Disclaimer: Por muito que adore a história e as personagens do anime Shingeki no Kyojin, estas obviamente não me pertencem e todo o crédito vai para a criatividade e talento do Isayama Hajime.

-X-


Opção ilusória

Os cabelos castanhos cobriam o rosto abaixado, onde era visível o rubor na face. A isso juntava-se o arfar cada vez mais constante. Os seus instintos digladiavam-se entre si, mas o corpo sentia-se cada vez mais febril e tomado pela forma como tinha sido ensinado a agir. Mesmo o controlar da respiração tornou-se impossível com as feromonas que infestavam o ar, invadiam os seus instintos e baralhavam as suas vontades e inclusive os seus pensamentos.

As mãos do moreno tremiam, agarrando os lençóis da cama. A mente enevoava-se cada vez mais com um desejo que o fazia regressar às primeiras vezes que teve contacto com um Ómega naquele estado. Submisso e necessitado por Alfa. A situação apenas piorava com as lágrimas e os pedidos consecutivos para que o ajudasse, para que o recebesse sem hesitação.

Inicialmente, os argumentos preencheram aquele espaço, mas depois do outro ingerir o que seria certamente uma cápsula que não suprimia, mas reaviva as reações do organismo em época fértil, o moreno sentia-se cada vez mais desorientado. Os seus instintos chocavam entre si, implorando por um lado para ir em busca do seu Ómega, por outro lado apontava para o erro em deixar aquele Ómega à sua frente naquele estado.

Aquele Ómega à sua frente chamava, implorava, suplicava por ele. Pelo seu toque, carinho.

A parte racional tentava alertá-lo para as consequências e também para expulsar o loiro do quarto, pois a forma como estava a forçar a situação não era justa para nenhum dos dois. Porém, as outras vozes também se faziam ouvir. Aquelas que lhe diziam que aquele Ómega estava ali a oferecer-se de bandeja, quase desesperado por ele e ao seu alcance.

Ao teu alcance. Basta uma palavra.

Basta que estendas a mão ou te mostres recetivo e podes terminar com a dor de ambos.

Ao contrário do outro, pelo qual podes esperar, mas tu és Alfa tens que tomar, possuir. Não tens que esperar. Tens que tomar o que é teu.

O loiro usava as suas feromonas de um modo tão insinuante que era quase impossível não deixar que os seus instintos quisessem responder. Ele sabia exatamente o que fazer para remexer com aquilo que de mais carnal havia nele e embora, não quisesse admitir em voz alta, era atraente. Era aliciante ver alguém com aquele tipo de controlo das feromonas.

Abanou a cabeça.

- Não… não… - Repetia a si mesmo.

Se caísse na tentação, poderia perder aquele que mais queria. Mesmo que nas poucas vezes que o tenha tido nos braços, ele não se mostrasse totalmente entregue e demonstrasse medo.

Quanto tempo terei que esperar? Porquê esperar? Eu posso ter este agora.

Forçou-se a empurrar esses pensamentos para longe. Disse a si mesmo que estava disposto a esperar. Então porque era tão difícil? Por que razão a sua mente insistia em mostrar-lhe todos os momentos em que Levi mostrou medo e o rejeitou. Mesmo a última vez em que o moreno o parou, esperava algum tipo de compreensão, mas com certeza, Levi não sabia o que era a Marca. Não podia deixar que o marcasse naquela ocasião com tantos problemas por resolver.

Então por que razão, o Ómega também não fazia um esforço para compreender o lado dele?

Estou disposto a esperar, mas à mínima oportunidade aquele Ómega rejeita-me. Não aceita que é meu. Vira-me as costas. Responde-me. Afasta-me mesmo que eu esteja disposto a tudo por ele. Estou disposto a arriscar a minha vida por ele, mas parece que não importa o quanto tente provar que é meu, sempre está à espera de mais.

E este…

Este quer, deseja-me sem dúvidas ou hesitações. Como já o fez antes. Em total submissão.

Ergueu o rosto ao sentir a mão do loiro no seu rosto.

- Eren não tens que resistir mais.

- Levi…

- Sabes perfeitamente que não o podes ter. - Sussurrou perto dos lábios do Alfa. - E a mim, podes ter quantas vezes quiseres. - Intensificou ainda mais as feromonas e desviou a boca até ao pescoço do Alfa que deixou um pequeno som escapar da sua garganta. - Sou todo teu, Alfa.

