Nota da tradutora: Eu sei que vocês não me perguntaram, mas estou melhor. Sim, sofri outro acidente, e desta vez a situação tá feia pra mim e não posso andar por um período, semana que vem tem fisioterapia já. Nem sentar em frente ao pc eu posso.
(por isso que levei o laptop pra cama... hihihi).
Mas não se preocupem, eu já adiantei bastante capítulos e só espero o retorno deles das mãos da Doks.
Espero que gostem do capítulo. Obrigada a quem leu e comentou no outro, e desculpem desde já não poder responder a todos desta vez. Obrigada a Doks por betar de inglês-português, e a Thais por fazer a revisão enquanto estou imobilizada.
Boa leitura!
In a Different Light
Capítulo 25: Aparências
Autora: TheMaven
Tradução: Analoguec/Shampoo-chan
Revisão: Doks
Re-revisão: Thais
Rin seguiu o sol se ponto a oeste. Não tinha ideia e outra forma de procurar o lorde, então simplesmente voltou ao caminho no qual eles estavam viajando antes do rapto dela. Se continuasse em direção ao castelo, sabia que poderia esbarrar em Sesshoumaru, em Jaken e mesmo em Ah-Um pelo caminho. Na verdade, ela estava preocupada com ele. Em todos os anos que viajaram juntos, nunca o vira senão como... humano. Bem, não humano de verdade. Ele tinha todas as partes apropriadas do corpo em corretas proporções e nos devidos lugares, mas nenhum humano era tão elegante, gracioso, falava tão bem, era tão... perfeito.
Rin suspirou pesadamente e dirigiu a atenção para os céus. Estava quase se aproximando do final da tarde. Ela estava andando por mais de duas horas, só parou rápido no rio para se lavar, limpar a espada e tomar alguns goles de água fresca. Porém, ainda estava com uma aparência horrível – totalmente a "humana imunda", como Jaken gostava de chamá-la. O uniforme de exercícios estava rasgado perto do pescoço e cheio de sujeira, suor, sangue e vômito. Havia um furioso rastro vermelho no pescoço onde Yori a cortou. E o cabelo dela… Bem, o cabelo não era tão ruim daquele jeito desde que ela entrou na puberdade e as mudanças de humor a mantinham longe de querer cuidar da aparência. Uma vez ela ficou um mês inteiro sem tocar no cabelo, e ela ousaria dizer que parecia melhor naquela época do que agora. Mas era o que acontecia quando se viajava sem utensílios.
Riu para si enquanto continuava pelo caminho da floresta, que eventualmente a levaria até a montanha em que Sesshoumaru e ela estavam acampando. Odiava admitir, mas era bom estar sozinha de novo. Depois de tudo, a história toda de aprender a se defender era para que pudesse viajar sozinha além das muralhas do castelo sem escolta. E até então ela não tivera oportunidade para isso. De fato, se Jaken e Ah-Un estivessem por perto e Sesshoumaru bem e inteiro, certamente que ela não precisaria viajar sozinha no momento ou em qualquer outro. Aliás, dizer que eles eram superprotetores era um eufemismo. O fato de Sesshoumaru querer ir com ela na hora de fazer as necessidades era prova disso... Embora, na verdade, se ele tivesse ido com ela, provavelmente ela não seria raptada, e as caçadoras não teriam a chance de machucá-lo como fizeram.
Provavelmente ele estava sentindo uma dor imensa. Pelo que Kimi descreveu e do que ela mesma vivenciou, a purificação era um problema bastante desagradável. Mesmo agora, horas depois, ela ainda sentia as pontadas do poder de Suki atravessando o corpo dela. Elas eram uma distração, não suficientemente um problema para impedir inteiramente o progresso dela, como uma dor de estômago ou cãibras. Mas para Sesshoumaru… Ele estava quase no estado de quando ela o encontrou pela primeira vez, imóvel e sofrendo... Mas somente se preocupar com ele não era bom. Ela precisava encontrá-lo.
