Frozen e seus personagens não me pertencem.
"The undoubted queen, protector of this dominion."
Capítulo 26
Foi com um suspiro carregado de alívio que Hans, finalmente, se viu livre das pesadas e fortes correntes de gelo que atavam suas pernas. Assim que viu Gerda entrar no quarto, contou a ela o que Elsa tinha feito – como também o que a Rainha pretendia fazer – e pediu ajuda à criada para se livrar dos grilhões mágicos o mais rápido possível. Gerda, por sua vez, não perdeu tempo em acender a lareira e ajudar Hans a se aproximar do fogo, entregando ao rapaz, também, um atiçador de metal, que o jovem ruivo usou para quebrar o gelo que derretia devagar, apesar do calor.
"Ainda não consigo acreditar no que Elsa fez!" A Governanta tinha um olhar perdido e descrente, e ora fitava Hans, ora fitava a janela do quarto. Com um gritinho nervoso, ergueu os braços sobre a cabeça e sacudiu as mãos no ar. "Por que ela faria uma coisa dessas? Por quê?"
Hans a olhou de soslaio, espanando, apressado, os restos de gelo que salpicavam suas pernas, mas nada disse. Ao tentar se pôr de pê, chiou um pouco quando descobriu que suas pernas estavam, além de muito frias, também um pouco dormentes, provavelmente por ficarem em contato com o gelo por tanto tempo. Ainda no chão, esfregou-as com as mãos, tentando aquecê-las.
"Isso é tão estranho! Elsa não é assim... e nem nunca foi! Por que cometer uma loucura dessas de uma hora para outra? Por que resolver atirar-se no meio desse vendaval horrendo? Ainda mais doente do jeito que está! No que ela estava pensando?" A criada continuou perguntando a si mesma, porém em voz alta, como se esperando que a resposta que ela não conseguia encontrar viesse, de repente, de algum lugar. "Se não a conhecesse bem, diria até que ela possui um desejo de morte!" Fez o sinal da cruz uma meia dúzia de vezes ao terminar a frase e apertou com força o pingente dourado em forma de crucifixo que carregava pendurado no pescoço, e que estava sempre escondido sob a gola alta dos vestidos que usava. O príncipe das Ilhas do Sul, por sua vez, estremeceu ao ouvir tais palavras.
Sinceramente, aquilo era algo que o rapaz já havia cogitado, mas que temia ser a verdade. Lembrava-se bem de quando Elsa contara a ele sobre os problemas que vinha enfrentando com seus poderes mágicos, assim como lembrava-se bastante de como ela parecera convicta de que aquela misteriosa doença causada por sua magia, muito em breve, lhe tiraria a vida.
"Como sabe disso? Como sabe que pode estar morrendo?"
"Apenas sei. Eu posso... sentir. Minha magia ficou exigente demais, mais do que eu posso suportar, e eu sei que ela simplesmente não vai parar de... de querer sempre mais. Ela não vai parar até ter me consumir por completo."
Se ela realmente acreditava que a magia a mataria em breve, se estava tão crente assim da morte certa, Hans desconfiava de que Elsa estaria mais do que disposta a gastar suas últimas forças tentando salvar o reino que jurara proteger.
O pensamento o fez cerrar os punhos e ranger os dentes.
Por mais nobre que fosse a causa, Hans não se sentia nem um pouco inclinado a permitir que Elsa arriscasse a própria vida.
Depois de muito custo – e ignorando o ligeiro formigamento que ainda sentia nos membros inferiores – o rapaz conseguiu se pôr de pé e caminhar com certa dificuldade até a porta do quarto, sinalizando para que a Governanta o acompanhasse.
"Vamos! Não podemos perder mais tempo." Disse sem olhar para a criada, mas Gerda estreitou um pouco os olhos ao perceber como a postura dele estava rígida e como a voz dele soava estranhamente controlada. "Precisamos encontrar a Elsa agora, Gerda, antes que..." Não conseguiu terminar a frase e sentiu como se as palavras, de uma hora para a outra, haviam se acumulado em sua garganta, bloqueando-a. Seu peito doeu muito, como se uma força invisível o apertasse, espremendo o seu coração, comprimindo os seus pulmões e revirando as suas entranhas. Uma súbita e violenta falta de ar o obrigou a parar e buscar apoio no batente da porta.
"Senhor Hans...?" Sentiu a mão de Gerda sobre seu braço e abriu os olhos cansados para mirar a criada. Viu otimismo no rosto redondo dela, que exibia-lhe um sorriso esperançoso. "Nós vamos encontrá-la, tenha fé! Estou certa de que a Rainha está bem."