Em outra divisão da casa, mais concretamente no escritório Hanji colocava mais algumas questões ao Ómega de cabelos negros. O rapaz tentava responder objetivamente, ou seja, sem expandir demasiado a informação. Um gesto pouco apreciado pela investigadora que queria que o outro desse explicações ou respostas longas. Porém, o limite estava naquilo que ele sabia e podia de facto, partilhar com a Beta que ainda assim agradeceu pela conversa até concluir que já seria um pouco tarde e ambos, teriam que descansar e preparar-se para o dia seguinte.

A manhã seguinte seria substancialmente diferente para o jovem com heterocromia. A possibilidade de ver-se obrigado a abandonar aquela casa com o Comandante tornava-se cada vez mais real. Por muito boa vontade e quem sabe, bons argumentos que Eren e Carla tivessem, não conseguia imaginar um cenário em que pudesse ficar naquela casa.

Infelizmente, aos olhos da lei, o Comandante era o seu proprietário e consequentemente, nada o impedia de recolher os seus Ómegas. Algo que Armin já lhe tinha explicado em outra ocasião. Portanto, restava-lhe depositar as suas esperanças nas outras hipóteses de fuga que cogitou e até já tinha os materiais necessários. A única coisa que necessitava, seriam as oportunidades certas e depois deixaria que os conhecimentos que obteve e já possuía previamente, ditassem a sentença daquele Alfa doentio.

- Vou dormir no quarto com a Sasha, uma vez que pode precisar de mim. - Bocejou. - Até amanhã, gatinho.

- Até amanhã, Hanji. - Murmurou Levi, vendo a investigadora afastar-se.

Ouviu movimentos na cozinha e pelas feromonas deduziu tratar-se de Carla, mas mais do que aquela Ómega queria ver o filho dela. O correto e até o mais seguro seria manter-se afastado do moreno para que as feromonas dele não incitassem mais a violência por parte do Comandante, mas a ideia de que não pudesse estar com Eren nos próximos tempos, fez com que quisesse pisar o risco. Não queria dormir sozinho. Queria dormir e acordar novamente nos braços daquele Alfa para que essa lembrança lhe desse forças para suportar o que viria pela frente. Queria uma última memória com ele, antes de distanciar-se por um tempo indeterminado. Queria desfrutar daquele carinho do qual sentiria saudade.

Um pouco envergonhado pelos pensamentos deteve-se momentaneamente no corredor, antes de respirar fundo para tranquilizar e anular grande parte das suas feromonas. Não queria que o jovem de olhos verdes pudesse detetar aquele tipo de pensamento ou sensações, ainda que fosse cada vez mais difícil esconder a forma como o afetava.

Assim que se julgou mais calmo e com as feromonas e instintos debaixo de controlo caminhou em direção ao quarto do moreno naquela casa. Tentou distrair-se com algumas fotografias que viu, onde pôde ver mais claramente como nessas imagens, o moreno aparecia quando era mais novo e acompanhado pelos pais. Apenas nessas fotografias, o Ómega viu pela primeira vez o rosto do Dr. Jaeger, tão famoso na superfície e ainda assim, um mistério para ele. Não possuía uma opinião formada acerca daquele homem de quem apenas conhecia o nome, os rumores e a admiração. Questionou-se apenas até que ponto seria verdade e quanto isso afetaria a sua vida. Recordava-se das palavras do seu último proprietário.

"O dinheiro, o prestígio, a fama, tudo isso se resume a poder… e o poder corrompe".

Contudo, a forma como Carla e Eren falavam do esposo e pai respetivamente levava a crer que essa não era uma afirmação válida para qualquer pessoa. No entanto, sabia que não devia fazer juízos de valor, antes de conhecer o tal Dr. Jaeger pessoalmente.

Estava a poucos passos do quarto, quando os seus pensamentos foram cortados pelas feromonas e ruídos que causaram-lhe um frio no estômago. A respiração deteve-se por breves momentos ao dar alguns passos cuidadosos em frente, mesmo que algo lhe dissesse para recuar. Um pressentimento que não seguiu, pois a curiosidade mostrou-se mais forte.

A porta encontrava-se ligeiramente entreaberta. Uns ínfimos centímetros provaram ser o suficiente para que um nó na garganta se instalasse na sua garganta. Mais do que um nó, uma sensação de que não respirava como devia e um sentimento que não era capaz de colocar em palavras esmagava o interior do seu peito.

