Olhei para paisagem das estradas do vinhedo em direção ao aeroporto de Florença com um misto de melancolia e alívio por finalmente estarmos indo embora para casa. Me perguntei, como consegui de deixar o lugar que crescei com tanta facilidade, mas a verdade, que na incompreensão dos meus sentimentos, não me sentia segura no vinhedo. Ali foi onde cresci, onde tive a vida que nunca realmente me pertenceu, onde fui enganada para ser protegida e hoje, o preço é alto demais para suportar. Edward estava mexendo no seu celular, distraído e meu irmão estava no banco da frente, ao lado de Mike. Um carro para segurança nos seguia de perto e inesperadamente, meu irmão decidiu nos acompanhar até o aeroporto, para passar mais algum tempo comigo, mas eu realmente não sabia porquê. Ele não é o mesmo. Não sei mais quem é meu irmão.

Ainda tenho vislumbre dos seus olhos azuis tão doces quanto o menino que cresceu comigo. Mas seus olhos foram tomadas pela mesma escuridão que reconheço em Edward em momentos de pico. Acredito que pela experiência, meu marido já sabe controlar sua escuridão, mas ele tem rompantes, que já me acostumei e agora que temos uma estabilidade emocional com o outro, já não sou e nem me sinto alvo da sua ira tanto quanto estávamos "namorando" e no começo do casamento. Ele consegue ser mais compreensivo comigo e também aprendi sobre limites – algo que entendi que também preciso impor os meus e por isso respeito os dele. Há tanta coisa acontecendo, que encontrei nele meu porto seguro, a minha paz. E me sinto feliz em ser também o seu. É claro que ainda me assusta muita coisa que acontece na família, a facilidade que Edward é capaz de se tornar cruel sem que a sua sobrevivência esteja imediatamente em risco. Todas as vezes que algo aconteceu comigo, era sobre viver ou morrer, mas eu nunca fui deliberadamente cruel com alguém.

Exceto James. Ele poderia me matar. Poderia matar Alice. Mas eu poderia rendê-lo até alguém entrar no quarto. Obedeci Edward. Não hesitei e atirei, no meio da sua testa. E naquele momento, senti uma satisfação nojenta de saber que tinha eliminado o perigo. O que isso me faz? Parte dessa família. Me faz ser herdeira desse legado.

- O prefeito acaba de nos convidar para um jantar informal, noivado de sua filha. – Edward disse me mostrando a mensagem. Eu gostava da esposa e da filha do prefeito, apesar de acha-lo um tanto neutro nos negócios da família, ele simplesmente parece gostar de nos ter por perto, principalmente que ele é um "irritante" com a sua oposição e meu marido simplesmente aproveita a oportunidade.

- Será um prazer comparecer. – sorri sabendo que um ano atrás, eu me sentia tonta, perdida nos negócios da família e hoje em dia, estou a par de quase tudo.

Parece que Edward perdeu o medo que alguém me pegue por informações, continuo fingindo ser alegremente ignorante para todos. Conversamos sobre tudo, sobre seus planos, seus medos e seus anseios. Desejamos começar a nossa família no próximo ano, apesar de ainda me sentir jovem, simplesmente percebi que ter meus filhos não irá me fazer mais ou menos velha. Em algum momento, terei que dar a Edward o seu herdeiro. E além dessa questão, acho que ser jovem como Esme com meus filhos adultos me parece tão agradável. Ela ainda tem juventude para aproveitar seu marido, viajar com ele e curtir netos. Nunca pensei por esse lado.

Segurei a mão de Edward quando senti o carro dar um solavanco ao passar por algo na estrada. O painel piscou várias vezes antes de tudo apagar de vez, na velocidade que estávamos, o carro simplesmente rodou bruscamente antes de capotar muitas vezes, ou uma só, ou nenhuma, mas eu me sentia presa dentro de uma lata de sardinha. Eu não sei quanto tempo me senti inconsciente, sem saber o que tinha acontecido. Quando abri os olhos, estava torta, com as minhas pernas viradas em um ângulo doloroso. Tentei virar meu rosto e não consegui, meu pescoço parecia preso no encosto do carro.

- Bella? Edward? – Jasper grunhiu do banco da frente.

