Capítulo Vinte e Seis

Like Waiting For a Train

(Como Esperar Por Um Trem)

Harry estava esperando nervosamente na estação Charing Cross, procurando por Dudley. Não tinha certeza do que estava fazendo ali, mas Ginny parecia sentir que era importante que ele fizesse isso — se encontrar com Dudley.

- Harry! - Dudley chamou, acenando com sua mão.

Harry andou até Dudley.

- Olá. - colocou as mãos nos bolsos da jaqueta. - Então...

- Então, você está se perguntando por que concordou com algo tão maluco?

- É, algo assim.

- Não te culpo.

- Por que você quis fazer isso? - Harry seguiu Dudley pela multidão de consumidores na estação.

- Algumas coisas precisam ser ditas cara-a-cara. Não em uma carta ou um cartão de natal, ou até mesmo um telefonema.

- Posso entender isso... - Harry desviou de uma criança pequena, que seguia sua mãe. - Mas por que agora, depois de vinte anos?

- Eu estive esperando por anos, mas você nunca pareceu disposto a levar o contato além de cartões de natal.

- Não estava. - Harry admitiu em voz baixa.

Dudley liderou o caminho pelas escadas até a manhã clara e ensolarada de janeiro.

- Imaginei. Quando nos deixaram voltar para casa, todas suas coisas tinham sido recolhidas. Eles falaram que você sobreviveu, então imaginei que foi você. Era como se você nunca houvesse estado lá. - Dudley pausou. - Lembra-se de quando te deixei aquele chá e derramou?

Harry correu o dedo indicador por seu dedão. Conseguia se lembrar da porcelana quebrada cortando seu dedo.

- Sim. Eu pisei na xícara.

Dudley olhou para Harry.

- Mamãe nunca conseguiu tirar a mancha do carpete. - informou seu primo divertidamente.

Harry riu com surpresa.

- Aposto que ela ficou maluca com isso. - comentou.

- Sim.

Um pouco do gelo ao redor de Harry pareceu derreter um pouco. Ele e Dudley conversaram superficialmente sobre o trabalho de Dudley como professor e os filhos de Harry, enquanto caminhavam até um Café fora do caminho principal, onde encontraram um canto em que podiam conversar.

- Então, por que professores têm a necessidade de constantemente ligar para nos lembrar que Lily tem um trabalho para entregar? - Harry perguntou, misturando seu café. - Ela tem um projeto esse ano. A professora nos liga todas as malditas semanas e Lily ameaça enterrar o celular no bosque atrás da casa.

Dudley riu zombeteiramente.

- Eu nunca fiz isso. Eu acho que meus alunos têm que aprender a se lembrar dessas coisas sozinhos, mas acho que sou tradicionalista. - tomou um gole de seu café. - Mas eu tenho uma vida e não me incomodo, a não ser que o pestinha esteja fazendo disso um hábito.

- Então... Estamos aqui. Sobre o que queria conversar?

- Oh, bem. - Dudley pigarreou. - Eu queria te agradecer.

- Por...? - Harry perguntou, incerto.

- Não tenho certeza do que aconteceu naquele verão. Logo depois de eu fazer quinze anos. Naquele túnel. Você se lembra?

Harry correu um dedo pela borda de sua xícara.

- Sim. - disse quietamente. - Lembro.

- As coisas não foram as mesmas depois disso. - Dudley continuou. - Você disse que foram... Dementados? Eu não me lembro..

- Dementadores. - Harry ofereceu. - Eles costumavam ser os guardas da nossa prisão. Não são mais.

- Eu nunca me senti tão mal em toda minha vida. Eles fazem todas as pessoas se sentirem desse modo? - Dudley perguntou curiosamente.

Harry soltou o ar lentamente.

- Sim e não. Eles deixam as pessoas tristes, mas eles parecem encontrar o que te machuca mais e te fazem viver isso.

- Eu vi meus pais me expulsando de casa por minha "anormalidade". Eu vi a maneira que eles te trataram toda nossas vidas, e eles são meus pais, pelo amor de Deus, eu não queria pensar na ideia de que eles poderiam me tratar dessa maneira. Quero dizer, você sabe como eles se sentem sobre conformidade.

