CAPÍTULO 26
Será que eu ainda preciso dizer que depois dessa minha família recebeu Jesse de braços abertos? Até mesmo Brad e Jake que estavam se fazendo de entediados com tudo aquilo, estavam sorrindo quando deixaram o hospital com o resto da família, cerca de uma hora depois. Eu fiquei, é claro.
Agora que ele tinha sido transferido para um quarto particular, ele tinha direito a um acompanhante em tempo integral. Não que fosse fazer alguma diferença. Mesmo se fosse proibido, eu daria um jeito de ficar com ele.
Alicia conseguiu um cobertor e travesseiros para que eu ficasse mais confortável no sofá do quarto e me aconselhou a jantar na cantina do hospital.
- A comida da copa não é tão agradável. – ela informou com um meio sorriso – É feita para os pacientes então não tem muito sabor.
- Eu acho que vou seguir seu conselho – eu sabia o quanto a comida de hospital poderia ser intragável.
- Ok. Daqui a pouco meu horário de expediente acaba e, se você quiser, nós podemos jantar juntas. – ela falou com um pouco de insegurança.
Até que ela não parecia ser tão má. Na verdade, ela ainda não tinha me dado nenhum motivo para ter ciúmes. E mesmo que ela resolvesse dar em cima de Jesse, eu não teria por que me preocupar. Ele nunca corresponderia.
- Quero sim. – respondi sorrindo para ela.
- Que bom. – seu sorriso aumentou e ela se dirigiu a saída. – Vou trazer o jantar dele e daqui a meia hora a gente se encontra na cantina, ok?
- Ok. – depois que ela saiu, eu voltei minha atenção para Jesse. – Ela é legal.
- É. – ele respondeu sem dar muita importância.
- E bonita também. – ele apenas arqueou uma sobrancelha e não falou nada – Vai me dizer que você não notou?
- Ela é bonita sim.
- Eu sabia que você tinha percebido.
- Hermosa, posso saber por que você está me falando tudo isso?
- Eu? Nada. – eu dei de ombros fingindo indiferença. – Eu só estava querendo saber o que você tinha achado dela. Ela deve ter a sua idade mais ou menos, é bonita, simpática.
- Quem está com ciúmes agora? – ele perguntou, rindo.
- Eu não estou com ciúmes. Só estou comentando.
- Sei...
- Por acaso eu tenho motivos para ter ciúmes?
- Você sabe que não.
- Então eu não estou. – eu ia me afastando, mas ele me segurou pelo pulso e eu me voltei para encará-lo.
- Eu amo você, Suzannah. – sua voz era terna – Você é a pessoa mais importante para mim. Mulher alguma pode se comparar a você.
Seria impossível continuar com qualquer tipo de ciúmes depois de ouvir tais coisas. Eu sorri e o abracei, tomando cuidado para não machucá-lo.
- Você é perfeito, sabia? – eu beijei seus lábios de leve. – Eu te amo muito.
- Eu não sou perfeito.
- É claro que é. Mas nem adianta discutirmos sobre isso. Você nunca vai concordar comigo mesmo.
- Claro que não vou, porque eu não sou perf...
- Tá bom, Jesse. – eu o interrompi sorrindo e lhe dando outro beijo rápido.
Eu nem ia perder meu tempo discutindo aquilo com ele. Jesse não se via da forma como eu o via. E, para mim, ele era perfeito.
Alguns minutos depois Alicia voltou com o jantar de Jesse. Mas aquilo em momento algum poderia ser chamado de jantar. A não ser que alguém consiga achar uma papa grossa e cheia de calombos aperitiva. Eu não achei. E até fiquei com pena por Jesse ter que ingerir aquilo.
- Não tem nada com cara de comida? – eu perguntei assim que ela pôs tudo naquelas bandejas de cama de hospital.
- Foi a dieta recomendada para ele. – Alicia informou sorrindo – A lâmina da faca atingiu o estômago dele de raspão então ele não pode comer nada pesado. Pelo menos por enquanto.
Ela se retirou e eu fiquei incumbida de observá-lo para que ele comesse tudo. Ele encarava o prato como se o conteúdo fosse pular em cima dele a qualquer momento.
- Jesse, você vai ter que comer isso aí – eu falei apontando pra coisa branca dentro do prato – É melhor fazer isso logo, porque eu tenho certeza que o gosto não vai melhorar se ficar gelado.
Ok. Eu sei que não estava ajudando em nada, mas era difícil achar inspiração com aquela gororoba.
- Não é isso, é só que... – ele apertou os lábios com força. – É minha primeira refeição desde que eu acordei.
Opa. A primeira refeição dele...
- Desde que você morreu. – eu sussurrei.
- É – ele falou meio inseguro e deu de ombros.
Ele continuou encarando o prato por alguns segundos e quando eu vi que ele não ia se mexer eu tomei a iniciativa. Peguei a colher e a mergulhei na gororoba, quer dizer, na papa de aveia, sem enchê-la demais e a ergui em direção à sua boca.
Ele me encarou com o cenho franzido e apertou ainda mais os lábios.
- Vamos lá, Jesse, abre a boquinha – eu tentei fazer graça e deu certo, ele riu e abriu um pouco a boca – Só mais um pouquinho... isso. Bom menino. – ele riu ainda mais e quase cuspiu a comida – Eca, Jesse. Olha os modos.
- Então pare de me fazer rir. – ele falou tentando se fazer de irritado, mas ainda rindo – Eu estou tentando comer.
Com muita calma ele conseguiu terminar toda a papa. Depois eu o ajudei a tomar o suco de laranja.
- Isso estava gostoso. – ele falou apontando para o prato de aveia.
- Jesse, você passou cento e cinqüenta anos sem ingerir nada. Não tem critérios para julgar o que é gostoso ou não.
- Eu achei gostoso. – ele insistiu.
- Tá. Depois que você comer um hambúrguer com batatas fritas e milk-shake você me diz o que é gostoso, ok. – Eu tirei a bandeja da frente dele e o ajudei a deitar novamente na cama. – Agora fica aí quietinho por que é a minha vez de comer. Eu não demoro.
- Certo.
Eu saí do quarto e fui em direção à cantina que ficava no primeiro andar do hospital. Alicia já estava lá sentada em uma das mesas centrais e acenou para mim quando me viu.
Agora que tinha passado totalmente a crise de ciúmes, eu consegui conversar com Alicia tranqüilamente e a achei muito legal. Apesar dela ser muito bonita, ela era bastante tímida e corava facilmente. E eu consegui descobrir muito a respeito dela. Ela tinha vinte anos, um irmão da idade de David e sua mãe era advogada. Ah, e não tinha namorado, mas eu não me preocupei com isso.
