As bruxas ficaram horrorizadas a ouvi-la dizer tal coisa. Que tipo de pessoa diria tal coisa depois de se ver a si própria ser torturada de tal forma.
A Rainha voltou-se para a ruiva, mantendo seus olhos fixados nos da ruiva que encaravam o nada.
- Doremi. O que foi exactamente isto?
A ruiva não se dignou a responder. Era realmente preciso perguntar?
MajoHearth olhou para a ruiva friamente, embora por detrás dessa fachada o seu coração chorasse. Agora muitas coisas faziam sentido. Muitas mesmo. "Há quanto tempo és torturada assim?" pensou.
Mais uma vez o ecrã emitiu luz. Todas as bruxas viraram-se na sua direcção, ansiosas e algo assustadas com o que poderiam ver.
Desta vez a imagem formou-se mais rapidamente. Mostrando o interior de pele clara de um automóvel. Uma Doremi de 12 anos sentava-se rigidamente entre dois homens altos de fato e gravata. Uma mulher vestida similarmente conduzia o veículo.
Todas as meninas reconheceram as figuras como as pertencentes ao dia em que Doremi tinha sido levada.
A Doremi da memória piscou os olhos tentando livrar-se da humidade que insistia em lá ficar.
- Deixem-me ir… - murmurou fragilmente – Por favor…
Todas as bruxas pertencentes à corte sabiam o que significava ela implorar assim. Doremi Harukase não pedia favores a ninguém e nunca implorava por nada.
Todos os presentes no carro ignoraram o pedido. O homem que se sentava no banco do pendura à frente, até agora ignorado, foi o único a dizer algo:
- Lamento. – disse parecendo observa-la pelo espelho retrovisor.
A memória acabou subitamente. Novamente toda a corte observou a ruiva que olhava para o ecrã continuando a ignorar toda a gente.
- O que foi aquilo? – perguntou uma das bruxas do conselho.
MajoHearth divergia o seu olhar entre o ecrã e a ruiva.
- Foi o momento no tempo que marcou o começo da tortura. – disse sobre o olhar espantado das restantes bruxas – Era nisso que eu estava a pensar.
A corte começou a sussurrar. Seria isso? Eram os seus pensamentos que activavam as memórias? Começaram todas a pensar que coisas ao calhas mas nada resultou.
- Foi o conselho que cantou o feitiço. – disse a Rainha percebendo a natureza da magia – É o conselho que controla o ecrã.
Uma das bruxas do conselho perguntou sem se conseguir aguentar:
- Porque é que estavas naquela caixa? Porque é que estavas fechada?
Rapidamente outra memória começa a formar-se no ecrã.
Uma Doremi de 14 anos, andava silenciosamente pelo corredor escuro. As poucas janelas por que passava, mostravam uma noite cerrada, cheia de estrelas. Não havia lua e a luz era diminuta. As bruxas tinham de semicerrar os olhos para conseguirem distinguir as calças de algodão e blusa de alças pretas que, a ruiva usava como pijama. Algures no fundo das suas mentes, as bruxas reconheceram o conjunto, embora agora estivesse limpo, sem qualquer vestígio de sangue ou terra.
Subitamente a ruiva abriu uma porta entrando sorrateiramente para dentro do quarto. A imagem puxou-as para dentro do quarto, mostrando às bruxas os 10 beliches que o preenchiam. Um dormitório. Pequenos sons eram ouvidos. Soluços engolidos, palavras murmuradas.
Doremi olhou em volta desconfiada, deixando os olhos caírem nas janelas e verificando a porta por onde tinha entrado. Depois ergueu a mão, formando uma bola de fogo e fazendo-a flutuar até ao tecto.
A luz debateu-se por momentos com a escuridão, vencendo-a. Em segundos vinte caras foram iluminadas.
- Ginger! – murmuraram.
As bruxas do conselho tiveram de olhar duas vezes. Perante elas estavam pelo menos vinte crianças de 5, 6 anos em diferentes estados de desespero. Todas raparigas.
- Chiu... – sussurrou Doremi – Não falem muito alto.
Todas as bruxas surpreenderam-se ao ouvir o tom de Doremi. Nunca a tinham visto falar assim com ninguém sem ser a Hanna.
Ela falava suavemente e retinha um pequeno sorriso nos lábios, à medida que as crianças circulavam-na. Ela parecia tomar atenção a todas as crianças dispensando-lhes um sorriso e algumas palavras. Ajoelhando-se Doremi dirigiu-se a uma rapariga loira:
- Meg, onde está a Lil?
- Aqui! – exclamou a pequena segurando-lhe na mão e puxando-a na direcção de uma cama – Nós tentamos ajudar, mas…
- Não faz mal Meg. Eu vim tratar disso, ok? – a loirinha deu um meio sorriso, acenado.
