Capítulo 27
"O que está procurando, querida?" Angela perguntou, seguindo uma muito concentrada Brennan pelo shopping lotado.
"Booth está dificultando." Temperance parou abruptamente e se virou, verificando sua localização com a mesma intensidade de uma expedição às montanhas. Feliz por estar na direção correta, ela voltou a andar, com Angela seguindo-a de perto.
"Não entendi." Angela ofegou, conseguindo acompanhar o ritmo da amiga.
"Booth está dificultando."
Ela rodou os olhos. "Não quis dizer literalmente. Eu só... explique."
"Ele disse que, se eu não consigo me comprometer a um relacionamento sério, não estou mais preparada para ser pai do meu filho." Temperance cruzou os braços e olhou para os outros compradores, evitando o olhar questionador de Angela. "Tenho até sexta para tomar uma decisão."
"Ele meio que tem razão," Angela disse, racionalmente. "Então, o que vai fazer?"
"Antropologicamente, homens são predispostos a ter quantas parceiras quanto puderem. Humanos não são uma espécie unicamente monogamista."
"Sim, sim. Mas o que isso significa para você?"
"Vou seduzi-lo até a submissão. Consegui descobrir as preferências dele, nas últimas semanas. Não deve ser tão difícil."
"Acho que está subestimando Booth. Ele pode ser muito teimoso."
"Sim. Bem. Eu também posso." Temperance parou abruptamente. "Aqui. Esta loja tem lingerie erótica."
"Não acha que seria feliz? Com Booth?" Angela perguntou, enquanto andavam lentamente pela loja.
Temperance pegou um sutiã verde de seda, examinando-o cuidadosamente. "Eu não sei, Angela. E se, escolhendo ficar com ele, estou sacrificando oportunidades que nunca mais aparecerão?"
"Booth não vai impedi-la de fazer nada que você ama, porque se comprometeram um com o outro. Não acredito que está pensando assim. O que? Acha que ele vai te algemar à pia da cozinha se disser que sim? Ele te respeita demais. E além disso, Booth sabe que você acabaria com ele, se ele fizesse isso!"
"Talvez," ela respondeu, comparando um sutiã vermelho com um roxo.
"Está me ouvindo?" Angela exclamou, exasperada. "Não pode jogar com o Booth."
"Não estou jogando. Só quero manter as coisas como estão. Do jeito que não há risco de dar errado. E ninguém sair magoado."
"Oh, querida," ela suspirou. "Booth não vai te magoar."
"Não pode garantir isso, Ange. Ninguém pode."
"Querida. Precisa parar! Só... respire fundo. Pense bem nisso, antes que faça algo que vá se arrepender."
"Nunca me arrependo de nada," ela respondeu, seca, procurando por mais itens na cesta.
"Me ouça, Bren. Você realmente precisa pensar mais? É da sua felicidade que estamos falando."
Temperance suspirou, entrando no provador com o braço cheio de peças. "Felicidade é um termo muito vago. Não me sinto confortável usando isso como definição."
Temporariamente derrotada, Angela sentou-se, esperando sua amiga escolher a peça que ela achava que mais afetaria um homem, que Angela esperava que mantivesse seu cérebro na cabeça, e não nas calças.
"Ange, pode pegar o próximo tamanho? Este não está servindo."
"Bren?" Angela disse, excitada. "Pode ser sintoma de gravidez."
A porta se abriu e Temperance saiu, já vestida. "Eu sei. Já fizemos um teste, que deu negativo. Planejo fazer outro na sexta." Se afastando, ela acrescentou. "Decidi que não gostei dos itens que escolhi. Devemos tentar outra loja."
"Vamos, Bren. Acho que devemos tomar café."
"Geralmente, é aceito dentro da comunidade científica que o amor nada mais é do que um comportamento, baseado nas emoções que acompanham o instinto de reprodução." Ambas sentaram-se num bistrô quieto, Temperance encarando distraidamente o café à sua frente.
"Não estou interessada em outros cientistas, Bren. Quero saber como você se sente."
"Certamente, tenho afeição por Booth."
"Ok, esqueça a palavra com A. Consegue se ver apreciando a companhia de Booth daqui a trinta anos?" Angela perguntou.
"Sim," ela disse, com certeza. "Consigo."
Angela sorriu à admissão da amiga. "Consegue se imaginar querendo fazer sexo com quaisquer outros homens?"
Brennan sorriu, quando o mais recente encontro deles veio à mente, seu corpo se esquentando à lembrança. "Acho que intimidade física com Booth é algo bastante satisfatório."
"Responda a pergunta," Angela advertiu. "Sim ou não?"
Temperance pareceu considerar por um momento. "Não. Depois de Booth, não consigo imaginar querendo outro homem na minha cama."
"Bom." Angela sorriu para a amiga. Finalmente, estavam chegando a algum lugar. "Sua cama?"
"Acha que Booth e eu deveríamos morar juntos, também?" Brennan perguntou, interessada.
"Já pensou sobre isso? Antes de decidir se quer mesmo ficar com ele?" Angela estava mais do que confusa agora.
"O lugar onde encontraram um corpo ontem de manhã. Booth parecia bastante... empolgado com ele."
"E você?"
"Seria um ótimo lar para uma família," ela disse, desdenhosa.
"Mas não para você?"
Brennan balançou a cabeça, delicadamente. "Não é para mim, Ange."
"E nem a maternidade, mas olha só para você agora!" a amiga devolveu. "Está pensando seriamente em criar uma criança no seu apartamento?"
