Capítulo 26 – Solitário.
-Precisamos voltar. –Rin disse enquanto vestia novamente o vestido curto colorido que eu havia despido momentos antes.
Eu não a respondi de imediato. Fiquei ali deitado no chão a vendo se vestir com cuidado e ao mesmo tempo urgência. A maneira que se movia e que ajeitava os cabelos desgrenhados proveniente da nossa luxúria arraigada do mais profundo desejo era fascinante.
Como era difícil viver sem ela. Já não era mais capaz de me acostumar.
-Você não vem? –ela indagou confusa me olhando inerte a contemplando em silêncio em meio a luz baixa.
-Vou, mas não ficarei naquela casa. Já reservei um hotel. –falei em decisão plena.
-Hotel? –Rin arqueou as sobrancelhas surpresa e ao mesmo tempo descontente com aquela notícia. –Achei que ficaria comigo. Até levou as malas para lá.
-Só porque queria muito lhe encontrar. Mas não posso ficar naquele ambiente.
-Por causa de Kohaku? É por isso? –ela cruzou os braços incrédula e balançou a cabeça em negativa como uma forma de espantar aquelas minhas palavras. –Kohaku nunca iria se incomodar se ficasse. Ele sabe o quanto eu o amo, o quanto é importante para mim.
-Rin, acordar e olhar para a cara daquele sujeito é o que menos desejo. Você sabe muito bem disso.
-Kohaku jamais faria qualquer coisa para nos prejudicar. –ela rebateu com uma voz aborrecida, e um pouco da sua alegria e energia de antes acabaram esvaindo.
-Não tenho medo do que ele possa vir a fazer ou dizer, não tem nada a ver com isso. Kohaku teria que nascer pelo menos três vezes para tentar me enfrentar. –disse secamente erguendo o corpo do chão duro e frio. –Eu só não quero respirar o mesmo ar que Kohaku e muito menos abrigar-me na casa dele. Quando que eu, Sesshoumaru, iria aceitar uma coisa como essa?
-Está bem. –ela suspirou entristecida colocando o cabelo atrás da orelha. –Eu só queria que se acertassem... Kohaku está até mesmo saindo com uma mulher e...
-Rin, não abuse da minha inteligência. –eu disse de maneira dura. –Sabe tão bem quanto eu que Kohaku não desistiu de você. Não é tão difícil de enxergar isso.
-Kohaku só está confuso, ele gosta de Maria, mas...
-Podemos, por favor, não falar sobre isso? –eu a interrompi novamente levantando a minha mão direita a intimidando a parar. –Toda vez que penso nessa situação meu sangue ferve.
-Tudo bem, tudo bem. –ela respirou profundamente colocando as mãos nos quadris. –Onde você vai ficar então?
-No mesmo hotel de sempre. –disse enquanto abotoava a camisa lentamente ajustando-a em meu corpo com cuidado, apesar de estar amassada tentei dar um jeito para não parecer tão desleixado. Deixei alguns botões para abotoar depois e concentrei-me a dobrar a camisa até os cotovelos. Peguei a calça no chão e a vesti com mais rapidez, colocando o excesso da blusa para dentro.
Rin ficou ali me observando, talvez com o mesmo encantamento que eu estava anteriormente reparando em todos os seus mínimos detalhes. Ela sorriu quando eu a olhei antes de voltar a abotoar o restante da camisa.
-O quê foi? –indaguei pegando a gravata azul no chão.
-Nada. –ela balançou a cabeça em negativa dando uma risadinha baixa. Tomou a gravata gentilmente da minha mão e pôs-se a colocá-la em mim com aqueles olhos rebeldes. –Só estou te olhando. Vendo o quanto você é sensual e o quanto tenho sorte.
-Hum! –arquei uma única sobrancelha em discordância. –Talvez eu tenha sido no passado. Agora eu pareço só uma sombra de mim mesmo.
-Está brincando! –ela sorriu dando algumas voltas precisas na gravata. –Sabe muito bem como as mulheres te olham...
