Data: 05/03/2013
História: Perímetro
Agora que o Kazekage pessoalmente fizera questão de visitá-lo e confirmar que não pretendia causar nenhum dano a ele, Sasuke tinha quase absoluta certeza de que não queriam matá-lo – especialmente porque, caso quisessem, já o teriam feito dias atrás se recusando a atendê-lo ou tratando-o de maneira errada. Ele estava curado, e Gaara revelou que não intencionava prendê-lo ou interrogá-lo, pelo contrário: queria vê-lo longe dali. Portanto, teoricamente, ele não tinha nada a que temer.
Porém, o seu experiente instinto ninja fadava-o a estar sempre em alerta, mesmo quando sabia que as probabilidades de estar seguro eram altas (ele não acreditava plenamente em ninguém, nem mesmo no Kazekage). Assim que a porta do seu quarto foi aberta os seus olhos fizeram o mesmo, tirando-o de um sono inquieto. Ele esperava que fosse uma enfermeira, mas a pessoa que entrava era mais baixa do que a mulher habituada a cuidar dele.
Ele se preparou para atacar – ou se defender – deixando os seus braços livres para qualquer movimento possível.
"Sasuke?"
O seu coração pulou uma batida, e ele conteve um sorriso. Os seus olhos se acostumaram a escuridão e ele pôde distinguir a forma da mulher que ele deveria ter reconhecido ainda que estivesse em coma. Ela se aproximou do leito e, quando a lua iluminou o rosto dela, ele conseguiu ver o seu sorriso.
"Como você está?" ela perguntou, evidentemente feliz. "Eu queria ter vindo mais cedo, mas o Gaara plantou dois brutamontes na porta do meu quarto para me impedirem de sair."
"Eles machucaram você?" É melhor que diga não, Sakura, ou então o Kazekage terá um excelente motivo para me enxotar dessa vila.
"Não... Mas eu tive que injetá-los um sonífero que originalmente seria para mim, caso contrário que não conseguiria passar por eles."
Sasuke franziu o cenho enquanto ela se sentava no colchão ao lado do seu quadril. "Por que precisava de soníferos?"
Ela olhou para baixo, para as suas mãos, um pouco envergonhada. "Eu não conseguia dormir por não conseguir te visitar." Ela suspirou e voltou a encará-lo. "Ainda não me disse como está."
"Estou com raiva."
Ela pisca, confusa. "Por quê? Alguma enfermeira te irritou ou –"
"Não, Sakura, foi você quem me irritou," ele respondeu para a maior confusão dela. "O que te deu na cabeça para voltar, me resgatar e me carregar até Suna?"
"Bem, na verdade, eu não te carreguei até aqui. Uma equipe ninjas daqui encontrou comigo sem querer no meio do caminho –"
"Não importa," ele a interrompeu. "Eu gastei quase todo o meu chackra para conjurar aquela cobra e te levar para longe, e você, ao invés de fazer algo sensato uma vez na vida, volta para o campo de batalha."
"O que queria que eu fizesse, Sasuke?" ela rebateu, também começando a se irritar com ele. "Acha mesmo que eu iria te deixar sozinho para enfrentar os Mãos Limpas?"
"A sua sorte é que eu consegui derrotá-los, porque se chegasse lá e algum deles ainda estivesse vivo é provável que tivesse te matado."
Sakura rolou os olhos. "Eu não teria morrido. Parte das minhas feridas e energias foram recuperadas dentro daquela cobra – o que é muito nojento, eu devo acrescentar. Sasuke, não adianta discutir agora," ela continuou quando ele abriu a boca para retrucar. "O importante é que nós estamos bem."
"Por muito pouco." Ele esfregou uma mão no rosto. "Gaara me disse que você chegou aqui em estado muito grave."
Sakura arregalou os olhos. "Gaara conversou com você? Quando? O que foi que ele disse?"
"Não desvie o assunto."
Ela suspirou e colocou uma mão na perna dele. "Se você gastou quase todo o chackra para me salvar, por que eu não posso fazer o mesmo por você? Você poderia ter me enviado para outro planeta que eu voltaria do mesmo jeito para te ajudar. Sim, eu te carreguei por um longo percurso até ser encontrada, sim, eu tive que usar o que me restava de forças para que você permanecesse vivo, sim, eu corria o risco de ser interceptada por um inimigo e não, eu não me arrependo de absolutamente nada, e sabe por quê? Porque não estaríamos conversando aqui, agora, se eu tivesse corrido para o lado contrário. Não me ofenda dizendo que o que eu fiz foi errado – e não me peça para não fazer de novo, porque eu faria tudo e mais, sem pestanejar e sem nem começar em pensar em me arrepender."
Sasuke respirou fundo. De todas as mulheres no mundo que poderiam ter sido a sua companheira de time, a sua amiga e amante, o destino escolheu a mais teimosa e irritantemente bonita, em todos os sentidos. Por que ela tinha que se importar tanto com ele? O que, diabos, ela via em um homem frio e calculista como ele para admirá-lo tanto ao ponto de se dispor a sacrificar a vida por ele? Ele não era uma pessoa tão fácil de gostar como ela.