- Edward? – sussurrei tentando pegá-lo, mas não o sentia mais. – Jas? Mike?

Ouvi a porta abrir e reconheci Demetri.

- Foi uma emboscada. – Demetri sussurrou e cortou meu cinto. – Há uma bomba no carro, você me entende, Bella? – assenti e ele falou em italiano com alguém. – Vou tirar você. – disse e me puxou com força, não contive o grito de dor. Ele me deitou no asfalto e não sei quanto tempo depois, senti alguém do meu lado. Era Jasper. E então, antes que pudesse perguntar por Edward, uma explosão surgiu e gritamos.

- Demetri não saiu do carro com Edward. – Jasper era a pura expressão do pânico. Suas palavras demoraram a fazer sentido pra mim.

- EDWARD! – eu não conseguia me mover. – EDWARD!

Jasper saiu do meu lado, se arrastando e outra explosão o jogou longe, para cima de mim e caímos em uma vala na estrada.

- Edward. – foi a última coisa que disse quando tudo ficou escuro.

Abri meus olhos e olhei para o teto branco, limpo, que doeu meus olhos. Eu estava em uma cama que imediatamente reconheci ser de um hospital. Olhei ao redor, procurando alguém e antes de fazer o giro completo, parei os olhos na televisão. Ela estava ligada, muda, mas também exibia a imagem do acidente. Era uma manchete, estava em italiano, o que significava que ainda devia estar em Florença. Eu vi imagens de ambulância. Meu nome e de Edward piscando na tela, depois uma foto do meu irmão e então, a televisão foi desligada. Virei e olhei para Rosalie. Ela estava vindo devagar para cama, segurou minha mão.

- Edward. Cadê Edward? – perguntei e minha garganta doeu. – Jasper?

A porta abriu e virei para ver Emmett entrar. Eles estavam estranhos, destruídos, inchados, como se tivessem chorado por horas.

- Cadê meu marido? – perguntei para Emmett já que Rosalie não respondeu. – Onde está meu irmão?

- Jasper está em outro quarto, ele passou por uma cirurgia ortopédica, mas está bem. Fora de risco. – Emmett disse lentamente e segurou minha outra mão.

- Edward? Eu não o vi sair do carro. Cadê ele, Emmett?

- Houve uma explosão. – Emmett disse lentamente. – O carro, nós estamos processando a companhia. – enrolou um pouco e seus olhos encheram de lágrimas. – Edward não conseguiu sair do carro. Encontrei sua aliança e seu cordão. – disse baixinho.

Não sei o que aconteceu. Algo dentro de mim quebrou e deixei de ouvir o mundo externo, mas eu sabia que eles estavam me ouvindo e tentando em segurar na cama. Não sabia o que estava gritando, mas Rosalie parecia absurdamente tão nervosa quanto eu. Senti quando fui forçada na cama, tinha um homem de azul em cima de mim, me segurando e outro imobilizou meu braço. Desejei ter apagado. Eu queria sair daquela realidade absurda onde Edward tinha morrido. Não poderia existir esse mundo. Não existe uma vida sem ele. Meu marido não pode ter morrido. Vi Esme sentar do meu lado e falar comigo, mas eu não ouvi, não desviei meu olhar da parede, próxima a porta, esperando Edward entrar ali e dizer que iriamos embora, que estava tudo bem, que tínhamos a nossa vida inteira pela frente.

- Ela está bem? – ouvi Carlisle perguntar, mas não o vi. Esme encolheu os ombros. Ela estava desgrenhada e desarrumada. Seus olhos era uma fonte de dor inesgotável. – Ela precisa reagir, os médicos disseram que clinicamente está bem.

- Ela perdeu o marido, Carlisle. Saia daqui. – Esme foi bruta. – Saia daqui.

- Eu perdi um filho também.

- É sua culpa. Saia daqui. – disse mais baixo quando percebeu que a olhei. Desviei meu olhar de volta pra parede. Não sei quanto tempo ficamos sozinhas, eu nem sabia quantos dias estava no hospital. Cada segundo sem Edward era como a eternidade. Era o ciclo vicioso do "para sempre" que para nós, acabou de forma tão brusca que era impossível de acreditar. Por que meu coração ainda batia? Era como se no meu íntimo, sentisse que ele estava vivo.

