Capítulo 26 - Duelo a três

Eu não podia acreditar nos meus olhos.

Olhem de novo, disse meu cérebro, incapaz de processar a imagem.

Estamos olhando. Está lá! – insistiram meus olhos.

Estava tudo um caos. Eu saí do elevador devagar, em choque. Chamas cobriam os prédios que deveriam ter sido lindos. Musas, deuses menores e outros seres imortais tentavam apagar o fogo ou correr, mas os monstros de Cronos tinham invadido o Olimpo também.

O que me levava a seguinte pergunta: onde estavam os deuses?!

Pai? O Olimpo está pegando fogo, sabia? Onde estão os deuses?, pensei, esperando – torcendo – que meu pai me respondesse.

Não tive resposta, e não poderia esperar. Andei pela cidade em chamas, destruindo alguns monstros no caminho e tentando ajudar os moradores.

Manipulei água de fontes e apaguei alguns incêndios, e recebi alguns agradecimentos.

Até que um deus menor, eu não sabia qual, me apontou para o salão principal do Olimpo, grande e majestoso, no topo da colina.

"Cronos está lá. Sabemos que é você o semideus da profecia. Cuidaremos da cidade. Vá!" ele pediu, parecendo um pouco desesperado.

"Percy!" ouvi Annabeth gritar.

Me virei para vê-la correndo até mim com olhos arregalados.

"O que aconteceu aqui?" Thalia e Nico estavam logo atrás dela, e eles começaram a tentar ajudar os moradores também.

"Cronos e seu exército." disse o deus menor. Olhando para mim, ele continuou. "Vá, filho do mar. Precisamos de você lá dentro, lutando contra Cronos."

Eu engoli e assenti, segurando Contracorrente com mais força na minha mão.

"Eu vou." Me virei para Annabeth, mas ela já estava pronta pra me seguir.

"Vamos ficar e ajudar." disseram Thalia e Nico ao mesmo tempo, se olhando estranhamente.

Nico continuou. "Iremos até você assim que pudermos."

A expressão dele era séria, e eu sabia que ele pensava o mesmo que eu: agora era a hora de testar se a maldição de Aquiles me ajudaria contra Cronos, ou se o banho de ácido tinha sido para nada.

Corri com Annabeth até o Templo Olimpiano, e levei um minuto para processar a grandeza dele. Tinha uns dez metros de altura, colunas altas de mármore e arquitetura tipicamente grega. Eu entrei pelas portas abertas e Annabeth me ajudou a destruir os dois cães infernais que guardavam a porta.

Entrei com tudo na sala do Templo, parando para recuperar o fôlego ao ver o que estava na minha frente.

A primeira coisa que eu notei foram os tronos. Enormes, para seres obviamente muito maiores do que humanos comuns. Formavam um semicírculo em U, dois tronos principais na frente, e mais dez, cinco de cada lado. Cada trono tinha um entalhe na frente com o símbolo do deus. Meus olhos involuntariamente se fixaram no tridente, entalhado no trono imediatamente à esquerda de Zeus.

Desviei meus olhos ao ouvir Annabeth ofegando e então reparei na figura que estava à frente do trono de Zeus. Luke. Ou melhor, Lorde Cronos, com sua foice numa mão. Ele nos olhava divertido, como se estivesse adorando ter-nos ali para seu golpe final. Usando um jeans escuro e camiseta, ele parecia como qualquer outro semideus, mas os olhos dourados e a aura de maldade o entregavam.

"Ora, ora," ele falou, nos tirando do nosso torpor. "veja quem chegou. Estava esperando por você, Jackson."

"Isso acaba aqui e agora, Cronos." eu disse, me empertigando ao levantar a espada e dar alguns passos para frente. Annabeth estava bem atrás de mim, segurando sua faca.

Cronos riu, deliciado.

"Sim, sim, tem razão. Mas talvez não acabe da forma que você espera." ele disse, empunhando sua foice.

"Sim, acabará." Eu disse. "Você não vai vencer."

