Capitulo 24

O silêncio era quebrado apenas pelo grasnar das gaivotas, o estouro das ondas nas rochas lá embaixo, e o suave murmúrio da brisa. Nuvens cinzentas se reuniam sobre a dis tante ilha de Summerwind. Mais além, uma doce promessa de céu azul. Bella sentiu que a terra a embalava na ondula ção do oceano.

Nos cinco dias em que permanecera sozinha com Edward no chalé, a chuva de primavera caíra com frequência, Biggers lhes trouxera as refeições, e ela e Edward tinham passado o tempo inteiro na cama, a fazer promessas com seus corpos.

Aquele era o primeiro dia em que o sol brilhava, atraindo-os para fora com um tapete e uma cesta para um piquenique nos penhascos.

— Este exato local é onde eu parei e fiquei olhando para o mar no dia em que você me seqüestrou. A neblina se apro ximava tudo estava cinzento e sombrio... Eu não tinha nada para fazer, nenhum lugar aonde ir, e queria estar em qual quer parte menos aqui. —Edward falava baixinho, para não quebrar a paz. — Mal sabia eu que a minha vida iria mudar tão drasticamente... Tão maravilhosamente.

— Você não dizia isso duas semanas atrás. — Bella tirou a refeição da cesta.

Estavam sentados no tapete em meio ao campo gramado. Edward trajava roupa informal, que, na opinião de Bella, não tinha nada de informal; e ela usava um dos velhos ves tidos da Srta. Angela. Formavam um estranho casal.

— Está vendo aquela ala da abadia de Summerwind?

Bella olhou para a mansão sobre os penhascos.

— Parece precária.

— Desde que a mansão foi construída, duzentos anos atrás, o oceano tem desbastado os penhascos, levando a construção para mais perto da beirada. — Edward apontou para as grandes janelas e o belo balcão de pedra branca que se projetava sobre o oceano. — Aquele é o quarto de dormir principal, lembra-se? Você esteve lá para pegar as minhas roupas íntimas.

— Tem razão. Você é o cretino que me mandou numa missão idiota, quando poderia ter feito isso por si mesmo. Você foi até lá!

— Eu a vi — ele admitiu.

— Eu o chamei de cretino? Parasita é melhor!

— Sim, mas você tem de me perdoar. Ser parasita é a minha natureza.

— Certamente que é.

O braço de Edward enlaçou-a pelo ombro, e ele puxou-a para perto, abrindo o casaco para que Bella pudesse se acon chegar ao seu peito.

Com um ar de felicidade, ela se deixou abraçar, absorvendo-lhe o calor.

— Sua casa é muito bonita, principalmente os jardins.

— Então, seu ano será agradável — Edward murmurou num tom rouco e profundo.

— Muito agradável. Embora eu fique imaginando quando vou poder voltar e visitar a Srta. Angela.

— Sempre que você quiser. É uma viagem rápida.

— Tenho saudade dela.

Bella precisava falar com a Srta. Angela sobre a situação com Edward. Ela compreendia a natureza humana e diria a Bella o que pensava a respeito do pacto com o diabo entre os dois. Um ano juntos, depois uma avaliação ponderada e talvez um casamento...

Edward parecia contente com o pacto. Aparentemente descuidado, pôs-se a tagarelar acerca da ilha.

— Carlisle deu início a vários projetos importantes. Empregou homens para consertar as cabanas, a começar pela da srta. Angela. Pediu um grande carregamento de carvão para distribuir entre os habitantes da vila, e Esme foi ao mercado e comprou fardos de tecido para as mulheres.

— Você é tão meigo... — A cada dia, Bella se tornava mais encantada com Edward. Mais convencida de que ele era a outra metade de sua alma.

— Como você me disse com toda a franqueza, sou respon sável por haver deixado a vila cair em tal estado de deses pero. — Edward a virou para fitá-la. E, com uma fingida impaciência, perguntou:

— Não reconhece um homem que está tentando impressionar sua mulher com suas boas ações?

— E é o que você está fazendo?

— Mas é claro. — Edward a beijou de leve. — Embora ache que perdeu o impacto, já que tive de salientar isso para você.

— De jeito nenhum. Estou muitíssimo feliz com a sua generosidade. — E Bella falava sério.

— Que bom.

Ela aconchegou-se a Edward. Tudo era paz.

— Quando eu era criança — ele disse —, às vezes parava de brincar e me jogava de barriga na grama e olhava para o mar.