Mais tarde, sem saber se era dia ou noite, Esme saiu do meu quarto. Agradeci em silêncio estar sozinha, me sentindo sonolenta em muito tempo. Um movimento suave a partir da varanda do quarto me fez virar na cama.

- Demetri? – sussurrei sentando na cama. Ele fez sinal para ficar em silêncio e foi até a porta, trancando-a. – O que está acontecendo? – ele estava todo cheio d curativos, mas parecia bem.

- Não conte a ninguém que tirei vocês do carro. – disse e assenti, confusa. – Não diga que estive lá.

- Você não conseguiu tirar Edward? E Mike?

- Mike está comigo. Ele vai voltar quando for a hora. – disse e eu estava tonta pela medicação. Só podia ser alucinação. – Não deixe que tirem o lugar de Edward como chefe da família.

- Ninguém vai deixar Jasper assumir com menos de vinte anos. – disse voltando a deitar, minhas costas estavam me matando de dor.

- Assuma você. Eu vou te enviar aliados, mas não fale com ninguém sobre nós, sobre nossos encontros. Seus aliados sustentarão sua posição, mas você terá que fazer merecer ser capo da família.

- Eu sou uma mulher, ninguém vai me deixar assumir.

- Nunca foi dito que uma mulher não poderia assumir, não há efetivamente essa frase nos proclames da organização. – disse e abri minha boca, sem argumento. – Há um traidor em nossa família, em nosso sangue e não é hora de desmascará-lo, mas também não podemos permitir que suas ações danifiquem tudo. Siga com os planos de Edward, eu vou te encontrar quando for a hora.

- Por que eu deveria confiar em você? – perguntei insegura. Edward confiava em Demetri.

- Porque quando sair do hospital, vai ver que sou sua única opção. – disse indo para varanda novamente.

- Como saberei quem são meus aliados? – perguntei apenas porque a minha mente estava correndo para todo lado. Ele apontou para o livro que não estava na minha cabeceira mais cedo. Peguei e quando virei para varanda novamente, ele já tinha saído. Abri o livro e encontrei as letras suavemente marcadas, algumas frases grifadas e eu não tinha ideia como Edward conseguia entender essa linguagem entre eles.

Fechei meus olhos e me concentrei, decidindo seguir meu instinto. Demetri deve ter uma razão, ele sempre tem. Foi ele quem salvou a vida de Edward e Alec no deserto. Foi ele quem salvou Jane quando Marcus cismou que ela também deveria ser iniciada. Nunca entendi porque ela foi a única mulher que foi brutalmente tratada como um dos soldados. Jane. Onde ela estaria agora? Liguei a Tv e ouvi todas as reportagens sobre a morte de Edward. Não era real. Não podia ser real. Olhei as alianças que Rosalie deslizou em meus dedos quando comecei a gritar que queria meu marido. Seu gesto foi tão simples, mas tão honesto. A minha aliança era o único pedaço dele que teria pelo resto da minha vida? Nós não tivemos tempo. Não tivemos filhos. Não começamos nossa família!

Com raiva, levantei da cama, ainda sentir dor por toda parte. Mas eu precisava procurar por Edward. Eles estavam me enganando, assim como me enganaram com a morte do meu pai e da minha mãe. Eu fui enrolada a minha vida inteira sobre os reais negócios da família, aceitei um casamento arranjado quando é absurdo no mundo inteiro, todos fizeram parecer que eu não tinha opção, realmente não tinha, duvidava muito que alguém me deixasse viva para "sair da família", mas até então eu não sabia, como poderia ser sacrificada por algo que não sabia? Mas eu aceitei meu destino por amor ao vinhedo, ao meu pai, por desconhecer da vida e do mundo. E eu me apaixonei por Edward. Amo meu marido. Eles não vão tirá-lo de mim.

Abri a porta do meu quarto e andei no corredor.

- Você viu um paciente... Ele tem o cabelo castanho, olhos verdes. É bem alto. – disse para uma enfermeira. – Por favor. Você viu? Estava aqui quando cheguei?

- Você tem que voltar para o seu quarto. – disse me segurando e bati na sua mão.