Ele a respondeu com um sorriso tenso e um olhar ansioso, e logo, logo deixaram o quarto real, praticamente correndo em direção ao salão principal.
Nenhum dos dois, no entanto, notou que a temperatura ambiente parecia cair consideravelmente a cada minuto que se passava. Muito menos repararam na fina camada de gelo que já crescia e começava a se espalhar pelo peitoril da janela.
~ Frozen ~
Elsa fechou os olhos com força ao sentir o vento congelante a atingir, todavia, por mais que sentisse frio, obrigou-se a não estremecer, permanecendo firme e forte bem onde estava. Ao seu lado, Geada bufava, relinchava e se empinava sobre as patas traseiras, assustadíssima com a brusca mudança no clima. Vez ou outra, a Rainha murmurava algumas palavras visando tranquilizar o animal apavorado, mas nada parecia funcionar; e a égua continuava mais agitada do que nunca.
Inspirando profundamente e retendo o fôlego, Elsa estufou o peito e abriu os olhos azuis, sorrindo vitoriosa ao ver que a tempestade de vento, por fim, se transformara numa furiosa tempestade de neve – uma nevasca que, apesar de se mostrar feroz, sem sombra de dúvidas se dobraria facilmente aos caprichos da Dama do Gelo. Decerto que Elsa sentia-se cansada e um tanto quanto atordoada – provavelmente pela quantidade que magia que vinha usando sem parar – mas não se permitiria ceder à fraqueza.
Ainda tinha muito a ser feito, e Elsa não poderia sucumbir à exaustão antes de terminar o que havia começado.
Fitando Geada, aproximou-se do animal alvoroçado com muita tranquilidade e acariciou-lhe o pelo branco. "Não se preocupe. Tudo ficará bem, garota, você vai ver." A égua resmungou e bateu os cascos no chão, que afundaram sobre a fina camada de neve que já cobria o pátio externo do castelo. "Essa tempestade logo chegará ao fim."
Deu mais alguns tapinhas carinhosos no lombo da montaria e, com um suspiro, se afastou dela. Subindo um pouco a barra do vestido, levantou o joelho e bateu o pé com força no chão, criando uma coluna de gelo que se ergueu sob seus pés e a elevou até ultrapassar a altura do enorme muro que rodeava o castelo.
Lá do alto, a cena que se revelou aos seus olhos era terrível e fez seu coração bater descompassado.
A água do mar misturada à água da chuva torrencial que castigara Arendelle nos dias anteriores cobria quase que toda a vila ao redor do castelo, deixando à mostra apenas os telhados das casas, as lamparinas apagadas nos topos dos postes, a copa de algumas árvores que não se dobraram à força do vendaval, e, também, as torres que existiam próximas ao cais do porto. Imaginou como estariam as ruas e as construções quando a água recuasse por completo, e pensou se Arendelle teria condições de se reerguer após tamanha catástrofe, ou se o reino pereceria, incapaz de sobreviver após aguentar tanta destruição. Sentiu a dúvida, traiçoeira que era, retornar, crepitando no fundo dos seus pensamentos, bem como no fundo do seu coração, mas balançou a cabeça para os lados, afastando-a mais uma vez. O movimento fez seu coque se desfazer, e o vento sacudiu fortemente seu cabelo que era agora, com exceção de algumas poucas mechas, loiro escuro.
Lidaria com um problema de cada vez, e o primeiro deles era a tempestade.
Já estava passando da hora de dar um fim naquela tempestade.
Estreitando os olhos, notou que boa parte da água que cobria Arendelle já começara a congelar, e Elsa fez um movimento forte com os braços e com as mãos, como se empurrando o vento frio da nevasca em direção ao mar. Viu a água se agitar e oscilar ferozmente por causa da repentina ventania, mas também viu as cristas das ondas se congelarem antes que viessem a se quebrar. Percebendo que a água parecia se congelar mais rapidamente, tornou a impulsionar o vento frio em direção ao mar, seu rosto sério e grave devido à extrema concentração.
E então, suspirou aliviada assim que percebeu que havia conseguido congelar tudo.
Fechando os olhos, levantou os braços acima da cabeça e estendeu às palmas em direção ao céu. E, bem devagar, os baixou; o vento diminuindo e a neve se assentando à medida que ela descia os braços até a lateral do seu corpo. Sentiu quase que instantaneamente a mudança na atmosfera, a calmaria súbita fazendo o seu coração se acalmar também. À sua volta, o vento forte e gélido não mais castigava a sua pele e nem bagunçava os seus cabelos; o ruído provocado pelo vendaval cessara e apenas um zumbido fraco, porém insistente, permanecera em seus ouvidos; Geada não mais resfolegava e relinchava; e, apesar do frio perdurar - e a incomodar bastante - sabia que, naquele momento, era ela quem estava no controle da situação.
