A atmosfera estava péssima e ninguém tinha dito nada há um tempo. Jade se sentou em um canto enquanto Hsi se assegurava de que Tso Lan não se aproximaria deles, e os outros demônios se espalharam pelo armazém.
– Isso é ridículo – Po Kong declarou para Hsi Wu, que apertou os olhos.
– O Tso Lan tentou matar a minha escrava! – ele disse irritado, apontando furiosamente para o demônio da lua, que respondeu a acusação com um frio olhar fixo.
– Eu só fiz o que achei que era o melhor – ele disse suavemente e sentiu que tinha falhado. Se ele não tivesse sido tão lento, eles já teriam se livrado da ameaça.
Ele olhou para Jade desejando que a garota fosse inteligente o bastante para ficar calada. Se ela dissesse uma palavra sobre o segredo de Ni Tang, todos os demônios, exceto pelos dois mais novos, estariam a favor de matá-la. Mas isso não seria bom, tudo já estaria arruinado.
Felizmente Jade não tinha insinuado nada, tinha ficado bem quieta depois que ela e Hsi voltaram e o demônio do céu não viu nada de estranho nisso. Ele achava que a garota ainda estava em choque depois que Tso Lan quase a tinha matado.
A única coisa que provava que a garota sabia de algo era o jeito com que ela olhava para Ni Tang, que estava de novo na forma de demônio. Ela achava que ninguém a viu fazendo isso e Tso Lan franziu as sobrancelhas, a garota era realmente uma ameaça agora. Mas agora ele não podia fazer nada, ele perdeu a sua chance.
Hsi Wu abriu as asas ameaçadoramente e olhou ferozmente para o irmão. Ele não conseguia entender por que Tso Lan atacara Jade quando ele sabia que ela era a escrava dele. Bem, qualquer que fosse a razão, ele nunca o perdoaria, e faria qualquer coisa para proteger Jade.
Po Kong suspirou.
– Eu nunca pensei que você faria parte de um jogo infantil assim, Tso Lan. E você, Hsi Wu, não tem o direito de se rebelar contra o seu irmão mais velho – ela disse ralhando com os dois. Então a demônio da montanha balançou a cabeça.
– Vejo que não dá pra ter paz entre vocês. Então é melhor que vocês sigam para caminhos diferentes agora até crescerem um pouco – ela disse.
– Como assim? – Tso Lan perguntou, surpreso. Po raramente usava o seu direito de obrigá-los a fazer alguma coisa.
– Três dos nossos irmãos ainda estão presos no Netherworld. Nós temos que abrir os portais deles o mais cedo possível se quisermos dominar este mundo. De acordo com Shendu, o portal do irmão Xiao Fung é o mais perto, então é o que vamos abrir a seguir – disse Po.
– Isso ainda não explica o que você vai fazer comigo e com o Tso – Hsi Wu comentou em guarda. Ele não estava na sua forma humana, mas ficou perto de Jade se assegurando de que ninguém a machucaria.
– Eu já ia chegar lá, você deveria aprender a ser mais paciente. Você, a sua escrava, Shendu e Ni Tang partirão para abrir o portal enquanto nós, os mais velhos, ficamos aqui fazendo planos. É melhor que você não tenha nenhuma ligação com Tso Lan até vocês dois se acalmarem – a demônio da montanha disse rispidamente.
Hsi ergueu as sobrancelhas, surpreso. Abrir o portal de Xiao Fung foi deixado como responsabilidade dos mais novos? Isso era um grande risco, mas também uma grande honra e ele se sentiu realmente orgulhoso. O demônio do céu olhou para Ni, vitorioso.
Ele achou que viu algo diferente no olhar do irmão menor, Ni estivera muito quieto depois de tomar a forma de demônio. Hsi também estava surpreso com a forma humana dele, era incrível como Ni tinha conseguido criar uma forma tão apropriada para este mundo tão cedo.
– Nós não vamos desapontá-la, Po – o demônio do céu prometeu e estava muito contente que ele ficaria longe de Tso Lan.
– Claro que não, isso está fora de questão – a irmã disse.
Valmont estava vivo.
Jade mordeu o lábio e se obrigou a olhar para Ni Tang, que estava sentado. O cabelo branco dele...
O armazém ainda estava iluminado pela luz azulada de Tso Lan e Jade podia ver muito bem o que estava à sua frente. Olhou para o rosto do demônio polar, que estava coberto pela máscara, e tentou adivinhar como ele seria se a tirasse. Será que ele tinha as mesmas feições de Valmont?
Ele realmente não se lembrava de nada? Ele não pensava sobre o vazio na sua mente e não queria saber o que tinha acontecido antes... disto? Como ele podia andar por uma cidade tão familiar e não se lembrar de nada?
