ÀS SUAS ORDENS
Capítulo 26: O Impossível É Agora
PV: KEITARO
Hora de voltar para casa. Apesar das correspondências com Haruka-san, não sabia exatamente qual seria o Hinata-sou que me esperava.
Todo esse tempo no exterior, neste autoexílio que fiz, aproveitando o fato de ter uma bolsa para mestrado em qualquer lugar do exterior que a Toudai me contemplou. Eu não pretendia usa-la, mas a situação amorosa e familiar me obrigou. Se eu fui covarde, azar! Quando o Seta-san foi trabalhar nos EUA, eu vi naquela atitude uma possbilidade viável de conseguir um distanciamento das garotas e pensar um pouco sobre qual rumo seguir na vida. No final, a Naru estava certa quando disse que eu era igual ao Seta-san.
Mas eu queria fazer diferente. Seta-san decidiu deixar definitivamente tudo para trás; eu desejava resolver os assuntos pendentes ao voltar. Quando eu saí do Japão, eu tinha em mente o retorno ao meu país. Por mais que eu goste de viajar, não há lugar melhor que o lar.
Quando eu decidi pelos estudos no exterior, quis aproveitar a oportunidade de estudar para pensar em meu futuro familiar sozinho. Bem, as garotas levaram a sério, pois elas não foram atrás de mim e nem me enviaram cartas. Nas cartas que a Haruka me remetia, só falava que meus filhos estavam bem, nenhuma outra notícia. No fundo, eu sentia a falta da bajulação...
Enquanto eu me dirigia ao Aeroporto Heathrow, eu me lembrei daquela noite amarga, quando eu desisti das garotas e decidi deixar o Hinata-sou. Eu me sentia tão sozinho e desvalorizado! As garotas me maltratavam tanto, e eu precisava dar um basta se eu ainda queria provar que tinha amor próprio. Alguém disse que não existia melhor antídoto para as feridas do coração que o tempo; esse alguém estava certo.
Eu entrei na aeronave sem saber o que estava me esperando no Japão. De uma forma ambivalente, parte de mim gostava do fato que as garotas estivessem loucas para ficarem próximas de mim e dessem todo o carinho que elas têm por mim; o outro lado temia os paroxismos delas e torcia que elas estivessem felizes sem mim, pois eu tinha medo de novos ferimentos no corpo e na alma.
Eu me sentei na poltrona do avião, fazendo todo o ritual de segurança que as companhias aéreas ditam antes da decolagem; eu já conhecia aquela cantilena de cor e salteado. Depois de uma decolagem bem feita, o avião foi tomando prumo até alcançar a altitude e a velocidade de cruzeiro. Quando o avião se estabilizou nos céus, eu repousei a cabeça na poltrona já reclinada e contemplei o teto.
Quanto mais eu fixava meu olhar no teto, mais pensamentos aleatórios povoavam minha mente, fossem eles bizarros ou não. Com o tempo, minhas pálpebras começaram a pesar lentamente, até o momento em que rendi ao sono. Eu nunca imaginei que pensar a esmo poderia cansar tanto...
Um clarão repentino me acordou. Com dificuldade, eu tentei reconhecer o ambiente onde eu estava. Ainda um tanto travado, eu comecei a me mobilizar para tentar reconhecer o terreno. Pelo jeito, eu dormi na sombra da copa de uma grande cerejeira.
Eu me revistei, e percebi que usava um keiko-gi e uma hakama, ambas azul-cobalto, e eu tinha uma katana (1) embainhada. Eu calçava um antigo tamanco, além de carregar uma bolsa com suprimentos e armas. Pelo que eu percebi, eu era um lutador, um guerreiro.
Entre os pertences, eu vi que possuía um mapa. Ao consultar aquela carta geográfica, eu notei que o referido material só continha antigas localidades do antigo Império. Eu estava vivendo na época do xogunato! Pelas referências que eu pude captar no momento, tais como o mapa e meus apetrechos pessoais, eu calculei que estava em algum momento entre 1200 e 1400 d.C. As vivendas e os templo budistas iam confirmando minha suspeita.
Eu via tantas pessoas, mas eu tinha medo de conversar com elas. Eu me sentia um intruso, e o meu palavreado do século XXI poderia se um fator negativo para mim. Eu fiquei atônito! Como eu poderia pular no tempo? Viagens temporais são um grande desafio, pois mesmo a mecânica de Einstein coloca diversas condições para a ocorrência de tal jornada. Não, só poderia ser um sonho...
De alguma forma, eu senti que deveria ir a um lugar. Eu tive a impressão que eu estava no papel de uma personagem que vivia naquele tempo e que tinha uma missão a cumprir. Como eu não sabia o quer fazer, eu decidi seguir essa sensação intuitiva e rumei adiante.
Eu caminhei por dois dias, alimentando-me de frutas que eu colhi pelo caminho, até chegar ao litoral. Eu olhei para o platô e tive a sensação de dèja-vu. Mas é claro, é o local onde será construído o Hinata-sou! No lugar do prédio tão familiar a mim, existia uma ampla casa colonial. Uma casa daquele tipo indicava que o habitante dali não era um camponês; era alguém que tinha algum tipo de habilidade laboral mais elaborada e que tinha o conhecimento da escrita. Enfim, um trabalhador intelectualizado.
Como um sinal de respeito, eu não entrei na casa. Eu decidi me deitar entre as raízes de um salgueiro que estava próximo da casa e descansar um pouco, enquanto eu esperava a chegada do morador.
Como isso foi acontecer comigo? Eu estava dentro de um avião, sobrevoando a Europa; agora, eu estou em algum momento do Japão feudal, no mesmo local onde deveria estar o Hinata-sou. Como eu não conseguia ter uma resposta, decidi cochilar ali mesmo. Provavelmente, o dono da casa me acordaria ao avistar-me.