Harry quase se engasgou com seu café.

- "Conformidade" é gentileza, não acha? - tossiu.

- Suponho que sim. - Dudley sorriu ironicamente. - Eles levaram a tentativa de serem normais a um nível completamente novo, não foi?

- Há quanto tempo você sabe? Quero dizer, um dos professores dos meninos é gay. Bem, se eles cursarem o nível avançado da matéria; ele e seu parceiro ensinam juntos. Eu conheço Gareth e Rafa desde antes Al nascer, e eles falaram que sempre souberam...

- É. - Dudley segurou sua xícara entre suas mãos. - Parece certo. - tomou um gole de sua bebida. - Eu não queria ser diferente. Então, eu tentei de tudo para ser normal, seja lá o que isso signifique. Eu tentei ser o que eu achava que um verdadeiro homem era. Você pode fazer de tudo para enterrar a sensação de que se despreza. Eu sabia que meus pais amavam o Dudley normal e na média. Quando eu tinha dezessete anos, acho que se eu tivesse me assumido para eles, eles teriam me tratado pior do que te trataram. Acho que eu sabia disso até mesmo antes. Eu não queria admitir para ninguém, menos ainda para mim mesmo. E para compensar o quão mal eu me sentia, eu descontava nos outros. - Dudley olhou para a superfície da mesa. - Eu sinto muito. - disse quieta, mas seriamente. Encontrou os olhos de Harry. - Sinto muito pela maneira que te tratei quando éramos crianças. Eu não tenho uma desculpa. E eu não espero que você me perdoe.

Harry olhou para Dudley.

- Eu não sei o que dizer... - brincou com a colher e a deixou sobre a mesa bruscamente. - Eu demorei anos para superar isso. O primeiro cartão que você me enviou, eu demorei um ano para conseguir te mandar um em resposta.

- Eu fiquei bastante surpreso quando respondeu.

- É, bem... - Harry esfregou a nuca. - Eu fiz várias coisas pelo bem dos meus filhos, que eu nunca achei que faria. Quando James nasceu, pensei que talvez... Talvez estivesse na hora de abrir mão de algumas coisas para sempre... - Harry olhou para Dudley. - Por que você enviou aquele primeiro cartão?

Dudley equilibrou a cadeira nas duas pernas traseiras, os olhos correndo pelo padrão do teto.

- Eu precisava tentar. Veja, eu também me lembro de quando aquele velho veio te buscar, quando tínhamos dezesseis anos... Aquele com a barba longa?

- Meu diretor. Professor Dumbledore.

- Isso. Ele disse algo sobre meus pais terem me estragado. Eu era bastante tonto quando era mais novo, então eu demorei a entender. Eu não queria pensar sobre isso, mas quando voltei para a escola, eu percebi que precisava parar de me esconder. Eu precisava parar de tentar ser algo que não era. Eu precisava parar de tentar me acostumar com essa ideia do que era normal. E eu precisava olhar longa e duramente para o que eu tinha feito com a minha vida e tentar mudá-la.

Harry tomou um gole de café, mais por precisar fazer algo do que por vontade.

- Como você me encontrou?

- Google. - Dudley respondeu prontamente.

- Imaginei. - Harry murmurou.

- Você conhece Google? - Dudley perguntou, surpresa evidente em seu rosto.

- Sim. As crianças precisaram usar um computador ocasionalmente para a escola. Primário.

- De todo modo. - Dudley suspirou. - Eu só queria me desculpar pessoalmente. - ele afastou sua cadeira e se levantou. - Foi bom vê-lo. Obrigado por me deixar fazer isso. - ele começou a se afastar.

- Dudley? - Harry disse subitamente. Dudley parou e se virou na direção da mesa. - Nós devíamos fazer isso de novo qualquer hora. - Harry respirou fundo e deixou escapar: - Talvez pudéssemos até jantar? Você, eu, Ginny e Aaron?

Dudley assentiu.

- Eu gostaria disso. - com isso, ele saiu e Harry ficou sozinho na mesa, olhando para o resto do seu café.