— Eu costumava parar de brincar, me jogar de barriga no chão e olhar para as montanhas.

— Sente saudade do seu lar?

Bella nunca falava de Beaumontagne.

As lembranças fi cavam num lugar escondido em sua mente, rodeado por mu ralhas que mantinham a angústia dentro e a solidão fora. Porém tinha de compartilhar um pouquinho do passado com

Edward. Ele sofrerá seus traumas e quem sabe pudesse en tender.

— Eu costumava sentir saudade de Beaumontagne. Quan do fui para a escola, chorava a noite toda. Depois, papai mor reu e vovó parou de mandar a nossa mesada. A diretora do internato jogou minha irmã e a mim na rua, e eu estava apavorada e confusa demais para pensar em Beaumontagne.

— O que você fez?

— Eu lhe contei. Vendíamos cremes. Prometíamos beleza. — Bella sorriu com ar malicioso para Edward. — Fizemos o que duas mulheres sozinhas no mundo fazem: perambulamos e sobrevivemos.

— Meu sangue se enregela só de pensar em você sozinha a viajar pelas estradas. Por que não pararam em algum lugar? Deve ter existido uma cidade que as acolheria bem.

Bella afastou-se, apoiou o queixo nos joelhos e fitou o mar.

— O mensageiro pessoal de vovó nos encontrou e nos disse que estávamos marcadas para ser assassinadas. Eu detestava aquela aflição constante, o medo... Procurávamos por Rosali também. Eu sentia, acho que ambas sentíamos, que se pudéssemos encontrar nossa irmã mais velha, tería mos vencido uma importante batalha. Assim, continuamos nos movendo. Godfrey disse que vovó colocaria anúncios nos jornais quando fosse seguro voltarmos para casa. E ela não colocou esses anúncios.

— Sinto muito, mas essa história do mensageiro de sua avó me soa absurda. Ela sabia que vocês estavam sozinhas na Inglaterra, sem meios de se sustentar. Sua avó me parece uma mulher forte, e uma mulher forte não mandaria um recado, mandaria proteção. Vocês poderiam ser mortas... e o teriam sido milhares de vezes antes. Se esse tal de Godfrey era realmente súdito de sua avó, nunca deveria saído do lado de vocês duas.

— Você tem razão. Parece estúpido... — Bella engoliu em seco e admitiu. — Minha avó é muitas coisas, mas estúpida não é uma delas.

Por que Bella não se dera conta disso antes?

Porque tinha doze anos quando haviam sido expulsas da escola. Tinha a percepção de uma criança daquilo que era certo e era errado. Conforme crescera, o simples ato de so breviver havia ocupado sua mente enquanto, ao mesmo tem po, ela empurrava a dor do abandono e da morte do pai para as profundezas da mente. Ela e Alice teriam errado em evitar Beaumontagne quando, na realidade, deveriam ter retornado? Isso seria uma amarga ironia que a fazia sentir-se chorosa e tola.

— Você confia nesse homem? — Edward indagou. — Nes se Godfrey? Pois, se não confia no mensageiro, não pode confiar na mensagem.

— Não sei nada sobre Godfrey, Edward. Eu era uma criança.

— Você ainda é uma criança. Só tem dezenove anos! — Ele acariciou-lhe o queixo trêmulo.

A compaixão de Edward espicaçou o orgulho de Bella.

— Posso ter sido tola com respeito a Godfrey, mas eu lhe asseguro que tenho experiência suficiente para dez existências.

— E ficou ofendida porque eu disse que você é jovem. — Ela o divertia. — Assim, vou pensar que assaltei um berço.

— Você é que é muito velho — Bella o provocou. Edward a empurrou de costas na grama. Ela riu e come çou a se debater. Logo, ele lhe prendia os braços por sobre a cabeça e a beijava, enquanto o mundo rodopiava em torno de ambos.

— Eu ganhei! — disse Edward, contra os lábios de Bella.

— Só porque usou força bruta.

— É melhor que drogas numa taça de vinho.

— Você que acha, pois tem a força bruta.

— Mas eu ganhei.

— Sim, sim, você ganhou. Alguma vez vai esquecer aque la estúpida corrente?

— Não, acho que trarei o assunto à baile em momentos inconvenientes pelo resto das nossas vidas.

Diante daquelas palavras, ambos ficaram paralisados, os olhos arregalados de espanto. O resto de suas vidas?

Os olhares se desviaram para longe.

