Adaptação da obra literária "Se nada der certo, casa comigo?", de Karina Halle.


VIGÉSIMO QUARTO (E ÚLTIMO) CAPÍTULO


EDWARD

Fico duas semanas no hospital. Duas semanas de merda, com tédio, formigamento, luzes florescentes, enfermeiras mal-humoradas e comida horrorosa. Duas semanas de merda de puro inferno.

Isso, porém, me dá duas semanas de merda para pensar. Para pensar em Jacob e no que ele me contou. Para pensar no que minha mãe – que começou a me visitar todos os dias, às vezes bêbada, mas sempre simpática – me aconselhou. Duas semanas inteiras para pensar em Isabella. Para decidir voltar para São Francisco, recuperar meu antigo trabalho e meus dois melhores amigos. Mas, principalmente, recuperar Isabella.

Porque não faria sentido ter um coração se não fosse usá-lo do jeito certo. Se eu estava disposto a arriscar o pescoço de novo e voltar para o céu, mesmo depois de tudo o que aconteceu, sobrevivendo às piores circunstâncias, então não haveria motivo de não fazer o mesmo por ela, por nós. Não importa se ela não sentir a mesma coisa. Não importa se não me amar mais, se nunca me perdoar. Só importa que eu tente. Arrisquei tudo antes com ela e fracassei conosco. Não vou deixar que se repita.

Então, é claro, essas duas semanas de merda me trouxeram próximo ao meu aniversário. Meu aniversário de 31 anos.

É amanhã. E isso significa que tenho um dia antes que nosso pacto termine.

Não me esqueci dele. Ficou na minha cabeça o tempo todo. É claro que é tudo uma bobagem, mas para mim ainda é bem real. Desde que nós dois continuemos solteiros, desde que ainda tenhamos 30 anos, vou me casar com essa mulher. Ou, no mínimo, tentar.

Ainda que tivesse planos de atravessar o país com a minha tralha, mais uma vez está tudo no bagageiro de uma van de mudanças, indo para São Francisco. Desta vez, contudo, Edward é quem está dirigindo. Ele se ofereceu e eu não iria recusar. Acho que ele estava procurando uma desculpa para deixar Manhattan, e eu não ficaria surpreso se acabasse se instalando em São Francisco. Ele não ficaria comigo, é claro.

Consegui voltar para meu velho apartamento. Este tempo todo em que esteve à venda, não recebeu nenhuma oferta. Se Emm resolver ficar na cidade, reconheço que vai ser legal. Nos aproximamos muito nos últimos meses. Ele não é um puta de um babaca como eu pensava. Talvez um babaquinha, um babaca de bolso.

Ao chegar em São Francisco, não tenho minha estratégia muito clara. Tive um voo inteirinho para pensar a respeito, mas estava passando um monte de filmes bons que eu queria ver.

Agora estou chamando um táxi. As muletas, por causa da minha perna engessada, dificultam. Não posso me inclinar por causa das minhas costelas, e não posso usar muito o braço. Por sorte, o taxista é um cara legal e me ajuda. Detesto me sentir tão imóvel. Quando ele me pergunta aonde quero ir, me dá um branco.

Não falei com Jacob nem Isabella desde que deixaram Nova York, então não faço ideia de onde estão ou se sabem que estou aqui.

Faço o táxi me levar primeiro para o apartamento de Bella, e peço que espere um pouquinho. Isto pode levar um tempo. O anel que trouxe para ela da Tiffany's parece queimar no bolso do meu jeans. Não faço a mínima ideia do que dizer ou fazer, e não sei quanto tempo o táxi vai esperar se ela estiver em casa.

Mas ela não está. Toco no seu apartamento quatro ou cinco vezes, sem resposta. Por fim, manco de volta até o táxi e digo ao motorista para me levar à casa de Jacob. Imagino que ele saberá dizer onde ela está, ou pelo menos terá uma ideia. Não sei se eles continuaram amigos ou não desde que tudo aconteceu, mas eles voaram juntos até Nova York para me ver.

Não importa. Jake não está em casa. Deve estar no Lion. Então, o pobre otário do taxista me leva até lá. Pelo menos lá consigo dispensá-lo, não sem antes ganhar uma boa gorjeta por todo o esforço e todas as vezes em que teve que me ajudar a entrar e sair do carro.

Um nevoeiro fantasmagórico movimenta-se enquanto vou lentamente até a porta. Este lugar me traz centenas de lembranças. Com os sons abafados e a luz quente do bar, é como viver no passado.

