As gélidas planícies austríacas já haviam saltado para dentro da escuridão quando a comitiva de carros negros que trazia Radamanthys adentrou as imediações da sede do clã dos Espectros das Sombras.
O novo líder dos Espectros tinha executado uma manobra arriscada, mesmo para um vampiro com seu poder, já que qualquer viagem feita à luz do dia tinha seus incontáveis riscos, ainda mais quando optara por colocar em prática em pleno voo a segunda parte de seu ousado e brilhante plano, o qual consistia em fortalecer seu sangue de forma artificial para regredir suas gerações por meio de uma experiência na qual Hades vinha trabalhando há séculos, mas que nunca fora capaz de concluir. Em segredo Radamanthys não só foi capaz de concluir o ousado experimento como decidiu usar a si próprio como cobaia, uma vez que em tempos de guerra o risco maior era mesmo não se arriscar.
Quando o automóvel que trazia o caixão de Radamanthys estacionou em frente à mansão sede do clã dos Espectros das Sombras, já havia um contingente de Espectros aguardando a chegada de Hades e também do ex-general nazista, e foi com enorme espanto que perceberam apenas uma única Presença, poderosa como nunca visto antes entre eles, que vinha de dentro do veículo.
O espanto estampado em seus rostos cresceu ainda mais quando da parte traseira do carro fúnebre Radamanthys se levantou do caixão deixando o veículo, então puderam notar que aquela Presença extremamente poderosa era dele, cujo sangue parecia absurdamente fortalecido, além das gerações terem regredido consideravelmente e seu aspecto ganhado um tom muito mais agressivo.
— Mas o que significa isso?
O general foi imediatamente questionado por um dos membros do clã que ali estava.
— Onde está nosso líder Hades?
Inquiriu outro.
— O que aconteceu com você?
Mais um perguntava, alarmado e confuso como todos ali.
Radamanthys ajeitou a capa preta que cobria seu corpo e subitamente assumiu um ar pesaroso, melancólico.
— Infelizmente, nosso estimado líder sucumbiu... — disse o ex-general nazista em uma atuação digna de um Oscar, sabendo que seria questionado e que esse era o grande momento de sua virada.
Imediatamente houve um alarme de vozes em choque, um buchicho troante que ecoou pelos ares.
— Hades lutou bravamente contra o Conselho!... — súbito a voz potente de Radamanthys se sobressaiu às dos demais Espectros os fazendo se calar —... Meus queridos Espectros... Eu mesmo aguardava seu retorno da dura batalha, mas... Quando nosso nobre e venerado líder voltou até mim, ele infelizmente estava amargando os últimos momentos de sua sublime existência! — baixou a cabeça fingindo extremo pesar, mas logo depois a ergueu e assumiu um ar imponente, voltando a encarar os vampiros que o ouviam calados — Hades se sacrificou como um verdadeiro herói de guerra! Por nós! — fechou os dedos e bateu a mão potente contra o próprio peito elevando ainda mais o tom de voz — Nosso bravo líder não só destruiu o Conselho como nos entregou a VITÓRIA! Agora cabe a nós honrar seu legado... Momentos antes de sua alma amaldiçoada sucumbir ele confiou a mim, Radamanthys, o papel de liderar-vos à glória! E assim eu o farei!
— Foi isso que o fez tão forte da noite para o dia? — questionou outro membro — Tua Presença é opressora e poderosa como nunca, Radamanthys. Mesmo Hades não possuía tal Presença, portanto não poderia tê-lo fortalecido de maneira tão grandiosa.
Radamanthys lhe direcionou um olhar severo.
— Está pondo em dúvida a minha palavra e minha capacidade? — disse em tom grave e vigoroso — Saiba que meu sangue não era tão fraco quanto muitos de vocês pensam. Muito de meu potencial eu mantinha adormecido em respeito ao nosso venerado ex-líder. — agora discursava eloquentemente — Quando Hades sucumbiu entregou a mim o seu sangue ciente de minha capacidade. Ele confiou a mim seus poderes e também seus conhecimentos, dando-me a chave para a melhoria e triunfo de nosso clã. Em meu sangue corre o futuro glorioso dos Espectros, futuro este que com demasiado prazer dividirei com todos assim que a ameaça Setita for eliminada... Hades agora é passado, mas honraremos sua memória quando eu cumprir o que lhe prometi no momento de sua morte, levando os Espectros das Sombras a um novo patamar de poder e dominação, posto que merecemos por direito. — elevava a voz e impunha sua Presença, agora poderosa, estimulando e cativando os presentes — Agora não é hora para questionamentos ou hesitação. Temos de tomar o que é nosso!... O sacrifício de nossos irmãos e nosso devoto líder não há de ser em vão! Por isso, preparem nossos contingentes! Coloquem-se a postos! Esta noite será o marco de nossa virada!
Completamente eufóricos e envolvidos pelo discurso do novo líder, os Espectros enfim foram convencidos, e enquanto Radamanthys, ainda sentindo os efeitos colaterais de sua transformação, entrou na casa à procura dos aposentos particulares que antes pertenciam a Hades para que pudesse descansar por alguns instantes, um a um os soldados Espectros foram reassumindo seus postos na formação dos batalhões.