- O que eu acabei de fazer? - perguntou em voz alta, vendo para seu primo se afastar.

-x-

O café da manhã trouxe o costumeiro alvoroço das corujas para a mesa de Grifinória, por isso, Scorpius não se surpreendeu quando uma coruja estranha pousou na sua frente. Sua avó frequentemente usava o correio de corujas para poupar a própria coruja das frequentes viagens da França. Pegou a carta que o animal lhe ofereceu e a guardou em seu bolso. Podia ler mais tarde. Depois que terminasse seu dever de casa de Herbologia, Poções e Transfiguração. Eles todos tinham se acumulado para esse final de semana. A professora Trentham, em particular, tinha pedido uma dissertação de trinta centímetros sobre mudar insetos para objetos inanimados. E por que alguns dos membros mais idiotas da aula de Poções não tinham seguido as instruções, causando uma grande explosão que cobrira o teto das masmorras com uma pasta amarela, fedida e ácida, eles tinham que escrever uma dissertação detalhando os cuidados necessários para a aula de Poções. Eles também tinham que falar no que esses alunos tinham errado. Ele, Al e Rose esperavam um longo dia presos na biblioteca.

Isabella se sentou no banco do outro lado da mesa.

- Têm certeza de que não pode tirar uma hora para jogar Quadribol hoje?

- Izzy, já falamos sobre isso. As dissertações de Williams e Trentham vão demorar o dia todo. - Rose olhou para sua prima de uma maneira que fez todos se lembrarem de sua mãe.

- Não podem fazer amanhã? - Isabella perguntou sem se deixar perturbar.

- Também temos o dever de Neville. - Al a lembrou. - Não é exatamente fácil.

- Oh, por favor. - Maddie bufou. - A aula do Neville é tão fácil que você precisa ser um ogro para ser reprovado.

- Culpe Greengrass e seus amigos. - as orelhas de Rose ficaram vermelhas. - Eles começaram a jogar fertilizante de dragão e demorou até Neville conseguir acalmar a turma e limpar a sala, e não conseguimos terminar a lição, então ele deu uma erva para cada um de nós cultivar para usar em Poções antes do feriado de páscoa, e temos que pesquisar a melhor maneira de cultivá-la. - tagarelou.

- Vocês têm a pior turma. - Fred comentou.

- E isso quer dizer algo, vindo de nós. - Jacob adicionou.

James assentiu vigorosamente, as bochechas cheias de batatas.

- James, isso é nojento! - Maddie exclamou. - Você tem que agir como se não comesse há meses?

James meramente deu de ombros.

Isabella balançou a cabeça.

- Certo. - disse cansadamente. - Apenas se lembrem que temos um treino amanhã, depois do café da manhã.

- Vamos estar lá. - Al prometeu. - Eu sei, nós temos essa partida contra Lufa-Lufa se aproximando, e você não quer perder para Parker. Quer manter a rivalidade. - disse em uma voz amigável demais.

- Espero que sua atitude melhore até lá. - Isabella anunciou arrogantemente.

Scorpius gargalhou.

- Izzy, de todas as pessoas no time, não é com a atitude de Al que você tem que se preocupar. Ele praticamente dorme com um Pomo de Ouro na mão.

- Não era para você falar isso! - Al sibilou, mortificado.

-x-

Scorpius fechou lentamente o pesado livro e apoiou a cabeça na superfície da mesa.

- Eu não quero ter que olhar para outra palavra sobre como cultivar pinhão na Inglaterra antes do meu N.I.E.M.

- Pode dizer isso de novo. - Rose concordou. - Eu vou matar Greengrass.

- Eu vou segurá-lo enquanto você o mata. - Al se voluntariou, esfregando os olhos. - Que horas são, de todo modo?

Rose olhou seu relógio.

- Perdemos o almoço, mas não o jantar.

- Podia ser pior. - Scorpius disse, sua voz abafada pela mesa. - Podíamos ter perdido completamente o jantar.

- Morda sua língua! - Rose sussurrou, escandalizada. - Estou morrendo de fome... - ela gemeu.

