Capítulo Vinte e Cinco

Hermione Granger estava vivendo um sonho.

Neste sonho, ela não era uma princesa presa sob uma alta torre esperando ser salva por um belo príncipe a cavalo, mas de qualquer forma para ela aquele era também um conto de fadas.

O homem de seus sonhos estava dormindo relaxadamente ao seu lado, os lábios entreabertos e os cabelos vermelhos bagunçados sobre seu rosto. Seu corpo subia e descia relaxadamente seguindo o ritmo de sua respiração.

Ela sabia que Ron não era exatamente o estereotipo de homem atraente para todas as mulheres, mas ela simplesmente o achava maravilhosamente charmoso. Sensual.

Sorriu, deslizando os dedos suavemente pelos seus cabelos macios. Adorava senti-los entre seus dedos, adorava a maneira que ele reagia ao seu toque.

À pequena luz matinal que começava invadir o quarto do casal Weasley, ela se pegou admirando a delicada aliança que adornava seu anelar esquerdo e sorriu ao ver o contraste de vermelho e dourado – a jóia e os cabelos de seu marido.

Mesmo a irritando até o ultimo momento, Ron era o melhor homem que poderia existir para ficar ao seu lado por todos os dias – o único homem que ela poderia amar da maneira que amava.

Toc. Toc. Toc.

Ron franziu o cenho com o barulho, da mesma maneira que Hermione. Ela ergueu o rosto para visualizar uma pequena ave no parapeito da janela de seu quarto.

- Herm – bocejo. – 'one. Quem é o idiota mandando corujas?

Hermione encarou o marido com uma ligeira vontade de rir. Sua voz e sua cara de sono estavam simplesmente adoráveis – e impagáveis.

- Eu não faço a menor idéia. – ela respondeu com sinceridade. – E aquilo não parece ser uma coruja.

- Então deixe aquela porcaria morrer de frio. – Ron resmungou, abraçando Hermione pela cintura e a puxando para perto de si por debaixo das cobertas. Com o afago dele e com a sensação maravilhosa de aquecimento a partir do calor de seu corpo, Hermione não contestou Ron e, alegremente o obedeceu, fechando os olhos e caindo rapidamente no sono.

Entretanto, ela sequer havia percebido que aquela pequena ave era a da espécie usada pelo DICAT, em qualquer lugar do mundo, apenas para documentação sigilosa e, num caso grave, para noticias que precisavam chegar a menos de vinte e quatro horas de lugares distantes.


Harry estava enlouquecido, para dizer o mínimo.

Na verdade, se alguém tivesse de atribuir a ele uma palavra, ela seria algo relacionado com 'surtado'. Com uma mochila nas costa, contendo todos os rabiscos que ele outrora havia utilizado, ele corria de mãos dadas com Ginny por todo o corredor do DICAT, rumo à sala de Michael Stuart.

As palavras e a descoberta sobre aquele ritual ainda bombardeavam seus pensamentos, e ele se sentia cada vez mais angustiado e sufocado à medida que os detalhes o preenchiam.

Tom Marvolo Riddle... Tom Marvolo Riddle... Voldemort...

Era como se estivesse relembrando de um antigo pesadelo. Em um dado momento, chegara até mesmo a imaginar sentir suas cicatrizes queimarem horrivelmente em dor, como se estivessem despertas para uma nova Guerra, uma nova onda de sentimentos relacionados à perda, a dor e a tristeza.

Um pesadelo. Era exatamente o que aquele assassino queria transformar a vida de Harry, ainda mais.



Lançou um olhar rápido a Ginny, que estava a pequenos passos atrás de si, tentando acompanhar sua corrida e subitamente sentiu-se confuso. Se Ginny estava em perigo, como ela se encaixava em toda aquela história? Seu sobrenome era Weasley, nada a ver com a letra que faltava.

Mas ele ainda tinha aquela sensação, aquele pressentimento de algo o escapava. Já imaginara sentir a presença de alguém os observando, e não fora apenas uma única vez. Chegara a perguntar a Ginny sobre essa sensação, mas em ambas às vezes ela dissera não ter sentido nada, e que provavelmente era apenas paranóia dele.

Mas Ginny não tinha sobrenome com "M". Tudo bem, seu segundo nome era Molly, mas isso iria fugir completamente à regra do ritual, uma vez que todas as vítimas tinham relação com a primeira letra do sobrenome para completar o nome de Voldemort. Ele chegara a cogitar a possibilidade de, por ser a primeira letra no nome de Voldemort, talvez ela devesse ser especial, mas descartara a possibilidade quando se lembrara que "Marvolo" era seu segundo nome, e não sobrenome.