"Você não pode comigo sozinho, Jackson." eu podia dizer que ele estava ficando aborrecido.

"É isso que vamos ver."

Antes que eu pudesse atacar, porém, ele disse algo que me fez congelar em meus passos.

"Você não estaria tão convencido se soubesse como os deuses estão perdendo feio a batalha contra meu Tifão." ele disse, sorrindo.

Annabeth ofegou e eu perguntei: "Do que você está falando?"

"Enquanto conversamos – enquanto seus amigos semideuses morrem lutando contra meu exército em Manhattan – os deuses tentam parar meu Tifão, um monstro há muito tempo adormecido. Ele está vindo até aqui, pronto para destruir tudo em seu caminho. Os deuses tiveram muitos problemas para derrotá-lo da primeira vez, e agora está pior. Claro, ter Oceanus tentando destruir o castelo de seu pai ao mesmo tempo pode ser o por quê. Poseidon está realmente muito ocupado para ajudar os deuses com Tifão."

Eu engoli seco. Era por isso que meu pai não tinha respondido? Há muito tempo, ele tinha me contado sobre Tifão, o horrível monstro feito de ventos furiosos, tempestades e terremotos, que na primeira guerra dos Titãs, tinha sido o último recurso de Cronos para impedir os deuses de tomar o poder.

Meu pai me contara que eles quase não tinham conseguido vencer Tifão, tinha sido difícil derrotá-lo e bani-lo para as profundezas da Terra, onde ele permaneceu dormindo por milênios.

Agora, se o que Cronos estivesse dizendo fosse verdade, Tifão estava acordado, e eu só podia imaginar o tamanho do problema que isso nos causaria.

"Por que não damos uma olhada agora mesmo no que está acontecendo?" ele sorriu de lado, parecendo feliz por minha falta de palavras e choque.

"O quê?" Annabeth ecoou meus pensamentos.

Luke/Cronos riu, e brandiu sua foice no ar, criando uma névoa delimitada que logo se transformou numa imagem. Era como uma Mensagem de Íris, sem arco-íris.

Tudo que eu podia ver na névoa-de-cristal era destruição.

Parecia um enorme tornado, carregando tudo que via pela frente. Pequenos raios de luz piscavam aqui e ali ao redor dele, mas pareciam apenas moscas irritando um animal muito maior.

Eu ofeguei quando percebi que o grande tornado de destruição era o monstro.

Era tão grande quanto meu pai tinha me contado, e parecia furioso. Seus olhos pareciam nuvens de tempestade não-naturais, prontas para destruir tudo em seu caminho. Sua boca disforme parecia com cem dragões juntos soltando fogo e fumaça. Ele era a personificação de todos os ventos ruins, monstros e devastação.

Percebi que os pontos de luz ao seu redor tentavam detê-lo, e a imagem focou apenas o suficiente para que eu visse raios.

Zeus. Os pontos de luz eram os deuses, que reconhecidamente estavam tendo trabalho. Tifão parecia ignorar suas presenças, avançando sobre a terra varrendo tudo debaixo de seus pés de tempestade.

"Bem, agora você pode dar uma olhada em outra coisa." ouvi a voz de Cronos dizer antes da imagem mudar para outra ainda pior.

Era obviamente embaixo d'água. Era obviamente Atlântida, com seus grandes e extensos jardins e o majestoso castelo de Poseidon. No entanto, nada daquilo era bonito agora. Os jardins estavam destruídos; partes do castelo derrubadas, outras pendendo frouxas para os lados, prontas para cair.

Bombas de fogo verde estouravam nos arredores. Exércitos de golfinhos, tubarões, orcas e sereianos lutando contra monstros marinhos e seres que eu nunca tinha ouvido falar.

No centro, um pouco mais para cima da batalha que acontecia no pátio do Palácio, uma forma reluzente disparava raios de energia azul e verde contra o que parecia ser uma lula gigante que mudava de forma a cada vez que era atingida. Vi o suficiente para saber que a lula era uma das formas de Oceanus, e a forma reluzente era meu pai, em sua forma divina, lutando contra o titã do mar para proteger seu reino.

