Capítulo 25 – O Nordein da Lança Envenenada

Bolt sorriu ao reconhecer o som da porta se fechando. Elevou a voz e perguntou.

- E então, encontrou?

- Claro, acha que eu teria voltado sem encontrá-lo? – Respondeu Spark entrando no quarto.

- E o que ele disse?

- Pediu um dia para pensar, mas vai aceitar. Precisava ver o rosto dele...

- Ele ficou surpreso? – Perguntou Bolt começando a rir.

- Sim, inclusive pediu para que eu o entrevistasse, para termos certeza de que ele era uma boa escolha a general, merecedor de estar ali foi o que ele disse...

- Sabia que ele pensaria assim! De fato, você escolheu um bom aspirante a general dessa vez. Esperava que Ubu ainda estivesse aqui para ser escolhido também...

- Ubu está feliz liderando a Stark, falei com ele há alguns dias atrás. Mas enfim... Ter um general caçador será novidade na Connect. Ele virá aqui amanhã para informar a decisão... Acho melhor eu preparar minha armadura.

Bolt riu. De fato, era uma situação inusitada. Toda vez que Spark e Boris se encontravam, competiam por alguma coisa. Fosse qual competição fosse, desde quem saltava o obstáculo mais alto, uma competição de corrida, ou até uma batalha. Spark via em Boris um rival à altura, e acima de tudo, um amigo leal. Bolt segurou o riso e perguntou.

- Você se lembra quando conheceu Boris?

- Como se fosse ontem... – Disse Spark sorrindo, e flashes de memória passaram por sua cabeça.

...

Spark, mais jovem, com a bandeira de uma recém criada Re-Connect, despediu-se de seu irmão, na época um pagão, e saiu para a praça de Starfumos. O sol contornava com dificuldade as nuvens escuras do céu da União. O assassino se dirigiu despreocupado até o portão norte da cidade, e tomou uma trilha em direção ao Templo de Sangue. A trilha, ladeada por muitas árvores e plantas altas, era infestada de lobos e goblins, mas isso não significava perigo para o assassino, nem sequer desafio. Resolveu cortar caminho por entre as árvores. Enquanto andava, percebeu que alguns goblins o espreitavam das moitas. Sorriu e continuou seu caminho. Um goblin atirou uma pedra contra ele com sua funda, mas Spark apenas desviou e continuou andando. Outra pedra, e mais outra, e o assassino continuou seu caminho. As pedras cessaram, Spark imaginou que os goblins haviam desistido. Ao cruzar uma moita mais alta, se deparou com um lobo morto, e era recente, pois uma lança estava fincada no dorso do animal, e o ferimento estava apenas começando a sangrar. O olfato de Spark era bastante sensível, mas era estranho, o cheiro de sangue do animal estava misturado a um cheiro cítrico. Era um cheiro convidativo, dava vontade de experimentar... Inclinou-se para perto do lobo, e então uma voz rouca chamou sua atenção.

- Eu não tocaria nele se fosse você.

Spark olhou em volta, e notou um magro caçador sentado em um galho de uma árvore de meia altura. Sua armadura azulada e marrom contrastava com uma garrafa de líquido verde reluzente em suas mãos. Em suas feições nordein, um sorriso debochado e um cabelo loiro curto e espetado davam a ele uma impressão de prepotência. Sua voz e o modo com que balançava a garrava entre os dedos não agradaram a Spark. O vail estreitou os olhos e perguntou ríspido.

- Quem é você?

O caçador sorriu ainda mais. Spark notou que uma lança repousava no galho próximo, e que de sua ponta escorria o mesmo liquido verde da garrafa. Não era bom sinal. O caçador continuou apenas sorrindo. Diante do silêncio, o assassino continuou.

- Então, sem-nome, eu não pretendia tocá-lo. Não sou tão inocente.

- Sim, você pretendia, e, ei, eu acabei de salvar sua vida, um obrigado seria educado!

Spark começou a se irritar. Levantou-se e passou pelo lobo. Por cima do ombro, notou o caçador saltando do galho e se precipitando para segui-lo. O assassino parou e se virou. Lentamente levou a mão às suas garras. O caçador levantou as duas mãos e disse.

- Ei, acalme-se! Meu nome é Boris. E o seu, acho que não é 'Sou-o-mais-espertalhão'. Como se chama?

- Meu nome é Spark. Você não me conhece. Não é inteligente provocar alguém que você não conhece...