Ela tinha que falar com Ni - não, Valmont, e lhe dizer o que estava acontecendo. Isso não podia ser evitado, no momento os demônios ainda confiavam em Valmont e ele poderia deixá-la escapar. Então o Tio encontraria um jeito de acabar com a maldição e tudo estaria bem de novo.
E talvez a chance chegasse mais cedo do que ela tinha pensado. Só ela, Hsi, Shendu e Ni partiriam para abrir o portal de Xiao Fung e o demônio do céu não causaria nenhum dano. Ele não sabia nada sobre a verdadeira identidade do irmão e Jade acreditava que Shendu não se interessaria no que ela fizesse desde que ela não irritasse o demônio.
Mas de qualquer forma, ela tinha que pensar em como a verdade afetaria o demônio do céu. Jade podia ver que ele realmente se preocupava com o irmão e a garota estava com medo de que Hsi ficasse deprimido ou furioso quando descobrisse que Ni era só um humano.
Por que ela se preocupava com o que acontecia a Hsi?
Hsi Wu era um demônio de verdade, não só uma imagem como Ni Tang. Ela deveria sentir apenas desgosto e ódio dele, mas Jade não conseguia mais se obrigar a isso. Hsi tinha sido enganado pelos irmãos assim como Valmont e ela realmente tinha pena do demônio.
Logo ela tiraria o único demônio com quem ele se preocupava e Jade se sentia péssima. Ela olhou para Hsi, cujos olhos vermelhos brilhavam de excitação, e de repente sentiu como se quisesse envolver os braços ao redor de seus ombros esbeltos.
Então ela balançou a cabeça, não era problema dela se Hsi Wu ficasse arrasado.
Shendu ergueu o olhar para o céu e respirou fundo. Era tarde da noite e nada poderia ser melhor. Bem, tudo seria ainda mais perfeito se Chan estivesse aqui nas suas garras. Mas não se podia conseguir tudo ao mesmo tempo.
No entanto ele estava de muito bom humor, as suas costas agora já estavam quase curadas e ele não tinha que ficar o tempo todo dentro do armazém, e sim podia esticar um pouco os músculos. E ainda por cima, teria a chance de lutar. O portal do irmão Xiao estava localizado em uma prisão cheia de guardas.
Da última vez, eles tinha entrado deixando a Seção 13 prendê-los, mas desta vez não seria tão simples. Ele, Hsi e Ni podiam tomar uma forma humana, mas Ni Tang não podia e nem nunca conseguiria aprender a tomar nenhuma outra forma além do seu antigo corpo. Ele duvidava que alguém tivesse esquecido Valmont e a súbita reaparição dele alarmaria todo mundo.
Nem ele nem Hsi Wu sabiam nenhum feitiço que enganasse os olhos, então eles não podiam esconder o irmão menor de jeito nenhum. E de qualquer forma, era inútil pedir para Hsi, ele adivinharia que algo estava errado.
De qualquer forma, Shendu não se preocupava nem um pouco com os sentimentos do demônio do céu, mas quando em choque ele sempre ficava furioso e perdia o controle, e Shendu não estava com vontade de lutar com ele agora que tinha coisas mais importantes para fazer.
Então ele só tinha que esperar que tudo desse bem e eles libertassem Xiao o mais facilmente possível. Claro que o melhor caminho era pelos túneis, que agora ele sabia que existiam, se eles não tiverem sido destruídos.
A aventura subterrânea anterior deles tinha sido um fiasco, Xiao Fung foi banido de volta e os guardas tinham finalmente descoberto sobre os túneis. A maioria deles tinha sido encontrada e destruída, mas alguns ainda podiam ter restado e talvez os prisioneiros tenham cavado outros.
Qualquer que fosse a verdade, eles tinham que pelo menos tentar. E se não funcionasse, ele pensaria em alguma outra coisa. Agora que ele tinha a chance de mostrar a Bai Tsa que era um bom líder e demônio, Shendu não ia desistir não importasse o que acontecesse.
Ni Tang olhou ao redor e franziu as sobrancelhas debaixo da máscara. Estava quase escuro agora e eles tinham saído de São Francisco. Foi bem fácil, Hsi Wu voou com Jade nos braços, ele saltou com a escuridão protegendo-o de olhos curiosos e viajar foi fácil para Shendu também.
Ele engoliu em seco.
De alguma forma, tudo estava diferente agora. Ele sentia como se algo estivesse zumbindo na sua cabeça o tempo todo e ele não pudesse mais aproveitar o silêncio. O demônio polar quis cobrir as suas orelhas pontudas com as mãos, mas sabia que isso não adiantaria.