Entendia muito bem o motivo de ele ficar tão preocupado com ela. Como ele havia dito, os homens eram criaturas astuciosas que falariam e fariam tudo para ter o que queriam dela. Em alguns casos, como o de Takeda, isso incluía intimidação, coerção e violência. Quando ela se viu sozinha com Taro na cabana dele, ela se convenceu de que se ele tentasse violentá-la, ela simplesmente cortaria a garganta dele. Mas, sinceramente, ela não tinha certeza se faria algo do tipo na hora. Tinha a habilidade e o saber-fazer, mas pouca confiança em si nessa parte. Sim, Mestra Sumida disse que ela era uma excelente aluna. Sim, Mestre Li disse que ela era uma pupila ideal. Sesshoumaru, ele próprio, já a elogiou por causa da técnica, e ele não era do tipo de louvar qualquer um, mas ainda assim...
Era fácil se sentir inadequada perto de alguém tão real e seguro de si. Ele provavelmente nunca duvidou de si em nenhuma vez na vida. Sim, ele admitiu que temia pela segurança dela, mas era devido a inaptidão dela, não dele. E temer não era uma dúvida. Mesmo se fosse, a dúvida recairia sobre ela, não nele. Mas hoje foi diferente. Hoje ela realmente se sentiu digna de louvor.
Claro, tinha ido contra os princípios dela e tirou… duas vidas humanas. E a ideia a fez se sentir mal de alguma forma. Mas ela tivera bons motivos, e os fatos ruins haviam se amontoado consideravelmente contra ela.
Você sabe o que eu acho, Rin? Eu acho que você é fraca, inútil e cheia de vontades. Você é desajeitada, imbecil e cheia de si. Você é o pior dos piores, a idiota de todos os idiotas e a mais burra dos burros... Você é uma fêmea humana e a sua vida significa absolutamente nada para outra pessoa... Ninguém se importa com o que você faz. Ninguém se importa com o que você pensa. E ninguém notaria se você desaparecesse completamente da face da Terra.
Aquelas coisas não eram verdade. Mestra Sumida sabia que não eram desde o começo. A Mestra a estava testando, provocando, incitando-a a provar que ela e o mundo estavam errados.
E ela conseguiu. Assim como todas aquelas caçadoras de demônio.
Sim, elas eram cadelas de mente fechada, independentes e coniventes. Mas eram também espertas, poderosas, ambiciosas e ousadas. Rin poderia até dizer que nunca um oponente que o lorde enfrentou causasse tanto dano tão rápido, com a possível exceção de InuYasha. O lorde, o demônio lorde das Terras do Oeste, um dos mais poderosos demônios em todo o Japão, tinha sido derrubado por três mulheres e uma hanyo.
E se Rin não estivesse lá, se não tivesse conseguido passar pelas amarras que Suki colocou na mente e no corpo dela, superado o próprio medo e as dúvidas… ele teria morrido. Takara o teria purificado até que desaparecesse, ficaria sozinha – não só agora, mas pelo resto da vida.
Sesshoumaru se importava com ela, a amava, a protegia, se preocupava com ela. Ele prometeu que sempre a desejaria, que sempre a amaria, que nunca a abandonaria. Como ela poderia virar as costas quando ele mais precisava dela?
Simples. Ela não podia. Todavida era preciosa – plantas, animais, humanos, demônios, hanyous. Tudo isso estava num igual patamar até onde Rin sabe. Tudo e todos tinham direito a ter uma vida, mas, como Sesshoumaru dissera, havia limites. E as caçadoras ultrapassaram os delas.
Ambos não estavam machucando ninguém, Sesshoumaru e ela. Estavam simplesmente desfrutando de uma noite calma juntos, aquecendo-se sob a luz da fogueira, tomando o calor da companhia um do outro... e depois elas vieram e arruinaram tudo. Era claro desde o começo que elas pretendiam machucá-la, quando uma delas pressionou uma adaga na garganta dela e Yori a esbofeteou simplesmente por falar sem permissão. Adversários normais ou comuns a teriam deixado em paz depois da briga em que se metera, mas elas não eram adversárias comuns e ela não era o alvo final. Era apenas a isca.
