26.

Thranduil move uma peça

Engrenagens se colocam em movimento

Anna e Eldrin observavam a floresta pela claraboia de um dos salões de Thranduil. Eldrin comentou:

— É uma paisagem tão diferente de Rivendell.

Anna olhava para o alto, admirando os adornos da abertura, lembrando folhas estilizadas. Suspirou, concordando:

— Verdade. Pena que não se pode passear na floresta. Eu gosto de ver árvores, pássaros, flores.

— A floresta é sombria — comentou o elfo.

— Acho a floresta magnífica. Pode achá-la ameaçadora, mas para mim ela é imponente, altiva e orgulhosa. Eu a acho fascinante, com suas faias, carvalhos e samambaias.

— Pensa isso mesmo?

— É mais correto dizer que eu sinto isso — respondeu Anna. — É mesmo muito diferente de Rivendell. Mas é tão magnífica quanto Imladris. Há uma qualidade de nobreza na floresta, e isso combina com seus habitantes. Gostaria de tê-la conhecido em melhores circunstâncias.

Uma voz atrás dos dois os surpreendeu:

— São lindas palavras, essas que dirigiu à minha floresta, Lady Anna.

Ela se virou, assustada, e se curvou diante do recém-chegado, o rei Thranduil:

— Majestade!... Desculpe minha distração. Não o vi chegar.

Thranduil trazia um sorriso discreto. Usava a coroa de galhos e frutas, a voz suave:

— Oh, não se desculpe, por favor. Suas palavras me trouxeram alegria.

— Nesse caso, fico satisfeita em poder retribuir um pouco de sua gentileza em Mirkwood.

O rei disse:

— Meu mordomo Galion e meu filho têm me lembrado que venho negligenciando meus deveres de anfitrião. Espero que me perdoe.

— Por favor, milord, não se preocupe com isso. — disse Anna. — É um homem importante e dedicado a seu povo. Não há o que se desculpar.

Thranduil deu o sorriso diplomático de sempre. — Espero que esteja sendo bem tratada. Falta-lhe alguma coisa? Posso oferecer algum conforto?

— Majestade, o senhor tem sido mais que generoso. Fico tocada com sua atenção a meu bem-estar e saúde.

— Soube de sua indisposição. Espero que esteja se sentindo melhor.

— Muito, Majestade, graças aos esforços de seu curador. Fico muito grata.

— Quero que leve boas lembranças de sua estada entre nós. Esta noite teremos um jantar especial. Gostaria de ouvir mais de suas fascinantes histórias. E planejei uma surpresa ou duas para a noite.

— Assim aguça minha curiosidade, milord — disse Anna.

— Galion a escoltará ao salão.

— Será difícil conter minha impaciência.

— Até lá, então.

Anna fez uma reverência, acompanhando Eldrin. Thranduil saiu com sua entourage. Então Anna virou-se para seu amigo:

— Parece que teremos uma noite de diversão, meu caro Eldrin.

— É o que nos foi dito.

— Você se incomoda se adiarmos a prática da espada esta tarde? Sinto que precisarei me dedicar a rituais de beleza.

— Claro que não me importo. Verei você mais tarde, então.

— Obrigada, meu amigo.

Anna saiu rumo a seu quarto, a cabeça em turbilhão. Numa coisa ela tinha sido sincera: o rei élfico a deixara muito curiosa.

Contudo, Anna tinha certeza que Thranduil pensava que era por outros motivos.

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Naquela noite, Anna pediu a Galion que providenciasse um banho e perfumes. Ela usou o grampo de Dwalin e improvisou pequenos galhos para tentar fazer cachos no cabelo. Maquiou-se com a pasta de frutas, colocou um vestido feito em Rivendell, escondeu a conta de Thorin por baixo da roupa e depois foi levada pelo fiel Galion ao salão indicado.

Elfos da confiança de Thranduil estavam lá, e Anna os cumprimentou. Ela podia reconhecer uma festa em preparação.

Então ela localizou um rosto conhecido:

— Sra. Anna, bem-vinda. Está muito bonita esta noite.