A ruiva aproximou-se de um dos beliches ajoelhando-se juntou à cama onde uma menina de cerca de 5 anos estava deitada, coberta com o lençol. Gentilmente Doremi pousou uma mão sobre o ombro da rapariga, chocalhando-o levemente:
- Lil, sou eu. Acorda por favor.
Os olhos da rapariga tremeram levemente antes de ela os abrir, mostrando as íris da mais fabulosa cor de céu.
- Ginger! – exclamou a rapariga baixinho, entusiasmada, antes de deixar um esgar de dor escapar entredentes – Dói…
- Eu sei Lil. – disse a Doremi – Eu vou tentar ajudar, mas tens de me deixar mexer, ok?
A rapariguinha acenou e com cuidado a ruiva destapou-a.
As bruxas suspenderam todas a respiração.
- Aquele pé está totalmente torcido! – exclamou MajoHearth sem conseguir-se conter.
Doremi olhou para as feridas nas pernas, com os olhos suaves para não assustar as crianças que entretanto se tinham juntado à sua volta.
- Ela vai ficar bem? – perguntou uma delas.
- Não sei Mai, - disse Doremi fazendo um gesto com a mão, causando o aparecimento de uma caixa branca – Mas vou tentar.
Tirando da caixa um pano limpo e um frasco a ruiva começou a limpar as feridas abertas na perna, depois pegou num kit de costura, abrindo-o à sua frente, escolhendo a agulha.
- Meg. Estás a ver um frasco aqui dentro com o liquido vermelho? Dá à Lil! – ordenou enquanto esterilizava a agulha com fogo que criava na ponta do dedo – Suki! Dá a mão à Lil. Lil, quando tiver a doer aperta a mão da Suki mas não grites, ok?
Depois de todas as raparigas que ela chamou terem feito o que ela pediu, ela começou cuidadosamente a cozer as feridas. MajoHearth observava espantada o trabalho rápido, mas cuidadoso. A ruiva trabalhava sistematicamente, deslizando a agulha de um lado para o outro unido cuidadosamente as pontas retalhadas de pele. Quando acabou, retirou um pote de dentro da caixa branca e entregando-o a uma rapariga disse para lhe espalhar sobre as feridas acabadas de cozer.
Apertando ao de leve o tornozelo bom, a ruiva começou a observar o pé direito. Tocando-o ao de leve a rapariga ia-o virando vendo os músculos esticados e inflamados. A rapariga, Lil, choramingava levemente quando ela lhe mexia.
- Ok – disse depois de uns momentos – Lil, eu vou ter de por isto no lugar. – disse olhando para a rapariga seriamente – Vai doer.
A rapariga engoliu um soluço, acenado levemente com a cabeça. Sorrindo a Doremi apertou-lhe o pé bom:
- Linda menina! – depois virou-se para a multidão que as observava, começando a dar ordens e distribuir tarefas. – Meg, está um pano limpo na caixa, dobra-o e mete-o na boca da Lil. Lil se começar a doer muito morde o pano, não grites! – Rory! Onde estão as talas da outra vez? Vai busca-las! Kami! Vem dar-me aqui uma ajuda!
Quando Kami chegou ao pé dela, Doremi pegou nas mãos dela apertando-as contra os lados do pé de Lil:
- Kami eu preciso que assim que eu meta o pé no lugar tu o segures na posição correcta até conseguir por as talas e enfaixa-lo. Consegues fazer isso? – a rapariga acenou – Ok. Rory traz as talas para aqui! Certo. Lil! – chamou – Quando eu contar até três, ok? – a rapariga acenou e Doremi pôs as mãos sobre a articulação deslocada – 1…2..- com um doloroso "Clack!" o pé foi posto no lugar.
- Isso não foi até três! – exclamou Meg, apertando a mão a Lil que tinha ficado extremamente pálida.
Doremi dispensou um pequeno olhar, entre o por das talas e o começar a enfaixar o pé.
- Processa-me! – disse.
Algumas raparigas sorriram deixando escapar alguns risos tolos.
Assim que acabou de enfaixar o pé, Doremi voltou a tapar Lil com o lençol, retirando o pano da boca dela, limpando-lhe o sangue do lábio.
- Tenta dormir agora Lil. – a rapariga voltou a acenar fechado devagar os olhos.
Doremi deixou a mão descansar alguns segundos na testa da rapariga antes de se levantar, pegando em Meg ao colo.
- Mais alguém tem alguma ferida para tratar?
- Não. – disse Rory – Mas…
- Mas… - repetiu Doremi arqueando uma sobrancelha.