Era tão estúpido, mas jurava que por alguma razão que não compreendia lágrimas queriam acumular-se nos seus olhos. Porém, essa sensação fez com que recuasse de imediato, forçando-se a manter as feromonas sob controlo e com isso, fazendo aquilo que fazia de melhor. Trancar dentro dele as emoções. Encerrá-las, esmagá-las, empurrá-las para um lugar que não as permitisse alcançar a superfície.

Parou por alguns instantes no meio do corredor. Um desnorteio total na sua mente.

Os seus instintos cravavam nas suas memórias as imagens que soube que com certeza, não deixariam a sua mente. Eren estava sobre Armin com movimentos ocultos pelos lençóis, mas que não escondiam os arranhões nos braços do moreno e como gemiam contra a boca um do outro, como se mais nada importasse naquele momento.

Recuou mais alguns passos e deu costas ao corredor que o levaria até ao quarto, regressando até à zona da cozinha. Aí quase esbarrou com Carla que surpreendida, sorriu ao ver o rapaz.

- Estive a preparar alguma coisa quente para beber, mas pensei que já estivesses no quarto com o meu Eren e ia ver se a Hanji…

- Ela também já se foi deitar. - Falou, desviando o rosto.

- O Eren ainda está acordado, não está? Deixa-me ir chamá-lo e… - Parou de falar ao ter o seu braço agarrado pelo jovem com heterocromia e então, percebeu que havia algo de errado na postura do outro. - Levi? O que foi?

- Não o vá incomodar agora.

- O que aconteceu? Sei que ainda não devia estar a dormir, porque vi que o Armin foi falar com ele. Provavelmente para lhe contar o que aconteceu e eu também queria falar com ele. - Disse, vendo como a referência ao outro Ómega, também parecia incomodar o jovem que teimava em não largar o seu braço.

- Eu aceito a bebida quente. - Falou, sentindo a garganta seca.

Carla voltou-se para o jovem, estranhando como ele evitava encará-la. Percebeu que a razão para aquele comportamento só podia estar ligado ao filho, mas a sua mente demorou mais um pouco em juntar as peças. Eren estava a conversar com Armin desde que tinha chegado do trabalho e Levi insistia para que não os incomodasse, demonstrando um comportamento tão estranho que só lhe ocorreu uma razão.

- Não, o Eren não…

- Por favor. - Pediu Levi. - Não faça nada. Deixe estar.

- Mas Levi, ele não pode fazer uma coisa destas! Mesmo que seja por causa daquele namorico entre o Jean e o Armin! - Revoltou-se Carla. - Ele pode ser grandinho, mas ainda está a tempo de receber umas boas palmadas e o sermão da vida dele!

- É um comportamento normal de Alfas. - Falou num tom monocórdico. - De onde eu venho, nada disto é novo. Ele não me deve nada. Os Alfas podem ter quantos Ómegas quiserem. Eles podem fazer o que…

- Isso não é assim! As leis, as convenções bem podem tentar convencer-me do que quiserem, mas os Alfas não têm o direito a…

- Não importa. - Interrompeu Levi. - Deduzo então que posso ficar no sofá.

- Levi…

- Posso? - Insistiu.

- Claro que podes, mas também podes ficar comigo.

- Prefiro ficar sozinho. - Retrucou. - E será que agora posso beber algo quente antes de deitar-me? - Ao ver o ar preocupado da Ómega prosseguiu. - Por favor, peço que não me coloque numa situação desnecessária. Só quero uma bebida quente antes de deitar-me, mais nada.

Inconformada Carla acabou por ceder ao pedido do Ómega, mas sabia que assim que visse o filho na manhã seguinte não seria capaz de evitar, dizer com todas as letras a grande asneira que tinha acabado de fazer.

Assim como tinha pedido, após beber o chá quente preparado pela mãe do moreno, o jovem que não deu mais do que respostas monossilábicas, passou a noite no sofá da sala. Esteve deitado horas a fio sem conseguir dormir, uma vez que por mais que se quisesse convencer de que aquele era um comportamento normal de um Alfa, havia um aperto no peito que não lhe permitia levar aquela situação com naturalidade. Talvez fosse mais fácil dissociar-se dos outros Alfas porque não tinha, nem nunca tencionou ter qualquer ligação com eles. Porém, de alguma forma, quis diferenciar o Eren de todos os outros e por isso, não esperava aquele comportamento. Acreditou que ele não quisesse mais ninguém além dele, mas recordou-se de todas as vezes em que se questionava como aquele Alfa podia querer alguém como ele. Por que razão, alguém que sempre viveu uma vida tão diferente, se interessaria por ele?