E a forma como elas a trataram, como elas deixaram Takeda tratá-la… Elas não tinham direito de fazer aquelas coisas. A vida dela tinha tanto valor quanto as deles, quanto a de Kimi, quanto a de Sesshoumaru. Eles não tinham o direito de tirá-la do lorde quando ela não queria ir. Não tinham o direito de espancar cada centímetro do corpo dela quando ela já estava sangrando e machucada. Takeda não tinha direito algum de pôr as mãos em qualquer parte dela. Ele não tinha o direito de fazer indiretas e insinuações a respeito do relacionamento dela com Sesshoumaru. Não tinha o direito de bater nela, estrangulá-la, esfregar o rosto dela no chão e forçá-la a lamber o próprio vômito.
Rin fez uma carranca. Takeda não retornou com Akemi, e ela não o viu em parte alguma depois que Sesshoumaru arrancou o telhado da cabana das caçadoras, mas sinceramente esperava que ele estivesse morto. Kimi dissera algo sobre Takeda e um exército. Se o chefe do vilarejo era tolo o bastante para cruzar o caminho do lorde de novo, ela tinha certeza de que Sesshoumaru deu a ele exatamente o que merecia.
Maldito. Ela deixou escapar sob o fôlego mais algumas palavras escolhidas a dedo, depois riu discretamente para si. O lorde havia advertido a respeito da escolha de palavras há alguns anos. "Jovens damas refinadas não usam uma linguagem tão grosseira", ele a avisou.
Na época ela tinha treze anos e soltou uma sequência dos palavrões mais coloridos conhecidos pelo homem, depois que ela foi encontrada tentando sair das propriedades do castelo sem uma escolta. Não havia um motivo específico para querer sair, ela apenas queria um tempo para si. Estava cansada de ter que evitar Sesshoumaru porque o corpo dela emitia odores estranhos sempre quando ele estava perto dela. Estava cansada de correr de Jaken que parecia segui-la a todos os lugares em que ela ia. E estava mortalmente cansada de Mestra Sumida e de acordar antes do sol nascer, morrendo de sono, apenas para fazer alguns estúpidos exercícios que deveriam fazê-la se sentir melhor com relação a si mesma.
Então, simplesmente quis se afastar por algum tempo – fazer uma calma caminhada pela floresta, talvez subir numa árvore… Ela, literalmente, havia colocado um dedo do lado de fora do castelo quando Sesshoumaru apareceu e bloqueou o caminho dela. Ele olhava para ela com o mais duro, mais frio olhar que já conseguira reunir e perguntou onde ela estava pensando em ir. Rin, por vez, não parou para pensar, simplesmente reagiu. E foi da mesma forma que Jaken inadvertidamente a "ensinou" a reagir: com olhos voltados para baixo, voz sussurrada e as mais profanas palavras que já imaginou.
Se fosse Jaken, ela teria sido espancada. Mas ela não era Jaken, era Rin, então, em lugar de receber uma enxurrada de golpes na cabeça, ela foi verbalmente repreendida e recebeu um daqueles olhares de oh-estou-tão-desapontado-com-você. Ela bufou e retrucou: "Vou começar a agir como uma dama quando você começar a me tratar como uma. Enquanto eu continuar a ser tratada como uma pirralha mimada que não sabe limpar a própria bunda, é assim exatamente como vou agir."
Rin deu uma sonora gargalhada, saindo da floresta para contemplar o terreno montanhoso diante de si – nada além de um céu limpo, montanhas rochosas e colinas íngremes. Ele pode estar lá em cima, ela pensou casualmente. Era um lugar que ela conhecia, o último onde estiveram juntos...
Deu de ombros, sem saber qual caminho seguir, e começou a subida. Não acreditava que havia falado com Sesshoumaru daquela maneira. Claro que havia. Tinha uma lembrança muito clara daquela discussão em particular… mas aquilo não foi ela. Tinha uma opinião muito forte sobre o que Sesshoumaru pensava a respeito dela.
O que ele pedisse, ela fazia sem questionar. O que ele sugerisse, ela aceitava de coração. Mas naquele dia… ela só queria ficar sozinha. Queria um tempo para si – livre dos preconceitos dele e de todos sobre quem e o que ela era.
"Vou começar a agir como uma dama quando você começar a me tratar como uma. Enquanto eu continuar a ser tratada como uma pirralha mimada que não sabe limpar a própria bunda, é assim exatamente como vou agir."