Dentro da mansão, cinco carniçais conduziram o alemão para dentro até uma ala de acesso restrito no subsolo. Lá o deixaram a sós sob sua ordem, enquanto voltavam para a superfície para ocupar seus postos e dar seguimento à estratégia traçada pelo ex-general nazista.
Esta consistia em ataques simultâneos dos Espectros às sedes dos outros clãs, em todas as partes do mundo. Uma forma de impedir que estes se unissem fazendo alianças e fortalecendo-se, uma vez que tendo que defender a si mesmos não teriam tempo de unir forças para atacar.
A encargo de Radamanthys estava o ataque direto à sede dos Seguidores de Seth, na Inglaterra, e era para isso que agora o ex-general se preparava quando um imprevisto se deu.
Três toques foram ouvidos na porta de ferro que selava aquela ala restrita dos agora aposentos exclusivos do ex-general, chamando sua atenção.
— Eu disse que não queria ser incomodado. — rosnou o alemão que ainda sentia a mente um tanto atordoada e o corpo trêmulo, porém de forma bem mais amena. Sua transformação estava, enfim, quase completa.
Do outro lado da maciça porta a voz ansiosa de Valentine respondeu:
— Meu senhor... Nossos contingentes já estão a postos no campo para seguir caminho, como ordenou, mas... — fez uma pausa, confuso e vacilante.
— Mas o quê? — perguntou o vampiro de olhos dourados, agora voltando-se para a porta a encarando como se encarasse a criatura através dela.
— Mas, diante do que se figura lá fora, creio que sua presença seja necessária imediatamente. — Valentine respondeu.
— Eu disse que aguardassem um instante. — disse Radamanthys com voz firme, embora sua curiosidade já tivesse sido capturada.
— Eu compreendo, meu senhor, e ninguém está desobedecendo sua ordem, porém eu insisto... É melhor que o senhor venha testemunhar com seus próprios olhos.
Vencido Radamanthys abriu a porta, mesmo que a contra gosto, e sem nem olhar para Valentine cruzou o corredor a passos largos até a escadaria que levava à superfície da construção.
Seguido pelo fiel subordinado o alemão atravessou a ampla sala e finalmente chegou à porta de entrada que dava acesso à parte de fora, a qual abriu com um solavanco, mas nada o prepararia para o que viu, bem ali, diante de seus olhos.
No amplo campo que compreendia as imediações da mansão, junto dos inúmeros agrupamentos de Espectros das Sombras prontos para a guerra, um contingente enorme de Assamitas armados até os afiados dentes se apresentava.
Estavam por toda a parte.
Apinhados na borda da trilha que delimitava o espaço entre a mansão e uma densa floresta, esquadrinhando todos os pontos, à frente, ao fundo, nas laterais... Ao longe era possível vê-los à margem do rio que corria ali. Eram tantos que os olhos de Radamanthys não conseguiam calcular, centenas, e que com suas vestes negras a deixar à mostra apenas os olhos faiscantes se fundiam com a escuridão da noite.
O luar fazia refletir as lâminas amaldiçoadas de suas espadas, adagas, cimitarras e tantas outras armas que traziam presas a si mesmos.
O fedor de seus corpos pútridos e envenenados se erguia, amedrontando todo Espectro que ali também estava em maior número.
Foi quando Radamanthys sentiu a vontade vacilar e o medo querer tomar-lhe conta, já que tinha plena consciência de que, mesmo numeroso, seu clã não venceria um embate contra aquele contingente de Assamitas, que uma das fileiras dos soldados visitantes se dividiu em dois e do meio delas uma figura tomou a frente, caminhando até onde estava o ex-general nazista.
Sua Presença era fria e cruel como a morte. Tinha o corpo todo coberto por vestes militares de tons escuros, mas na cabeça usava um Keffiyeh* branco com o desenho de um dragão, deixando somente os olhos escarlates à mostra.
— Eu sou Hakuryu, General de Divisão dos exércitos Assamitas. Vim à procura de Hades, mas acabei de ser informado de que é você o novo líder Espectro. — disse o vampiro, e sua voz soava como trovão — Fui treinado por El Cid, e é pela honra e memória de nosso líder que marchamos até aqui para fazer uma aliança!... Buscamos vingança! Contra aquele que matou El Cid, contra seu clã! Se aceitar, Radamanthys dos Espectros das Sombras, tenho membros a postos em cada sede de clã, apenas esperando minha ordem de ataque.
Radamanthys estreitou os olhos, tão desconfiado quanto aliviado.
Aquela manobra lhe parecia obvia e genial. Os Assamitas eram um clã violento, sim, extremamente poderoso, perigoso, temido, mas eram pouco numerosos. A aliança com os Espectros das Sombras era uma jogada de mestre, pois através dela aumentariam seu contingente, seu poder e também garantiriam proteção.