- Ela queria que eu seguisse a profissão dela, mas eu não sou do tipo que se dá bem falando em público. – eu já tinha notado isso. – Eu gosto de cuidar das pessoas. Eu até briguei com a minha mãe por causa disso, mas ela acabou aceitando.
- Que bom.
- Ah, por falar nisso, quem vai me substituir é Will, então se você quiser, ele pode ajudar Jesse a trocar de roupa. Eu confesso que não fico muito confortável tendo que ver um homem sem roupas na minha frente, mesmo sendo paciente.
Foi então que eu me toquei que Jesse não tinha roupa nenhuma para usar.
Como é que eu pude pensar em tanta coisa e esquecer algo tão simples? Eu precisava fazer alguma coisa quanto a isso. Jesse não poderia ficar andando para cima e para baixo sem roupas. Ou poderia? Hum... isso seria interessante. Ok. Ele definitivamente precisava de roupas.
- Eu ainda não peguei as roupas dele. – falei dando uma tapa na minha testa. – Aconteceu tanta coisa que eu acabei esquecendo esse detalhe. Mas eu vou trazer ainda essa noite.
- Ok.
Nós terminamos de comer e ela levantou para ir embora.
- Até amanhã, Suze.
- Até. – eu me despedi e fui logo procurando o celular dentro da bolsa.
- E aê?! – Gina atendeu no primeiro toque com a voz animada.
- Alguém está feliz.
- E tenho motivo para não estar? – Gina ria o tempo todo tornando quase impossível entender o que ela falava.
Então eu ouvi uma voz masculina perto dela.
- Por favor, me diz que você não está com Jake.
- Talvez.
Eca. Eca.
- Acho que eu liguei no momento errado. Eu ligo depois.
- Não, espera – ela chamou apressada – Ele foi ao banheiro agora. Pode falar.
- Eu vou precisar de um favor seu amanhã.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não, quer dizer, eu lembrei que preciso comprar algumas roupas para Jesse. Ele não tem o que vestir.
- Minha nossa! É mesmo.
- Eu vou dar um pulinho rápido em uma loja aqui perto para comprar algumas roupas leves para ele ficar aqui no hospital e um pijama, mas depois ele vai precisar de mais. Então eu estava pensando se você não poderia ir ao shopping comigo me ajudar nas compras.
- Falou em shopping eu tô dentro!
Nós combinamos de nos encontrar no dia seguinte pela manhã. Ela viria me pegar e nós almoçaríamos juntas. Eu não queria deixar Jesse sozinho, mas ela disse que Steph ficaria com ele.
Fui correndo para a rua e tinha pressa para voltar. Não demorei nem vinte minutos na loja. O bom de comprar roupas masculinas era que não havia muitas opções. O ruim? Eu não fazia idéia se estava comprando o tamanho certo. Também não fazia idéia do gosto de Jesse, mas levando em consideração que ele viveu numa época que sequer se fabricavam roupas com zíper, ele não teria exatamente um estilo para se vestir nos dias atuais. Ainda não.
Comprei um pijama cinza de algodão com blusa de botões para que ficasse mais fácil para vestir por cima da faixa que envolvia seu peito, e calças de elástico. Conforto total. Levei mais duas blusas básicas e uma calça de moletom. Ia aproveitar essa noite para tirar as medidas dele para que amanhã eu comprasse tudo certo. Inclusive sapatos. Ainda bem que eu tinha umas economias guardadas.
Quando voltei ao hospital, a recepcionista mal humorada já estava de volta. Mas ela não pegou no meu pé dessa vez. Uma ameaça já tinha sido o suficiente.
- Olá – eu a cumprimentei com um sorriso falso – Você pode pedir pro enfermeiro Will vir até aqui?
- Claro – ela respondeu com o mesmo sorriso amarelo – Só um instante.
Ela falou rapidamente no telefone e disse que ele já estava vindo.
Will foi imediatamente ao quarto de Jesse para trocar seu pijama de hospital que não passava daquelas batas ridículas, pelo pijama de algodão. Eu fiquei do lado de fora esperando. Não que eu nunca tivesse visto Jesse sem roupa antes, mas ainda assim eu preferi deixá-lo a sós com o enfermeiro.
Jesse ficou maravilhoso nos novos trajes, embora ele não tenha gostado muito do fato de eu ter gastado meu dinheiro com ele.
- Por favor, Jesse, deixa eu te paparicar um pouco. – eu me aproximei e beijei seu rosto com carinho.
- Desde que você pare por aí. – ele respondeu emburrado.
- Eu paro amanhã, ok? Eu já combinei de ir com Gina ao shopping amanhã comprar mais algumas coisas para você.
- Não. De jeito nenhum, Suzannah, eu...
- Jesse, você não vai querer acabar com a nossa diversão, não é? – eu o interrompi colocando um dedo nos seus lábios – Shopping é o playground de toda mulher.
- Eu não quero que você fique gastando seu dinheiro comigo. – ele insistiu, falando contra o meu dedo e fazendo um arrepio percorrer meu corpo.
- Esse tópico não está mais aberto a discussões. – eu murmurei quando senti o ar faltando.
- Suzannah... – sua voz também estava falha.
- Jesse, será que dá pra você me deixar fazer isso? Eu quero comprar coisas para você. Eu gosto disso.
Ele soltou o ar pesadamente e assentiu ainda contrariado.
- Tudo bem, mas depois eu vou te devolver cada centavo que você está gastando comigo.
- Se você fizer isso eu vou ficar muito chateada. – eu acariciei seu rosto com delicadeza e me surpreendi quando o aparelho que marcava seus batimentos disparou.
Ele me encarou com seus olhos negros mais brilhantes do que nunca.
- Apenas um toque... – ele murmurou com a voz rouca.
Eu me aproximei mais do seu rosto e o beijei. No começo foi um beijo calmo, terno, apenas um leve roçar dos lábios. Mas logo a urgência tomou conta dos nossos corpos e sua mão se fixou na minha nunca, aprofundando o beijo. Em questão de segundos os dois já estavam arfando e querendo mais.
Suas mãos passaram a acariciar meu pescoço, deslizando pelos meus ombros e levando a alça da blusa junto. Seus lábios logo fizeram o mesmo trajeto das mãos, beijando meu pescoço e o ombro nu e eu não consegui conter um gemido.
Eu comecei a abrir os botões da sua blusa, ansiosa por sentir sua pele sob as minhas mãos, e foi então que eu vi a faixa que envolvia seu peito machucado. Eu precisei reunir toda a minha força de vontade para me afastar.
- O quê? – ele perguntou sem ar, olhando para mim com o cenho franzido – Aonde você vai?
- Você está... ferido – eu também encontrava dificuldade para respirar e levei a mão ao peito. Parecia que meu coração ia pular de tão rápido que ele batia. – Eu não quero te machucar ainda mais.