-Eu não as vejo mais. –disse firmemente segurando com delicadeza nas mãos de Rin a obrigando a parar e a me encarar novamente. –Só você importa.
Ela sorriu com o rosto um pouco corado. Ainda encabulada pela intensidade e veracidade na minha voz, voltou a atear a gravata que ficou perfeita pendendo por sobre a blusa. Virou-se de imediato para pegar no chão o meu terno que estava atrás do seu corpo e me entregou sem delongas. Eu não o vesti, preferi jogar por sobre o ombro, afinal jazia pouca classe em mim naqueles instantes.
-Então vamos! –ela disse me dando um leve tapinha no ombro.
Rin bem que tentou se adiantar, passar na minha frente em corrida urgente, mas eu a interceptei. Segurei em seu pulso e a puxei novamente para um beijo. Um beijo demorado e mais intenso do que eu havia planejado. Mas com ela era tudo assim: exagerado. Saborosamente exagerado.
-Eu a amo. –disse encostando minha testa na dela. E falei sem pestanejar. Saiu dos meus lábios com tanta força que seria incapaz de reprimir. Meu arfar debruçava-se sobre as bochechas rosadas dela. E podia sentir a mesma respiração pesada dela por sob o meu corpo.
-Eu também te amo. –ela respondeu sorrindo colocando as mãos em meu rosto o acariciando gentilmente. –Fique ao menos essa noite comigo. Por favor.
-... Está bem. –eu não conseguia lhe negar. Como que ela conseguia fazer isso? –Mas irei pela manhã.
-Combinado. –ela sorriu novamente antes de colar seus lábios com os meus.
...
Voltamos então para a casa de Kohaku...
E no meio do caminho eu já havia me arrependido. Cinco minutos andando já havia sido o suficiente para que eu reconsiderasse. Mas eu não podia mais dizer que não o faria, tinha dado minha palavra a ela. Amaldiçoei-me incessantemente por aquela decisão tão estúpida. Contudo, o que estava feito, estava feito. E eu, naqueles instantes teria que lidar com a presença de Kohaku. E aceitar o fato de que estava de favor na sua casa naquela noite. Isso tudo porque fui incapaz de dizer não a mais um capricho dela.
Patético... pensei comigo.
Mas quando chegamos, tive uma surpresa inesperada. Kohaku não estava mais na casa. Tinha deixado uma mensagem para Rin com a babá de Katsuo dizendo que havia saído e que não era para esperá-lo para o jantar. Pedia desculpas pela indelicadeza no final das contas. Um sorriso involuntário nasceu no canto dos meus lábios.
-Mas ele saiu sozinho? –Rin insistiu com os braços cruzados, o cenho cerrado tentando buscar sentido naquela atitude que para mim não era nenhum pouco atípica vinda de um adulto.
-Eu não sei, senhora Watanabe. –a babá pareceu um pouco sem jeito e talvez com um tanto de pressa para ir embora. De certo já havia dado o seu horário de partir, mas Rin a seguraria por mais um tempo.
-Disse que iria se encontrar com alguém específico? –Rin levou a mão ao queixo como se estivesse mergulhando em algum mistério importante.
-Eu realmente não sei dizer. –a babá deu um sorriso amarelo sem graça, apertou a alça da bolsa de maneira apreensiva. Ou ela estava louca para ir embora ou então não queria se envolver naquela história. Ou ambos...
-Não acha que está se preocupando demais? –interceptei aquela conversa bizarra que sabia que não daria em nada. E eu podia jurar que vira a babá suspirar de alívio. –Kohaku é um homem adulto, não?
-É só que... –Rin fitou-me ainda com os olhos preocupados, mas logo balançou a cabeça em negativa como quem quer afastar pensamentos importunos da cabeça. –Está bem. Pode ir Alexia.
-Obrigada, senhora Watanabe.
A babá sorriu satisfeita, e com passos apressados saiu do apartamento fechando a porta com leveza atrás de si.
-Não sabia que Kohaku era o seu prisioneiro. –eu disse em ironia amarga colocando as mãos no bolso fundo da calça.
