Capítulo 26: As Muitas Formas de Amar

O que é amor?

Talvez seja uma palavra muito grande para uma pessoa tão jovem pronunciar.

Talvez a experiência necessária para adquirir-se o entendimento do que significa não tenha chegado até mim ainda.

Talvez seja simples, talvez não.

Mas arrisco um palpite.

Amor pode ser a vontade insaciável de ver uma pessoa; mas mesmo quando está encarando a vastidão de seus olhos, não se sente satisfeito.

Pode ser a relevância de erros irreleváveis, mas encarados como simples tropeços do destino.

Pode ser simplesmente a forma doce com as quais palavras e nomes se formam em uma boca; ou ainda, quando elas não se formam.

Pode ser uma amizade que cresce infinitamente, sem fronteiras e receios de erros, pois eles sempre aparecerão.

Pode ser aprender a fazer coisas que não te agrade, mas te engrandece.

Pode ser um sorriso caloroso, ou um toque de mãos, que garante à você de que não está sozinho.

Mas o amor verdadeiro, o verdadeiro amor, é inocente e sem malícia; aquele que ultrapassa barreiras sem se abalar. Mas que também é difícil de se encontrar.

Talvez eu o tenha encontrado, talvez não.

"Elena?" havia uma voz distante a chamando. "Elena?"

A moça que escrevia no diário fechou o pequeno caderno em seu colo e olhou para cima, tentando encontrar a fonte que pronunciava seu nome.

"Bonnie?" Elena achou estranho ver a pequena bruxa na casa dos vampiros que ela não aprovava. "O que faz aqui?"

"Desculpe-me, eu tive que vir." Bonnie se apressou para o sofá que Elena se encontrava sentada na espaçosa sala de estar.

"O que foi? Algo de errado?" Elena se levantou e se inclinou curiosamente em direção à amiga, notando imediatamente que Bonnie carregava o Grimório de Emily consigo.

"E-eu... preciso conversar com você. A sós." Ela terminou a sentença se referindo à presença de vampiros na casa.

Elena entendeu o pedido de privacidade e andou com a amiga em direção aos jardins exteriores da casa. As duas andaram lado a lado até encontrar um banco em meio à vegetação mal cuidada da paisagem, e sentaram-se confortavelmente num ângulo que conseguiam olhar uma para outra.

"Eles conseguem nos ouvir daqui?" Bonnie queria se certificar.

Elena encarou a distância de mais de 50 metros que se encontravam da casa e respondeu sinceramente. "Provavelmente não." Mas não tinha certeza qual o alcance da audição de um vampiro.

"Tudo bem..." Bonnie parecia incaracteristicamente nervosa, mas pareceu tentar se recompor. "Elena," ela começou. "eu procurei o significado de sua ligação com Damon."

"E?" Elena soou curiosa.

"Emily relatou sobre esse tipo de conexão e ficou bem claro enquanto eu lia que o que vocês fizeram só é feito por pessoas com uma relação afetiva muito intensa."

Elena sentiu um frio incumum na barriga. "Hmm... como..".

"Amantes." Bonnie respondeu calmamente, estranhando a rapidez com que a amiga processou as informacoes. "Pessoas que dividem essa conexão estão ligadas por toda uma vida." A voz da jovem saiu com urgência. "Você tem que tomar cuidado."

"O que quer dizer?" Elena questionou. "Com o que eu penso?"

"Sim." Bonnie não precisou pensar muito para responder. "E também ter cuidado com Stefan; se ele descobrir, você vai magoá-lo muito."

"Bonnie, Damon não vai ler meus pensamentos se eu não tiver a intenção de dividi-los com ele. E sobre Stefan, você tem razão. Eu não quero machucá-lo." Elena projetou seus pensamentos para a amiga.

Ela olhou para os lados sem perceber que devaneava da conversa que estava tendo. Damon havia mudado muito desde o dia que ela o conheceu e ela sabia que a pessoa responsável por aquela mudança não era somente ele, mas sim, em grande parte, ela mesma. Bonnie pedia que ela tomasse cuidado, pois agora, Damon tinha a capacidade de acessar sua mente, mas ela achava as palavras, apesar de visando seu bem, um insulto. Elena sabia que Damon nunca invadiria seus pensamentos sem consentimento; ela não só sabia, mas como sentia isso. Elena sentia as intenções de dele como se fossem as suas próprias; aquela conexão tinha duas vias.

Elena sabia dos sentimentos dele. A posição protetora e amável que ele tomava quando ao lado dela. O segredo que os dois agora dividiam era o único segredo que importava em todo o mundo e também algo que lutava de dentro para fora, procurando meios para se libertar.

