Nota:
Muito obrigada pelos comentários, reviews e tudo o mais, tanto aqui quanto no AO3! s2
Desejo a todos uma boa leitura. ;)
(ver o final do capítulo para mais notas)
Capítulo 26: A Proposta
A base se abria em um pátio árido rodeado de todos os lados pelas altíssimas muralhas da fortaleza. Guardas armados em seus distintos mantos verdes patrulhavam no topo delas, as pontas de suas lanças reluzindo na luz do sol. O terreno estava abarrotado de atividade ao meio-dia, que parecia ser o horário de pequenas tarefas; soldados em trajes casuais limpavam o pátio e tiravam o pó de vigas. Pessoas gritavam pelo local, pedidos de bacias de água limpa e demandas de refazer trabalhos de má qualidade. Eren assistiu aos processos com olhos arregalados e ávidos, absorvendo cada detalhe. Era isto que ele iria fazer se tudo fosse como planejado, afinal. Hanji notou seu entusiasmo e riu.
— Parece divertido agora, mas espere só até Capitão Levi descer para verificar tudo. Ele é cruel.
— Ele é tão ruim assim? — Não estava surpreso; o Capitão não havia ganhado sua temível reputação por nada, afinal, mas ele não parecera tão mau nas ocasiões em que Eren conversou com ele.
— Quando se trata de limpeza? Ô se é. Enfim, Levi está lá em cima em sua toca trabalhando na papelada no momento, mas geralmente ele desce meia hora antes do almoço para inspecionar a limpeza, então você não precisará esperar muito. — Hanji parou no lado oposto do pátio debaixo do toldo de uma janela, olhando para o bagunçado saguão. — É melhor eu me apressar agora e parecer que estou me ocupando com alguma coisa; você não se importa de ficar aqui sozinho por alguns minutos, não é? — Eren balançou a cabeça; contanto que não ultrapassasse o tempo limite de meia hora estabelecido por Jean, ele não se importava de ter algum tempo para olhar o local. — Levi virá por ali, então você deve localizá-lo com facilidade. — Hanji se aproximou e deu uma piscadela, dando uma leve cotovelada em suas costelas. — Boa sorte, garanhão! — Eren observou Hanji se afastar dando risadinhas e respirou fundo. Por Deus, ele esperava que Levi não ouvisse sobre isso.
Encostou-se na parede para ficar fora do caminho dos soldados apressados. Alguns lançaram-lhe olhares curiosos enquanto passavam, mas em geral, era ignorado. Entreteve-se observando a fortaleza à sua volta, as expansões beges e arenosas de paredes interrompidas apenas por janelas arqueadas e torres em formato de tambor. Não possuía o esplendor e extravagância que as construções dessa magnitude geralmente tinham em Trost, mas Eren supôs que estética seria algo supérfluo em uma base militar. Ele olhou as janelas estreitas que se alinhavam às cortinas de paredes e se perguntou quais delas pertenciam aos dormitórios, isso se havia algum. Onde ele dormiria? Quantas pessoas compartilhavam um único quarto? Seria permitido a ele sair da base para visitar Armin e Mikasa com frequência? O pensamento trouxe uma nova onda de apreensão; ele não tinha ideia de como eram as regras nas Tropas. Certamente eles teriam permissão para se mover livremente em seu tempo livre? Será que tinham um toque de recolher? Talvez ele nunca mais tivesse a chance de beber com seus amigos no Cavaleiro Sem Cabeça? Oh, Deus, talvez essa fosse uma péssima ideia; Eren não estava acostumado a ser limitado por regras.
Ele estava começando a mudar de posição agitadamente, lançando olhares de volta à saída e imaginando seriamente se deveria apenas ir embora agora e pensar melhor, quando sua linha de raciocínio foi interrompida pelo som de seu nome sendo chamado. Ele se voltou para encarar o lance de escadas do qual Hanji lhe falara mais cedo, levando a uma das torres mais altas e onde Levi estava caminhando em sua direção, assistindo-o cuidadosamente.