— Está com sorte, general Hakuryu. — disse o ex-general esboçando um sorriso sarcástico, então estendeu o braço e ofereceu à mão ao mais novo aliado.
O cumprimento selou o acordo, e a partir daquela noite Assamitas e Espectros das Sombras marchariam juntos, ávidos a exterminar da Terra os Seguidores de Seth.
***
Horas antes, durante o dia, na casa de Camus, simultaneamente ao ataque ao Conselho.
Totalmente alheio ao perigo da guerra iminente que se desenhava em tons cruéis, pela segunda vez em muitos anos Afrodite se permitiu caminhar pela casa livremente, sem que para isso tivesse sido autorizado.
Tinha pegado no sono deitado em um dos vários divãs da biblioteca ao ler as páginas de um antigo livro de histórias fantásticas, e despertou ao sentir o delicioso aroma do salmão marinado que Isaak preparava na cozinha, o qual também já perfumava toda a casa.
Sentia-se ainda fraco, devido aos anos de privações, além de cansado da viagem e das emoções da noite passada.
Quando adormeceu na noite passada, pouco antes do amanhecer, ainda sentia os ombros doloridos, a cabeça levemente pesada, os joelhos e pernas fracas, mas tudo pareceu ficar em segundo plano no momento em que despertou para tomar o dejejum e sentiu o corpo frio e volumoso de Camus colado ao seu. Com cuidado se virou para o lado e ainda sonolento ficou logos minutos a olhar para o rosto do vampiro ruivo que dormia seu sono de morte, sem fazer qualquer ruído.
Afrodite não estava acostumado a ver os imortais tão relaxados em seu momento de sono. Nas tantas vezes em que dividira o leito com Shaka, este jamais baixou sua guarda, mesmo que o músico não lhe oferecesse qualquer perigo. É que o momento do sono era a ocasião em que as criaturas da noite ficavam vulneráveis.
Deu um sorriso ao se dar conta do quanto Camus confiava em si, e subitamente se sentiu feliz.
Estranhou o fato, pois seu coração bater mais forte por um imortal não fazia dele uma pessoa de sorte.
Definitivamente não.
Com um suspiro resignado se arrastou até os pés da cama e se levantou. O quarto todo negro, mergulhado em trevas profundas devido às grossas cortinas de couro a tapumes a cobrir as janelas, não permitiam que nenhuma luminosidade passasse, por isso tateou o chão, móveis e paredes até chegar à porta. Abriu uma fresta minúscula e saiu do quarto, adentrando em um corredor não menos escuro até chegar à outra porta, de onde ouvia parcos ruídos.
Ao entrar na cozinha encontrou Isaak, e juntos tomaram o dejejum. Depois de uma breve conversa o servo de Camus o conduziu até o banheiro onde tomou um banho, vestiu-se com as mesmas roupas e foi conhecer o restante da propriedade, até ir parar na biblioteca onde havia cochilado até àquela hora.
Novamente adentrava a cozinha onde mais cedo tinha desfrutado de um delicioso dejejum com o garoto de cabelos esverdeados e sorriso gentil, que agora retirava do forno o que parecia ser um pão caseiro.
Ficou parado no batente da porta olhando para ele, até ser notado.
— Olá! Eu já ia lhe procurar. — disse Isaak ao caminhar até um grande balcão de mármore onde pousou a assadeira com o pão — Os outros servos estão ocupados e detesto comer sozinho! Está com fome?
— Sim. — Afrodite respondeu, meio sem jeito. Não que fosse tímido ou retraído, mas porque passara anos vivendo em um lugar onde suas palavras não tinha a menor importância, tendo valor apenas o líquido rubro que lhe era tirado diariamente dos pulsos, pescoço ou interior das coxas. A relação vassalar que tinha com Shaka era toda a interação que conhecia, e tudo que vivera antes dela parecia simplesmente lhe ter sido apagado da memória.
Somente a música sobrara para lhe fazer companhia.
— Então venha! — disse Isaak terminando de colocar a mesa — Espero que goste de culinária Finlandesa. Fiz um salmão com espinafres, timbale de parca defumada com molho de cerefólio e flor de abóbora. Tem vinho branco para acompanhar. Ah! E pão de centeio! — apontou o pão sobre o balcão.
A leveza de Isaak era algo mágico, parecia contagiar quem estivesse à volta.
Com um sorriso no rosto Afrodite olhou para a mesa já posta com dois lugares e caminhou até lá puxando uma cadeira.
— Parece tudo delicioso! — disse ao se sentar, depois ficou novamente sério — Têm pessoas lá fora. Vi vultos através das cortinas da sala quando caminhava até aqui.
— Sim. São os carniçais do mestre. Há muitos deles lá fora. A mansão está cercada. — o finlandês respondeu enquanto buscava o pão para trazê-lo até a mesa — Estamos em guerra, não sabia não?
Afrodite deu de ombros, meneando a cabeça levemente.