Os sons vinham da sua cabeça.
Talvez ele devesse ter estado mais nervoso e questionante se estivesse mentalmente doente, mas não quis se embaraçar na frente dos outros. Eles só zombariam dele.
E aliás, isso tinha começado logo depois que ele tomou a forma humana. Devia significar alguma coisa e Ni Tang não tinha certeza se queria descobrir.
O humano, cuja forma ele tinha tomado, era o do seu sonho. Os demônios raramente dormiam se não quisessem e só isso era o bastante para deixá-lo um pouco preocupado. Ele tinha visto o seu humano interior no sonho...
Talvez a sua mente estivesse tentando lhe dizer algo? Ni inclinou a cabeça, é, devia ser isso. A sua memória estava voltando e era por isso que ele teve o sonho.
O vento aumentara, fazendo o seu cabelo flutuar atrás dele. Também aconteceu com as suas roupas, esfriando-lhe a pele. Ni gostava do frio, era o seu elemento e ele lamentava que não pudesse viajar para o norte e construir o seu próprio reino.
A hora para isso viria mais cedo ou mais tarde. Quando eles libertassem Xiao Fung, o reino de todos os demônios estaria mais perto de novo.
Ele olhou para cima, onde podia ver a figura de Hsi Wu como uma sombra escura. Ni só pôde imaginar como seria poder voar livre pelo céu e ir para onde quisesse. Ninguém mais na família podia fazer isso e ele teve que se perguntar. Por que Hsi Wu tinha asas?
Talvez isso não importasse, da mesma forma que se poderia perguntar por que Bai Tsa não tinha pernas. E pensar em coisas assim nem era útil, ele só estava perdendo tempo.
– Está tudo bem? – a voz de Shendu chiou de repente e para a sua surpresa Ni percebeu que agora o dragão estava correndo bem ao seu lado. Shendu era um corredor mais rápido e podia se manter escondido quase tão bem quanto Ni.
Ni Tang franziu as sobrancelhas.
– Claro, por que pergunta? – ele quis saber. Não era típico de Shendu se preocupar com ninguém... Shendu brilhou os dentes para ele.
– Você parecia perdido em seus pensamentos, irmão. Tem certeza de que nada está te incomodando? – ele perguntou, fazendo Ni balançar a cabeça.
– Eu estou bem – ele assegurou e sentiu algo picando dentro de si. Bem, talvez ele não estivesse, mas...
– Você é quem sabe, Ni – Shendu admitiu e deu um longo pulo, desaparecendo na escuridão.
A prisão para onde eles estavam se dirigindo não era muito longe de São Francisco e os demônios chegaram lá em poucas horas. Tinha se passado cerca de uma hora depois da meia-noite e a lua e as estrelas iluminavam a escura paisagem.
Eles estavam em uma pequena colina cercada pela floresta de coníferas e observavam a prisão, que podia ser vista de longe. Havia luz na torre, mas todas as outras janelas pareciam estar mortas. O vento murmurava em seus ouvidos e parecia despertar a ameaçadora floresta.
Ni Tang observou Jade se envolver nos braços, tremendo por causa do frio, e Hsi Wu imediatamente se prontificou a lhe oferecer a proteção e o calor de suas asas. Ni inclinou a cabeça, ele também tinha notado a mudança em Hsi Wu. Ele parecia estar mimando a escrava e isso era algo que Ni não tinha esperado do irmão.
Shendu também não deixou de perceber isso e bufou ruidosamente.
– Não perca o seu autocontrole, Hsi – ele avisou e o demônio do céu olhou para ele com os olhos vermelhos.
– A minha escrava está com frio – ele declarou. Shendu balançou a cabeça. Agora que Jade era escrava de Hsi Wu, ele não podia fazer nada com ela, mas ainda podia ter o seu tio e Valmont. O dragão olhou para Ni Tang, que estava ao seu lado. Era só uma questão de tempo...
Ele apontou com a cabeça para a prisão.
– Vamos. Xiao Fung pode ser um demônio preguiçoso e paciente, mas ninguém pode suportar tudo – ele disse querendo dizer que quanto mais rápido eles libertassem todos os demônios restantes, mais rápido todos eles conseguiriam o que queriam.
Uns rangidos nojentos puderam ser ouvidos quando os ossos do dragão se contraíram e mudaram de forma durante a sua transformação. Shendu gostou do olhar de nojo no rosto de Jade e quis que a garota tivesse uma visão melhor no escuro para que ela pudesse ver o seu sorriso.