— Eu não esperava vê-lo de novo por pelo menos umas duas semanas. Não me diga que já foi capturado? — O mais velho olhou ao redor como se esperasse enxergar um oficial de prisão por perto. Eren riu nervosamente, mudando o apoio de seu corpo de um pé para outro. Olhou para suas mãos torcendo a aba de sua camisa, então parou. Ele nunca parou para pensar que estaria incomodando o homem. É claro que Levi estaria ocupado; ele provavelmente via a vinda de Eren aqui para interromper seus planos como uma inconveniência, sem contar que ele provavelmente ficaria ainda mais irritado quando descobrisse por que Eren estava aqui.
— Hm, não. Eu só... — Ele respirou fundo. — Posso falar com você sobre uma coisa? — Olhos cinzentos examinaram sua face cuidadosamente, mas fora isso a expressão de Levi não entregou nada.
— ... Venha ao meu escritório. — disse, gesticulando para Eren caminhar à sua frente de volta pelas escadas em que descera. Eren contornou-o com o corpo meio virado na direção de Levi. O mais velho lançou-lhe um olhar divertido.
— Se eu quisesse te apunhalar, acredite, isso já teria acontecido. — Certo. É, ele sabia disso. Se Levi quisesse prendê-lo, ele já estaria na cadeia, e se Levi o quisesse morto, ele nunca teria saído da viela no dia do motim. Eren exalou e assentiu. Ainda ia contra todos os seus instintos virar as costas ao outro homem, então ele focou em contar os degraus enquanto subia e ouvir os passos de Levi atrás de si. Levi provavelmente percebeu seu nervosismo, porque manteve uma distância generosa entre eles durante o caminho. — Todos vivem na base? — arriscou Eren quando o silêncio estendido só serviu para fazê-lo ainda mais irrequieto.
— Não. Entre as expedições, é normal que as pessoas retornem às suas casas. É claro que nem todos tem um lugar para retornar, então alguns vivem sim na base permanentemente.
— Você mora aqui? — Eren olhou para o mais velho por sobre o ombro. Levi olhou para ele brevemente, talvez tentando determinar o motivo de Eren para perguntar.
— Eu tenho uma casa. — Eren torceu os lábios, mas não pressionou a questão. Não fora isso que ele havia perguntado.
— Todo mundo tem seu próprio cavalo?
— Sim, embora alguns prefiram trazer seus próprios e a maioria tende a comprá-los eventualmente. — Eren murmurou em compreensão. Ele não cavalgava há anos, desde quando seus pais estavam vivos e tinham uma velha égua Chestnut que puxava a carroça de seu pai quando ele tinha visitas a domicílio para fazer.
— Cavalos são caros? — Ele gostaria de ter um cavalo. Gostaria de poder cavalgar pela cidade e explorar em plena luz do dia sem precisar se preocupar com os PMs. Ele não podia ir muito longe a pé.
— Tenho certeza de que você consegue bancar um agora. Aqui. — Eren esperou Levi alcançá-lo e destrancar a pesada porta de madeira, abrindo caminho para deixá-lo entrar primeiro. Eren assimilou o espaçoso escritório. As mobílias eram impessoais e poucas, mas tudo era meticulosamente limpo e arrumado. Havia uma dupla de prateleiras enfileiradas com livros e ornamentos de aparência estrangeira, provavelmente coletados durante expedições, algumas gavetas e algumas cadeiras; simples e prático. Havia, mais notavelmente, uma grande escrivaninha de madeira esculpida na parte anterior do aposento, com vista para o pátio e um divã com um pomposo desenho persa. Eles se destacavam comparado ao estilo mais simples do resto do recinto, e Eren concluiu que ou eles já vieram com o cômodo ou foram algum tipo de presente.