Balançou a cabeça incrédula enquanto enfrentava a subida mais inclinada de terra. Por mais incrível que pareça, o lorde não argumentou com ela sobre a declaração, nunca a castigou pela escolha de palavras. Ela secretamente supôs que sempre teria alguém lá para "limpar a bunda dela" caso ela precisasse ou não.
Rin tomou uma profunda golfada de ar e a soltou, continuando a subida na encosta íngreme. Não era inteiramente montanhosa, nem completamente plana. Não era uma subida vertical, mas se não se colocasse o pé na posição correta, corria-se o risco de cair para trás e adquirir um monte de baques e arranhões no processo. Supôs que era aquilo que chamavam de inclinação, uma longa, rochosa inclinação cheia de mato. E no alto, uma impressionante extensão de floresta. A primeira vez que fez aquela subida, Sesshoumaru estava com ela, e ofereceu ajuda nas partes mais íngremes. Ela educadamente recusou e fez a subida com todo o poder que possuía, ficou feliz porque ele não estava com ela desta vez.
Era bom saber que conseguia fazer as coisas por conta própria. Não precisava da permissão, da autoridade ou da aprovação dele.
Era uma completa entidade consigo mesma. E apesar de gostar imensamente do tempo que passou com o lorde, era bom ter o próprio ritmo por algum tempo. Era bom não se sentir compelida a falar simplesmente porque ninguém estava falando, e o silêncio era opressivo demais para que ficasse daquela forma. Era bom não ter que pedir para ir ao banheiro ou pedir uma pausa... Pelo fato dos homens estarem longe, ela se sentia mais livre em anos, possivelmente em décadas. Há muito tempo que ela não se sentia tão calma, tão em paz, tão... bem consigo mesma.
Estava bem.
Estava tudo bem em ser humana. Tudo bem em ser mulher, ou fêmea se preferir dizer dessa forma. Estava tudo bem em amar um demônio, e ele a amá-la em retorno. Tudo bem em querer estar com ele e tocá-lo e... tudo mais. Estava tudo bem em arriscar a vida para salvar os amigos. E também estava tudo bem em tirar uma vida para salvar os amigos.
Elas tinham que aparecer. Flores eram inofensivas, mas aquelas caçadoras não. Elas a feriram, feriram uma às outras, e ainda feriram Sesshoumaru. A verdade era que ela não sabia definir Kimi. Ela parecia ser uma boa pessoa, e gostava de conversar, passar informações e ajudar... Mas Kimi usou todas as informações que deu sobre as caçadoras contra ela. Usou isso para manipular a mente de Rin contra Suki. E as usou como motivação para que matasse Suki.
Não, Suki não era uma boa pessoa. Ela tratava horrivelmente tanto ela quanto Kimi... aquela "cura" que fez nela, sendo um primeiro exemplo, e aquele feitiço de submissão que pôs em Kimi... Estrangulá-la foi uma bela justiça poética, e Rin tinha quase certeza de que era algo com que Kimi sonhava todos os dias.
Sim, matara Suki porque Kimi havia ordenado. Também matou Suki porque ela a machucou, estava machucando-a ainda mais depois, e machucou Kimi antes disso. E como a hanyou havia sugerido, se ela não matasse Suki, ela ajudaria a matar Sesshoumaru.
E ele estava num… péssimo estado quando chegou a ela.
Jaken havia dito numa das primeiras vezes que ela viajou com eles, que se ela conseguisse tirar Sesshoumaru do sério, ele comeria a cabeça dela...
Até que ela realmente viu a cabeça e o tronco de Akemi serem cuspidas da boca do cão-demônio, a carne já mordida foi danificada mais ainda com a saliva ácida e os pontudos caninos, ela achou que Jaken estava brincando, usando um conhecido eufemismo para descrever o temperamento do lorde. Mas ver aquilo, ver tanto ele quanto aquela… garotinha, aquela garotinha que poderia muito bem ter sido ela onze anos antes...
