Capítulo 24 – Beleza Manchada

"Tanto linda quanto você é

É tão desprezível o que você é

Você deveria ter percebido que isso aconteceria

Visualmente você é excitante aos meus olhos

Seu complexo de Cinderela é cheio de mentiras

Suas fraquezas são ocultadas pelo seu orgulho

Muito em breve o seu ego matará o que restou por dentro"

Beautiful – 10 Years

(...)

Embora boa parte de seus amigos e conhecidos estivesse lá, Hermione ainda se alertou com seu celular tocando e foi para a sacada do lado de fora do clube. Esta dava uma ótima visão da capital da Inglaterra, tanto quanto aquela que coroou a festa de seu antigo noivado – um pensamento que passou bem de leve no canto do cérebro dela, como a carícia de uma pena. No entanto, antes que chegasse de fato ao primeiro plano, foi bloqueado com força por suas defesas mentais, que agora brigava, além de contra a situação do Paradise e dos ex-melhores amigos, com a traição de seu ex-noivo e a dor traga por ele.

Lá fora, um vento gélido circulava e espiralava ao redor do prédio, mas nada que Hermione não pudesse aguentar. Ela se apoiou contra a mureta e sacou o aparelho móvel, só para ver que o toque anunciara uma mensagem da operadora, não de algum dos contatos.

Ela revirou os olhos e baixou o celular, pondo-se, então, a observar a paisagem.

Pouco tempo depois, uma taça surgiu ao seu lado. A cantora soltou uma risadinha e comentou:

- Aly, eu não quero sair daqui carregada que nem você.

Ao virar-se, percebeu que não era Alyssa, e sim Harry.

- Eu sei, nossos olhos têm cor parecida e os cabelos são quase iguais... Olha! – ele passou a mão na cabeça, bagunçando os fios negros ainda mais.

Hermione riu de novo e, dessa vez, boa parte foi por causa da piadinha. A outra vinha do fato de que, pela primeira vez em meses, ouvia a voz daquele homem soando... bem, soando como a de seu Harry. Tranquila, descontraída e divertida.

Ele deu dois passos para a frente, colocando as mãos no bolso da calça.

- Na verdade, eu trouxe isso aí porque está meio frio aqui fora e isso pode ajudar a esquentar um pouco...

- E meu traje não convém com o clima. – ela interrompeu.

- Eu também queria vir aqui fora. – ele corrigiu. – Ainda sou um cavalheiro britânico. – ele forçou o sotaque e um tom pomposo, fazendo-a rir, e postou-se ao lado dela. – E tenho que me... controlar.

Ela enfim compreendeu e devolveu a piada:

- Ah garoto festeiro, não aguentou o agito? – e sorriu.

Nenhum dos dois pareceu ter constatado que aquela era a primeira conversa civilizada – mais ainda, amistosa, como se parte da antiga amizade de repente voltasse à vida – fora do hospital, sem qualquer outra externalidade.

Harry fingiu uma expressão magoada, o que manteve o sorriso dela por mais alguns segundos.

- Você vai brincando aí, mas é sério. Aposto que estou desafiando parte do aconselhamento médico de recuperação voltando, mesmo que temporariamente, à vida noturna com essa festinha. E creio que minha mãe também não está feliz com minha... ousadia. – ele marcou as aspas no ar. De repente, baixou o olhar para o copo que trouxera. – Hey, você vai beber isso? Porque realmente 'tá me chamando...

Hermione rapidamente o drink, bebeu-o em três goles e devolveu ao local onde estava. O gosto era bom, algo de morango misturado a maracujá com o forte teor alcoólico no final. A grande quantidade de líquido fez com que a queimação dentro de sua garganta fosse intensa, mas não tão incômoda. Como Harry dissera, a bebida amenizou parte da sensação térmica da temperatura amena.

- Não. Embora tenha prometido a mim mesma não exagerar, não posso permiti-lo. Sem álcool para você ainda por um tempinho, Sr. Potter.

O homem suspirou. Hermione se virou para fitá-lo.