— O mestre já solicitou reforços. Noite passada alguns Cesarens já chegaram e repousam nos porões, e essa noite chegarão mais. — tudo posto na mesa Isaak agora se sentava para juntar-se ao sueco — Mas tudo indica que ela não chega até a gente, por isso não tem o que temer. — sorriu.
— Como pode ter certeza? — perguntou Afrodite.
— Porque estamos seguros aqui. — o finlandês sorriu gentil — Me dê seu prato... Mestre Camus é muito poderoso e nossas defesas são eficientes. Depois, o clã Cesarem possui poderosas alianças. — enquanto falava servia uma porção do peixe e do pão para o músico — Coma, precisa ficar forte.
— Obrigado. — disse o sueco ao apanhar o prato — Eu torço para que esteja certo de fato.
Issak sorriu também se servindo.
— Você é mesmo muito bonito, sabia? Parece uma tela, uma pintura. — disse o garoto de cabelos verdes, enquanto com os olhos cravados no rosto do músico saboreava o peixe — O mestre tinha dito que você era bonito, mas não imaginava que era tanto!
Afrodite sorriu sem graça.
— Por que usa essas roupas engraçadas? — perguntou o finlandês fazendo menção à túnica egípcia que o sueco usava.
— Eu... Na verdade, eu não sei... Acho que é porque só tenho essas. — respondeu o músico baixando a cabeça para correr os olhos pela túnica, depois ergueu o rosto e olhou para Isaak dando uma risada descontraída — São ridículas, eu sei!
— Sim, são! — respondeu o finlandês aos risos.
Ficaram ali até quase o final da tarde.
Depois de muita conversa, vinho e risadas, Afrodite retornou ao quarto e Isaak foi cumprir seus afazeres diários. Teria que reunir os servos que alimentariam os vampiros que dormiam nos porões e logo iriam despertar.
Quando Afrodite entrou no quarto, tateou os móveis até encontrar uma poltrona e ali se sentou. Ficou a pensar na conversa que tivera com Isaak sobre a guerra. Pensou muito em Shaka e em como ele deveria estar. Pensou também em Mu e nessa hora seu coração acelerou.
O rosto selvagem e demoníaco do Nut ainda lhe era terrivelmente presente em sua lembrança, mas apesar do medo e do terror que a simples lembrança de Mu lhe infringia estava preocupado com ele. Não queria que nada de ruim lhe acontecesse.
Suspirou.
Em suas divagações procurava um fio de esperança, que sabia não existir.
Afinal, tinha esperança de quê?
Estava condenado a viver do lado de um imortal, porém, pela primeira vez, não achou a ideia ruim.
Camus mexia consigo, isso era fato. E de uma maneira que nunca pensou que aconteceria em sua vida, pelo menos não nessa vida que tinha agora, como servo de um imortal.
Camus lhe despertava o desejo de sonhar, de fazer planos, mesmo que tivesse consciência de que ele iria viver para sempre enquanto sua vida era efêmera.
Puxou pela memória o desenho do cômodo quando o Cesarem o trouxe na noite passada, e lembrando-se que ao lado da cama havia um criado-mudo onde jazia um castiçal com velas, tateou as paredes até chegar nele, apanhou um acendedor posto ao lado e as acendeu.
A parca luz iluminou sutilmente o leito, revelando a figura de Camus que ainda dormia, com os braços cruzados sobre o peito.
Afrodite então se ajoelhou sobre os colchões e engatinhou até o ruivo, inclinando seu tronco para baixo até quase colar seu nariz ao dele.
— Se a minha vida é efêmera... Se logo tudo isso vai acabar... Se eu vou embora e você vai continuar aqui... Quero viver com você todo o tempo que me resta. — disse num sussurro, e fechando os olhos azuis beijou ternamente os lábios frios do vampiro.
Qual foi sua surpresa ao sentir os lábios de Camus acolhendo os seus num beijo intenso, forte, apaixonado.
Afrodite abriu os olhos e encontrou as íris incandescentes do Cesarem a divisarem sua alma, de uma forma tão arrebatadora que sentiu o ar lhe faltar.
As mãos de Camus logo correram ávidas por suas costas até enlaça-lo pela cintura e puxá-lo para o lado para que pudesse inverter as posições.
Agora era Camus quem se debruçava sobre Afrodite provando seus lábios doces num beijo cúmplice.
Naquele momento ambos tinham se dado conta de que já pertenciam um ao outro, durasse o tempo que durasse.
— Eu também, Afrodite. — sussurrou o Cesarem — Eu quero viver junto a você todo o tempo que lhe resta!
Confessou o francês imortal.
Camus não sabia a razão, mas ouvir aquela confissão do jovem humano só fez aumentar seu desejo de toma-lo para si. Desejo esse que não sabia explicar, não sabia quando nascera. Afrodite era um mistério para sua mente racional, uma força maior que impelia, pela primeira vez, a colocar a emoção à frente da razão.
Agora mesmo deveria estar instruindo os Cesarens recém-chegados na noite passada, mas tudo que conseguia fazer era beijar os lábios quentes e absurdamente macios daquele humano, como se fosse ele a criatura poderosa e hipnótica a subjugar sua vontade.