Balançou a cabeça para deixar de lado o pensamento. Mesmo assim, mesmo depois de ele ter destruído um vilarejo, esmagado uma inocente garotinha e "arrancado" a cabeça de Akemi, ela ainda o amava. Sabia que deveria ficar pálida, enojada e horrorizada, e, sinceramente, ela ficou um pouco. Ela nunca vira algo tão… assustador em toda a vida.
Mas no momento em que percebeu que ele estava lá para salvá-la e não machucá-la, ela ficou com medo. Medo que Takara o purificasse. Medo de não conseguir ajudá-lo. Medo que tivesse que passar o resto da vida sem ele, sabendo que falhou quando ele realmente precisou dela.
Por mais estranho que parecesse, a crueldade que ele mostrava aos outros quando provocado fez com que apreciasse ainda mais a gentileza que ele mostrava a ela. Ele poderia destruí-la num segundo – rasgá-la com as garras, vaporizá-la com o vapor do veneno, dissecá-la com Tokijin, bater nela com o Chicote de Luz, ou, assim como Akemi, ele poderia se transformar e mastigá-la até a morte... Mas ele não fez isso, não faria e nunca fará.
Não passava ela de uma mera mulher mortal sem poder algum, sem título algum, sem prestígio ou propriedades… ainda assim ela tinha poder sobre ele.
Claro que houve aquela noite em que estavam brincando um com outro, ela fez com que ele respondesse ao "Fluffy" e ele a fez chamá-lo de "Mestre". Mas houve também momentos mais sérios...
Sim, ele temia pela segurança dela, mas também temia com a rejeição dela. Por mais bobo ou estúpido que possa parecer, ela tinha visto por um décimo de segundo naquela noite perto das cachoeiras. Não foi exatamente medo, foi mais… desespero.
"E se ela não quiser se possuída?", perguntou simplesmente.
Por todo mundo, por alguns segundos, numa gota em todo mar do tempo, Rin podia jurar que ele ia chorar... Claro, ele não chorou. Não poderia. Nunca se permitiria a tal coisa, mas... Aquela emoção tão crua, dolorosa, desesperada que viu de relance nos olhos dele... Já a tinha visto nos próprios olhos muitas vezes.
Mas, assim como apareceu, a emoção se foi.
E depois ele disse que a "desejava tanto quanto ela o desejava". Mas… quanto mais ele clamasse o desejo por ela, ele nunca a possuiu. Ele se ofereceu para dar prazer a ela em exatas quatro ocasiões, e nunca fez exigências específicas pelo prazer dele. Quando ela ofereceu os serviços dela, ele ficou muito feliz em ajudar, dando instruções apropriadas sobre como fazer, mas nunca forçou as atenções dela, e sempre deu a oportunidade de recusá-lo na hora... Mas ela nunca fez tal coisa.
O lorde a fizera se sentir tão fraca, sorriu para si. Não no sentido humano de fraqueza e incompetência, mas de um sentido agradável de homem contente/mulher contente, aquele sentido de... eu-não-consigo-respirar-sem-você-e-nunca-conseguiria-de-outra-forma. É claro que era tolice dizer que ela não conseguia respirar sem ele. Aqui estava ela sem ele, e estava respirando bem, mas... Ele tornava respirar muito mais agradável.
-Sim, Rin, eu posso viver sem você. A questão é: eu quero isso?
Refletida nos olhos dourados dele, ela foi incapaz de se mover, de pensar, de sentir qualquer coisa além da gentil carícia do polegar dele ao limpar o rosto dela.
-A resposta é não. Não, eu não quero viver sem você.
-Mas eu sou humana. – ela falou – Eu vou morrer. Vou deixar você sozinho.
Estava sozinho agora, não estava? E ela, sinceramente, duvidava que ele estivesse apreciando o adiamento das coisas como ela estava... Não que ela se sentisse "punida" nesta vida que levava... Ela só queria que as coisas não tivessem acontecido daquela forma. Numa realidade alternativa, o irmão e os pais estavam muito vivos. Nenhum bandido os atacou e os matou, deixando-a só. Ela nunca viveu numa caverna sozinha. Ela nunca encontrou Sesshoumaru e os aldeões nunca bateram nela. Lobos nunca atacaram o vilarejo, e certamente ela nunca morreu.