- Não... não machuca – ele falou ainda arfando, seu olhar atordoado e me puxou de volta para si – Eu estou bem. Melhor agora. – ele completou com um sorriso perfeito e me beijou novamente.
De alguma forma que eu não sei dizer como, eu agora estava em cima da cama com Jesse me beijando com ardor. Estávamos lado a lado, nossos corpos de frente um para o outro, suas mãos percorrendo minhas costas. Eu passei a beijar seu pescoço, lambendo a pele quente e soprando a área úmida e arqueei meu corpo involuntariamente contra o dele quando ouvi o gemido rouco que brotou de sua garganta. Suas mãos deslizaram das minhas costas até as minhas nádegas e me puxaram até que meu corpo estivesse colado ao seu. Eu senti sua excitação de encontro a minha e gemi baixinho.
- Jesse... Ah, Céus! – eu tentava respirar, precisava parar aquilo antes que fosse tarde demais – Jesse, estamos num hospital.
- É – ele murmurou ainda percorrendo meu corpo com as mãos ousadas – Quê?
- Hospital, Jesse. – falei com a voz um pouco mais firme – Estamos no hospital, lembra?
- Ah. É verdade. – ele enfim se afastou um pouco, mesmo com relutância e eu consegui respirar melhor. Já ia saindo da cama quando ele me segurou novamente. – Aonde você pensa que vai?
- Dormir.
- Dorme aqui. – ele pediu ainda sem me soltar. – Dorme comigo.
- Jesse, eu não acho uma boa idéia. – eu tentava usar a lógica, mas era muito difícil quando eu também queria ficar ali pertinho dele – Eu posso acabar te machucando sem querer.
- Claro que não vai me machucar, Suzannah – ele tinha um sorriso divertido no rosto – Só porque eu não estou mais morto, não quer dizer que eu esteja tão quebradiço.
- Ainda assim eu...
- Por favor – ele insistiu com o olhar intenso – Eu passei tempo demais longe de você, hermosa. Só o que eu quero é poder dormir com você nos meus braços. Sentir seu calor novamente. Por favor.
Nem a pessoa mais insensível do mundo poderia recusar um pedido desses. E eu estava longe de ser insensível.
- Depois você diz que não é perfeito – eu sussurrei de encontro aos seus lábios e o beijei rapidamente.
- Eu já disse que eu não... O que você está fazendo? – ele perguntou com a voz indignada quando eu levantei da cama de um salto.
- Vou escovar os dentes e trocar de roupa para ir dormir. – falei olhando-o por sobre o ombro – Com você. – completei antes que ele pudesse falar mais alguma coisa.
Fui para o banheiro e fiz tudo em tempo recorde. É. Eu também estava com saudades demais dele e tudo que eu queria agora era dormir ao seu lado. Voltei para o quarto e peguei o travesseiro e o cobertor que estava em cima do sofá e levei tudo para a cama. Jesse se afastou para o lado abrindo espaço para mim. Ele me observava com a expressão ansiosa no rosto enquanto eu me movia pelo quarto.
Antes de me deitar eu lhe dei um comprimido para dor que Will tinha deixado ao lado da cama. Agora que ele já tinha saído da sala de recuperação, ele não precisava mais ficar à base de soro. E amanhã os médicos iriam retirar os fios que marcavam seus batimentos.
- Eu vou sentir saudades de ouvir quando seu coração dispara por qualquer coisa. – eu comentei quando já estava acomodada ao lado dele na cama.
- Não é por qualquer coisa – ele murmurou me puxando para mais perto e sussurrando no meu ouvido – É por você.
Ficamos ali abraçados, deitados lado a lado, apenas nos olhando, observando cada detalhe um do outro, matando a saudade. Eu acariciava seu rosto enquanto sua mão permanecia nos meus cabelos, brincando com as mechas. Suas mãos às vezes se tornavam mais ousadas, descendo pelos meus ombros indo em direção à minha cintura e escorregando por baixo da blusa do pijama para tocar a pele nua. Eu apenas puxava sua mão delicadamente de volta para o meu rosto sem falar nada e ele ria cada vez que eu fazia isso.
Em algum momento durante esse vai e vem de mãos eu senti o sono chegando. Não sei quem adormeceu primeiro, mas quando eu acordei no meio da noite pensando que tudo aquilo era apenas um sonho e vi Jesse dormindo tranquilamente ao meu lado, eu tive certeza de que aquilo era a mais perfeita das realidades. Voltei a dormir me aconchegando aos seus braços e o senti me apertando mais instintivamente, como se quisesse me impedir de escapar.
No dia seguinte eu acordei antes dele. Sabia que ainda era cedo por conta dos fracos raios de sol que entravam pela persiana que tinha ficado aberta. Ergui um pouco o corpo e fiquei observando-o enquanto ele ainda dormia. Devo ter passado mais de meia hora olhando para o seu rosto, mas eu não me cansava.
Em determinado momento eu ouvi uma leve batida a porta e em seguida um carrinho com o café da manhã entrou pelo quarto sendo empurrado por Alicia. Ela corou até a raiz dos cabelos quando ela viu a posição em que nos encontrávamos. Não que estivéssemos em alguma posição comprometedora. Acho que foi apenas pelo fato de estarmos juntos na mesma cama.
- Desculpe – ela murmurou fazendo menção de sair do quarto novamente.
- Não, tudo bem. – eu sussurrei para não acordar Jesse e fiz sinal para ela entrar.
Ela entrou novamente e empurrou o carrinho para dentro. Tomando cuidado para não acordá-lo, eu levantei da cama e parei ao lado para observá-lo novamente.
- Ele é lindo, não é? – eu murmurei quando Alicia se dirigiu até o aparelho de medição dos batimentos cardíacos e analisava o papel que saía de uma impressora silenciosa que estava conectada a esse aparelho. Ela sorriu sem graça e corou ainda mais se é que isso era possível. Antes dela eu só havia conhecido Cee Cee que tinha a capacidade de corar com tanta intensidade. E ela é albina. – Céus, como eu amo esse homem! – eu exclamei baixinho, completamente extasiada.
Eu percebi que Jesse estava acordando e me aproximei mais. Seus olhos começaram a abrir lentamente e à medida que eles entraram em foco, um sorriso foi surgindo em seus lábios.
- Bom dia, hermosa. – ele sussurrou ainda com a voz sonolenta.
- Bom dia. Acordou na hora certa – eu falei apontando para o seu café da manhã.
- Trouxe para os dois. O café da manhã da copa não é tão ruim. – Alicia informou enquanto destacava a longa folha da impressora e a dobrava – Eu vou levar essa impressão do eletrocardiograma para o médico analisar. Daqui a pouco eu volto com ele para desligar o eletrocardiógrafo.