Finalmente!
Abriu os olhos e se permitiu sorrir, contente por seu plano ter funcionado. Claro, duvidara de si no começo, pois não sabia se teria condições de dobrar uma tempestade como aquela. Mas conseguiu dobrá-la. Conseguiu vencê-la.
Agora, precisava apenas fazer o mar recuar, livrando Arendelle do excesso de água.
~ Frozen ~
Hans correu até não poder mais, suas pernas doendo e seus pulmões ardendo bastante. Gerda conseguira acompanhá-lo até certa parte do caminho apenas, mas a criada logo foi deixada para trás, incapaz de manter o mesmo ritmo do jovem ruivo.
Quando avistou a escadaria que levava ao salão principal, aumentou ainda mais o passo, seus olhos esverdeados cravados no portão principal, que estava trancado.
"Ei, garoto! Onde pensa que está indo?"
Foi surpreendido pela figura enorme do Duque de Grimstad, que praticamente pulou na sua frente e o impediu de continuar descendo as escadas.
"Preciso achar a Rainha, General!" Ele respondeu, ofegante e cansado, seus olhos turbulentos varrendo o salão. "Por acaso a viu? Sabe onde ela está?"
O militar permaneceu em silêncio, mas Hans viu muito bem o momento em que ele fixou o olhar no portão principal.
Sentindo um frio súbito – e um medo feroz – esfregou os braços com as mãos. E engoliu em seco, mirando o General com pavor. "Ela está lá fora...?"
O Duque estreitou a coluna, sua postura tensa. "Ela me deu ordens para não interferir."
"Não pode estar falando sério!" Hans retrucou, tentando se desvencilhar do homem que lhe bloqueava o caminho. Entretanto, o Duque era como uma rocha sólida, e não tinha pretensão alguma de sair do caminho. "General, deve me deixar passar."
"Como lhe disse, não posso permitir que saia do castelo. A Rainha me deu a ordem de manter o portão trancado... e trancado ele permanecerá. Agora, siga-me. Temos que voltar lá para cima." O Duque pegou Hans pelo braço e fez menção de subir a escadaria, mas o rapaz, com um movimento brusco e quase que violento, se soltou, mirando o militar com um misto de raiva e revolta.
"Não! Não posso acreditar que tenha aceitado ficar aqui enquanto Elsa está lá fora! Sozinha ainda por cima!"
O homem prendeu a respiração e, em seguida, a soltou bem devagar. Ouvindo o barulho de passos, olhou para o topo da escada e, ao avistar cerca de cinco soldados que se aproximavam dos dois, ergueu a mão – um pedido silencioso para que parassem bem onde estavam. Massageando as têmporas, encarou Hans.
"Ordens são ordens, meu rapaz." A voz dele soou turbulenta e, também, um pouco triste.
Estava mais do que evidente que o General não estava feliz em obedecer o que lhe fora ordenado.
"E, além do mais, creio que está subestimando a nossa Rainha, Hans." Olhou para o portão mais uma vez e esfregou os braços ao sentir muito frio. "Ela pode parecer uma mulher frágil... mas possui muito poder. E digo ainda que, se há alguém aqui que tem condições de enfrentar essa tempestade e vencê-la, esse alguém é a Rainha Elsa."
"General, com todo o respeito, mas você não entendeu a situação!" Hans respondeu, estando, agora, menos agitado; mas não menos preocupado. "Elsa não pode usar os seus poderes!"
"Como disse? E por que não?"
O rapaz fechou os olhos e exalou um suspiro sofrido. "Os poderes dela estão matando-a aos poucos, General. Quanto mais magia Elsa usa, mais fraca fica." O militar arregalou os olhos, e Hans o fitou com um pouco de pena. "Mas você não sabia disso, não é?"
O Duque cerrou os punhos. "Acho que ela se esqueceu de me contar esse pequeno detalhe."
"Só há um jeito de Elsa conseguir dobrar esse vendaval, e é usando magia. Mas se ela o fizer, poderá morrer! Por isso que precisamos impedi-la! Agora!" Hans implorou, aflito e muito temeroso. Tinha bastante receio de que o militar continuasse inabalável e que se recusasse a abrir os portões que davam acesso ao pátio, mas a resposta que ouviu o surpreendeu.
"Por Deus! Se Elsa quiser me dispensar do cargo por insubordinação, que me dispense! Não ficarei mais de braços cruzados!" Praticamente arrastando Hans consigo, desceu a escada e correu até o portão. "Vamos, rapazes!" Berrou, chamando os demais soldados reunidos no topo da escadaria. "Vamos abrir esse maldito portão e ajudar a nossa Rainha!"