Sem querer, sonhou alto demais. Mais uma vez, cometeu o erro de confiar. Não só no moreno, como no loiro que para resolver um problema que ele próprio criou, pouco ou nada se importou com os meios. Com isso não queria justificar as atitudes do Alfa, mas mentiria se dissesse que não existia sequer um pouco de raiva pelo outro Ómega.

Pela manhã quando Carla passou pela sala, já encontrou o rapaz a arrumar os lençóis e a oferecer-se para ajudá-la a preparar a primeira refeição da manhã. Contudo, insistiu para tomar um café antes, alegando que não teria muito apetite para comer mais nada.

A mulher via com preocupação o silêncio do rapaz que bebeu o café, enquanto ajudava a preparar o resto das refeições e exibia umas olheiras carregadas. As feromonas eram quase nulas, o que significava um controlo acima da média do que estava habituada a ver. Porém, esse controlo não surgia sem consequências. Muitas vezes, ocultar as feromonas podia funcionar como um mecanismo de defesa, mas o saudável não era retê-las por completo, uma vez que isso traduzia-se também por uma supressão forçada de sentimentos. Esconder, guardar as emoções daquela forma sem as partilhar, sem desviar aquele peso que se iria acumular não era nada benéfico. Era perigoso até, se fosse tornado um hábito.

Em estudos preocupantes que Carla chegou a ler, por vezes sobre a secretária do marido, descobriu que era possível ocultar e anular as feromonas por longos períodos de tempo. Só que as consequências de uma atividade dessas ao longo do tempo, poderia por exemplo, tornar a pessoa incapaz de expressar ou sentir emoções. Estudos demonstravam pacientes totalmente apáticos, sobretudo após grandes choques que os fazia entrar nesse estado como mecanismo de defesa. Não se podiam magoar mais, se não pudessem sentir.

Recordava-se das questões que colocou a Grisha, sobre como aquelas investigações teriam sido realizadas e o esposo respondeu que encontraram vários exemplos trazidos diretamente da Cidade das Trevas. O que levava Carla a pensar que aquele podia ser um método de vida habitual no subsolo e que mesmo alguém tão jovem como aquele Ómega parecia dominar perfeitamente. Pensava alertá-lo, quando ouviu a campainha e vários passos pelo corredor, o que indicava que os restantes ocupantes da casa estariam a sair da cama. Surpresa, viu o rapaz com heterocromia oferecer-se para ir abrir a porta de casa sem esperar por uma resposta positiva.

O Ómega sabia que havia somente uma visita aguardada e ao aproximar-se da porta confirmou as suas suspeitas. Rodou a chave da porta e abriu-a, encontrando o Comandante. Este último não escondeu o espanto ao ver o rapaz abrir-lhe a porta, mas logo sorriu.

- Bom dia, meu anjo.

- Bom dia, senhor. - Respondeu num tom monocórdico e logo viu a mão do outro tocar no seu rosto para acariciar a sua bochecha direita.

- Não esperava que viesses receber-me à porta, mas devo dizer que é uma surpresa agradável. - Comentou, vendo que o Ómega não o olhava diretamente nos olhos, mas também não se afastava. - Carla, bom dia. - Cumprimentou, deixando o rosto do Ómega que deu passagem ao Alfa para entrar e fechou a porta, mantendo-se perto do Comandante.

- Bom dia, Irvin. - Cumprimentou a mulher. - Não o esperava tão cedo.

- Não fui para casa. - Disse calmamente. - Tive outros assuntos a tratar, devido aos recentes acontecimentos em Sina e pelo que também ocorreu na fronteira.

- Bem… seja como for, gostava de falar consigo, mas preciso de tirar o Eren da cama primeiro e prometo que também trarei o Armin comigo. Com licença. - Disse a mulher, distanciando-se.

Antes de deixar a sala, Carla indicou um dos sofás ao Comandante para que se sentasse e procurou também uma desculpa para que Levi não permanecesse na sala. Porém, Irvin assim que se sentou, pediu ao Ómega que ocupasse o lugar do seu lado esquerdo. Sem contestar ou hesitar, o rapaz limitou-se a obedecer e quando Carla deixou a sala, ele preparou-se para algum comentário que retomasse a última conversa que tiveram.