-Não é isso... É que Kohaku não costuma sair sem avisar e muito menos sozinho. –Rin estreitou os olhos, olhando-me de maneira desconfiada e persuasiva. –Aconteceu alguma coisa entre vocês?
-Não. –respondi secamente.
-Bem, então jantaremos sozinhos esta noite.
-Agora que tocou no assunto, acabei de me lembrar. –falei sentando-me no sofá macio da sala que me abraçou confortavelmente. –Joshua nos convidou para um jantar no Sábado. Eu disse que iríamos.
-Está mesmo preparado para me apresentar a sociedade aristocrata como sua companheira? –ela sorriu de maneira debochada, arqueando as sobrancelhas como uma criança. –Estou me sentindo realmente honrada.
Companheira... Aquela palavra não pareceu certa. Não queria que ela se rotulasse daquele nome tão vulgar.
-Não seja tão irritante.
-Desculpe, eu não pude evitar. –ela riu brevemente e continuou com a ironia que lhe cabia. –Estou extremamente ansiosa para vê-lo dialogar como um homem de Wall Street e se tiver sorte falar sobre as mais inúmeras futilidades com a mulher de seu sócio.
-Faria isso por mim. –disse cruzando os braços de maneira convencida.
-Terrivelmente sim. –ela sorriu colocando o antebraço na testa de maneira teatral fingindo depressão. Mas logo se sentou em meu colo com delicadeza. Ajudei-a com o movimento passando a mão pela sua cintura a deixando em segurança. Nossos rostos ficaram da mesma altura e pude sentir com perfeição sua respiração antes dela finalmente colar, de maneira doce, seus lábios com os meus.
...
Depois do jantar nos enfiamos no quarto, e Katsuo pareceu extremamente colaborador aquela noite, pois só acordou por volta das dez para se alimentar do puro néctar que brotava dos seios fartos da mãe. Depois de deleitar-se entrou na inconsciência e assim permaneceria até o sol raiar. Era como se os deuses estivessem nos dando um momento só nosso.
Rin entrou no quarto no mesmo momento em que eu saía do banheiro de sua suíte após um banho quente. A toalha enrolada na cintura protegia uma parte da minha nudez e a outra na mão esfregava com urgência nos meus cabelos molhados.
-Coloquei Katsuo no berço. Está dormindo. –ela sorriu e prosseguiu com uma voz divertida ao ver-me naqueles trajes. –Podia ter me esperado para o banho. Seria bem mais interessante.
-Não duvido disso. –sorri juntamente a ela. –Mas achei que preferiria descansar.
-Você tem razão. –ela suspirou passando a mão pelos cabelos brilhosos. –Estou mesmo cansada. Os dias têm passado tão rapidamente. Mesmo com a Alexia me ajudando, Katsuo toma quase todo o meu tempo. Tem também as seções de Kohaku, o trabalho da empresa, a planta da casa que ainda não terminei...
-... Eu não devia ter proposto que cuidasse agora do apartamento. Foi insensato da minha parte. Posso pedir para algum profissional cuidar disso. –disse condolente por ela. Arrependido de ter dado a Rin aquela incumbência.
-Não! De jeito nenhum! –ela me interceptou com urgência balançando as palmas das mãos numa maneira de hesitar meu discurso. –Eu realmente quero cuidar disso. Do nosso apartamento. Já vislumbrei tanta coisa. E há pouco o que mudar na estrutura.
-Não quero sobrecarregá-la.
-Eu realmente estou muito empolgada com isso. –ela sorriu contente, cerrou o punho direito com convicção como quem ganha uma batalha. –Confia em mim. Em pouco tempo poderemos nos mudar e aí vai ficar enjoado de tanto que vai olhar para a minha cara. –ela riu brevemente. –Acha mesmo que está preparado para isso? Para dividir o mesmo teto que eu e um bebê?
-Sabe que sim. –cerrei o cenho. –Por que faria tudo isso?
-Não sente medo que as coisas mudem? –ela se aproximou mais de mim, com os olhos recheados de expectativa, apertados, ansiando por alguma resposta.