"Eu acho que eu o amo." Elena confessou para a amiga.

"O quê?" Bonnie pareceu chocada.

Elena olhou para a amiga, que agora a encarava de forma curiosa e falou com veêmencia. "Você me ouviu."

"E Stefan, Elena?" Bonnie não se conformava com a mudança no comportamento da amiga.

Elena suspirou e olhou para o vasto céu azul, tentando escolher suas palavras cuidadosamente. "Eu não sei. Minha conexão com Stefan é muito forte também, mas esse tempo com Damon me fez perceber coisas que nunca pensei ver em uma pessoa. Tudo que aconteceu entre mim e ele nesse curto tempo foi muito inesperado, acredito que seja por isso eu me sinto tão abalada."

"Elena, você não pode ter os dois."

"Eu sei disso."

John Gilbert se posicionou o mais sorrateiramente possível atrás de uma das muitas árvores do bosque que rodeava a casa que Pearl usava como abrigo e esperou. Esperou e esperou por horas até a porta da frente se abrir e bagagens serem posicionadas ao lado da soleira da porta. Pearl ia deixar a cidade, sem a menor dúvida; depois de sua revelação, sua vida se tornara muito insignificante e sua presença totalmente dispensável, mas John não poderia deixar que ela vivesse. Todos os vampiros da tumba deveriam estar mortos e enterrados, e ela não merecia um destino diferente.

Ele viu o ombro da vampira apontar na frente da porta, mas um outro homem de pele escura entrou em sua frente, bloqueando sua mira. Ele não sabia quem o rapaz era, e mataria somente pelo fato de estar confraternizando com vampiros, mas ele tinha somente uma chance para acertar seu alvo principal, portanto apontando sua arma calmamente para a porta da casa.

John viu suas chances se esgotando a cada vez que Pearl sumia de seu campo de visão para buscar mais alguma coisa dentro da casa. Alguns minutos mais tarde, a vampira apareceu por inteiro em sua mira, depositando mais uma nécessaire no chão, ao lado das outras malas, e quando deu as costas para voltar para dentro, John não deixou a oportunidade passar. O tiro com a estaca de madeira foi certeiro e ele ouviu o barulho de onde estava da madeira quebrando os ossos da vampira e acertando em cheio o coração, ele não precisou esperar muito para ver a pele dela tomar um tom azulado e ela tombar para trás, sendo imediatamente tomada nos braços do rapaz negro o qual o nome ele não sabia.

John passou arma para as costas e entrou calmamente em seu carro para sair dali rapidamente. Assim que chegou ao asfalto, ele pegou seu celular e chamou um dos números de sua discagem rápida.

"Xerife Forbes, eu tenho algumas novidades sobre os vampiros da cidade".

Elena se reencostou desconfortavelmente na cadeira e olhou para os lados avistando o lotado Grill ao seu redor. Ela viu Stefan perto das mesas de jogos do outro lado do bar e deu um sorriso inseguro, tentando mostrar que estava pronta para encarar sua mãe adotiva, que por ironia do destino, também era uma vampira. Stefan retornou um sorriso encorajador e quando ela ia responder o gesto dizendo palavras sussurradas que ela sabia que somente ele ouviria, uma figura sombria se sentou na cadeira em sua frente, tapando sua visão.

Ela era uma bela mulher, com traços fortes, sobrancelhas finas e escuras, assim como os cabelos; seus olhos eram de um caramelo esverdeado, mas o formato das órbitas entregava sua linhagem; ela era a mãe de Elena. Inteira vestida em preto, ela era magra e com movimentos sutis e graciosos.

"Você é idêntica a ela, é estranho." A voz da mulher era aveludada e parecia ser totalmente desprovida de qualquer sentimento.

Elena associou a comparação e não pode evitar as indagações. "Conhece Katherine?"

A mulher deu um sorriso forçado antes de responder. "Ela me procurou depois que me tornei uma vampira. Curiosidade genética, acredito." Ela soltou um pouco de ar pelo nariz. "Ela ficaria fascinada com você."

Elena não conseguia sentir nenhum traço de emoção vindo da mulher sentada a sua frente, e aquilo era inaceitável a seu ver. "Por que compeliu aquele homem para se matar depois de ter mandado eu parar de procurá-la?"

"Impacto. Esperava que fosse mais eficaz do que foi."

"Vida significa tão pouco para você?"

"É insignificante." Ela afirmou sem piscar. "É apenas parte de ser o que eu sou."