As asas e a cauda de Hsi Wu se atrofiaram e Jade se retraiu quando o ar frio pôde tocá-la de novo. Tinha sido tão quente e agradável ser protegida pelo demônio...
– Você não vai sentir frio por muito tempo, nós logo vamos entrar lá dentro – a voz de Hsi Wu disse perto dela e Jade ouviu que ele tinha tomado a forma de criança. A garota ainda não conseguia entender por que alguém tão forte e velho como Hsi queria fingir ser uma criança, mas agora estava agradecida por isso.
Agora ela não tinha que olhar para cima para ver os olhos do demônio do céu.
– Vamos, então? – a voz de Valmont perguntou e Jade se retraiu de novo. Então Ni Tang também tinha tomado uma forma humana. Era tão... fantasmagórico... ouvir a voz do homem tão de perto e saber que ele não se lembrava de quem realmente era. Mas talvez algum dia...
– Sigam-me – Shendu disse começando a descer e fazendo rolar algumas pedras pequenas. Jade recusou quando Hsi tentou ajudá-la, não conseguia entender o que tinha dado nele agora.
– Eu ainda tenho pernas. E eu não sou estúpida – ela comentou quase caindo quando tropeçou em um ramo. Hsi sorriu.
– Estou vendo – ele disse. Shendu suspirou frustrado e girou os olhos. Se Jade fosse sua escrava, ele nunca a bajularia desse jeito, e sim já a teria feito em pedaços há muito tempo. O que Hsi Wu queria? O demônio do céu nunca tinha se interessado por crianças e mesmo que estivesse agora, por que ele simplesmente não pegava o que queria? Shendu certamente já teria feito isso.
– Os sapatos desta forma não foram feitos para se andar em uma floresta – Ni Tang comentou e Shendu teve que sorrir. Ah, os bons e velhos sapatos italianos de Valmont. Ele ainda não pôde aproveitar o salgado sabor de sangue, mas pelo menos podia se divertir um pouco.
– Se este homem que fala estranho realmente é o meu humano interior, como ele pode se vestir assim? Ninguém poderia imaginar coisas assim quando eu nasci – Ni disse. Shendu olhou para ele.
– Você pode fazer perguntas idiotas ao Tso Lan – ele disse quando não conseguiu pensar em nada melhor. Era irritante que Ni tenha escolhido as roupas que Valmont usava. Teria sido mais fácil se ele estivesse usando o robe azul e preto que usou antes que eles o tivessem tornado um deles. O robe fora usado no ritual e a roupa escura de Ni Tang fora criada com ele.
– Aqui está o túnel – Shendu disse depois de um tempo e removeu alguns ramos espessos. Ele revelou uma entrada escondida de um túnel atrás deles. Era tão pequeno que um humano acima do peso nunca poderia caber, então se todos os prisioneiros de repente tivessem decidido que uma dieta seria muito saudável o motivo poderia ser este.
Shendu se abaixou para olhar dentro do túnel. No escuro, ele pôde ver escadas irregulares indo para baixo e se virou para os irmãos.
– Vamos lá – ele ordenou e desceu primeiro. As escadas não foram muito bem construídas e houve vezes em que os seus pés mal tinham onde se apoiarem. Outras vezes, o corrimão era tão ruim que os seus dedos humanos não podiam segurá-lo e finalmente o dragão bufou irritado e o soltou.
A brisa do vento parecia calma na sua pele e justo quando ele estava começando a gostar, chegou no fundo. Shendu aterrissou suavemente em seus pés e tentou não se preocupar com a sensação de picada nas suas costas. Ele rapidamente saiu do caminho para que os outros não aterrissassem nele e olhou ao redor.
O túnel era bem largo e até um homem alto podia andar sem ter que se abaixar. As paredes, o telhado e o chão obviamente tinham sido construídos às pressas, mas os escavadores pareciam ter tido algumas ferramentas. Shendu acreditava que não tinham sido os prisioneiros, mas homens mandados por alguma organização criminosa que queria que um ou alguns de seus homens visse o sol sem as irritantes grades.
Um som quieto lhe disse que Ni Tang também tinha aterrissado e o demônio polar andou perto dele. Ele estremeceu, olhando ao redor.
– Eu não gosto daqui de baixo. Não há muito espaço – ele disse para o irmão maior, que apenas o olhou com desprezo.
– Um demônio de verdade nunca deixa que o ambiente à sua volta o perturbe – o dragão disse irritado. Ni Tang franziu as sobrancelhas, mas não respondeu quando Hsi Wu e Jade também desceram.