Eu acho que ela estava se referindo ao aparelho. Certo. Deve ser isso.
- Ok. – fiz de conta que entendia tudo e puxei o carrinho para perto da cama depois que ela saiu.
Coloquei tudo em cima da bandeja e trouxe para cima da cama, depois de ajudar Jesse a sentar. Eu sentei no pé da cama, de frente para ele e o observei enquanto ele começava a comer os ovos mexidos. Ele disse que estavam muito bons e eu provei. Estava sem sal. Eca. Voltei para as minhas torradas com geléia. Muito melhor. Depois que já tínhamos comido tudo eu devolvi os pratos vazios para o carrinho e o deixei em um canto do quarto. Escovei os dentes fazendo uma anotação mental de comprar um kit de higiene pessoal para Jesse. Tomei um banho rápido e me vesti para ir para o shopping. Ainda faltava um pouco para o horário que eu tinha marcado com Gina, mas resolvi ficar logo pronta. Assim que saí do banheiro o médico entrou junto com Alicia. Era o Dr. Elgin. O mesmo médico que atendera Jesse quando ele chegara ao hospital.
- Então doutor, estou livre disso? – Jesse perguntou apontando para o aparelho.
- Ainda não sei, Jesse – o médico falou se aproximando – Seus batimentos dispararam algumas vezes essa noite. Você sentiu alguma coisa? Dor ou incômodo na região do corte?
- Não – Jesse respondeu de pronto e me olhou pelo canto do olho como se me acusasse de algo.
Demorou um pouco, mas a ficha caiu.
- Hum... doutor? – eu chamei um tanto sem graça – Acho que foi minha culpa.
Dr. Elgin apenas me olhou com o cenho franzido. Eu não teria coragem de explicar palavra por palavra então achei melhor mostrar. Mas apenas um pouco.
Me aproximei da cama e toquei no rosto de Jesse, descendo devagar até seu pescoço. O resultado foi imediato. Ele parou de respirar e eu senti o arrepio que subiu pelo corpo dele. O aparelho disparou fazendo o médico rir e Alicia corar novamente.
Até que comprar roupas para Jesse não fora tão difícil. Quando o Dr. Elgin saiu, depois de finalmente desligar o aparelho, eu pedi a Alicia uma fita métrica que eu usei para tirar as medidas dele. Gina também me ajudou bastante já que ultimamente ela vinha comprando muitas roupas para Jake.
- De vez em quando ele veste umas roupinhas cafonas, então eu estou tentando mudar o estilo dele.
Queria ver quando Gina começasse a forçar Jake a usar couro. Essa eu não perderia.
Nós estávamos almoçando, ou melhor, comendo besteiras, quando o meu celular tocou. Olhei para o visor, mas não identifiquei o número.
- Alô? – atendi enquanto levava uma batata frita à boca.
- Suze? – era uma voz de homem ligeiramente conhecida.
- Sim.
- É Paul.
Dizer que eu fiquei surpresa foi pouco.
- Oi, Paul. – Gina, que estava tomando milk-shake, se engasgou quando ouviu o nome. Pelo visto ela estava tão surpresa quanto eu. – Tudo bem?
- Tudo – ele parecia um tanto receoso – Eu liguei para a sua casa e seu irmão me deu o número do seu celular. Espero não estar atrapalhando.
Eu não sabia como me comportar. Estava acostumada a ter raiva de Paul, mas agora ele estava nos ajudando, então aquela era uma situação nova e eu ainda não sabia como lidar com ela.
- Não está. Eu estou almoçando com Gina.
- Ah, manda um beijo pra ela.
Eu transmiti o recado para Gina e fiquei esperando Paul falar mais alguma coisa.
- E então – ele falou depois de um tempo em silêncio – Como vão as coisas?
Sabia que ele estava perguntando aquilo apenas por educação já que ele estava bem informado dos últimos acontecimentos da minha vida.
- Tumultuadas. – respondi simplesmente.
- É, eu ouvi falar. – mais uns segundo de silêncio – E é por isso que eu estou ligando.
- É?
- É. Eu estou pensando em ir para Carmel. Tem muita coisa acontecendo por aí e eu estou perdendo tudo. – ele falava como se estivesse se referindo a uma atração turística – Você não se incomodaria se eu fosse, não é?
- Claro que não, Paul. – mas eu ainda não tinha certeza se era assim mesmo que eu me sentia – Seria legal se você viesse passar um tempo aqui.
Silêncio novamente.
- Na verdade eu estou pensando em me mudar. Permanentemente.
Antes de voltar para o hospital, eu passei em casa para deixar uma parte das roupas de Jesse lá. Por sorte não havia ninguém em casa para me questionar sobre a quantidade de sacolas. Escondi uma parte no guarda roupa e fiz uma pequena mala para ele e fui com Gina para o hospital. Eu ainda não sabia como contaria para Jesse que Paul estava de mudança para Carmel. Mas eu tinha que contar ainda hoje porque Paul chegaria no dia seguinte. Ele disse que estava muito ansioso para conhecer Jesse, o ex-fantasma, como ele o chamara.
Quando Jesse começou a reclamar da quantidade de roupas que eu tinha comprado eu fingi que ele estava falando com a parede e comecei a conversar com Gina, ignorando-o completamente. Ainda bem que eu não tinha trazido todas as roupas.
O médico que substituiu o Dr. Elgin naquela tarde estava bastante otimista com o estado de saúde de Jesse. Ele disse que se tudo corresse bem, dali a dois dias Jesse teria alta e só precisaria voltar ao hospital para retirar os pontos.
Mas ainda tinha um problema que eu precisava resolver urgentemente. Onde Jesse moraria? Eu mencionei essa minha preocupação com Gina quando nós estávamos do lado de fora do quarto esperando que Alicia trocasse o curativo de Jesse. Ela disse que nós poderíamos ficar dentro do quarto se quiséssemos, mas eu resolvi aproveitar a oportunidade para falar com Gina em particular.
- Ele pode ficar lá em casa por uns tempos. – ela sugeriu.
- Seus pais nunca permitiriam isso, Gina.
- Meus pais não passam tempo suficiente em casa para ter algum controle sobre o que acontece por lá. – ela retrucou, mas não havia nenhum tom de acusação em sua voz. Para ela aquilo era apenas um fato qualquer – E, além do mais, eles fazem todas as minhas vontades. Nós temos dois quartos de hóspedes que nunca são usados. Ele pode ficar por lá enquanto a gente pensa em alguma solução.
- Eu não sei se ele vai concordar. – na verdade, eu tinha quase certeza que ele não concordaria.
- Não é como se ele tivesse muitas opções. Na sua casa ele não pode ficar.