"Tenho um quarto. E é espaçoso o suficiente."
"Mas e sobre um jardim, Bren? E outras crianças com quem brincar?"
"Você tem uma preocupação válida. Talvez eu considere mudar quando tiver confirmação de ter ocorrido concepção."
"Espere um minuto. Ambos estão mesmo considerando um lugar onde um corpo foi encontrado?"
Temperance deu de ombros. "Todo mundo tem que morrer, em algum lugar."
Angela tomou um gole de café. Bren realmente tinha razão.
Booth andou na direção da porta de seu apartamento, mantendo o olhar fixo no jogo transmitido ao vivo em sua TV pequena demais. Distraído, ele destrancou a porta e ela se abriu, enquanto ele voltava, ainda gritando com os jogadores idiotas.
"Não entendo por que insiste em comentar sobre a força da habilidade deles. Você entende que eles não podem ouvir nada do que você diz, não é?"
"Bones. Não esperava te ver esta noite. E sim, eu sei. É só uma coisa que as pessoas... O QUE! Você só pode estar brincando!" Ele balançou os braços freneticamente para a TV. "Uma coisa que as pessoas fazem, Bones, ok?" Ele sentou-se no sofá e continuou assistindo o jogo.
Ela fechou a porta suavemente atrás de si, e andou na direção dele. "Falando estritamente, Booth, você nem olhou para mim ainda."
Algo no tom de voz dela fez com que ele se sentasse e questionasse a presença dela em sua casa. Ela havia tomado uma decisão? "Bones?" Booth se virou devagar, a boca se abrindo quando a roupa dela entrou em sua visão periférica. "Jesus, Bones. Quer que eu passe grande parte do meu final de semana me confessando?"
A roupa engraçada fez ele se lembrar do tempo curto que passaram num circo. Com uma touca enfeitada de penas e meias iguais a rede de pesca, a roupa imediatamente o excitou, e o jogo foi rapidamente esquecido. Ele se levantou e andou até ela rapidamente, passando os braços pela cintura, e roubando um beijo apaixonado.
Ela sorriu e o afastou, provocante. "Depois do que me fez semana passada, o que é mais um pecadinho?"
"Devo entender, por esta..." Ele correu um dedo por cima de uma meia e a puxou para ele. "... brincadeirinha, que já chegou a uma decisão?"
O sorriso dela falhou. Isso não seria tão fácil quanto ela pensou. "O que?"
Booth franziu a sobrancelha e deu um passo para trás. "Conversamos sobre isso, Bones. Não posso fazer sexo com você, a menos que signifique alguma coisa."
"Mas..." Ela o encarou, determinada. "Você disse que eu tenho até sexta... e... eu tenho necessidades, Booth."
"Não sou um aparelho operado por bateria que você pode ligar toda vez que precisar usar. Eu tenho sentimentos, sabe." Ele andou até a pia, e encheu um copo de água. Temperance o seguiu, desesperadamente tentando pensar em como acabar com a situação que criou, apesar do aviso de Angela.
"Eu realmente pensei," ele continuou. "Depois de tudo, que estava pronta para um relacionamento. Mas estava errado, porque o que está acontecendo aqui! Não é isso que eu queria."
Lágrimas ameaçavam cair, e ela lutou para segurá-las. "Não sei o que dizer, Booth. Pensei..." Temperance parou, ao perceber que não tinha palavras para terminar a frase.
Booth bufou com desgosto. "Pensei que realmente se importava. Pensei que pudéssemos ter algo muito especial." Ele balançou a cabeça, frustrado. "Estava errado."
"Eu me importo, sim, Booth," ela implorou.
"Estou tão apaixonado por você," ele ofegou. "E tenho esperado um sinal. Qualquer sinal. Que talvez, só talvez, você sentia o mesmo por mim. Mas não sente, sente? Nunca poderia me amar como eu te amo."
"Sabe que não consigo validar algo tão vago como o amor," ela argumentou.
"Tenho sido um tolo para você. Tenho ficado esperando por muito tempo. Já é o bastante, Temperance. Não consigo mais fazer isso." Ele andou de volta ao sofá e se sentou, prestando atenção no jogo novamente.
"Booth, por favor, eu preciso de você." Seu coração batia forte, enquanto percebia quão perto estava de perdê-lo completamente.
"Como eu disse. Erro meu. Eu... vou superar." Booth deu de ombros, indiferente. "E acho que te verei no trabalho." Ele aumentou o volume para abafar os protestos dela.
Furiosa, Temperance deu a volta, parando entre Booth e a TV. "Você disse sexta. Eu tenho até sexta. Você tem que me dar isso!" O choro escapou, enquanto ela continuava a implorar por mais tempo. "Não pode continuar mudando o limite." Lágrimas pesadas desciam por suas bochechas.
"Os prazos. E esta conversa está encerrada. Não há mais nada a ser dito." Ele precisava que ela fosse embora, antes que ele desabasse. Porque se ela realmente não o queria...
"Não quero continuar te magoando, Booth." Ela pegou a bolsa e andou até a porta. "Sinto muito."
Booth congelou às palavras. Andando devagar na direção dela, gentilmente ele segurou seu rosto, seus olhos castanhos, aterrorizados com a possível rejeição, olhando profundamente na alma que ela não acreditava existir. "Você sente muito? Pelo quê, exatamente? O que está dizendo, Temperance?"
TBC.