- Se quer saber, eu acho que você está muito bem. Não é qualquer um que recebe alta definitiva e três dias depois está de boa numa festa, com a mesma postura de sempre. – ela disse gentilmente.

Ele meneou em agradecimento e inclinou o corpo para poder fitá-la. Hermione sentiu seu semblante ficar mais sério.

- Desculpa por aquela ceninha lá na fisioterapia naquele dia. Eu estava irritado, impaciente, com dor e praguejando contra toda aquela baboseira e descontei em você. Sinto muito mesmo. – falou num tom profundo.

- Eu também devo desculpas. Eu entrei na pilha e acabei falando demais. Deveria ter sido mais paciente e calma. Eu sabia... Ou melhor, compreendia a sua situação.

Hermione não poderia dizer que não se sentiu surpresa com o pedido dele, mas nada tão grande quanto o discurso que ele fez na última reunião na Roadstar.

As palavras que algumas de suas amigas lhe disseram sobre os sentimentos deles deslizaram sorrateiramente, inconscientemente para dentro de sua cabeça. Ali, olhando-o bem nos olhos, a expressão leve, o humor tranquilo, a humildade e sinceridade nas desculpas, o trabalho de ir até lá com uma bebida para ela, parecendo-se com seu Harry mais que nunca... Ela até poderia acreditar que ele poderia ter se apaixonado por ela. Aliás, por qualquer pessoa. O Harry frio e debochado não. Hermione não via como esse seria capaz de sentir algo tão forte por alguém.

Ela abriu um pequeno sorriso e emendou:

- Eu só estou feliz que esteja bem.

Então, talvez influenciada por seus pensamentos, meio consciente, meio inconsciente de seus atos, ela tomou impulso, inclinou-se para frente, acabou com a pequena distância e o abraçou.

Harry, como se já houvesse percebido a ação antes de ser realizada, envolveu seus braços ao redor dela e correspondeu, prendendo-a firme contra si.

Não era algo qualquer. Não havia desconforto ou receio. Era um abraço exatamente como costumavam trocar no passado. Suspirando, Hermione deitou no ombro dele, abrindo o dique de suas emoções, deixando a antiga sensação de estar segura e em casa ali invadir livremente, junto com a enorme saudade que tinha dele... E o principal: de como era bom tê-lo vivo em seus braços; carne, osso e sangue em sua mais real forma. Agradeceu aos céus por ele ter sobrevivido, com uma fé tão grande da qual nem sabia que era capaz de ostentar.

Mais do que isso, senti-lo em sua plenitude, ela estava ciente do calor que o corpo dele emanava, algo tão sutil e ao mesmo tempo forte e presente, que lhe causava um levíssimo formigamento, como pequenos choques estalando na superfície de sua pele e entrando a fundo de modo estranhamente, prazerosamente agradável. Nunca tinha notado tal reação, nem tamanho poder – ainda mais por se tratar de Harry.

Tais pensamentos lhe roubaram um pouco o fôlego e fizeram seu coração acelerar. Esquecera tanto assim de como era tê-lo por perto? Sentia tanta falta daquele homem assim? E o que diabos eram aquelas pequenas explosões?

Hermione encontrava-se sem respostas e um tanto confusa quando seus corpos se afastaram.

Então ela viu os olhos verdes, tão próximos que mais um pouco suas respirações entrariam em contato. E viu mesmo, como há muito não fazia, como há muito pensara ter perdido a capacidade. Viu que ele também sentia saudade. Seu coração deu leve salto com a tristeza, algo parecido com quando fora visitá-lo no hospital depois ela própria teve alta do aborto. Ia abrir a boca para falar – por algum motivo, não conseguia deixar de assinalar a falta que tinham um do outro quando interagiam amistosamente – quando Harry suspirou, soltou seus braços e pôs a mão direita na curva entre o pescoço e o ombro dela.

- Eu também. – ele confessou. Seus dedos percorreram a pele dela, descendo até o ombro, desenhando linhas curvas aleatórias de modo suave. Ela se arrepiou de leve.

De repente, o clima ameno não existia mais de jeito nenhum para Hermione.