Abro a porta e sou recebido por tudo o que é bom, tudo o que me fazia falta. Este lugar tem um cheiro: ranço de cerveja, perfume e fumaça, aderido às paredes há décadas, batatas fritas engorduradas, limões cortados. Na verdade é um tipo de cheiro ordinário, mas que eu amo mesmo assim.

A primeira pessoa que vejo é Jacob. Ele está atrás do balcão, passando o pano, e me sinto como se estivesse num episódio de Cheers, porque Dan passa por mim com uma bebida e diz:

– Edward! – E completa: – Puta merda, cara, você está fodido!

Dou um tapa nas suas costas e continuo andando até Jake me ver. O pano quase cai da sua mão. Fica mudo. Mas Leah – Leah! – está sentada junto ao balcão no seu lugar costumeiro, e segue o olhar vazio de Jacob até onde estou.

– Ei – ela grita feliz, deixando seu banquinho para vir me abraçar. É carinhosa: – O que está fazendo aqui? – Olha-me de cima a baixo, os dedos se demorando em alguns cortes que tenho nas maçãs do rosto. – Ai, meu Deus, você está péssimo. Mas dá certo tesão.

O que você está fazendo aqui?, quero perguntar, mas imagino que seja mais do que óbvio que, quaisquer que fossem os motivos de Jacob para terminar com ela, agora foram superados.

– Voltei – digo a ela, olhando para Jake. – Achei que terminaria meu caminho para a recuperação aqui.

Os olhos dele arregalam-se ainda mais, e por fim diz alguma coisa:

– Está falando sério?

– Estou. Neste exato momento, Emmett está atravessando o país com a minha tralha de novo.

– Por que você não foi com ele? – ele pergunta. – Deve ser bem mais confortável estar todo arrebentado num veículo do que num avião.

Suspiro alto:

– Bom, amanhã é meu aniversário.

– Eu sei – ele diz com um sorriso irônico.

– Trinta e um – Leah acrescenta, animada.

– É, bom, voltei pra terminar uma coisa. – Olho ao redor do bar. – Vocês viram Isabella?

– Ah – Penny diz, com a voz baixando o tom. Ela troca um olhar com Jacob.

– O quê?

– Hã – James diz, coçando o pescoço. – Ela está aqui, mas está, hã, num encontro.

Merda. Por que raios supus que estaria solteira?

– Um encontro?

– É. – Olhos dele se iluminam esperançosos quando diz: – Mas a boa notícia é que acho que é só o segundo encontro com ele. Quero dizer, desta vez. É o ex dela.

– Quem? O surfista?

– Mike? Não. O contador babaca.

– O bebedor de vodca que traiu ela? – pergunto sem acreditar. – O Capitão Cuzão?

– É.

– Foda-se – digo. – Por que ela está com ele? Cadê ela?

Jacob acena com a cabeça para atrás do bar, perto dos banheiros. Na última vez em que estive nesses banheiros, estava trepando com Bella apoiado na parede. Desta vez, quero agarrar James e tentar mandar a cabeça dele pela privada. Por que diabos ela está com um cara que a tratou como merda?

De repente, não tenho um pingo de vergonha do que estou prestes a fazer. Contorno o bar, enquanto Jacob grita para mim:

– O que você vai fazer, Edward?

Eu o ignoro.

Lá, na divisória do canto, estão Bella e James. Ele está cortando uma salada com garfo (que tipo de cara pede salada num bar?) e discursando sobre alguma coisa. Está de terno, agora usa óculos, e mal lhe restou algum cabelo. Suas orelhas estão começando a parecer as de Bilbo Bolseiro, de O Senhor dos Anéis.

Bella está sentada em frente a ele, rodando entre os dedos seu (muito obsceno) copo de Martini e parecendo entediada. Está linda, tão incrivelmente linda que é como se eu estivesse de novo sob efeito de morfina. Como é surreal pensar no tempo que a conheço, em ter estado dentro dela, tê-la ouvido dizer que me ama. Naquele momento, não sei se algum dia me recuperarei disso.

Ela está de botas de cano curto, jeans e uma camiseta de manga comprida. Não tem nenhuma parte do corpo à mostra, exceto a clavícula, um dos meus lugares favoritos para morder e lamber. O cabelo está preso num rabo de cavalo, e ela quase não tem maquiagem. É bom saber que não se embonecou para ele, que não está tentando impressionar ninguém. Mas o fato é que ela não precisa. Ela é ainda mais incrível quando é ela mesma.