Elena não acreditava naquilo. Muitos acontecimentos em sua vida a levaram acreditar no contrário. "Não, não é. Eu conheço outros vampiros..."

"Você quer dizer seu namoradinho ali perto das mesas de jogos? Stefan Salvatore. Por que não Damon? Ou você gosta dos dois? Assim como Katherine..."

Elena sentiu o sangue sumir de seu rosto com as palavras e perdeu a fala, mas uma voz em sua mente a lembrou de que não poderia se mostrar fraca em frente àquela mulher. "Por que veio até aqui?" Elena se defendeu. "Não pode ter sido só pra conversar."

"Porque eu estava curiosa a seu respeito." A mulher estudou Elena com olhos atentos. "Mas a verdadeira razão," ela continuou " Eu quero a invenção de Jonathan Gilbert."

"Eu não tenho a invenção."

"Eu sei." A vampira respondeu sucintamente. "Mas Damon tem."

"Ele não vai entregar para mim." Elena afirmou sem ter certeza.

"Você subestima o quanto ele se importa, Elena. Eu sei que ele estava lá fora, somente a alguns metros daqui, ansioso para entrar e ver como tudo está correndo."

"Ele vai matar você antes de entregar o que você quer."

"Antes ou depois de eu matar seu irmão Jeremy, Elena?"

"O quê?" Elena sentiu suas pernas amolecerem embaixo da mesa.

"Pegue o dispositivo, você tem um dia." Sem delongas, Isobel se levantou e sumiu pela porta do Grill, deixando uma estática Elena para trás.

"Jer?" Elena chamou pelo nome de seu irmão assim que escancarou a porta de sua casa, mas não recebeu nenhuma resposta em retorno. Ela fez o caminho das escadas até o quarto dele em um piscar de olhos, só para encontrar seu quarto vazio, assim como o resto da casa. Elena buscou por seu celular e discou o número de seu irmão o que parecia ser a vigésima vez e como na vez anterior, a chamada foi para a caixa postal.

Elena olhou ao seu redor e percebeu que Stefan estava ali, sempre por perto, e sempre com uma sombra de remorso e pena no rosto. Ela piscou demoradamente tentando se lembrar de seu antigo Stefan, aquele que sabia o que dizer e quando dizer e que nunca, em nenhuma circunstância, sentiria pena dela. Ela fixou aquela imagem em sua mente, e quando abriu os olhos, não se surpreendeu em vê-lo no mesmo lugar e com a mesma expressão. Ela queria confrontá-lo, mas não tinha forças para lidar com aquilo no momento.

"Elena?" a voz de Bonnie veio do hall de entrada; a porta havia ficado aberta.

"Bonnie?" Elena desceu as escadas tão rapidamente quanto as subiu. "O que faz aqui?"

"Eu preciso falar com você. Por que está chorando?" Bonnie devaneou.

"Isobel raptou Jeremy. Ela quer o dispositivo de Johnathan Gilbert."

"O quê? Não acredito que ela veio atrás de Jeremy..."

"Nem eu..." Elena passou os dedos entre os cabelos, sentindo mais lágrimas escorrerem por seu rosto. "tão fria..." ela sussurrou.

"Elena, estou aqui por conta do dispositivo." Bonnie confessou, e só então foi que Elena percebeu que a bruxa trazia o grimório de Emily consigo. "Eu descobri o que é: é uma arma," ela abriu o livro encima do aparador do hall. "uma arma contra vampiros."

Stefan que estava longe das duas amigas, se aproximou para olhar a página aberta do livro, mas antes de começar a ler as inscrições do livro, Bonnie começou a falar de novo.

"Johnathan Gilbert nunca inventou nada, toda vez que ele aparecia com uma nova 'invenção', Emily encontrava um oportunidade e enfeitiçava a peça para que ela realmente funcionasse. Essa invenção que está na posse de Damon é uma delas, e como todas as outras, são armas que detectam vampiros."

"Damon nunca vai me entregar uma peça que pode ser usada contra ele." Elena respirou profundamente.

"Eu posso desencantá-la." Bonnie completou. "É um feitiço contrário, muito simples."

Stefan que esteve completamente quieto durante a explicação, finalmente se manifestou. "Elena, deveríamos ir para a mansão. Não temos muito tempo."

Elena olhou para a amiga Bonnie procurando o suporte e ali o encontrou. Enquanto ela saía de sua própria casa, ela pode sentir certo alívio, assim que o objeto estivesse sem o feitiço, ela poderia entregá-lo a Isobel e finalmente sua não-tão-mãe iria embora de sua cidade. Tudo voltaria ao normal novamente, ou assim ela esperava.