Sem contar que, no grupo de mulheres que formavam a palavra "Marvolo", Ginny não se enquadrava, não mais. Mas ainda sim... Ainda sim, ele sabia que tinha alguma coisa em branco. E aquilo iria levá-lo à loucura.

Em silêncio, Ginny o acompanhava. Seu olhar cruzava com a figura tensa de Harry a cada segundo, e seu cenho franzia por falta de compreensão em toda aquela situação. O que Voldemort tinha a ver com aquele ritual? Que historia toda era aquela de nomes? De que rituais exatamente ele estava falando?

- Harry -.

- Mais um pouco, Gin. Apenas mais um pouco.

Finalmente, ele havia parado de correr. Sua mão ainda segurava a dela quando, com a mão livre ele alcançou a maçaneta da porta da sala de Michael Stuart.

Harry nem se dera ao trabalho de bater na porta, e Mike sequer percebera a presença do casal. Ginny surpreendeu-se ao perceber que, muito provavelmente, seu chefe passara a noite no Departamento. Ele estava dormindo sobre rolos de pergaminhos e um copo de água ao seu lado.

Harry fez uma careta e ergueu as sobrancelhas com a cena. Ginny balançou a cabeça.

- Só o vi fazer isso uma vez, e foi quando estava na ultima semana da Academia, próximo aos testes finais.

Harry deu de ombros. Para ele, não importava o quanto o homem estava cansado e/ou irritado com toda a situação. Ele percebeu os nomes de vítimas sobre a escrivaninha e percebeu que muito provavelmente Mike gastara a noite fazendo a mesma coisa que ele.

Girou os olhos. Ele sequer havia passado por um treinamento e, ultimamente, estava realmente começando a acreditar que os Aurores britânicos eram realmente frouxos. Stuart, Connor, todos eles.

- Mike – Ginny o chamou, cutucando sem muito cuidado. – Mike, acorde.

Harry percebeu que ela também parecia desgostosa com a atitude do homem, e Harry chegou a abrir um pequeno sorriso, de canto. Bem, nem todos eram frouxos, ele tinha que admitir. Harry sabia que, se Ginny quisesse, ela seria capaz de acabar com ele.

Michael franziu o cenho e ergueu o rosto, encontrando os cenhos de Harry e Ginny franzidos.

- Eu acabei dormin -.

- Eu percebi. – Harry o interrompeu, empurrando todos os pergaminhos de Mike para o lado e jogando sua mochila sobre a escrivaninha do chefe. – Sei o que Rostova está procurando, e sinceramente, temos que ser rápidos para pegar o bastardo.

Aquilo atraíra toda a atenção de Stuart. Ginny já estava ao lado de Harry, silenciosamente ansiosa, observando as mãos d'O Eleito afundar na mochila e retirar de lá todo o material de pesquisa.

Harry pegou primeiro o livro de Ginny, dos tempos de Academia, e o abriu na página em que havia encontrado grande parte de suas respostas. Michael fez uma careta.

- Mas esse é -.



- Eu sei. – Harry o interrompeu, já impaciente. Se existia algo que desenvolvera em Guerra fora impaciência. – Entretanto, quem pensaria que um livro velho de Academia poderia servir para alguma coisa, certo? – ele perguntou sarcástico, franzindo o cenho. – Abra na página quatrocentos e sete.

Michael obedeceu. Ginny ficou lançando olhares de Harry a Mike, e quando olhou novamente para Harry, imaginou se ele poderia quebrar o próprio maxilar de tão cerrado que o mesmo estava. O perfil sério e poderoso dele era capaz de deixar qualquer um aterrorizado. Tanta segurança, tanto poder concentrado.

- Eslavo? – Mike perguntou após um tempo, erguendo uma sobrancelha. Harry assentiu.

- Isso não é tão surpreendente. Russos são considerados descendentes diretos dos eslavos. A questão é, você percebe o padrão?

Ginny aproximou-se mais de Harry, de modo a olhar o próprio livro:

- Qual é o padrão?

Harry pegou a foto de uma das vitimas, sobre a escrivaninha ao lado do livro aberto e estendeu a Ginny.