- Não posso.

Andei mais alguns passos, me apoiando na parede, olhando para janela dos quartos. Alguém tentou segurar meu braço.

- ME SOLTA! – gritei quando o enfermeiro me segurou mais bruscamente. – ME SOLTA.

- Solta ela. – ouvi a voz de Jasper e virei, ele me puxou para seus braços. – Não encosta. – disse de um jeito ameaçador. Ele me empurrou para um quarto, trancou a porta e colocou uma cadeira na maçaneta. O enfermeiro ficou batendo e dizendo que ia chamar a segurança. – Eles querem nos matar. – Jasper disse e olhei para seu rosto. – Não sei porque, mas Caius não deixou que fosse te ver. Esme tentou argumentar, mas ela recebeu um cala boca e foi enviada para casa. – disse bem baixinho. – Eles me drogaram além do que deveria e só fiquei lucido quando Carlisle chegou e passou a ser meu acompanhante.

- Acha que ele está envolvido?

- Não sei. Mas eu não sei quem estava no meu quarto quando disseram que agora era mais fácil nos eliminar. – disse e ficou pensativo. – Alguém disse "Carlisle saberá lidar com o sofrimento de Alice, mas há um novo bebê na família e que é um Swan". Até meu filho está correndo risco. Consegui pegar o celular de uma enfermeira, pedi para Alec levar Alice e meu filho para um local seguro. Nós vamos sair daqui agora. – disse e eu vi que ele estava vestido. Ele tirou um celular do bolso. – Estamos no terceiro andar.

- Já estou aqui. – Jane pulou a janela. – Fácil achar a comoção do lado de fora.

- O livro. Não posso deixar o livro está em meu quarto. – disse quando vi que Jane jogou uma calça jeans na minha direção. Vesti e prendi meu cabelo. – Eu preciso do livro.

- Ok. – Jane me deu um meio sorriso e me esticou uma arma. – Não sabemos com quem estamos lutando. Edward tinha umas pistas, mas...

- Caiu?

- Meu pai está preso, quem mais poderia ser? Carlisle? Não podemos matar algum filho do Aro sem provas. Não sem ter retaliação. – disse e peguei sua arma. Ela olhou seu telefone. – Nós decidimos que ficar no vinhedo era nossa melhor opção. – disse e Jasper olhou alarmado. – Vocês tem a vantagem de conhecer o local e não há um naquele vilarejo que não lutaria por vocês.

- É verdade. Temos que ficar com o nosso território. – disse saindo pela janela com dificuldade. – Não tinha outro caminho mais fácil?

- Não com os capangas do vovô do lado de fora. Eu realmente gosto de pensar neles como minha família, mas, não vou colocar nossas vidas em risco. Estamos com um alvo nas costas.

- Como vocês decidiram vir a nosso socorro? – perguntei depois que corremos pelo estacionamento até o carro, onde Félix estava no banco do motorista.

- Nápoles. – os três responderam juntos. Félix jogou o livro na minha direção. – Recebemos o mesmo chamado. – entrei no carro e me acomodei.

Olhei para Jane.

- Meu marido morreu. – disse baixinho.

- Ah, querida. – Jane me abraçou apertado e desabei. – Rosalie, Alice e eu estaremos com você.

- Rose? Mas e Emmett?

- Ele não é legítimo, lembra? Vovô tirou a posição dele no dia seguinte do acidente. – Jane sussurrou e sequei meu rosto. – A morte de Edward foi recebida com diferentes reações. Esme e Alice entraram em desespero. Carlisle desmaiou. Vovô só olhou para janela. Caius simplesmente não esboçou nenhuma reação. – disse lentamente.

- Caius basicamente nos criou junto com papa. – disse Jasper do banco da frente.

- Meu pai era o homem da minha vida e ele tentou me matar. – Jane disse calmamente.