Eu que o diga.
"Sakura, por que está chorando?"
"Eu não sei!" ela praticamente gritou, frustrada, limpando as lágrimas que escorriam belas bochechas. "É essa sua estupidez monumental em querer brigar comigo por ter te ajudado! Da próxima vez eu vou te deixar para ser devorado por urubus e bactérias fétidas!"
Ele suprimiu um sorriso. "Você não acabou de dizer que faria tudo de novo?"
"Bem, acabei de mudar de idéia!"
Dessa vez ele riu – da maneira contida dele, obviamente, de lábios colados, mas foi uma risada. Em seguida, levantou um braço. Não precisou dizer nada para que ela deitasse ao seu lado, a cabeça no seu peito, espremendo-se para caberem naquele colchão de solteiro (não que Sasuke se importasse). Entrelaçou as suas pernas com a dela, como fizeram várias vezes desde que sucumbiram ao desejo mútuo de dividirem uma cama.
Ele fechou os olhos por um momento, apreciando o corpo dela contra o seu. Ele estava a poucas horas acordado, mas sentia um frio dentro de si por não tê-la ao seu lado. Isso é só alívio por finalmente saber que ela está bem e viva, ele se disse, massageando a nuca dela enquanto ela chorava contra o seu peito. Talvez fosse essa a mesma razão para as lágrimas dela.
"Por que não te deixavam sair?" Sasuke perguntou.
Ela deu de ombros. "Eu não sei, na verdade. Fiquei dois dias desacordada, e quando acordei eu só queria te ver." Não foi a única. "Acho que eles queriam me preservar. Eu realmente não estava muito bem, e eles consideraram arriscado eu sair andando por aí à sua procura."
"E como sabia que eu estava acordado?"
Sakura riu, abraçando o abdome dele. "Eu ouvi duas enfermeiras cochichando sobre como o paciente 'mais lindo que já passou por este hospital' acordou."
"E você concluiu imediatamente que era eu?"
"Na verdade eu pensei: 'bem, já que Gaara não parece estar internado neste hospital e eu estava com Sasuke quando fui encontrada, pode ser que seja ele'."
Sakura o sentiu tencionar sob si e sorriu – um sorriso contido, para que ele não visse. Porém, quando ele ficou quase um minuto em silêncio, o divertimento começou a se transformar em preocupação, e ela se sentou para olhar o rosto dele. Ele fitava algum ponto do teto, imóvel, aumentando ainda mais a apreensão dela.
"Sasuke, eu estou brincando," ela disse, agora revelando o seu sorriso aberto como um argumento. Deu um beijo na boca dele – o qual ele não respondeu. "Eu só queria dar uma leve arranhada neste seu ego indestrutível."
Ele não disse nada, nem moveu os olhos.
"Sasuke, você... você está acordado?"
"Sakura."
Ele mal esperou que ela terminasse a pergunta antes de chamá-la, causando um pequeno sobressalto na moça, que gaguejou: "S-Sim?"
Ele lambeu os lábio sob o observar preocupado de Sakura. "Quem era o seu namorado?"
Ela foi tomada completamente de surpresa por ele. Ela se lembrava bem do dia em que mencionou um caso amoroso em Konoha, mas não pareceu nada que chamasse a atenção de Sasuke, já que o assunto nunca mais foi tocado – até agora. Maldita hora em que foi tentar quebrar o gelo e apenas acabou esfriando-o ainda mais!
"Hum..." ela começou a dizer, confusa com as próprias palavras. "Qual... deles?"
Ela o viu fechar os olhos e respirar fundo, contendo a irritação. "O que você falou que deixou em Konoha."
"Ah, este." Ela ignorou o encarar duro de Sasuke. "E-Eu não sei se você o conhece."
"Fale o nome dele."
"Para quê? Você nem deve se lembrar dele –"
"Lembrar? Disse que eu não o conhecia, e agora fala que eu não poderia me recordar dele."
"N-Não o conhece, foi o que eu quis dizer!" Era óbvio que ele não cairia na mentira dela – nem ela mesmo acreditaria, e era muito mais inocente do que ele. "Vocês devem ter passado, no máximo, trinta segundos juntos –"
"Sakura." Ele a interrompeu, fechando os olhos como se esperasse um golpe. "Fale o maldito nome dele. Agora."
Ela pressionou os lábios, pensativa. Por que esse assunto foi surgir justamente agora que eles tinham se reunido? A última coisa que ela queria que acontecesse era uma briga, mas, pelas atitudes dele, era exatamente esse o fim culminante.
"O nome dele é..." Ela lambeu a boca. "Kiba."
Sasuke abriu os olhos subitamente, como se o golpe que esperava finalmente o atingiu. "Kiba?"
"Sim."