- Elas querem que lhes contes uma história. – disse Meg altivamente.
- E tu não? – perguntou uma das raparigas.
- Meninas. – disse Doremi parando com a discussão – Eu talvez possa contar um pequena historia, mas só se estiver tudo na cama, nos próximos vinte segundos.
Mas rápido que a luz as raparigas subiram para cima das suas camas, escondendo-se debaixo dos respectivos lençóis. Olhando para Doremi com os olhos cheios de esperança.
Sentando-se no meio da sala, Doremi suspirou antes de começar, de voz baixa, contar:
- Era uma vez, - começou com uma voz suave, com a cadência melodiosa de uma contadora de histórias - quatro raparigas que julgavam já não pertencer ao mundo mágico. Elas eram amigas e ao longo do ano anterior tinham enfrentado juntas os desafios de aprender magia. Tinham-lhes dito, que já não podiam fazer parte desse mundo uma vez que quebrado uma das nossas regras sagradas.
- Qual delas? – perguntou uma rapariga.
- Não interessa realmente a esta história, Miya. – disse deixando os olhos perderem-se no horizonte – Mas, estas raparigas eram jovens e tinham-se apaixonado pela magia, pelo mundo, pelo reino. Decidiram então que, antes de o puderem abandonar totalmente queriam visitar por uma última vez o reino onde tinham aprendido.
- O mundo da Magia? – perguntou Rory.
- Sim. Esse mundo tinha significado tanto para elas, que elas queriam despedir-se dele. Assim entraram num portal e caminharam. Iam contando as histórias do que lhes tinha acontecido ao passar pelos seus locais e quando notaram, tinham chegado aos jardins da Rainha.
Emilie, Sophie e Nicole, olharam para o ecrã surpreendidas. A história da Hanna.
- Entraram, tentando descobrir a saída e quando notaram estavam num campo de rosas. E umas em especial chamaram-lhes a atenção. Um arbusto. De rosas azuis.
- Rosas Azuis? – perguntou uma delas.
- Sim. Rosas Azuis gigantes. Mais belas do qualquer coisa que alguma vez tenham visto.
- Ai sim? – perguntou uma voz.
Doremi levantou-se subitamente virando-se para a mulher que estava encostada a ombreira da porta.
As bruxas cerraram os dentes ao reconhecerem a mulher.
- Madame. – disse Doremi friamente.
A Madame estalou os dedos fazendo os dois homens atrás dela avançarem quarto adentro segurando nos braços da rapariga, prendo-a entre eles.
- A praticar o bem Ginger? – perguntou vendo a caixa branca no chão. As meninas fingiam dormir, assustadas.
- Não Madame. – disse Doremi – Apenas a corrigir o que nunca deveria estar mal.
Assim que acabou de proferir estas palavras, virou a cara com a força do estalo que Madame lhe tinha desferido.
- Sempre foi o teu problema Ginger. – disse caminhando para a saída – Sempre a querer corrigir o que não precisa.
A ruiva não disse nada, mantendo a cara na posição caída. Madame virou-se sorrindo maliciosamente:
- Bem, vamos certificar-nos que esse pensamento não te ocorre novamente Ginger. – disse estalando mais uma vez os dedos.
O homem que lhe segurava o braço direito movimentou-se ao som do estalo e, num movimento fluido desceu a mão pegando no pulso da ruiva.
CRACK.
A ruiva semicerrou os olhos ao sentir o pulso ser partido. A Madame observou interessada.
- Levem-na – disse – Assegurem-se que ela aprende a lição! – exclamou antes de sair da sala.
As bruxas olharam horrorizadas os homens arrastarem Doremi pela porta fora, arrastando-a pelos corredores.
Assim que saíram, as meninas começaram a chorar.
A memória desvaneceu-se deixando a sala silenciosa. Era realmente possível?
- Por ajudar? – perguntou MajoLin, a guarda, sem se conseguir conter – Foste castigada por ajudar?
EU SEI, EU SEI! ATIREM À VONTADE! EU MEREÇO! EU SEI ESTOU ATRASADÍSSIMA!
Digamos apenas que tivemos um período de "eu não gosto de mim" e lamentação por mim própria, que felizmente agora já acabou! Como resultado, eu e escrita não estávamos muito amigas... Mas AGORA já está tudo BEM! MUITO MUITO BEM!
Neste capitulo quis dar-vos a conhecer um pouco mais a nossa Dó. O próximo é o ultimo desta série de "Convocadas".
BACI BELEZZA e té o próximo capitulo!
Deia04 - Oi bebé! Responde a algumas, dá mais umas quantas! Se não houvesse questões não havia diversão!
Inês - A Rainha é mesmo muito inocente! Juro!