- Foi mal, Rosie. - Scorpius suspirou. Tirou a carta que recebera aquela manhã do bolso. Franziu o cenho para a letra na frente. Não era a de sua avó. Ou sua mãe, ou Teddy. E mesmo fazendo um bom tempo desde a última vez que vira a letra de seu pai, também não era a dele. Com mais do que um pouco de medo, Scorpius lentamente abriu o envelope.

16 de janeiro, 2019

Caro Scorpius,

Eu realmente sinto muito pela maneira que me comportei quando você estava aqui no natal. Você sempre foi legal comigo, mesmo quando meus irmãos não foram. Você não é o único com uma família duvidosa. Meu pai tem uns parentes horríveis, e ele ainda é legal.

Eu realmente gostei do livro que você me deu. Eu o leio o tempo todo.

Espero que possa vir passar as férias de verão.

Sinceramente,

Lily Potter

- O que é isso? - Al perguntou, espiando sobre o ombro de Scorpius.

- Nada. - Scorpius disse apressadamente, dobrando a carta e a guardando em sua mochila.

- Não parecia nada.

- Não é nada. - Scorpius repetiu, um pequeno sorriso brincando em sua boca, abrindo o livro a sua frente e continuando sua dissertação.

-x-

Harry entrou n'O Caldeirão Furado depois de passar a maior parte da tarde perambulando por Londres. Olhou ao redor do cômodo mal iluminado e localizou Neville tomando algo no final do balcão.

- Ei, Neville. - disse cansadamente.

- Harry! - Neville exclamou em verdadeiro prazer. - O que está fazendo aqui?

- Eu passei a tarde tentando entender por que eu sugeri ao meu primo que ele e seu parceiro deviam jantar com Ginny e eu qualquer hora. - Harry explicou, e deu os detalhes de sua conversa com Dudley para Neville.

- Então, qual é o problema?

- Eu acho que, talvez, um jantar seja demais. - Harry suspirou.

As sobrancelhas de Neville se juntaram em confusão.

- Achei que vocês dois se entendiam melhor atualmente.

- Nos entendemos. - Harry admitiu. - É só meio difícil esquece todas as outras coisas que ele fez comigo quando estávamos crescendo. Quando é apenas cartas e postais, ele meio que é uma ideia abstrata. Não é uma pessoa de verdade.

Neville escorregou para fora do banquinho e, pensativamente, serviu outra bebida para si e uma para Harry. Colocou os copos no balcão e se sentou novamente.

- Posso te perguntar algo estranho?

- Claro.

- Se você não precisasse lidar com Malfoy duas vezes por ano, você começaria a pensar nele em abstrato?

- Provavelmente.

- Então, por que você tem que interagir com Malfoy, você está mais inclinado a vê-lo como uma pessoa de verdade, e não uma coleção de comportamentos ou alguém que você despreza por princípio?

Harry ergueu o copo e tomou alguns goles da bebida que Neville tinha lhe dado. Pensou em todas as coisas que sabia sobre Draco. As memórias que Harry tinha visto, misturadas com o ódio a si mesmo e desprezo. O completo abuso mental de ter de viver com Bellatrix Lestrange era o bastante para Harry ter pena do homem. O desejo de entender seu filho, misturado com a confusão sobre o desapontamento que Draco tinha sentido quando descobriu que Scorpius estava moldando o próprio caminho, desconsiderando completamente as tradições familiares. E a completa impotência perante o fato de que nada em sua vida tinha acabado do jeito que ele achou que deveriam acabar.

- Suponho que sim. - respondeu lentamente.

- E, por essa lógica, te incomoda pensar que você pode estar errado sobre Dudley. - Neville afirmou. - Crianças tendem a imitar seus pais na maneira de se comportar. E quando você prefere morrer a ser o diferente, você faz o que tem que fazer para se misturar. E, certo, eu nunca realmente encontrei com seus tios, mas eles parecem ser do tipo que teriam colocado seu primo na rua se ele houvesse contado a verdade antes de ser adulto e independente. - Neville correu o dedo por uma gota de bebida que estava no balcão. - E você percebeu que ele agiu da maneira que agiu por causa de um senso de auto preservação, e isso é algo que você consegue entender. E você não consegue mais mantê-lo longe.

