Capítulo XXVI

Dirty little secret

Os dias que se seguiram se tornaram insuportáveis. Passei a arrumar desculpas por qualquer coisa para evitar as aulas de Carter, não queria, não poderia vê-lo, mas também não conseguiria adiar por muito mais tempo, ou sabia que mais dia menos dia seria surpreendida com o Ministério da Magia invadindo Hogwarts com uma passagem só de ida para Askaban. O pensamento fez com que eu estremecesse.

- Heath!- A voz de meu irmão Leander surgiu aos fundos, o que me fez desviar os olhos para ele depois de alguns segundos.

- Sim?- perguntei roboticamente, não andava conseguindo ser muito natural ultimamente.

- Posso te fazer uma pergunta?- Ele perguntou, pegando uma maçã da cesta de frutas do café da manhã e se acomodando a minha frente. Meus olhos se mantiveram fixos ao meu rosto centímetros de distância.

Balancei minha cabeça, tentando sair do meu momento de transe, e quando meus olhos deram direto com a visão das orbes esverdeadas de Lee meu corpo no mesmo instante foi para trás.

- Já fez!- Resmunguei.

- Para de ser mal comida, Heather!- Ele rebateu me pegando de surpresa. Desde quando ele havia adotado este tipo de vocabulário, ou ainda, desde quando ele ousava a falar comigo desta forma?

- Como é?

Ele suspirou, voltando aos mesmos olhos de cachorro abandonado de costumava ter e seus ombros se relaxaram, Lee deu mais uma mordida na maçã e por um tempo pareceu analisar seu gosto.

- Desculpe.- Ele pareceu sincero.- Mas eu realmente não tenho mais ninguém para falar sobre...

Xiii, la vinha pepino!

- Fale, Leander...- Desviei a atenção dele por um instante para o salão, vivia em alerta caso Carter desse as bandas por ai.

- Bom eu estou com quatorze anos e...- Ele desviava os olhos para o teto enfeitiçado vez ou outra, como buscasse as palavras que melhor se encaixariam, mas aquilo tudo na verdade começava a me entediar, qual seria o drama desta vez?-...e...como jogador de Quadribol e tudo mais...- Eunãoacreditavaqueeletinhavindoatémimprasegabare...-...bom as meninas me procuram...- Putamerda!Euaquimepreocupandoemcomomelivrariadasentençaquehaviaassinadoparamimporcausadeleeelepreocupadocomabostadopintinhodele.-...ok, a verdade é que soube por boatos que Lorena Hervereaux quer me seqüestrar na arquibancada depois do treino de quinta feira...

- Leander, coma ela e não me encha o saco!- Me levantei sem paciência, batendo os pés e deixando o salão principal.

- Mas não era isso...- Ouvi ele falar as minhas costas mas não dei atenção, continuei andando até que estivesse bem longe daquele salão.

Decidi que o melhor a fazer seria ir para a biblioteca, não para estudar, claro, mas para ter um pouco de paz e...

- Heather!- A voz meiga e infantil de minha irmã me fez desviar os olhos.

- Fala, Loe?- Disse impaciente. Parei de andar esperando que ela me alcançasse.

- Preciso te contar uma coisa...na verdade é uma meeeeeeeega coisa!- Ela disse empolgada vindo em pulinhos irritantes e me abraçando pelo pescoço.

Tossi forçadamente, obrigando-a a me soltar.

- Vai me matar assim!- Resmunguei.

- Tudo bem, eu solto, mas tem que me ouvir...- Ela insistiu, com as bochechas pálidas mais coradas que o normal.

- Não quero saber. – Revidei sem simpatia.

- Deixa eu contar, por favor, por favor!- Voltei a andar, e ela continuou a andar do meu lado insistindo.

Não respondi, mas mesmo assim ela contou.

- Lembra aquele sonserino? O que eu disse que trocamos olhares no Lago uma vez?- Um sorriso idiota de orelha a orelha apareceu no rosto da minha irmã. Eu não acreditava no que estava vendo, ou pior ouvindo.

- O que tem?- Já que ela havia começado, que terminasse logo de falar antes que eu chegasse na biblioteca.

