford...?!"

"Aie! Ela tá me matando com os olhos!" – escondeu-se ainda mais.

"Parem, vocês duas." – ele suspirou. – "Elise, é pra você pôr a lanterna pra frente, não no meu casaco. Aileen, deixa a garota cantar em paz... Não há muito o que se fazer hoje em dia mesmo."

"É... Deixa a gente cantar. O bebê vai gostar." – sorriu.

A albina corou instantaneamente, mais do que havia o feito na primeira vez em menos de um minuto que ela insinuou aquilo.

"Eu não estou grávida!" – frisou muito bem o 'não'. – "Minha menstruação está vindo direitinho, não tenho nenhum corpo lácteo, nenhum enjôo! NADA! Eu não estou grávida, entenderam?!"

"Tá bom... Não precisa erguer a voz."

"A Aileen ficou rabugenta com o passar dos anos!"

"Eu não tenho culpa... Sou a única adulta responsável." – respirou fundo, como se fosse uma mãe brigando com os filhos. – "Vocês dois cresceram e mudaram só fisicamente. Mentalmente, até parece que regrediram. Continuam as crianças de dezesseis anos que eram."

"Nós estávamos fazendo menos escândalo quando cantávamos." – Archer interveio.

"Talvez, se você tivesse um pouco de maturidade, não precisaria estar me rebaixando a dar sermão num homem de vinte anos." – a albina rebateu.

"Hã, gente..."

"Como é?! Tá me chamando de criança?!" – pareceu indignado. – "Olha quem fala! Até parece que cresceu muito a senhorita também! Continua a mesma chata de sempre!"

"Olha como fala comigo, senhor Crowell!"

"Ei... Pessoal...?"

"Se você fosse um pouco menos resmungona, talvez não tivéssemos tantos problemas quando é nossa vez de patrulhar!"

"Tá dizendo que eu sou uma inútil?!" – bradou ela. – "Ah, é claro! Você prefere a Elise, que ainda não comeu! É claro, quase esqueci!"

"Quê?! De onde você tirou essa idéia?!"

"EI, VOCÊS DOIS, OLHEM PRA FRENTE!"

Despertados pelo grito repentino da ex-pseudo-punk, eles obedeceram o grito e olharam para frente. Lá, a luz da lanterna que haviam trazido iluminava silhuetas distorcidas pelo ar gelado da noite, que erguia pelo cenário desolado e negro uma intensa cortina de neblina.

Instintivamente, cada um segurou em sua arma, enquanto Elise, de trás do rapaz, também acabou por sacar a sua, pondo-a na melhor das poses de policial, virada para a cabeça das criaturas que aproximavam-se cambaleantes junto com a luz da lanterna de cabo negro que tinha. Os três se olharam, como que pedindo a confirmação do que estavam tendo em frente, e acabaram por rir.

"Eu conto, de olho, uns dez." – ela disse.

"Não é muito, não."

"É claro que aquela cantoria e nossos berros vão atrair bem mais, logo." – a albina jogou realidade na cabeça deles.

"Melhor pra gente."

"Lembrem-se de checar as casas. Sempre podem haver sobreviventes."

"Tá, tá... Quem fica com a linha de frente?" – o garoto perguntou, num tom de quem está jogando um game no nível 'Fácil' pela milésima vez.

"Deixa que eu atiro." – as mãos pálidas da outra destrancaram a trava da arma, num gesto de enfado como quem abre uma bolsa.

"Eu fico com a retaguarda, então." – sorriu a dos olhos castanhos.

O som de tiros, algo tão comum depois do de gritos, alastrou-se por uma das ruas daquela cidade cheia de desolação. Como o esperado pelos três, a busca por Alice de York não chegara a um fim definitivo, mas necessitava desesperadamente de um.

Em 2010, a Inglaterra passou por uma grande mudança em suas bases.

Aquele era o ano de 2012, dois após o que chamavam por aí de 'O Fim do Mundo' e quatro desde que a cidade afetada por aquela avalanche de terrores, misteriosamente, mudou. Desta vez, a capital Londres era considerada pela mídia e pelos que dali conseguiam fugir de 'a nova Seven Sisters'.

Todos continuavam, desesperadamente, procurando explicações e culpados. Mas a verdade é que pouquíssimos sabiam onde encontrá-los.

E isso iria continuar até o dia em que a dama de York pudesse descansar de sua longa jornada atrás de vingança. Se ele estava próximo ou muito distante, ninguém poderia dizer...

Fim?

E, para a alegria de muitos e tristeza de poucos, chegamos ao fim da primeira parte de "Seven Sisters". Não vou dizer que este é o dia da despedida (e, pelo menos, isso é algo bom, acho...), mas acredito que seja a despedida para os personagens que vocês conheceram até hoje. Creio que quatro anos se passaram e tenham feito muitas coisas com todos eles, assim como no desenrolar da fanfic eles amadureceram e tornaram-se essas pessoas que são. Acho que tanto eles quanto esta autora só conseguimos chegar aqui graças aos leitores que sempre incentivaram o andamento da estória, ficando bravos, alegres e desejando o melhor (ou pior) para todos eles.

Acho que a despedida desta fase de "Seven Sisters" seja marcante, afinal, depois disto, tudo irá mudar. Eles estarão mais crescidos, saberão cuidar melhor de si próprios e dos outros e muitas outras pessoas e situações virão para amadurecer o trio-mor outra vez. E, no fim de tudo, a amizade é algo estranho: depois de vinte e cinco capítulos cheios de reviravoltas, eles continuam juntos, firmes e fortes. E creio que este seja o charme deles. Párias da sociedade que lutam como uma família, apoiando-se e voltando mesmo quando tudo parece perdido.

Não vou dizer que chorei, afinal, a percepção de que as coisas ainda não acabaram como devem acabar me traz um certo alívio, mas fiquei mesmo emocionada ao pensar: "Ah, a Aileen, o Archer e a Elise amadureceram muito, tornaram-se pessoas de bem que sabem apoiar e serem apoiados, cada qual a sua maneira... Ah, essa fic tornou-se mais louvável do que qualquer planejamento meu no início". Muitas coisas foram modificadas no decorrer delas, e eu acho que o resultado não podia ter ficado melhor. Graças aos leitores e todas as pessoas que incentivaram pelo MSN ou e-mail, pude perceber que, no fim, querendo ou não, todos nós fomos moradores (não transformados XD) da cidade, podendo acompanhar a saga desses três moleques.

Por mais que a história ainda tenha continuação, durante um tempo, a partir de agora, "Seven Sisters" vai descansar. Mas gostaria imensamente de agradecê-los por tudo que fizeram por nós. Esta autora deseja o melhor para todos até lá (e que nunca visitem Londres a partir de agora XD).

P.S.: Acho que agora o título devia mudar, né? XD