Diferente da noite anterior, em que sentia-se ainda inebriado e eufórico devido ao vício do sangue de Shaka, Afrodite agora apenas desejava a boca de Camus, o corpo, a alma amaldiçoada. Queria ser tomado, pela primeira vez por amor, por desejo consciente. Que Camus lhe bebesse até a última gota de seu sangue, contanto que morresse de amor em seus braços frios.
E como quem tem seus mais íntimos desejos atendidos, foi com um suspiro de volúpia e satisfação que sentiu as presas do Cesarem sendo enterradas na carne de seu pescoço.
— Aaaaaaah... Camus... — murmurou baixinho, apertando os dedos das mãos contra os lençóis negros.
Em êxtase, o vampiro de longos cabelos cor de magma sorvia, gole a gole, o sangue quente e ferroso do músico, sentindo todo seu corpo estremecer à medida que aquele elixir de vida corria dentro de si reavivando cada tecido e órgão.
Foram apenas alguns goles. O suficiente para trazer vida novamente a seu corpo morto. Não queria Afrodite fraco ou inconsciente, muito pelo contrário, o desejava no auge de suas forças físicas e faculdades mentais, pois, diferente da noite passada, agora estava disposto a ir até o fim e toma-lo para si.
Lambeu a ferida aberta por suas presas no pescoço do músico assim que sentiu o primeiro latejar de seu membro, vivo outra vez, então, com os lábios ainda sujos de sangue tornou a beijar Afrodite, agora com lascívia e paixão ímpares.
O gosto ferroso em sua boca, o beijo intenso, o corpo agora quente sobre o seu, o membro desperto a lhe indicar o quanto era desejado por aquele imortal punham o músico em delírio. Afrodite saboreava os lábios de Camus em completo êxtase.
— Finalmente... meu! — sussurrou o Cesarem ao afastar os lábios da boca arfante do músico apenas para poder contemplar sua belíssima face corada de desejo. Afrodite era seu, de corpo, de alma, de sangue!
Camus sentia o coração do jovem bater freneticamente, mais que isso, ele podia ouvi-lo retumbar dentro do peito languido, e a vida dentro de Afrodite o envolvia de forma tão arrebatadora que não foi mais capaz de esperar.
Com a pressa de um predador, porém somada à da delicadeza de um amante, o Cesarem despiu o corpo jovem abaixo do seu e depois ajudou Afrodite, que afoito, passou a despi-lo também.
O sueco igualmente tinha pressa. Não sabia o motivo, mas em seu peito havia uma ânsia, um certo desespero em entregar-se ao ruivo, talvez culpa da guerra iminente que os cercava, ou por conta desse sentimento novo e arrebatador que agora o impregnava. Seria ele, Amor?
Talvez estivesse mesmo amando aquele imortal, já que sexo parecia não lhe ser o bastante. E dessa vez seria por vontade própria.
Queria, desejava e precisava fazer amor com Camus.
Sendo assim, logo que as roupas não foram mais um empecilho, o jovem músico enlaçou o pescoço do imortal com um dos braços para beijá-lo com devoção, enquanto se erguia do leito obrigando o ruivo a se sentar para que pudesse sentar em seu colo.
— Sim... Mestre. — Afrodite sussurrou ao mesmo tempo em que se posicionava sobre o ruivo de modo que a ereção de Camus lhe tocava entre as nádegas, quase o penetrando — Me faça seu.
Sem mais conseguir esperar, o jovem forçou o quadril para baixo sentindo o membro rijo e vivo do vampiro entrando vagarosamente em seu corpo até tê-lo todo dentro de si.
— Hmm A-Aphrodite! — Camus gemeu.
Ao sentir o membro envolto pela carne quente do jovem pianista, o vampiro se viu arrebatado de prazer e luxúria. Buscou mais uma vez os lábios de Afrodite a medida em que movia-se dentro dele, arrancando-lhe suspiros languidos de deleite.
Em seu colo o sueco rebolava, completamente inebriado e devoto. Pela primeira vez sentia-se pleno, e ansiava por mais, como nunca havia ansiado antes.
— Ohh Mes... — as palavras do músico morriam em sua boca dando lugar apenas a gemidos lúbricos na medida em que se entregava, a cada vez que subia e descia sentindo o vampiro dentro de si — Aaah C-Camus... Camus...
Ouvir seu nome sendo recitado daquela forma apenas instigava ainda mais o ruivo, que aumentando o vigor se suas estocadas segurava firme o pianista pela cintura o ajudando a subir e a descer, enquanto erguia e abaixava o quadril em uma velocidade delirante.
— Isso, clame meu nome, pois eu também sou seu. — o imortal confessou sem saber de onde havia surgido a necessidade para tal.
Logo uma dança erótica envolveu a ambos, entregues ao prazer e ao êxtase do sexo.
O vampiro queria sentir mais, possuir mais, e sem conseguir controlar a Besta dentro de si, ao beijar Afrodite com paixão lhe mordeu os lábios, fazendo deles brotar o sangue tão almejado.