A mente de Bella trabalhava febrilmente. O que Edward quisera dizer com aquilo? Planejava ficarem juntos para sempre?

Ele sentou-se, estendeu a mão e a ajudou a se levantar. Como se nada de importante tivesse acontecido, Edward murmurou:

—A Inglaterra tem laços diplomáticos com Beaumontagne. Creio que sejam cordiais. Com sua permissão, mandarei que façam investigações discretas em Londres.

A onda de empolgação que sentiu surpreendeu Bella. Du rante todos aqueles longos anos com Alice, ela desistira de rever Beaumontagne algum dia. Agora, com uma extre ma gentileza, Edward se oferecia para trazer seu lar de volta.

— Eu gostaria muito — Bella murmurou. E uma cautela tardia obrigou-a a emendar: — Se não contarmos por que estamos perguntando.

— Faremos isso. Ninguém irá questionar meu interesse. Existem vantagens em ser marquês. — Edward sorriu. — Além disso, estou ficando bom em lograr os outros.

—Por essas horas meu tio já recebeu a carta que lhe escrevi um dia depois que nos casamos, implorando pelo resgate, já que os hediondos sequestradores querem me matar com crueldade.

— Adorável.

— Hoje escreverei outra carta declarando que fugi que vou fazer uma festa para celebrar meus trinta anos, e que ele está convidado, e também que quero um adiantamento da minha mesada.

— Delicioso.

— E quando voltarmos para a mansão, darei a Alec uma comenda pela sua lealdade e empenho durante a minha ausência.

— Por quê? — Bella não podia acreditar que Edward re compensaria o mordomo traiçoeiro.

— Biggers diz que é melhor que pareçamos alheios às transgressões da parte dele. Não queremos que tio Aro tenha de comprar, ameaçar ou aliciar outro dos meus cria dos a seus serviços.

— Tudo bem. — Bella mordeu o lábio inferior. — Mas não gosto disso.

— Não se preocupe. — O dourado desaparecera dos olhos de Edward, agora de um castanho amargo e duro. — Quando tudo isso acabar, Alec descobrirá um mundo diferente: o da prisão de Newgate.

— Numa ocasião, eu e minha irmã nos vimos dentro de uma prisão. Alec não gostará nada disso.

— Meu Deus! Prisão? Como? Por quê?

— Éramos mascates prometendo juventude e felicidade para qualquer um que usasse os cremes que vendíamos. Eram produtos bons, mas não garantiam o impossível. Era por isso que eu e Alice brigávamos. Eu queria desistir do sonho de voltar a Beaumontagne, ficar num lugar e fazer o melhor pelas nossas vidas. Ela era como a mamãe-gansa, a me proteger, conservando a imagem de Beaumontagne como nossa meta reluzente, quando eu já havia abandonado a ideia de retornar. Que estranho... Com a sua ajuda, Edward, eu posso fazer isso. — Uma ideia repentina desviou-lhe a atenção, e Bella o encarou. — Você se dá conta de como as nossas vidas estão em sintonia? Você pode ser aquele a me levar para casa, e eu posso ser aquela que mudará sua mente com respeito à culpa de sua mãe.

A expressão de Edward tornou-se enigmática.

— Por que está pensando nisso ainda? Esqueça. Se quiser me fazer feliz, esqueça essa mulher.

— Não posso. Principalmente não aqui nas suas proprie dades, onde a presença dela exige que a verdade seja reve lada.

— Foi revelada. Não existe uma razão possível que jus tifique o abandono do marido e do filho por essa mulher.

— Parece impossível que uma criatura que você amava tanto o abandonasse assim. — Bella esfregou os nós dos de dos no queixo cerrado de Edward. — A Srta. Angela não acredita nisso.

Ele afastou a cabeça com um gesto brusco.

— A Srta. Angela é uma dama adorável que pensa o melhor de todo mundo.

— Não de todo mundo. Não de Aro Masen. Ela é velha, Edward, mas não senil. Recorda-se dos acontecimentos de vinte três anos atrás com extraordinária clareza. Você era apenas um menino. Assim como eu não sei se Godfrey pode realmente ser confiável, você não sabe verdadeiramente o que aconteceu com sua mãe.

Edward se levantou, seguiu para a beira do penhasco e depois retornou.

— Sei que ela nunca voltou. E por que você haveria de se importar com minha mãe?

— Porque você se importa.

— Isso a afeta profundamente. Deve existir outra razão.

Bella admitiu.