- De jeito nenhum – bem que eu queria, mas minha mãe definitivamente não permitiria. E pensar que ele passou tanto tempo morando lá.
- Então está resolvido? Ele vai lá pra casa quando sair do hospital, certo?
- Por mim, tudo bem. Resta saber se ele vai aceitar.
- Faz o seguinte – Gina começou e eu senti que vinha bomba por aí. Seu olhar era malicioso – Você fala isso para ele como algo concreto sem deixar abertura para escolhas. Quando ele começar a reclamar você avisa para ele que Paul vai se mudar para Carmel. Num instante ele esquece a primeira parte da conversa.
Gina é perversa. Gina é muito perversa. Mas talvez eu seja um pouco pior do que ela porque eu achei uma boa idéia.
Depois que Alicia saiu do quarto eu entrei arrastando Gina comigo que, repentinamente, tinha resolvido comprar algo para beber na lanchonete do hospital. Como assim ela dava as idéias depois queria fugir? Nem pensar.
A primeira coisa que eu fiz quando entrei no quarto foi me aproximar da cama de Jesse e beijar seus lábios com ternura. Tinha que preparar o terreno antes de jogar a bomba.
Gina sentou no sofá do quarto e tirou a Cosmopolitan da bolsa, se escondendo atrás dela logo em seguida. Eu fiquei na dúvida se puxaria uma cadeira para ficar ao lado da cama dele ou sentaria na cama junto com ele. A segunda opção se tornou a única possível quando ele começou a acariciar minhas costas por cima da blusa, ainda sem interromper o beijo. Ok. Ele está calmo agora. Era a hora.
Sentei na cama ao lado dele e peguei sua mão na minha.
- Então – comecei – daqui a dois dias você vai receber alta.
- Sim. – ele não estava dando muita importância a esse assunto e acariciava minha mão com o polegar.
- Eu estava conversando com Gina agora a pouco sobre isso e nós encontramos uma solução perfeita para o seu problema.
- Eu tenho um problema? – ele perguntou com o cenho franzido olhando para mim e para Gina que continuava escondida atrás da revista.
- Não exatamente um problema. Pelo menos não é mais.
- E o que é? – ele perguntou quanto viu que eu hesitava em continuar.
Lembrei do que Gina falou: não dar opções para ele.
- Quando você sair daqui você vai morar com Gina na casa dela. Eles têm um quarto de hóspedes a sua espera e você ficará por lá até encontrarmos um lugar permanente para você ficar. – falei tudo rápido para que ele não me interrompesse.
No começo ele ficou sério como se tentasse entender o significado daquelas palavras. Depois sua expressão se tornou cética, talvez pensando que aquilo fosse uma brincadeira.
- De forma alguma. – foi tudo que ele falou e voltou a acariciar minha mão, dando o assunto por encerrado.
Ele estava muito enganado se pensava que seria tão fácil assim se livrar disso.
- É a melhor maneira, Jesse.
- Claro que não, Suzannah, eu não posso morar com Gina.
- Posso saber por que não? – eu me afastei dele para observá-lo melhor e cruzei os braços na altura dos seios numa atitude clara de desafio.
- Em primeiro lugar, porque ela é mulher.
- Não é como se você fosse atacá-la na calada da noite, certo?
Eu ouvi Gina rir por trás da revista, mas Jesse a ignorou.
- Em segundo lugar – ele continuou, dessa vez um tanto irritado por conta do meu comentário – os pais dela jamais consentiriam com uma loucura dessas. Eles sequer me conhecem.
- Não por isso – Gina finalmente resolveu me ajudar – Eles não vão se incomodar. E eu não falo isso da boca para fora. É um fato – então ela voltou a sumir atrás da revista.
Eu aproveitei o momento que Jesse ficara sem palavras e voltei a sentar ao seu lado pegando sua mão na minha.
- Resolvido esse problema, eu...
- Não está nada resolvido Suzannah. Isso não é certo. – sua voz não estava mais irritada, mas ainda era firme.
- Resolvido esse problema – eu repeti ignorando-o –, tem uma coisinha que eu preciso te contar.
- Nós ainda não terminamos de falar sobre isso.
- Terminamos sim. Então... Advinha quem está se mudando definitivamente para Carmel? – eu perguntei, mas não dei chances dele responder. – Paul Slater.
Eu senti seu corpo ficar rígido ao meu lado e evitei olhar para ele. Cheguei até a prender a respiração esperando sua reação.
- Por que ele está vindo? – ele perguntou com a voz contida. Seu maxilar estava tenso.
- Ele quer te conhecer.
E lá estava a expressão cética de novo no rosto dele.
- Claro. – ele resmungou com ironia.
- É sério, Jesse. – eu não gostava de ver Jesse com ciúmes, ainda mais quando não havia motivos para isso, mas pelo menos ele não estava mais falando sobre ir para a casa de Gina – Paul sempre estudou bastante sobre mediadores e deslocadores e você tem que concordar que aqui em Carmel estão acontecendo muitas coisas sobre isso. Afinal, não é todo dia que um fantasma volta à vida depois de cento e cinqüenta anos.
- É impressão minha ou você está defendendo ele? – Jesse perguntou com a sobrancelha arqueada.
- Eu não estou defendendo ninguém. Só estou te explicando como Paul está vendo tudo. Ele está curioso para te conhecer.
- Mas eu não vejo motivos que o faça se mudar. Ele poderia muito bem passar alguns dias e depois voltar para a casa dele.
- É uma decisão dele.
- E você não parece muito incomodada com isso.
- Não inventa de me atacar agora. – eu estava começando a me irritar com a desconfiança dele – Eu não posso proibir Paul de viver onde ele quiser. E além do mais, ele está nos ajudando pra valer. E sem pedir nada em troca.
- Por enquanto.
- Jesse, pára com isso.
- Desculpe, Suzannah – sua voz estava tão irritada quanto a minha –, mas eu não vejo cabimento para isso. Ele flertou com você quando esteve aqui e te beijou a força. Como você quer que eu aceite bem essa mudança? – "Flertou"? Nossa. Eu definitivamente preciso ensinar algumas expressões modernas para Jesse. – Ou você acha que ele mudou o comportamento da água para o vinho?
- Mudando ou não, Jesse, eu estou com você. Eu amo você, ok?
- Ok, mas se eu o ver se engraçando para você novamente eu não respondo pelos meus atos.
- Sim senhor! – eu bati continência para ele e me acomodei ao seu lado novamente.
Sabia que aquele assunto ainda iria render muito. Principalmente quando Paul chegasse à cidade.