Eu senti uma mão a balançar-me suavemente, despertando-me de uma boa cochilada. Eu esfreguei os meus olhos, até que eu pudesse visualizar o que estava na minha volta de uma maneira satisfatória.
Foi quando eu percebi que a pessoa que me acordou era uma bonita senhora. Pelo aspecto, não deveria ter mais que 40 anos de idade. Ela usava um keiko-gi branco e uma hakama vermelha e um colar preto; ela possuía um longo cabelo, negro como o ébano e amarrado em forma de rabo-de-cavalo com uma longa fita branca. Ela também portava um arco, além de carregar um cesto de flechas nas costas. No colar preto, havia uma linda pérola azulada.
Ela portava um discreto sorriso, o qual foi quebrado somente quando ela me dirigiu a palavra: "Bem, eu acho que você está plenamente acordado, não é?".
Eu devolvi o sorriso e respondi: "Oh, é claro, deixa-me levantar...".
Eu me ergui e então eu estendi a mão. Eu percebi que ela não conhecia aquele tipo de cumprimento, pois ela ficou olhando com descrédito para minha mão. Eu retraí o braço e fiz a saudação tradicional de corpo, dizendo: "Desculpa-me, eu não quis ofendê-la...".
A jovem senhora sorriu, tapando a boca com a mão, e então ela respondeu: "Não se preocupe, Seishou-san, você parece um tanto deslocado...". Naquele momento, eu tive a impressão que ela sentiu que eu não era o homem que ela chamou de Seishou...
Então, eu estou no corpo de um homem chamado Seishou... Eu não tive quaisquer pistas de alguma personagem medieval chamada Seishou. Aliás, eu nem sabia quem era aquela mulher... Mesmo constrangido, eu decidi arriscar e perguntei: "Você é a pessoa que encomendou os meus serviços?".
Ela se dirigiu para o interior da casa, dizendo: "Sim, eu sou a requerente. Eu sou Kikyo, a feiticeira da colina Hinata. Incomoda-lhe trabalhar para uma feiticeira?".
Eu tentei parecer inabalado e respondi: "Não me importa quem deseja meus serviços, desde que seja em nome da justiça... Eu só estou intrigado por quê uma feiticeira tão poderosa necessita do auxílio de um ronin!".
Bom, eu concluí que, se eu fui um ronin dos tempos modernos, então eu voltei na pele de um ronin do período sengoku (2). No meu bogu e na minha katana não existiam quaisquer sinais de que eu pertencia a um exército de um xogum. E eu me lembrei que existem muitas lendas sobre a feiticeira Kikyo; ela foi uma bruxa muito poderosa na própria época, e que ela havia libertado muitos vilarejos das ameaças de diversos youkais (3). Vejam só, eu estava na frente de uma famosa personagem do folclore nipônico.
Quando ela alcançou a porta dos fundos, ela se virou na minha direção e chamou-me com um gesto. Eu obedeci e fui até onde ela estava. Ela pediu que eu entrasse. Eu novamente obedeci e adentrei o lar de Kikyo. Era uma casa simples, mas aconchegante. Eu pude ver, ao entrar na sala, que ela possuía diversos manuscritos e dispostos em algo que lembrava um grimore (4). Ela me indicou o local onde eu deveria me sentar. Ela foi até a cozinha e voltou com uma bandeja, na qual havia duas xícaras e um bule; abaixo do bule, havia um recipiente que continha algo semelhante a uma vela. Ela acendeu a vela e abriu a boca do bule, colocando algumas ervas maceradas na água contida no bule.
Ela se sentou na minha frente, olhando-me com uma calma que parecia transcender o infinito. Enquanto nós esperávamos pela ferveção da água, Kikyo decidiu quebrar o gelo: "Então, Seishou-san, você sabe o porquê da minha chamada?".
Eu respondi: "Não, e eu gostaria muito de saber!".
(CONTINUA)
Capítulo escrito entre 11/09/2006 e 16/09/2006. Kikyo é uma personagem do mangá e anime InuYasha, cuja obra pertence à autora Rumiko Takahashi e à editora Shogakukan. Eu decidi criar uma nova aventura para Keitaro, vamos ver onde isso vai parar! Eu também decidi tomar alguns personagens emprestados de outras obras (não é a primeira que faço isso na saga). Eu gostaria de agradecer todos os reviews dados até agora, e é muito bom saber que a minha obra está agradando.
Eis a explicação para as notas feitas:
1. Katana: A katana é a famosa espada curva do samurai.
2. Sengoku: É o período feudal japonês, caracterizado pelo xogum (shogun, o senhor feudal japonês) e pelo xogunato. Começou em 1192, quando o daimyo (antigo senhor feudal) Minamoto Yoritomo, após uma grande guerra civil, tornou-se o primeiro xogum e instarou a descentralização do poder imperial, fazendo que os outros daimyo se tornassem xoguns e participassem desse poder paralelo denominado xogunato. Foi na era Sengoku que surgiram os samurais, guerreiros leais a um xogum. O xogunato durou até 1871, quando o poder imperial japonês conseguiu finalmente abolir o sistema feudal após uma guerra iniciada no ano anterior.
3. Youkai: É o nome que designa qualquer ser fantástico capaz de manipular forças da natureza (como comandar seres vivos ou alguma manifestação climática), geralmente representado por uma forma humanóide. Essa entidade folclórica japonesa é semelhante ao curupira e ao saci-pererê da cultura brasileira, ou aos duendes e elfos das mitologias européias.
4. Grimore: É um livro pessoal de magias. O nome vem dos antigos manuais que todo mago celta devia possuir, denominados "grimoire".