- Observe a maneira em que as costas dela foi cortada. – Harry colocou o dedo sobre o corte. – Neville analisou o corpo de Eden, lembra? Lembra-se sobre a história de magia negra impregnada no corpo dela? É parte deste ritual.

Ginny tornou a colocar a fotografia sobre a escrivaninha, não desviando seus olhos dos verdes dele.

- E qual exatamente é este ritual?

- Com o corte, o assassino recolhe o maior numero de sangue possível e o utiliza como oferenda.

Ginny encarou Mike com o olhar arregalado.

- Oferenda? Qual é o pedido?

- A pessoa praticamente vende a alma, por assim dizer. – Harry respondera dessa vez, atraindo a atenção da Auror. – Ela pode clamar por mais tempo de vida ou por uma cura de alguma doença. Isso varia, mas sempre é relacionado à vida e a morte. Após todo o culto, o assassino deve beber o sangue oferecido... É como se o sangue tivesse concentrado todo o poder que ele pediu. – dessa vez, Harry desviara seu olhar do de Ginny e encarou algum ponto perdido da sala. – Voldemort tentou usar uma variação dessa magia uma vez... Foi logo antes da ultima batalha.

- Mas e esses desenhos e velas, o que são? – Mike perguntou, apontando para a fotografia. Harry cruzou os braços.

- Página setenta e sete.

Por alguma razão, Ginny sabia o que existia nessa página. Tinha pegado exame daquela matéria, justamente por causa do dito ritual da pagina setenta e sete.

- Invocação? – subitamente, ela passou a mão pelos cabelos. – Que droga, por que eu não percebi a semelhança -.

- Porque ele uniu os dois rituais, seria difícil perceber. – Harry retrucou. – Mas é, é um ritual de invocação. Mas a união dos dois rituais é que é o problema. Não vira apenas invocação.

- Reencarnação. – Mike respondera em voz baixa. Naquele momento, o significado caíra sobre os três.

- Há culturas que acreditam que o sacrifício de uma mulher é muito mais valorizado do que a de um homem. E nosso garoto usou disso muito bem, escolhendo três estágios diferentes de mulheres.

Ginny agora compreendia quão longe Harry fora para chegar naquele resultado. Era surpreendente a linha de pensamento que ele havia criado até chegar naquelas conclusões, bem como sua bagagem de conhecimentos a respeito de diversos temas.

Era irônico, altamente irônico pensar que ele detestara a viagem cultural por Cancun.

- Crianças são sinônimo de pureza, adolescentes simbolizam a transição e as grávidas -.

- O milagre. – Mike respondeu em voz baixa. Harry assentiu.

- Quando cheguei a essa conclusão eu quase pirei. Entendia agora o padrão e que ele queria reencarnar algo, ou, sendo mais especifico conseguir algo que já foi há tempos. Mas nada fez sentido, até que -.



- Harry escreveu inúmeras vezes os nomes das vitimas em uma folha. – Ginny o interrompeu, caçando o pergaminho rabiscado na mochila. Quando o encontrou, estendeu-o a Mike. – Eu não sei como, mas ele encontrou uma ponte entre essas mortes e Voldemort.

Michael encarou o casal agora com terror em seus olhos cansados. Harry bufou, mais irritado do que temeroso daquela noticia, e assentira.

- Na Antiguidade bruxa acreditava-se que o sobrenome era a parcela mais poderosa em um nome bruxo. Grandes partes das crenças a respeito dos puros-sangues começam a partir desse credo. Malfoy, Lestrange, sobrenomes antigos assim... Há alguns anos atrás simbolizavam apenas status de poder econômico ou relacionados – e, é claro, todos relacionados a Voldemort -, mas na realidade o prestigio de ser um puro-sangue, na verdade, se deve à toda bagagem carregada no poder do sobrenome.

Ginny o encarou admirada. Como ele sabia de tudo isso? Harry era mestiço, e ela ainda conseguia se lembrar que, aos dezessete anos, ainda existiam inúmeras coisas sobre o Mundo Bruxo que ele sequer fazia idéia de que existiam.

Harry passou a mão pelo rosto, sentindo-o áspero graças à barba que começara a nascer e ele se esquecera de fazer.

- Eu tentei misturar os sobrenomes de todas as maneiras possíveis, mas foi apenas por um acaso que eu decidi usar apenas a primeira letra de cada um.