-O que eu mais quero é que elas mudem.
Rin sorriu com emoção depois de ouvir as minhas palavras. Esfregou os olhos como para impedir um sentimentalismo que há pouco tempo havia a dominado de maneira tão feroz.
-Desculpe... Só estava...
-Pensando tolices.
-É... –ela sorriu sem jeito. –Tem razão.
...
-Kohaku não dormiu em casa... –Rin disse com o rosto aflito enquanto levava a xícara de café aos lábios polpudos, assoprando vez ou outra o líquido negro fumegante. Uma fumaça branca escapou do recipiente, bailando por entre o ar, alinhando-se de maneira misteriosa em sua tez sisuda.
Era de manhã. Bem cedo. Estávamos sentados somente nós a mesa que havia sido preparada por um dos empregados da casa. Eu já estava preparado para partir assim que terminasse a minha xícara de chá e de comer a éclair de creme que Rin implorou para que eu experimentasse.
-Há algo de sério nisso? –fingi desdém, ainda que meu tom tivesse saído de maneira desaprovadora, odiava vê-la assombrada com aquela preocupação iminente. Peguei o bule de chá e derramei cuidadosamente sobre a minha xícara preenchendo quase que completamente.
-Kohaku nunca dormiu fora de casa desde que nos mudamos para cá... Mandei uma mensagem para ele, mas parece que o celular está desligado. Estou preocupada, e se algo o aconteceu? –ela disse em terror, mordendo os lábios inferiores.
-O que teria acontecido? –girei os olhos de maneira irônica. –Não foi você mesma quem disse que ele estava saindo com uma mulher?
-Mas ele está mesmo! –ela rebateu ranzinza. –E se ele estiver com Maria será ótimo. Mas não sei se poderia mandar uma mensagem para ela, pois...
-Seria obviamente inapropriado. –eu a interceptei seguramente. Tomei um gole do chá que estava amargo na medida perfeita.
-Sim... –ela suspirou repousando a xícara quente sobre a mesa dando-se por vencida. –Porque se ele não estiver com ela posso acabar causando um mal estar entre os dois, e se ele estiver seria inconveniente da minha parte...
-Deixe-o em paz. Eu não teria tanta sorte assim dele desaparecer.
Rin balançou a cabeça em negativa engolindo a seco aquelas minhas últimas palavras tão rudes.
...
A verdade era que eu não era capaz de suportar aquela relação que Rin nutria de maneira tão intensa com Kohaku. Não era só ciúme.
Era muito mais...
Era inveja.
Kohaku havia roubado uma parte de Rin que eu jamais conheceria. A Rin menina, a adolescente descabelada que certa vez vi numa filmagem, correndo pelas ruas da Europa mostrando em qualquer canto um detalhe renascentista, vitoriano que tanto amava. Gritando conhecimento, arte, inteligência e quem sabe ingenuidade ao Novo Mundo de maneira despretensiosa.
Quantos anos Kohaku não estava a minha frente?
E mesmo no presente, ainda tinha uma parte dela que nunca seria minha...
E por mais que tentasse, por mais que lutasse contra isso, não seria capaz de vencer. De fazer parte daquilo. Eu não tinha espaço naquele lugar. Não me encaixava e nem me encaixaria.
...
Por fim, escutamos um barulho conhecido. Sem dúvidas era a cadeira de rodas motorizada de Kohaku que parecia estalar mais alto do que o costume. Ouviu-se um rompante por um segundo, como se ele estivesse esbarrado e derrubado alguma coisa. Rin levantou-se no mesmo momento da mesa, mas não precisou ir ao seu encontro, pois em segundos seu rosto apontou por entre a quina da pilastra e ela pode finalmente respirar aliviada por vê-lo vivo.
-Kohaku!
-Bom dia... –ele resmungou com uma voz embargada com os olhos semicerrados como quem sente dor. Apertou a ponte do nariz e eu pude ter certeza. Aquilo só podia ser ressaca...