— Eu nunca tive mãe. E meu pai me mandou para longe. Para o meu próprio bem, ele disse. Depois, partiu para a guerra... e morreu liderando as tropas. Sua morte assinalou o começo do fim da revolta. O sacrifício de meu pai salvou Beaumontagne da anarquia. — Com amargura, Bella emen dou: — Ou assim eu ouvi dizer.

Edward ajoelhou-se ao lado dela.

— Tenho certeza de que foi o que aconteceu.

— Quando estou sendo racional, quando não estou me sentindo como uma criança abandonada, então também te nho certeza de que foi o que aconteceu. — Contudo grande parte da vida de Bella fora marcada pela injustiça, e ela algumas vezes chorava, num absurdo desespero. — Não su porto imaginar que um pai tão gentil, tão amoroso a ponto de despertar a devoção de uma criança possa ir embora sem um olhar para trás. Quero me lembrar de papai estando lá. Até que a morte o levasse.

— A morte não levou minha mãe.

— Tem certeza? Ninguém no mundo a viu desde que ela foi embora — Bella murmurou.

— O mundo é um lugar bem grande.

— Mas não tão grande que uma dama e seu amante inglês possam se esconder sem serem vistos. — Bella percebeu que Edward pelo menos a ouvia. Naquele momento, era tudo que ela poderia pedir.

— Alguém lhe falou sobre sua mãe desde que você era criança?

— Só tio Aro, e disse que ficou surpreso que ela não tivesse ido embora antes. Que era uma estrangeira leviana e volúvel e... — Edward se calou, de repente atento, na de fensiva.

— Se não confia no mensageiro, você não pode confiar na mensagem. — Edward se referira ao mensageiro de sua avó, e apenas agora Bella se dava conta de quanto a afirmação era verdadeira.

Naquela noite, ela escreveria diretamente a Alice para informá-la de onde estava dar uma descrição superficial da cerimônia de casamento pagão, fazer todas as perguntas que ansiava por fazer e, mais importante, contar à irmã que du vidava de Godfrey. Diria que Edward entraria em contato com a embaixada de Beaumontagne e descobriria a verdade a respeito da avó, dos assassinos e da própria Beaumontagne. E Bella esperava que Alice aprovasse.

— Não importa se confio em tio Aro e o que ele tenha dito sobre minha mãe — declarou Edward. — A verdade não importa porque o fato é que ela foi embora. Seu pai morreu em batalha, uma morte honrada. Talvez meu pai tenha fa lhado com minha mãe de alguma forma. Sei que essa era a questão que o atormentava.

— Pobre homem! — O coração de Bella condoeu-se pelo falecido marquês. — Ele lhe disse isso?

— Uma vez. Só uma vez. Mas não creio que ele tenha falhado. Meu pai era um senhor consciencioso e a amava. Criou-me para ser como ele e assumir a responsabilidade por aquilo que era meu. Eu simplesmente me esqueci das suas lições... Até que você me forçou a recordar. — Edward tomou os dedos de Bella e levou-os aos lábios. — Você foi boa para mim.

Às vezes as famílias discutem. Isso não quer dizer que possam se afastar, se separar. Mas Bella não poderia dizer isso, pois não fora exatamente o que ela própria fizera? Não havia deixado Alice na Escócia em vez de insistir que as coisas corressem direito?

E Edward tinha uma expressão séria, do tipo que oculta uma angústia mais profunda que o mar. Assim, para lhe elevar o espírito, Bella murmurou, num tom malicioso:

— Eu sempre digo que acorrentar um homem é uma boa maneira de lidar com a sua teimosia.

— E mesmo? — As mãos de Edward se apertaram nos dedos de Bella. — E eu sempre digo que uma esposa inteli gente sabe quando é hora de parar de falar e beijar seu marido.

Ele a desafiava a mudar de assunto. E Bella adorava um desafio. Suas irmãs sabiam disso. Emmett sabia disso. Con seguiam provocá-la e fazê-la arrastá-los pelo terreno do cas telo na pequena carruagem, e caminhar no parapeito três andares acima do pátio. Apanhavam por isso, e a avó, apesar de toda a sua idade, tinha um braço forte e um inexorável senso de justiça.

Bella vira muitos casais apaixonados em vilas e mansões, e eles sempre lhe haviam parecido uns patetas. Seria difícil beijar um homem até deixá-lo bobo?