Não sugaria o jovem uma vez mais, pois sabia que ele já estava fraco, mas pela ferida o saboreou mais uma vez.
Com os lábios colados aos do sueco, Camus aumentou ainda mais a força e a velocidade de seus movimentos. Excitado e estimulado pelo sangue, o vampiro segurou com força o loiro em seus braços para estoca-lo firmemente, levando ambos ao delírio.
— C-Camus... Aaah... Eu... — Afrodite deixou escapar o nome do ser amado entre um gemido e outro, já próximo de seu limite.
Ao notar o estado do sueco, o som forte e potente que vinha do sangue bombeando em seu baixo ventre, Camus inclinou-se para frente deitando Afrodite na cama para debruçar-se sobre ele, sem interromper seus movimentos.
Na nova posição o ruivo era capaz de mover-se mais rápido e com maior força, fazendo com que o corpo frágil embaixo de si se contorcesse e chacoalhasse freneticamente.
Olhando-se nos olhos, ambos se entregaram de vez aos sentimentos que sentiam um pelo outro. Algo novo, arrebatador e intenso nascia entre eles, criando um vínculo perpétuo em seus corações.
Não tardou para que Afrodite soltasse um uivo baixo, sentindo todo o corpo estremecer quando atingiu o ápice do prazer. Com um sorriso e completamente relaxado, agora ele lambia os próprios lábios ensanguentados enquanto sentia Camus investir ainda mais fundo dentro de seu corpo, até que o ruivo atingisse o orgasmo lhe preenchendo com seu prazer sanguinolento.
Completamente extasiado, feliz e exausto, Afrodite se acomodou no peito do vampiro assim que ele se deitou ao seu lado, e agora, em estado de graça, procurava palavras para que pudesse expressar o amor que havia experimentado.
Camus por sua vez, nunca havia sentido tamanho arrebatamento. Estava pleno, aquecido, e por instantes parecia até que seu coração estava novamente vivo a bater em seu peito.
Porém o casal não teve tempo para apreciar aquele momento único.
O ruivo ainda sentia a respiração ofegante do jovem deitado sobre seu peito enquanto lhe acariciava com as mãos ainda trêmulas quando sua atenção foi abruptamente capturada pelo som de vidro sendo estilhaçado.
Como a criatura da noite experiente que era, imediatamente aguçou os sentidos e sentiu o cheiro peculiar dos Assamitas no ar: estavam sendo atacados!
Reagindo imediatamente, Camus separou-se de Afrodite dando um salto para fora da cama, já a procura das roupas que estavam caídas no chão.
— Camus? O que foi? — o músico perguntou, assustado e confuso, enquanto se colocava senta-lo sobre o colchão.
— Non temos tempo! Levante-se, vista-se e non fique nas sombras! Eles estão aqui! — respondeu o francês em aflição enquanto vestia as calças.
— Eles quem? — perguntou o sueco, que apesar de assustado já descia da cama para acatar a ordem do vampiro, recolhendo suas roupas do chão pra vesti-las apressado — Ah meu deus, é a tal guerra? — perguntou, com os olhos arregalados de pavor.
O ruivo ignorou a pergunta e apenas correu até ele para segurá-lo firme em seus braços, num abraço possessivo, depois segurou em seu rosto com ambas as mãos e olhou firme em seus olhos azuis.
— Non me interrompa, e preste atenção: em hipótese alguma se afaste de mim. Entendeu?
— S-sim, mas...
— Nenhum local nesta casa é seguro para você, está me ouvindo?
Afrodite piscou os olhos e acenou a cabeça com um gesto afirmativo, aflito, em terror.
— Eu irei protegê-lo.
Dito isso Camus voltou a abraçar o músico, desta vez mais forte.
Não saberia explicar o motivo pelo qual disse aquela frase com tamanha ênfase e desespero. Muito estava em risco para Camus, sua casa, suas pesquisas, o futuro de seu clã e da própria organização vampírica, mas nada, em absoluto, lhe causava mais terror que a ideia de perder Afrodite.
— Camus eu... — sussurrou o músico. Sua voz era trêmula e falha.
— Shii! Silêncio! — murmurou o ruivo, e nessa hora deu as costas ao jovem para se por em alerta distendendo as presa enquanto encarava a porta de madeira — Fique atrás de mim. E non se afaste.
Camus então colou seu corpo ao do pianista, e levando uma mão para trás agarrou a dele e a apertou com força.
Iria protegê-lo nem que isso custasse sua própria vida.
Usando seu dom de sangue Camus ergueu o braço que estava livre e das pontas de seus dedos uma faísca azul gélida fez cair a temperatura do quarto bruscamente.
Já sentia o perigo os espreitando, e quando apertou a mão de Afrodite com mais força as janelas do quarto se estilhaçaram e três Espectros das Sombras saltaram para dentro, ávidos em devorar o que encontrassem pela frente.
No mesmo instante, a muitos quilômetros dali, em várias partes do planeta outras casas também eram invadidas na calada da noite.