-Você bebeu? –ela franziu o cenho um pouco surpresa ao notar o odor de álcool que emanava dele.
Kohaku sorriu dando de ombros.
-Não me diga que ainda está bêbado? Estava com Maria?
-Céus, você está parecendo a santa inquisição. –ele riu de maneira irônica, nitidamente embriagado. –Eu realmente preciso dormir antes de correr o risco de ir para a fogueira...
Kohaku nos ignorou completamente. Moveu o controle da sua cadeira de rodas de modo atrapalhado e por pouco não se chocou com violência contra a parede. Logo desapareceu das nossas vistas e ao longe pudemos ouvir o barulho da porta do seu quarto se fechando.
-Vai continuar aí parada? –indaguei um pouco irritado pela inércia de Rin. Por vê-la tão atônita, de pé, fitando o vazio que Kohaku havia deixado.
Ela virou-se para mim de imediato. Sentou-se novamente à mesa e voltou a tomar o seu café com os olhos embaralhados de algum pensamento da qual não tive interesse em perguntar. Sabia bem dos seus devaneios. Não precisava os compartilhar.
Meu celular vibrou forte em cima da mesa quebrando enfim o silêncio que havia sido instaurado entre nós. Peguei o aparelho calmamente já imaginando que poderia ser Joshua ansioso para algum encontro que nos consumiria horas afinco de debates e reuniões. Ele estava tão animado nos dias atuais que era difícil reprimi-lo. Não o culpava por isso, pois sabia muito bem a quantidade de dinheiro que poderíamos ampliar. E construir impérios era o meu forte.
Mas, na tela do celular, não havia o nome de Joshua brilhando como eu imaginava e nem de qualquer outro familiar. Um número desconhecido mandara em sequência várias mensagens em meu aparelho.
Franzi o cenho e não hesitei em abri-las. As imagens que se sucederam fizeram meu coração parar por alguns segundos.
-O que aconteceu? –Rin indagou surpresa ao notar a minha expressão de incredulidade.
Eu não a respondi de imediato. Fiquei a analisar aquelas fotos de maneira estúpida. Ainda havia coisas naquele mundo capazes de me surpreender, apesar dos pesares.
-Sesshoumaru? –Rin insistiu deixando novamente de lado a sua xícara de café que aquela altura já não deveria estar mais saborosa.
-Veja por você mesma.
Enfim virei o visor e mostrei a ela o conteúdo tão peculiar. Nos primeiros segundos Rin pareceu não entender do que se tratava, mas quando se deu conta por pouco não pulou da cadeira com o tamanho susto. Uma reação plausível, pois se eu não fosse tão contido quem sabe não teria feito o mesmo.
As imagens revelavam uma ultrassonografia. E pelo teor e linguagem das mensagens em seguida só poderia ser Kagura a remetente de tamanha novidade. Depois de meses sem notícias ela resolveu aparecer e foi da maneira que mais gostava: impactante.
Não era apenas uma criança que ela esperava, mas sim, duas.
Eu seria pai de gêmeos.
-Isso é verdade? –ela gaguejou apontando para a tela do meu celular.
-Creio que sim.
-Deus... –ela suspirou atônita dando a milésima olhada naquelas imagens. E me encarou confusa com a tez franzida com um semblante desgostoso visível. –Parabéns? Eu deveria falar isso?
Cruzei os braços balançando suavemente a cabeça em negativa. Rin repousou o celular de volta a mesa, e as mensagens de Kagura voltaram a preencher a minha visão.
São dois meninos.
Se interessa saber serão Koji e Yasuhiko... Nos encontraremos brevemente.
Obs: O que eu não daria novamente para ver a cara dessa sua amantezinha barata que sempre acha que está por cima com esse nariz em pé. Espero calorosamente que tenham assistido a isso juntos, seus canalhas!
-Parece que alguém ainda está muito irritada... –Rin disse sem vontade, com os olhos longes do meu alcance, brincando com o recipiente de açúcar dando voltas com a colher pequenina sem qualquer objetivo, criando redemoinhos aleatórios em várias direções. –Não vai responder a ela?