— Príncipe Legolas — cumprimentou ela, curvando-se. — Sempre gentil.

— Por favor, chame-me de Legolas.

— O rei, seu pai, deixou-me morrendo de curiosidade. Eu o encontrei hoje.

— Fazia tempo que não o via tão animado — comentou o filho. — Ele não me deixou saber que surpresas preparou.

Eldrin logo se juntou a eles, e em seguida o rei Thranduil entrou, ricamente vestido. Ele cumprimentou as pessoas e logo anunciou:

— Obrigado a todos por virem. Essa noite, em homenagem a Lady Anna, nossa ilustre hóspede de terras muito distantes, organizei um pequeno sarau antes de nosso jantar. Quero oferecer uma chance de conhecer um pouco das artes de Mirkwood.

Então houve recital de poesia élfica e uma pequena apresentação musical, incluindo um coro madrigal que encantou Anna. Ela sorria e batia palmas.

— Pela sua reação — comentou o rei, após o jantar —, posso deduzir que apreciou a surpresa da noite.

Anna respondeu, com sinceridade:

— Eu adorei, Majestade. Adorei tudo! Sou grande entusiasta de espetáculos musicais, e devo confessar que na minha terra eles não são tão tocantes e sensíveis como o que acabo de ver.

— Alegra-me muito que tenha se divertido, Lady Anna. Se estiver disposta, gostaria de revelar uma outra surpresa. — Thranduil ofereceu-lhe o braço. — Venha comigo. Legolas, mostre a Eldrin a coleção de gravuras da Segunda Era.

Sorrindo por fora, apreensiva por dentro, Anna notou o ar de contrariedade nas feições do príncipe. Ela também notou a sutileza do rei ao separá-la de Eldrin, que era praticamente seu cão de guarda.

Thranduil tinha algo em mente.

Anna aceitou o braço oferecido, e o rei élfico a levou pelo labirinto de corredores. Ela notou dois guardas acompanhando-os.

— Normalmente, não mostro essa ala a meus convidados — explicou Thranduil. — Mas acho que vai gostar do que vou mostrar.

— Eu me sinto honrada pela deferência, milord.

Não demorou para Anna notar que os corredores amplos começaram a dar lugar a locais mais estreitos e sombrios. Também estavam descendo, em algum lugar mais fundo dentro das cavernas. As tochas para iluminar o caminho pareciam sinistras, com uma luz bruxuleante de sombras ameaçadoras. Também era mais frio.

Anna estremeceu de leve, e Thranduil garantiu:

— Não precisa ter medo de nada.

— Aqui é mais frio ou é impressão minha?

O rei explicou:

— O rio Corrente passa muito perto daqui, e a umidade penetra nas paredes, mesmo com o revestimento de pedra.

— Então aqui é subterrâneo? Parece um labirinto...

— É proposital — comentou o rei. — Este é o nível dos calabouços.

Anna fingiu um grande espanto:

— Mesmo?

Os olhos prateados dele brilhavam ao responder:

— Estamos perto agora.

Talvez fosse a sugestão de Thranduil, talvez fosse a ansiedade de Anna, o fato é que ela sentia o coração se acelerando. Ela olhava em volta, fingindo medo, tentando gravar na memória aquele caminho, mas já sabendo que era impossível.

Thranduil pegou uma tocha do corredor e parou em frente ao que parecia ser uma porta escondida. O guarda abriu, e o rei largou o braço dela:

— Podemos entrar.

Anna obedeceu, intrigada.

Era uma cela escura, e tinha um prisioneiro deitado no catre que lhe servia de cama. A entrada de pessoas fez o prisioneiro sentar-se, alerta.

Thranduil trouxe a tocha para iluminar o cativo, dizendo:

— Achei que iria gostar de vê-lo.

O coração de Anna parecia prestes a pular do peito ao reconhecer o prisioneiro. Ela se aproximou cautelosamente, como se tivesse dificuldade em acreditar.

— T-Thorin...?

