CAPÍTULO XXVI
As naus piratas se aproximavam cuidadosamente da fileira de rochedos, tinham que manter uma distância segura da entrada de Tártaro até que Silver lhes fizesse o sinal. Elizabeth estava na proa do Imperatriz observando o horizonte, sob o céu escuro, através de sua luneta quando Will se aproximou silenciosamente, agarrando-a pela cintura.
- Alguma novidade? - sussurrou próximo ao seu ouvido, fazendo-a esboçar um leve sorriso.
- Ainda não – respondeu prontamente, sem virar para encará-lo, e devolvendo a luneta para a algibeira, completou: - Vamos confiar no poder de persuasão de Silver e dar-lhe o tempo necessário para que consiga o que viemos fazer.
- A senhora é quem manda, capitã - gracejou ao seu ouvido, arrepiando-a e obtendo o efeito desejado. Encarava agora os doces olhos da esposa, e com um sorriso maroto, ponderou: - Sabe, toda a vez que me vejo contra o céu escuro e de dentro de um navio, sinto como na primeira vez que a vi... Num sonho.
- Nosso sonho se tornou realidade há muito tempo, capitão – Lizzie afastou os fios de cabelo loiros do marido, apreciando o rosto queimado pelo sol – Eu tive sorte de encontrá-lo, e devo isso a Jack Sparrow.
- Como deve isso a Jack? - contrapôs Will confuso.
- Se Barbossa não tivesse se amotinado contra ele, lhe roubado o Pérola, e partido a sua procura, eu jamais teria a possibilidade de resgatá-lo do mar naquela noite... - O sorriso de Elizabeth alargou-se, e ela completou quase num sussurro, ao brincar com os botões da blusa dele: - Devemos tudo o que temos a Jack e Amira, e vamos resgatá-los.
Will a envolveu em seus braços e deslizando a mão pelo cabelo da esposa, murmurou:
- Tão certo quanto eu a amo.
Elizabeth nada disse, apenas se aninhou entre os braços fortes dele, fechando os olhos. O dia que iria raiar em algumas horas seria definitivo.
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- O que está fazendo? - perguntou-lhe sonolento, entreabrindo os olhos e fitando-a por trás de um sorriso cínico.
Amira não respondeu, estava recostada na cadeira com as pernas próximas ao rosto, a camisa sobre seu corpo suspensa até os quadris revelando as formas bem torneadas, e o olhar perdido em algo que não se via. O sorriso de Jack se alargou ainda mais ao analisar a cena, era realmente tentador vê-la assim, e fazendo uma leve expressão de deleite, tornou a falar:
- Bonita camisa – gracejou, inclinando a cabeça para o lado e mordendo o lábio inferior -, se quiser pode ficar com ela como lembrança. Assenta melhor em você do que em mim, pelo menos vista daqui. - Ele deixou seu melhor sorriso maroto crispar em seus lábios, e sem desviar os olhos da figura da esposa, a viu apoiar a testa sobre as pernas e envolvê-las com os braços, virando-lhe o rosto e sorrindo.
- Você não muda, não é? - ela voltou à posição normal, deixando que a camisa cobrisse mais o corpo, e os cabelos caíssem sobre seus ombros em cascatas. – Ah, Jack, gostaria de ser como você e me adaptar facilmente a qualquer situação.
- Acha mesmo que sou tão insensível assim? - desfez o sorriso.
Amira admirou-o por algum tempo e pondo-se de pé, andou vagarosamente até ele, livrando-se da camisa no meio do caminho. Os olhos de Jack se arregalaram e com um novo sorriso cínico, disse-lhe:
- Impossível ser indiferente a você, princesa.
- Isso é positivamente um elogio capcioso – retrucou mordaz, levantando a ponta do lençol e deitando-se ao lado dele – Não devia acreditar em nada do que me diz...