Nisso ela teria casado com uma simples alma como Taro, e eles teriam dois ou três filhos – dois meninos e uma garotinha. Ninguém além do vilarejo pesqueiro saberia da existência dela. O contato com demônios seria limitado pelas histórias de ninar que contaria aos filhos para assustá-los e fazê-los se aquietarem. Ninguém a levaria contra a vontade dela a qualquer parte. E Taro, sendo um homem simples e descomplicado, nunca teria alguém que quisesse machucá-lo, ninguém nunca iria querer machucá-la... Isso… era… um bom sonho para se ter de tempos em tempos.
Mas a vida que tinha era muito melhor que qualquer sonho.
Finalmente alcançou o topo da montanha e olhou para baixo para ver o progresso que fez. Respirou fundo, admirando a vista do tempo – rocha gasta e esculpida e florestas ao longe. Depois soltou o ar e alongou um pouco para a esquerda e um pouco para a direita, a mente vagando para as pessoas que faltavam na vida dela. Por mais que ela estivesse apreciando o gosto da liberdade, talvez o último gosto de liberdade, ela sentia falta dos companheiros de viagem. Se fechasse os olhos e focasse todos os sentidos, seria como se pudesse ouvir as vozes deles agora, cada um chamando-a pelo próprio termo carinhoso.
"Garota estúpida."
Conseguia ver o rostinho verde de Jaken na frente dela agora. "Garota estúpida". Aquela era uma das frases favoritas dele, ele dizia muitas coisas para desencorajá-la e encorajá-la ao mesmo tempo.
"Escute aqui, moça. Você pensa que isto tudo é uma brincadeira. Algum tipo de conto de fadas em que você é a princesa e meu lorde é o lindo príncipe."
Agora foi a vez dela de zombar. "Por favor, Jaken, não sou mais ingênua."
"Você é ingênua", ele retorquiu. "Principalmente se você espera um 'final feliz para sempre'".
"Eu sou inofensiva. Sou só uma 'inútil' humana, como você está cansado de dizer."
"Isso era antes", ele disse. "Antes você não era nada. Antes você era descartável, substituível, esquecível. Nada mais que um bicho de estimação, mal digna de ser mencionada."
"Bicho?", ela repetiu.
"Mas, tomando você como mulher, os inimigos deles terão um prato cheio. O ponto fraco que eles constantemente tentarão acertar."
Mas eu aguento, Rin argumentou ao relembrar as palavras de Jaken. Eu não sou fraca. Eu sobrevivi hoje, e lutei com sucesso contra nossos inimigos em comum. Eu o salvei.
Imaginou o sapo bufando e virando o rosto para ela. "Lady Pirralha, vamos ver quão convencida você fica uma vez que o mestre conseguir o que quer com você."
E se eu conseguir o que eu quero com ele, em vez disso?
De novo, a imaginação dela produziu uma imagem do youkai sapo, desta vez com ele assustado e pasmo, os redondos olhos amarelos arregalados de choque.
"Você sabe qual é o problema com as fêmeas, Rin? Elas são fracas, muito emotivas e irracionais. Falta-lhes autocontrole e disciplina, e isso faz com que sejam um estorvo. Elas pensam que o mundo pode se curvar diante dos caprichos delas, quando são elas que precisam se curvar ante os caprichos do mundo. É o único jeito."
Uma solitária lágrima escorregou pelo rosto de Rin e ela imediatamente a limpou.
"Por que fez isso?", mestra Sumida perguntou. "Por que limpou aquela lágrima? Do que tem tanto medo? Eu já sei o quão fraca, emotiva e irracional você é. Por que tenta esconder?"
"Eu sou melhor que isso", ela resmungou.
"É mesmo?", a mestra perguntou.
Sim, Rin respondeu resoluta. Lutei contra minha própria fraqueza para fazer o que era necessário e tirarmos nós dois de lá vivos. Você ficaria tão orgulhosa de mim hoje, Mestra. Eu fui uma excelente representante da minha raça e do meu sexo. Eu ajudei meu lorde, um inimigo e a mim mesma.
Depois de treinar com Mestra Sumida por algum tempo, a seiyuuki youkai pareceu começar a gostar dela, e Rin, não tendo outro modelo feminino, retornou a afeição. Mestra Sumida começou a se referir a ela como "irmãzinha".