Harry agora havia se inclinado sobre a escrivaninha e pegado uma pena recém-utilizada. Molhando-a no tinteiro, começou a escrever sobre o pergaminho já rabiscado:

- Primeiro coloquei todas as letras juntas, e tentei formar algumas palavras. Por fim, decidi que se existia algum motivo de ter escolhido um numero certo de crianças, adolescentes e grávidas, então deveria ter um padrão nas palavras para cada grupo. Tentei misturá-las algumas vezes, até que -.

Em silêncio, ele escreveu as letras dos sobrenomes das três crianças: O, M e T. Na linha seguinte, escreveu as letras O L O A R V e sublinhou o M, indicando que era o que faltava. Em seguida, fez uma seta e escreveu "grávida".

Mais uma vez, ele pulou uma linha e escreveu a letra D duas vezes, R I L e E. Ali eram as adolescentes.

- Depois foi apenas um quebra-cabeça. Acabou ficando fácil depois disso. – Harry respondeu por fim.

Mike encarava Harry horrorizado todas aquelas provas.

- Então nós devemos pegá-lo antes que ele encontre sua ultima vitima? – Mike perguntou com a voz não mais que um sussurro. Como iria encontrar um homem como aquele, quando sequer as vítimas eles conseguiam encontrar em tempo menor que dois dias após sua morte?

Harry inspirou pesadamente, retrucando com a voz rouca e analítica:

- Sabemos que a próxima vitima será efetivamente uma mulher, grávida com sobrenome começado com "M".

Ginny o encarou com uma expressão descrente.

- Isso não ajuda muito. O que nós vamos fazer? Levantar o nome de todas as mulheres do Reino Unido que possam estar -.

Ginny não chegou a terminar a frase, uma vez que a porta do escritório de seu chefe fora aberta num estrondo que chegara até mesmo a assustar e doer os ouvidos tamanho o barulho causado. Ela arregalou os olhos ao perceber uma Hermione um tanto descabelada. Hermione segurava algo em mãos que lembrava um diário.

- Mike! – Hermione falara histérica, empurrando Harry para o lado e corria em direção ao chefe.

- Mas o que -. – ele calou-se quando Hermione jogou o diário sobre a mesa o abriu bruscamente.

- Nikolaievich encontrou a face de Rostova! Esse é o diário de Lucius Malfoy! – ela disparou, atraindo a atenção de todos. Não fora preciso dizer mais nada para que Harry estivesse praticamente sobre a amiga, tentando arrancar a foto recém-tirada do diário das mãos dela. Ginny se surpreendeu ao comparar a atitude dos dois exatamente à mesma que ela costumava ter com Ron.



O problema fora que, quando Harry conseguira tirar a foto das mãos da amiga, seus lábios entreabriram-se com a surpresa e ele soltara um sonoro "Puta que o pariu!"

- É uma mulher. – Hermione afirmara, observando a reação de seu melhor amigo. Ginny arregalou os olhos e Mike pareceu esquecer momentaneamente o que iria dizer.

Harry negou vagarosamente, em silêncio.

- Esse não é o problema. – disse por fim, com a voz baixa e inconformada. - Eu já a vi antes. Ela era a mulher escalada por Voldemort para assassinar a família Malfoy.

Finalmente, Ginny fora capaz de retirar a foto das mãos de Harry e observar a fotografia, contendo ali um grande numero de homens e mulheres que Ginny sabia serem Comensais da Morte. Quando Harry lhe apontara quem era Rostova, fora como se um choque tivesse percorrido pelo seu corpo, fazendo-a largar a mesma como se fosse uma cobra venenosa.

Aquilo atraíra a atenção de Harry e Hermione, mas não de Mike, que parecia ainda entretido com o diário.

- Gin? – Harry a segurou pela cintura ao vê-la extremamente pálida. Por um pequeno momento, acreditou que ela fosse entrar em colapso. A preocupação se fez viva nas íris verdes do homem. – Você já a viu? Você já encontrou essa mulher em algum lugar?

- Essa mulher trabalha no pub ao lado. – Ginny disse em voz baixa a Harry, quase como um sussurro aterrorizado. – Ela vive me atendendo e atendendo a -.

Seus olhos arregalaram-se ainda mais quando percebera onde aquela conversa estava levando. Sua mão tremia loucamente quando tocou o braço de Harry.

- Rostova já encontrou seu próximo alvo, e eu sei quem pode ser.

- Mike! Ginny! Potter!

Os três voltaram-se mais uma vez para a porta, desta vez encontrando um homem de cabelos castanhos ainda sujos de neve, bem como seus ombros. Ele respirava com dificuldade e Ginny percebeu o desespero em suas íris.