- Ei, ei, ei, não estou provocando ninguém, Rei-mistério! E eu acho que conheço você... Cabelos lisos e claros, olhos verdes... Espere, já sei! Não foi você quem ganhou o concurso de Miss União da Fúria?

Spark sacou suas garras e encarou fixamente o caçador que continuava rindo. Boris apertou sua lança, mas não parou de rir enquanto disse.

- Eu guardaria as garras se fosse você... Como você mesmo disse, você também não me conhece. Eu poderia acabar com você apenas raspando a pontinha da minha lança na sua pele.

- Adoraria te ver tentar acertar.

- Isso é um convite? Pois eu também adoraria tentar acertar.

- Então não passe vontade!

Com um rápido salto, Spark se lançou contra o caçador. Boris era notavelmente rápido também, com o cabo da lança repeliu uma das garras do assassino, e com um giro, tentou acertar com a ponta da lâmina, porém, Spark já não estava mais a vista. Boris ergueu sua lança e olhou ao redor. Nenhum sinal do assassino. O nordein estava acostumado a caçadas, estava acostumado a localizar suas presas em meio à mata densa. Mas o assassino não deixava rastros. Um som chamou a atenção do nordein para uma moita e sem pensar duas vezes atirou a lança. Um goblin acabou empalado preso a uma árvore. Boris sorriu. Porém, sem tempo para perder o sorriso, viu Spark saltar de trás de uma árvore, e com um rápido chute, derrubar o caçador. Boris rolou a tempo de evitar um ataque das garras do assassino. Estava sem sua lança. Por sorte, próximo a ele estava o lobo morto, com uma lança ainda cravada em seu dorso. Spark notou o olhar do caçador para a lança e sorriu. Atacaria no momento que o caçador tentasse alcançá-la. Boris se atirou para frente na esperança de pegar a arma, e Spark deu um passo à frente para acertá-lo com as garras, porém, ao pisar em uma moita rasteira, sentiu a perna ficar presa em algo dentado e serrilhado. Boris sorriu. Spark havia pisado em uma de suas armadilhas escondidas. O assassino não conseguiu notar quando o caçador havia colocado a armadilha. Ele havia sido rápido e astuto, criando uma emboscada dentro da emboscada de Spark. Sem perder tempo, o assassino se abaixou e abriu os dentes da armadilha para liberar o próprio pé, porém, quando levantou o rosto, notou a lança de Boris sendo atirada em sua direção. Sem tempo para pensar, ergueu as garras e desviou a lança, que cravou em uma árvore ao fundo. O assassino saltou até o caçador, agarrou seu braço, derrubou-o e pôs uma garra em seu pescoço. Boris estava com os olhos bem abertos e a respiração rápida. O assassino era rápido, o primeiro a conseguir desviar de uma de suas lanças à queima roupa. Sentiu a lâmina gelada pressionar o pescoço. Se preparou para dizer algo quando o assassino o interrompeu, recolhendo a garra e estendendo a mão para o caçador levantar, e dizendo de modo calmo.

- Como eu disse, não é inteligente provocar quem não se conhece. Mas tenho que reconhecer, você é inteligente. Aquela armadilha, quase acabou comigo. Você sabia que eu atacaria em sua tentativa de apanhar a lança...

Mas Spark não conseguiu terminar a frase. Sentiu sua voz se perder. Ficou tonto, as árvores pareciam dançar ao seu redor. Sentiu seu braço dormente, e ao olhar, notou um corte perto de seu ombro esquerdo. A lança que desviou havia arranhado seu braço. Sentiu sua perna fraquejar, e então tudo escureceu.

Abriu os olhos e viu fumaça. Olhou ao redor e viu Boris com uma pequena tigela de argila esmagando um pouco de ervas verdes e criando uma espécie de pasta sobre o fogo. Olhou para o próprio braço e viu um pouco de pasta verde sobre a ferida. Ergueu o tronco e sentou-se. Boris sorriu e disse.

- Ok, você é durão. Esse veneno é bem potente. Mata células exponencialmente. A cada segundo sem o antídoto, as chances de sobreviver diminuem pela metade. Você aguentou bastante tempo. Eu acho que já ouvi falar de você.

Spark sorriu e disse com dificuldade e tom de deboche.

- Então... Você também participou... Daquele concurso de Miss?

- Não. Mas pode ficar certo que se eu tivesse participado você ficaria em segundo!