– Aonde temos ir agora? – o demônio do céu perguntou e olhou ao redor em suspeita. Agora eles estavam no subsolo, que era longe o suficiente do seu elemento para fazê-lo se sentir abandonado. Aqui ele não podia simplesmente abrir as asas e voar, ele estava condenado a ficar no chão como qualquer outro. E aqui ele não conseguia dizer qual era a direção certa.
– Sigam-me – Shendu disse tomando a liderança. Ele não era nem um pouco melhor no subterrâneo e da última vez que tinha liderado o grupo aqui, eles tinham se perdido completamente, mas ele não deixou isso ferir o seu orgulho.
Se Dai Gui estivesse com eles tudo seria mais fácil, o demônio da terra poderia dizer a direção certa somente escutando os sons quietos das pedras e da terra. Ele até declarou que a terra cantava para ele, mas ninguém acreditou. Geralmente os demônios não acreditavam em nada que não pudesse ser provado, e já que ninguém mais conseguia ouvir essa "Canção da Terra", eles apenas declararam que Dai era um idiota. Sendo ou não, ele podia passar horas escutando a canção misteriosa que só ele ouvia.
O único som audível era o sussurro quieto de areia e pedrinhas debaixo dos seus pés e alguns gritos de Jade quando ela quase caía. Hsi Wu segurava a sua mão, tornando tudo um pouco mais fácil para ela e dizendo qual era a direção certa.
O ar era mais seco e quente do que do lado de fora. Eles tinham se acostumado com o vento soprando lá, então era um pouco estranho andar pelos túneis onde nenhuma vida parecia existir.
E se eles encontrassem prisioneiros escapando? Os demônios os deixariam ir ou se divertiriam um pouco? Jade realmente não se preocupava com pessoas que ela não conhecia e que eram criminosos, mas ela ainda não queria ter nada a ver com uma matança subterrânea.
Eles andaram em silêncio por um tempo. Shendu e Ni Tang estavam na frente enquanto Hsi e Jade seguiam o rastro. Jade não se sentia bem agora, uma das mãos estava sendo segurada pelo demônio do céu e com a outra ela segurava a caixa Pan Ku. Era como se ela tivesse se tornado uma parte dela, ela a tinha carregado por todas essas semanas e já estava acostumada de tê-la por perto.
De repente, Shendu parou. Ele franziu as sobrancelhas, irritado.
– O que foi? – Hsi Wu perguntou e o demônio do fogo se virou para os outros.
– Parece que o túnel largo termina aqui. Agora nós temos que rastejar – ele disse sombriamente e se afastou para que os outros vissem o pequeno, desconfortável e apertado túnel, que provavelmente levava para a prisão. Talvez os prisioneiros não quisessem nenhum risco e tenham feito a abertura a menor possível para mantê-la escondida.
Jade sentiu a mão de Hsi endurecer na dela e franziu as sobrancelhas antes de entender. Hsi Wu era o demônio de céu, claro que ele não estava acostumado com espaços tão pequenos.
– Nós temos mesmo que fazer isso? – Hsi perguntou parecendo que faria qualquer outra coisa se só tivesse a chance. Shendu apertou os olhos.
– É o único caminho, seu idiota – ele disse irritado e se abaixou.
– É apertado, mas nós vamos caber – ele achou, abaixando-se e começando a rastejar. Ele realmente esperou que nenhum prisioneiro tentasse escapar agora, senão eles ficariam totalmente presos. – Venham – ele disse e Ni imediatamente seguiu o exemplo do irmão. Ele enrugou o nariz quando pensou em como as suas roupas ficariam sujas depois disso.
De onde tinha vindo essa idéia?
– Eu não posso fazer isso – Hsi murmurou fitando o pequeno túnel com um sabor ruim na boca. Ele simplesmente não podia, nem Shendu nem ninguém poderia obrigá-lo! Jade olhou na direção da sua voz preocupada, se o demônio do céu perdesse o autocontrole ninguém a protegeria dos outros demônios.
– Provavelmente não é tão ruim quanto parece – ela disse animadamente. Hsi Wu balançou a cabeça.
– Não... é...
Jade suspirou.
– Qual é, você quer mesmo que os outros pensem que você está assustado? Shendu nunca deixaria você esquecer isso – ela comentou.
– E daí? Ele não consegue nadar! – o demônio disse irritado. – Nós vamos esperar os outros aqui. Eles podem cuidar de tudo sem nós – ele adicionou. Jade girou os olhos, mas não disse nada. Ela tinha a caixa Pan Ku e o portal não poderia ser aberto sem ela, mas isso era um fato que Hsi não precisava lembrar.
– Tudo bem. Vamos esperar – ela concordou ansiosamente. Hsi Wu concordou com a cabeça contente porque não precisou obrigar Jade a ficar. Justo quando ele estava começando a se sentir confortável de novo, ouviu o chio zangado de Shendu bem próximo a ele.