- Quando sairmos daqui, vais acompanhar-me um local. Preciso que me confirmes a identidade de algumas pessoas.

- Sim, senhor. - Respondeu, continuando à espera do tom de ameaça, mas em vez disso, o homem ao seu lado retirou o telemóvel do bolso e começou a ler informações que iam surgindo no ecrã.

Quanto a Carla acabava de cruzar-se com Sasha, a quem informou da presença do outro Alfa em casa. E embora a rapariga quisesse pôr em prática os conselhos de Levi, concluiu que seria mais fácil começar a praticar com Eren, de quem também já tinha sentido as feromonas.

Sendo assim, Connie ofereceu-se para ir buscar a refeição para comerem no quarto, visto que ele também não demonstrava qualquer disposição para permanecer no mesmo espaço que o Comandante. Quanto a Hanji continuava a dormir com algumas folhas rabiscadas ao seu lado, o que indicava que teria estado acordada até tarde a escrever informações que só ela poderia descodificar naqueles papéis.

Em seguida, Carla preparou-se para ir até ao quarto do filho, depois de se cruzar com um Armin cabisbaixo que correu para a casa de banho. Assim que chegou à porta do quarto, encontrou o filho sentado na cama com as mãos à frente do rosto.

- Achas que este é o momento para te arrependeres pelo comportamento das tuas hormonas? - Carla entrou no quarto, colocando uma das mãos na cintura ao ver a expressão do moreno. - Não tens vergonha? Tens noção do que fizeste? Dizes-me na minha cara que estás apaixonado pelo Levi e no primeiro delírio hormonal que tens, passas a noite com o Armin!

- Não estou orgulhoso do que fiz, mas tu sabes que o Armin teria problemas se…

- Ate quando pretendes encobrir os teus amigos? - Cortou a mãe dele. - A que preço? Como achas que isto vai acabar?

- Eu sei que isto não é certo! - Replicou irritado.

- Então, espero que sejas consciente que o Levi já sabe que tu não consegues manter as calças vestidas e já agora, o Irvin está na sala à espera da conversa que não creio que vá correr bem.

Essa informação despertou por completo o moreno, pois depressa deduziu que o seu Ómega estaria na presença de outro Alfa. Sendo certo que a moral dele não estava no melhor momento, foi incapaz de conter a raiva alimentada pelos ciúmes. Outro Alfa estava com o rapaz, provavelmente perto dele, a tocá-lo, a ter o que lhe pertencia mesmo que não merecesse. Com as feromonas agressivas, territoriais e possessivas a espalharem-se à sua volta, Carla repreendeu o filho mais uma vez, alegando que provocar o Comandante com aquele comportamento só iria piorar ainda mais a situação.

Não obstante os avisos da progenitora, depois de mudar de roupa e passar água na cara, Eren entrou na sala com uma postura que podia ser considerada arrogante e propensa a conflito. Inclusive o "bom dia" saiu entre os dentes e Irvin podia contar pelos dedos o número de vezes que viu o moreno comportar-se daquele modo com ele. Só que mesmo aquela atitude não demoveu a calma inquietante do loiro. Este notou que Carla tentava entre murmúrios pedir ao filho que se tranquilizasse, mas os resultados não eram muito visíveis.

A chegada de Armin à sala serviu como método ideal para dissipar grande parte das feromonas, dado que nesse momento tanto Eren como o Ómega partilharam a expressão de constrangimento. De soslaio Irvin observava Levi, a quem Carla também vigiava com preocupação. O rapaz não exibia qualquer feromona, ostentando uma expressão neutra e postura inalterável perante a situação.

Se por um lado, a mãe do moreno afligia-se com o comportamento inquietante, por outro lado Irvin aguardava por qualquer sinal que mostrasse o quanto a situação era ou não relevante para o Ómega ao seu lado.

- Podes sentar-te também aqui, Armin. - Falou o Alfa de olhos azuis e assim que o rapaz se sentou do lado oposto ao que se encontrava Levi, decidiu acrescentar. - Vejo que não pudeste esperar até ao meu regresso. - Viu o Ómega encolher-se com vergonha.

- Fui eu que o procurei. - Afirmou Eren e a mãe ao seu lado teve dificuldade em manter-se impassível.