(...)

- Eu não sou uma pessoa perfeita. – Hermione pausou e olhou para suas mãos sobre a mesa. – Nunca fui e nunca serei. Tudo bem cometer alguns erros, mas não muitos como eu tenho feito nesses últimos três meses... ou nesse último ano, eu posso dizer.

Ela pausou de novo e suspirou profundamente. Seu tom de voz mudou um pouco com as próximas palavras.

- Desde que eu era mais jovem, eu sempre acreditei em algo chamado racionalismo. Eu não tomava um único passo em minha vida sem pensar nas consequências e sem usar a razão. O que é meio estranho, afinal, eu decidi viver de música. E música definitivamente não é algo racional... Na verdade, é uma das atividades em que você mais usa seu lado emotivo. Contudo, esse tão aclamado racionalismo me cegou. Eu acabei fazendo escolhas erradas ou escolhendo-as erroneamente e só agora eu vejo o que realmente fiz, só agora vejo as verdadeiras consequências. Eu não sou capaz de mudar a situação e, por causa disso, eu não posso mais fazer isso, eu não posso me prender a algo que basicamente não existe mais.

Outra pausa e essa foi mais longa que a outra. As fortes emoções dentro dela começaram a entrar em conflito enquanto falava. Hermione tinha de organizar seus pensamentos, mesmo sabendo que não seria possível em alguns minutos. Sabia que, em algum momento de seu discurso, sucumbiria a seus sentimentos, a seu lado emocional, e colocaria para fora qualquer coisa que cruzasse sua mente.

- Eu nunca escolhi, de verdade, ser uma cantora. Eu fui convencida. E nunca me arrependi. Algum tempo depois, descobri estar apaixonada pelo que estava fazendo. Música se tornou tão próxima de mim quanto eu jamais teria pensando em toda minha vida. Eu me dei conta de que não poderia mais viver sem isso. Durante todos esses anos de turnês, gravações de álbum e criando música eu tive os melhores momentos de todos. Eu pude conhecer novos países, novas culturas, novas pessoas. Não posso dizer o quanto amei isso.

"Entretanto, eu fiz algo que prometi a mim mesma que nunca faria. Eu fui influenciada pelo lado ruim da fama, o lado que todos nós sabemos que existe e que às vezes toma conta de algumas pessoas. Não consigo dizer quando aconteceu exatamente, mas aconteceu. E eu não percebi. Foi quando eu comecei a tomar decisões erradas, virei as costas a algumas coisas que aconteciam ao redor de mim e eu fingi que elas não me afetavam. Por algum tempo, superficialmente não me afetou, mas lá no fundo...

"Talvez o motivo pelo qual a banda caiu aos pedaços foi minha. Eu ignorei as mudanças que lentamente aconteciam. Ao invés disso, eu deveria ter me tornado a líder para tentar consertar quando o nosso verdadeiro líder estava também no meio da situação. Não fiz isso. Agora vocês perguntam: onde estava me racionalismo? – ela disse a palavra com um sarcasmo doloroso. – Mas eu deixei as coisas rolarem e elas acabaram do jeito que aconteceu.

"É por isso que não posso mais fazer isso com vocês nem comigo. Tudo que ultimamente temos feito é... sobreviver. Eu não quero que o Paradise sobreviva, eu quero que viva, o que não é algo possível. Se eu me arrependo não ter feito nada para impedir o fim? Totalmente. Se eu sinto falta dos meus dois melhores amigos? – A simples e direta menção deles fez os olhos de Hermione se encherem de lágrimas, e ela não pôde mais esconder o tom choroso. – Todo dia da minha vida. Cada minuto. Cada mísero segundo. Se eu quis que isso acabasse? Nunca, mas é o que vai acontecer. Não tenho palavras para expressar o quanto eu sinto muito, e eu não espero que vocês me perdoem. Eu só estou fazendo o que deve ser feito, eu só estou pagando pelos meus pecados. Obrigada."