Ela é tão absurdamente linda que eu poderia morrer.

Agora James está me olhando. Franze o cenho. Ele se lembra de mim. Me detesta.

E está prestes a me detestar ainda mais.

Bella vira a cabeça e, assim que me vê, seu queixo cai. Está tão encantadora que fico feliz com a surpresa. Também não parece brava, o que é uma boa coisa. Olha para James e depois de volta para mim. Parece a ponto de entrar em pânico. Vou facilitar as coisas para ela.

Sigo em direção a eles, tentando parecer tão relaxado quanto possível de muletas, e paro bem em frente à mesa.

– Sinto interromper a agradável noite de vocês – digo, olhando para os dois enquanto eles me encaram surpresos –, mas tenho uma coisa importante pra perguntar pra Isabella. – Dou uma olhada para James. – Se você não se incomodar de deixar a gente a sós.

James toca a boca com o guardanapo e depois o joga na mesa. Limpa a garganta:

– O que você tiver pra dizer pra ela vai ter que dizer na minha frente.

Ah, é mesmo? Nenhuma simpatia com o aleijado? Eu não tinha planejado ter espectadores, mas, se não seguir em frente, posso perder a chance. Olho para trás e vejo Jacob, Leah e Dan na beirada do bar, com cervejas na mão, olhando indiscretos para nós como se estivéssemos representando. Pisco para eles e dou meia-volta.

– Tudo bem – digo a James. – Fique, se quiser. Mas, se disser uma palavra, assento a merda desta muleta na porra das suas orelhas de hobbit, entendido?

Ele engole em seco com uma cara indignada, porém não diz nada. Olho para Isabella e posso ver que está com a cabeça a mil. Não tem ideia do que estou prestes a fazer, mas sei que com uma frase posso pô-la no caminho certo.

– Isabella – digo, voltando meu corpo para ela. – Amanhã é meu aniversário. Vou fazer 31 anos.

E agora ela sabe. Surpresa, medo, e algo que espero ser um pouquinho mais positivo do que isso tudo, se agitam em seus grandes olhos chocolates.

– Eu sei – ela diz baixinho, cautelosa.

– Então você sabe que uma vez nós fizemos uma promessa um pro outro. – Meu peito parece comprimido, mas vou em frente. – E sei que a promessa se perdeu. Foi arruinada. Por minha culpa. Contudo, não posso fingir que acabou. Que não existe. Quero acreditar que ainda dá tempo. Quero mais uma chance pra te dar meu coração. E, é claro, outras coisas além do meu coração.

James faz um som de insatisfação, e levanto a muleta na direção dele, desferindo-lhe um olhar mortal. Devo dizer, a seu favor, que ele cala a boca.

Inclino-me tanto quanto posso e pego a mão de Bella. É muito pequena e macia. É muito minha.

– Fiz uma coisa medonha. A pior coisa. Tinha seu amor, que era todo o amor do mundo, e o joguei fora. Porque era um idiota. Porque estava assustado. Porque tinha medo de fazer a coisa errada e ser o cara mau. Mas aí eu me tornei o que temia e perdi aquilo que mais me importava. Não sei se algum dia poderei me perdoar por ter desistido de nós e por deixar que terminasse quando prometi que não deixaria. Porém, espero e rezo para que você possa. Que me dê mais uma chance. Porque vi sua alma, baby, e ela é verdadeira e rara. E uma vez você foi bondosa a ponto de dá-la pra mim. Quero ter você de novo. Quero o que é verdadeiro. – Dou um suspiro estremecido. – Nós somos verdadeiros. Sempre fomos. Espero que sempre seremos.

Pego na sua mão, sentindo seu pulso, e então, enquanto ela me encara com um olhar profundo, tento baixar sobre um joelho. Mas, lógico, estou de muletas e não consigo. Oscilo ali por um segundo, quase me inclinando, mas James estica o braço para me equilibrar. Foi simpático da parte dele. Babaca.

– Eu ficaria sobre um joelho – digo a ela, sentindo meu rosto enrubescer. – Só que talvez nunca mais me levantasse. Então, vamos só fingir que estou ajoelhado. – Pego o anel no bolso. – Mas ainda consigo te dar isto.