Ele ficou parado embaraçosamente no centro do escritório, com as mãos apertadas à sua frente enquanto esperava Levi fechar a porta e fazer seu caminho até a mesa. Ele não se sentou, ao invés disso apoiou-se na frente da escrivaninha e cruzou os braços, fixando Eren com um olhar horizontal. Eren se inquietou, fitando a cadeira ao seu lado, mas não ousando sentar antes de ser convidado. Ele se lembrou de anos atrás, quando era criança e se comportava mal na aula, ser enviado à sala do diretor para ser apropriadamente repreendido. Lembrou-se do quão assustado se sentia, sentado na cadeira de madeira desconfortável, pernas tão curtas que se penduravam centímetros acima do solo, encarando com olhos cheios de lágrimas a longa vara deitada na mesa diante dele enquanto esperava por sua inevitável punição. Sentiu-se assim de novo agora. Ele mal podia se forçar a olhar para o soldado, cujo olhar ele podia praticamente sentir perfurando-o. Olhou para um longo risco no chão polido de madeira à sua frente, esperando o outro quebrar o silêncio primeiro.
— Você se meteu em alguma encrenca? — Eren olhou para cima, surpreso pela pergunta.
— Não, Senhor. — As sobrancelhas do mais velho se comprimiram.
— Então qual é o motivo disso tudo? — Eren considerou a melhor forma de abordar a situação. Barganhar com Levi e fazer o mais velho sentir como se devesse isso a Eren depois de tudo o que aconteceu? Talvez seguir com o que Mikasa disse e jogar a culpa para cima dele?
— Eu quero entrar para as Tropas. — atirou Eren. Ou... Ir direto ao ponto? Prendeu a respiração enquanto esperava nervosamente a reação de Levi. O outro homem ficou em silêncio enquanto processava lentamente as palavras de Eren.
— Tudo bem. — Ele soou hesitante e cético. Mas qual era a pegadinha? — Você se sairia bem nas Tropas. Eu já disse isso à sua irmã. — Sério? As palavras fizeram Eren brilhar de orgulho e inconscientemente endireitar sua postura. Levi se virou e começou a selecionar alguns papéis espalhados em sua mesa. — Mas o que isso tem a ver comigo?
— Eu esperava que você pudesse me deixar entrar. — Levi não levantou o rosto, continuando a separar os papéis.
— Isso não é comigo. Você precisa passar pelo treinamento como todos os outros cadetes e é lá que vão determinar o que você pode ou não fazer. — Levi olhou para ele rapidamente. — Embora eu ache que você não tem com o que se preocupar.
— Então, aí é que está... — Eren começou devagar, um sorriso tímido em seu rosto que fez os olhos de Levi se estreitarem quando se virou para encarar Eren apropriadamente de novo.
— O quê?
— Eu não posso meio que pular isso? — As sobrancelhas de Levi se levantaram até os cabelos, mas Eren prosseguiu. — Eu já tenho mais treinamento do que qualquer treineiro quando começa. Sou habilidoso em combate e já sou versado com o DMT. — Ele contou os argumentos com os dedos enquanto falava. — Você mesmo disse que eu não tenho com o que me preocupar!
— É por isso que você queria falar comigo? Para que eu puxasse as cordinhas para você? — Levi zombou e se afastou da mesa, caminhando de volta para fora da sala. O coração de Eren afundou enquanto o assistia partir antes de se apressas atrás dele. Isso era obviamente uma rejeição. — Eu quis dizer que você não teria problemas em ser selecionado para as Tropas uma vez que tivesse passado pelo treinamento. Olhe, garoto, você precisa de treinamento. Não tem discussão. Você acha que tudo o que os cadetes aprendem é como dar um soco e usar o equipamento? — Levi voltou-se novamente a ele e, vendo a expressão em branco de Eren, revirou os olhos e suspirou como se fosse exatamente o que suspeitava. Eren fez uma careta. Bem, o que mais haveria? Ele se apressou para acompanhar a passada rápida do mais baixo, ofegando quando desceu correndo as escadas sinuosas de pedra de volta ao pátio.
— Eu sei cavalgar! — Que outros treinamentos os cadetes precisariam? — Eu - eu sei ler! — Seu pai fora veemente em garantir que seus filhos recebessem educação, mas isso acontecera anos atrás e as prioridades de Eren mudaram muito desde então. Ele estava enferrujado e não praticara muito desde a morte de seus pais, mas ainda sabia acima da média e tudo o que precisava no dia-a-dia. Aquilo tinha que ter algum valor? Porém, Levi estava balançando sua cabeça e Eren estava ficando desesperado.