Harry começou a tossir quando se engasgou com um gole de sua bebida.

- Você tirou isso tudo dessa conversa? - perguntou ceticamente.

Neville apenas balançou a cabeça.

- Você aprende bastante quando trabalha com crianças. Especialmente quando eles começam a simpatizar com alguém que eles não suportam. Tende a confundi-los um pouco.

Harry esvaziou seu copo.

- Você pode dizer isso de novo. - murmurou. Tinha sido um pouco desconcertante perceber que Dudley tinha superado seu medo de que seus pais o abandonariam por algo tão simples quanto admitir quem ele era. Não era inesperado, considerando a maneira que eles tinham tratado Harry quando criança. Sua habilidade para esconder sua magia era tão boa quanto sua habilidade de domar seu cabelo. Não era algo que ele podia esconder, ou negar, uma vez que descobrira que podia manipular magia. Não conseguia imaginar ter de suprimir algo que era tão parte de si quanto seus braços e pernas. - Deve ter sido um pesadelo para ele. - disse lentamente. - Tentar viver com isso por tanto tempo.

- Provavelmente foi. - Neville pegou o copo de Harry e o encheu. - Vá com calma com esse. - avisou. - É cruel mais tarde.

- Por que eu não vi isso antes? - Harry refletiu.

- A verdade? - Neville perguntou.

- Sim.

- Você pode ser meio egocêntrico. - Neville se aventurou. - Não de um jeito ruim. - adicionou rapidamente quando Harry lhe olhou confusamente. - Você não acha que o mundo gira ao seu redor, e você faz de tudo para evitar ser o centro das atenções, mas... - Neville mordeu o lábio inferior. - Você sabe guardar rancor de uma maneira que mais ninguém consegue. Exceto, talvez, Ron... É só que você pode se prender a algo por anos. E é incrivelmente difícil te convencer a mudar de opinião sobre as pessoas. Por que você sempre teve essa ideia de que sua primeira impressão é a correta. E, às vezes, é, mas às vezes não... - esticou a mão hesitantemente e tocou o ombro de Harry. - Às vezes, você só tem que abrir mão... - disse suavemente.

Harry pulou em surpresa.

- Foi o que Ginny disse verão passado... - murmurou.

- Ela está certa. - Neville apertou brevemente o ombro de Harry. - Eu preciso voltar para a escola, mas pode pensar em algo por mim? - Harry assentiu. - Eu não tinha nenhuma família depois que minha avó morreu. Além de Hannah, mas você sabe o que eu quero dizer. - Harry assentiu novamente. Ele sabia. - Você tem a chance de recomeçar com alguém que é sua família. - Neville esfregou os olhos. - Eu daria qualquer coisa por essa chance. - escorregou para fora do banquinho. - Você vai ao próximo jogo dos meninos?

- Sim. Ginny e eu pensamos em ir vê-los jogar.

- Espero vê-los logo. - Neville desapareceu dentro do escritório de Hannah.

Harry pegou seu copo e bebeu o resto de sua bebida. Estava na hora de ir para casa.

-x-

Harry entrou pela porta da frente da casa, tirando o agasalho. Estava anormalmente quieto para um sábado à noite.

- Ginny? - chamou. - Lily? Estão aí?

- Estou na cozinha. - Ginny respondeu.

Harry seguiu o som da voz de Ginny.

- Ei. - notou a mesa e pegou um prato, examinando-o de perto. Era a louça que Andrômeda lhes dera de casamento; o conjunto que deveria ter sido dado a Remus e Tonks quando eles se casaram. - Essa é a louça boa. - comentou.

- Sim, é.

- Quando foi a última vez a que usamos? - Harry colocou o prato na mesa, estudando a toalha irlandesa. Fora um presente de casamento de Seamus e raramente a usavam. - Faz pelo menos dez anos. - comentou, dedilhando os enfeites.