- Bom eu havia ido para o Jardim né...e estava toda triste...- Eu não acreditava que ela ia começar com toda a história. Qual era o problema das pessoas em resumir a história? Em contar a parte que interessava e pronto.-...bom...e ai eu ouvi uma voz as minhas costas, e passos de alguém correndo, era ele, indo em minha direção.- Quanto bláblá.- E quando eu achei que ele ia me insultar, assim como Nora Watts e Kate Milthdon haviam feito e rir da minha cara, ele segurou minha mão e a beijou..bem aqui ó...- Ela estendeu as costas da mão na altura de meu nariz quase me deixando vesga.-..e disse que era pra eu não dar ouvido a elas, porque eu não era nenhuma das palavras horríveis que elas haviam falado...ele...ele...- Ela começou a suspirar, com os olhos esverdeados brilhando.

- Desembucha logo, Chloe!- Resmunguei, dando-lhe um tapinha nas costas.

- Bom...- Ela voltou a falar e eu revirei os olhos.-...ele disse que eu era a menina mais linda de Hogwarts na opinião dele, e que ele sempre me defenderia...e..e Heath...eu acho que estou...estou...- Ela começou a suspirar novamente, e antes que isso se tornasse monótono, eu a interrompi.

- Para de agir feito uma gaga idiota e ficar repetindo as palavras...- Ela se apressou a falar vendo que eu estava perdendo a paciência.

- ...acho que eu estou apaixonada.

Ok, agora eu achava que ia vomitar, bem ali na porta da biblioteca, que porra havia acontecido com meus irmãos hoje? Eu preocupada em ser presa, e eles sendo invadidos por hormônios inúteis...

- Heath...responda...responda...- Ouvi a voz de Chloe invadindo meu discurso mental.- O que eu faço, hein?...acho que vamos sentar juntos na ida para Hogsmead...com que roupa eu devo ir?...e meu cabelo? Como deve estar?- Ela começou a prender primeiro o lado esquerdo da franja, e então soltou, fazendo o mesmo com o esquerdo e depois prendendo tudo num coque, e eu comecei a ficar desesperada, angustiada, eu precisava me livrar de toda aquela ladainha de conversa, queria sair correndo dali, fugir.

- ARRRRRRRRRRRGH!- Senti que talvez tivesse exaltado um pouco demais porque Loe parou de falar no mesmo instante, assim como a bibliotecária que imediatamente fez sinal para que eu me calasse, ainda que eu estivesse apenas a porta do local.

Vi os olhos de Chloe se encherem de lágrimas, como se eu tivesse xingando-a dos piores nomes que Merlin criou. Uma bola de arrependimento se juntou em minha garganta porque aquele olhar eram os mesmos que eu costumava ver nos olhos de minha mãe depois dela e meu pai terem tido as longas e intermináveis discussões. Chloe saiu correndo corredor a dentro. Eu olhei para a biblioteca, e para o corredor por onde ela havia disparado, senti um aperto dentro do peito e corri atrás de minha irmã.

Devo ter dobrado uns três corredores a esquerda até finalmente encontrar uma porta que ela poderia ter entrado. O banheiro feminino, sem dúvidas, era lá que eu chutaria. Empurrei a pesada porta de madeira com dobradiças enferrujadas, e o barulho vindo lá de dentro era quase que impossível de não se reconhecer. Suspirei fundo, lá ia eu, ter novamente essas conversas com ela. Meus passos eram seguros, apesar de eu não me sentir como tal. Empurrei a única porta fechada, de onde vinha toda a sonoridade. O nó em minha garganta a esta altura parecia querer estourar minha traquéia, mas me mantive firme. Os cabelos loiros dourados e sempre tão chamativos de minha irmã pareciam muchos, grudados ao rosto dela e quase sem brilho, ela estava de costas, com a cara praticamente enfiada dentro da privada. Suspirei mais uma vez, e me abaixei, apoiando um dos meus joelhos no chão. Puxei os fios do cabelo dela juntando-os em um coque, e segurando-os. Eu era contra aquilo, já havia exposto minha opinião algumas vezes, mas naquele momento fui tomada por uma onda de piedade que só me fazia ter vontade de abraçá-la. Uma de minhas mãos escorregaram por seu ombro, aninhando-a.

- Chloe...eu...- Ia começar a me desculpar quando ela levantou a cabeça do vaso, o rosto ainda com resquícios de seu café da manhã, e me interrompeu.

- Vai embora!- Ela disse entre lágrimas soluçando.

- O que?...mas eu...

- Vai embora!- Ela gritou, chorando mais alto e me empurrando, obrigando-me a afastar.