– Hsi Wu! O que você ainda está fazendo aqui? Nós precisamos da caixa Pan Ku! – o dragão disse irritado e Hsi percebeu que ele tinha voltado pelo túnel para ver o que eles estavam fazendo aqui.
– A caixa Pan Ku? – ele perguntou olhando para Jade.
– É, caso você ainda não saiba, o portal não pode ser aberto sem ela! – Shendu chiou. Ele sabia que o irmão não queria entrar no túnel, mas isso não importava para ele. Na verdade era o contrário, o que Hsi fizesse agora lhe daria diversão. – Você vai entrar no túnel com a sua escrava ou ficar aqui? Eu posso cuidar dela até nós voltarmos – ele sugeriu sorrindo e Hsi sentiu a chama de raiva crescendo dentro de si. Shendu nunca tocaria na sua escrava!
– Eu vou – ele disse severamente e esperou até que Shendu se retirasse para o túnel. Então se abaixou e respirou fundo. – Aqui vamos nós – ele murmurou e engoliu em seco. O demônio do céu rastejou e ouviu o som da própria respiração e as batidas de coração. Por um tempo, ele pensou em toda a terra e a areia e as pedras que o cercavam por toda parte e teve que parar.
Um suor frio gotejou das suas têmporas e deixou o seu cabelo escuro molhado. Hsi engoliu com dificuldade, ele não podia ficar aqui! Ele apertou os dentes e estava prestes a continuar, mas ao invés disso bateu a cabeça no teto.
Areia e pedrinhas caíram nele e Hsi endureceu. O túnel estava prestes a desmoronar!
– Eu não posso continuar. Eu vou ficar aqui – ele sussurrou em pânico e fechou os olhos. Se ele se movesse mais um centímetro, tudo cairia nele e o enterraria na escuridão para sempre. Ele nunca mais poderia ver o céu azul de novo, sentir o vento no rosto ou bater as asas no ar.
Ele ficaria preso aqui.
– Como assim? Você ter que continuar, senão nós dois vamos ficar presos aqui! – Jade disse em voz alta e Hsi balançou a cabeça.
– Eu não vou – ele disse. Uma pequena parte da mente dele lhe dizia que ele estava sendo ridículo, o túnel não estava desmoronando, mas essa voz foi logo suprimida. A maioria dele estava horrorizada e não quis escutar.
Os dois ficaram quietos.
– Hsi Wu – Jade disse depois de um tempo.
– Sim? – foi a resposta quieta.
– Você não pode desistir desse jeito. Imagine, você, um poderoso feiticeiro demônio sendo humilhado desse jeito! Você deve ter enfrentado maiores dificuldades nos tempos antigos – a garota encorajou.
– Mas... Você não entende. É o mesmo como se um humano não pudesse mais ver o sol. Tudo simplesmente perde o seu significado – ele disse, fazendo Jade bufar.
– Tch! Você e os seus irmãos tiraram o sol de mim por um longo tempo e me obrigaram a viver na escuridão com vocês. Agora eu não estou vendo o sol, mas eu desisti? – ela lembrou. Ela tateou com a mão até achar os dedos do demônio do céu. – Nem os demônios do céu nem os humanos foram feitos para rastejarem em túneis subterrâneos. Mas às vezes nós temos que fazer coisas que não queremos – ela continuou e sorriu quando percebeu o quanto ela pareceu com o Jackie. – Vamos, Hsi, vamos juntos.
Hsi Wu sentiu a mão da garota na dele e algo quente parecia fluir dentro de si. Nunca antes ele tinha se sentido tão estranho e agora tudo o que ele queria era voar no céu acima das estrelas até que as suas asas não pudessem mais carregá-lo. Ele achou uma nova força dentro de si e o túnel não parecia mais apertado.
Não agora que Jade estava com ele.
– Por que demoraram tanto? – Shendu perguntou furiosamente quando Hsi e Jade finalmente apareceram do túnel. Ele tinha sido construído em uma cela e o pedaço cinzento da parede tinha sido completamente quebrado quando Shendu veio. Felizmente a cela estava vazia e eles não encontraram ninguém.
– Nós tivemos alguns problemas, mas tudo está bem agora – Hsi disse para o irmão, que olhou para ele em suspeita sem dizer nada. Ele pressionou a mão na fechadura e, quando ela clicou, empurrou a porta, satisfeito.