A tarde passou rápido e o plano de Gina realmente deu certo. Jesse não mencionou mais nenhuma vez o assunto da sua mudança para a casa dela. E tampouco citou o nome de Paul novamente. Ficamos conversando futilidades, às vezes assistindo alguma coisa na televisão. Stephanie apareceu um pouco depois, mas só para bagunçar a lavanderia. De acordo com ela – e Jesse também concordou – era muito divertido fazer lençóis voarem a esmo. No final da tarde Gina voltou para a casa dela e levou Stephanie junto.
Me surpreendi quando retornei do jantar – em companhia de Alicia de novo – e encontrei minha mãe no quarto conversando com Jesse.
- Oi Suzinha – ela me cumprimentou e se levantou para me abraçar assim que entrei no quarto.
- Oi mãe, o que a senhora faz aqui?
- Oras, vim visitá-lo. – ela respondeu apontando para Jesse com a cabeça – e aproveitar para rever minha filhinha. Você não apareceu em casa hoje.
- Eu fui, mas não tinha ninguém. – é claro que eu omiti o fato de que eu tinha torcido para a casa estar vazia.
- Você vai dormir aqui de novo?
- Sim.
- Hum. – ela parecia querer falar mais alguma coisa, mas se conteve – Você já jantou?
- Já. Acabei de voltar da lanchonete.
- Eu ainda não jantei. Vim direto do trabalho. – mais uma pausa com ela decidindo se falava ou não – Você pode me fazer companhia?
O ruim de pedidos de mãe é que não se pode recusar. Quer dizer, até pode, mas fica um peso na consciência.
- Claro mãe. Vai indo que eu vou escovar os dentes e já te alcanço.
Porque antes eu queria saber o que minha mãe tinha falado com Jesse.
- Desembucha. – eu falei assim que minha mãe saiu e eu ouvi seus passos se distanciando no corredor.
- Desembucha? Ah, sim. Soltar o verbo. Falar. – ele repetiu, lembrando da "tradução" que eu tinha lhe dado. – Falar o quê?
- Como o quê? O que você conversou com a minha mãe.
- Ela só queria saber como eu estava. – eu poderia até ter acreditado se ele não tivesse desviado o olhar na hora.
- Ela pode até ter vindo fazer isso, mas não só isso. – eu me aproximei mais da cama e cruzei os braços sobre os seios – Vai, fala!
- Ela queria saber se eu estava melhor e quando saía do hospital. E também saber um pouco mais sobre mim.
- Mas ela já conhece toda a sua história.
- Não foi sobre a minha pseudo-história que ela veio perguntar. Ela estava tentando decifrar o meu caráter.
- Como é que é? – eu perguntei rindo.
- Resumindo: ela queria saber se eu sou bom para você. – ele falou dando de ombros.
- Mas quem tem que saber isso sou eu.
- Ela é sua mãe, Suzannah. É normal. E, além do nosso namoro não ter começado de forma muito tradicional, eu sou o seu primeiro namorado.
- Primeiro e único – eu completei – O que mais ela perguntou?
- Coisas que toda mãe pergunta para o namorado da filha.
- Como o quê, por exemplo?
- Se eu amo você...
- Ela já sabe essa resposta.
- Se eu te trato bem...
- Ela não está achando que você é um bruto ou algo do tipo, está?
- Eu não acho que ela esteja preocupada com isso. – ele respondeu com um sorriso – Ela queria saber se eu te respeito como mulher. Se eu conheço os limites.
- Ela queria saber se nós já fizemos sexo? – eu perguntei arregalando os olhos.
- Ela não perguntou com essas palavras, mas sim. Era isso que ela queria saber.
- E o que você disse? – eu duvidava que Jesse tivesse tido coragem para responder a essa pergunta.
- Eu disse que jamais desrespeitaria você.
- Certo, mas você disse que a gente já tinha feito sexo? – eu insisti me aproximando mais.
- Como eu disse, hermosa, ela não fez essa pergunta específica.
- Que ótimo. – eu bufei irritada – Então significa que ela deixou para ser específica comigo.
- E o que você vai dizer?
- Eu não sei, quer dizer, acho que a verdade. Eu já menti demais para ela.
- Eu também não me sinto confortável por mentir tanto para a sua família. – ele admitiu pesaroso – Mas você não acha que ela vai reagir de forma não muito positiva a isso?
- É provável, mas não importa. Uma hora ela se acostuma. Bem, vou lá enfrentar a fera agora.
- Não fale assim da sua mãe, Suzannah – ele me repreendeu sério – Ela só quer seu bem.
- É, eu sei. – eu me inclinei para beijar seus lábios de leve e me afastei indo em direção à porta – Até daqui a pouco.
Quando cheguei à lanchonete minha mãe já estava sentada à mesa com uma bandeja à sua frente.
- Oi mãe, desculpa a demora.
- Sem problemas.
- Como a senhora está? – eu perguntei enquanto sentava a sua frente.
- Bem. – ela respondeu antes de morder o sanduíche – Com saudades.
Chantagem emocional. Minha mãe era muito boa nisso.
- Eu só passei um dia fora, mãe.
- Eu sei, mas eu não acho que eu vá te ver em casa enquanto ele estiver internado, estou certa?
- Acho que sim. – eu admiti como se pedisse desculpas.
- Eu não estou reclamando. – ela se apressou a falar – Eu sei o quanto ele é importante para você, filhinha. Eu só te peço para você não esquecer de todo o resto.
- Eu não esqueci, mãe. É só que nós passamos tanto tempo separados que eu...
- Eu sei – ela me interrompeu gentilmente – Eu sei. E é só por isso que eu não estou te pedindo para ir para casa agora. Você sofreu demais durante esse mês e eu fico muito feliz de te ver sorrindo de novo. – ela me encarava com o olhar maternal – E pensar que um rapaz causou tantas mudanças em você. – era engraçado ouvir minha mãe chamando Jesse de rapaz – Mas ele parece ser uma boa pessoa.
- Ele é. – minha voz estava terna.
- Mas ele não é velho demais para você?
Ah, se ela soubesse.
- Ele tem vinte anos mãe. São só três anos de diferença.
- É, mas você sabe como são os rapazes nessa idade. Olhe só para os seus irmãos.
- A senhora não está comparando Jesse com aqueles dois, está? Até por que eles são mais novos do que Jesse e ainda têm idade mental de um adolescente de 14 anos.
- Bem, talvez Jesse seja um pouco mais maduro do que eles, mas...
- Um pouco, mãe? – eu perguntei com a sobrancelha arqueada.
- Ok, Jesse é bastante maduro para a idade dele, até porque ele passou por muita coisa – ela não fazia idéia do quanto. Mais de cento e cinqüenta anos de experiências de vida –, mas ainda assim, ele é homem. E os rapazes dessa idade não se contentam com as mesmas coisas que satisfazem as jovens da sua idade.
Começou.