- Connor? – Harry perguntou com as sobrancelhas erguidas, mas David não lhe deu tempo.

- Temos um problema.


- Senhor, Hermione Granger acabou de me enviar uma foto de Nikolai Rostova, junto com os últimos arquivos descobertos. – um Auror calvo e com óculos com aro de tartaruga abriu a porta, com uma pasta em mãos. – Michael Stuart acabou de nos enviar estes arquivos, e disse que o senhor pode se sentir a vontade de enviar seu irmão o momento que quiser. Ao que parece, Camila Oliveira já enviou seus homens para o Departamento britânico.

- Obrigado. Pode deixar a foto sobre a mesa, por favor. – Mark respondeu, sem sequer erguer os olhos do documento que estava lendo.

O homem obedeceu, mas mesmo depois de ter fechado a porta, Mark ainda estava ocupado demais em parar sua leitura para observar aquela foto. Ocupado demais em suas próprias guerras, próprias lembranças.

Por mais que, não soubessem nada sobre o suposto assassino que vinha aterrorizando o Reino Unido e à Rússia, Rostova não era potencialmente um problema prioritário seu.

Claro que, por mais que fosse odioso admitir, ele concordava com Oliveira sobre o Departamento britânico. Stuart havia deixado o lugar amaciado demais para que realizassem algum trabalho decente. Imaginou se, com o retorno de Potter, o local voltaria a ser da forma que um dia fora: local de excelência, que havia inspirado todos os outros Departamentos a ser tão bons quanto eles.



A porta de seu escritório abriu-se mais uma vez, e ele sentiu-se de alguma maneira completamente aborrecido. Onde estava àquela maldita historia de hierarquia? Que batessem na maldita porta, porcaria, ele era o chefe ali dentro.

Aliás, não tinha um Auror à porta de seu escritório? Por que diabos o infeliz, que mais parecia um armário do que um homem, não lhe informara que havia alguém mais uma vez para incomodá-lo com -.

- Ei, Rutherford.

O som daquela voz interrompeu e bagunçou completamente sua linha de pensamentos. Ele ergueu o rosto e seus olhos encontraram-se com os verdes de Camila, os cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo, de braços cruzados e o encarando com uma das sobrancelhas erguidas.

Ele observou seu queixo erguido arrogantemente, seu olhar de superioridade e, subitamente, ele sentiu-se furioso por perceber porque diabos o Auror não havia lhe informado sobre sua entrada. Aquela mulher era temida até mesmo entre seus maiores Aurores, especialmente depois que eles haviam assistido o punho pequeno da dela atingir o rosto de seu chefe e deixá-lo marcado por duas semanas inteiras.

E isso, nem ela nem ele ainda eram chefes respeitados. Quem poderia imaginar o que ela seria capaz agora, anos mais tarde?

Entretanto, algo o incomodou. Camila estava com o uniforme brasileiro – a capa longa e negra, com a bandeira de sua pátria no ombro esquerdo – e ele julgou que ela tivesse acabado de sair do país. E, sinceramente, ele duvidava que ela saísse de seu confortável Departamento para ter uma conversa amigável principalmente com ele.

- O que você está fazendo aqui? – sabia que tinha sido grosseiro, mas não importava. Já fazia muito tempo que ambos vinham se tratando assim para que ele, apenas por sucumbir à sua curiosidade, fosse educado.

Ela também pareceu não se importar.

- Há algo que tem me preocupado e que acho que precisamos conversar. – ela respondeu, sentando-se à frente dele sem sequer ter recebido permissão para o mesmo. Ele segurou-se para não bufar. Camila nunca fora de pormenores.

- É tão importante assim a ponto de você ter saído de seu país? – ele provocou, tornando sua atenção aos papéis, ignorando-a propositalmente. Ela não gostou do tom que ele usara, especialmente por saber que ele estava dando a mínima atenção para ela, parecendo muito mais interessado em observar uma foto que havia acabado de pegar. – Você sabia que já descobriram a face de Rostova? É uma mulher.

Aquilo chamara a atenção da Auror. Subitamente, ela franziu o cenho e pareceu compreender alguma coisa inalcançável aos olhos de Mark.

- Então, como ocorreram os ataques sexuais? – ela perguntou a ele. Mark ergueu os olhos da fotografia, mais uma vez encarando-a nos olhos. Ele conhecia aquele olhar, pensou.