Foi Jack quem desta vez ficou em silêncio, passando a mão cheia de anéis sobre o rosto dela, enquanto a linha de seus lábios endurecia paulatinamente. Amira segurou a mão dele entre a sua, entrelaçando seus dedos aos dele, e trouxe-a até os lábios beijando-a carinhosamente.
- Se eu tivesse que repetir tudo de novo para estar aqui com você, eu o faria... - Os olhos dela marejaram. – Nunca pensei que um dia seria sua esposa, mas agora que sou, posso dizer que essa foi a melhor de nossas aventuras.
Os olhos de Jack se tornaram escuros como a noite, e ele escondeu seu rosto sobre o colo dela. Ao passar os braços entorno do corpo da esposa, apertando-a contra si, murmurou:
- Eu jamais sonhei estar assim com alguém – a voz dele era baixa, e em nada lembrava o capitão irreverente do Pérola -, e você fez tudo isso acontecer de uma forma tão especial, que eu a amaria de qualquer jeito, Amie. - Ele a encarou em castanhos avermelhados. – E se eu lhe dissesse que estou perdido?
Assustada, ela o fitou, jamais pensou que Jack admitiria isso a si mesmo, mas ele não se importou e prosseguiu no mesmo tom:
- Se eu admitisse para você que não sei o que vou dizer ao nosso filho? - Uma lágrima escorreu. – Sabendo que amanhã e depois de amanhã, não vai haver nada! Tudo termina aqui... - ele baixou os olhos. – Eu seria menos capitão ou pior pirata?
Os olhos se ergueram encontrando os dela também úmidos. Suavemente, Amira passou a mão pelo rosto dele, e pousando os dedos sobre os lábios a sua frente, soprou-lhe:
- Nunca houve um capitão melhor no mundo, Jack – sorriu-lhe entre as lágrimas. – Por isso eu o amo tanto, por isso você vai continuar a fazer o que sabe fazer melhor do que ninguém. - Ela levou seus lábios próximos aos dele, e completou: - Singrar esses mares.
Jack a fitou com carinho e tocando-lhe os lábios com os seus, deitou-a sobre os lençóis, acarinhando-a. Enquanto a beijava ardorosamente, murmurou:
- Venha nascer do sol, nem mesmo você será capaz de modificar isso...
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Poseidon olhava atentamente para o irmão. Hades não era o tipo de deus em que se poderia confiar cegamente, mas se queria que seu plano seguisse exatamente igual ao que idealizara, precisaria de seu apoio. Os cabelos de um vermelho intenso, a roupa preta e os olhos de um amarelo profundo, contrastavam com o tom acinzentado de sua pele. Ao contrário de Poseidon, que exibia um porte viril, Hades era magro, mas igualava-se em altura ao outro. Seu olhar inquieto já vistoriara várias vezes o salão a sua volta, e esse simples gesto começara a impacientar Poseidon, sentia-se incomodado com o modo taciturno de Hades.
- O que quer conosco? - perguntou Hades mal humorado, e com um falso sorriso concluiu: - Espero que não seja nada relacionado com Calypso. Eu não abro mão da punição dela.
- Acalme-se, meu caro – disse-lhe calmo, e com a voz macia acrescentou: - Porque nada direi até que Zeus chegue.
Não precisou mais que alguns minutos para que uma nuvem esbranquiçada revelasse-lhes a presença do deus com seus profundos olhos azuis, e uma expressão serena que lembrava, em muito, a do irmão marítimo. Juntando-se aos outros dois, cumprimento-os:
- Hades - virou-se para o do mar: - Poseidon – e sorrindo, completou: - O que requeria tanta urgência? - Olhou de um para outro e gargalhou, sem dar chance de resposta: - Eu quase fui banido do Olympo por Hera quando disse que me ausentaria por algumas horas. – Cutucou Hades com o cotovelo, confidenciando-lhe: - Ela achou que era uma desculpa para uma boa caçada...
Hades revirou os olhos, bufando, e Zeus deu de ombros, fitando Poseidon.
- Bem, pela sua cara eu diria que o assunto é sério - ponderou o deus. – Vamos, desembucha logo. O que quer de nós?