– Agora nós temos que ser extremamente cuidadosos e quietos. Um ruído e está tudo arruinado – Shendu disse dando para Jade um olhar de advertência. Ele não tinha certeza de que Hsi poderia manter a garota na linha e achou que seria responsabilidade e prazer dele mencionar sobre isso. – Hsi, se a sua escrava nos trair nenhuma lei a salvará. Se isto falhar por causa dela, eu a farei em pedaços bem aqui na frente dos seus olhos de qualquer jeito – ele avisou e Hsi tocou o ombro de Jade para ter certeza de que ela sabia como o irmão estava sério.
Shendu se lembrava muito bem de onde tudo estava e conduziu o pequeno grupo pela prisão. Todos eles estavam nos seus limites, sentindo todo cheiro e distração, e se uma agulha tivesse caído eles teriam ouvido.
O portal de Xiao Fung, o demônio do vento, ficava na lavanderia. Pelo menos foi isso o que Xiao falara para Shendu. Este portal era o único que Shendu não tinha aberto pessoalmente, então ele realmente não sabia dizer onde estava. Ninguém deste grupo sabia onde era a lavanderia e eles tiveram que fazer uma nojenta e arriscada excursão na prisão para procurá-la.
Ni Tang olhou ao redor. Ele sentia como se já tivesse estado aqui antes, mas não era nada comparado ao que ele sentia em São Francisco. Na verdade, esta prisão parecia ser agradável porque ele não estava tendo sensações estranhas o tempo todo.
Shendu podia não saber onde era a lavanderia, mas podia usar a cabeça. Nos tempos antigos, ela não teria sido construída onde os prisioneiros ficavam, então eles passaram por todas as celas sem lhes dar muita atenção.
Primeiro eles acharam a cozinha, da qual Shendu se lembrava muito bem. Lá eles tinham recebido a caixa Pan Ku e Valmont havia se feito de bobo. E aqui Chan tinha levado a caixa, se escondido na lavanderia e acidentalmente aberto o portal.
– Por aqui – Shendu falou. A lavanderia não poderia ser muito longe. Se fosse, Chan não poderia ter aberto o portal tão rápido. Eles aumentaram a velocidade sem se preocupar se estavam fazendo muito barulho e pararam quando a palavra claramente notável "lavanderia" estava na frente deles. Shendu sorriu satisfeito. – Perfeito. Abrir um portal nunca foi tão fácil – ele disse orgulhosamente, claro que tudo saía perfeito quando ele era o líder. Apontou com a cabeça para a porta. – Vamos entrar. Rápido – ele disse e todos entraram.
Eles encontraram escuridão e uns baixos estrondos das máquinas de lavar. Elas não tinham descanso mesmo durante a noite, tinham que limpar as roupas o tempo todo. O ar cheirava a sabão e roupas limpas.
Shendu pegou um cristal vermelho que estava pendurado no seu pescoço e o envolveu com os dedos. Ele começou a brilhar com uma luz vermelha, fazendo parecer que todo o quarto estava em chamas.
O Tio selara os portais de cinco demônios e nenhum humano poderia abri-los de novo. Mas havia um jeito, para um demônio livre era muito fácil desfazer o feitiço e então libertar os demônios condenados. (obrigada, jesboat, te devo uma! n n)
– Ta Guai Zhe Ko Hiao – o dragão disse em voz alta e o cristal brilhou ainda mais. A luz pareceu juntar uma das máquinas de lavar, fazendo-a desaparecer totalmente no brilho. Eles ouviram um chiado quando o símbolo do demônio do vento apareceu nela.
– Sua vez – Hsi disse e empurrou Jade para adiante. A caixa Pan Ku começou a brilhar uma luz verde. A caixa subiu no ar das mãos de Jade e a garota observou a caixa acertar o símbolo, iniciando o mecanismo mágico.
Um enorme portal verde cresceu na frente deles e de novo eles vislumbraram o vermelho Netherworld. Xiao Fung saiu do portal, que se fechou quase imediatamente depois dele. Ao mesmo tempo, toda a luz desapareceu do quarto e agora tudo o que Jade conseguia ver eram os olhos vermelhos do demônio do vento.
– Então eu estou livre de novo – Xiao Fung disse contente e olhou ao redor. Ao contrário dos irmãos, ele não via quase nada na escuridão e teve que apertar os olhos para ver alguma coisa. Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso, quando viu todos os que estavam lá com ele. – Irmão Shendu, você também está aqui. Espero que não termine como da última vez – o demônio do vento disse, fazendo Shendu franzir as sobrancelhas.
– É verdade – ele respondeu. Parecia que Xiao Fung não estava com pressa de ir embora e ainda não tinha tomado a sua forma humana. Esse sapo supercrescido idiota, será que ele não tinha nenhum instinto de autopreservação? – Nós estamos com pressa, podemos ser pegos a qualquer momento – o demônio do fogo disse decidindo esquecer de todos os bons modos. Ele e Xiao Fung eram quase da mesma idade e ele não achava importante respeitar tanto o demônio do vento.