Me levantei, e sem lutar contra a vontade dela, sai andando cabisbaixa. O que eu faria agora? Eu era uma assassina de treze anos que se quer podia confessar a alguém, porque havia tomado um passa fora dos dois irmãos no mesmo dia, as únicas pessoas que eu poderia confessar naquele momento. Na minha grade de horários ainda havia História da Magia, Herbologia e Poções, aulas que, principalmente a primeira, eu não fazia questão nenhuma de assistir e talvez reprovasse por falta.

Segui meu caminho para as masmorras, onde desejava estar em completa paz e tranqüilidade. Meus votos eram que eu não encontrasse mais ninguém lá de quem eu pudesse levar mais um fora. Assim que disse a palavra chave e adentrei a escuridão e o frio das masmorras fez com que eu me sentisse mais aconchegada, de certa forma eu me identificava, de fato aquele era o meu lugar. A lareira, em meio as confortáveis poltronas de couro, parecia queimar a madeira não tão recente, o que me fez perguntar se eu não estava sozinha ali. Olhei ao redor e logo minha pergunta foi respondida. Como eu desejava não ter ido para a Sala Comunal da Sonserina.

- Por que não está na aula?- A voz gélida e questionadora ecoou na sala. E eu rapidamente olhei ao redor, tendo a certeza de que não haveria mais ninguém ali.

- Estou aqui em paz...nem sabia que você estava aqui...- Confessei, me acomodando em uma das poltronas. Juntei meus pés para cima do couro da poltrona preta abraçando meus joelhos, enquanto meus olhos se fixaram na lareira.

Connor pareceu hesitar por um instante, entre continuar a provocar e ir até mim, até que decidiu pela segunda opção, talvez pelo meu rosto abatido e pela maneira com que eu não revidei a sua indelicadeza.

Levantei meus olhos apenas encarando-o, como se questionasse do porque que ele estava se aproximando.

- O que foi? – Ele perguntou, quebrando a conversa de olhares.

- Nada...- Virei meu rosto, voltando a ver a lareira.

Ele se encostou no braço da poltrona, e por um instante senti o corpo dele encostar em meu braço que ali estava apoiado, e tive a saudade de seus abraços calorosos e reconfortantes, era exatamente um destes que eu precisava agora.

- Então eu quero saber o que é este nada...- Ele insistiu, e eu me senti obrigada a buscar o olhar dele.

- Eu só quero fugir de tudo...- Confessei, cansada.

- Isso é código pra "me dê um baseado"?- Ele tentou me fazer rir.

- Não iria recusar se você me arrumasse um...mas...mas...eu ...- Pensei duas vezes antes de confessar, mas os olhos de Connor simplesmente me traziam paz.-..eu fiz merda, Connor...- Mordi meu lábio inferior, insegura.

Senti um de seus braços passar por trás de minhas costas, me confortando, e encostei a cabeça contra seu corpo.

- Eu agüento, juro!- Ele beijou minha testa.

- É muito sujo...- Relutei em contar.

- Eu gosto de porquinhas...- Ele disse em voz baixa próximo ao meu ouvido, e eu encarei aquilo como uma tentativa de me fazer rir, mas eu não consegui corresponder a piada dele e rir. Dei apenas um sorriso sem vontade e um tapa em seu joelho.

- É sério, Connor!

- Pode falar, é sério, Heather!

Engoli em seco.

- Liquidei Anthoni Martinelli. – Soltei sem pensar, antes que minha coragem sumisse.

Vi a expressão de Connor mudar imediatamente, um meio entre assustado, surpreso e incrédulo. Ele não disse nada, não falou uma palavra se quer, mas também não conseguiu se afastar de mim. Eu ia levar meu terceiro passa fora no dia, tinha certeza disto, abaixei minha cabeça quando lágrimas começaram a se acumular em meus olhos, mas diferente do que eu esperava, uma das mãos de Connor apertaram uma das minhas por cima, e no que eu levantei meus olhos para vê-lo novamente, ele me abraçou, com aquele abraço que eu tanto sentira falta, de forma protetora e que parecia que não soltaria tão cedo.

- Eu estou aqui, e sempre vou estar, Heath!- Ele beijou mais uma vez minha testa, afastando por um instante nossos rostos para me encarar, com o polegar, limpou os vestígios de minhas lágrimas e sussurrou.- E eu fui seu cúmplice em tudo!- Ele piscou, com aquele jeito que ele tinha de fazer tudo parecer mais simples, e por um instante eu acreditei que tudo tinha realmente ficado mais simples.