- Apoio – respondeu prontamente o Rei dos mares.
- Como assim apoio? - contrapôs Hades irritado. – Aonde quer chegar com esse pedido? Apoio é uma definição de favor muito ampla quando se trata de deuses, e não é o tipo de poder que eu fique delegando por aí.
- Você está sempre de mau humor, Hades – retrucou Zeus. – Deixe que Poseidon explique porque nos pede isso.
- É que você não sabe as notícias mais recentes do que seu irmão andou fazendo... - ponderou Hades.
- Não sei é? - Arqueou a sobrancelha ao fitar Poseidon.
Vendo-se obrigado a esclarecer certos pontos, Poseidon contou o que acontecera com Calypso, e posteriormente, como a encarcerara no mar, de onde nunca deveria ter saído. E por fim, a ajuda de Amira e dos outros nesse acontecimento.
- Bela história – ironizou Zeus - e se não me engano, nos leva ao que está prestes a nos relatar... Acertei?
- Sim – concordou Poseidon –, Éris resolveu interferir na vida de minha neta por não concordar que ela possa viver como uma humana qualquer.
- Eu não posso dizer que ela está errada – interviu Zeus. – Você, sabe, deus é deus.
- Ela escolheu o seu destino – retrucou Poseidon irritado –, era o mínimo que eu o poderia fazer por ela depois de como Calypso a tratou.
- Fez o errado – rosnou Hades. – Ela tinha que estar no mar.
- Isso eu decido – bradou Poseidon, encarando-o em azuis cintilantes.
- Senhores – interviu uma vez mais Zeus –, é melhor discutirmos o que ainda estar por vir. Continue, Poseidon. - ordenou.
- Éris levou Jack, Amira e o tal Barbossa até um século bem anterior ao nosso, e está fazendo de tudo para se apoderar do Livro da Paz.
- Ela não tem chance nenhuma – desdenhou Hades. – Circe o protege melhor do que ninguém.
- Protegia – rebateu Poseidon.
- Como assim, protegia? - inquiriu preocupado Zeus.
- Ela o deu a Amira – explicou Poseidon. – Desculpem ter tomado essa decisão sozinho, manos, mas era um questão de vida ou morte.
- Para quem? - rebateu ríspido Hades. – Sua neta ou o maridinho dela?
- Para a Humanidade – retrucou Poseidon, a um passo de fechar as mãos em torno do pescoço do irmão ruivo. – A sua antiga protegida está gerando um caos no século doze, e a menos que tomemos uma providência enérgica, ela abalará toda história dos humanos.
- Isso é impossível! - bradou Zeus. – Inaceitável! Existe um equilíbrio que deve ser respeitado.
- Ele será reparado assim que Amira destruir o livro – afirmou Poseidon.
- E como ela fará isso? - ironizou Hades. – Vai amassá-lo com as mãos? Rasgá-los com todos os dentes?
- Não... - disse baixo o deus. – Eu lhe dei minha marca.
- Você a tornou uma mortal com poder de voltar a ser deusa a hora que bem entender? - surpreendeu-se Hades. – Mas que irmão benevolente... Qual a próxima surpresa?
- Cale-se, Hades – ordenou Zeus, encarando-o profundamente, e virando-se para Poseidon, completou: - Por que fez isso?
- Achei que ela poderia precisar de ajuda no futuro.
- E aí, você interviria na história dos humanos? - rebateu frio o do Olympo. – Sabe que não pode tomar uma decisão desta sozinho.
- O mar é meu domínio, e ela é minha neta, Zeus – bradou Poseidon enfrentando em azuis o irmão. - Não podia lhe negar minha proteção, como vocês mesmos alegaram. A decisão que ela tomou a colocaria em risco, e eu não ia ser hipócrita a ponto de deixá-la pagar por um erro de Calypso... - correu os olhos de um para outro. – Ou era isso que iam sugerir?
- Já pensou que essa poderia não ser a ordem correta das coisas? - interrompeu-o Zeus.