A névoa que mostrava as guerras entre os deuses sumiu, e eu vi o rosto sorridente de Luke, o sorriso de Cronos impregnando seu rosto como uma máscara doentia.

"Não sei por que você se deu ao trabalho de vir até aqui," ele começou. "quando os deuses vão perder, no final. Tudo pelo que você lutou terá sido em vão. Não há realmente um ponto em continuar, Perseu Jackson."

Eu me arrepiei ao uso do meu nome completo, e não da forma boa.

Então ouvi Nico gritando.

"Não o escute, Percy! Você pode vencer! Todos podemos vencer!" ele gritou.

"É, você é o semideus da profecia!" disse Thalia também, e me virei para vê-los a alguns passos de mim, na entrada do salão do templo. "Lembra do que as Parcas disseram sobre isso?"

As Parcas. Entre a profecia feita sobre mim e a 'conversa' que eu tivera com elas em sonho, eu não conseguia me concentrar em nada específico. Mas eu sabia de uma coisa. Sabia em meus ossos, assim como tinha certeza que meu nome era Percy Jackson: eu estava destinado a derrotar Cronos.

E com os deuses ou sem eles, era o que eu faria.

"Não mude de assunto, Cronos." eu disse, vendo seu sorriso desaparecer ao ver a determinação em meus olhos. "Nós ainda estamos lutando."

Era isso.

Ainda estávamos de pé. Ainda lutando. E enquanto estivéssemos lutando, tínhamos uma chance de vencer.

Cronos, balançando a cabeça decepcionado, parecia resignado. "Se é assim que você quer, filho do mar, então venha. Vamos acabar logo com isso."

Eu não esperei por um segundo convite.

Avancei com Contracorrente em minhas mãos, e Cronos bloqueou meu golpe com o cabo de sua foice. Eu tinha que ter cuidado com aquilo. Mesmo que agora minha pele fosse como aço, eu não queria correr riscos com aquela lâmina amaldiçoada.

Me movi mais rápido do que imaginava contra Cronos e sua lâmina, e vi sua expressão azedar enquanto o enfrentava.

Quando me afastei o suficiente, ele me encarou com seus olhos dourados de raiva.

"Seu mergulho no Estige o fez imune a meus poderes de desacelerar o tempo." ele rosnou. "Mas isso não será suficiente para me derrotar, semideus!"

Eu engoli seco, reunindo minha coragem e meus poderes. "É o que vamos ver."

Investi contra ele de novo, mas seus olhos brilharam com algo que fez minha espinha se contorcer num arrepio involuntário. Ele me empurrou para o lado, me derrubando pela surpresa, e eu vi com terror enquanto ele se dirigiu com todo poder na direção dos meus amigos.

Nico, Thalia e Annabeth pareciam mais lentos que o normal, e eu percebi que eles estavam numa bolha do poder de Cronos. Quase imobilizados, não tinha como eles fugirem do ataque que Cronos estava prestes a desferir com sua foice.

Eu me levantei num pulo e concentrei meu poder no chão. Pisando com força, fiz a terra embaixo do piso de mármore do templo olimpiano tremer, e Cronos, ainda no corpo de Luke, perdeu o equilíbrio, soltando seu domínio sobre meus amigos e virando para mim com ódio nos olhos.

"Já chega disso, Percy Jackson!" ele gritou. "Você não vai conseguir interferir nos meus planos!"

O que ele fez a seguir tirou toda minha concentração e me pegou de surpresa. Ele inclinou-se para atacar meus amigos, e quando eu estava prestes a pular no meio para interferir novamente, ele direcionou seu ataque para mim, um raio de luz amarela cortando o ar e me atingindo bem no meio do peito, me jogando para longe.

Bati a cabeça com força contra algo, e mesmo que eu fosse quase indestrutível, a pancada tinha sido grande. O ar escapou de meus pulmões e eu estava mole, pesado e imóvel no chão.