-Não. –disse categoricamente terminando finalmente o meu chá e deixando de lado a metade da éclair refinada.
-Acho que deveria falar com ela... –Rin suspirou parando de agitar o açúcar em baixo de suas mãos.
-Ela não vai me atender. –falei com convicção encarando Rin que não teve escapatória a não ser retribuir. –E como ela mesma disse nos encontraremos em breve.
-Entendo... –ela ajeitou-se na cadeira de maneira desconfortável. –Está feliz com essa notícia?
-Eu realmente não sei o que responder. –cerrei o cenho ainda transtornado.
-Tenho certeza que irá ficar muito feliz quando os vir nascer. –ela forçou um sorriso descontraído. Um sorriso amarelo sem vontade. –Tão feliz como quando viu Katsuo.
...
Não sabia se Rin tinha razão sobre aquilo. Resolvi ficar em silêncio, pois via em seus olhos o quanto estava despedaçada e aflita com aquela notícia tão arrebatadora. Mal havia acostumado com o fato de ser pai de Katsuo, teria que assumir mais outra responsabilidade. No caso, mais duas...
Para quem nunca pensou que seria pai, que jamais construiria nada mais do que paredes sólidas e dinheiro virtual, estava com uma horda e tanto de herdeiros. Imaginava o quão dura seria a batalha quando finalmente deixasse aquele mundo profano.
Tinha a mais das absolutas certezas que Kagura faria de tudo para sugar até a última gota da minha alma e que ensinaria os pequenos com ardor a seguir seu ponto de vista. Ela nos infernizaria para sempre. Os gêmeos teriam a maior parte de tudo, o que de fato, em sua mente insana, com certeza tratava-se de uma vitória sobre Rin.
Imagens do inferno pareciam mais atraentes do que a minha vida se tornaria dali para frente com aquelas duas mulheres de gênios tão opostos e com três crianças em meu calcanhar.
...
-Eu preciso ir agora. –disse tentando afastar aquela aterrorizante imagem de guerra da minha mente.
-Sim. –ela assentiu ainda desanimada. –Eu pedi para o motorista levar as suas coisas ao hotel.
-Ótimo. –levantei-me da mesa com calma e quase já ia me esquecendo de dizer-lhe. –Eu queria que jantasse comigo essa noite. Há algo que quero que saiba.
-Por favor, não diga que é outra criança. –ela disse de maneira teatral levando a mão direita ao peito em deboche malcriado.
Ergui a sobrancelha em desaprovação. Como ela conseguia fazer piada de tudo?
-Estou brincando... –ela disse voltando à compostura de antes e arranhou a garganta um pouco sem jeito pelo meu semblante rígido. –Mas o que é de tão sério?
-Fique pronta às oito e saberá. Irei buscá-la.
-Tudo bem. –ela deu de ombros. –Mas não posso demorar muito por causa de Katsuo. Sabe como fico quando não estou com ele por perto...
-Será só um jantar.
-Está certo. Estarei preparada para ir às oito em ponto. –ela assentiu comprometida.
...
Já fazia tempo que aquele pensamento me ocorria.
Desde que ouvira a palavra companheira relacionando-se a Rin sentia-me num impasse da qual precisava resolver o quanto antes.
A nomenclatura incomodava-me constantemente. E quando li a mensagem de Kagura a chamando vulgarmente de amante tive a certeza de que precisava arrumar aquela situação o quanto antes.
Precisava fazer da maneira certa de uma vez por todas.
Pediria Rin em casamento.
E se ela aceitasse, o que eu esperava que fizesse, finalmente seria minha.
Minha noiva. Minha mulher.
...
Com um anel roubado de Rin em meu bolso a fim de identificar o tamanho exato de seu dedo, rodei as mais diversas joalherias daquela cidade tentando encontrar algo que fosse o estilo dela. Mas olhando entre um anel e outro, tudo parecia tão igual, monótono. Tive vontade de bocejar ao ver aquelas jóias tão excêntricas. Os diamantes cintilavam como um caleidoscópio berrante. Podia ver a cara dela desconcertada ao receber algo tão chamativo como aquilo.