Boris começou a rir. Spark sorriu. Acabou por achar interessante a competitividade do caçador. Levantou-se e olhou para o céu. Virou-se para o nordein e disse.

- Quanto tempo passei apagado?

- Dois dias! Nahh, brincadeira, apenas alguns minutos, talvez uns cinco.

- Entendo. Bom, preciso me apressar, vou ajudar um membro de minha guilda com os espectros do Templo. E se cuida... Talvez o próximo inimigo que você faça termine o serviço que comecei.

Boris sorriu. Ficou ali parado vendo o assassino ir embora. Gostou do desafio. Num impulso, correu até ele.

- EI, SPARK! Espere!

- Aprendeu meu nome, 'Garoto-do-graveto'?

- Esse apelido não faz sentido. Aqueles espectros são meio casca grossa. Vou te ajudar, vai que você quebra uma unha...

- Você realmente não tem medo de morrer cedo, não é?

- Quem chegar pro último ao templo é a Miss União!

Spark disparou antes que Boris terminasse de falar, sumindo de vista em poucos segundos. Quando o caçador chegou ao Templo, Spark já estava sentado na rampa de acesso, trocando informações sobre os espectros com um soldado novato. Boris chegou ofegante e disse.

- Ei, você roubou! Saiu antes que eu falasse ""!

- Você não especificou as regras. Não me culpe, 'Miss União'.

O caçador sorriu. Precisava de uma nova disputa. Olhou em volta, notou vários espectros.

- Quem matar menos espectros vira a Miss?

E naquela tarde, Boris entrou para a Re-Connect sem pensar duas vezes. Sempre que podia, inventava uma competição com Spark. Fossem combates, corridas, tudo o que pudesse pensar. E Spark gostava. Com o tempo se tornaram grandes amigos, e em várias ocasiões as lanças envenenadas de Boris levaram a Re-Connect a vencer guerras de clãs e a salvar soldados novatos durante treinamentos. Aos poucos, Boris juntava conhecimento, e, quando Dizzy deixou a Re-Connect, Boris era admirado por seu carisma e irreverência, e por gostarem dele, os soldados recém-formados e novatos o respeitavam, e seguiam suas dicas.

...

Spark foi retirado de seu passeio por suas memórias quando Bolt pigarreou. Ele olhou para o irmão, que sorriu, soltou o cabelo e disse.

- Está tarde, vou dormir. Com Boris aceitando, temos dois novos generais. Pretende ir até o terceiro?

- Não tenho ninguém em mente. Talvez Ryuza, ela é uma assassina experiente, e sabe dar ordens. Mas não queria a promover. Precisamos pensar em um terceiro nome. Bom, mas antes, preciso me preparar para uma luta com Boris amanhã.

Bolt sorriu. Passou pela porta em direção ao escuro interior da casa. Era questão de tempo. Estariam com o corpo de generais novamente completo. Sabia que Boris aceitaria. E sabia que, por baixo daquele semblante arrojado, debochado e cômico, Boris era virtuoso, valorizava a família, sua nova família, e faria de tudo para proteger a todos sob sua bandeira. Era uma sábia escolha de Spark, e era raro Spark tomar escolhas sábias. Deitou em sua cama e adormeceu.

No dia seguinte, Spark acordou Bolt de forma ágil. Seu rosto estava impaciente. Bolt perguntou sonolento.

- O que houve?

- Boris está aqui.

- Ele recusou?

- Não.

- Então por que me acordou com essa cara?

- Ele quer ser entrevistado. Vai lá, por favor! – Spark soava aflito.

- Por que eu?

- Você tem mais tato pra essas coisas.

- Spark, faça quaisquer perguntas, nós dois já sabemos que ele dá conta de liderar as equipes. Ele quer provar para si próprio que consegue, como uma prova de fogo. Vá lá e faça o que lhe vier a mente.

Saprk voltou até o caçador, pigarreou e começou sua entrevista.

- Então, qual seu nome, pequena 'Miss União'?

- Boris, e entre nós dois, quem passa cremes no cabelo? – Boris sorriu desdenhosamente.

- Não passo creme no cabelo. Enfim... O que você faria caso alguém lhe irritasse?

Boris sorriu, olhou para o lado e disse em tom cômico.

- Eu conheço meu inimigo ou ele é um estranho?