Os passos de Levi não vacilaram nem por um segundo e parecia que Eren estava gritando para uma parede de tijolos pelo efeito que suas palavras estavam fazendo no homem. O soldado caminhou pelo pátio, olhos examinando a limpeza acontecendo ao seu redor com Eren em seu encalço, a um passo de rastejar. Ele tentou manter sua voz baixa, consciente das pessoas em volta deles que pudessem ouvir. Isso era embaraçoso; Eren nunca implorava.
— O treinamento o prepara para ser um soldado. Acha que todas essas pessoas saíram diretamente das ruas já prontas? — Levi gesticulou para a base e na direção de todos os soldados trabalhando pesado. Eren olhou em volta para todos os homens e mulheres que ele estava indicando e balançou a cabeça devagar. — Não mesmo. Eles foram preparados e especializados para o exército. Essa é a grande diferença entre você e eles a essa altura. Disciplina. Não importa se você é melhor do que todos os treineiros em termos de combate e proficiência com o DMT; se não consegue seguir ordens e se comportar como um soldado, você é efetivamente inútil para mim.
— Eu posso seguir ordens! — Eren se manifestou instantaneamente. — Rei - hã, os Titãs têm um líder e todos seguimos suas direções. — Levi pausou sua inspeção quando um soldado lhe entregou uma prancheta para dar uma olhada. Uma vez que verificara que tudo estava em ordem, assinou embaixo e devolveu-a antes de continuar.
— A diferença entre sua gangue de rua mediana de quatro membros é um pouco diferente da militar. — respondeu ironicamente. Eren fechou a cara. É, talvez um pouco, mas quão diferente poderia realmente ser?
— Levi, por favor. O treinamento leva três anos. Eu pesquisei; a maioria dele é sobre o DMT e instrução de combate; eu já sei como fazer tudo isso!
— E quanto a todo o resto? — Levi finalmente parou para encará-lo, com os braços cruzados sobre o peito e nivelando-o com um olhar desafiador. — Estes são blocos de construção importantes para criar um bom soldado, mas é todo o resto que consolida tudo no lugar. No momento, você é um canhão solto. Tenho certeza de que fará um membro valioso das Tropas eventualmente, mas por enquanto você não está lapidado e é imprudente. Agora mesmo, eu não posso dizer com confiança que poderia contar com você se estivéssemos em uma missão para fazer o que é melhor pelo grupo. Seus instintos primários ainda são de autopreservação, e esse é o tipo de mentalidade que pode comprometer toda uma operação.
Eren encarou de volta desafiadoramente, suas mãos curvadas em punhos ao seu lado. — Você sabe que pode contar comigo. Nós já fizemos uma missão juntos. Preciso lembrá-lo de que eu salvei sua vida? — A expressão de Levi não vacilou apesar das palavras acaloradas de Eren. Seus olhos cinzentos se agitaram entre os de Eren, como se procurasse por algo em particular.
— ... E eu ainda não consigo entender por quê.
— Quê? — Eren atirou, um pouco mais alto do que pretendia. Alguns soldados que estavam por perto pausaram seus trabalhos para olhar com curiosidade para eles. Rapidamente retomaram suas tarefas quando Levi lançou-lhes um olhar. Eren se aproximou, olhos em chamas, enquanto Levi continuava a parecer imperturbado de um jeito enervante. — Como assim, você não consegue entender por quê? Não há nada para entender! — Ele não conseguia acreditar. Não pôde evitar de encarar o homem como se ele fosse insano. — Você acha que eu tive algum tipo de motivo secreto para fazer isso? Acha que eu planejei algum esquema super elaborado para que tivesse uma dívida comigo? — Ele desviou o olhar, balançando a cabeça, e tirou um momento para se recompor antes de virar de volta. — Sabe, nem todo mundo é um pedaço de merda egoísta e interesseiro procurando um jeito de manipular e usar pessoas para seus próprios objetivos. Não sei com que tipo de pessoa você teve que lidar em sua vida para ficar tão desconfiado de todos, mas não o mataria ter um pouco mais de fé nas pessoas. — Durante o pequeno discurso de Eren, a única indicação de que Levi estava sequer ouvindo era o pequeno arquear de uma sobrancelha. Irritava Eren de uma maneira sem igual o quão indiferente Levi se mostrava frente à sua revolta.