Não... Aqueles não eram anéis feitos para o dedo dela. Ela era mais bucólica, clássica, reservada. Diferente de Kagura que ostentava o seu anel com o rubi mais extravagante que eu vira na loja, o de Rin teria que ter uma linguagem mais do que diferente.
E foi então que descobri, na última loja em que entrei, num canto isolado, longe de todos os holofotes e assédios, um Solitário descansando sobre a mobília, de maneira quase cabalística. Aproximei-me de soslaio e não tive dúvidas. O anel fino de ouro branco com detalhes singelos ao redor do diamante comedido trabalhado com esmero era mais do que perfeito.
-Eu quero esse. –disse a vendedora com decisão.
...
Cheguei às oito em ponto na frente da casa de Kohaku. Telefonei para que descesse, mas Rin parecia não estar pronta para partir. Vi a metade de seu corpo na janela do quarto. Ela estava com um rosto agitado, deu um breve aceno para mim, fazendo um gesto com a mão para que eu esperasse. Logo juntou as mãos à cima da cabeça como quem pede desculpas e desapareceu da minha vista por pelo menos vinte minutos.
Recostei as costas no banco do carro. O motorista a minha frente também pareceu cansar. Abriu um folheto despretensiosamente e pôs-se a ler no silêncio que mantínhamos desde o início do caminho. O barulho do ar condicionado e do motor ligado eram nossas únicas companhias. Do lado de fora São Francisco parecia mais agitada do que nunca. E os segundos pareceram horas. Vendo os pedestres indo e vindo tive uma sensação claustrofóbica.
Pensei em ligar novamente quando percebi que o motorista olhou o relógio no pulso de maneira discreta e bocejou contido. Já fazia meia hora que a esperávamos. Mas não foi necessário, pois Rin irrompeu o portão e numa pequena corrida bateu no vidro do carro que prontamente foi aberta pelo chofer. Ouvi a sua respiração aliviada, e não fui capaz de repreendê-lo. Eu também odiava esperar.
-Desculpe! –Rin foi dizendo enquanto entrava no carro se acomodando apressadamente. –Eu juro que estava pronta na hora, mas Katsuo acabou... er... me sujando, se assim posso dizer. Então tive que trocar de roupa, mas não achava minhas coisas e...
-O que importa é que está aqui. –a interceptei calmamente e ela pareceu surpresa por não me ver irritado. Ficou com os olhos arregalados me fitando, mas logo assentiu relaxando.
-Certo...
A viagem com o carro foi curta e estranhamente silenciosa. Rin estava presa ao seu celular, mandando mensagens em cima de mensagens para a babá que vez ou outra demorava a respondê-la, e quando isso acontecia, ela ensaiava a ligar, mas interceptava-se, pois sabia que estava exagerando e que Katsuo estava bem e tampouco sentiria saudades nesse espaço temporal ridículo.
-Acho que estou sufocando a Alexia... –ela disse dando um suspiro longo deixando finalmente o celular de lado.
Em vinte e cinco minutos estávamos em nosso destino. Descemos do carro e só então que pude contemplá-la.
Rin estava com uma maquiagem singela que realçava seus olhos graciosos. Usava uma blusa de manga cumprida cor-de-rosa com detalhes rendados ao final e uma saia alta justa preta que amarrava na cintura e ia um pouco depois dos joelhos. Um salto que não era tão alto completava o seu visual.
Olhando-a vestida daquele jeito imergi no tempo, vislumbrei um passado, que embora não tão distante, já não existia mais. Ela estava linda como sempre. Perfeita em cada detalhe, em cada minucioso centímetro do seu ser.
E não deu tempo de dizer, porque Rin puxou minha mão segundos depois de abandonarmos o veículo e me conduziu para dentro do estabelecimento como uma criança animada. Eu sabia o quanto ela amava aquele lugar.