- Outro assassino, talvez? Eu não faço a menor idéia. – ele deu de ombros, franzindo o cenho. – Vamos ser realmente sinceros, para que estamos nos metendo nisso, afinal? Não é como se -.

- Quase todos os diretores internacionais e gerais teriam sido mortos se você não tivesse percebido a bomba. – ela o cortou, indignada que ele não estivesse se importando com aquele caso. – Você realmente acha que nós não deveríamos nos envolver?

Touché.

- O que você quer, afinal de contas? – Mark perguntou grosseiramente, mais porque detestava admitir que ela estivesse certa.

E, pela primeira vez em sua vida, ele a percebeu receosa sobre o que iria dizer.

- O quão perto você vigia seus homens? – Camila perguntou de repente, parecendo subitamente assumir a postura firme que sempre possuíra. Mark a encarou com uma careta.

- Que isso tem a ver?

- Responda. – ambos se fuzilaram após a ordem da Auror, mas mesmo assim ele respondeu:



- Perto, eu presumo.

- Quão perto? – ela pressionou mais uma vez.

- Camila, eu vou pedir para que se retire se continuar com esse interrogatório sem me dizer o que está acontecendo.

Era difícil ele tentar ser firme, pelo menos com aquela mulher. Camila o irritava tanto que ele já havia desistido de brigar com ela, mas daquela vez estava praticamente impossível suportá-la.

O engraçado fora que ela realmente havia se abalado com aquela resposta, ou fora o que ele acreditara, até que ela finalmente dissera seu motivo de vinda, bem como seu receio:

- Um de meus homens encontrou algo suspeito a respeito de um dos seus. E acho que você não vai gostar disso. Aliás, tenho certeza.


Se alguém sabia não ter sorte, esse alguém era Draco Malfoy.

A Chave do Portal sofrera problemas e no final das contas, ele só pudera realizar sua viagem em direção ao Reino Unido quase quatro horas mais tarde, quando já eram dez da manhã. Isso lhe rendera horas de grande estresse e fúria, ainda mais porque, agora sabendo exatamente quem era Rostova, prendê-la significava uma questão de honra.

Na verdade, Draco sabia que muito provavelmente ele não iria chegar a prendê-la. Ela estaria morta antes que ele lesse sua cartilha de direitos e, sinceramente, pouco se importava se as conseqüências de seu ato seriam pesadas.

O problema era que ele sentia já ter visto aqueles olhos negros mais de uma vez. É claro que não vira o rosto de Rostova quando Harry ajudara a ele e a sua mãe a escaparem das mãos de Voldemort, uma vez que a mulher estava mascarada, mas os olhos dela, frios, calculistas e impiedosos eram algo que ele jamais iria esquecer. Ainda mais porque eles haviam brilhado em puro deleite quando assistiu Lucius Malfoy sangrar no colo do filho até a morte.

Mas ele já havia encontrado com a assassina após a morte de seu pai e sua fuga? Seus instintos berravam que sim, mas ele simplesmente não conseguia compreender quando. E aquilo o estava matando, exatamente porque isso lhe trazia a sensação de que algo de muito errado iria acontecer, e que iria levá-lo praticamente à insanidade.

Além da fúria quase incontrolável que estava sentindo, bem como o mar de lembranças que sua mente se encontrava, ele estava se sentindo extremamente ansioso, mas de certo modo, de uma maneira positiva.

Duas semanas e meia, ele pensou enquanto socava as mãos para dentro do casaco pesado de inverno, ignorando os flocos que dançavam e caiam sobre sua cabeça.

Não se sentiu tão tolo quanto achou que se sentiria ao perceber que precisava, e muito, rever Sarah. Sabia que aquele motivo poderia provavelmente ser pela separação abrupta, sem despedidas na forma como deveriam ser, mas isso não mudava o fato de que ele queria vê-la. A única coisa que o acalmava era admitir que, naquele momento, estava apenas a alguns passos de distância dela, e não mais milhares de milhas.

Ele precisava ouvir sua voz, olhar em seus olhos. Abraçá-la; saber que ela estava bem, e perguntar por que diabos ela saíra da investigação.

Era exatamente por tais motivos que, ao invés de estar se dirigindo para o DICAT, mesmo sabendo que o mesmo já se encontrava aberto graças ao horário, ele estava indo em direção ao apartamento de Sarah.

Quem diria, pensou. Lembrou-se de quando a viu pela primeira vez, bem como das primeiras palavras que havia trocado: ele a detestara.