~ Frozen ~
"Eu já fiz isso antes... posso muito bem fazer de novo." Elsa fez daquelas palavras um mantra, repetindo-as e repetindo-as. "Eu posso fazer isso. Sei que posso."
Lembrava-se bem do acontecido de três anos atrás, quando congelou Arendelle com sua magia. E lembrava-se muito bem de como fizera para descongelar o reino, dissipando o gelo em questão de segundos. Claro, naquela época ela não estava doente e fraca, e muito menos sentia-se quase que exaurida de forças sempre que usava um pouco do seu poder mágico. Todavia, independente da sua atual situação, independente do frio que sentia, de quase não conseguir se firmar em pé e de sentir seu corpo à beira de um colapso, era tarde demais para voltar atrás.
Arendelle encontrava-se, mais uma vez, completamente congelada pela magia de Elsa, e a Rainha precisava se desfazer de todo aquele gelo.
Decidida, olhou para o céu e estendeu os braços para os lados. Fechando os olhos e conjurando os seus poderes, procurou respirar lentamente, e tornou a erguer os braços até unir as mãos acima da cabeça. Ao seu redor, a magia fluía com rapidez, porém graciosamente, envolvendo o reino por inteiro e fazendo o gelo e a neve que cobriam Arendelle desaparecer aos poucos. Ao abrir os olhos, percebeu que uma parte da água que invadira a vila ao redor do castelo já tinha recuado, mas boa parte do porto ainda permanecia embaixo d'água. Franzindo as sobrancelhas, concentrou-se em criar uma pequena nevasca com rajadas de vento fortes o suficientes para empurrar a água restante em direção ao mar, o que se provou ser uma tarefa difícil e exaustiva. Não conseguiu, claro, livrar-se se toda a água, mas, pelo menos, fez com que ela recuasse um pouco mais, deixando apenas metade do porto submerso, o que já era uma vitória e tanta. Sobre sua cabeça, o céu não tinha nuvens, e o sol brilhava a todo o vapor. Se o dia continuasse assim, Elsa logo pensou, a água começaria a evaporar e o mar recuaria por conta própria.
Com um movimento suave das mãos, fez a coluna de gelo sob seus pés baixar devagar. De volta ao solo do pátio, concluiu a tarefa de dissipar o gelo restante e sorriu aliviada ao ver que o reino não encontrava-se mais em perigo.
Ela vencera a tempestade e salvara Arendelle!
"Eu consegui!" Murmurou para si mesma, com um sorriso fixo no rosto. "Eu consegui!" Ouviu Geada relinchar e se aproximou da montaria, correndo os dedos pela crina do animal. "Está tudo bem, Geada... eu disse que a tempestade logo acabaria. Está tudo bem..."
Colocou a mão sobre a sela de Geada e tentou montá-la, mas sentiu um mal-estar imediato e não conseguiu nem pôr o pé sobre o estribo. Piscou forte, tentando clarear a visão e afastar a repentina tontura, mas sempre que abria os olhos percebia que menos conseguia enxergar. De repente, sentiu os lábios ressecados e a língua esponjosa, sua boca toda seca. Apoiando-se na lateral da água, olhou para o céu de novo, a luz do sol ofuscando-lhe a vista, e abraçou os braços ligeiramente anestesiados.
Apesar do sol forte, sentia seu corpo enregelado.
"Elsa!"
Podia jurar que alguém chamara o seu nome, mas aquela voz que ela não conseguiu reconhecer se misturou aos sons que Geada emitia, e Elsa se sentiu momentaneamente confusa. De repente, a vertigem que a assaltou foi insuportável, e ela se sentou no chão, achando impossível permanecer em pé. Sentindo ainda muito frio, abraçou-se com mais força, notando que tremia toda. Tremia de bater o queixo.
"Elsa!"
Ouviu de novo alguém chamar por ela e ergueu a cabeça, estreitando os olhos enquanto tentava enxergar alguma coisa, mas tudo o que via era um mar de borrões coloridos.
Um redemoinho de cores.
E então, como num momento de clareza súbita, reconheceu a voz que tanto chamava por ela, assim como viu com perfeição a pessoa que corria em sua direção.
Sorriu.
"Eu consegui, Hans..." Balbuciou tão baixinho que nem mesmo ela conseguiu escutar as próprias palavras.
Viu o rapaz tentar se aproximar, assim como viu Geada empinar e ficar de pé sobre as patas traseiras. Ouviu o animal bufar e resfolegar, e ouviu também o jovem suplicar para que a montaria se acalmasse e permitisse que ele se aproximasse de Elsa.
A partir daí, no entanto, seu mundo perdeu sentido. E não viu e nem ouviu mais nada.