Thranduil iluminou o rosto dele e Anna pode ver os cortes e machucados. Thorin não só parecia mais magro como também mais abatido. Anna estava de coração acelerado e partido ao ver os olhos azuis que tanto amava tão apagados, olheiras fundas.

Anna também viu o choque de Thorin ao vê-la, mas ele logo se disciplinou e voltou os olhos para o chão. Anna se aproximou ainda mais e ficou horrorizada:

— Nãão! O que houve? Thorin, você está bem? Está ferido!

O prisioneiro continuava calado, olhos voltados para baixo. Anna indagou, mais para Thranduil ouvir:

— O que há? Por que não fala comigo? Está com dor? — Anna virou-se para trás, dirigindo-se a Thranduil. — Sabe o que ele tem? Que mal o aflige? Do que ele sofre?

Os olhos de Thranduil chegavam a soltar faíscas de tanto interesse. Mas ele deu de ombros.

— Ele sofre de uma extraordinária falta de cooperação. Não responde nem às perguntas mais simples.

— E como ele se feriu desta maneira? Seu médico já tratou dele?

O rei garantiu:

— Ele já recebeu tratamento médico, remédio, comida e acomodações. Só o que eu pedi foram informações, e ele se recusa a dizer.

Anna indagou:

— Por quê? O que quer saber?

— Simples informações. Eu quero saber o que ele faz tão longe de Ered Luin, para onde estava indo, por que invadiu a floresta...

Anna indagou:

— E por isso o prendeu na masmorra, como um bandido? Só porque ele não respondeu suas perguntas? — Anna virou-se para Thorin, cada vez mais escandalizada, e notou os pulsos dele em grilhões. — E ainda por cima com correntes?

Thranduil argumentou:

— Ele tentou atacar meus homens na floresta.

— Atacar? Por quê?

— Isso ele não disse.

— Não falou nada? Nenhuma explicação?

Thranduil deu de ombros:

— Ele insiste que veio implorar por comida.

O coração de Anna se partiu de tanta dó. A situação certamente era desesperadora para o orgulhoso rei sob a montanha se humilhar a ponto de mendigar por comida a elfos. Mas Anna tinha que controlar suas emoções, sabendo que Thranduil olhava argutamente todas as suas reações, querendo saber como tirar vantagem da situação.

— Por que está fazendo isso? — Anna indagou a Thranduil, penalizada. — Ele está ferido e desarmado! Não é uma ameaça ao seu reino ou ao seu povo!

Thranduil argumentou:

— Bom, se ele não me responde o que quero saber, como saberei se é ou não uma ameaça?

Anna pediu:

— Majestade, tenha coração! Ou tenha mera cortesia. Thorin Oakenshield é um rei, um nobre como você! Isso não é jeito de tratar um nobre! Tenho certeza que, se os papéis fossem inversos, ele teria cortesia por seu título!

O rei élfico escolheu aquele momento para comentar:

— Você nunca escondeu sua afeição por Thorin Oakenshield. Mas não tinha imaginado que tal afeição levasse a uma defesa tão... apaixonada.

Anna não pôde evitar adotar uma postura defensiva.

— Thorin Oakenshield salvou minha vida. Ele me deu abrigo, comida e proteção quando eu estava ferida, e numa situação de muita vulnerabilidade. Tenho uma dívida eterna com ele e com Gandalf.

Thranduil ergueu uma sobrancelha elegante para observar:

— É que essa defesa, em geral, é reservada a amantes.

Anna enrubesceu, escandalizada e ofendida:

— Majestade...! Esse homem é um rei!... Ainda que suas maneiras eventualmente deixem muito a desejar, jamais ele a mim se dirigiu de maneira indesejada. E eu sou apenas uma camponesa. Por que um rei iria olhar para mim? Acredite no que digo.

Thranduil deu de ombros, falando em tom dúbio:

— E eu acredito em você, Lady Anna. Porque eu não posso crer que uma hóspede recomendada por Mestre Elrond e pela senhora de Lothlórien, a quem tratei tão bem, mentiria para mim dentro de minha própria casa.

Anna percebeu a ameaça implícita e não se conteve.