"Rin."
"Minha Rin."
"Lady Rin."
"Este Sesshoumaru dá a palavra dele como o Lorde das Terras do Oeste, Lady Rin… Este Sesshoumaru sempre a desejará, e nada que alguém diga ou faça vai mudar isso."
Lorde Sesshoumaru não era do tipo de meias-palavras, de medi-las ou de descer nível do sentimentalismo. Ele foi honesto e franco sobre os sentimentos dele por ela, e ela genuinamente apreciou isso, principalmente porque ela era muito... nova em toda essa história. Tudo parecia tão esmagador no começo, mas ele esclareceu e corrigiu qualquer dúvida que ela tivesse.
-Eu amo você, Rin. – ele usou seu tom mais direto e franco – Não é maneira minha dizer de forma tão conceitualmente ininterrupta, mas meus instintos ditam que eu demonstre minha necessidade por você e a lembre da sua importância a minha vida através de atos físicos. – ele prendeu o olhar dela ao dele – Não significa intimidar, nem manipular ou coagir. É simplesmente o jeito masculino de mostrar aprovação, obter aprovação, oferecer conforto e ganhar a atenção da mulher.
O sorriso de Rin alargou. Ela era a "Rin dele" e ele era o "Sesshoumaru dela". Ela amava o som disso, mas, sinceramente, o apelido favorito dela veio de Mestre Li. O velho mestre era mais baixo que Rin por quase um palmo, mas no que faltava na estatura ele compensou na coragem nas artes marciais, na pura força de vontade e no educado senso de humor.
"Eu tenho um nome perfeito para você, minha pupila mais valiosa. De agora em diante, vou me referir a você como Grila de Jade."
"Grila de Jade?" a menina de 15 anos riu. "O que quer dizer?"
"Jade é uma das mais duras pedras preciosas que existe. É completamente opaca, significando que você não pode ver através dela, mas a beleza dela é evidente tanto por dentro quanto por fora. A força dela está na dureza, na elasticidade, no interior oculto.
Rin ergueu as sobrancelhas em marcada surpresa. Ela era mesmo parecida com uma jade?
"E Grila porque você fala muuuito, mas não perturba. Sua voz tem uma qualidade musical. As pessoas podem sentar perto e escutar você falar nada importante um dia inteiro."
Rin sorriu, rindo educadamente para si.
"Mas o senhor gosta de silêncio, Mestre Li. O senhor vive falando que falar é barulho, uma distração, algo feito para facilmente tirar nosso centro."
"Quando estamos praticando, sim. Silêncio é preferível. Mas no dia-a-dia," continuou Mestre Li, "quem quer passar todas as horas do dia mergulhado em silêncio? As pessoas precisam de outras por perto. Precisam se comunicar uma com as outras. Se os deuses quisessem que ficássemos isolados, eles não nos colocariam neste imenso e maravilhoso mundo. Eles nos colocariam em pequeninas ilhas a milhares e milhares e milhares de distância uma das outras, assim todos pensariam que são as únicas pessoas no mundo". O velho mestre fechou os olhos e assentiu lentamente. "Não seria triste de ver?"
Certamente, Mestre Li. Ninguém deveria ficar sozinho.
E então ela começou a andar de novo em busca do lorde ferido.
Ao se aproximar da floresta, algo parecia estar um pouco… fora do lugar… como se todas as árvores estivessem… inclinadas um pouco fora do centro. Quando finalmente adentrou, percebeu que havia algo errado. Todas as árvores haviam sido arrancadas do lugar, depois jogadas a esmo no chão, deixando as raízes parcialmente expostas. Algumas estavam inclinadas para a esquerda, outras para a direita, algumas completamente em horizontal e outras reduzidas a pedaços. Algumas tinham marcas de garras talhadas na casca, outras foram parcialmente corroídas pelas, Rin presumiu, Garras Venenosas do lorde e outras partidas ao meio, como se alguém as tivesse cortado em duas com uma enorme lâmina extremamente afiada, os galhos das árvores tocando o chão coberto de folhas.