Os dois começaram a rir. Spark pegou a bandeira de general da Re-Connect e a colocou sobre a mesa. Boris pegou a bandeira, fez uma reverencia, deu um tapa no ombro de Spark e saiu. Pela janela, Spark viu o caçador fixando sua bandeira nas presilhas de sua cota de malha e ficar admirando por um tempo. O assassino riu, levantou-se e foi equipar-se de sua armadura. Dia de supervisionar treinos.


Notinha:

E aii jovens, tudo bom com vocês? Rase aqui quem vos fala! Antes de mais nada, obrigado por estar acompanhando até aqui! Sério, te amo, s2 coraçãozinho! Nah, brincadeira, nem te conheço kkk nah, agora q foi brincadeira! Não, mas sério, vlw estar acompanhando até aqui, significa bastante =]

Então, vamo lá, algumas curiosidades pra vcs:

- "Poxa, você não acha que forçou a barra com essa doidera ai da Nimble? Morre, não morre, morre, não morre..."

Pior, acho sim! Mas posso contar um segredo (que vai deixar de ser segredo agora né!) isso aí aconteceu mesmo kkk. Como vcs podem ter notado (ou não!) o título do livro é "Uma estória de uma história", essa brincadeira de palavras arremete ao seguinte fato: o livro é baseado em eventos que de fato aconteceram, e os personagens do livro são baseados em pessoas e em como de fato elas são. E Nimble e Spark foi um casal de amigos meus na vida real onde de fato rolou esse caso, onde ela fingiu morrer e tudo o mais (sim, juro por tudo q é mais sagrado! Vai por mim, a realidade as vezes é mais bizarra q a ficção!), então, é isso, é bizarro além da conta, eu concordo, mas foi mais ou menos isso que rolou. Só o q fiz foi dramatizar e adaptar à temática do livro. Tenso né?

- "Porque toda hora aparece algum personagem novo na Re-Connect?"

É que no caso não é novo, mas é a primeira vez que o nome do personagem passa a ser importante. A Re-Connect é uma guilda de soldados bem grande, nesse ponto da história é a 6ª maior e mais famosa guilda da União da Fúria. Então, ela possui muuuitos soldados, de todos os níveis de poder. Então, não é que o personagem está chegando agora, ele já estava lá, mas não era importante falar sobre ele até então.

- "Mais personagens importantes vão aparecer?"

Sim, pelos meus cálculos mais 6... É, acho q é isso... E tem 2 personagens antigos que vão aparecer novamente (adivinham quais são?)

- "Eu já joguei Shaiya, não existe nenhum personagem reencarnação de Deusa nem existe um Templo do Caos! Que papo é esse?"

Então, como eu disse antes, a estória é baseada apenas em fatos que rolaram com amigos enquanto jogavam. Mas várias coisas, várias mesmo, são ideias criativas. O mundo de Teos do jogo e o mundo de Teos do livro são um pouco diferentes. Aqui, liberte sua imaginação. Aqui, quem manda é a criatividade, e não o dinheiro.

- "Ryfalin no Templo do Caos encontrou um óculos e duas vezes ouviu uma voz feminina chamando um tal de Connor... Que parada foi aquela?"

TCHAN TCHAN TCHAN TCHAN! Essa é uma surpresa muito bacana inventada junto com a minha amiga Fkake, que também é escritora (brilhante por sinal).. O Templo do Caos é o que podemos chamar de Purgatório. Lá, você paga seus pecados na terra. Lá, você sofre até a morte em agonia. O Sete Pecados Capitais são os mandantes. E acontece que o Templo não é uma realidade exclusiva de Teos. Ele existe em todas as realidades, todos os planos e todos os universos. Só existe um paraíso, só existe um inferno e só existe uma penitência, e todas as almas são direcionadas para elas.

Essa voz feminina é por sinal de uma personagem de Darknesses, livro da Fkake. (SIM, ESSE TEMPLO É UM CROSSOVER!) Para saberem mais, sugiro que leiam o livro dela, q é brilhante, sério! O óculos que ele acha é dela, e o cajado que ele perdeu, adivinhem... Sim, ela usará! NÃO É INCRIVEL ISSO? CAAARA, EU TO SURTANDO! Enfim kkk

Bom galera, é isso! Quaisquer dúvidas, quaisquer curiosidades, postem =] E comentem sempre, deixem reviws... Seus comentários são nosso estímulo para escrever! Abraços galera, até daqui 5 capítulos!