- Como sabes, não tenho exatamente um problema em partilhá-lo contigo. Não seria a primeira vez, mas sempre o fizeste por necessidade, ou seja, quando não estive presente quando o meu loirinho mais precisava de mim. - Afirmou o Comandante. - E mesmo assim, nunca o fizeste no dia anterior ao meu regresso por respeito, não é? Para que não tenha que lidar com as feromonas de outro Alfa naquilo que é meu. Pelo menos, não nesta intensidade…

- O Eren não agiu bem, é verdade. - Interveio Carla. - Contudo, queríamos tocar noutro assunto.

- Certo, de qualquer das formas não iria causar problemas pelo que aconteceu, até porque nunca proibi o Eren de estar com o Armin. Mas adiante, qual é o assunto?

- É uma pena que o meu marido também não esteja em casa, mas penso que se for da sua vontade, o assunto pode resolver-se com facilidade. - Começou Carla, lançando mais um olhar ao filho para que parasse de exalar as feromonas conflituosas. - Tendo em conta que já tem o Armin e levando em consideração também a situação delicada em que o meu filho se encontra, pois precisa de um parceiro dentro de um tempo limite, conforme acordado com a advogada… eu gostaria que considerasse a hipótese de deixar o Levi ficar com o meu Eren.

- Carla…

- Tenha em consideração também o seu trabalho que faz com que se ausente muito e ele… - Olhou com carinho para o Ómega. - Ele precisa de atenção e afeto. Alguém tão jovem com um passado tão complicado, precisa de um apoio diferente.

Perante o olhar da mãe do moreno, o rapaz com heterocromia baixou o rosto, olhando para as mãos sobre as pernas. Era difícil manter a indiferença, o controlo sobre as feromonas com alguém que o queria proteger, acolher como se fosse família e ao mesmo tempo que o fazia, arriscava muito mais do que podia imaginar. Nem mesmo aquela mulher imaginava o risco que estava a correr.

O Ómega de cabelos negros podia dizer que estava pasmo com aquele pedido arrojado. Não conseguia conceber um cenário, onde o Comandante concordasse, mas não esperava que Carla estivesse disposta a pedir uma coisa dessas. Mesmo depois do que aconteceu entre o filho e o Armin levou adiante o pedido, com a certeza que apesar de tudo, Levi ficaria melhor ali.

Depois dos acontecimentos recentes, o Ómega queria sair dali, mas também não queria voltar para casa com aquele Alfa, sentado ao seu lado. Porém, se tivesse que escolher, preferia ficar com Carla até ao momento em que estivesse longe dos olhares atentos e então, escaparia com destino a Maria. Iria sozinho, pois continuava a não ser capaz de pensar no Eren ou Armin sem ser invadido por sentimentos de ressentimento.

No fim, confiar nos outros, provava ser mais uma vez um erro.

- Compreendo a situação delicada do Eren. - Declarou Irvin. - No entanto, devo dizer que o Levi não veio para a minha casa porque pedi ou porque o fui recolher. Como o Eren terá dito, ele viveu toda a vida na Cidade das Trevas, o que faz com que tenha comportamentos desviantes e por vezes, imprevisíveis. Portanto, deram-me a guarda dele, alegando que seria a pessoa mais adequada para ocupar-me da reabilitação dele e consequente inserção na sociedade. Trata-se de um caso complexo e mesmo com alguma falta de tempo, essa foi a decisão do General Zackley. - Explicou e em seguida pôs a mão sobre os cabelos negros do rapaz e ignorou o rosnar do outro Alfa que recebeu uma cotovelada da mãe. - Além disso, convenhamos que esse pedido veio num momento caricato, visto que ao mesmo tempo que me pede algo assim, o Eren passa a noite com o Armin. Por uma questão de respeito para com o Levi, não penso que seja o mais adequado.

- Respeito? - Interrompeu Carla. - Há por aí Alfas com um harém de Ómegas em casa.

- Com certeza, não posso falar pelos outros, mas apenas por mim. - Retrucou. - Diz-me Levi, alguma vez sentiste as feromonas de outro Ómega em mim que não fosse o Armin? - Indagou. - Pese embora, as minhas ausências sempre fui fiel aos meus Ómegas. Isto não é uma questão daquilo que a sociedade permite, mas sim de princípio que ajuda a construir relações sólidas de lealdade. O que ele precisa também é de estabilidade, algo que alguém tão jovem como o Eren…

- E o que ele quer não conta? - Interveio o moreno.