- Já pensou o quanto você sempre interveio a favor de Hércules? – contrapôs Hades fazendo Poseidon o fitá-lo desconfiado, e sem dar atenção a isso, prosseguiu: - Infelizmente, mano, você não pode falar sobre a ordem correta que as coisas deveriam seguir. Sempre estamos tentando mudá-la – sorriu.
- Contudo, se está nos pedindo ajuda, terá que seguir corretamente nossas leis de agora em diante - intercedeu Zeus, num tom calmo. - Se sua neta fizer uso de seus poderes para destruir o livro, terá de ficar no mar.
- Eu concordo – ironizou Hades. – Ou vai ficar igual a mãe, sem limites!
- Não fale assim de minha neta! - esbravejou Poseidon.
- Eu falo o que acho – Hades o encarou em amarelos intensos. – Ela não é diferente de nós, terá que aceitar ser uma deusa.
Um brilho satisfeito cruzou o olhar do Rei do mar e, num movimento rápido ele perguntou:
- Então, estão dispostos a me ajudar?
Ambos os deuses assentiram com a cabeça, mas Hades contrapôs:
- Como castigará Éris?
- Circe me ajudou nisso também, tramou uma rede de ouro capaz de prendê-la em sua forma humana por um bom tempo – sorriu Poseidon. – Será um ótimo castigo para ela.
- Eu achei a idéia excelente - anuiu Zeus.
- Quanto a minha neta – interveio Poseidon. – Eu prometo que ela ficará no mar, mas com todos os direitos divinos garantidos.
- Sim – assentiu Zeus. – Essa é minha palavra final. Devolva a paz aos humanos, encarcere Éris em seus ossos, e dê a sua neta... Como é mesmo o nome? - Encarou Poseidon com uma expressão confusa.
- Amira – disse-lhe o deus.
- Isso, Amira... – fez um ar contemplativo. – Bonito nome. Bom, que seja assegurado a ela todos os poderes, deveres e direitos divinos – e com um sorriso acrescentou rapidamente: – Preciso ir, Hera já deve estar mais irritada do que quando a deixei. Adeus, e me mantenham informado de tudo.
- Certamente, mano – assegurou Poseidon com um sorriso.
Hades e Poseidon viram Zeus desaparecer numa nuvem e o rei do Inferno olhou o do Mar mordazmente.
- Você trapaceou – afirmou com o olhar amarelo sobre o irmão.
- Não sei do que está falando – disse sonso o do Mar.
- Você simplesmente conseguiu um salvo conduto para sua neta – contrapôs Hades com um novo sorriso irônico. – Está garantindo o futuro dela ao lado do tal Sparrow...
- Isso seria desafiar a lógica – interviu Poseidon com sarcasmo.
- Só se for a humana – afirmou Hades na mesma nota, concluindo: – Espero que consiga o quer, mesmo que seja daqui há alguns anos, para não dizer que sou sempre mal humorado.
E dizendo isso, desapareceu envolto em chamas, enquanto Poseidon murmurava par si mesmo:
- Eu também... - e azuis escureceram.
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N/A:
Meninas, minhas eternas flores amadas!
Estamos na reta final, últimos caps, mas três e chegamos ao final... "Snifs"
As coisas começam a tomar contornos mais definidos!
Eu devo tudo isso a cada uma de vocês, que sempre me trataram com imenso carinho, dedico essa fic a todas que sempre me acompanharam, desde "O Segredo de Jack Sparrow", porque não só tiveram paciência de ler meus sonhos, mas fizeram parte dele!
Amo vcs demais,lindinhas!
Beijoka bem especial à minha cunhada e beta, Andy.
Bjoas bem grandes em todas: Taty ( minha mana amada ), Aline ( idolatrada ), Iedinha ( um doce ), Carlinha ( querida ), mana ( maravilhosa ), Lara ( a pequenininha ), Lady Morgan ( amiga sempre ), Dora ( uma fofa ).
YO-HO!