Radamanthys engendrara muito bem suas estratégias de ataque não deixando chance para que nenhum clã unisse forças contra seus exércitos, já que estariam ocupados em proteger suas próprias sedes, assim podia manter o foco em seu objetivo principal, Shaka e os Seguidores de Seth.
No entanto, Radamanthys desconhecia um detalhe. Um detalhe que poderia mudar tudo.
Se o líder Espectro era um exímio perito na arte da guerra, seu inimigo principal era a própria guerra. Seth, o vampiro que sozinho dizimou exércitos infindos em seus tempos de glória e poder.
Alheio a esse fato, e confiante em sua vitória, Radamanthys dava as últimas ordens a seus soldados e aliados, que do lado de fora já aguardavam agrupados para marchar até o inimigo.
A cena era de se fazer inveja à alma mais belicosa que já andou sobre a Terra.
Um contingente gigantesco de crianças da noite, vestidas em negro e com seus olhos animalescos faiscantes a reluzir na escuridão noturna, aclamava seu líder, que com um discurso inflamado os impelia à luta sobre a promessa de uma Nova Ordem para a sociedade vampírica onde o seu clã, os Espectros das Sombras, e seus aliados, os Assamitas, seriam a raça dominante. Estes últimos, porém, eram motivados mais pela vingança que pela promessa de Radamanthys, embora a chance de finalmente viver em uma Ordem na qual não seriam obrigados a se esconderem em guetos lhes eram demasiadamente tentadora.
Ao final de seu discurso bélico, e enquanto ainda era ovacionado pela multidão inflamada de imortais sedentos por violência e morte, Radamanthys finalmente deu a ordem de ataque, pronto para liderar seu exército a embarcar para um embate direto contra a sede dos Seguidores de Seth na Inglaterra.
Porém, no exato momento em que erguia o braço para ordenar a partida de suas tropas, um uivo gutural, longo e pavoroso rasgou a noite fazendo se calar cada uma das centenas de vozes que ali aclamavam o ex-general nazista.
Por segundos houve um silêncio profundo. Não se ouvia nenhum sussurro, ordem de batalha ou troar das letais lâminas Assamitas.
Então, estupefato, porém seguro de si, Radamanthys estreitou os olhos, e devido sua larga experiência soube que naquele momento não mais iria para a guerra, mas ela tinha vindo até ele!
Como insetos confusos pela intensidade da luz que os cega, os Espectros das Sombras, e também os Assamitas, abandonaram sua postura ofensiva para assumir uma de defesa, enquanto ainda surpresos e desnorteados corriam seus olhos fantasmagóricos pelas sombras da noite escura à procura do autor daquele ronco dantesco que mais parecia um prenúncio funesto do caos.
— Não saiam de suas posições! — a ordem veio de Radamanthys — O desgraçado está aqui. — disse para si mesmo num sussurro.
Num gesto rápido o alemão livrou-se da capa negra enquanto já atento analisava cada centímetro do perímetro, percorrendo seus olhos animalescos pelo horizonte escuro.
Ainda se fazia silêncio. Assamitas desembainhavam suas espadas e cimitarras dos coldres. Espectros das Sombras se colocavam em guarda, armados de toda sorte de poderio bélico e com seus dons de sangue já ativos.
Na frente da mansão sede do clã, Radamanthys já podia sentir a devastadora Presença de Shaka, e junto dela outra Presença, ainda mais incrível e poderosa, porém não os via.
Então, de repente, sob seus pés pousados na terra nua do vale sentiu uma vibração que aumentava de intensidade a cada milésimo de segundo, ficado cada vez mais forte, como se algo de proporções gigantescas se aproximasse em uma velocidade alucinante.
Sem poder entender olhou para baixo e só teve tempo de ver o solo se partindo em dois abaixo de seus pés, de onde saíram, medonhas e vorazes, centenas de víboras e serpentes.
O mesmo acontecia em todo o campo.
Através das habilidades novas que receberam após beberem o sangue de Seth, os Setitas adquiriram o dom de conjurar serpentes e criaturas mais poderosas, as quais agora usavam a terra para armar uma emboscada contra os exércitos de Radamanthys.
Submersas no solo, e em um ataque sincronizado, as criaturas avançaram até a última fileira das tropas inimigas, e ao emergirem, tal qual bestas apocalípticas, se enrolavam nas pernas e troncos dos vampiros inimigos os puxando para dentro da terra pare serem engolidos e devorados justamente onde não podiam reagir, já que dominavam as sombras.
Os gritos dos que foram engolidos pelo solo despertou a legião inimiga, e também Radamanthys, que só não havia sido atingido pelas víboras por ter sido muito mais rápido e astuto, saltando para perto da escadaria da mansão onde o solo estava íntegro.
Diante daquele cenário caótico, o líder Espectro finalmente pode ver, ao horizonte, se erguer seu inimigo.
— Shaka! — rosnou o alemão.
Aquele tinha sido apenas o primeiro ataque.