— É assim que você fala com o líder de sua gangue também? — A pergunta pegou Eren de surpresa. Ele parou, ainda respirando com dificuldade depois de sua explosão.
— Eu, hã... — Ele deu de ombros, balançando a cabeça. — Eu não sei. Talvez? — Levi mostrou impaciência e virou-se para outro lado, retornando à sua inspeção.
— Assim não vai dar.
O quê? Ele teve vontade de jogar as mãos para cima em exasperação. O que não daria? Ele ficou parado por alguns segundos tentando descobrir o que aquilo tinha a ver com tudo antes de se forçar a seguir o mais velho novamente. Deixa isso para lá por enquanto, ele estava ficando sem tempo e precisava sair antes que Jean assumisse o pior.
— Mas estes três anos inteiros de treinamento seriam uma perda de tempo para mim. — tentou Eren.
— Admito que muito do treinamento seria redundante, mas as outras coisas que aprenderia valeriam a pena. Você não está pronto para ser um soldado ainda.
— Certo. Provavelmente, você tem razão. — Eren levantou suas mãos num gesto de redenção. Aquele parecia ser o ponto em que Levi estava preso. Apesar de ter esperado ser admitido direto, estava claro agora que esse parecia ser um objetivo fora da realidade. Ele teria que improvisar e se conformar com menos. — As pequenas coisas, certo? O básico do que é esperado de soldados, coisas que você consegue aprender vendo? — Levi olhou para ele de lado, desconfiado de sua repentina complacência. — Certo? — sondou Eren.
— Aonde está tentando chegar?
— Só estou dizendo: e se eu pudesse ficar por aqui e ver como as coisas funcionam em tempo real...? — Levi bufou, balançando a cabeça como se não pudesse acreditar na impertinência de Eren.
— Observação não é um substituto de aprendizado prático.
— Tudo bem! Eu poderia entrar, mas não como um soldado. — adicionou ele rapidamente quando viu Levi abrir a boca para interromper. O mais velho fechou a boca novamente e apertou os olhos, lançando-lhe um olhar duvidoso que parecia dizer "Estou ouvindo".
— Eu poderia ser como um aprendiz. — Eren podia ver Levi prestes a calá-lo, então persistiu, determinado a vender a ideia antes que Levi tivesse a chance de dizer uma palavra. — Como um assistente para você; eu faria qualquer coisa com a qual precisasse de ajuda. Hã... — Eren olhou ao redor da base, procurando por ideias. Viu alguns guardas reunidos discutindo sobre alguma papelada. — Escrevendo! Papelada! Quero dizer, não sou tão bom com palavras grandes e nada elegante e minha escrita está um pouco enferrujada, mas Hanji estava dizendo como você tem muito a fazer e eu tenho certeza de que uma parte disso é repetitiva e simples; eu poderia fazer esses? — Olhou para o mais velho esperançoso, mas ele ainda não parecia convencido. Caminharam até o outro lado do pátio e pararam ao lado de um varal de roupas temporário que fora pendurado pelo campo. Dois soldados estavam pendurando roupas limpas, lutando com os grandes lençóis brancos e se esforçando para pregá-los. Eren notou o modo como o olhar de Levi se demorou em uma mancha quase imperceptível em um dos lençóis, seus lábios curvando-se em aversão. Espere, o que Hanji tinha falado sobre a atitude de Levi sobre limpeza mesmo? Cruel, não era isso?
— Eu também sou excelente em limpeza? — Ele lançou a ideia hesitante, observando o mais velho atentamente por uma reação. Não deixou passar a forma como Levi pareceu enrijecer por um momento, sua cabeça virando quase imperceptivelmente na direção de Eren. Ele se segurou para não sorrir. Bingo. — Tenho certeza de que você pode imaginar o quão imundo um bordel pode ficar e, dado o tipo de pessoas que Muralha Rose atende, temos que manter os padrões mais altos. Eu sei esfregar, varrer, tirar o pó, e até ajudar na cozinha de vez em quando se necessário. — Levi voltou-se às roupas de novo, mas Eren sabia que tinha sua atenção. Assistiu Levi pegar o lençol manchado, inspecionando o estrago. — ... Eu sou especialmente bom em lavar as roupas.