Sentamo-nos na mesa reservada, as luzes baixas juntamente com a decoração predominante em tom caramelo parecia agradar sensivelmente aos olhos da minha amada que sorria contente. Era como se ela estivesse entrando naquele lugar pela primeira vez. Completamente encantada, analisava a mobília bem escolhida, os lustres baixos e os espelhos espalhados que nos mergulhava numa sensação ampla de profundidade.
Rin analisou analiticamente o cardápio de couro negro, e fez o pedido em poucos instantes assim como eu. Pediu também um vinho branco e eu, o meu inseparável Whisky.
-Comecei hoje a arrumação do apartamento. –ela iniciou mais uma vez a conversa levando a taça de vinho à boca de modo elegante. –Alguns móveis vão chegar ao final da semana e acho que temos que trocar aquele papel de parede do quarto que será de Katsuo. Achei tão sério, queria algo mais descontraído...
-Faça da maneira que achar conveniente. –eu lhe disse seguramente. –Creio que aprecia mais essas coisas do que eu.
-Não há dúvidas disso. –ela riu de maneira contida. Repousou a taça na mesa e voltou os olhos para mim. Um fio de curiosidade abalava sua íris e ela não seria capaz de se conter por mais nenhum segundo. –Mas, por que me trouxe aqui? O que tinha de importante para dizer? É algo relacionado aos seus negócios? A alguma mudança?
-De certa forma, sim. –tomei um gole do whisky que daquela vez queimou a garganta em expectativa atroz. A caixinha do anel pesava uma tonelada em meu bolso. Enfiei a mão no esconderijo perfeito e senti o toque aveludado do recipiente a qual resguardava o Solitário.
-O que é então?
Puxei finalmente a caixinha do bolso, mas não a mostrei de imediato. Hesitante, irritei-me comigo mesmo por estar tão desconcertado.
-Eu não sei se existe uma maneira certa de fazer isso, e você mais do que ninguém sabe o quanto não sou uma pessoa de sensibilidade.
Ela arqueou uma única sobrancelha, ainda não entendendo onde eu queria chegar. Notei que estava ficando aflita e desconfortável. E então não pude esperar mais. Abri a pequena caixa ainda fora de suas vistas e a coloquei à mesa revelando finalmente o Solitário que brilhava discretamente por sobre a cama macia de veludo negro.
Atônita, Rin foi do anel para mim pelo menos três vezes freneticamente. Moveu seus lábios, mas nenhum som ousou a sair.
-Quero que se case comigo. –disse de uma vez só, fitando-a de maneira intensa ansiando por uma resposta de uma pergunta que não fora feita.
Rin ficou imóvel durante duros segundos. Talvez em choque por um pedido tão inesperado. Levou as mãos à boca e pude ver seus olhos se abarrotarem de lágrimas cristalinas. Marejados, cerrou-os com força no mesmo instante em que balançou a cabeça afirmativamente.
-Sim, sim, sim! –ela finalmente conseguiu dizer contendo as lágrimas e a voz embargada de emoção. –Claro que sim!
Puxei sua mão com delicadeza e pus o Solitário com satisfação em seu dedo anelar que encaixou perfeitamente. Como se tivesse sido feito exatamente para ela. Acabei sorrindo involuntariamente.
-Eu a amo, verdadeiramente. –disse como se precisasse preencher o momento. Ou quem sabe para ouvir a reciprocidade que não demorou a ser dita.
-Eu também. Também te amo, Taishou Sesshoumaru.
Rin sorriu por entre os olhos úmidos e o nariz avermelhado. Apertou a minha mão e me deu um beijo nos lábios. Um beijo cheio de emoção que só não durou o tempo necessário porque palmas estridentes dominaram o ambiente nos tirando do transe, nos lembrando que havia outras pessoas no mesmo lugar que nós. E que assistiram toda a cena sem que eu percebesse e tampouco alardeasse para aquele fim.
Odiava aqueles espetáculos em público, mas daquela vez, só daquela vez, olhando para a mulher a minha frente que ria contente, fitando o anel em seu dedo, relaxei por completo. E desejei ardentemente nunca mais sair do seu lado.
...
CONTINUA...