As pessoas no bar seguram o fôlego. Alguém solta um gritinho (provavelmente Leah). Isabella, entretanto, não está chocada. Uma lágrima solitária desce pelo seu rosto e ela tem uma mão no peito, mas não parece surpresa. Acho que me conhece mais do que eu penso. Ou talvez esteja sentindo pena de mim. Não são muitos os homens que pediriam uma mulher em casamento de muletas.

Mantenho os olhos grudados nela, tentando transmitir tudo o que não me vem à boca.

– Sou seu melhor amigo há nove anos. Quero ser todo o seu mundo por mais noventa. Você é tudo o que eu sempre pude querer: amiga, amante, família, envolta por uma embalagem fantasticamente sensual. – Sorrio para ela, que enrubesce. – Aprendi muito com você o tempo todo, e quero aprender mais. Quero crescer com você, evoluir com você, rir com você, e agradar você até ficar velho e de cabelos brancos, até não poder falar ou ouvir, até que a única coisa que eu possa fazer seja amar. Essa é uma coisa que nunca acabará: meu amor por você.

A parte interna do meu nariz fica quente e, através de uma visão borrada, apresento o anel, exibindo-o para ela. É de platina, com um diamante enorme, emoldurado por minúsculos diamantes pretos: lindo, mas não convencional, igualzinho a ela.

Ela geme um pouco ao vê-lo, um leve "ai, meu Deus" escapa dos seus lábios, e ela começa a tremer.

Limpo a garganta, determinado a me manter firme:

– Isabella Swan, Baby Blue, minha melhor amiga e dona do meu coração, você me dará a honra de se tornar minha esposa? – Aguardo um momento para me acalmar. – Quer se casar comigo?

Todo o recinto parece prender o fôlego ao mesmo tempo, junto comigo. É como se fosse uma puta eternidade.

Ela olha para mim, para o anel, depois novamente para mim. Os segundos se escoam. Dá para quase ouvir as pessoas à volta engolindo em seco. Sinto como se pudesse morrer. Meu coração está preparado para despencar.

Mas aí ela ri. Alto. Um sorriso largo e lindo abre-se no seu rosto.

– Quero! – ela exclama. – Sim, sim, sim!

Meu coração explode no meu peito. Estou quase que feliz demais para enfiar o anel no seu dedo, mas dou conta. É somente aí que sua manga escorrega um pouco, e vejo que está usando o bracelete que comprei para ela no Natal. Deve tê-lo aberto mesmo assim, gostado dele mesmo assim. Ela ainda me ama.

Eu não poderia estar mais feliz. Ela joga os braços à minha volta, com cuidado, rindo, chorando, me abraçando com força. Machuca um pouco o meu peito, mas não me importo. Ao nosso lado, James sai discreto do reservado, resmungando, e vai embora. Súbito, rolhas voam pelo espaço, e as pessoas festejam e se reúnem à nossa volta. Meus olhos, porém, só enxergam ela. Sempre foi só ela.

Pego seu rosto com delicadeza em minhas mãos:

– Eu te amo – digo-lhe fervoroso. – Te amo, te amo, te amo. Nunca deixei de te amar.

– E eu ainda mal comecei – ela diz de volta. – Obrigada por voltar pra mim.

Trago-a para perto e beijo sua testa:

– Obrigado por dizer sim. Ao pacto. A isto. A mim. Obrigado.

– Não tem de quê. Sabe, mal posso esperar pra brincar de enfermeira com você de novo.

Ela me beija nos lábios, macio, doce, um beijo molhado de lágrimas. Beijo-a de volta, imerso nisso, nela, na alegria.

De repente, Jacob e Leah estão parados ao nosso lado, com quatro taças de champanhe.

– Sei que brindamos a isto há quase cinco anos – Jake diz, sorrindo para nós –, mas vamos brindar de novo.

Eu me endireito e lhe faço um aceno de cabeça caloroso enquanto pego a taça da sua mão. Ainda que nossa amizade tenha sido posta à prova e não seja mais a mesma coisa, estou confiante de que poderemos sobreviver a isto, e até sair melhores. Talvez todas as amizades precisem evoluir, adaptar-se e mudar.

Exatamente como a vida.

Nós quatro levantamos nossas taças no ar.

– A Bella e Edward – Leah diz.

– À amizade – Jacob diz.

– Ao amor – Bella diz.

– A nós.


Preparadas para o prólogo? Sexta feira vem ai =) Deixem reviews, por favorzinho?