Hermione ficou de pé e, sem esperar mais um segundo sequer, foi em direção à saída. Segurou as lágrimas até chegar à porta, mas, quando a atravessou, foi como se tivesse saído de uma bolha de proteção – a dor a atingiu com tanta força que foi quase como se o mundo, literalmente, caído sobre suas costas. As lágrimas explodiram como uma bomba e começaram a cair velozmente. Nem olhou para nenhum dos companheiros, embora os olhares de todos eles estavam depositados nela, cheios de tristeza e compaixão. Hermione pôde até mesmo detectar pelo canto do olho o brilho das gotas que rolavam pelo rosto de Ginny.

Ela continuou andando pelo corredor, cada passo mais rápido que o outro, tudo para que saísse dali o quanto antes para evitar que as memórias daquele lugar a assombrassem e piorassem seu estado. Sua sorte era que o prédio estava vazio, quase não havia ninguém para vê-la daquele jeito, mas mesmo se houvesse ela não se importaria. Chegando ao estacionamento, quase correu em direção a seu carro. Assim que se sentou no automóvel, mais outra explosão ocorreu, e ela liberou os soluços presos na garganta.

O rosto enterrou-se nas mãos numa tentativa de abafar os sons que se desprendiam dela. Em questão de segundos a pele ficou totalmente encharcada. A intensidade do choro não diminuiu. Na verdade, ela achava que ficava cada vez maior. A dor, tanto tempo aprisionada, finalmente foi liberada. Logo já não conseguia mais se controlar, não conseguia controlar a torrente que lhe escapava, deixando-a entorpecida por completo.


(...)

E tudo acabou com tantas perguntas remanescentes...

Não exatamente, disse-lhe uma voz em sua cabeça enquanto cenas de pessoas conversando com ela passavam na frente de seus olhos. Todos falavam, em momentos e situações diferentes, porém o foco era apenas um, o qual tanto brigou para rejeitar.

Mas agora... Ela não tinha mais nada a perder. Por que não acatar ao desejo de seus amigos – algo que lhe fora tão recorrente nas últimas semanas que também passou a ser seu, lá no fundo, devido ao seu lado curioso?

Quem sabe não encontraria mais do que esperava. Seria bom ver o que estava por trás durante os meses da turnê, um ponto de vista diferente do seu, uma ótica que achara ter boa parte da culpa do que aconteceu.

E agora não se tratava mais de seu orgulho, era algo maior, era uma necessidade. Ela precisava saber, depois de tanta especulação. Precisava acabar com a dúvida que lhe perseguia de leve, pelos cantos. Precisava tomar conhecimento de tudo para que finalmente pudesse queimar aquele capítulo para fora de sua vida.

Só havia uma coisa que iria, até onde pensava, lhe oferecer respostas concretas e finais.

As letras de Harry.


N/A: (Contexto) A ideia do capítulo era começar com a recuperação de Harry, o que incluía a cena de discussão dele e da Hermione na fisioterapia, como mencionado. Mas o tom muda quando um boato sobre os rompimentos na banda caem na mídia. Aí toda a verdade aparece, o inferno sensacionalista que o Neville previu no 21 se concretiza, a banda perde credibilidade, e Hermione decide acabar com tudo - sem consultar Harry e Ron, que estão fora, claro -, como uma forma de honrar todo o trabalho que fizeram e para não decepcionar os fãs mais ainda. O que, é claro, vai refletir neles. O título, a música, tudo isso gira em torno de que Hermione, ao tentar segurar as rédeas, acabou piorando a situação.

Esse capítulo visava mais explorar a culpa da Hermione em tudo, uma vez que a parcela dos outros já foi um tanto explorada. Pelo menos acho que essa era toda a ideia, até onde lembro hahaha Resolvi botar o contexto porque esse foi um dos capítulos menos escritos. Nesses casos, vou ver se escrevo algo no fim de cada para nada ficar muito enevoado.

Sei que, se houvesse de fato continuado com a fic, esse seria um dos momentos mais esperados pelos leitores. Enfim a Hermione vai explorar as letras! Ooooh!

Espero que tenham gostado :) Beijos!