- Antes de mais nada, responde à minha pergunta, Levi. Alguma vez sentiste as feromonas de outro Ómega que não fosse o Armin?

- Não, senhor. - Respondeu com um nó na garganta.

- Queres ficar aqui ou voltar para casa comigo?

Levi não esperava a pergunta. Pensava que o homem ao seu lado tomaria a decisão sem questioná-lo. Contudo, deduziu que a questão era uma armadilha. Não era real, no sentido de procurar uma resposta honesta. Aliás, a verdade como palavra ou conceito não esteve presente em momento algum nas palavras do loiro, exceto quando afirmou que não procurava outros Ómegas. Sendo certo que Levi sabia ser um presente do General Zackley para ser utilizado como o Comandante quisesse e não pelas razões politicamente corretas que apresentou, o certo é que Irvin podia ter quantos Ómegas quisesse, mas não fazia uso desse direito.

Na Cidade das Trevas, os Alfas tresandavam a feromonas de dezenas de Ómegas. O conceito de lealdade não existia. As relações que via por exemplo entre os amigos de Eren não existiam. A ideia de casamento que Carla explicou, quando lhe mostrou uma foto da cerimónia também era uma ideia desconhecida no subsolo. Pertencer exclusivamente a alguém por vontade própria durante o resto da vida não lhe parecia uma ideia real.

Porém, mesmo com os seus defeitos e consciente de que nem todos os Alfas o fariam, a verdade é que a ideia de compromisso, relação, lealdade e fidelidade existiam na superfície. Segundo Carla lhe tinha explicado, o compromisso era um ato carregado de sentimentos especiais reservados àqueles que se amavam. O que o levou a comentar o quanto as palavras relacionadas com sentimentos desse tipo o confundiam. No entanto, pelo percebeu, amar alguém, gostar de alguém tornava o compromisso, a lealdade, fidelidade, confiança, respeito coisas simples e normais entre essas pessoas que decidiam ficar juntas. Não era uma obrigação reger-se por essas ideias, era natural, era habitual segui-las.

E se era assim, por que razão…?

- Está a colocá-lo sob pressão. - Acusou Eren.

- Não sou eu que estou a demonstrar um péssimo controlo das feromonas. - Retorquiu o loiro de imediato. - Tens uma forma peculiar de demonstrar carinho pelo meu Levi. Queres disputá-lo mesmo depois de passar as últimas horas com o meu Armin. É uma forma estranha de demonstrar que gostas dele, não achas?

- Não admito que coloque em causa… - Parou de falar e apenas não avançou porque a mãe segurou-o pelo braço.

- Eren! - Repreendeu-o.

Ele tinha razão. Pôs em palavras exatamente o que atormentava o Ómega. Se gostava dele, então porque teria passado a noite com outro? Mesmo que fosse para encobrir o amigo, devia aceitar uma coisa dessas? Quantas vezes teria que o fazer? Devia sujeitar-te a dividi-lo com outros? Isso ia contra tudo o que tinha escutado de Carla.

E se o Comandante era capaz de não procurar outros Ómegas, por que razão alguém que dizia gostar dele não conseguia fazer o mesmo? Pela lógica devia ser mais fácil resistir. Com todos os defeitos que o Alfa loiro podia ter, ainda assim, não procurava outros. E sabia que não era por falta de oportunidade. Ausentava-se demasiadas vezes para poder aproveitar e não o fazia.

Mesmo que tivesse dois Ómegas em casa, assumia compromisso com os dois e não saía disso. E o outro o que fazia? Até onde sabia, tinha passado várias noites com Armin antes. Teve um relacionamento com Marco e quem sabe, quantos mais que não referiu.

Portanto, tal como suspeitara de início Eren queria somente aproveitar-te dele. Passar momentos com ele, como podia passar com outro Ómega qualquer.

"Devia ser só meu, mas se não é… se não quer ser, se acha que não sou suficiente, então…", ergueu o rosto para encarar o moreno quando respondeu:

- Quero voltar para a casa do Comandante.

O choque era visível na expressão do Alfa de olhos verdes e mesmo a mãe não escondeu algum pasmo ao ouvir aquela afirmação sem hesitação, ao mesmo tempo que Armin mantinha o rosto baixo e Irvin não escondeu um ligeiro sorriso, acariciando mais uma vez os cabelos negros.