Eu vi, pela primeira vez, que os portões do vinhedo estavam fechados e a cada posto de vigilância, tinha dois a três homens do vilarejo, armados. Parecia um forte de guerra. Entrei em casa e Alice se jogou em Jasper, chorando. Eu vi o bebê no carrinho, no cantinho e agachei a sua frente, olhando o quão jovem el quanto a sua vida está em risco só por ser um Swan. E ele era o bebê mais lindo que já pude segurar. Senti as mãos de Alice em meus ombros e me afastei, porque ia desmoronar de novo. Nada daquilo podia ser real. Saí da sala, subindo a escada e encontrei com Zafrina no meio do caminho. Ela foi meu colo de mãe quando era pequena, quando caia e machucava meus joelhos. Quando achava que o mundo era injusto. Zafrina sempre sabia o que me dizer, mas ao vê-la parada ali, simplesmente percebi que não existiria outro colo no mundo que desejaria agora. Nenhuma palavra que dissesse me deixaria em paz. Nada tiraria a minha dor.

Passei por Zafrina e entrei no meu quarto. O lugar que dividi com Edward pelas últimas semanas. Entrei no closet e ainda havia algumas roupas nossas. Passei as mãos pelas roupas dele e senti seu cheiro, tão vivo, tão presente. Como ele poderia estar morto? Enterrei meu rosto no meio das suas roupas e me permiti chorar.

- Bella? – Jane me chamou da porta do closet.

- Tem um corpo? – perguntei baixinho.

- O carro explodiu. Foi encontrado DNA deles... Do Mike e do Edward. E as roupas... – Jane disse do jeito mais sensível que conseguiu. – Sinto muito. Todas as suas roupas e outras coisas da mala foram destruídas. – disse e ouvi o som inconfundível das patinhas de Donna correndo pelo quarto. – Rose a deixou sair do quarto. Ela foi preparar algo para você comer.

Abaixei e peguei minha filha no colo. Donna parecia sentir meu estado de espírito porque ficou quietinha no meu colo, sem me lamber ou ficar agitada como normalmente. Coloquei-a em cima da cama e suspirei, tirando as bandagens do hospital e com cuidado, tirei a agulha do scalp ainda preso no meu braço. Tirei minha roupa e entrei no chuveiro, desejando tirar o cheiro de fumaça e hospital de mim. Não lembro a ultima vez que tomei banho ou escovei o dente. Depois de limpa, sentei na minha cama com Donna. Não sabia o que fazer. Minha vida estava um completo caos e eu só queria entender como perdi meu marido.

- Irmã? – Jasper bateu suavemente na porta. Ele entrou com Rosalie e uma bandeja de comida. – É preciso comer para ajudar a tirar o efeito do medicamente. Chamei o médico do vilarejo, ele vai passar algo se sentirmos dor. Você não passou por nenhuma cirurgia, vai ficar bem.

- Não sinto fome. – murmurei ao olhar a variedade de comida na bandeja.

- Tome um pouco de caldo de tomate com carne, por favor. – Rosalie disse preocupada.

- Não agora, desculpe. Minha cabeça está doendo muito. – disse pensando que talvez eles se mancassem e saíssem do meu quarto. Rosalie parecia não querer sair e meu irmão se acomodou ainda mais na minha cama. – Acho que apreciaria ficar sozinha por um tempo e talvez tirar um cochilo? – disse calmamente e eles se olharam.

- Daqui a pouco venho te ver. – não passou despercebido que enquanto deitava, meu irmão tirou todos os objetos cortantes do quarto e todas as armas. A intenção foi boa. Edward ainda tinha duas armas no colchão e outra no fundo falso de uma gaveta, mas eu não disse nada.

Donna deitou na minha barriga e olhei para o lado intocado de Edward. Outra noite, eu estava nessa mesma posição observando-o ler um contrato na cama, que recebera de última hora no e-mail e estava dando uma analisada enquanto não tinha sono. A cama parecia duas vezes maior e muito fria sem ele e me acostumei a dormir ao seu lado, era muito estranho quando acontecia de dormirmos separados, por que agora seria bom? Nunca mais irei ver meu marido. Como poderia viver em mundo assim? Obviamente, não consegui dormir. Minha mente estava girando loucamente entre tudo que Demetri disse. Por que ele estava nos seguindo? Como ele sabia que era uma emboscada? Como ele conseguiu ir até o hospital e falar todas aquelas coisas? Como impedir que tirassem o lugar de Edward como chefe e por quê? Qual o sentido nisso? Meu coração batia tão forte no peito que doía.