- Como assim, mãe? – eu me fiz de desentendida.
Ela parecia determinada a ter aquela conversa, embora parecesse ligeiramente constrangida.
- Ah, Suzinha, nessa idade os homens estão com os hormônios à flor da pele. Só beijar não é suficiente para eles.
- A senhora não vai começar a falar de sexo agora, vai?
Ela se engasgou com o pedaço do sanduíche de queijo que tinha acabado de morder. Depois de beber quase todo o refrigerante ela me encarou séria.
- Há algumas coisas que você precisa saber, então...
- Mãe – eu a interrompi tentando conter um sorriso – Eu já sei tudo sobre sexo desde os meus quinze anos.
- O quê? Como?
- Eu tinha aula de educação sexual na outra escola e a televisão é uma excelente fonte de informações.
- Bem, se é assim então nós podemos pular essa parte, mas ainda assim você precisa aprender a impor os seus limites nessa relação. Você tem que estar ciente que não precisa dizer sim enquanto não se sentir preparada para isso. Não é só porque ele...
- Mãe – eu a interrompi novamente, ansiosa para encerrar logo aquela conversa – Eu já disse sim para ele.
Ela não estava mais mastigando nada, mas ainda assim conseguiu se engasgar. Eu tive que me levantar e bater nas suas costas quando ela começou a ficar roxa. Pensei até que ia ter que chamar um médico. Ainda bem que não seria tão difícil conseguir um ali. Mas ela finalmente voltou a respirar normalmente e o sangue voltou a circular pelo corpo.
Sentei na minha cadeira de frente para ela e esperei a bronca. E esperei. Ela parecia ter dificuldade para articular alguma frase. Duas vezes ela abriu a boca para falar algo, mas fechava logo em seguida sem emitir nenhum som. Ela só conseguiu falar depois de respirar fundo duas vezes.
- Vocês já...? – ela perguntou ainda sem conseguir formular uma frase inteira.
Ok. Não foi bem uma pergunta completa, mas o que vale é a intenção.
- Sim.
- Você é louca, Suzannah? – começou o surto – Você é muito jovem! Como você foi cair em uma armadilha dessas. E escondido ainda por cima. Esse rapaz conseguiu virar a sua cabeça totalmente. Onde já se viu uma coisa dessas! E ele me disse que respeitava você. Sei! É esse o respeito que ele conhece?
Eu estava deixando-a desabafar à vontade, mas ela insultar Jesse eu não permitiria.
- Jesse nunca me desrespeitou. – eu falei por entre os dentes, não querendo ser grossa com a minha própria mãe. – Nós transamos sim, mas não apenas por que ele quis. Eu quis.
- Suzannah!
- Isso mesmo, mãe. Eu queria Jesse de todas as formas. Ele sempre me respeitou muito. E no começo ele chegou a me rejeitar várias vezes, justamente porque não queria me forçar a nada, mas era algo inevitável. Nós nos sentimos atraídos pelo outro desde o primeiro dia que nos vimos. Só um toque foi o suficiente para percebermos isso.
Eu sentia meu rosto quente por estar falando essas coisas para a minha mãe, mas eu não podia deixá-la pensando que Jesse era o lobo mau que tinha seduzido a chapeuzinho vermelho. E eu nem me importava de achar que a pervertida da história era eu.
- Você vai para casa comigo agora mesmo mocinha! – seu tom de voz era autoritário e não admitia que eu contestasse.
- Como é?
- É isso mesmo. Arrume suas coisas que você não vai dormir aqui essa noite.
Ah, ela estava muito enganada se achava que eu ficaria na minha e aceitaria tudo numa boa.
- E eu posso saber por quê? – eu me recostei na cadeira e cruzei os braços sobre os seios, totalmente relaxada.
Mas era só pose. Por dentro eu estava quase tendo uma crise nervosa. Se minha mãe me obrigasse a ir para casa, eu não teria escolha.
- Como por quê? Eu não vou permitir que você durma com ele depois de descobrir uma coisa dessas.
- A senhora não está pensando que nós vamos fazer sexo aqui, está? Porque, caso a senhora não tenha reparado, isso aqui é um hospital e Jesse está internado aqui. Ele está machucado.
Tudo bem que isso não nos impedia de dar alguns amassos, mas sexo não ia rolar.
- Ainda assim, Suze, eu quero que você venha pra casa comigo.
Eu não queria ir. Eu não podia deixar Jesse sozinho. Precisava pensar em alguma coisa que fizesse ela enxergar a realidade.
- Mãe, a senhora é uma repórter de televisão atualizada e que lida com muita coisa importante, então a senhora deveria saber que impedir as pessoas de fazer alguma coisa, só faz com que nós desejemos mais aquela coisa.
- Suzannah...
- Eu não vou fazer nada demais com Jesse aqui nesse hospital, mãe. Mas eu não vou mudar o meu relacionamento com ele. Nós nos amamos e vai ser assim para sempre. O fato de termos iniciado a nossa vida sexual não muda nada. E a senhora tentar impedir que fiquemos juntos não vai adiantar de nada.
- Eu não quero impedir o namoro de vocês.
- Então, por que...?
- Ok, Suze, você venceu, pode ficar aqui. – seria ruim eu dar um pulo agora e gritar "viva!"? Melhor me controlar – Pelo menos vocês estão usando camisinha?
Epa. Jesse fantasma não precisava de camisinha. Agora seria diferente. Tudo bem que a gente se amava e ficaríamos juntos para sempre, mas uma gravidez não fazia parte dos meus planos.
- Claro, mãe. – o que mais eu poderia dizer? Que não? Que nunca tinha sido necessário? Não mesmo!
Mas de agora em diante eu usaria. Sem dúvidas. Nada de gravidez!
- Certo. E eu vou marcar uma ginecologista para você. – ela falou de repente.
- Ok. – eu é que não ia reclamar. Só o fato dela ter aceitado a situação já era muito bom. Ela poderia me levar pra dez ginecologistas que eu não iria me opor.
- E para Gina também.
- Como é?
- É claro! Se você já está fazendo essas coisas eu tenho certeza que Gina também está. – minha mãe deu para adivinhar as coisas agora? – Jake não é nenhum santo.
- Então não seria certo levar ele a um urologista? – afinal, ele era o filho e não Gina.
- Eu vou falar para Andy levá-lo. Ele nunca iria comigo.
- Mas Gina...
- Eu sei que ela não é minha filha, mas eu quero levá-la. Os pais dela estão sempre viajando. Alguém tem que cuidar dela. E eu vou fazer isso, quer ela queira ou não.
Isso seria muito estranho, mas eu não acho que Gina iria se opor. Seria bom para nós duas.
Depois disso, nós ficamos apenas falando bobagens até ela ir embora.