"Kiba, o garoto do cachorro?"
"Bem, ele não é mais um garoto..."
Sasuke não sabia se sentia ameaçado ou aliviado ao ouvir aquele nome desgraçado. Pelo pouquíssimo que (felizmente) ele se lembrava, aquele garoto pulguento não tinha nada de interessante – ou, para ser mais específico e honesto, Sasuke o achava um idiota completo, tão discreto quando Naruto e com voz e cheiro tão insuportáveis quanto, e o alívio vinha exatamente da reunião destes fatores: ele era idiota demais para uma mulher como Sakura, e ela dissera que tinham terminado antes de partir para a missão. Certamente ela não voltaria para alguém como ele depois de passar algumas semanas usufruindo do antigo amor da sua vida.
Entretanto, isso não o impedia de se sentir também ameaçado. Afinal, a que nível ela chegou? Se ela conseguia se envolver com um garoto – homem, como ela reiterara – tão insosso quanto Kiba, o que garantiria que não o faria de novo? Afinal, iguais a ele tinha aos montes em Konoha, e Sakura era atraente demais para o seu próprio bem.
"Quanto tempo namorou com ele?" Sasuke finalmente disse, quebrando o silêncio tenso em que Sakura o encarava esperando uma resposta.
"Pouco mais de um ano," ela murmurou, desviando os olhos para o peito dele.
"Um ano?" ele exclamou. "Você namorou um ano com Kiba, o do cachorro?"
"Por que está falando com esse tom, Sasuke?" ela rebateu, estreitando os olhos para ele. "Para a sua informação, ele era um excelente namorado que praticamente todas as mulheres de Konoha gostariam de ter. Ele é um homem decente, respeitador, ótimo no seu trabalho e que aparentemente gostava de mim – e eu dele. Qual é o problema?"
O problema é que eu quero matá-lo, Sakura. Só isso. Nada de excepcional
"Se ele era tão encantador, por que terminou com ele?" Sasuke nem precisou esconder o veneno da voz.
Ela suspirou – o que o chateou ainda mais, pois parecia que aquele era um tópico não muito fácil de ser discutido por ela e, portanto, implicava que ela ainda não havia superado o desgraçado.
"Ele me disse que estava gostando de outra pessoa," ela murmurou, envergonhada.
Sasuke enrugou a testa. Aquela era mais uma prova de que o Garoto Cachorro realmente não tinha uma mente perfeita (sendo a maior prova disso o mencionado cachorro): para Sasuke era inconcebível a idéia de que alguém pudesse trocar uma mulher como Sakura por outra. Não era à toa que ela era a única que o atraíra durante todos esses anos.
"Como pode chamar esse homem de decente se ele te trocou por outra?" ele perguntou descaradamente, esquecendo-se de que o sexo feminino era um tanto quanto sensível a assuntos que mexiam com a auto-estima.
"Ele não me trocou por outra!" ela o contrariou, como era de se esperar. "Ele pediu que terminássemos antes que ele se envolvesse com outra pessoa."
Ele rolou os olhos. Semântica.
Eles ficaram alguns instantes refletindo sobre a revelação – Sasuke querendo matar o filho-da-mãe, primeiro, por tocar em Sakura e, segundo, por dispensá-la daquela forma. Sakura apenas estudava a falta de expressão facial nele.
"Você era feliz com ele?" o Uchiha perguntou, não sem antes pensar um milhão de vezes se ele queria correr o risco de ouvir algo que não gostaria.
Ela ergueu as sobrancelhas. "O quê?"
"Era feliz com ele?"
"Nós... nos divertíamos, e eu gostava de conversar com ele."
E do que vocês conversavam? Pulgas?
Ela o pegou desprevenido ao lhe dar um beijo na boca que, dessa vez, ele respondeu friamente.
"Ninguém jamais vai me fazer mais feliz pelo resto da minha vida do que você me fez durante essas poucas semanas, Sasuke," ela sussurrou, acariciando o rosto ainda tenso e contrariado dele.
O coração gelado do Uchiha pareceu mais pesado. Ele não sabia o que respondê-la, apesar de ter certeza de que ela gostaria muito que ele o fizesse. Porém, não era segredo que Sasuke era péssimo em se articular com palavras, especialmente as que ele tinha dificuldades em encontrar e que seriam destinadas àquela mulher que virou a sua vida de cabeça para baixo.
Portanto, ele apenas a beijou com toda a intensidade que conseguia. Agarrou os cabelos dela, puxou o curvilíneo quadril para mais perto de si e a deixou completamente sem fôlego e, pelo sorriso que ela o deu quando desgrudaram-se os lábios, ele sabia que a sua mensagem tinha sido transmitida com sucesso.
"Diga-me que você não teve um caso com Gaara."
Ela rolou os olhos, gemeu em frustração e o empurrou para longe de si – o mais longe eu poderia ir em leito de hospital.
Xxxx
A.N.: No máximo mais três capítulos para que acabe... : (