Olhei pela janela ao ouvir uma comoção na porta da frente e vi Emmett segurar um homem pela gola. Desci correndo, curiosa e abri a porta da frente.

- Sra. Volturi, por favor. – disse e o reconheci.

- Jay Jenks, o que está fazendo aqui? – gritei confusa e virei para meu cunhado. – Solte-o.

- Sinto muito, Sra. Volturi. Eu não sabia como aparecer, mas eu tenho ordens e desejo cumpri-las.

- Ordens de quem? – perguntei ao mesmo tempo em que Emmett perguntou de onde o conhecia. – Presto serviços para a família. Bem, especificamente para algumas pessoas da família.

- Ele é um correspondente. – disse ao meu cunhado, sem saber como dizer que é ele quem faz a correspondência entre Edward e Demetri quando eles estão longe demais para se encontrar. Ele também é o tradutor. Demetri deve tê-lo enviado.

- Eu vim sobre sua viagem a Nápoles. – disse e assenti, compreendendo. O homem suava como um porco, provavelmente muito nervoso que havia muitas armas apontadas na sua direção. Fiz sinal que eles abaixassem.

- Vem comigo. – murmurei dando as costas e entrei em casa. Emmett estava agradavelmente confuso e senti o gostinho que pela primeira vez, ele ocupou meu lugar na falta de informações da família. Subi a escada até o escritório e fechei a porta atrás de mim. – Então? Quem te enviou aqui?

- Sr. Phantom e o próprio Sr. Volturi. – disse e meu coração me deu um salto. Ele abriu a sua pasta e tirou um envelope. – Após o funeral, será feita uma reunião com todos os chefes da organização, para anunciar o novo Capo ou se o próprio Carlisle por ainda estar vivo. – disse calmamente. – O Sr. Phantom e o Sr. Volturi me entregaram esses documentos, para ser entregues a Sra. Volturi, esposa do Capo di Tutti Capo. – esticou e peguei o envelope pesado. – Também estou aqui para traduzir o livro.

Eu ainda estava lendo os documentos, extremamente confusa.

- O que isso quer dizer? – eu não sabia se minha interpretação estava correta.

- Significa que a família pode até escolher um Capo, mas todas as ações que demandem qualquer tipo de gasto financeiro, terá que ter a sua aprovação. Com a sua morte, o dinheiro automaticamente irá para contas distintas, não rastreáveis, algumas instituições de caridade ou projetos não governamentais. – disse e rapidamente acrescentou. – Não que eu tenha controle sobre isso, sou apenas o mensageiro. O Sr. Volturi instalou um software nas contas da organização.

- Todas as ações são minhas?

- Tudo que a organização controla está em seu nome.

Se eu morrer, a organização acaba em mim.

- Edward te explicou alguma coisa?

- Ele está seguindo ordens do seu pai. – disse com um encolher de ombros.

- Quando que isso foi atualizado? Quando que ele fez isso?

- Algumas semanas atrás. – disse e apontou uma data no canto e eu vi que foi um dia após o nascimento do bebê de Jasper. A noite anterior encontrei documentos do meu pai, que ele se correspondia com Demetri. Sr. Phantom, obviamente é Demetri. Sei que ele usa esse nome quando lhe convém, mas ele tem muitos.

Essa foi a maneira que ele encontrou que alguém tirasse o lugar de Edward, mas ainda não explica o porquê.

- Sente-se, vou buscar o livro. – disse apontando para uma cadeira. Saí da sala e chamei Zafrina, pedi uma bandeja de petiscos para convidados. Emmett estava se roendo. Alec parecia muito tranquilo e de repente, me ocorreu que eu precisava de alguém do meu lado, todos eles tinham algo na família, amavam Edward, são fiéis a ele, mas são homens e são da família. Terão muito a perder se a organização fosse desmanchada. E eu não podia colocar Jane contra Félix, mas ele certamente não iria contra ela. Pensando rápido e um pouco ansiosa com o que tinha de resolver rápido, respirei fundo.