Jesse achou divertida a reação da minha mãe. Eu também achei. Não na hora, mas depois que eu contei para ele como tinha sido eu me peguei rindo.
Assim como ontem, nós dormimos juntos, embora essa noite as coisas tenham sido um pouco mais quentes que na noite anterior. Parecia que quanto mais ele se recuperava, mais ousado ele ficava. E eu ainda tinha que me controlar para não ceder ao impulso de atacá-lo ali mesmo. Mas a sensação de ter suas mãos tocando meu corpo me aquecia por inteiro e seu cheiro me deixava inebriada. Do jeito que as coisas andavam entre nós, eu precisaria comprar as camisinhas o quanto antes.
- Eu senti tanto a sua falta – ele sussurrou com os lábios roçando no meu pescoço.
Suas mãos deslizaram pelas minhas costas até as minhas nádegas e me puxaram para mais perto até que não houvesse espaço algum entre nossos corpos. Foi impossível conter o gemido quando eu senti sua excitação roçando na minha coxa.
Eu fechei os olhos e me concentrei apenas na delícia de ter Jesse colado às minhas formas, recusando-me a perguntar a mim mesma como poderia me permitir me afastar dele.
- Jesse... – eu tentei falar, mas tudo que saiu foi um sussurro.
- O que foi? – ele perguntou com a voz rouca, ainda beijando meu pescoço.
Eu ia dizer que ele estava machucado, que aquilo era um hospital, enfim, o que eu tinha dito na noite anterior, mas ele escorregou a mão por baixo da blusa do pijama e começou a deslizar os dedos quentes sobre minha pele nua, me deixando sem palavras.
Minha respiração estava ofegante e eu já não oferecia nenhuma resistência. E Jesse, sentindo isso, passeou com as mãos pelas minhas curvas, subindo mais e tocando meus seios. O toque de Jesse era como chamas que queimavam todo meu corpo, tocando meus mamilos nus e intumescidos. As pontas dos dedos explorando-os eram um desafio. Um desafio à minha sanidade.
- Jesse... – eu sussurrei de novo, dessa vez misturado a um gemido.
- Adoro o jeito como fala meu nome. – sua voz estava rouca e baixa e o hálito dele aquecia minha pele – E adoro as coisas que você provoca em mim. E também adoro o que sinto quando a afago. Amo a maneira como seus seios respondem às minhas carícias.
Ok. Eu não sou de ferro. Como eu poderia resistir a esse homem? Era impossível. Eu tentei ser forte. Juro que tentei. Mas até que não tinha sido tão ruim descobrir que era fraca demais para resistir a ele.
Eu precisava dele. Precisava sentir seu corpo másculo de encontro ao meu sem barreiras. Precisava tocá-lo assim como ele me tocava. Sua mão continuava a massagear meus seios, me fazendo gemer baixinho. Eu também queria proporcionar aquele prazer para ele.
Engolindo toda a vergonha que eu poderia sentir, eu deslizei minha mão até o seu quadril e toquei seu membro rijo por cima da calça do pijama. Seu corpo inteiro se contraiu diante do meu toque e sua mão que estava na minha nuca me puxou para um beijo voraz abafando um gemido rouco que brotou de sua garganta.
Ele pressionou mais seu corpo contra o meu fazendo com que minha mão se apertasse ainda mais em seu membro. Num único movimento ele estava em cima de mim, sua mão deslizando para minha coxa, fazendo com que minhas pernas envolvessem seu quadril. Nessa hora seu corpo ficou imóvel e ele soltou um gemido. Mas não era de prazer. Era de dor.
- Ai, que droga, eu te machuquei. – eu murmurei tirando minha mão do seu corpo.
- Não – sua voz estava fraca e seu maxilar estava rígido – Eu me machuquei. Forcei demais meu corpo.
- Desculpa.
- Não foi culpa sua, hermosa – ele se inclinou novamente sobre mim e me beijou.
Em segundos o beijo se intensificou e suas mãos voltaram a deslizar pelo meu corpo, mas eu não poderia fazer aquilo com ele.
- Jesse, não. – eu pedi e ergui minhas mãos até seus ombros para afastá-lo, mas ele não recuou. Continuou a acariciar meu corpo, deslizando a mão até minha coxa e apertando. – Jesse, por favor. É melhor não.
Ele suspirou pesadamente e, mesmo contra a vontade, voltou para o seu lugar na cama. Seu peito subia e descia rápido enquanto ele tentava normalizar a respiração. Eu estava na mesma situação.
- Desculpa – eu pedi me apoiando no cotovelo para encará-lo –, mas eu não quero que você se machuque mais.
- Eu sei – ele ergueu a mão e acariciou meu rosto gentilmente – Eu acho que perdi o controle.
- Nós dois perdemos. – seu toque no meu rosto, mesmo suave, fazia meu corpo inteiro clamar pelo dele – Mas nós teremos muito tempo quando você sair daqui.
- Eu não vejo a hora!
Nós dois rimos e eu me aconcheguei ao seu corpo, sentindo seus braços me envolverem num abraço. Não demorei muito para dormir.
E quando acordei no dia seguinte a primeira coisa que eu pensei foi: hoje Paul chega a Carmel.
Gina me ligou no começo da manhã para avisar que estava indo buscá-lo no aeroporto e, pelo que ela disse, ele queria ir direto ao hospital para conhecer Jesse. Eu estava muito receosa por conta desse encontro. Não sabia como Jesse iria reagir diante das atitudes de Paul. Tampouco sabia o que Paul poderia fazer. Esperava mesmo que ele tivesse superado aquela atração absurda que ele parecia sentir por mim.
Jesse passara a manhã inteira de mau-humor e quando Gina ligou para mim novamente dizendo que já estava no estacionamento do hospital, ele se calou por completo e passou a contemplar a televisão desligada.
Eu me levantei do sofá onde estivera folheando uma revista, mas antes mesmo que pudesse chegar à porta Jesse me chamou.
- Aonde você vai? – ele perguntou por entre os dentes.
- Vou esperar Gina e Paul.
- Não pode esperar aqui no quarto?
Me controlei para não dar nenhuma resposta desaforada. O que ele pensava que faria? Que eu ia me agarrar com Paul no corredor?
- Posso. – eu murmurei e fui para perto da cama. Me debrucei sobre ele e beijei sua testa. Ele pareceu relaxar um pouco depois disso, mas ficou rígido novamente quando ouvimos uma batida na porta e Gina entrou em seguida, acompanhada de Paul.
- Oi, Paul. – eu o cumprimentei sem sair do lado de Jesse.
- Olá, Suze. Quanto tempo. – ele deu um sorriso exibindo seus dentes brancos e se adiantou alguns passos na minha direção – Não ganho um abraço?