Xiao Fung concordou com a cabeça e logo encolheu na forma de um homem de cabelo grisalho, que muitos achariam ser tremendamente feio. Apesar disso, ele gostava desta forma e raramente usava outra.
– Então vamos lá. Da última eu realmente não pude aproveitar toda a diversão que este mundo pode oferecer – ele disse.
A escuridão o cercava e um ruído a uma certa distância teria feito o homem sem nervos se retrair. Mas isso não o afetou, ele permaneceu lá de olho na rua.
Hak Foo não realmente acreditava que encontraria Shendu ou quaisquer dos demônios daqui desta imundície, mas ele tinha que fazer algo. Não fazia idéia de onde encontraria o demônio do fogo e nunca foi bom em localizar alguém em uma cidade.
– Procurando alguém? – uma voz familiar perguntou e Hak Foo se virou rapidamente. Franziu as sobrancelhas tanto para si mesmo quanto para quem o perturbava. Por que ele não o tinha ouvido chegar?
– Liao Su – Ele declarou nada contente. Por que o homem estava aqui de novo? Ele acreditava que Hak Foo estava seguindo o rastro de Shendu e o seguiu por causa disso?
Liao Su se aproximou para que o Tigre Negro pudesse vê-lo e encolheu os ombros.
– Encontrou alguma coisa? – ele perguntou como se eles estivessem falando sobre o clima.
– Não é da sua conta – Hak Foo disse. Ele não suportava esse idiota, mas talvez fosse por isso que eles sempre estivessem no mesmo lugar ao mesmo tempo. Ele realmente andava com má sorte hoje em dia. Liao Su balançou a cabeça.
– É da minha conta. Eu vou matar Shendu – ele disse.
– Eu já sei disso e isso me faz perguntar por que você não o está atacando agora mesmo.
Liao Su riu.
– Ah, Hak... Você pode ser engraçado. O Shendu não está mais na cidade, mas ele vai voltar. E quando isso acontecer, eu vou matá-lo pessoalmente – ele disse e Hak Foo teve que erguer as sobrancelhas em ligeira surpresa. Liao Su era realmente estúpido o suficiente para atacar o demônio desse jeito?
– Você não tem medo de perder? – ele se deu ao trabalho de perguntar, embora não fosse da sua conta saber se Liao Su era um doente mental ou não. O guerreiro o observou, pensativo.
– Eu? Medo? Não, Hak, eu não tenho motivo para ter medo – ele disse.
– Nesse caso, eu só posso te desejar sorte – Hak Foo disse sem realmente desejar isso. Ele esperou que Shendu vencesse a luta para que ele se livrasse desse idiota.
Era uma surpresa para ele que o demônio do fogo não estivesse mais em São Francisco. Provavelmente ele tinha ido libertar um de seus malditos irmãos e voltaria com um novo demônio.
Hak Foo achou que agora que havia cada vez mais demônios, ele também pudesse precisar de alguns aliados novos.
– Nós não podemos deixar isso continuar – Tso Lan disse rispidamente para as irmãs, que estavam sentadas em frente a ele. Po e Bai se entreolharam, o calmo demônio da lua raramente perdia a paciência.
– O que você quer dizer exatamente, Tso? – Po perguntou e Tso Lan bufou.
– Você sabe muito bem, Po. Eu estou falando de Ni Tang, nós temos que fazer alguma coisa a respeito dele. Ele está se despedaçando e pode se lembrar de quem é a qualquer momento. Um conflito mágico forte pode até quebrar o feitiço e torná-lo humano de novo – ele disse.
– Claro que a ameaça existe, mas todos nós já sabíamos que isso aconteceria. Um dos demônios originais, você, não participou do ritual e ele nunca foi um demônio de verdade. Mas eu não vejo motivo para fazermos alguma coisa – Po Kong disse.
– E quanto ao Hsi Wu? Ele se deixou se preocupar com Ni e pode quebrar quando descobrir a verdade – o demônio da lua tentou. Bai Tsa bufou.
– Hsi Wu esteve inteiro por todos estes anos, uma pequena quantia de dor emocional não vai fazer nada com ele. Além disso, ao contrário de Ni, ele é demônio no coração e perder um irmão não vai afetá-lo muito – a demônio da água disse, confiante.
– Eu não concordo com você – Tso Lan declarou e virou as costas para elas. Ele franziu as sobrancelhas, preocupado. Era impossível saber o que aconteceria.
Continua...