As centenas de soldados Assamitas e Espectros das Sombras que não foram tragados pelo solo agora voltavam seus rostos para o horizonte, vendo surgir do fundo da escuridão um contingente considerado de Seguidores de Seth que marchavam ligeiro, todos cobertos por vestes negras e douradas, liderados por Shaka e pelo próprio Senhor da Guerra.
A Presença de luta exalada pelos Setitas era assustadora. Bem diferente do que esperavam tanto Espectros quanto Assamitas, já que os Seguidores eram um clã considerado fraco belicamente.
Radamanthys também percebeu essa mudança de espírito e poder assim que os sentiu e os viu ali, em suas terras, ziguezagueando através da escuridão indômita a passos firmes.
Contudo, o que mais chamou a atenção de Radamanthys não foi o novo poder dos Setitas, nem a surpresa causada pela audácia brilhante de Shaka em levar seus exércitos para a Áustria para pegar os seus de assalto, tampouco o poder avassalador que sentia vindo do sumo sacerdote, o qual era capaz de perceber muito maior que em seu último encontro no Irã quando tentou abatê-lo, mas a figura que marchava ao lado de Shaka, ornamentada em vestes tradicionais egípcias, e que possuía uma Presença vampírica nunca antes sentida por ele.
Aquele deveria ser o tal artefato. O vampiro misterioso de sangue ancestral que acompanhava o líder Setita há algum tempo e que vinha atrapalhando seus planos.
Porém, Radamanthys era uma criatura de orgulho e confiança ímpares.
— Ora, ora! Hoje é meu dia de sorte! — murmurou para si mesmo ao estreitar os olhos, cuja mirada era cravada nas duas figuras que vinham à frente do exército Setita, e passar a língua pelas pontas afiadas de suas presas – De muita sorte! Como diriam nossos estimados aliados: A montanha veio até Maomé!
Ávido pelo sangue do sumo sacerdote, e também de seu misterioso aliado, Radamanthys soltou um urro feroz que dava a ordem de ataque aos seus exércitos de Espectros e Assamitas.
No mesmo momento, do lado oposto, Seth assumiu postura de ataque distendendo suas garras e rosnando de forma bestial para incitar suas Serpentes, que em uma resposta imediata partiram ao ataque correndo e saltando em direção à horda inimiga, que também já vinha inflamada para o choque.
Shaka, que vinha escoltado de perto por dois felinos selvagens semelhantes a panteras negras, porém muito mais primitivos e bestiais, também lhes deu a ordem de ataque as livrando das coleiras que traziam o brasão de Seth. Eles eram na verdade seus dois gatos domésticos, Seth e Kali, duas criaturas místicas que há séculos o acompanhavam como guardiões pessoais, e que agora em sua forma plena, maiores e muito mais selvagens, transformaram-se em máquinas de guerra que obedeciam às ordens de seu mestre.
O sumo sacerdote incumbiu as feras de abater os Assamitas, uma vez que elas não podiam ser afetadas pelo Quietus, a principal habilidade de luta dos temidos canibais.
Sangue imortal seria derramado naquela noite, de ambos os lados, Seth tinha consciência disso. Não poderia proteger todo seu clã, mas faria valer cada sacrifício de suas crianças da noite para aniquilar de vez os Espectros das Sombras.
Mu agora tinha novamente uma família, e um companheiro, e como nos escritos proféticos lutaria ao lado deles para sua preservação.
O ruído do entrechoque entre os exércitos ecoou pelas planícies escuras da mansão, acompanhado pelo som grotesco e selvagem dos gritos e rosnados dos soldados.
Unhas e dentes rasgavam a carne morta com extrema facilidade, lâminas partiam músculos, tecidos, ossos e envenenavam os corpos numa dança hedionda de morte, violência e horror orquestrada com sangue amaldiçoado que espalhava seu odor pelo ar e escorria pela terra a tingindo de negro.
Muito mais fortes, ágeis e agressivos, os Seguidores de Seth agora não eram abatidos com a facilidade de antes. Dominavam a mente dos mais fracos os fazendo lutar entre si, e usando seus dons de conjuração invocavam criaturas da noite para lutar a seu lado, além de estarem muito mais resistentes.
Assim, do céu surgiam aves de rapina que usavam suas garras contra o inimigo, e da terra lobos ferozes rasgavam as garantas dos que se impunham contra seus mestres.
Shaka então lançou um último olhar para Mu, e ao mesmo tempo os dois vampiros partiram ao ataque. O Nut se lançando contra a horda de milhares de Espectros das Sombras e Assamitas armados até os dentes afiados, e o sumo sacerdote numa carreira ensandecida de encontro a Radamanthys.
Este, porém, permanecia imóvel. Mesmo vendo o líder dos Seguidores de Seth avançar colérico em sua direção.
Já a poucos metros do alvo, Shaka saltou do chão, garras distendidas, dentes expostos, olhos cravados no rosto concentrado do alemão, decidido a abatê-lo num só golpe, mas o inesperado aconteceu.
* Keffiyeh – lenço árabe.