Seus pensamentos foram imediatamente interrompidos quando seu olhar caiu sobre a multidão que se encontrava na rua, próximo ao prédio da Auror. Sua voz imediatamente sumira, e seu corpo inteiro congelara.

Ele não gostava daquela sensação.

Pessoas cochichando por todos os lados; civis, muitos ainda com seus robes e pijamas, aquele clima de medo. Homens e mulheres andando de um lado para o outro.

Tinha algo de errado.

Apressadamente, Draco começara a abrir caminho em meio àquela multidão. Agora, mais do que nunca, ele precisava encontrá-la. Ele já convivera com Aurores e Comensais tempo o suficiente para saber o que aquele clima de medo e cochicho significava.

Seu corpo fora subitamente impedido por um menor, mas não menos forte. Ele erguera o rosto para encontrar o rechonchudo de Neville Longbottom, fantasmagoricamente branco.

- Malfoy? – ele perguntara com a voz baixa, surpresa. Parecia abalado. – O que você está -.

- O que está acontecendo aqui? – Draco o interrompeu, seu desespero crescendo ainda mais ao perceber as expressões do legista. – Que maldita bagunça é essa?

- Connor tem tentado já faz alguns minutos expulsar toda essa confusão, mas está difícil. – admitira. – Ainda mais porque a mulher que encontrou o corpo continua gritando em choque, obviamente. Até eu, se não trabalhasse com isso, gritaria. O corpo está completamente destruído.

Aquilo fizera com que os olhos cinzentos do Auror arregalassem e seus lábios entreabrissem.

Por favor, meu Deus, não.

Ignorando completamente o legista, Malfoy desvencilhou-se e começou a correr, agora obstinado a chegar ao centro do problema. Sabia que chegara a empurrar um civil da mesma forma que faria um jogador de futebol... Mas dane-se. Aquilo não importava, não agora.

Finalmente, conseguira escapar da massa, que tentava ser dissolvida inutilmente por David Connor. Atrás dele, alguns metros, Draco visualizou o saco preto. O corpo, agora coberto.

Seus punhos cerraram-se. Sequer chegara a escutar os gritos chamando-o, ao fundo.

Não podia ser verdade. Por favor, não podia.

- Cristo, Malfoy!

Ele só reagira quando Harry impedira seu campo de visão, o sacudindo pelos ombros. Seus olhos encontraram os verdes determinados de Harry, mas não conseguira encontrar palavras.

- Quando diabos você chegou? Por que você não foi direto ao Departamento, seu branquelo idiota? Esqueça! – Harry gesticulou furiosamente – Você está no caso, certo? É lógico que está. – Harry girou os olhos, arrastando-o pelo braço para uma roda de Aurores. – Aliás, não deixe que Ginny te encontre. É bem provável que -.

- O corpo, Potter. – Draco falara com a voz baixa. Harry o encarou, não conseguindo ler suas expressões.

- Ah. John Cameron, se eu não me engano.

Aquilo fizera Draco encará-lo com o mesmo ar surpreso que fizera com Neville. Um homem? Então significava...

- Rostova quem fez isso? Foi aquela desgraçada que fez isso? Você viu quem é, não viu? – ele sentiu o ar de volta aos seus pulmões, como se alguém tivesse lhe devolvido a vida. Agora ele se sentia capaz de voltar ao trabalho. Após isso, iria encontrar Sarah. – Potter, foi essa infeliz que acabou com a vida de meu pai.

- Vi, mas essa não é a questão. Não foi Rostova quem fez isso. – Harry comentou enquanto eles rapidamente caminhavam entre os inúmeros Aurores.

Aquilo atraíra sua atenção. Franzira o cenho.

- O que quer dizer com isso?

- Rostova estava muito preocupada em pegar sua vítima. – Harry explicou com a voz fria. – E quem fez isso estava preocupado em abater a única testemunha.

Àquela altura, ambos os homens haviam parado de andar. Mais uma vez, ele não gostara daquela sensação.

- O que quer dizer... Potter, o que você quer -.