- Um pouco mais de onze anos. - Ginny corrigiu.

Harry parou atrás de Ginny e passou os braços ao redor de sua cintura.

- É bastante tempo. Qual a ocasião?

- Foi uma daquelas semanas. - ela suspirou. - Pensei que podíamos ter um jantar calmo. Apenas nós dois.

- Onde Lily está? - Harry perguntou.

- Com Charlie e Bronwyn. Ela perguntou se podia ir à reserva quando eu fui até Holyhead cobrir os testes de goleiros essa tarde.

Harry afundou um dedo no molho que Ginny estava misturando no fogão.

- Eles não se importaram?

- Não.

- Qual é o detalhe? - Harry perguntou em desconfiança zombeteira. Eles não se importavam em cuidar dos filhos uns dos outros de vez em quando.

Ginny sorriu ironicamente.

- Vamos ficar com Aiden semana que vem.

- É, isso vai ser difícil. - Harry respondeu. - Por que Aiden é uma criança que dá muito trabalho. - adicionou travessamente.

Ginny riu e afastou a mão de Harry quando ele tentou mais uma vez mergulhar o dedo no molho.

- Pare com isso. - murmurou. - Ele é quase tão quieto quando Charlie. - disse. - Acho que eles devem ter dito dez palavras entre eles quando deixei Lily.

- Pobre Aiden. - Harry disse compreensivamente. - Dois fins de semanas seguidos sendo o único público de Lily.

Ginny passou uma garrafa de vinho para Harry.

- Aqui, abra essa garrafa...

- Mas não faz sentido.

- O que não faz?

Harry tirou a rolha da boca da garrafa.

- Vamos ficar com Aiden, mas não com Owen?

Ginny cuidadosamente colocou um prato na mesa.

- Ele vai passar o fim de semana com o pai de Bronwyn. Daffyd tem um turno na chocadeira, e Owen é louco por dragões.

Harry puxou a cadeira de Ginny para ela.

- Já que estamos sendo civilizados hoje... - sentou-se em sua própria cadeira e serviu uma taça de vinho para cada um deles.

Ginny tomou um gole de vinho, deixando-o correr por sua língua.

- Então, como foi hoje? - perguntou casualmente.

Harry não respondeu imediatamente. Concentrou-se em encher seu prato, antes de colocar uma quantidade alarmante de molho sobre o brócolis — não o comia se não estivesse afogado em algum tipo de molho.

- Bem. - finalmente respondeu, comendo um pedaço de brócolis.

Ginny girou os olhos e colocou um pedaço de frango em seu prato.

- Apenas bem?

Harry a olhou sobre o aro dos óculos.

- Interessante. - elaborou.

- Deve ter sido. Você ficou fora por um bom tempo.

Harry deixou seu garfo de lado e pegou sua taça de vinho.

- Na verdade, não ficamos juntos por muito tempo. - admitiu. - Menos de uma hora.

- Ele não pode ter dito algo desagradável. - Ginny afirmou. - Se tivesse, você ainda estaria furioso.

- Eu sou tão ruim assim? - Harry resmungou exasperadamente. - Primeiro Neville, agora você.

Ginny inclinou a cabeça para o lado, e lentamente estudou Harry.

- Você era quando era mais novo. Se alguém ou algo o chateasse, era bastante claro. Você se controla mais agora, mas ainda depende de várias outras coisas.

- Como...? - Harry perguntou cansadamente.

Ginny cortou cuidadosamente um pedaço do frango, enquanto formulava uma resposta.

- Que dia da semana é, se você está sóbrio ou não, o que você estava fazendo antes, se James está envolvido em algo para zombar de Al e Lily...

- Fofo. - Harry resmungou.

- É verdade. - Ginny informou seu marido. - Mas eu discordo. Faz um tempo desde a última vez que você explodiu alguma coisa por pura irritação, mas eu o conheço há quanto tempo agora? Mais de vinte e cinco anos? Eu sei quando você está chateado com alguma coisa, mesmo que você não vá criar uma nova porta para a lavanderia.

Harry olhou para seu prato, e arrastou um brócolis por uma poça de molho.