Ela empurrou Edward de costas na grama e colou os lá bios nos dele. A aba de seu chapéu os fechava num mundo de penumbra perpassado pela respiração de ambos, pelo sor riso de Edward, pelo toque persuasivo dos lábios de Bella. Macia, quente, úmida, a boca de Edward se abriu sob a sua, e ela a invadiu com a língua. A lenta batalha, os toques suaves, o calor dos corpos funcionaram como narcóticos para transformá-la numa mulher que buscava aventura nos bra ços de um homem. Era uma viagem que Bella adorava fazer. Era uma viagem em que adorava embarcar.

Com uma sensualidade consciente, ela comprimiu os seios contra o peito de Edward, fazendo-o recordar-se de quanto ele gostava de lhe sugar os mamilos. Depois, Bella massageou-lhe os ombros, para, em seguida, deslizar a mão para baixo, de encontro à ereção. Acariciou-o. O tecido das calças retesou-se conforme o beijo deles se aprofundava e mudava do desafio para a paixão. Impulsiva, irresistível, infinita paixão.

Rolaram um sobre o outro, os corpos unidos pela neces sidade. O cheiro de grama esmagada subiu pesado e quente, e eles continuaram a se beijar com um ardor descuidado até que se chocaram com alguma coisa...

Algo que deu um chute em Bella. Uma voz masculina de sotaque culto esbravejou:

— Quantas vezes eu tenho de dizer a vocês, criadas, que não podem usar os jardins da abadia de Summerwind como seu covil particular de vícios?

Bella se viu separada de Edward e erguida no ar pelo colarinho do vestido.

A voz pertencia a um homem alto com um queixo longo, fino, que combinava com seu nariz também longo e fino, com os olhos azuis dispostos muito juntos, e com o ar de rabugento desprazer.

— Moça, não pode sair rolando pela grama como uma de vassa enquanto eu for mordomo na abadia de Summerwind, e você...

O homem olhou para baixo. E reconheceu Edward, pois sua voz afinou-se como a de uma menininha.

— Milorde! Eu não percebi... Eu não sabia... Por favor, perdoe minha insolência...

A mão que segurava Bella pelo decote foi sacudida por um violento tremor.

Ao olhar para Edward, Bella compreendeu por quê. Ele parecia um homem que havia sido interrompido no meio do ato sexual. Parecia um homem pronto para matar.

Lentamente, Edward se levantou: mais alto que o mor domo, mais jovem que o mordomo, e profundamente enfu recido.

— Alec, eu gostaria de sugerir que tire suas mãos de minha...

Esposa. Bella pôde ver a palavra se formando nos lábios de Edward, e o interrompeu com rispidez:

— Edward, eu recomendaria a você que promovesse Alec a seu vigilante para cuidar da equipe doméstica e da virtude das criadas.

— O quê? — Ele a encarou com os olhos vermelhos de furor.

Bella o fitou de volta com ar significativo. A fúria recuou o suficiente para que o bom senso se ins talasse. Edward arqueou as sobrancelhas e respirou fundo.

— Oh, sim. Claro, claro, eu deveria fazer isso. Contudo... — Afastou com um gesto brusco a mão do mordomo das costas do vestido de Bella —... Seria melhor se Alec tirasse a mão de minha noiva.

— Sua... Noiva? Milorde, eu nunca imaginei... E por essa razão que o senhor sumiu? — Alec estava tão lívido que Bella quase teve pena dele. Quase. — Quero dizer, milorde, estávamos preocupados com o senhor, sobretudo Biggers... e, eu, claro, naturalmente, estava apavorado com a sua se gurança.

— Como deveriam estar. Fui sequestrado. Tenho certeza de que você promoveu uma busca desesperada, mas pode cancelar tudo agora. Estou em casa. — Edward inclinou-se até ficar cara a cara com Alec. — Para ficar. —Afastou-se de novo. — Agora quem sabe você possa ir embora e pedir à Sra. Valentine que prepare um quarto para a minha que rida princesa Desdém.

— Prin... — O olhar de Alec percorreu os trajes mise ráveis de Bella.

— Desdém — Edward repetiu, e ele e Bella ficaram a observar enquanto Alec recuava, fazendo mesuras, para depois se virar e sair correndo para a casa.

— Um pouco demais para o nosso idílio... — Edward olhou para o céu e, em seguida, na direção da ilha. A brisa despenteou-lhe os cabelos e jogou-os em torno de seu rosto.

— Mas é provável que seja mais seguro no solar. Há uma tem pestade se formando, uma das grandes. — Tomando a mão de Bella, ele disse: — Vamos. Eu a levarei para casa.