- Rostova está acompanhada. Não sei por quem, não sei com qual motivo, mas está. É por isso que existiram os ataques sexuais. Enquanto eu não sei por que ela precisava de um parceiro, acredito que o homem está se beneficiando da parceria. Aliás, é por isso que estivemos por tanto tempo tão crentes de que todos os ataques se atribuíam à Rostova. Ela era quem matava, ele era quem atacava as vitimas. – Harry suspirou cansado, passando a mão pelos cabelos bagunçados numa atitude demonstrando seu claro estresse com a situação. – Eu descobri qual é o ritual. – admitiu ao Auror em voz baixa. – Vou colocá-lo a par em breve, é apenas questão de tempo até receber autorização de Mike para sairmos dessa loucura toda. E nós precisamos agir rápido para resgatá-la ainda com vida.

- Rostova pegou a vítima, então? – ele perguntou em voz baixa. Harry o encarou minuciosamente.

- Sim. Quando chegamos aqui, apenas encontramos a moradora gritando desesperada por encontrar o porteiro ensangüentado na entrada do prédio. E o cara está morto desde as três da manhã, de acordo com Neville.

- E você já sabe quem é?

Mais uma vez, ambos os homens se estudaram. Harry sentiu-se, de certo modo, receoso por despejar-lhe as noticias. De qualquer forma, sabia que Malfoy já estava antecipando este tipo de pensamento, ainda que provavelmente estivesse bloqueando-lhe com todas as forças.

Antes que abrisse a boca para dizer-lhe, entretanto, uma mão menor envolvera o colarinho da camisa de Draco e o puxara para baixo com força descomunal. Harry apenas tivera tempo de esboçar uma careta de dor quando o punho de Ginny atingira descontroladamente a face de Draco Malfoy, enquanto ela o encarava pronta para matá-lo.

Ele a encarou como se ela fosse louca.

- Mas que -.

- Eu vou acabar com você! – ela gritou, ainda com os punhos cerrados. Malfoy recuou um passo, enquanto ela avançava um; no final, fora bloqueada por Harry, que lhe segurara gentilmente.

Aquilo a enfurecera.

- Gin -. – Harry a chamou, mas ela o ignorou.

- Eu juro, Malfoy, eu juro, que se encontrar minha melhor amiga morta, eu vou acabar com a sua raça! Eu vou acabar, está me ouvindo? É tudo culpa sua que Sarah se meteu nessa furada toda!

Sarah.

Fora a ultima palavra que ecoara em seu cérebro antes que ele apagasse.

Continua...

Notas: Sim, consegui atualizar mais um capitulo! E eu disse que as coisas iam começar a piorar! E, se querem saber, isso ainda é o ínicio! ;D Farei pessoas perderem as unhas quando chegar os dois ultimos capítulos dessa fanfic (ou pretendo né xD)

Ah, as coisas no colégio vão piorando, como sempre. Mas já garanti minha vaga no cursinho ano que vem ;D Não é ser pessimista, apenas to cuidando de todos os lados :B RI é curso concorrido, então ser realista é o melhor às vezes xD

Ah, sobre Mark e Camila: eles são dois personagens que eu vou desenvolver em uma fanfic que tangencia essa, como se fosse uma história paralela ao que acontece durante e depois dessa história. (Não vão ser desenvolvidos nessa fic, lógico, uma vez que eles vão ser os principais); eu vou postar essa fanfic no site que a nossa queridissima Ara Potter está criando, e eu espero que vocês possam passar por lá para dar uma lida n.n - é uma outra história que eu tenho me dedicado bastante para começar a desenvolver a trama.

E, como eu sempre disse: todas as cenas tem importância ;D Mark e Camila não foram apenas para apresentá-los a vocês (para que vocês comecem a figurar porque eles se detestam tanto shauehusha e fazer propaganda), não. A conversa dos dois tem importância para a trama, vão por mim.

Sentindo falta do romance H/G? Aguardem... Há algo grande guardado para eles. Eles se incluem no trecho que eu disse sobre roer as unhas.

Espero que tenham gostado do capítulo. Eu sinceramente adorei escrevê-lo! :D

Obrigada pelos comentários, vocês me animaram MUITO

Aliáaaas, quero dar os parabéns à Lady Kourin, que apesar de ter chegado a achar que Rostova poderia ser o Draco, chegou a talvez associar que o assassino poderia provavelmente ser alguem ligado à ele; à Sabrina, por ter sido a primeira a comentar sobre a 'noticia bombástica' da Sarah ser uma possível gravidez (por mais que muita gente possa ter deduzido, ela foi a primeira à comentar sobre isso xD); e finalmente à Flavinha, que me surpreendeu ao perceber que não existia apenas a Rostova como assassina.

É isso. Aguardem o próximo ;D