- Penso que a resposta dele foi bastante clara. - Falou o Comandante, levantando-se. - Agradeço mais uma vez pela hospitalidade e também por teres protegido os meus Ómegas, Eren, mas tenho outros compromissos.

- Espere e não nos vai explicar o que raio aconteceu com a Sasha? - Perguntou Carla, vendo que o filho ainda não saíra do estado de choque e portanto, não iria questionar mais nada revelante.

- Já providenciei uma explicação ontem. - Respondeu. - Gostava que não duvidasse de mim, mas segundo ouvi, o seu marido deve regressar hoje a casa e poderá confirmar se as nossas respostas diferem. Vamos andando, Levi e Armin?

Os dois levantaram-se e nesse momento, Levi desviou o olhar, vendo que Sasha hesitava um pouco, mas entrava na sala chamando também a atenção do Comandante.

- Oh Sasha, vejo que hoje pareces um pouco melhor. - Comentou o Alfa de cabelos loiros.

- Comandante Smith. - Falou, tentando que a voz não tremesse e recordando alguns dos conselhos de Levi para não se deixar afetar tanto pelas feromonas. - Gostava de pedir-lhe um favor.

- Se estiver ao meu alcance…

- Gostava de visitar o Levi, se possível. - Falou, forçando-se a manter os olhos no Alfa que mostrou alguma surpresa, mas respondeu:

- Por mim, não há qualquer problema. É bom saber que… - Olhou para o seu Ómega. - …se tornaram bons amigos.

- Obrigada. - Agradeceu a rapariga que acenou discretamente a Levi que apenas assentiu, como se aprovasse a postura dela antes de lançar mais um olhar que Eren descreveria até com um certo menosprezo na sua direção, antes de virar as costas.

- Espera Levi… - Falou Eren.

- A conversa vai terminar aqui, Eren. - Falou o Comandante, colocando uma das mãos sobre os ombros do Ómega que se manteve de costas para o moreno. - Até porque embora agradeça o que fizeste pelos meus Ómegas, escusado será dizer que este desaforo com o Armin e o facto de não teres pedido autorização para te aproximares do Levi não abona nada em teu favor. Espero que compreendas que estou a ser muito compreensivo, apesar do teu comportamento… com licença. - Saiu, seguido pelos Ómegas, deixando para trás o outro Alfa um pouco desorientada e Carla igualmente perdida com a situação, sem saber o que podia fazer naquela situação.

O Comandante caminhou até ao carro, seguido pelos dois Ómegas e ao abrir uma das portas dos bancos de trás, deixou que somente Armin entrasse. Esse que não se atrevia a encarar o seu Alfa, mas viu com algum remordimento quando impediu que Levi se juntasse a ele, optando por pedir ao outro Ómega que o acompanhasse na frente.

- Tenho que ir à base com o Levi, tu vais ficar quietinho no carro, Armin. - Informou o Comandante antes de ligar o motor do carro. - Essas feromonas estão a incomodar-me…

O loiro encolheu-se ainda mais, vendo como a atenção do Alfa se voltava para Levi que depois de sentar-se, colocou o cinto de segurança. O Alfa notou que Eren se aproximara de uma das janelas e tendo em conta, a atitude do seu vizinho resolveu testar mais um pouco as reações.

- Levi, estou muito orgulhoso de como te portaste ainda há pouco. - Falou, fazendo com que o rapaz o olhasse de soslaio. - Embora, consiga pressentir pelas feromonas que o Eren também esteve contigo, pelo menos teve a decência de não fazer que comprometesse, algo que quero ser eu a ter… - Sorriu de lado. - Seja como for, quero compensar-te. Olha para mim.

O Ómega hesitou por alguns momentos, mas virou o rosto na direção do Alfa que se aproximou do seu rosto.

- Um beijo, meu anjo. - Murmurou antes de encostar os lábios no Ómega que fechou os olhos e ficou tenso sem se mover. - Um beijo a sério…

Tentando relaxar um pouco, entreabriu os lábios e logo seguiu o gosto do outro Alfa que depressa se sobrepunha ao gosto que se ia tornando também amargo, cada vez que pensava em Eren. O beijo durou pouco e por isso, o Ómega pôde afastar-se logo depois sem qualquer represália porque pelos vistos, o Alfa parecia estranhamente satisfeito com alguma coisa.

"Se esta é a decisão certa, porque será que dói cá dentro", questionava-se Levi, encostando a cabeça ao vidro ao seu lado.


-X-

Até ao próximo capítulo *