Ouvi gritos e meu nome, mas não consegui distinguir nada. As linhas mais aterrorizantes da profecia vieram à minha cabeça. Aos pés do Olimpo, o semideus perecerá.

Era possível que fosse isso? Eu estava morrendo sem sequer ter feito diferença na luta contra Cronos? Isso não podia estar certo.

Ouvi o grito de Annabeth – uma mistura do meu nome com um grito apavorado, e forcei meus olhos a abrirem.

Me vi deitado aos pés do trono do meu pai. O grande tridente de mármore marcava o trono claramente feito para um ser de pelo menos seis metros de altura.

Tudo veio correndo na minha mente depois disso.

Os deuses tinham vencido Tifão na primeira guerra, principalmente porque Poseidon também era o deus dos terremotos e tempestades. Ele podia ajudar de uma forma que os outros deuses não podiam.

Com meu pai ocupado com seu Palácio no fundo do mar, os deuses estavam em desvantagem. Eles não podiam vencer faltando um.

Eu concentrei todo o meu poder em falar com meu pai, o barulho distante de uma batalha ao fundo.

Pai! Você precisa ajudar os deuses com Tifão! Eles nunca vão conseguir sem você!

Pensei mais forte e mais alto a cada vez, a frase ecoando na minha mente, até que consegui uma resposta.

Estou ocupado, Percy. Não posso abandonar meu reino.

Pode sim! Você tem um exército muito bem preparado aí. Eles podem cuidar de tudo até que você ajude os deuses a derrotar Tifão.

Você sabe quanto tempo me levou para construir os jardins e halls que estão sendo destruídos nesse momento?

Eu resisti ao impulso de rolar os olhos e repliquei com raiva.

Não sei, mas com certeza isso não será nada quando Tifão destruir Manhattan e Cronos dominar o mundo. Mas pelo menos seus halls e jardins estarão bem cuidados.

Agora eu quase podia ouvi-lo suspirar.

Segure Cronos. Estou chegando.

Com um sorriso, eu me obriguei a levantar. Eu tinha uma nova meta. Eu precisava parar Cronos.

Não estava preparado para o que vi quando me levantei.

Annabeth e Thalia conversavam com Cronos, tentando fazer Luke cooperar.

"Isso não tem que ser assim!" dizia Annabeth.

"Luke, você pode expulsá-lo!" disse Thalia.

"Parem de falar besteira!" gritou Cronos, e empurrou-as com o mesmo raio de luz que tinha me varrido para longe.

Elas gritaram enquanto eram jogadas no ar e caíam ao lado de Nico, que estava deitado gemendo no canto do templo.

"Ei!" eu gritei para Cronos. "Sua luta é comigo!"

Ele virou-se para mim e o que vi em seus olhos me chocou.

O verde dos olhos de Luke estava misturado ao dourado agora. O rosto de Luke estava dividido entre desesperado e furioso, e eu não sabia o que fazer com todas as emoções emanando dele.

"Percy, não!" eu ouvi Thalia gritar de seu lugar no chão. "Luke ainda está aí."

"Luke foi embora quando Cronos assumiu, Thalia." Eu disse, meio confuso. "Você sabe disso."

"Não totalmente." a voz de Luke disse, saindo abafada de sua boca.

Eu arregalei os olhos.

"Ah, cale-se!" a voz de Cronos replicou, saindo da mesma boca. Parecia que ele estava tendo uma batalha consigo mesmo. "Eu já tomei seu corpo inútil e ele será meu até que eu renasça!"

"Não se eu puder evitar." eu disse, em conjunto com a voz de Luke saindo de sua boca novamente.

Uma ideia maluca se formou na minha mente, ao mesmo tempo que Cronos gritava de frustração e corria para cima de mim, me atacando com sua foice com tudo que ele tinha.

A diferença era que agora eu sabia que éramos três duelando. E eu tiraria vantagem disso.