Rin observou a destruição por mais um instante, depois continuou o caminho, o sol se pondo lentamente abaixo do horizonte, tingindo o céu em tons de vermelho, laranja e amarelo, uma brisa fria do último outono agitando as folhas mortas espalhadas na trilha da floresta.
Você estava procurando por mim, Sesshoumaru? Estava procurando por mim, e não conseguiu me encontrar.
Um sorriso triste de compreensão passou pelo rosto dela. O outro pé na situação, não é? Estou caminhando exatamente na mesma trilha que você andou para me achar, para eu encontrar você. Só não… espero encontrá-lo já que não tenho como rastreá-lo nessa distância. Eu vou continuar indo para casa até encontrar você, ou você me encontrar, ou talvez Jaken e Ah-Un esbarrem em nós. Mas para você sem poder me rastrear, sem saber onde fui...
Não admira que tenha arrancado a cabeça de Akemi.
Entrou numa visível trilha, desviando de árvores tortas, e foi em direção ao antigo acampamento, deixando a memória guiá-la. O que passou pela sua cabeça quando percebeu que eu havia desaparecido?
Vi você naquela noite, em pé onde estou, o veneno gotejando das garras. Óbvio que estava com raiva, mas o que mais passava pela sua cabeça? Ficou assustado pela minha segurança? Ficou preocupado a respeito de quem me tinha e o que fariam comigo? Ficou com medo de nunca mais me ver de novo?
Eu sei que eu fiquei.
Parou imóvel, totalmente incrédula, na frente da destruição diante dela. Verdade, isso não era nada comparado ao dano que causou ao vilarejo, mas... não havia mais clareira alguma. As árvores ao redor da área foram cortadas, esmagadas e feitas aos pedaços, os troncos caídos que cruzavam o caminho de terra queimada cheiravam a ácido, fumaça e cinzas. As pedras que ficaram quase no limite da clareira, a pedra sobre a qual Sesshoumaru e ela sentaram, comeram e... dormiram da última vez havia sido demolida, pulverizada e reduzida a um pó fino e cinzento. A fogueira que o lorde fizera para mantê-la aquecida e fazer a refeição dela não estava mais à vista, sem dúvida embaixo de folhas de madeira e rocha esmagada.
Esperava, pelo menos, que retornando aqui encontrasse um lugar mais adequado para acampar por uma noite, e talvez, apenas talvez, Sesshoumaru estivesse esperando por ela aqui... mas agora ela precisava continuar. Não havia jeito de conseguir dormir num lugar que tinha tão obviamente sofrido a fúria do lorde. Tinha certeza que seria difícil encontrar um lugar para dormir à noite, independente de onde estivesse, mas aquele local iria amplificar os pesadelos em dez vezes.
Conseguiu lidar com as visões de Yori em frente a ela, batendo nela, pressionando o metal frio da espada na frágil garganta dela. Conseguiu lidar com os pensamentos de Suki subjugando Kimi e pegando-a pela cabeça para desenterrar as lembranças que menos gostava. Conseguiu aguentar a dor de costelas quebradas, partes do corpo feridas, purificação e cura mística. Conseguiu até mesmo suportar sentir a mão de Takeda agarrada ao pescoço dela e ele empurrar o rosto dela para lamber uma poça de vômito.
Entretanto, não conseguiu aguentar a visão do lorde sofrendo.
Não tinha ideia de como era a Floresta da Aflição que Kimi contou a ela... Mas não conseguia imaginar uma manifestação mais clara de aflição, perda, frustração e desespero que aquela. E queria chegar o mais longe possível disso.
Sesshoumaru acordou frio, sozinho e incapaz de se mover, sentado debaixo de enormes galhos de uma árvore de magnólia. Ele não sabia ao certo para onde Tenseiga o transportou, mas mesmo com os sentidos demoníacos reduzidos ele sabia duas coisas. Um: Rin não estava com ele, e dois: havia três youkais muito perto dele.
-Lorde Sesshoumaru, finalmente podemos conversar sob meus termos.
E ele conhecia aquela voz...
Nota da tradutora: Já sabem o que fazer, né? Tá vendo o link pra comentar aí embaixo? Oiêêê...