- Rose, Jane e Victória, venham comigo. – disse em um tom plano que não abria para discussões. Rose, Victória e eu não temos muito a perder se a família desmoronar. E Jane é para garantir Félix do meu lado. Meu irmão nunca ficaria contra mim, principalmente por amor, mas com as novas mudanças, Alice e o bebê estão ainda mais em perigo. Se ele for esperto, vai ficar no lado de quem tem dinheiro. – Preciso do auxílio de vocês no meu quarto. – murmurei tentando soar mais contida.

Voltei para o escritório com o Sr. Jenks no mesmo lugar e ele não fez perguntas sobre as meninas. Entreguei o livro e ele começou o que tinha que fazer. Virei para meninas, com uma dor no coração.

- Comecem a organizar o funeral de Edward. – disse e Jane me olhou surpresa, as demais simplesmente olharam para o chão. – Não vamos oferecer nenhuma recepção póstuma, por motivos de segurança. Victória, envie os convites, envie para todos os amigos políticos de Edward, os da família. Quero que seja o maior funeral já visto e não economize. Rose, ajude-a com detalhes. Vocês podem começar agora? – perguntei me sentindo rasgar por dentro. As duas assentiram e saíram. – Você fica. – disse a Jane. – Fique confortável, eu não sei quanto tempo vai demorar.

Ela não entendeu nada, mas não discutiu. Sentei na cadeira que Edward ocupava e li os documentos com calma, desejando poder entender porque meu marido fez isso. Ele sabia que iria morrer? Nada fazia sentido agora, mas entendi a parte que Demetri estava enviando respostas aos poucos. Jenks terminou e me esticou uma folha.

- Você pode ir, Jenks. – disse sem saber se era o correto deixar um homem com tantas informações ir embora, mas eu deixaria que Demetri tivesse que lidar com ele se fosse o caso.

- Ok. Estou morrendo aqui, Bella.

- Você está pronta para saber quem é sua mãe? – perguntei e ela ficou branca.

- Como você descobriu?

- Do mesmo jeito que Edward descobriu quem é meu irmão e quem é sua mãe. Ele criptografou a mensagem para ser recebida, eu só não entendo como e o porque, a não ser que ele sabia que iria morrer. – disse e ele suspirou.

- Irina Vaskovik. – disse lentamente. Jane negou. – Sabe quem é ela?

- A filha do chefe da Bravta. – disse calmamente e senti um arrepio me consumir. – Impossível. Como?

- Ela foi pega e ficou em cativeiro aqui, aparentemente seu pai era o seu algoz. Demetri diz que é provável que vocês não tenham sido produzidos de forma consensual. – disse baixinho e vi que ela estava chorando. Virei o pacote que Jenks me entregou e havia fotos. – Acho que é ela. – apontei para mulher loira, grávida, em um quartinho escuro. – Meu pai a libertou, em troca de uns favores com o pai dela, sobre os coreanos, que estavam dando trabalho na época. Ela deixou vocês.

- É claro que deixaria, seria morta ao voltar com duas crianças italianas. – disse ainda chocada. – Alec precisa saber disso. Aqui diz que Demetri encontrou essas informações em Nápoles. Há muito tempo, seu pai manteve um depósito lá, com algumas coisas que ele desejava que ficasse fora dos olhos da família.

- O que mais Demetri diz? Que história é essa de quem é seu irmão? – perguntou confusa e tentando segurar sua sanidade apertando a lateral da sua cadeira. Contei toda história sobre minha mãe grávida aos quatorze anos e do bebê. – É Félix.

- Segundo a transcrição, sim. Ele dá indicações precisas que devemos fazer um DNA. Tanto Jasper quanto Alice também, não dá pra saber quem é o pai. – meu estômago estava um puro nó. Eu queria vomitar.

- Demetri invadiu nosso quarto no meio da madrugada e mostrou o quanto é bom com uma faca. – revirou os olhos e me deu uma olhada. – Ele disse que era para grudar em você, porque algo muito grande aconteceria.

- É claro. – disse baixinho olhando para o papel na minha frente. – Após o velório, serei o novo Capo.

Ocorreu-me que Jenks, em momento algum, disse que lidou com Edward no passado e muito menos pareceu solidarizado com a minha perda. Ele não me deu um lamento. Ele não se referiu a Edward como alguém que morreu. E uma onda de esperança encheu o meu peito. Meu marido pode estar vivo.