— Caso contrário, o que faria? Iria me arrastar pelos cabelos até a cela mais próxima e acorrentar-me nos calabouços pelo resto de minha vida, deixando-me apodrecer? Se fez isso com um rei, imagine o que faria comigo, uma reles camponesa?

Thranduil ofereceu.

— Se você persuadir seu amigo a dar as informações que quero, ele ficará livre em três tempos.

Anna tentou barganhar:

— Milord já lidou com anões e deve saber das chances de qualquer um convencê-los a fazer o que não querem. Por que seria diferente comigo?

Thranduil pareceu concordar, mas não disse nada.

— Além disso — acrescentou Anna rapidamente —, deve saber que nunca lhe escondi nenhuma informação que Thorin me deu. Sabe como anões são desconfiados. Infelizmente, não posso fazer muito se ele me esconde coisas. Como sua hóspede, tenho obrigações para com meu anfitrião. Mas não posso concordar com o tratamento dispensado a alguém a quem sou muito grata e que merece mais consideração. Se os papéis fossem inversos, rei Thranduil, eu estaria fazendo o mesmo por você. Por favor, solte-o. Eu lhe peço, tenha piedade.

As palavras de Anna fizeram Thranduil considerar seus atos seguintes. Ele assentiu.

— Muito bem, Anna. Você não faz um pedido irracional. — Ele se virou para o guarda. — Podem tirar as correntes. Mas as demais condições permanecem, até que ele resolva falar. — Anna ia protestar e Thranduil a interrompeu com dureza. — Preciso proteger meu povo. Estou certo que entende isso, milady.

Meio a contragosto, Anna cedeu e fez uma reverência:

— É claro. Agradeço ter atendido meu pedido, Majestade. É mais uma gentileza que me faz.

Thranduil encarou Thorin quando respondeu:

— É de minha natureza ser generoso com aqueles que são corteses para comigo. Agora, Lady Anna, creio que foram muitas emoções nesta noite. É melhor eu escoltá-la até seus aposentos.

Ele estendeu o braço, mas Anna pediu:

— Majestade, poderia esperar só mais um minuto? Há um pequeno assunto que preciso resolver com o prisioneiro.

Aquilo aguçou a curiosidade de Thranduil, que arregalou os olhos, quase com cobiça, e cedeu:

— Certamente, minha cara. Vou deixá-los a sós para que tenham privacidade.

Ela garantiu:

— Não será necessário, milord.

Thranduil ergueu uma sobrancelha, curioso.

Anna voltou-se para Thorin, chegando perto dele. Dessa vez, os olhos azuis a encaravam, uma visão penosa para ela. Estava ciente que Thranduil perscrutava minuciosamente cada gesto dela e também a reação de Thorin. Portanto, Anna se aproximou com determinação e de maneira calculada do homem que amava e o encarou, sem pronunciar uma palavra.

Thorin fez o mesmo, intrigado, os olhos azuis cheios de dúvida. E sem perder tempo, num movimento rápido, Anna lascou-lhe um sonoro tapa no rosto. Thorin arregalou os olhos, chocado. Ainda sem dizer uma palavra, Anna ignorou a dor na mão (ela batera com força), ergueu o nariz, virou-se de costas para ele e foi para perto de Thranduil.

— Pronto, Majestade. Podemos ir.

Thranduil mal conseguia esconder o espanto. Certamente achava aquilo muito divertido e inesperado. Ofereceu-lhe o braço, dizendo, com sarcasmo:

— Minha cara, pensei que tivesse dito que ele não era seu amante.

Ela aceitou o braço, ainda parecendo muito ofendida, e respondeu apenas:

— Milord, parece ter esquecido que eu também mencionei sobre as maneiras dele. Elas deixam mesmo muito a desejar.

Thranduil tentou esconder o risinho sarcástico, mas pelo que ele mostrava, Thorin devia estar com uma cara digna de um retrato. Anna teve que se controlar para não se virar e olhar mais uma vez para Thorin.

Aquilo daria ao tal rei sob a montanha um gostinho de como NÃO se trata uma dama.

E a noite tinha começado de maneira tão prazerosa...