- Acho que eu posso ter feito algo de que vou me arrepender depois... - disse lentamente.

- Você não o amaldiçoou, né? - Ginny perguntou, as sobrancelhas se erguendo em alarme.

- Não. Eu o convidei para sair para jantar. Nós quatro.

- Como isso é algo ruim? - Ginny engoliu metade da sua taça de vinho. - Você não pode possivelmente acreditar que ele seja o mesmo que era antes.

- Não, não é Dudley que será um problema... Sou eu. - Harry confessou. Afastou sua cadeira da mesa e começou a andar de um lado para o outro da cozinha. - Ele parece ter superado isso tudo, mas e se eu não tiver conseguido? E se eu não conseguir?

Ginny ergueu uma mão e segurou o pulso de Harry quando ele passou por ela, as pontas de seus dedos descansando sobre o pulso acelerado. Sua mão se apertou ao redor do pulso dele.

- Olhe para mim... - ele manteve os olhos no chão. - Harry, olhe pra mim. - Ginny o viu fechar os olhos, e se ergueu, usando sua mão livre para erguer o queixo dele, como se ele fosse uma das crianças. - Harry, olhe pra mim... - pediu suavemente. Dolorosamente, ele encontrou seus olhos. - Se você não tivesse superado, então do que você chama os últimos quatorze anos?

- Ser educado? - ele retorquiu.

- Você não precisava responder as cartas e os postais dele, mas respondeu. Todos eles. E você foi hoje. - Ginny fez Harry se sentar e soltou seu pulso.

- Eu não sei o que fazer. - Harry admitiu em um murmúrio tenso. - Só é muito difícil de esquecer.

- Ninguém está pedindo que se esqueça.

- Ele pediu desculpas. - Harry disse. - Ele queria se desculpar pessoalmente. E ele disse que não esperava ser perdoado. - juntou as mãos no colo. - Não acho que consigo.

Ginny pegou sua taça de vinho e a girou, observando a luz da vela brilhar através do líquido rubro.

- E se você começasse de novo?

- O quê?

- As pessoas mudam. Não estou te dizendo para perdoar o Dudley que te tratou tão mal quando você era mais novo. Mas você poderia, pelo menos, dar essa chance. Ele foi tão vítima dos pais dele quanto você. E vocês dois sobreviveram. - Ginny se inclinou para perto de Harry e roçou um beijo em sua boca. - Apenas prometa pensar nisso. - pegou seu prato e o carregou até o balcão, deixando a maior parte de seu jantar sem ser tocado.

Harry descansou seus cotovelos nos joelhos e observou Ginny sair da cozinha. Olhou para seu jantar e fez uma careta, antes de seus olhos pousarem no prato abandonado de Ginny. Suspirou e se bateu mentalmente. Ela tinha planejado uma noite agradável para eles, e ele tinha a arruinado completamente. Neville está certo... Eu deixo tanta coisa me afetar que isso arruína praticamente todo o resto. É uma surpresa que Ginny me aguente. Carregou o próprio prato até a pia, e começou a lavar cuidadosamente os pratos à mão. Ginny o mataria alegremente durante o sono se ele quebrasse um prato. Em tempo, lavou e secou os pratos, e os guardou. Acenou a varinha para a toalha, que se dobrou cuidadosamente. Harry a pegou e a guardou. Desligou as luzes e foi para o quarto.

As roupas de Ginny estavam esparramas no chão em frente ao banheiro, e Harry colocou uma mão na maçaneta.

- Gin? - chamou pela porta. Ela não respondeu. Harry se sentou na poltrona no canto do quarto e pegou o porta-retrato que estava na mesa. Havia dois lados; um tinha uma fotografia do casamento deles, tirada quando o sol estava se pondo e as luzes de fadas presas nas árvores começavam a brilhar; do outro lado era uma foto dos cinco n'A Toca no último natal.

Pela segunda vez aquela semana, Harry imaginou quão diferente sua vida teria sido se não houvesse conhecido os Weasley.

Continua...

N/T: Obrigada pelos comentários no capítulo anterior e até semana que vem.