— Mas por que eu te pagaria para fazer as coisas que eu posso pedir a qualquer um dos meus soldados treinados fazer? — Boa pergunta.
— Você não tem que me pagar. — Por Deus, como doía para Eren dizer essas palavras, mas Levi tinha um bom argumento e essa era a melhor oferta que podia fazer. Ele raciocinou isso em sua mente depois de calcular que poderia viver apenas de assaltos ou apenas de seu trabalho no bordel contanto que tivesse o dinheiro da recompensa também. Além disso, se cortasse o período de três anos do treinamento significantemente, definitivamente valeria a pena. A bolsa dos treineiros era adequada mas escassa, e se ele fosse por esse caminho, seria certamente muito menos do que o que ganhava no momento, e isso por três anos. De qualquer forma que olhasse, sair de um dos empregos para começar nesse sem receber teria mais ganhos a longo prazo do que sair dos dois empregos para entrar na academia do exército.
— Que generoso. — disse Levi secamente, parecendo entretido pela expressão de Eren. Ele deve ter feito uma careta inconscientemente quando fez a oferta.
— Por favor. — Estava ficando sem tempo; a essa altura, se Levi apenas considerasse, ele já ficaria feliz. Eren juntou as mãos. — Por favor, apenas pense nisso. Significaria muito para mim e eu prometo que serei útil e você não vai se arrepender. Eu não posso sustentar Armin e Mikasa com uma bolsa de treineiro por três anos.
— Nem se incomode tentando me fazer sentir culpado. — Eren franziu o cenho. Bem, não custava tentar. O homem era claramente capaz de sentir culpa; ele comprou doces chiques da Capital para se desculpar por quase tê-lo matado, afinal.
— Certo, certo, mas pelo menos considere, por favor. Você não precisa me pagar nada.
— Ooh! Parece uma boa oferta! — Hanji subitamente apareceu ao lado deles, laçando um braço em volta dos ombros de Levi e agitando suas sobrancelhas para Eren de forma sugestiva. — Agarre a oportunidade, Levi. Acredito que essa é uma verdadeira pechincha. — Eren assentiu junto, embora estivessem claramente falando sobre coisas diferentes.
— Olha, eu tenho que ir agora. — Eren olhou de relance na direção do portão da base.
— Precisa estar em algum lugar?
— Não, eu tenho um amigo esperando lá fora. Ele disse que se eu demorasse mais do que meia hora, ele chamaria reforços. — Levi arqueou um sobrancelha.
— Reforços?
— Mikasa. — esclareceu Eren.
— Ah. — Levi assentiu em reconhecimento. — Amigo espero. — Houve um estranho impasse enquanto Eren o observava ansiosamente, trocando nervosamente seu peso entre um pé e outro. — Vai lá, pode ir então. — Levi o enxotou, sacudindo o queixo na direção da saída. Se esperava uma resposta aqui e agora, ele podia tirar o cavalinho da chuva. O modo como os olhos do rapaz aumentaram com esperança fazia o estômago de Levi dar um nó. Não, ele não aceitou nada ainda.
— Vejo você em Muralha Rose então? Neste fim de semana? — Levi grunhiu sem se comprometer e olhou para outro lado. Ele não esperou para vê-lo partir; não queria fazer parecer que ele era mais complacente com o garoto do que com qualquer outro. Não queria enchê-lo de falsas esperanças, afinal.
Enquanto se virava para seguir até o refeitório para o almoço, ele percebeu a expressão de Hanji, que o assistia de canto de olho. Suas bochechas estavam inchadas de ar e parecia estar sofrendo para conter uma risada. Levi fitou Hanji furiosamente.
— Ah, vai se ferrar.
Nota:
A autora deixou uma nota nesse capítulo, e vou traduzi-la aqui também porque faço das palavras dela as minhas: "Eu gosto de acreditar que Levi se apaixonou um pouco quando Eren lhe disse que era bom em limpeza." HAHAHAHA s2
